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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

OS NOSSOS PRESIDENTES


Lembro-me ainda criança no final dos anos 60 o quanto era difícil escrever Kubitschek, o sobrenome de origem tcheca do presidente da República. Quem não conseguia escrever corretamente perdia pontos na prova e por isso me esmerava em escrever o nome complicado do primeiro mandatário. Naquela época via o presidente apenas em jornais e revistas, pois não tínhamos televisão em casa. Ainda criança cheguei a ver o JK na televisão numa entrevista. Ele falava com bastante desenvoltura e de forma muito otimista sobre o Brasil, apesar de ter ficado longe do país durante muito tempo. Uma das frases que disse foi: “Ao viajar de automóvel por São Paulo, fiquei espantado com o progresso, tive a impressão de estar nos Estados Unidos, com boas estradas e fazendas bem cuidadas”. Era um sujeito simpático, elegante e bem humorado, mas os seus críticos não perdoaram o caos financeiro que deixou pela construção de Brasília. O presidente que o sucedeu, JQ era muito carrancudo, sempre mal humorado e com o colarinho em desalinho. Meu pai era um anti-janista e talvez isso tenha ajudado a construir a minha imagem sobre ele. Aliás, foi do Jânio, a minha primeira caricatura, que foi amplamente aprovada pelo meu velho. Infelizmente a minha carreira de caricaturista feneceu por fala de entusiasmo e talento. O sucessor, João Goulart, me parecia estar sempre deprimido, tristonho, sugerindo estar em total desconforto com o cargo de presidente.

Vieram os militares, quase sempre de óculos escuros. Ouvi dizer que os militares usam esse adereço para evitar o olho no olho e não se envolverem emocionalmente com as pessoas. O Castelo Branco ficou pouco tempo e não tive tempo de acompanhar sua trajetória, mas o Costa e Silva povoou o imaginário da população durante sua permanência na presidência. Não era por suas qualidades, mas pelas anedotas que se contava a seu respeito. É claro que a maioria delas eram adaptações de velhas piadas, mas como diz o ditado: Onde há fumaça há fogo, é possível que refletissem alguma verdade. Uma das anedotas que se contava muito na época era assim: Estava o presidente em um cortejo por uma estrada, quando ele avista uma placa e pergunta ao seu assessor: “Que empresa estatal é essa que eu não conheço? Qual empresa senhor presidente? Essa tal de Emobrás! Desculpe-me presidente, mas não é uma empresa estatal, mas apenas uma placa indicando que a estrada está em obras”. Mas durante a visita da rainha da Inglaterra, os jornais publicaram, muito sutilmente, que o presidente cometera uma gafe. A rainha levantou um brinde à cidade de Brasília, cuja data de fundação, coincidia com o seu aniversário. O presidente teria levantado e feito um brinde ao aniversário da Rainha, o que causou risos e desconforto entre os presentes.

As gafes presidenciais têm sido constantes, principalmente nos cerimoniais mais rígidos ou também por se falar demais. O Collor, falou alto e em bom tom, num comício transmitido pelo jornal nacional que tinha “aquilo” roxo. Nada tão desagradável para um presidente da Republica, expor publicamente a cor de suas partes íntimas como se fosse algo para se gabar. Puro machismo. O Itamar Franco foi flagrado com o clic indiscreto de um fotógrafo, dançando com uma moça sem calcinhas no sambódromo do Rio de Janeiro. Coitado do Itamar pagou um tremendo mico. Fernando Henrique, um intelectual de renome e com experiência internacional, não deixou por menos e cometeu vários deslizes durante seu mandato. Um deles, ao criticar os professores universitários que não pesquisavam, disse: “O professor que não pesquisar e não publicar, coitado, vai ter que dar aula”. Ora, ora, professor é para fazer o que? Com a frase, desqualificou professores e ele mesmo, um mestre aposentado.

