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domingo, 24 de junho de 2012


ITANINA LADEIA: BREVE RETRATO DE UMA MÃE QUE PARTIU






Nascida em Buenópolis, MinasGerais, era ainda criança quando a família mudou-se para o Rio de Janeiro e depois para Araçatuba, São Paulo.  Gostava de cantar e declamar versos, principalmente religiosos. Era católica praticante, ia à missa toda semana, mas permitia-se algumas escapadelas aos centros espíritas, principalmente na casa da dona Nésia, uma simpática vizinha russa, amiga da família. Era uma grande contadora de histórias, muitas das quais são inesquecíveis. Seus avós, coronéis escravocratas falidos no século dezenove, deixaram apenas as histórias que ela contava para os filhos. Sentávamos todos em sua cama para ouvir os contos de fada e histórias da família.  A família passou por muitas dificuldades, pois seu pai, que apesar de culto e bem informado sobre tudo o que acontecia no mundo, não se adaptou a nenhuma profissão que exigia rotina, horário fixo e chefe. Foi professor primário, delegado, juíz de paz e finalmente farmacêutico prático. Aos doze anos ela já estava empregada em um laticínio, trabalhando como faturista para custear seus estudos, que infelizmente não conseguiu concluir. Com a morte prematura da mãe e o pai doente, foi morar na fazenda de uma irmã mais velha. Lá ajudava os colonos a escreverem cartas para seus parentes de longe. Quando recebiam suas cartas a procuravam para que ela as lesse. Eram cartas de Portugal, Espanha e de outras regiões do Brasil.
Em matéria de música era eclética, apreciando desde os caipiras de raízes como Tonico e Tinoco, Torres e Florêncio entre outros até os clássicos da MPB como Joubert de Carvalho, Noel, Francisco Alves etc. A música sempre esteve presente em sua casa, pois seu pai arranhava uma viola e a mãe se defendia no acordeon.  Mulher independente e lutadora, nunca esperava que as coisas caíssem do céu. Contava que quando criança quase fugiu com um circo que passou por sua cidade, pois lhe convenceram que poderia cantar nos espetáculos. Era divertida e brincalhona, gostando de pregar peças nos amigos e vizinhos. Aprendeu a ler cartas com uma cigana e divertia suas amigas lendo o futuro, séria como se fosse uma verdadeira cartomante. Quando alguém se propunha pagar-lhe pela leitura das cartas, recusava-se por considerar um pecado mortal.
Arregaçava as mangas e ia à luta, para si ou para os que necessitavam, não importando cor, origem ou condição social. Um dia, quando criança, ao levantar, encontrei um garoto vizinho, muito pobre, dormindo no sofá de casa. Minha mãe, ao chegar em casa a noite, o encontrou dormindo em nosso terraço, pois a mãe dele não o deixara entrar em casa. Ela não teve dúvidas e o acolheu, deixando para o dia seguinte um sermão na mãe desnaturada.
Nos anos cinqüenta nosso bairro em São Caetano do Sul, era carente de recursos e era ela quem socorria os vizinhos aplicando injeções ou fornecendo algum medicamento de emergência. Quando morria alguém, ela estava sempre a postos para lavar os defuntos e vesti-los sem nenhum constrangimento. Bem mais tarde, habilitada como motorista, colocava a sua Brasília a serviço de quem necessitava, levando as pessoas aos médicos e hospitais.  Aliás, como motorista tornou-se famosa no bairro, pois era um grande risco passar perto dela. Com seu primeiro carro, um fusca, bateu em todas as laterais e para lamas. Apesar das broncas do marido e dos filhos, não desanimou e continuou provocando alvoroços no trânsito da cidade.
