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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

QUE HORAS ELA  VAI CHEGAR?



O filme se baseia numa história comum em nosso cotidiano. Uma empregada doméstica numa residência burguesa, que deixou a filha em Pernambuco aos cuidados de uma irmã. Mas a filha fica moça e resolve prestar vestibular para ingressar na USP.
Estaria tudo certo se a empregada doméstica tivesse a sua própria casa para receber a filha. Mas não. Ela mora no emprego desde que chegou do Nordeste ajudando a criar o filho do casal, pois a mãe trabalha fora e o pai, um rico burguês que recebeu uma herança, não faz absolutamente nada, tampouco cuidar do filho.
A dona da casa concorda que a filha da empregada venha morar em sua casa por um tempo suficiente para que ela se arranje. A partir daí as relações com a empregada começam a mudar. Antes ela era vista como uma pessoa da família, que ajudara a criar o filho do casal. Ela era ótima, pois não criava problemas e servia a família quase como um serviçal dos tempos coloniais.
Com a filha, avessa aos padrões de comportamento burguês, começa a quebrar as regras da casa, como comer o sorvete preferido do filho, sentar a mesa do café da manhã e entrar na piscina. Entrar na piscina foi demais para os patrões, que viram nisso uma invasão do seu espaço senhorial. A cena lembra um pouco a história vivida por uma cantora negra nos EUA que ousou entrar na piscina do clube de madrugada. No dia seguinte a piscina foi esvaziada e lavada, pois um ser considerado “inferior” ousou banhar-se no mesmo local dos seus sócios brancos.
Aos poucos a empregada que era tratada com todas as mesuras possíveis para uma empregada, principalmente, porque ela conhecia o “seu lugar”, começa a perceber as relações de classe, desencadeada com a presença da filha.  O lugar dela era da área de serviço para trás. Nos demais espaços da casa sua presença era permitida apenas para limpar ou servir.
O filme retrata do ponto de vista sociológico, o conflito de classe existente no cotidiano da vida familiar, não só das elites, mas também da classe média, cujos membros precisam trabalhar e dependem de alguém para cuidar da casa e dos filhos. A empregada se sente realmente da família, até o momento em que ultrapassa os limites estabelecidos pela família. A partir daí é convocada a se colocar no “seu lugar”.
Esse problema é mais comum do que se possa imaginar, pois após a empregada participar da vida familiar, funcionar muitas vezes como confidente, dando opiniões etc e tal, há o momento em que recebe uma bronca por um serviço mal feito ou por uma indiscrição. Nesse momento as relações de classe emergem como uma ruptura nas relações até então amigáveis. A partir daí se torna impossível à empregada continuar trabalhando na casa, pois se rompem as relações cordiais, que Sérgio Buarque de Holanda define, nas entrelinhas de “Raízes do Brasil”, como falsas, frutos  de interesses e relações de favores.
O filme, muito bem interpretado por Regina Casé merece ser visto, mesmo considerando que nem todo o elenco está à altura da protagonista. É também um filme divertido se não fosse também trágico.


CIGARRO DE PALHA


José, chefe de comitiva de boiadeiros, levava uma boiada para o Mato Grosso, quando deu uma parada para ver um boi que tinha se desgarrado. Foi aí que  apareceu o cavaleiro bem falante, que o abordou:

- O senhor teria fumo?

- Tenho, sim senhor, respondeu, oferecendo ao viajante.

- O senhor por acaso teria um canivete?

-Pois não, aqui está.

O homem picou o fumo caprichosamente, devolvendo o canivete e o tolete de fumo para José e mais uma vez perguntou:

- Não querendo abusar, o senhor teria palha?

- Tenho sim senhor, respondeu, entregando a palha ao homem.

Depois de enrolar o cigarro, o viajante ainda fez um novo pedido.

- O senhor me faria o obséquio de emprestar o fogo?

- Pode deixar que eu acendo, respondeu, pegando a binga e colocando o cigarro nos lábios.

Acesso o cigarro, José deu uma tragada e acenou para o viajante dizendo:

- Pode deixar que eu fumo pro senhor. E partiu a galope pela estrada se juntando aos demais da comitiva.


A POLÊMICA DA FEIJOADA


A feijoada é o prato da preferência nacional, não importa a classe social, a origem, a cor, a idade. Todos apreciam uma feijoada. Bem quase todos. Eu mesmo não sou um fã ardoroso do cozido de feijão com paio, linguiça, carne, toucinho, pé, joelho e outras partes do porco. Aliás, um suíno, parente do javali europeu que o nosso herói gaulês, Asterix e seu inseparável companheiro Obelix, preferiam assado na brasa.
Para harmonizar uma feijoada os brasileiros preferem a indispensável cerveja bem gelada, mas há controvérsias. Um amigo somelier prova, com bons argumentos, que o melhor acompanhamento para a feijoada, um prato de sabores fortes, é um bom Cabernet Sauvignon. A cerveja fermenta no estômago e deixa o comensal estufado, segundo ele. Mas há também aqueles que não dispensam uma caipirinha antes e durante a orgia gastronômica.
A origem da feijoada gera muita discussão. Meu querido amigo, o maestro Orlando Marcus Mancini, teimoso como ele só, diz que foram os escravos africanos que inventaram a feijoada durante os trezentos anos de escravidão, pois os senhores de engenho jogavam fora as partes menos nobres dos suínos abatidos e os escravos as recolhiam e despejavam em um caldeirão  com feijão.  Contra essa versão, a historiadora Mary Del Priori em seu belo livro Histórias da Gente Brasileira, diz que os senhores de engenho não gostavam de criar porcos porque ficavam muito selvagens. Gilberto Freyre, antropólogo e autor de Casa Grande e Senzala afirmava que os portugueses trouxeram o seu cozido de feijão com pedaços de carne de porco, paio, linguiça, pés etc e o adaptaram às condições dos trópicos. Logo se deduz que os senhores não deixavam nada para os escravos, que tinham que se contentar com a pouco nutritiva farinha de mandioca e algum calango ou outro bicho do mato que caçavam nas raras horas vagas.
Em verdade se comia muito mal no período colonial. Plantava-se muito pouco além da lucrativa cana de açúcar e, muitas vezes, faltava alimento para a subsistência dos próprios escravos. Em razão disso houve até um decreto de sua Majestade da metrópole portuguesa obrigando os fazendeiros a destinarem uma parte das terras e mão de obra para o plantio de alimentos para a subsistência , pois sem uma boa alimentação a produtividade dos engenhos caia, colocando em risco a economia colonial. Quem tinha dinheiro importava alimentos da metrópole, mas as condições de conservação eram péssimas e muitas vezes os suprimentos estragavam gerando problemas intestinais muito sérios.
Há também outra polêmica quanto ao estado natal da feijoada. Os cariocas afirmam que o Rio de Janeiro foi o berço dessa invenção da culinária, pois os escravos, depois da libertação em 1889, foram morar nos arredores da cidade maravilhosa trazendo essa iguaria a tira colo. Mas há aqueles que defendem que foi na Bahia que a feijoada ganhou as características atuais e depois a levaram para o Rio de Janeiro.
Mas há um detalhe que muitos se esquecem. Há uma versão da feijoada em cada país com as suas peculiaridades. Na França, o cassolet é uma feijoada branca com carne de porco, frango, coelho, linguiça e outros adereços. Em Portugal, conforme já mencionei, é o cozido português muito parecido com a feijoada, mas com feijão branco. Enfim, em todos os lugares do mundo onde se consome feijão, alguém sempre vai lembrar-se de colocar alguma coisa junto para melhorar o seu poder nutricional e deixar o cozido mais saboroso. O historiador francês Le Pen, afirmou que o feijão salvou a Europa da fome. A leguminosa, descoberta nas Américas foi levada e cultivada em solo europeu gerando fartura e melhorando a qualidade nutritiva da alimentação das classes menos favorecidas.
Polêmicas a parte, o feijão cozido com pedaços de porco, sejam de onde for, linguiça, paio e toucinho, acompanhado com molho de pimenta, couve refogada, farofa e arroz branco agrada a grande maioria dos brasileiros, seja no almoço ou no jantar, com cerveja gelada, caipirinha e até com vinho é comida para ninguém botar defeito.


FEITO EM CASA


Tornou-se um costume lá em casa criar um porquinho nos fundos do quintal, apesar das leis municipais proibirem a prática em área urbana. Mas meu pai fazia ouvidos de mercador mantendo um chiqueirinho com uma boa drenagem de água para criar um leitão à base de milho. A grande preocupação era manter o local sempre limpo e desinfetado para que nenhum vizinho reclamasse e acabasse por gerar uma multa e um prazo de 48 horas para se desfazer do bichinho.
Os porquinhos chegavam bonitinhos, engraçadinhos, mas acabavam crescendo e muito, tornando-se enormes, chegando a pesar mais de cem quilos. Nos primeiros dias ficava solto no quintal e nos divertíamos correndo atrás do animal. Mas logo ele era confinado e nosso trabalho consistia em limpar o local e abastecer o cocho com água e alimento.
Mas sempre chegava a hora triste, quando bicho, já enorme e arrastando a barriga no chão seria sacrificado para o deleite dos apreciadores de carne suína. Um dia antes meu pai combinava com um ou dois amigos para empreender a tarefa, que, diga-se de passagem, ele bem que gostava, pois se sentia como se estivesse na fazenda.  Os preparativos envolviam a afiação das facas e a preparação da lenha para o fogo. O porco parecia perceber que havia chegado a sua hora e começava a gritar bem antes do momento fatal. Isso me deixava angustiado e, não raro, tive crises psicossomáticas como febre alta e vômito. Ficava de longe e preferia não olhar, mas sabia exatamente o que aconteceria. Com um ou dois amigos segurando o porco, meu pai enfiava um longo punhal no coração do infeliz e em poucos minutos já estava morto. A segunda parte consistia em lavá-lo com água fervente e raspar a pelagem antes de abrir a carcaça.
Do porco se aproveitava tudo, menos, é claro, o grunhido. As vísceras como fígado, coração, rins etc eram iguarias disputadas. A pele era usada para fazer torresmo. Os pernis eram defumados para fazer presunto.  Os intestinos eram limpos e utilizados para fazer linguiça e chouriço. O restante da carne cortada em postas que eram fritas na própria banha do porco e assim conservadas por meses, uma antiga técnica de conservação de alimentos trazida pelos europeus antes das geladeiras.
Para mim tudo aquilo era um horror só, pois detestava carne suína e era obrigado a comê-la no almoço e no jantar e não via a hora de acabar aquela lambança para voltar ao franguinho ou a carne bovina. Em toda essa história, a única coisa que me dava prazer era o pão de torresmo, feito na padaria do bairro, sob encomenda, com a participação post-mortem dos nossos porquinhos. Com manteiga no café da manhã, era uma iguaria.
Os vizinhos e os amigos mais chegados eram presenteados com uma porção de carne, além de alguns passarem em nossa casa para fazer uma boquinha com o churrasquinho preparado pelo meu pai e seus amigos. O meu pai não bebia, mas sempre havia a cerveja gelada trazida pelos convidados.
Com o tempo essa tradição do interior, levada para a cidade por meus pais acabou. O custo do milho e algumas reclamações de vizinhos mal humorados e a fiscalização da prefeitura desanimaram o hábito; assim, a carne suína, a preferida do meu pai, passou a ser comprada no açougue ou no supermercado, encerrando mais um dos hábitos caipiras que os migrantes do interior traziam para a cidade grande.