Ciro Gomes candidato a presidente, ofendeu, numa entrevista, sua namorada, a atriz Patrícia Pillar, ao responder sobre o papel dela em sua campanha: “O papel dela é na cama, disse com a autoridade de um nordestino machista, de bom calibre. Bom, não precisa dizer que sua campanha despencou depois disso. Anteriormente o Paulo Maluf também deixou seu registro para a história do machismo brasileiro: “Está com desejo sexual, tudo bem, mas não mata”, ao se referir ao estupro seguido de assassinato. O Lula não conseguiu aprender com o Collor, o Ciro e Maluf e soltou a máxima em termos de machismo: “Eu me casei e engravidei a galega na primeira noite”. Tudo isso para provar que o presidente é um homem macho de verdade, desses que matam a cobra e mostram o pau. Isso me lembra uma palestra sobre sexo que um padre dominicano fez há muito, muito tempo. Ele deixou bem claro que um homem não se mede por ter relações sexuais, pois isso qualquer animal é capaz de fazer, mas sim pelo seu caráter, sua cultura, dignidade, honra etc. etc. Aquela frase marcou minha vida e sempre que vejo alguém se gabar de seus feitos sexuais, lembro-me da frase e comparo a pessoa a um bicho qualquer, não um verdadeiro homem, pois não é isto que engrandece alguém. Além disso, soa como cafajestismo expor a vida sexual publicamente, seja ela da qualidade que for. E, convenhamos, quem precisa disso para se afirmar, com certeza deve ter lá os seus problemas.

Mas como o nosso presidente, um ex-operário, que se educou parcamente, leu muito pouco e conviveu em um ambiente machista e preconceituoso e que fala pelos cotovelos, as gafes tendem a se repetir. Aquela frase durante a visita a um país africano em que pronunciou a máxima: “Como esta cidade é limpa, nem parece que estamos na África”, é fruto do preconceito social e racial, muito comum entre os brasileiros. Muitas pessoas não falam, mas pensam muitas vezes dessa forma, mesmo sendo educadas. Educação escolar não reduz o preconceito das pessoas, pois ele é adquirido em casa e num processo de socialização mais amplo.

A solução, para evitar esses vexames, que poderiam em outros tempos até provocar uma guerra, é “Em boca fechada não entra mosca”, ou seja, falar estritamente o necessário, de acordo com o script previamente preparado pelos assessores. Nada de dar opinião sem antes trocar idéias com alguém preparado e de cabeça fresca. Os discursos devem ser lidos e relidos antecipadamente para evitar problemas diplomáticos. Afinal, machismo e preconceito estão longe da civilização e para sermos um país civilizado, é preciso, antes de qualquer coisa, que os nossos homens públicos sejam educados e pensem antes de abrir a boca. E que as mulheres aprendam que homens que não respeitam o outro sexo, estão longe de respeitar as mínimas regras da civilidade e precisam aprender muito antes de se candidataram a cargos públicos.

