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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

ABILIO MACEDO, O CONTADOR DE CAUSOS


Um dos personagens que povoou a minha infância era um alagoano chamado Abílio Macedo. Era nosso vizinho, mas não muito próximo. Entretanto, quase que semanalmente, ele passava em casa para uma boa conversa com meu pai. Era naqueles tempos em que a televisão ainda não havia usurpado os serões da família brasileira. As visitas eram constantes e as conversas fluíam do cotidiano, como problemas de saúde, de trabalho, política e o melhor de tudo, relatos dos velhos tempos, onde a memória tem um papel fundamental. A memória ia construindo ou reconstruindo fatos, histórias, verdadeiras ou quase verdadeiras. Hoje sei que o narrador sempre acrescenta algo seu, suas impressões pessoais sobre o que conta.
Lembro-me que às vezes, sentado no chão, fazendo de conta que brincava com um carrinho ou qualquer coisa, ficava atento àquelas histórias dos tempos antigos. Aí que entrava a memória do seu Abílio. Ela falava dos tempos do cangaceiro Lampião, personagem temível do nordeste brasileiro. Meu pai interessado estimulava o nosso contador de histórias a falar mais e mais sobre os fatos burlescos ou horripilantes da barbárie do sertão nordestino. Infelizmente minha memória não registrou, em detalhes, nenhuma das histórias, mas ficaram os momentos de tensão, em que a distância entre a vida e a morte era muito pequena. As histórias relatadas estavam centradas em velhos coronéis, homens de coragem ou nos covardes que não honravam as calças que vestiam. Os mais atraentes eram aqueles que enfrentavam as injustiças ou a desonra a bala ou com um punhal afiado como nos filmes que assistia nas matinês dos domingos.
Às vezes tomava coragem e interrompia a conversa para perguntar algo para confirmar a veracidade das narrativas. Aquelas histórias eram bem mais reais do que via nos filmes de bang bang ou nos gibis. Eram fortes e emocionantes, pois o contador era um personagem vivo da história. Meu pai não gostava que criança interrompesse a conversa de adulto, mas o nosso narrador não se incomodava em repetir algum detalhe ou acrescentar um pouco mais de emoção para encantar os seus ouvintes. Minha mãe cuidando dos afazeres domésticos ficava atenta na cozinha, ouvindo cada detalhe e vez por outra aparecia na porta para também confirmar se era mesmo verdade. “É tão verdade como eu estou aqui. Posso jurar que eu vi”, respondia o seu Abílio com firmeza e convicção.
Assim a noite passava com todos envolvidos nas histórias de um mundo que estava se acabando, pensava-se na época. O poder dos velhos coronéis estava sendo substituído por políticos profissionais. Mudaram-se os métodos, mas os personagens continuaram os mesmos. O personalismo do velho patriarcado continuou intacto num mundo regido pela comunicação de massa. As notícias sobre como se faz política confirmam que nada mudou neste país. As mesmas histórias estão hoje estão nos jornais, na televisão ou no rádio, sob novas roupagens.
No meio da conversa aparecia um cafezinho preparado por minha mãe que se aconchegava para fazer as honras da casa e participar um pouco da conversa de homens. Mas havia sempre uma hora que indicava o final da conversa e o nosso narrador apanhava o seu chapéu e se despedia prometendo um breve retorno.
As visitas foram ficando mais esparsas e aos poucos, eu já não dava mais importância para aquelas conversas de homens maduros. A televisão também roubou o espaço destinado às conversas e cafezinhos na maioria dos lares urbanos e cada um se confinou diante do aparelho voraz que dizimou a história oral, os velhos causos, as relações e o convívio entre familiares e vizinhança.
A última vez que vi o seu Abílio, acompanhado de dona Amália, sua esposa, foi na igreja do bairro, no final da missa de sétimo dia do falecimento de meu pai. Após um rápido cumprimento, nos despedimos e percebi, naquele momento, que aquele homem abatido pelo tempo fazia parte da construção da minha visão de mundo. Um mundo que vai se apagando, gradativamente, como uma foto envelhecida.
Renato Ladeia