Caminhas entre os mortos e com eles conversas...


Quando criança os mortos me assustavam e com eles tinha pesadelos que terminavam com um grito no meio da noite.  Hoje, com tantos entes queridos e amigos mortos perdi o medo e também a esperança de que eles voltam para puxar as nossas pernas como as histórias que as minhas irmãs mais velhas contavam para assustar os irmãos mais novos.
Minha mãe volta e meia sonhava com mortos: pai, mãe, irmãos e pelo menos com duas irmãs tinha sonhos frequentes. Uma dela se matou por ver seu amor proibido pela família e a outra se mudou para o Mato Grosso e nunca mais a viu. Com a última ficou uma pendência não resolvida. Era o remorso pela falta do perdão e de despedida. A que se matou era quase a sua mãe. Por ser a mais velha e minha mãe a mais nova, era quem cuidava dela enquanto a mãe cuidava da casa e das suas costuras. Quando minha mãe começou a ter demência senil, os seus encontros com os mortos ocorriam mesmo quando estava acordada. Quando ia visitá-la, às vezes, ela dizia: “Seu pai esteve aqui, conversamos bastante sobre nossa vida juntos e os filhos. Ele está preocupado com fulano e não é para estar?” Em outras ocasiões falava sobre o encontro com a irmã que nunca mais viu. Eram sempre momentos de perdões, arrependimentos e lágrimas.
Quando sonho com os mortos, estamos no cotidiano de nossa outrora vida familiar. Às vezes durante o sonho lembro de que eles estão mortos, mas na maioria das vezes nem me lembro disso. Mas isso acontece quase sempre na casa onde morávamos e na penumbra da noite. Meus sonhos sempre ocorrem à noite ou, raramente, no entardecer. Nunca pesquisei a causa, mas deve ser porque dormimos sempre à noite. Sonho com coisas absurdas, coloridas, músicas, discussões filosóficas, políticas ou literatura.
Tive um tio, casado com a irmã de minha mãe que era da seita Testemunhas de Jeová, que acreditava que depois do Armagedom, a grande batalha do bem contra o mal, os fieis ressuscitariam e voltariam à vida na terra e gozariam a eternidade felizes, sem guerras, tristezas, mortes, fome etc. Meu pai, um tanto cético, questionava, mas como a fé não deixa espaço para questionamentos, meu tio deslizava seguro de que o seu passaporte para o retorno da eternidade estava garantido.
A grande verdade é que o ser humano não se conforma com a morte, quando cessa a nossa história de vida e ficamos apenas nas lembranças dos parentes e amigos por algum tempo. Aqueles que fazem história vão para os livros, praças e ruas e podem ser lembrados por mais tempo, mas não pela eternidade, pois é muito pouco, pois sou pouco otimista de que teremos vida na terra nos próximos 100 ou 200 anos.
E foi no poema Elegia 1938, que o poeta Drummond escreve: Caminhas entre os mortos e com eles conversas/ Sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. E assim, a morte se torna companhia para os poetas, filósofos e teólogos, sempre com a pergunta: “Haverá vida depois?”. Nossos mortos nunca responderam e os seres humanos só encontram conforto nas palavras dos livros religiosos. Para os que creem, isso basta. Para aqueles que não creem resta o conforto da ciência: “Viveremos para sempre no DNA dos nossos descendentes, desde que os tenhamos”. Com bom humor Millor Fernandes assim se manifestou sobre a descoberta de múmias de três mil anos descobertas no Egito: “A morte pode não ser eterna, mas que dura muito tempo ninguém pode duvidar”.


UMA CACHAÇA DA BOA


Já estava perto do horário de almoço, quando chegou ao balcão do bar um homem de uns quarenta anos, se muito. Bem educado, perguntou pro Manoel, proprietário do bar se ele tinha uma cachaça da boa, daquelas de alambique pequeno, artesanal. “Mas tem que ser da boa mesmo, pois na minha terra é que tem cachaça de verdade. Sou lá de Minas, Salinas, a terra da cachaça, conheces”?
Manoel não conhecia Salinas, mas tinha uma cachaça de um fornecedor pequeno, mas de excelente qualidade, explicou orgulhoso. “Só ofereço pra quem entende, não é pra qualquer gajo”, disse no seu sotaque lusitano pegando uma garrafa na prateleira.
- Se é boa mesmo, então pode servir que eu quero provar, disse o estranho.
Ao encher o cálice, o aroma da cachaça impregnou o ambiente, deixando o homem entusiasmado. Nisso ele oferece a bebida para uns três frequentadores do bar, que prontamente aceitaram a oferta, diante do olhar incrédulo do Manoel.
- Pode servir, por favor. E faço questão que o senhor também brinde com a gente. Mais um copo para o senhor.
Manoel que não era dado a beber no trabalho ficou desconfortável, mas diante da insistência do cavalheiro aquiesceu. Brindaram e saborearam a boa cachaça, cuja garrafa custava três vezes o preço da comum. Terminado o brinde, o homem simplesmente agradeceu ao dono do estabelecimento e saiu sob o olhar estupefato de Manoel que ainda ameaçou gritar para sujeito.
No dia seguinte, na mesmo horário lá estava o homem novamente. Encostou a barriga no balcão, cumprimentou a todos e perguntou para Manoel: “Ainda tem daquela cachacinha boa”? Manoel pensou duas vezes na resposta e já ia dizendo: “Tem, mas pra quem pode pagar”, mas ficou só no pensar. Com os bofes remoendo respondeu secamente: “Ainda tenho cá, mas é muito mais cara”.
Pois então sirva pra nós e faço questão que o senhor também tome um trago, pois é merecido. Manoel engoliu a seco e repetiu o mesmo ritual do dia anterior servindo para os outros fregueses e para si mesmo. O homem levantou o brinde e bradou: “Saúde pra todos”. Agradeceu e já ia saindo do bar quando Manoel o alcançou e disse lá alguns impropérios. O homem, muito educadamente pediu que ele se acalmasse e que não havia necessidade de exaltação.  Mesmo assim, não pagou e seguiu seu caminho para o desgosto do velho português.
Mas no terceiro dia, eis que novamente o cavalheiro aparece à porta do estabelecimento, tira o chapéu, cumprimenta a todos e pede novamente a prestigiada cachacinha. Manoel se preparou para o pior. Hoje esse sujeito não me escapa, pois, pois.. pensou lá com seus botões. A cachaça foi servida ao homem, que ofereceu para uns três ou quatro, que aceitaram prontamente. Afinal não era sempre que tinham a oportunidade de saborear uma iguaria como aquela.
Faltava apenas oferecer ao Manoel, quando o homem disse bem humorado: “Pro senhor não, pois quando bebes ficas muito bravo.”.
E mais uma vez saiu em direção à porta, sem pagar a conta.






UM CRIME QUASE PERFEITO

Todas as sextas-feiras ele fazia serão. Ligava para Margarete e dizia que tinha uma reunião de final de semana para acertas os detalhes para a segunda feira. Além disso, sempre dizia, “vou para o happy hour com o pessoal do escritório”. Em verdade, era tudo conversa fiada. Margarete sempre acreditava ou fazia de conta, pois por mais que procurava se enganar, o cheiro de perfume de mulher nas roupas dele era indício de que havia algo mais do que um inocente happy hour com a turma do escritório. Mas ela era uma mulher conformada com a vidinha que levava. Não faltava nada em casa. Podia comprar suas coisinhas, ir ao cabelereiro, fazer as unhas e ainda tinha a sua mãe que morava com eles e os filhos. Nestor era um bom marido e não havia do que reclamar.
Na sexta-feira ele chegava por volta das onze e meia. Tomava um banho rápido e caia na cama, pois no sábado, bem cedinho, tinha o compromisso de ir com a família para a chácara em Ibiúna. Era uma rotina. Levantavam cedinho, mulher, crianças e a sogra no carro e pé na estrada. Mas neste sábado alguma coisa parece que estava dando errado. Viu um sapato de salto alto embaixo do banco do passageiro.
Começou a suar frio. Será que a Doroty, sua secretária, tinha bebido demais e esquecera o sapato no carro. Não é possível que ela tenha aprontado essa comigo, pensou com seus botões. Ela estava mesmo alta e estava com um sapato na mão. Será possível que a cretina largou o outro pé no carro? Calma, calma Nestor. Nada de desespero, que não vai resolver o problema. Maquinou uma solução. Distraiu a Margarete, pegou o sapato e o colocou do seu lado e ficou esperando uma oportunidade para distrair o pessoal, quando viu uma fazenda com o gado pastando num lugar bucólico.
- Olha que interessante esse lugar!  Disse apontando para o lado direito.
Todos olharam e ele, matreiramente, jogou o sapato pela sua janela. Ainda bem que ninguém viu, pensou. Doroty que se vire sem o sapato. Tudo bem eu compro um par novo para ela. O importante é que ninguém viu. Sentiu-se aliviado. Era outro homem. Nunca, nunca mais vou permitir que ela faça isso comigo novamente. Acho que nem vou mais sair com ela. Vou acabar com esse relacionamento. A Margarete não merece isso.  Onde já se viu deixar a marca do crime em meu carro! Não queria magoar a Margarete, pois era uma boa esposa, recatada e do lar. Não era nem ciumenta. Um amor de mulher. Devia dar graças a Deus...
- Não vamos dar uma parada Nestor? O posto já está perto. Avisou Margarete.
- Claro, claro, querida. Vamos parar sim.
Nestor estacionou o carro e desceu. Deu uma espreguiçada e olhou o horizonte enquanto o pessoal saia do carro. Nisso ouviu sua sogra gritando.
- Cadê meu sapato? Onde está meu sapato? Eu tirei aqui no carro. Estava aqui, nos meus pés.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

PIEDADE, MEU PÉ DE SERRA QUE NEM DEUS SABE ONDE ESTÁ.