Renato Ladeia

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

OBAMA E A GRANDE VIRADA


Na pele de um negro ou Black like me, de John Howard Griffin, foi a história de um jornalista norte-americano branco nos anos 1960 que raspou os cabelos e escureceu a pele através de processos químicos e foi viver como um negro no sul do seu país. Este livro construiu o meu imaginário adolescente sobre os Estados Unidos, uma nação que segregava a minoria negra de forma cruel e violenta. Relembro uma passagem em que ele estava sentado em um ônibus e olhou para uma mulher branca para oferecer-lhe o lugar. Ele foi prontamente repudiado simplesmente por se atrever a olhar para uma mulher branca. É através do olhar que nos identificamos como seres humanos e esse olhar lhe foi negado. Griffin sentiu uma profunda solidão, num mundo que era hostil a ele e a cor da pele que não era dele, mas apenas uma representação. Como um ator, ele voltou ao mundo real e publicou o que viu e sentiu na pele de um negro.
Não sei se todos os afro-americanos, depois de mais de quarenta anos da universalização dos direitos civis nos EUA decretados pelo Presidente Kennedy, já podem olhar para um branco como iguais, mas a eleição de um meio negro para presidente provocou uma profunda alteração nas relações raciais americanas. O que é surpreendente mesmo, é que Barack Obama, fruto proibido do racismo americano: o casamento de um negro com uma mulher branca rompeu várias barreiras sociais. Primeiramente, entrou na mais famosa universidade americana, Harvard, elegeu-se senador e conseguiu superar a favorita Hillary Clinton, que representava, não somente a elite branca, mas também a experiência política adquirida durante os oito anos de mandato do marido, Bill Clinton.
A eleição de Obama tem vários ingredientes. Não podemos atribuí-la apenas a incompetência de George W. Bush ou ao discurso conservador de McCain e sua candidata a vice, Sarah Palin. Obama foi quem melhor inovou em termos de utilização da nova mídia, a Internet. Rapidamente ele conquistou jovens hiper-conectados, incluindo brancos, negros e hispânicos que criaram uma eficiente rede de arrecadação de recursos para a campanha. O discurso de Obama foi mais sensível, eloquente e por vezes, poético. Ele conseguiu atingir de forma emocional, todos aqueles que estão desesperançados, excluídos ou que simplesmente sonham com um mundo melhor. O seu perfil carismático impôs diante do perfil racional burocrático do oponente. Manteve-se tranquilo diante dos ataques a lá pit-bul dos adversários, respondendo com elegância e firmeza. O grande número de eleitores que foi às urnas, surpreendendo a todos, foi um ato de vontade, de determinação daqueles que querem mudar a América. Recordo-me que em junho passado, um brasileiro que reside a quinze anos nos EUA afirmou com segurança que o McCain levaria a melhor, porque os que diziam que votariam em Obama tradicionalmente não vão às urnas. Ele errou e muita gente bem informada foi pelo mesmo caminho, porque não conseguiram avaliar as transformações que estavam ocorrendo sob seus pés. A América não é mais a mesma. A América onde Tocqueville, um francês aristocrático, se entusiasmou com o nascimento da primeira grande democracia do mundo, com o voto universal para todos os homens trabalhadores (brancos), caminha em direção às incertezas do mundo moderno.
A América mudou? Muito provavelmente sim. A população branca americana está em franca redução, pois os brancos têm menos filhos do que os negros e hispânicos. Sobrenomes como Garcia, Rodriguez e Lopez estão em alta, superando tradicionais nomes anglo-saxões em algumas regiões. A América está mudando porque a maioria dos jovens repudia também as velhas práticas do american way of life; o ideário de que os EUA são a polícia do mundo e a ideologia de que vale a pena morrer pela pátria e pela democracia está perdendo força. A América está mudando porque a globalização encerrou a era de muitos empregos e bons salários para todos, inclusive para os brancos. A América como grande parte do mundo também está “exportando” seus bons empregos para a Ásia e se tornando uma sociedade de serviços, que hoje já é uma atividade que ocupa a maioria da população economicamente ativa. Neste quadro, as minorias são as parcelas da população que mais sofrem.
Lamentavelmente, pelo menos em um aspecto, a América não mudou e está se tornando pior: a violência. O filme Tiros em Columbine é o retrato da sociedade americana moderna. Os casos de atiradores que assassinam em série se multiplicam. Armas extremamente perigosas podem ser compradas em qualquer esquina, sem um controle por parte das autoridades. O principio da liberdade individual impera sobre o bom senso e impede que haja um mínimo controle sobre a proliferação de armas entre os civis. Aliás, esta é uma das propostas de Obama e em razão disso, as vendas de armas e munições tiveram um aumento estrondoso após os resultados das urnas.
A história americana, provavelmente seja a mais pródiga em assassinatos de políticos e líderes em todo o planeta. Lincoln, Kennedy, Robert Kennedy e Martin Luther King são exemplos que não devem ser esquecidos. Reagan sofreu um atentado e por pouco não teve a mesma sorte. A democracia liberal é o império da maioria e sempre sobram descontentes e inconformados. A segurança de Obama é motivo de grande preocupação, não apenas fora dos Estados Unidos, quando as visitas dos presidentes americanos são cercadas por grandes e até exagerados aparatos, mas dentro do próprio território americano. Mas sejamos otimistas e vamos esperar que os americanos tenham realmente mudado. Longa vida ao Barack Obama.
Renato Ladeia