ERASMÃO E O SEU FILHO PIRAHY



Escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore são os passos necessários para se tornar um homem de verdade, diz o velho aforismo. Poucos são aqueles que podem cumprir todas essas tarefas. Para quem mora em apartamento plantar uma árvore deve ser um desafio maior do que escrever um livro. Ser pai, salvo em casos de problemas de natureza biológica, parece ser o mais fácil de todos. Mesmo assim a adoção pode resolver o problema, pois o que importa é ter um filho, criá-lo, educá-lo, mesmo que tenha sido gerado por outro. Agora escrever um livro, não é coisa para qualquer um. É preciso ter inspiração e sobretudo muita transpiração, principalmente se o sujeito resolver criar uma obra de ficção, com personagens coerentes e verossímeis.
Começo essa conversa fiada para falar do nosso velho amigo Luiz Carlos Erasmo da Silva. O Erasmo foi uma alcunha que recebeu nos tempos da Jovem Guarda pela sua semelhança com o músico Erasmo Carlos companheiro inseparável do Roberto Carlos. O apelido pegou para sempre e são poucas pessoas que o conhecem que sabem o seu verdadeiro nome. Aliás aproveito a oportunidade para sugerir que ele incorpore o Erasmo ao nome oficialmente como fez o nosso primeiro mandatário. Pois bem, o nosso querido Erasmão escreveu um livro e depois de tantas idas e vindas, conseguiu enfim publicá-lo para a posteridade. O livro é a história de um valente peixinho nas águas do velho e maltratado Tietê. É uma história gostosa e bem humorada que conta as peripécias de Piray, o douradinho irreverente , uma aventura no Tietê.
O Erasmo é um tipo bonachão, simpático, agradável e dono de um papo delicioso. Seu carisma é reconhecido em todos os lugares por onde anda. Suas imitações do Rei do Rock, Elvis Presley eram memoráveis e é bem provável que ele preferiria ter o apelido de Elvis e não de Erasmo. Além disso, o Erasmo Carlos envelheceu, ficou de cabeça branca e com rala cabeleira. Enquanto isso, o nosso Erasmo continua com sua vasta cabeleira ainda na cor original (salvo se freqüenta, na calada da noite, algum cabeleireiro para tingir as suas madeixas). O que está atrapalhando um pouco a sua ainda jovial aparência, apesar de ser um sessentão, é sua protuberância abdominal um pouco exagerada, resultado de bons copos de cerveja saboreados no calor de boas conversas com os amigos.
A publicação do livro, cujas cópias já circulavam entre os amigos mais chegados, é o coroamento de uma vida de um sujeito realmente porreta, cuja integridade é posta a toda prova. Erasmo é o sujeito do qual pode-se comprar um carro usado sem riscos, pois é capaz de perder dinheiro a arriscar uma boa amizade. Apesar de corpulento, é um menino chorão, que se emociona com bastante facilidade. Lembro-me que uma vez em minha casa, durante a festa de aniversário da Celinha, estava também um amigo que não tinha a mão direita, perdida por um acidente de trabalho. Sem perceber a deficiência física do Ademir, que conheceu neste dia, o Erasmo contou uma piada de maneta. Ao concluir, todos riram e o Ademir, muito gozador, mostrou-lhe o toco do braço dizendo: “Ele era assim?” Foi uma tragédia, pois o nosso amigo foi encontrado depois de muito tempo chorando copiosamente nos fundos do quintal e só se acalmou depois que o Ademir o convenceu de que não havia ficado chateado com a piada e que gostava de brincar com sua deficiência.
O Erasmão, o nosso querido Escritor, é assim, alegre divertido que gosta de fazer as pessoas rirem, mas é também um chorão que chega às lágrimas com facilidade. Mas é uma pessoa determinada e vai em busca dos seus objetivos e não importando as dificuldades que possa encontrar pela frente. Com o seu livro embaixo do braço perambulou anos atrás de editoras e patrocinadores, tentando convencê-los da importância da obra para a preservação da memória ecológica do nosso país através da sensível história de um peixinho.
Como ele não teve filhos, faltando assim o último item para completar a trilogia necessária para ser considerado um “grande homem”, penso que por enquanto o Pirahy deve assumir o posto. Afinal, é um personagem concebido com amor e carinho. É o que basta para ser um bom pai. Quanto ao filho biológico é uma questão de tempo, pois até os noventa o Erasmão pode surpreender a todos nós. Quem viver verá!

