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domingo, 7 de setembro de 2008

LYGIA FAGUNDES TELLES

Barra de São João, uma pequena vila da cidade de Casemiro de Abreu no Rio de Janeiro, era onde passávamos nossas férias de verão. Um lugar bucólico, com a arquitetura colonial preservada em algumas casas, talvez pelo fato das praias não serem tão atrativas aos turistas como da sua vizinha Rio das Ostras. Mas era ali que ficava a casa onde morou o poeta Casemiro de Abreu e também onde ele estaria sepultado (diz o povo que o corpo foi roubado). Mas foi também ali, em frente ao Rio São João, num casarão colonial abandonado pelo descaso do poder público, que o grande pintor Pancetti morou por algum tempo, buscando inspiração para suas belas marinhas. Lá tudo andava devagar e devagar as janelas se abriam e fechavam observando lentamente os passantes.

E foi ali, numa de nossas férias que o nosso querido Fiico, um sósia do Martinho da Vila, um sujeito simpático e bom de conversa, além de violonista de primeira nos contou que a escritora Lygia Fagundes Telles estava hospedada na pousada onde habitualmente ficávamos. Era uma bela oportunidade para conhecer pessoalmente uma das mais importantes escritoras do país. E foi no segundo dia, que entrando na pousada demos de frente com a Lygia, acompanhada de uma amiga.
- Lygia Fagundes Telles, disse em voz alta, simulando alguma intimidade.
Um pouco surpresa, ela procurou por alguém conhecido a sua volta. Ai me apresentei como seu admirador apesar de ter lido apenas um livro de contos de sua autoria e alguns contos esparsos em antologias. Pensei em tirar uma fotografia da escritora com minha filha, para que ela pudesse guardar como uma valiosa lembrança, mas cheguei à conclusão de que seria uma caretice de fã e abandonei a idéia. Acabamos falando de uma palestra em minha cidade, promovida pelo centro acadêmico da faculdade em que ela fora uma das personalidades convidadas e do seu refúgio preferido, a pequena São João com seu ar interiorano, apesar de litoral.
Ainda a encontramos em um barzinho tomando água de coco com sua amiga, mas não ousamos incomodá-la, pois quem sabe estaria reservando aqueles momentos para inspirar-se para mais um conto ou romance. Ela olhava as ruas com seus olhos profundos e suaves e às vezes os lançada em direção ao mar, onde as ondas quebravam com violência na praia. Poderia ser um momento de criação e nada tão inoportuno do que um fã para atrapalhar sua concentração e quem sabe perder-se o fio da meada de uma história que estaria nascendo. No dia seguinte ela se fora e nossa pousada perdera sua fugaz notoriedade, mas com certeza apenas minha família e o velho Fiico sabiam da importância da hóspede para a cultura nacional. Afinal um escritor raramente está na telinha e quando isto acontece à audiência é diminuta.
De volta a São Paulo tratei de recuperar o tempo perdido e mergulhei nos livros da nossa escritora, prometendo a mim mesmo, caso a encontrasse novamente, poder falar sobre seus livros como um velho e experiente leitor. Há tempos não volto à Barra de São João e quem sabe por um desses caprichos do destino em minhas próximas férias poderei encontrá-la na mesma pousada e conversarmos longamente sobre um dos meus assuntos prediletos: a literatura.