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O IRAQUE NUNCA ESTEVE TÃO PERTO



O Iraque não está tão longe. A expressão "está para lá de Bagdad" perdeu o sentido no mundo globalizado. Infelizmente, a violência que campeia por lá, também está por aqui. De repente podemos ser uma das vítimas ou nossos parentes, amigos e conhecidos. Estamos todos com as cabeças enfiadas na terra, como avestruzes, sem querer enxergar que chegamos a beira do abismo. Há tempos estamos vendo notícias que informam que grupos marginais roubaram quartéis do exército e das polícias militares. Outras dão conta de que os bandidos utilizam armas muito mais sofisticadas do que as disponíveis para nossos policiais. O embate torna-se desigual, desequilibrando o confronto. De um lado, temos policiais militares que têm esposa, filhos ou pai e mãe. Do outro, temos marginais que estão por conta da vida, ou seja, estão para o que der e vier, pois vieram de um ambiente em que a vida não tem mais nenhum valor, em que os vínculos familiares, quando existem, são bastante tênues. De um lado, profissionais de segurança que andam fardados ou podem facilmente ser identificados e de outro, profissionais do crime, sem nada, absolutamente nada, que possa vinculá-los a uma identidade.
Outra questão bastante séria, é que a criminalidade se instalou de uma vez por todas no coração do sistema capitalista. Descobriram as fragilidades do sistema, tanto legais como burocráticas e agem com tranqüilidade e aparência de lisura. Muitas atividades, aparentemente legais, são hoje contaminadas pelo crime organizado, que inclusive dispõe de esquemas de proteção, não somente dentro da própria polícia, como no sistema legislativo, pois o crime organizado financia eleições de políticos, como afirmou a antropóloga Alba Zaluar em uma entrevista que li tempos atrás. Se o crime está alojado no sistema de representação liberal burguês, talvez não haja mais nada a se fazer, usando a famosa expressão: “Se é inevitável, relaxe...”.
Agora, convenhamos, qual é a moral que um Estado tem para combater a criminalidade quando dezenas de deputados, pegos com a boca no trombone, receberam a qualificação de inocentes, que estavam apenas recebendo um “dinheirinho” a mais pelos relevantes serviços prestados a nação? Mais recentemente, vários políticos foram pegos em manipulações de concorrência para a compra de ambulância e tudo indica, pelas investigações, que muitos deputados na ativa estão também envolvidos. Não se deve falar de corda em casa de enforcado, prega o velho aforismo e por isso todos se omitem, pois há mais telhados de vidro no país do que possam perceber nossas retinas fatigadas. O presidente da República, num discurso requentado vem falar que é preciso colocar escolas no país, pois uma escola custa menos do que uma FEBEM. Ora senhor presidente, São Paulo talvez seja o estado em que escola não falta, pelo menos de ensino gratuito fundamental e médio e é onde estamos tendo uma explosão de violência, jamais vista neste país.
