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terça-feira, 7 de setembro de 2010

A ROCA DE FIAR

Sempre que visitava antiquários, gostava de ficar observando as antigas rocas de fiar e imaginando que uma delas poderia ter sido de uma das minhas bisavós e até fiquei tentado a comprar uma para deixá-la como relíquia lá em casa. Por sorte, uma amiga de longa data, a Luci, ligou um dia desses avisando que tinha um presente para nós, que ficaria muito bem em nossa casa. Para minha surpresa, era uma roca de fiar, muito antiga, que ela ganhou de presente. Seu patrão se desfez de uma fazenda e ofereceu a ela, entre outros objetos, uma roca, que ela gentilmente nos presenteou. Hoje uma centenária roca de fiar está presente em nossa casa e, além de servir como objeto de decoração, é a alegria do Tom, meu neto, que fica encantado ao girar a roda da roca. Para ele é um divertimento quando vem nos visitar e passa algumas horas em nossa companhia. Ele grita e ri de modo a ouvir-se de longe, como se a roca fosse a máquina do mundo.
Recordo-me, quando criança, que minha mãe contava histórias e nós nos sentávamos à beira da cama para ouví-la. Meu pai depois de alguns minutos já roncava e ela continuava tecendo velhas histórias da carochinha, emendando uma na outra, sempre cutucada pela Neusa, minha irmã mais velha. E a roca de fiar aparecia em algumas delas. A mais conhecida era a da Bela Adormecida, recontada pelos irmãos Grimm. O que é uma roca de fiar mãe? Perguntei mais de uma vez. Ela explicava, explicava e eu não conseguia entender, até quando vi numa gravura de um livro de histórias infantis que apareceu lá em casa. Mesmo assim não consegui descobrir como funcionava.
As rocas de fiar foram inventadas na China ou na Índia há mais de 1000 anos e chegaram à Europa, provavelmente, através dos navegadores portugueses. E foram através dos lusitanos que chegaram ao Brasil colonial. É um instrumento para torcer fios para depois utilizá-los nos teares, que permaneceu praticamente igual durante séculos e séculos. Os desenhos ou fotografias de antigas rocas mostram que eram idênticas as rocas construídas no Brasil e algumas delas ainda existem em museus ou em antiquários. No Brasil, mesmo no início do século XX, ainda se utilizava as rocas para fazer fios. Naqueles tempos, antes da popularização das roupas de confecções, comprar tecidos em lojas ainda era um luxo acessível a poucos. Para a população do interior, muito distante dos centros urbanos, roupas, cobertores, redes, mantas, eram todos feitos em teares bastante rudimentares e a roca era fundamental para a obtenção dos fios.
Minha mãe contava que a avó dela passava horas e horas na roca. Em volta dela, as mulheres conversavam, trocavam informações, fofocavam ou contavam casos; enquanto isso os maridos falavam sobre política na sala. E assim, a velha roca era como uma mídia nos idos tempos. “E o que foi feito da roca de fiar da sua avó”? “Ah! Deve ter sido dada de presente a uma das escravas de meu avô”, respondeu minha mãe. Poucas pessoas se preocupariam em guardar esse objeto para a posteridade. Quem guardou, vendeu como peça de antiguidade.
Enquanto isso, sem suas funções originais, a nossa roca de fiar, que deve ter servido como instrumento de trabalho para várias gerações de senhoras dos confins do Brasil, ocupa seu lugar ao pé da lareira, silenciosa, como convém a um objeto de museu. Nas noites de lua cheia ouço, em altas horas, a sua roda girar. Levanto e vejo uma velhinha pedalando a roca, mas sem nenhum fio para torcer. Volto à cama em silêncio para não incomodá-la e continuo dormindo como sempre estive. Em meus sonhos, sonho que faço coisas durante o sonho.