Gostava de proteger os velhinhos e um deles, nosso vizinho, um italiano chamado Antonio Piffer, passava todos os dias lá em casa para um cafezinho. Ela podia estar até o pescoço de trabalho, mas parava para fazer e servir um café para o Nono e tirar um dedo de prosa. Um dia ele teve uma discussão com a nora e resolveu ir para nossa casa, pois considerava minha mãe como uma filha. Infelizmente a aventura do Nono não durou muito, pois sua família foi buscá-lo no final do dia. Ficamos todos tristes pois já estávamos adorando ter um avô em casa e as histórias que ele contava da sua Itália.
Quando viúva assumiu a incumbência de lavar e vestir o corpo do marido e de nada adiantou dizer a ela que a funerária cuidaria de tudo. Acreditava que só as mulheres fracas não tinham coragem de fazê-lo. Tempos depois, ao ser avisada de que seu filho mais novo havia falecido, chorou alguns minutos e em seguida levantou-se, altiva como sempre foi, e disse: “Se morreu, vamos enterrá-lo e orar por sua alma”.
Nos últimos anos sua memória começou a definhar, mas ainda conseguia se recordar dos versos que aprendera na infância. Há uns cinco anos comprou um caderno e resolveu escrever as suas memórias, mas logo nas primeiras páginas  desistiu porque já não conseguia lembrar como escrever algumas palavras. Com cataratas, resolveu fazer a cirurgia e como o convênio médico não pagava a lente, achou um absurdo e resolveu operar num hospital público. No dia seguinte estava cega do olho esquerdo. Abateu-se por alguns dias, mas logo depois estava novamente na luta e foi com muito custo que conseguimos convencê-la de que seria muito perigoso continuar dirigindo com apenas um olho e ainda não sendo uma boa motorista.  E foi com lágrimas nos olhos que concordou em vender a sua Brasília, que comprara zero km e que estava, depois de vinte anos de uso, com apenas 20 mil km rodados. Com apenas um olho e com catarata, não desistiu de operá-lo, mesmo os médicos aconselhando-a não fazê-lo, em razão do histórico. Como não houve meios de convencê-la, procurei um dos melhores especialistas para fazer a cirurgia com o mínimo de risco. Felizmente deu tudo certo.
Tinha grande orgulho de ser, acreditava, a única Itanina no Brasil, um nome de origem italiana que seu pai descobrira numa revista nos anos vinte. Apesar de ser um bonito  nome, permaneceu único na família. Mas todos a conheciam por Ita. Quando chegaram os netos, vaidosa, recusou-se a ser chamada de avó. Preferia apenas Ita, que a seu ver era mais simpático, mas sua primeira neta, Maria Lúcia, preferiu inovar e resolveu chamá-la de madóca.
Defeitos, ela tinha lá os seus. Falava o que pensava sem se preocupar com os efeitos que isso provocava nas pessoas.  Era  econômica até ao exagero, gastando com muita parcimônia cada centavo que ganhava. Para ela nada devia ser desperdiçado e pensando assim, reciclava todas as roupas da família. Doces e guloseimas só os  feitos  em casa. “Doces de bares e padarias não prestam e custam caro”, dizia sempre. Mesmo não sendo uma hábil cozinheira, preparava um delicioso arroz doce com canela. Seu bolos, apesar de simples, eram saborosos e as porções eram sempre generosas. Itanina, eternamente.