O buraco está mais em baixo. Com milhões de jovens entrando na fase adulta, sem perspectiva de emprego ou quando existem, os salários são tão insignificantes que muitos são cooptados pelas atividades marginais como tráfico de drogas. De nada adianta ter escolas e não ter perspectivas de trabalho, de um futuro decente. Do outro lado, os meios de comunicação vendem a imagem de uma sociedade opulenta, com jovens usando roupas e calçados de grifes famosas, criando a falsa impressão de que todos podem ter acesso. É a ideologia que vende o capitalismo como o grande espetáculo, com celebridades esbanjando dinheiro em iates e carros luxuosos, criando um contraste assustador com as periferias das grandes cidades brasileiras.
Outra questão é o discurso politizado dos grupos ligados ao crime organizado. Estariam eles aderindo a uma ideologia de extrema esquerda, colocando-se contra o sistema? Parece-me muito estranho, pois como poderia uma atividade criminosa que se desenvolveu pela simbiose com o sistema capitalista, lutar contra ele? Seria como se o crime fosse um vírus e atacasse o seu hospedeiro até destruí-lo por completo. Mas como o vírus do crime poderia sobreviver sem o seu hospedeiro natural? Numa sociedade hedonista como a nossa em que a busca pelo prazer supera todas as outras perspectivas, não se pode pensar seriamente que o crime poderia migrar para uma militância política com o objetivo de destruir o chamado sistema. Sem ele nada teria sentido, pois o resultado do crime é o dinheiro que possibilita o acesso aquilo que os mais afortunados tem de sobra. Isso motiva o crime e não ideologias superadas pelo processo histórico. Na realidade, em alguns países da América Latina, os militantes da extrema esquerda, migraram, isto sim, para a marginalidade, diante da impossibilidade de “dinamitar a Ilha de Manhatan”, como diria o poeta Drummond em sua Elegia 1938.
O que fazer diante do caos? Primeiramente, criar condições para que as pessoas tenham as mesmas condições e oportunidades como diria Tocqueville em Democracia na América. Se não existirem as mesmas condições, a igualdade se torna uma utopia tão distante como o socialismo sonhado nos anos 60. Paralelamente, seria preciso ter uma policia equipada, moderna, inteligente, bem remunerada para que possa enfrentar os desvios de conduta, os predadores sociais. Além disso, um judiciário mais ágil e uma legislação que não torne o crime compensador, em qualquer nível. Caso contrário, estaremos caminhando rumo a um beco sem saída, quando a sociedade pedirá, como última saída, um regime totalitário, capaz de por ordem no caos, tal como aconteceu na Alemanha no século passado. Como ainda diria Tocqueville, os povos democráticos querem a igualdade na liberdade e, se não a puderem obter, ainda a querem na escravidão.
Renato Ladeia