Aposto que apenas os poucos que me leem conhecem Piedade, uma cidadezinha logo depois de Ibiúna, aquela que ficou conhecida no final dos anos sessenta por abrigar o histórico congresso nacional da UNE, em 1968.  Na ocasião foram presos mais de 600 estudantes, incluindo lideranças como José Dirceu e Luiz Travassos. Foram os moradores de Ibiúna que telefonaram para a polícia, denunciando o evento. Enquanto Ibiúna ganhou fama como a cidade que entregou os estudantes, Piedade continuou no ostracismo, mas por pouco tempo.
Piedade fica a 30 quilômetros de Ibiúna, com altitude de 781 metros e tem invernos bastante rigorosos, mas nada que se assemelhe a famosa São Joaquim em Santa Catarina. Graças ao clima, lá se produz caqui, maças, peras, cerejas, framboesas entre outras frutas, graças, também, a contribuição das laboriosas colônias italianas, alemãs, suíças, austríacas e japonesa. Mas em outros tempos, foi considerada a capital da produção de cebola em nosso estado.
Foi por lá, também, que o fabricante da famosa cama patente, instalou uma unidade fabril. A cama patente, um produto genuinamente nacional, concepção original do imigrante espanhol Celso Martinez Carrera em 1915.  Tempos depois, o imigrante italiano Luigi Liscio, patenteou a cama e obteve o direito de exclusividade sobre o produto, ficando Martinez proibido de fabricá-la.  A cama, pelo seu preço acessível, fez muito sucesso e o negócio se expandiu tanto, que ao redor da fábrica, em Piedade foi construída uma vila operária, chamada Vila Élvio em homenagem ao filho do empresário. Lá trabalhou quando jovem o falecido poeta José Delcy Thenório, pai do Edélcio.  Ele lembrava com saudade desses tempos, mas lamentava a destruição da floresta nativa para a exploração da madeira utilizada nas camas Patente.
Como diria Manuel Bandeira, “Em Piedade tem tudo, é outra civilização..”. Lá o carnaval é um dos mais criativos de São Paulo, abrigando grandes autores de marchinhas. Em junho ocorrem as serestas com composições de autores locais e declamações de poesias.  Edélcio Thenório, poeta, compositor e artista plástico nas horas vagas (que são poucas), é um dos compositores populares da cidade. Ele não nasceu lá, mas sua família foi uma das pioneiras do vilarejo, fundado em 1840 por tropeiros. O casal teve dois filhos e uma filha. Um dos filhos, Iberê Thenório, é o idealizador do site Manual do Mundo, que conta com mais de um  milhão de acessos. Enfim,. o mundo descobriu Piedade, a princesinha da Serra. Tal como a imaginária cidade Guacira da famosa canção de Hekel Tavares e Joracy Camargo. ”...onde  a lua pequenina, não encontra na colina, nenhum lago para se olhar”.
A cidade não é a mesma que conheci nos anos setenta. Meio acanhada, com ainda muitas construções do final do século XIX, lembrava um pouco as cidades históricas do sul de Minas. A economia pujante transformou a cidadezinha. Hoje ela abriga lojas sofisticadas, agências dos principais bancos nacionais e, infelizmente, um trânsito de cidade grande.
Foi lá que numa das minhas visitas, encontrei uma vez a grande cantora e pesquisadora de folclore Inezita Barroso com seu violão a tiracolo se apresentando no teatro local. Ela cantou a famosa canção de Anacleto Rosas Jr, chamada Cavalo Preto que menciona Piedade em seus versos. Dizem que foi apenas para rimar com cidade, mas para os antigos do vilarejo, o autor por lá passou em tempos idos e se apaixonou pelo lugar, um “pé de serra que nem Deus sabe onde está”.


domingo, 10 de julho de 2016



MARIA DOMITILA, A NOSSA ANNA BOLENA.

Quando li o romance histórico A marquesa de Santos com quinze ou dezesseis anos, fiquei espantado com o nosso primeiro imperador.  No dia da Independência despachou o seu ajudante de ordens para marcar um encontro com a Maria Domitila, uma bela moça separada do marido e pertencente a uma tradicional família paulista. Ficou apaixonado e sempre que podia, arranjava uma desculpa para vir até a pauliceia para rever a amante.
Como a viagem a cavalo do Rio a São Paulo levava quase uma semana, resolveu levá-la para a corte com toda a família. Para isso adquiriu a chácara dos Porcos, que ficava a uma hora da residência imperial. Não demorou muito para Dom Pedro colocá-la como dama de companhia da imperatriz Leopoldina, que sem dúvida deve ter ficado p. da vida. Em seguida o pai, o Coronel João de Castro Canto e Mello virou barão, dando status de nobreza a toda a família.
Ela também foi agraciada com o título de Baronesa de Santos de depois Marquesa, uma homenagem sacana ao Ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, cuja família era de Santos. Bonifácio era um crítico do comportamento do imperador, fazendo o papel semelhante ao de Thomas Morus, intelectual inglês e conselheiro do Rei Henrique VIII, que orientava o rei para evitar desvios de comportamento.
Como Henrique Tudor, Dom Pedro reconheceu como legítima uma filha de sua amante, que recebeu o título de duquesa de Goiás. Menos cruel do que o inglês, nosso fogoso imperador limitou-se em desprezar a esposa, humilhando-a na corte. De saúde frágil morreu jovem, deixando um filho herdeiro. Era a oportunidade da nossa Anna Boleyn para oficializar o relacionamento com o imperador.
Mas Dom Pedro preferiu seguir as formalidades monárquicas e tratou de procurar outra esposa na Europa. Isso prova que ele era bem mais pragmático do que o Tudor. Maria Domitila não foi acusada de traição ou decapitada, mas foi despachada para sua terra natal onde passou o resto da vida no ostracismo. Em tese, pois casou-se com um nobre paulista, o Tobias de Aguiar e reinou na sociedade paulistana e teve mais uma penca de filhos. Virou uma lenda e até hoje muita gente acredita que ainda teve tórridos encontros com o imperador no museu do Ipiranga, que na época, ainda não existia.
Dom Pedro casou-se por procuração com uma bela nobre italiana e tentou manter o trono, mas sem sucesso. Entre ficar e ser deposto pela antecipação da república, preferiu deixar o filho, ainda bebê, como herdeiro e retornar a Portugal e restaurar o trono para sua filha, casada com dom Miguel, seu irmão.

Assim, a história de Anna Boleyn ou Bolena, também chamada de Ana dos Mil Dias, guarda grandes semelhanças com a nossa Maria Domitila, pelo seu charme, sensualidade, esperteza e família interesseira, que seduziu e manteve o imperador sob o seu controle por um bom tempo e só não virou imperatriz por causa da forte oposição na corte e no parlamento.  
PARA QUE UM ESTADO TÃO GRANDE?

