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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O EXTERNATO MATTOSO E A VELHA MOOCA











Num taxi em direção à Mooca, um velhinho no volante foi me falando com seu sotaque italianado sobre o bairro que conhecia como a palma de sua mão. Ele nasceu e foi criado lá. Hoje, motorista de táxi pertence à cidade, rodando por tudo quanto é canto da São Paulo desvairada.
Paramos em frente ao antigo Externato Mattoso, na Rua dos Trilhos e ele se pôs a falar sobre sua infância quando lá estudava.
- As professoras eram muito rigorosas e ainda hoje tenho marcas de grãos de milho nos joelhos, comentou saudoso.
Quem passava até pouco tempo atrás pela Rua dos Trilhos, ainda via uma construção antiga com a inscrição: Externato Mattoso. Lá funcionou de 1910 até meados dos anos sessenta, a primeira escola do bairro. Lá três irmãs, a Etelvina, a Arlinda e a Marianna da Costa Mattoso, ensinavam as crianças a ler e a escrever. Naquela época, na Mooca, um bairro tipicamente operário, se falava mais o italianês do que o português. Na verdade a língua predominante era o dialeto Vêneto misturado com o nosso idioma. Provavelmente as reuniões dos operários anarquistas eram realizadas em um idioma que os policiais não entendiam, o que dificultaria saber o que estavam exatamente fazendo. Havia também, segundo historiadores, algumas ilhas onde se falava praticamente o espanhol.
Foram mais de sessenta anos e o velho prédio, pelas suas janelas preguiçosas, viu muitos acontecimentos. A revolução tenentista de 1924, liderada pelo General Isidoro Dias Lopes, deixou marcas profundas no prédio, pois foi ocupado pelas forças revolucionárias. Durante muitos anos, as fotografias das crianças tiradas durante as formaturas, tinham como pano de fundo, uma parede crivada de tiros de fuzil. O Custódio da Costa Mattoso, meu sogro e sobrinho das professoras, encontrou, tempos depois no prédio, uma granada (não disparada) e algumas balas de fuzil. Uma das balas está lá em casa como souvenir. Quanto a granada não sei que fim levou.
Em algumas reuniões familiares, tive oportunidade de conversar com duas das velhas professoras, a Marianna e a Arlinda, pois a Etelvina já havia falecido. Eram mulheres orgulhosas do seu passado e do trabalho que desenvolveram educando crianças, sendo que muitas delas não falavam nem o português. Elas contaram que durante a revolução de 1924, foram obrigadas a fugir para um sítio em Santo Amaro, que pertencia a um parente ou amigo. Para empreender a viagem alugaram uma carroça que levou algumas boas horas até chegar ao destino, onde puderam ficar em segurança. São Paulo estava um caos, com muitas casas bombardeadas e pessoas mortas que eram enterradas nos quintais, pois era impossível atravessar as ruas com o tiroteio para se fazer um cortejo fúnebre.
Passado o susto, a cidade foi voltando à normalidade e a velha Mooca também. As professoras do Externato precisaram juntar os cacos, ou seja, consertar tudo. Portas, carteiras e mobiliário em geral quebrados ou destruídos.
A vida econômica da cidade se desorganizou e com fechamento das fábricas, muitas pessoas ficaram sem recursos e houve saques aos armazéns, principalmente o do Matarazzo, de onde levaram muitos sacos de farinha de trigo. Depois a polícia foi de casa em casa para resgatar. Muitos operários italianos, suspeitos de colaborarem com os revoltosos, foram presos e interrogados.
Depois veio a Revolução de 32 e desta vez todo o estado foi envolvido na guerra civil. Foram tempos difíceis, com a mobilização de toda a comunidade para o conflito que no final mostrou-se inútil com a manutenção da ditadura de Getúlio Vargas até 1945. Os homens jovens se engajavam no exército constitucionalista e os que não o faziam eram humilhados nas ruas como maricas. Neste episódio, o Externato também foi um ponto de referência para os voluntários. Lá as mulheres produziam uniformes para os soldados engajados. Meu sogro, com apenas sete anos de idade, levava uniformes até a Estação de trem, no início da Rua da Mooca.
A história do Externato, que já está no seu centenário, começou com a vinda das irmãs de Campinas, onde estudavam em um colégio religioso. Com a morte do pai, Francisco da Costa Mattoso, um apaixonado por corridas de cavalo que não saia do antigo Hipódromo da Mooca, bem próximo do Externato, tiveram que arregaçar as mangas e trabalhar duro. Junto com o Francisco, irmão mais moço, construíram grande parte do prédio. A antiga família Costa Mattoso, cujas origens remontam o século XVIII entre a região de Campinas e Sorocaba, também foi se italianizando, assimilando o sotaque Vêneto através de casamentos e convívio.
Com o crescimento da cidade e a ampliação da rede pública de ensino, a escola, bastante acanhada, não teve como sobreviver. Além disso, as velhas professoras já estavam precisando se aposentar depois de mais de sessenta anos de trabalho. Conta-se que nos anos sessenta, os Mesquita, proprietários do Colégio São Judas propuseram uma parceria, mas as velhinhas desconfiadas, não aprovaram a idéia.
Mais recentemente, conheci o Professor e advogado Aldo Guida que foi goleiro do antigo Palestra Itália, hoje Palmeiras, como reserva do legendário Oberdam nos anos 1940. Ele também estudou no Externato Mattoso e foi amigo de juventude do meu sogro. Foi então que ele contou-me que seu pai, conselheiro do Palestra-Palmeiras, indicou para contratação, o famoso craque Feitiço, alcunha de Luiz Mattoso, primo do meu sogro.
A Mooca tem muita história e duas esquinas adiante do Externato, ficava o lugar onde os famosos Demônios da Garoa ensaiavam os sambas do Adoniran Barbosa. É possível que também eles tenham estudado no velho prédio da Rua dos Trilhos e aprendido antigas as lições.
Hoje o nome em relevo Externato Mattoso, foi definitivamente apagado do prédio, que se transformou em uma pizzaria e a cidade perdeu mais um pouco de sua memória. As velhas professoras de tantas histórias também desapareceram e hoje elas têm como monumento apenas as calçadas pisadas da Rua dos Trilhos. Uma pena.

Renato Ladeia
7/8/08