Renato Ladeia

MEU PRIMEIRO NERUDA

Comprei meu primeiro Neruda em meados dos anos 80, não me lembro ao certo e foi um acontecimento. Li os primeiros poemas ainda em pé na livraria e prometi, na hora de fazer o pagamento, que devoraria o livro e que satisfaria a minha ansiedade da poesia do grande poeta chileno. Qual o que! Li algumas páginas e o Canto Geral, era esse o nome do livro, ficou acumulando a poeira do tempo na estante.
De tempos em tempos olhava para a brochura e continua prometendo que o leria em breve e nada de cumprir a promessa. A vida moderna, com muito trabalho, o nascimento da única filha, o stress e tudo o mais e fui deixando, para o futuro, a leitura. Às vezes lia algum dos poemas para minha filha antes de dormir, mas, sinceramente, ela preferia o Drummond. O verso “O vento brinca nos bigodes do construtor” era o seu preferido e ela ria de modo a ouvir-se de longe.
Tempos depois um amigo, suspeitando que eu fosse um apaixonado pela poesia de Neruda me presenteou com os Versos do Capitão, com uma bela dedicatória. O pequeno livro foi devorado e os versos de amor ainda rondam minhas noites de insônia. “Quitame el pan, si quieres/quítame ela ire, pero/no me quites tu risa”.
Outro dia, decidido a ler poesia e quem sabe participar de um sarau literário, resolvi buscar o Canto Geral do saudoso Neruda na mesma estante onde permaneceu por anos a fio. Qual o que!
- Onde está o meu Neruda? Perguntei impaciente.
Ninguém tinha notícias e minha filha, irônica, ainda perguntou:
- Aquele que você ainda não leu?
Essa frase me fez lembrar de um velho samba do Chico, quando ele diz: “Devolva meu Neruda, que você levou e que não leu”. E é bem provável que eu tenha emprestado, mas não sei para quem. Passei em revista na memória todos os amigos possíveis leitores de poesia e não encontrei nenhuma pista que me levasse ao livro. Que meus amigos me perdoem pela indiscrição, mas cheguei a bisbilhotar suas estantes e nada encontrei. Provavelmente, esse alguém chegou em casa, colocou o livro na estante e nunca mais tocou nele. Uma frase que ouvi do Milton Eto, um amigo professor de literatura portuguesa, bateu forte em minha memória: “Nos empréstimos de livros há sempre dois ingênuos, o que empresta e o que devolve”. Eu era, sem dúvida alguma, o ingênuo.
Enfim, o meu “pobre” Neruda deveria estar em alguma estante esperando pelo seu leitor, que levou e não leu, conclui com tristeza.
Mas o mundo é pequeno e os encontros e desencontros se sucedem quando menos esperamos. Não é que num dia destes, visitando um sebo a procura de alguma preciosidade abandonada, encontrei o livro com a minha assinatura e tudo! Pois então resolvi recomprá-lo imediatamente, mas estava sem dinheiro e sem o talão de cheques. Pedi, encarecidamente, ao proprietário do sebo que o reservasse para mim. Ele prometeu que guardaria até o final do expediente, mas depois disso se alguém quisesse comprá-lo ele não perderia a oportunidade da venda. Dito e feito! Compromissos fizeram com que deixasse para o dia seguinte a visita ao sebo e quando lá cheguei, alguém mais esperto, tinha comprado o Canto Geral. Também pudera! Estava uma pechincha. Desconsolado, xinguei todas as gerações da pessoa a quem eu havia emprestado o livro, que além de não ter lido, o vendeu a um sebo, por uma merreca. Depois pensando melhor, talvez ele tenha emprestado a um outro qualquer que, sem escrúpulos, o deixou num sebo. Com certeza meus amigos não fariam comigo, tal desfeita.
Por estranha coincidência encontrei depois, no mesmo sebo, outro livro do Neruda, o “Tercer Libro de Las Odas” com uma dedicatória: “Maria de Lourdes, São Paulo, Brazil. Recuerdo: 9 de Enero 1979”. Será que Maria de Lourdes leu o poema Ode a la casa dormida e os primeiros versos “Hacia adentro, em Brasil, por altas sierras y desbocados rios, de noche, a plena luna... Las cigarras llenaban tierra y cielo com su telegrafia crepitante.” Não sei se depois de 29 anos, Maria ainda vive e o livro somente foi parar no sebo depois de sua morte. Ou então, o marido enciumado encontrou o livro em meio aos guardados da mulher e descobriu o Neruda que, possivelmente, estava associado a um antigo amor chileno. Especulações, meras especulações...

Renato Ladeia