A história da chapeuzinho vermelho ao perguntar para o lobo mau que estava deitado na cama da sua avó, disfarçado: “Para que uma boca tão grande vovó?”. O resto da fábula todos conhecem.  Da mesma forma os brasileiros perguntam ao nosso Leviatã (Estado brasileiro): Para que tanto dinheiro se não recebemos nada em troca? O Estado brasileiro abocanha tudo que for possível e até o impossível para sustentar sua imensa teia de privilégios, mal gastos e incompetências. Numa contabilidade prática, boa parte dos brasileiros trabalha até maio para pagar os impostos. Daí em diante tem o direito de gastar o que sobrar para alimentação, habitação, segurança, educação, saúde, investimento, etc. Segurança, Educação e Saúde deveriam, em tese, ser obrigação do Estado, mas diante da precariedade desses serviços públicos, a classe média é obrigada a colocar seus filhos em escolas particulares, pagar planos de saúde e pagar seguros residenciais e para veículos, cada vez mais caros para não sofrer a perda de patrimônio diante do caos que é a segurança pública.
Outra fábula com a presença do lobo mau está presente na vida árdua do brasileiro que faz das tripas coração para sobreviver. Refiro-me ao Lobo que devora o cordeiro porque ele turvara a água que ele bebera, mesmo estando rio abaixo. “Se não foi você foi seu pai e você pagará por isso”. Ou seja, não adianta reclamar que o governante de plantão não reajusta a tabela de imposto de renda de acordo com os índices de inflação. Que o valor por dependente não paga as despesas com alimentação, habitação, lazer etc. Que não recebe nada em troca etc. A alegação é sempre que o governo não pode reajustar a tabela que está defasada em mais de 70% porque não há recursos para isso. Assim, se não foi você, foi seu pai, seu avô ou bisavô e nós pagaremos por isso.
O Estado mantém aposentadorias  para funcionários públicos, que se retiram do serviço com salários integrais, acrescidos de vantagens obtidas ao longo do tempo de trabalho. Como um país pobre, repleto de problemas, com uma enorme desigualdade regional pode se dar ao luxo de pagar salários privilegiados durante quase 40 anos de vida na aposentadoria? Vive-se mais como aposentado do que como trabalhador na ativa.
Alguém já chegou a imaginar quanto custa o senado brasileiro e seus 140 diretores com salários de altos executivos no setor privado? Além da remuneração dos senadores, esses ainda dispõem de equipes de assessores de fazer inveja a qualquer país rico europeu. Isso sem contar passagens semanais para seus estados de origem, auxílio moradia, apartamentos funcionais, veículos etc. E tem mais, o senado ainda dispõe de uma indústria gráfica com mais de 500 empregados, se não for mais somente para imprimir livretos de divulgação dos senhores senadores.  Na câmara quase a mesma ladainha se repete e são 520 deputados com todos os privilégios, assessores etc.
Ainda a pretexto de tornar a administração mais ágil, existem mais de uma centena de empresas estatais, cujas finalidades ninguém conhece ou consegue explicar. A EBC, empresa criada para controlar a televisão do estado, rádio e internet, consome mais de 500 milhões por ano para ter apenas um pequeno traço na audiência do público. Se o objetivo da mídia é atingir o público, pergunta-se: Para que tanto gasto e tão pouco resultado?
As empresas estatais, tanto as reais como as de ficção, se converteram em mecanismos para gerar empregos para os privilegiados por indicações políticas. Assim, altos salários e privilégios podem ser pagos sem concursos públicos ou aprovação por meio da legislação vigente. Atividades que poderiam ser apenas constituir um departamento numa repartição com um chefe e sua equipe, se transforma da noite para o dia numa organização com diretoria, cartões corporativos, verbas de representação, conselho administrativo, instalações etc.
Assim, ao cidadão não resta alternativa, pois de nada resolverá dizer que a água que o lobo ou o Leviatã (monstro marinho que Hobbes usa como metáfora do Estado), bebe está rio acima, pois qualquer reclamação poderá servir de desculpa para ser devorado, sempre com a desculpa de que no passado alguém usou mal os recursos.
SOCIETÁ ITALIANA DI BENEFICENZA


Havia em casa uma medalha de bronze com a inscrição: “Societá Italiana di Beneficenza - 1898” que minha mãe conservava em sua caixinha de segredos. Ela dizia que era do seu pai, mas ela mesma não sabia como e nem por que estava em suas coisas quando ele faleceu. Como não havia conversado em vida com ele sobre a medalha, ficou sem saber a sua origem. Sabia que meu avô era um farmacêutico prático, que criava comprimidos fitoterápicos para curar doenças. Não sei se tais comprimidos faziam  algum efeito, mas com eles ele ganhava a vida e podia comprar seus livros, jornais e assinar uma revista espanhola. Filho de pai abastado, na infância ele estudou com um preceptor (professor particular) que lhe ensinou as primeiras letras, depois Latim e espanhol, mas nunca frequentou escolas. Lia tudo que lhe caia nas mãos e era uma pessoa muito bem informada nos confins do interior paulista. Soube da televisão muito antes da tecnologia chegar por aqui, mas os caipiras o consideravam louco quando explicava sobre o estranho aparelho.
Eu como era muito abelhudo peguei a medalha e andava com ela no bolso para fazer farol com os colegas de colégio, até que um dia, voltando para casa, fui encurralado por dois garotos que me assaltaram, levando alguns trocados que tinha no bolso e a tal medalha. Nunca ninguém soube lá em casa quem fora o larápio, pois mantive segredo sobre minha travessura.
Nas últimas noites andei a sonhar com a medalha e com meu avô querendo saber o que fiz dela e cobrando-me para que a devolvesse. Com quem estará não faço a mínima ideia, mas caso alguém que a tenha em seu poder esteja lendo essa crônica, mande uma mensagem que recompensarei a altura, não pelo seu valor monetário, mas por uma questão de honra familiar.
Num dos sonhos ele disse em bom Latim sobre a origem da medalha, sugerindo, pelo que pude entender considerando meus parcos conhecimentos da língua de Cícero, que fora uma homenagem que recebera em Minas Gerais por serviços prestados a uma comunidade italiana no final do século XIX.

Como o espírito que Hamlet via nos muros do castelo de Elsinor, meu pobre avô cobrava-me, e com razão, a medalha que deveria ser sepultada junto ao túmulo de minha mãe, sua filha mais nova e mais querida. Prometi que cumpriria tal empreita, mas cá estou eu fazendo a minha primeira tentativa para descobrir o paradeiro da medalha. É possível que os larápios a tenham jogado fora, pois de nada valiam numa troca comercial a não ser que a tenham vendido a algum comerciante italiano do bairro que veria algum valor sentimental no objeto. Por essas e outras vou ficar devendo ao meu avô fantasma a tal medalha, pois nem com a ajuda da internet consegui localizar uma para comprar. E por essas e outras que creio que há mais mistérios entre a eternidade e a vida terrena do que pensa nossa pobre filosofia.
SE PARAR O BICHO PEGA, SE CORRER O BICHO COME

O país está realmente numa sinuca de bico.  O governo provisório está cada vez mais enrolado com ministros sendo denunciados por envolvimento em corrupção, delações premiadas, gravações secretas etc e tal. A oposição, que antes era governo está também num lodaçal. Se derrubarem o Temer vai assumir o atual presidente da câmara, o tal de Maranhão, pois legalmente é o primeiro na linha sucessória. Ele está todo enrolado com denúncias de propinas, funcionário fantasma da universidade do Maranhão, sem contar o filho que trabalha em São Paulo e recebe um salário no TC do Maranhão.
Bom, se conseguirem uma liminar que o retire da linha sucessória, temos o seguinte que é um sujeito porreta que pagava uma pensão duas vezes superior ao seu salário de senador para sua amante. Como ninguém acreditou, inventou uns bois voadores de sua fazenda e os vendeu a peso de ouro. Além de tudo isso, ainda está sendo investigado pela operação lava-jato. Bom, caso o René Calheiros também caia fora, entra o segundo vice-presidente do senado que nem sei quem é.
Se esse também estiver enrolado na lava-jato, não se preocupem, ainda temos o Levandowski para presidir a nação até a eleição indireta de um presidente para um mandato até 2018. Quem os nossos nobres congressistas vão eleger?  Evidentemente um dos seus pares que seja capaz de cumprir a promessa de que dará um jeito nesta tal de lava-jato que não deixa o país e os políticos em paz. Uma emenda constitucional para eleições diretas não passa no congresso, pois não interessa eleger alguém sem o compromisso de salvar a pele de todos.
Depois de eleito e por causa do clamor popular, o presidente eleito indiretamente jurará fidelidade à operação lava-jato e perderá o apoio do congresso que não o deixará governar. Enquanto isso, estaremos com uma inflação de100%, PIB de -5%, greves nos transportes, estradas bloqueadas, funcionários sem receber seus salários nos estados e municípios, também entram em greve geral.  Como os policiais são funcionários públicos, também cruzarão os braços. Bom, aí estaremos no caos total ou algo parecido com a Síria atual.
Alguém chamará os militares para colocar a casa em ordem, pois eles detêm o monopólio da força legitimados pela constituição. As forças armadas fecham o congresso e assumem o poder. Como nenhum país do mundo reconhecerá uma ditadura militar, o Brasil ficará isolado do mundo. Uma parcela dos militares é contra a intervenção e é apoiada pela esquerda. O país entra na sua segunda guerra civil (a primeira foi em 1932, mas restrita a São Paulo, Rio, Minas e Mato Grosso). A produção se desorganiza, as fábricas fecham e grupos milicianos tomam conta do país, controlando o tráfico de drogas e alimentos. A fome se alastra, bombardeios atingem escolas e hospitais dirigidos pelos médicos sem fronteira. Milhões de pessoas tentam fugir para o interior do país a procura de alimentos e de paz
 A ONU manda uma força de paz, mas de nada adianta, pois, o país é muito grande e difícil de controlar. Os EUA ocupam a Amazônia sob o pretexto de preservar a natureza. Como a Venezuela já estará em guerra civil, a guerra contamina a Colômbia, Equador e Peru. Bolívia e Paraguai são ocupados ora por forças leais ao governo brasileiro, ora pelos grupos de oposição, milícias e grupos revolucionários. Em pouco tempo toda a América do Sul estará em convulsão.