Renato Ladeia

LÁZARO GARCIA, UM PADRINHO DOS VELHOS TEMPOS



Antigamente ter um padrinho era coisa séria, tanto para as crianças, como para os padrinhos. Os compadres eram escolhidos a dedo. Precisavam ser pessoas de confiança e que fossem verdadeiros amigos, pois pela tradição, na ausência dos pais, o padrinho teria a responsabilidade pela formação do afilhado. A relação de compadrio foi uma instituição bastante importante no Brasil, principalmente na zona rural, onde ainda hoje tem alguma relevância. Antonio Cândido em seu estudo sobre os caipiras paulistas, Os parceiros do Rio Bonito, lembra que ao afilhado cabe respeitar o padrinho de modo especial e pedir-lhe a bênção sempre que for encontrado como a um pai. Deve ainda comunicar-lhe o seu noivado, como que pedindo uma autorização paterna. Dessa forma o padrinho sempre exercia uma especial influência sobre os afilhados, e em muitos casos, se sobrepunha a dos próprios pais.
Numa conversa que tive com um africano do Senegal, da tribo dos Pels, Mamour Elimani Ba, ele contou-me que é um costume do seu povo dar um filho a uma pessoa de destaque na comunidade para que ele crie a criança. O desejo dos pais biológicos é que seus filhos sejam tão virtuosos como o pai adotivo. No Brasil, a relação entre compadres, de certa forma, é construída com alguma semelhança, a partir da confiança e admiração que um pai tem para com um amigo ou pessoa influente na comunidade.
Meu padrinho foi um negro, filho de escravos, um grande amigo da família. Era uma pessoa doce e generosa cuja lembrança guardo com grande carinho. Convivi pouco com ele, pois morava no interior de São Paulo em um sítio onde cultivava um belo jardim repleto de flores. Apesar de sua origem, aprendeu sozinho a ler e escrever e falava o vernáculo com excepcional correção. Participou da revolução de 32 e ainda guardava, como relíquia, uma arma utilizada na guerra, uma pistola alemã de 1912, que deixou para o meu pai. Gostava de caçar e sempre que podia se aventurava pelo Mato Grosso, mas não usava armas de fogo, somente um punhal bem afiado e as técnicas dos caçadores africanos que aprendeu com seu pai. Um dos presentes que ganhei dele foi um belo couro de onça que infelizmente foi roubado de nossa casa. “Para o amigo trago minha grande amizade e meu corpo doente que precisa de ajuda e para o meu afilhado, esse couro de onça Pintada que cacei no Mato Grosso quando ainda tinha saúde e vigor”, disse ele ao meu pai quando nos visitou pela última vez. Morreu alguns dias depois após uma cirurgia mal sucedida.
Mas quero falar de um outro grande padrinho que foi o Lázaro Garcia, o Lazinho, padrinho e tio por afinidade de meu amigo o Dr. Jorge Moscardi, que sempre teve por ele um enorme respeito, admiração e carinho. Em várias oportunidades falava dele como uma pessoa de grande dignidade, preservando valores atualmente esquecidos. O Lazinho, mesmo sendo uma pessoa de origem simples, conseguiu se educar com certo refinamento, trabalhando em um clube inglês em São Paulo. Lá executou várias tarefas até se tornar um fino garçom, aprendendo a apreciar bons pratos e bons vinhos, sempre com moderação. Meu amigo, também de família modesta, aprendeu com o padrinho o gosto por coisas sofisticadas, envolvendo não somente a boa culinária e bebidas, mas também boa música, a arte e alguns segredos da noite paulistana, principalmente dos retiros boêmios.
Lazinho, que tive o prazer de conhecer, era um gentleman, que recebia os amigos do seu afilhado com uma delicada atenção e carinho. Para nós ele era como um tio amável e generoso que dedicava-nos preocupações como se fossemos também seus sobrinhos. Com seu jeito elegante e sorriso simpático, era uma pessoa encantadora e sempre que nos encontrávamos nas festas na casa do afilhado, eu aproveitava para tirar um dedinho de prosa com ele. Lembro-me que ele ostentava orgulhoso um relógio Omega, um velho suíço que foi objeto de desejo de muitas gerações até os anos sessenta. Esse relógio, se não me falha a memória, ele ganhou como prêmio por longos serviços prestados ao clube em que trabalhou. Isso me faz lembrar também que meu pai sempre sonhou em ter um, mas o parco orçamento nunca permitiu tal extravagância.
Tempos depois o seu velho e precioso suíço foi roubado num assalto, o que lhe trouxe grande desgosto. Mas o afilhado, sempre atento ao velho e amado padrinho, conseguiu comprar outro da mesma marca, o que lhe devolveu um pouco da alegria para seus últimos anos de vida. “Eu precisava dar essa alegria ao Lazinho, eu devo muito a ele”, disse o Jorge emocionado. Com essa história eu fiquei a matutar se não deveria ter também presenteado o meu velho com um desses, como fez o Jorge com seu padrinho.
O coração do Lazinho estava fraco e já dava sinais de que sua passagem pela terra estava prestes a terminar, pois sua missão já estava cumprida. Seus últimos dias foram assistidos pelo querido afilhado, que apesar da correria da vida de médico de hospital em hospital, diariamente, passava para vê-lo e confortá-lo em seus últimos momentos. Em meu último encontro com o meu amigo, falei da vontade de ver o velho Lazinho antes que partisse, mas não houve tempo e ele viajou sem eu pudesse lhe dar um abraço, o que lamento profundamente, pois sempre acabamos deixando o que é essencial para depois. E nada é mais essencial do que a vida, mesmo que seja para resgatar um pedaço de nossas memórias.

Renato Ladeia