A MORTE INOVADA


“Funeral é um negócio como qualquer outro e precisa ser inovado constantemente”. A frase, ouvida num jornal na TV me deixou um tanto chocado, pois me habituei a ouvir e ver a morte como algo funesto, desagradável e que coveiro ou o agente funerário eram as piores profissões do mundo, com todo respeito que todas as profissões merecem. Quando criança passava longe das funerárias e só de pensar que um ente querido poderia ser encaixotado me causava arrepios. Lembro-me que ao descobrir que um colega do colégio era filho do proprietário de uma agência, provocou o meu distanciamento dele tal como o diabo foge da cruz. Um carro funerário passando pela rua me provocava asco e olhava para o outro lado. A cor rocha até hoje me é desagradável, por mais que queiram me convencer que é uma cor da moda.
Algum trauma de infância diagnosticaria um psicanalista interessado em algumas sessões de análise. Um medo infundado creio eu, mas pode ter origem nas histórias que eu ouvia quando criança, pintando a morte como um ser perigoso e traiçoeiro, que chegava na calada da noite para levar os escolhidos. O Sétimo Selo de Bergmann ajudou a compor o personagem sinistro em minha memória.
Que tempos modernos são esses em que um coveiro bem vestido, com terno e gravata e todo empolado, vem dizer que a morte é um ótimo negócio e que basta ser inovador para ter sucesso? As inovações a que se referiu o empresário pasmem! São os “bem mortos” (como o docinho chamado bem casado distribuído nos casamentos), lanches, doces e outras guloseimas para fazer inveja para aqueles que passam a pão com margarina e arroz, feijão, ovos e, às vezes, um bife de segunda. Senti náusea e somente não cheguei às vias de fato porque desliguei a TV e fui respirar um pouco de ar puro no jardim lá de casa. Não consigo imaginar alguém comendo em um velório. Perco o apetite só de ouvir notícias sobre uma bomba que explodiu na Palestina. O cheiro de velas e flores me provoca uma sensação horrível e nem um cafezinho se torna palatável.
Sei também que é um problema cultural. Católicos latinos lidam de forma diferente com a morte, mesmo em relação aos outros cristãos como os protestantes. Os orientais têm o hábito de receber todos aqueles que vêem se despedir do morto com uma boa refeição, mostrando a hospitalidade da família. No México, a morte é uma santa que desce dos céus para livrar os crentes do sofrimento da terra. Mas eu sou ainda sou do tempo em que se fazia velórios em casa. Um pano bordado roxo era colocado na porta de entrada para indicar para os passantes que ali um morto estava sendo velado.
Os passantes tiravam o chapéu e faziam o sinal da cruz. Hoje ninguém quer saber de velório em casa. É coisa antiquada, de gente atrasada, dizem os modernos. Um bom velório, de acordo com as regras mercadológicas, deve mesmo ser no crematório com música ambiente, garçons bem vestidos servindo uísque, vinhos e canapés. Contou-me minha filha que no velório do pai de uma amiga no crematório, colocaram em consultar a família, um fundo musical eletrizante, mais compatível com uma balada de sábado à noite. O mal estar foi geral, mas não dava nem para interromper porque a sala de som ficava muito longe do local onde o morto era velado.
Agora, uma coisa é preciso admitir, essa inovação deve ser muito interessante para os penetras, que podem fazer uma boquinha aqui e ali sem maiores problemas. Quem vai contestar a presença de alguém, mesmo que nunca tenha sido visto na vida, que veio consolar a família num momento tão traumático?
Mas foi-se o tempo em que as famílias velavam os seus mortos durante toda a noite. Hoje em dia, por questões de segurança, fecham-se as portas à meia noite e somente retornam no dia seguinte. Os assaltos se tornaram uma constante nos velórios. Os amigos do alheio chegam a altas horas e limpam os bolsos da turma e se o morto tiver alguma coisa de valor, não ficam constrangidos em levar também. Como a segurança pública é precária, o melhor mesmo é prevenir.
Quanto aos crematórios, sempre achei que era uma ótima solução para os restos mortais. Um processo mais higiênico, sem danos ambientais. Mas ao ver um documentário, tempos atrás, sobre o que acontece depois que o morto desaparece, descendo em direção ao forno, fiquei chocado. Mesmo sendo uma pessoa que tem pretensões de ser o mais racional possível, mudei de idéia. Os mortos são colocados em fila, por ordem de chegada e no final do expediente o forno é aceso e começa o processo que leva a noite toda. Depois da queima do caixão, das roupas e flores, entra a parte mais difícil, a queima da carne. Em seguida, restam os ossos com as partes que não foram tostadas totalmente e aí entra o “técnico em cremação” com uma barra de ferro e vai batendo nos cadáveres para soltar os restos de carne, quebrando todos os ossos. No final, o que sobrou da ossada, vai para um moinho para produzir as cinzas. Pode ser também que a inovação dos processos tenha chegado aos crematórios e, também, peço desculpas se cometi alguma incorreção, pois a memória é, muitas vezes, traiçoeira.
Fico pensando se os “coveiros” de crematórios, desses para quem a morte é o cotidiano mais natural, não junta todas as cinzas e as distribui pelas caixinhas para entregar para os familiares. Será que alguém vai conferir? Deve pensar o profissional. Muita gente pode estar levando gato por lebre ou um morto que não é seu. As cinzas de alguém que gostaria que elas fossem espalhadas em sua terra natal podem ter ido para o mar. Nada mais desagradável para um morto do que não ser atendido em seu último desejo. Como não soube de ninguém que reclamou até hoje, vamos levando a vida, ou melhor, a morte.
Renato Ladeia