The end
UM AMIGO ALEMÃO

Meu amigo alemão não é alemão e nem fala a língua de Goethe, mas era assim que o chamávamos, pois seu pai era alemão, mas a mãe era brasileira de origem italiana. O pai,  seu Walter, contava ele, chegou da Alemanha nos anos quarenta pelo Rio de Janeiro. Sem dinheiro, sem falar português, acabou morando em uma favela e passou uma semana comendo bananas, a única coisa que dava para comprar com seus parcos recursos. Depois acabou vindo para São Caetano do Sul, onde se estabeleceu com uma serralheria e se casou. A mulher morreu cedo vitimada por um câncer, deixando o seu Walter com três filhos para criar.
Seu Walter acabou morando perto de minha casa e seu filho mais jovem, Edson Broesdorf e foi no retorno do colégio que acabamos nos conhecendo. Foi na casa dele que experimentei, pela primeira e felizmente última vez, um chucrute alemão preparado pelo seu pai. Tempos depois nos envolvemos no movimento estudantil com outros colegas do ABC. Frequentávamos uma igreja em Santo André, que era uma espécie de quartel general do movimento contra a ditadura, onde se reuniam os mais diferentes grupos políticos, desde trotskistas, stalinistas, maoístas, nacionalistas, esquerda cristã, PCB, PCdoB entre outros. O padre Rubens Chasseroux, nosso ex-professor de religião no colégio, deslizava e acolhia a todos os grupos e todas as tendências. Suas missas eram heterodoxas, com músicas, discursos e poesia. Foi lá que “aprendemos que a classe operária um dia iria para o paraíso”, ouvindo palestras de militantes e revolucionários. Numa dessas palestras um camponês do Maranhão contou a sua saga de resistência no Estado de José Sarney, quando as plantações eram pisoteadas pelo gado dos grandes fazendeiros. Ouvíamos as narrativas do pessoal da Ação Popular que defendiam a tese de que o Brasil era um país feudal e que precisava fazer, primeiramente, a revolução burguesa antes de avançar para o estágio do socialismo.
Deslizávamos por entre as várias ideologias, mas pouco nos comprometíamos de forma verdadeira. Distribuíamos panfletos, participávamos de passeatas relâmpagos, reuniões e mais reuniões. Levados por um militante de esquerda, fomos, eu e o Alemão, em um colégio no Morumbi, onde participamos de um seminário com o sociólogo Florestan Fernandes. O grupo era de universitários e éramos os únicos colegiais, mas marcamos presença nos debates por causa da nossa vivência com grupos de esquerda.  Algumas vezes vinham os frades dominicanos na igreja e faziam palestras, cantavam músicas do Geraldo Vandré.  Um  grupo leninista propôs que nos engajássemos na luta armada, chegando a nos levar para um treinamento de tiro. Mas ficou nisso e “adiamos para outro século a  felicidade coletiva”.
Uma atividade que foi interessante naquela época foi a leitura de O Capital de Karl Marx, que era dirigido por um militante trotskista com o codinome de Plinio, estudante de Geologia na USP que havia participado do famoso congresso de Ibiúna, quando foi preso.  Foram meses nas tardes de sábado lendo e discutindo o livro juntamente com outros estudantes secundaristas, o Rubens Braggion e Paulo Frasson. Estávamos quase nos especializando em Marx quando o tal de Plinio desapareceu. Todos acreditávamos que a religião era o ópio do povo  naquela época. O Alemão dizia: “Que sentido teria a vida se ela fosse eterna”, depois de algumas horas contemplando o céu estrelado. Sempre achei que o Alemão era o materialista mais consciente, mas descobri, recentemente, que foi cooptado pela metafísica. Outro do grupo, o Paulo Sérgio Frasson se engajou no movimento carismático da igreja católica. Quanto ao Rubens Braggion, dizem as más línguas que virou testemunha de Jeovah e passa os fins de semana fazendo pregação.
Nessa época fazia-se algumas loucuras, impensáveis hoje, quando eu e o alemão resolvemos passar a noite na Paulicéia, dormindo em bancos de jardim, conversando com boêmios e prostitutas.  Pegamos o trem e descemos na Estação da Luz. De lá fomos para a região da antiga rodoviária, hoje dominada por viciados em craque.  Ficamos por lá até o dia amanhecer pegando o primeiro trem para São Caetano e paramos numa padaria que hoje não existe mais para tomar café com pão quentinho, uma delícia.  Acampávamos no alto da Serra, na estrada velha de Santos apenas com um cobertor e passávamos a noite contando estrelas, pois com o frio e a umidade era impossível dormir. Lá planejávamos como seria o Brasil depois que os militares caíssem e a esquerda tomasse o poder. Eu particularmente tinha medo do pensamento stalinista predominante. Sonhávamos também com mulheres bonitas, revolucionárias e adeptas do amor livre.
Foi com o alemão que passei uma das piores experiências de minha juventude, quando um livro que ele havia pego emprestado na biblioteca do bairro caiu atrás de uma delegacia em São Bernardo. O problema não era o livro, mas os panfletos que estavam dentro. O Silvestre, um italiano corajoso, pulou o muro e passou o livro, mas foi preso lá dentro. Tiramos os panfletos e fiquei com o livro esperando o Silvestre. Enquanto isso todos desapareceram, inclusive o alemão. Felizmente consegui convencer os policiais que estávamos esperando umas garotas quando o livro caiu e era de um amigo que havia me emprestado. O livro era o Escândalo do Petróleo e do Aço do Monteiro Lobato. O Silvestre quase morreu de medo e tremia como vara verde. Descobri que a coragem dele passou rápido depois que ficou detido pelos policiais. Até hoje ainda não consegui descobrir como consegui manter a calma, o que nos salvou de problemas mais sérios.
Foi o Alemão que comprou o primeiro carro da turma. Era um charmoso  fusquinha 1954, importado, com a janela traseira dividida em duas. Como ele era muito generoso, não se importava em levar a turminha para todos os lados.
O Alemão era bom de prato e traçava tudo que aparecesse em sua frente. Adorava cerveja e cachaça e não se alterava quando bebia.  Era o tipo de pessoa que bebia e ficava alegre e falante. Seu prato predileto naquela época era o filé a parmegiana, bem suculento. Traçava uma porção que dava para dois.  Escrevo no passado porque hoje ele está com um sério problema no fígado e precisa tomar seus cuidados para não partir antes da hora.
Alemão, Cris ou Edson, eis um retrato 3 x 4 de um sujeito 30 x 40, onde não falta generosidade e carisma.


PASÁRGADA: VELHOS AMIGOS, VELHAS LEMBRANÇAS

O poema “Vou-me embora para Pasárgada” é quase uma canção de exílio, pois lá sou amigo do rei e tem tudo, é outra civilização... Assim, quando estou triste, triste de não ter jeito, dou uma escapadinha e vou para lá esquecer e, também, para lembrar. E nesse último domingo, fomos todos, mulher, filha, genro e neto para essa civilização imaginária onde tudo é permitido, nada é pecado ou engorda.

Fica pertinho daqui, logo ali depois de Embu das Artes e fomos guiados pela Celinha que conhece todos os caminhos que levam à Pasárgada, lembrando os desvios e atalhos por onde o tempo traça seus roteiros. Lá encontramos os queridos amigos José Geraldo Rocha, a Valnice Vieira, a Bola, a Amaranta, a Janaina, o Ricardo, o Gabriel e a menina Cecilia. Essa família maravilhosa que vive do e no teatro, sempre encenando mundos fantásticos, cheios de emoções e atravessam o tempo declamando poesias e histórias da carochinha.

Lá tem tudo e até pés de café, cujos frutos são saboreados pelos jacus, que vivem em bandos pela floresta. Zé Geraldo recolhe com todo o carinho, os grãos nas fezes dos bichinhos, limpa-os e torra-os para fazer um delicioso café que tem poderes quase mágicos. A produção é pequena, mas dá para aquecer a alma nos dias frios de inverno. 
Em nossa Pasárgada teve uma lasanha deliciosa, preparada com esmero pela Bola, uma atriz e criadora de bonecos e cenários onde se apresenta uma atriz que vem a ser contraparente da nora que eu nunca tive, mas gostaria de ter. Lá convivem corintianos e palmeirenses que nunca brigam, não falam palavrões e riem o tempo todo, de modo a ouvir-se de longe, como diria o poeta Alberto Caeiro.    
                                                
Nesta Pasárgada imaginária e verdadeira como o olhar do Zé Geraldo, escritor, dramaturgo, ator e diretor de teatro a gente volta no tempo e vê gente que já se foi para a terra do nunca, como o Plinio Pinto Teixeira, que abandonou o teatro para ser advogado e professor, o Belmiro Arruda, também ator, que marcou um encontro definitivo com extraterrestres e desapareceu numa estrada perigosa em Goiás. Até o Zécarlos Machado, também ator profissional, esteve por lá. Em fotografias velhas e desbotadas, mas estavam todos presentes nos seus tempos da República de Pasárgada em São Caetano do Sul, pertinho da Fundação das Artes. Apareceram, também, o Limoeiro, o Claudio Campana e o Estevão, com sua emblemática capa preta, sempre acompanhado por um bode e recitando textos filosóficos de Hegel. E,  de repente,  apareceu a Bete Cunha, a poeta, declamando seus poemas dos tempos da velha e saudosa terra do nunca. Quase ao por do sol apareceu o Timochenko Wehbi, vestido com uma toga romana e uma coroa de louro, atravessou o tunel do tempo e retornou ao mundo dos vivos.                                              


Entre uma taça e outra de vinho, as meninas Janaina e Amaranta contaram suas histórias de antes e depois da Pasárgada, enquanto o meu neto Antônio brincava no jardim com a Cecilia, recolhendo grãos de café maduros e se divertindo com borboletas e passarinhos.
Enfim, entre frutos meio verdes e desejos já maduros, despedimo-nos da Pasárgada e voltamos para o mundo real, sempre prometendo que um dia voltaremos pra lá, onde sempre seremos amigos do rei e da rainha.
O PRAZER DE FUMAR