domingo, 3 de junho de 2012


 OS VELHOS TEMPOS DA JOVEM GUARDA

Anos sessenta, quando a Jovem Guarda fervilhava na televisão, no rádio, nos cabelos quase compridos da garotada, nas botinhas com salto carrapeta, nas calças rancheiras justas de brim bege (pois o índigo blues só para quem tinha dinheiro para comprar nas lojas de contrabando ou viajava para o exterior), as camisas coloridas, pulseiras etc. O rock and roll estava no ar. Como os Beatles eram inacessíveis o jeito foi criar uma opção cabocla e o Roberto Carlos e sua turma ocuparam esse espaço entre os adolescentes.
Quase todo adolescente chegou a sonhar em ser um ídolo da jovem guarda, cantar nos programas de televisão, gravar um disco e fazer sucesso com as meninas. Alguns tinham até talento e mandavam bem, cantando nas rodinhas ou em festas dos colégios. Juca, ou Antonio Carlos Junquetti era um desses garotões extrovertidos com cabelo na testa que fazia sucesso com as garotas imitando o Jerry Adriani.  Mas havia um cantor de verdade no colégio, o Dorival Marcos (nem sei se era o seu nome verdadeiro ou se já era o artístico), que tinha um vozeirão. Mesmo cantando a capela, conseguia encher o pátio, fazendo calar a plateia de estudantes.  Ele cantava as versões do francês Charles Azsnavour que eram gravadas pelo Agnaldo Rayol. O menino era um sucesso para nós e todos acreditavam que ele iria acontecer.
Mas o tempo passou e já se foram mais de quarenta anos e nunca vi o Dorival em nenhum canal de televisão, jornal ou revista especializada. Por outro lado eu também me desliguei bem cedo da juventude alienada e roqueira.  Meus interesses mudaram, passei a curtir a MPB e seus artistas engajados ou conscientes politicamente, como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Caetano entre outros.
Mas um dia desses rodando por São Caetano, passei em frente a casa onde a namorada do Dorival morava naqueles antigos e saudosos anos sessenta. E foi aí que bateu certa nostalgia daquela época e resolvi tentar localizá-lo pela Internet. A única pista que encontrei foi uma foto de um disco compacto simples (uma música de cada lado) e o Dorival na capa apresentado como relíquia de um sebo de discos.
Lembrei-me de um sábado chuvoso em que nos encontramos no colégio e no caminho de volta ele comentou que precisava ir cantar num concurso na TV Gazeta e não tinha grana nem para a passagem de ônibus. Foi aí que eu me ofereci para patrocinar a empreitada. Fomos até minha casa e consegui uns trocados com minha mãe e chegamos até a TV Gazeta, na Avenida Paulista, um pouco antes do início do concurso, depois de tomarmos pelo menos três coletivos.  Fiquei na platéia e assisti vários calouros interpretando alguns clássicos da Bossa Nova, acompanhados por um trio com piano, baixo acústico e bateria como o velho Zimbo Trio. Chegou a vez do Dorival, que cantou uma canção cheia de acordes dissonantes. Fiquei na torcida para que ele se classificasse e até que ele se saiu bem, mas habituado as baladas, rock ou canções francesas e italianas parece-me que deu umas pequenas atravessadas e não obteve a classificação para continuar no concurso.
Voltamos desanimados, ele evidentemente muito mais do que eu, pois foi uma oportunidade perdida de conseguir alguma visibilidade, mesmo que não fosse através da jovem guarda, que parecia ser o seu objetivo. No caminho comentou que talvez fosse desistir do colégio, pois não tinha tempo nem cabeça para estudar. Ou a minha memória apagou ou nunca mais vi o Dorival Marcos depois daquele dia.  Como também mudei de rumo e de colégio, ficou apenas uma remota lembrança de seu vozeirão cantando “Ma vie” no pátio do colégio.
Se o velho Dorival ainda estiver vivo, é provável que nem se lembre mais desse episódio, remoto em nossas lembranças. É possível também que não seja agradável recordar das dificuldades da vida passada.
O Juca, o outro garoto Jovem Guarda, encontrei depois de algum tempo que sai do colégio e quando eu já estava na faculdade. Ele ainda prometendo acontecer, mas não mais na música.  Não sei conseguiu se formar, mas dinheiro soube que ganhou, pelo menos foi a notícia que deu-me um conhecido comum  de que ele havia se tornado um bem sucedido negociante de automóveis, sua antiga paixão, e estava se dando muito bem.
Enfim, o que eu queria mesmo era contar a história de um cantor, como muitos que sonharam e ainda sonham com a vida artística. Dorival pelo menos deixou registrada a sua marca, gravando duas canções que não ainda não tive oportunidade de ouvir “Menina dos olhos grandes” e “Todo meu amor”. Quem sabe um dia passe pelo sebo e resgate um pedaço daqueles bons tempos ou como diz a canção do Roberto “Daquelas velhas tardes de domingo”.

Renato Ladeia