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

LUPICÍNIO RODRIGUES REVISITADO



Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, despeito, amizade ou horror
Eu só sei que quando eu a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor


O crime de Lindembergue Alves, que assassinou sua ex-namorada Eloá e feriu gravemente a amiga dela, Mayara, me fizeram lembrar dos versos do grande compositor gaúcho, Lupicínio Rodrigues, que foi classificado como shakesperiano por Augusto de Campos. O moço não sabia, tal como o poeta, o que ele trazia no peito, depois do fim de uma relação afetiva. O poeta, como diria Fernando Pessoa, é um fingidor, mas o amante nem sempre consegue sublimar a sua dor através da poesia ou outra forma não violenta. O desejo de morte ou de dor tomou conta do rapaz que não viu alternativa, a não ser mostrar para a jovem todo o seu sofrimento, ficando exposto ao risco de perder a vida e levá-la para o mesmo caminho.
A relação tinha tudo para não dar certo. Ele com vinte e dois anos e ela com quinze. Ele, um garoto mal amado que procurava na família da namorada um aconchego que nunca teve sendo órfão de pai vivo. A proximidade com a família da menina, de apenas doze anos, quando iniciaram o namoro, criou o envolvimento. Ouvi muita gente dizer que seria um caso de pedofilia. Há aí um pouco de preconceito e moralismo. Nossas avós e bisavós etc se casavam após o início do ciclo menstrual, com doze ou treze anos. O mundo mudou, principalmente para as classes mais abastadas, mas nos confins do Brasil a infância de muitas meninas é, ainda hoje, interrompida pelo casamento, trabalho e, lamentavelmente, pela prostituição. Como eu disse, o mundo mudou e hoje as meninas, morando nas grandes cidades, chegam a visualizar um futuro diferente e ainda podem se dar ao luxo (Luxo?) de pensar em estudar (como foi o caso da Eloá, que estava reunida com colegas de escola para fazer um trabalho), ir às baladas, shows de rap, hip hop e outras formas de lazer, antes de se dedicarem às atividades domésticas e cuidarem de filhos.
Namorar uma pessoa adulta, enquanto, como menina de quinze anos, ainda vivia numa fase de transição entre a adolescência e a fase adulta, realmente pode ter sido traumático para Eloá, que percebendo a possessividade e violência do namorado resolveu acabar com o relacionamento. Para ela deve ter sido um alívio, uma libertação, mas para Lindembergue foi um martírio que alternava paixão e ódio ao mesmo tempo. O desejo de morte para Lupicínio sugere que o apaixonado estava entre cometer o suicídio ou continuar sofrendo, mas para o nosso caso real a morte seria apenas do objeto do amor. Se ela não poderia ser dele, não seria de ninguém. A Mayara, como a melhor ou a amiga mais próxima seria a cúmplice da decisão de Eloá e por isso, acredito, o desfecho quase fatal.
Foi ciúme ou despeito? Poderia também ter sido ambos. O sentimento pela perda, o vazio que se abre para o indivíduo quando se encerra um relacionamento pode ser muito grande e muitos têm dificuldade para reencontrar o seu eixo, vindo daí o desespero, o alcoolismo, as drogas, a depressão ou em alguns casos, felizmente, menos freqüentes, a vingança violenta.É óbvio que nada justifica a violência passional contra as mulheres, mas ela existe em todas as sociedades, quer elas sejam tecnologicamente e economicamente avançadas ou pobres e atrasadas como a nossa e outras tantas. É provável que a psiquiatria e a psicanálise não tenham soluções para esses males, que estão ligados à uma cultura em que a mulher é uma propriedade do homem e não pode tomar uma decisão como o rompimento de um relacionamento. Entretanto, a literatura, a música e a poesia podem ser um meio para mergulhar as mágoas e sublimar as pulsões violentas numa perda amorosa. Pena que o Lupicínio quase não é ouvido e os jovens como Lindembergue talvez nunca tenham ouvido falar dele.
Renato Ladeia