Por volta dos quatorze anos experimentei o primeiro cigarro por influência de um amigo de infância e adolescência, um alemão de origem polonesa  chamado Bogdan Warzocha. Na opinião dele homem para ser homem precisava fumar e beber. O cigarro foi para mim uma tortura, pois não conseguia sentir prazer em fumar, pois me deixava um gosto horrível na boca. Tragar então, além de ser difícil, me deixava tonto e com dor de cabeça. Assim, disfarçava com o cigarro entre os dedos e dava algumas baforadas para impressionar os colegas e quem sabe as garotas. Com a bebida a experiência foi parecida. Também levado pelo mesmo Bogdan tentei beber rum, vodca e cachaça sem sucesso. Num ano novo ele passou em casa para fazermos uma via sacra, bebendo em todos os bares que encontrássemos. Conseguir beber até no segundo, enquanto ele bebeu em pelo menos em meia dúzia de bares alternando doses de vodca, gim e rum. Fiquei enjoado e abominei a experiência. Acho que a minha dificuldade, felizmente, tinha origem no DNA, ao contrário dele, que como se sabe, os eslavos são mais resistências ao álcool. Mais tarde passei a apreciar cerveja, mas raramente passando do terceiro copo. Em tempos de madureza aderi ao vinho tinto para aumentar o colesterol bom e reduzir o ruim, o que não deu resultado, mas isso não foi motivo para desistir da companhia de uma taça de Cabernet Sauvignon para acompanhar as refeições.
Quanto ao cigarro, continuou sendo uma companhia constante durante a adolescência para superar a minha timidez nas festas e bailinhos do bairro. Continuei não tragando, o que me livrou da dependência do tabaco. Tempos depois, já trabalhando, conheci uma pessoa que me ajudou a exorcizar o cigarro de minha vida. Foi o Rubens Novaes, o contador da empresa e meu chefe imediato. Com quinze anos de idade ele me tratava como um sobrinho e às vezes como um filho, mostrando sempre os riscos do vício. Com os bons argumentos que ele me ensinou, consegui superar o “complexo de inferioridade” por ser um não fumante e passei a ser um militante da causa.
Lembro-me de quando criança, que meu pai fumava um cigarro depois do jantar. Era o seu ritual diário. Um maço dava para uns quinze dias. Minha mãe às vezes acendia um, mas evitava fazê-lo na frente dos filhos para não incentivá-los. Com uns quarenta anos de idade, meu pai acendeu o seu último Mistura Fina, uma marca de cigarro conhecida como quebra peito, por ser bastante forte. Foi numa tarde de sábado, enquanto cuidava do jardim, acendeu um cigarro e após dar a primeira tragada, sentiu uma forte tontura. Não procurou saber por que, mas numa mais colocou outro na boca.
Depois dos filhos casados, minha mãe voltou a fumar, pois segundo ela contava, sentiu os primeiros prazeres do tabaco com o pai que pitava cigarros de palha no interior de São Paulo. Liberal, meu avô nunca proibiu nada para os filhos e filhas. Apesar dos resmungos do meu pai que passou a detestar cigarros, ela passou a queimar um maço por dia. Quando viúva, aumentou para quase dois maços, prazer que lhe proporcionou um enfisema pulmonar e um pigarro que a acompanhou pelo resto da vida e tornou o seu pulmão frágil e pouco resistente a uma sequência de pneumonias que lhe tirou a vida aos 84 anos.
Para completar, casei-me com uma fumante, que se viciou aos quinze anos e levou o hábito até os vinte e cinco. No início, até lhe presenteava com seus cigarros favoritos, mas depois comecei a tentar dissuadí-la do vício, mas sem sucesso. Às vezes discutíamos porque eu não permitia que ela fumasse no carro ou criava caso para parar no caminho para comprar cigarros. Felizmente ela resolveu fazer aulas de dança e percebeu que o cigarro dificultava sua performance nas aulas e resolveu parar definitivamente.
Hoje vejo que o cigarro saiu mesmo de moda, pois são raros entre os meus alunos na universidade os que ainda fumam, bem diferente dos meus tempos de estudante, que precisava ficar próximo da janela para poder respirar um pouco de ar fresco.


O MENINO DE SUA MÃE


Um menino de apenas quatro anos brincava feliz em frente da casa dos seus avós numa comunidade pobre do Rio de Janeiro. De repente um tiro perdido atingiu o seu peito. Seu avô, quando ouviu os primeiros disparos correu para pegar a criança e levá-la para dentro de casa, mas era tarde demais. O sangue já escorria quente pelo seu corpinho indefeso e nada mais poderia ser feito. Levaram-no para o hospital, mas nada mais poderia ser feito.
Depois a parte mais difícil: avisar a mãe que talvez nunca perdoe o avô por não ter protegido o neto que estava sob seus cuidados. As mães sempre acreditam que ninguém pode cuidar dos filhos melhor do que elas. E com razão. Pode ser que ela nunca diga nada para o pai, mas pensará nisso pelo resto dos seus dias. “Por que eu não estava lá para que a bala tirasse a minha vida e não a dele?”, deve ter falado ou pensado. As tragédias humanas nunca são esquecidas. Elas vão e voltam com intensidades variadas, mas sempre com muita dor.
Pobre do avô! Que culpa o teria de morar num lugar tão violento, onde quadrilhas trocam tiros à luz do dia numa cidade violenta com balas perdidas vagando sem endereço. Ele não tinha um quintal onde o menino pudesse brincar em segurança e estavam todos à porta da casa, inocentes, como se essas coisas nunca poderiam acontecer. Às vezes saio para caminhar com meu neto de 6 anos e essas coisas passam pela minha cabeça. Mas onde moro é seguro. Será mesmo? Ninguém está seguro, em lugar algum. Viver no Brasil é muito perigos, talvez tanto quanto no Iraque ou Afeganistão, Bruxelas ou Paris.
Quando eu era criança, brincava com meus irmãos na rua, em frente da  nossa casa, mesmo tendo um quintal. Nunca meus pais imaginariam que um tiro vadio pudesse tirar a vida dos seus filhos pequenos. Os perigos eram outros. Um carro, caminhão ou um ônibus poderia atropelar as crianças que andavam soltas, iam à escola, ao armazém, ao açougue ou a casa de algum vizinho.  Jogávamos bola na rua, mas os carros eram poucos e as ruas não convidavam a grandes velocidades.
Mas o menino cujos olhos não mais verão o mundo que ainda estava tentando compreender com seus poucos anos de vida, partiu.  Ele terminou sua curta história neste planeta, na periferia de uma grande cidade da América do Sul, que já foi maravilhosa, que já foi linda e cantada em prosa e verso por poetas e cantores. A morte do menino, como sua vida não terá versos, como sua vida também nunca deve ter tido. Ninguém cantará sua pele morena, seu sorriso inocente e seus sonhos de menino. Que sonhos terá tido ele? Sonhava em ser piloto ou super herói? Nada... Ele entrará para a história como um simples número na estatística da violência das nossas metrópoles, apenas isso e os números não têm poesia, tampouco alma.

Adeus para nossas crianças que não chegam à vida adulta! Crianças que não conseguiram entender o mundo, seus conflitos, suas dores, sua violência. O menino de sua mãe jaz triste e abandonado num pequeno caixão branco, símbolo da pureza, da inocência e sobre ele a mãe derrama as últimas lágrimas diante do seu corpo. Quem não choraria diante de tal cena? Talvez a própria comunidade já não chore mais, pois a banalidade da morte prematura secou os olhos da maioria.  Restou à raiva da impotência e para aplacá-la alguns desvairados saíram destruindo tudo: ônibus, carros, estação, dos quais sentirão falta no dia seguinte.
LUIZ DE MIRANDA FIGUEIREDO, UM EXECUTIVO EXEMPLAR

Figueiredo, como era conhecido, amadureceu cedo e com dezessete anos resolveu tentar a vida em outras plagas. Foi para os Estados Unidos terminar o curso colegial. Ele comentou-me uma vez que seu pai sempre dizia com relação a ele: “Esse menino vai andar com as próprias pernas”, numa alusão à perspectiva de que ele ia construir sua vida sem depender de ninguém, nem mesmo dos pais. E assim foi.

Nos EUA terminou o colégio e ingressou numa escola de engenharia, estudando a noite e trabalhando durante o dia para pagar os seus estudos. Depois foi engenheiro de operações em uma grande empresa petrolífera onde adquiriu a experiência que nortearia seu futuro profissional.

De volta ao Brasil, já experiente e dominando o idioma inglês como um nativo, assumiu um cargo executivo na Shell, com sede no Rio de Janeiro. Depois convidado para a gerência geral das Tintas Ypiranga em São Bernardo do Campo. Tempos depois foi convidado para assumir a diretoria Administrativa e Financeira de uma empresa  petroquímica de um grande grupo empresarial, o Unipar, com sede no Rio de Janeiro.

 No Rio de Janeiro morou no mesmo prédio que o General Figueiredo, que depois se tornaria o quarto general presidente com quem estabeleceria uma longa amizade. Quando da posse de Figueiredo como presidente da República, Luiz recebeu o convite para participar da cerimônia de posse. Agradeceu o convite alegando problemas particulares, mas seu comentário foi bem típico: “Vou procurá-lo somente depois que ele terminar o mandato, pois não quero dar a impressão de que estou precisando de alguma coisa”.

Era uma pessoa muito reservada e mesmo com os profissionais mais próximos, mantinha uma rígida formalidade, não admitindo intimidades. Entretanto, era sempre educado e cordial com todos, independentemente do nível hierárquico. Era rígido em seus princípios de gestor. Tinha por princípio a meritocracia, rejeitando o apadrinhamento. Odiava a expressão “time que está ganhando não se mexe”, pois acreditava que isso gerava acomodação nas organizações. No final do ano participava da brincadeira do amigo oculto, mas nunca ficava para a distribuição dos presentes, deixando para a secretaria a incumbência de representá-lo. Num ano fui sorteado como seu “amigo” e tratei de consultar a secretária sobre seus gostos e interesses. Foi assim que comprei duas boas seleções de música erudita na velha loja Bruno Blois.  Depois das festas de fim de ano ele veio pessoalmente me agradecer pelo presente e elogiando a qualidade dos discos.

Não gostava de elogios à sua pessoa. Via nisso sintoma de bajulação. Quando se desligou da empresa para a aposentadoria, participou de uma última reunião no conselho administrativo no Rio de Janeiro e seu sucessor resolveu tecer loas ao grande gestor durante sua passagem de quase vinte anos na empresa. Segundo testemunha, ele ficou profundamente irritado, mas deixou para falar com o amigo no voo de volta a São Paulo. “Eu nunca pedi para ninguém elogiar o meu trabalho e não lhe dei procuração para tal”.  Não disse mais nenhuma palavra durante a viagem.

Encontrei com o Figueiredo em um supermercado alguns meses atrás. Estava com a esposa fazendo compras. Demonstrou simpatia ao me encontrar e esboçou o desejo de reencontrar pessoas com as quais havia convivido durante os longos anos de empresa. Fiquei de fazer uns contatos e retornar. Infelizmente ele viajou antes de poder rever velhos amigos em 08/3/2016. Deixou esposa, filhos e netos.
JOÃO CABRAL DE MELO NETO


Um dos maiores poetas brasileiros, rigoroso na técnica de construir versos trabalhando o sentido das palavras de forma fria e pragmática. O canavial, o melado e o açúcar corriam no seu sangue. Pernambucano da zona açucareira, cresceu observando os mares verdes de cana. Consta que Cabral não gostava de música. Dono de uma enxaqueca vitalícia, tomou milhares de comprimidos para amenizar a dor e escrever seus versos. Era um sofredor. A música devia lhe torturar a caixa craniana e por isso, talvez, o desprezo por essa arte.
Por azar ou por sorte, teve seu Auto de Natal pernambucano: Morte e Vida Severina, musicada por um compositor quase adolescente, o Chico Buarque, e tudo por insistência do amigo dramaturgo e psicanalista Roberto Freire que queria apresentar o Auto num festival em Paris onde acabou sendo premiado.  Nunca se soube se gostou ou não gostou da peça musicada. Quando perguntado sempre respondeu com evasivas. Amigo de Vinicius de Moraes, o criticava por ter abandonado a poesia pura e se dedicado à música popular. Arnaldo Jabour conta em uma de suas crônicas que presenciou Cabral cutucando o amigo Vinicius por causa de canções como “Garota de Ipanema” e “Na Tonga da Milonga do kabuletê”. Mas o velho Vinicius não se incomodava e preferia as canções que o povo cantava do que os poemas que quase ninguém lia.
Cabral além de não gostar de música, tinha outro defeito a meu ver. Detestava a obra do poeta lusitano Fernando Pessoa. Considerava-o responsável pela agonia da poesia. Não poupava nenhum dos heterônimos, pois segundo ele, Pessoa influenciava negativamente vários poetas, incluindo Drummond no final de sua vida.   Os seus versos derramados e sentimentais eram, para ele, um desserviço à poesia. Para Cabral a poesia era algo racional, com versos construídos como um engenheiro calcula a estrutura de um prédio, sem emoções. Em seu poema O Engenheiro, ele compara a engenharia com a poesia, geometrizando, buscando a exatidão da linguagem. Poesia para ele era fruto do trabalho paciente, lúcido.
Conheci João Cabral pessoalmente em São Paulo, em 1968, quando esteve presente num avant première da peça “O & A” escrita e dirigida por Roberto Freire, no teatro TUCA. Depois da peça, teve uma noite de autógrafo do poeta, mas eu estava sem dinheiro para comprar o seu livro Poesias Completas, lançado na época. Com os trocados que tinha no bolso, comprei um livreto de ”Morte e Vida Severina” por insistência do amigo Tomás Padovani com quem fui ao evento.  Enfrentei a fila todo envergonhado em pedir um autógrafo para o escritor. Enquanto esperava, ouvi outros estudantes perguntarem o que ele achava da situação política no Brasil (Estávamos em uma ditadura) e ele respondia sempre: “Não sei, pois estou morando fora do país há muito tempo e não tenho acompanhado as notícias do Brasil”. É evidente que mentia, pois era funcionário público (cônsul em Barcelona) e temia o aparelho repressivo do Estado. Nos autógrafos ele se limitava a assinar seu nome completo em todos os livros, riscando seu nome impresso. Chegou a minha vez e ele antes de assinar me olhou como quem pensava “como esse pirralho se atreve a me pedir o autógrafo num livreto”. Sua expressão era de quem estava com dor de cabeça. Já sabia disso, pois havia lido sobre ele numa revista e naquela época, também, sofria com uma cefaleia quase diária. Cumprimentei-o longamente e agradeci o autógrafo.
Sempre que via o livro do João Cabral nas livrarias folheava, lia um ou outro poema e desistia de comprar, sempre arrependido de ter o autógrafo do poeta em um livreto que às vezes desaparece em minha estante ou em alguma gaveta.  Muitos anos depois ganhei, como presente de aniversário, o livro que não pude comprar na época, de um velho amigo, professor de literatura, que escreveu a dedicatória: “Ao amigo sociólogo que tem seu it de poesia”.



ESTUPRO DE MENOR CAUSA INDIGNAÇÃO NO PAÍS E NO MUNDO

Uma menina de dezesseis anos foi estuprada no Rio de Janeiro e as fotos do crime foram postadas na rede social. Absurdo, barbárie, insanidade... Não haveria adjetivos suficientes para qualificar o absurdo ocorrido na cidade maravilhosa, maior ponto turístico do país, futura sede das Olímpiadas, competição esportiva cujo objetivo, desde sua criação pelos gregos, é de integrar todos os povos, buscando a paz e a harmonia.
Fato semelhante aconteceu recentemente na Índia, quando uma estudante foi violentada por um pequeno grupo em um ônibus. A indignação mundial obrigou a polícia local a prender e julgar os criminosos.  Não sei se ainda estão presos, pois a Índia é um mais corrupto do que o Brasil. Aliás, entre os BRICS, o Brasil é considerado o menos corrupto.
Mas o Brasil vai ser sede das Olímpiadas, com atletas e turistas do mundo inteiro. Ninguém estará seguro, devem pensar europeus, norte-americanos, japoneses. Somos um dos povos mais violentos do mundo. A cada onze minutos, uma mulher é estuprada em nosso território, uma terra sem lei, sem segurança, sem direitos.  O velho oeste americano é brincadeira perto do que acontece entre nós. Vivemos num estado de guerra, onde parece que há licença para matar, roubar e estuprar.
Essa notícia me fez lembrar que em 1967, em São Caetano do Sul, uma menor de idade, foi estuprada nas dependências do Tiro de Guerra e depois abandonada numa rua próxima. Ela foi recolhida por uma viatura policial e levada a um hospital onde foi constatada a violência. Levada ao estabelecimento militar, ela indicou um a um os seus algozes. Um deles injustamente, pois estava dormindo quando ocorreu o crime. Uns dez jovens, de boas famílias, participaram da barbárie.  Foram todos expulsos do Tiro de Guerra e processados pela justiça militar, mas que se saiba nenhum deles foi preso. Alguns foram prestar serviço militar em outros estados, perderam seus empregos, noivas e namoradas. É provável que não tenha tido muita projeção na época por estarmos em uma ditadura militar. Todos os rapazes justificavam que a garota se oferecia para os recrutas na porta da guarnição militar, como se isso os eximissem de culpa.
Isso é muito triste e desalentador, ainda mais quando um conhecido ator pornô foi recebido pelo novo ministro da educação para manifestar seu apoio ao novo governo. Esse pseudo ator num depoimento na televisão admitiu que fizera sexo não consensual com uma Mãe de Santo. Depois ele alegou que era apenas ficção. Ficção ou não, só o fato de fazer tal depoimento merece indignação de todos.
Enquanto isso, a permissividade de uma sociedade doente gera mais de quarenta mil estupros por ano, sem contar os casos não notificados, pois a dor na alma é tão grande que muitas preferem se calar, sufocando a indignação pela violência contra seus corpos.


MAIORIA ABSOLUTA

Com cinquenta por cento mais um, são tomadas decisões em nome da maioria que podem afetar a todos, incluindo aqueles que votaram contra. Quem estabeleceu essa medida matemática que as decisões da maioria simples são as melhores, as mais válidas, as mais racionais e que representam a totalidade?
Assim, muitas decisões são tomadas em nome de uma pretensa maioria que pode gerar sérios problemas para todos, pois a maioria pode ter sido manipulada por engenhosos sistemas de comunicação. Vence quem teve o melhor discurso, mas se o discurso foi ideológico, no sentido em que a ideologia é uma forma de manipulação da realidade, quando se oculta parte da realidade e mostra apenas um lado?
O exemplo do Reino Unido é sintomático, pois os defensores do Brexit não contaram tudo para os eleitores, mas apenas o que lhes interessavam. Não disseram aos eleitores ingleses que a saída geraria um queda significativa no PIB, o risco da Escócia e Irlanda do Norte saíram do Reino Unido, a saída das sedes de grandes instituições bancárias de Londres, grande número de desempregados dentro e fora, pois centenas de milhares de ingleses estão empregados em países europeus e precisarão voltar para casa, evidentemente sem empregos. O discurso xenofóbico e racista de que os estrangeiros estão roubando os empregos ingleses tem o poder emocional de incitar o ódio, a paixão, mas nunca a razão.
Além do mais, trinta por cento dos ingleses deixaram de votar, provavelmente por estarem desinteressados em questões políticas e deixaram para os 70% o poder para decidir. É bem possível que aqueles que perceberam o risco da decisão devem estar arrependidos por não terem votado de acordo com seus interesses.
A maioria tem os seus riscos e podem ser bombásticos. Se a unanimidade é burra como diria o dramaturgo Nelson Rodrigues, que dirá uma maioria simples? Quem deu aos 51% o direito de decidir pelos outros 49% impondo a todos uma decisão que pode estar absolutamente errada e movida por paixões, que todos sabem nunca são racionais.
Aliás, bem disse Max Weber que a maioria nunca está no poder. O poder é sempre das minorias que se revezam. São as minorias que comandam os partidos ou movimentos de massa, que impõem as suas vontades definindo qual é a verdade. Escolhem de que lado o povo deve ficar, qual será o candidato em que o povo deve votar.

Por isso acredito que quem venceu um pleito não tem o direito absoluto de se considerar o ungido pelo voto da maioria simples e tomar as decisões contra a vontade dos demais. As democracias, como disse Tocqueville, não podem prescindir dos direitos das minorias, que devem ser ouvidas antes da tomada de decisões que impactem em suas vidas.
FESTANÇA JULINA,

Festa junina é tudo de bom. Tem quentão, vinho quente, pinhão, batata doce, cuscuz e outras iguarias. Mas o que a gente vê por aí são festas artificiais, sem aquela graça da cultura caipira que os paulistas trouxeram do interior profundo para as cidades e assim resgatando a memória dos tempos de roça, de pomar, de gado pastando no atalho, da seriema correndo pela invernada, do jequitibá do lado da porteira, da pesca de anzol no riacho, do milho verde assado, do fogão a lenha, da galinha de angola e outras coisas que estão desaparecendo com o progresso.
No último fim de semana o bom e velho amigo Sinézio Dozzi Tezza e a Ana Amélia resolveram abrir a casa nos arredores da Paulistânia para uma festa julina (porque foi no dia 2 de julho) a rigor, com todos os quitutes que se tem direito. E para deixar todo mundo com inveja, convidou dois bons violeiros e cantadores para alegrar a moçada e a vechiaria. Quem é que ouve hoje em dia canções como Romaria de Renato Teixeira ou Cafezal em Flor do saudoso Luiz Carlos Paraná? E as modas caipiras de raiz? Tonico e Tinoco, Raul Torres, Belmonte e Amaraí estavam lá alegrando os corações. Ainda por cima contamos com a presença do Saulo de Tarso, o maior do Brasil, com seu vozeirão fazendo bonito com a patroa, dona Silvia, cantando em dueto na beira da fogueira. Vi gente com lágrimas escorrendo pelos rostos na penumbra da noite. E não era para menos, pois quem não se emociona com tanta coisa boa.
E por falar em saudades... é bom lembrar as nossas festas juninas que durante quinze anos mobilizou a nossa turma. Um mês antes nos mobilizávamos para organizar a festa. Um grupo cuidava das músicas, pois o festival de canções juninas era o ponto alto e porque não dizer o mais importante. Tinham também os balões, ambientalmente incorretos, mas fazia parte da tradição e da transgressão. Com o tempo a gente vai percebendo que os balões, apesar de bonitos e emocionantes, representam um perigo pelo risco de incêndio urbanos, em florestas ou nos campos. Mas tudo ali valia a pena, mesmo quando as almas ainda eram pequenas.
E ainda falando em saudades, não dá para esquecer da figura imponente do grande Erasmo Luiz Carlos imitando Miguel Aceves Mejia, introduzindo um pouco da cultura mexicana nos festejos brasileiros. Ele já partiu, mas sua presença continuará eterna em nossas recordações.
A vista da represa no fundo quintal foi algo a parte com o sol se ponto em meio às palmeiras e arvoredos com tudo que a imaginação poética pode trazer. Além disso, com o carinho e simpatia do casal e dos filhos que sabem receber com simpatia e generosidade.
Obrigado Sinésio, Ana, Thais e Paulinho pelos bons momentos que passamos juntos aquecidos pelo calor da fogueira e das belas e inesquecíveis canções. Vamos juntos porque o tempo não para.


sexta-feira, 22 de abril de 2016

Eta cafezinho bom!

O café está glamorourizado. Virou uma bebida sofisticada com degustação e outros adereços. Um barista é capaz de descobrir no aroma de um café, notas de amêndoas, sabor de cítricos ou um leve toque de cacau fresco. Alguns se arriscam em afirmar que determinada marca de café gourmet tem traços de alma penada com sofrimentos frutados. Brincadeira? Pode até ser, mas algumas fragrâncias detectadas por alguns baristas, imitando os someliers são dignas da imaginação criadora, não acessíveis aos comuns dos mortais.
Já ficaram conhecidas variedades de café cujas amêndoas passaram pelo aparelho digestivo de alguns animais, como gatos selvagens de uma região asiática ou mesmo de uma gralha brasileira do Espirito Santo. Nos dois casos os bichos ingerem os frutos dos cafeeiros, digerem a casquinha adocicada e evacuam os grãos, que são recolhidos, limpos e higienizados para serem consumidos como um dos cafés mais caros do mundo. Os saboreados pelos gatos selvagens chegam a custar a bagatela de 500 dólares o quilo. Os digeridos pelas gralhas brasileiras não chegam a tanto, mas fala-se em cifras em torno de 200 dólares. A justificativa para tamanho preço é que as enzimas digestivas dos animais agregam notas diferenciadas de sabores ao grão, imperceptíveis aos reles mortais.
Não há nada que prove alguma diferenciação nestes cafés especialíssimos, mas o fato de dar muito trabalho para coletar os grãos espalhados pelas plantações e a retirada dos resíduos fecais podem justificar os preços inflacionados. Há toda uma mística em torno do assunto, mas me desculpem os baristas altamente especializados, mas esses cafés passaram, em sua cadeia produtiva, pelo popular e pouco sofisticado cocô.
Mas cá entre nós, eu adoro café e desde muito pequeno. Na casa dos meus pais sempre curtíamos café feito no coador de pano variando entre a colocação do pó no coador ou depositado diretamente na caneca de água, ainda no fogo, antes de coar. O café em casa tinha um sabor muito especial e era diferente dos cafés vendidos no mercado por uma razão muito simples. Nossos parentes de Lavinia, região noroeste de São Paulo, cultivavam café numa fazenda de mais de 100 alqueires e nos enviavam em todas as colheitas, um saco bem granado de grãos tipo arábico, o mais comum por essas bandas. A encomenda chegava a estação de trem de São Caetano e meus pais eram avisados por telegrama para retirarem o produto despachado depois de uma viagem de mais de 600 quilômetros de estrada de ferro. Na época esta estação tinha uma arquitetura em estilo inglês do início do século passado como a Estação da Luz. Uma carroça era contratada para fazer o transporte e aí começava um processo que, diga-se de passagem, eu detestava. O café era torrado por mim, que ficava privado de jogar minhas peladas nas ruas ou de brincar com carrinhos de rolimãs por dois ou três dias até que uma lata de vinte litros de café estivesse torrado. Depois vinha a outra tarefa que era moer o dito cujo até encher pequenas latas para o consumo diário.
Esse café, pelas minhas lembranças olfativas e gustativas tinha um sabor especial. Talvez porque na torrefação manual ficava levemente fora do ponto ou mesmo porque durante a viagem o saco vinha misturado com galinhas e porcos que eram transportados pela estrada de ferro. Mas minhas tarefas não ficavam por aí. Aprendi a coar ou passar um café digno de elogios por toda a família e visitantes que passavam sempre lá em casa para degustar o nosso delicioso café. Um vizinho, chamado Antônio Piffer, um simpático velhinho italiano era um degustador habitual do nosso café. Quando não tinha a bebida pronta minha mãe gritava: “Renato, venha fazer um cafezinho pro nono” e completava para que ele não pensasse que era por preguiça: “Ele sabe fazer um ótimo café, seu Antônio”.  Como eu gostava muito do nono, era com prazer que fazia e servia o cafezinho em troca de algumas boas charadas e histórias de sua Itália.
Hoje com a profusão de variedades de cafés (existem por volta de quinhentas), ainda não consegui identificar o café de Lavinia, cultivado pelos meus parentes até os anos sessenta. Por melhor que sejam os expressos da melhor qualidade, sempre falta um toque de saudade da minha casa, dos meus pais, que nunca mais vou encontrar em lugar nenhum.


O BAIRRO DA LIBERDADE, A FEI E OUTRAS HISTÓRIAS

O bairro da Liberdade, por estranho que possa parecer, não leva esse nome em razão de movimentos libertários. Assim, não foi por causa da independência, da República ou da Abolição da escravidão que o bairro ganhou esse nome A origem do bairro tem uma razão que não lembra em nada seu nome.  Tudo começou com uma forca, construída em madeira de lei por ordem do governo imperial no início do século XIX.  De largo da Forca, onde ainda hoje existe a capela dos Enforcados, é que surgiu o nome Liberdade.
Nas frias manhãs paulistanas, o povo se reunia para assistir os enforcamentos determinados por julgamentos nada confiáveis. Por incrível que pareça, era um evento turístico na cidade assistir as execuções. Vinha gente de todos os cantos do pequeno povoado paulistano para compor a plateia do “espetáculo” como são mostrados nos filmes que retratam tempos idos. Alguns até faziam piqueniques às margens do Tamanduateí, na época ainda um rio.
Os enforcamentos ocorriam por motivos torpes, como o mais famoso, o do soldado Francisco José das Chagas, executado em 1821 por protestar contra o atraso de cinco anos nos pagamentos dos soldos. Diz a história que por falta de corda, tentaram enforcá-lo com um laço de couro que não suportou o peso do corpo e quebrou. Na segunda tentativa, usando o mesmo tipo de material, o problema se repetiu. Depois disso o pobre homem foi executado a pauladas. Para o povo, a quebra dos laços foi uma mensagem divina contra a injustiça, fato que culminou na construção da capela dos Enforcados. Nas crônicas daquele tempo, registra-se que após a tábua que sustentava os pés dos condenados cair, o povo gritava: “Libertou-se”. É por essa razão que o nome do bairro ficou Liberdade. Um nobre nome com uma origem pouco nobre.
No cotidiano a maioria dos enforcamentos tinha como vítimas os escravos que fugiam ou se recusavam a trabalhar além das suas forças físicas. Os “proprietários” ajudavam a condenar os escravos capturados para que servissem como exemplos para os demais e assim evitar a revolta dos cativos.
No início do século XIX o bairro já estava crescendo, ampliando sua área de ocupação e foi para lá que o professor de química da Escola Paulista de Medicina, Cristóvão Buarque de Holanda se mudou com sua esposa Heloisa, na Rua São Joaquim, número 6, onde em 1902, nasceu o primogênito do casal: o futuro historiador Sérgio Buarque de Holanda, que em 1943 se tornaria pai do compositor e escritor Francisco Buarque de Hollanda.
Mas nesta época o bairro já começou a ser ocupado por imigrantes japoneses. Em razão da topografia bastante acidentada do local havia muitos porões nas casas, os quais eram alugados por preços módicos para os pobres imigrantes que por lá desenvolviam as suas atividades como artesãos e comerciantes.
Mas foi também nesse bairro no início dos anos 1940, na mesma Rua São Joaquim, que um padre jesuíta, Roberto Saboia de Medeiros, deu início ao que vem a ser hoje o Centro Universitário FEI. Em 1941, ele criou a ESAN (Escola Superior de Administração de Negócios) primeira escola de administração do país, utilizando como base o currículo de Harvard (EUA).
Hoje a Rua São Joaquim termina na Avenida Senador Vergueiro, pois com as reformas urbanas, ocorreram muitas transformações no bairro. O trecho onde nasceu o historiador não existe mais.  O Centro Universitário FEI continua com um campus no bairro, mas na Rua Tamandaré e, outro no bairro Assunção, em São Bernardo do Campo. Hoje o bairro consagrou-se como um reduto da laboriosa colônia japonesa, com lojas típicas, museus e com os arranha-céus resultado da expansão da cidade para as periferias.