www.celiamattoso.blogspot.com

sábado, 12 de maio de 2012


OS DIÁRIOS DO ALMIRANTE
A história vista pelos diários de bordo.

Relendo os Diários de Bordo do Capitão e depois Almirante Graham Eden Hamond* escritos nos longínquos anos de 1825 e 1838, revi umas passagens interessantes em que o oficial inglês escreve sobre o Brasil e seu povo.  Na primeira parte do diário (1825), Hamond ainda era capitão e foi responsável por trazer a comitiva encarregada do reconhecimento da independência do Brasil. A maior parte do diário se refere aos encontros protocolares e alguns aspectos técnicos de navegação, mas como era do seu estilo fazer comentários sarcásticos sobre pessoas e costumes, não resisti e anotei alguns deles, muitos não são politicamente corretos para um oficial estrangeiro em viagem de representação, mas que representavam a visão eurocêntrica e elitista de uma potência imperial européia.
Era agosto de 1825 e ele avista uma carruagem puxada por quatro cavalos que era dirigida por nada menos que o nosso jovem e fogoso imperador, informalmente vestido, que dá a volta e retorna para cumprimentar os ingleses, mesmo sem falar uma palavra na língua de Shakespeare.  Estávamos construindo a nossa informalidade, nosso jeito de quebrar regras e padrões formais de comportamento. Dias depois Hamond comenta em seu diário que vê a imperatriz Leopoldina montada em um cavalo como um homem (na época as mulheres da elite montavam de lado nas selas dos cavalos) e ela também estava acompanhada por um negro branco e um padre preto. O que ele quis dizer com negro branco? Provavelmente um escravo mestiço, com a pele branca. O padre preto também era algo surpreendente para a época, pois era raro um negro ter acesso a um seminário.
Naquele tempo os franceses estavam em alta no Brasil depois de um acordo em que 600 jovens brasileiros foram convidados a estudar na França com as despesas pagas. Enquanto no Rio de Janeiro habitavam mais de 3000 franceses, apenas 600 ingleses eram moradores na cidade, apesar da grande influência econômica dos britânicos no país.  A Rua do Ouvidor, que existe até hoje, era praticamente uma rua de franceses, com muitos modistas. Era o prenúncio da invasão dos “Pierre Cardin, Yves Saint Laurent, Louis Vuitton” etc. Essa preferência pelos franceses surpreendeu o inglês, pois em suas visitas a Portugal, observara que a influência inglesa era notória entre os lusitanos.
E o palácio do imperador? O nosso almirante o descreve como um edifício feio, amarelo e na época estavam a fazer nele alguns puxadinhos, pois era pequeno demais para abrigar a corte. E a cidade maravilhosa? Hamond narra um dia de chuva, em pleno 1825 e diz, maldosamente, que é a cidade mais imunda que já viu em sua vida e até os escravos estavam cobertos de lama. Em dias de chuva parece que o Rio gosta ainda de reviver os velhos tempos.  Mais adiante ele comenta que não pode achar a cidade saudável por causa dos abomináveis pântanos que tem em redor. No mesmo dia, o oficial britânico manifesta dúvidas se Portugal vai mesmo reconhecer a independência do país de forma tranqüila ou vai manter uma soberania nominal sobre a antiga colônia. Estava errado, apesar de que o Brasil foi obrigado a pagar uma pesada indenização ao império português, que apesar dos trezentos anos de exploração das riquezas da terra ainda exigiu os “lucros cessantes”.
No dia 15 de dezembro de 1834 havia chegado ao porto um brigue com 500 escravos a bordo que fora detido por um capitão inglês. Havia nele 521 escravos, mas 21 morreram pelas péssimas condições a bordo. Hamond prevê a morte de 1 a 2 escravos por dia. Dias depois ele comenta que 200 dos melhores escravos foram roubados durante a noite. Com este episódio ele manifesta descrença de que o governo queria realmente abolir o tráfico, pois o tratado era bastante antipático para os brasileiros. O pior é que um juiz brasileiro acusava os ingleses pelo roubo dos escravos. Hamond qualifica os ministros brasileiros como salafrários. Posteriormente ele relata que o Ministro das Relações Exteriores, um tal de Aureliano foi acusado como responsável pelo roubo dos escravos.
Ele relata em 10 de fevereiro que houve, na Bahia, um levante de escravos que resultou na morte de 60 deles durante a violenta repressão do governo local. Vê-se pelo relato que a situação não era muito pacífica no império com relação à ordem escravocrata.
Outro fato interessante relatado pelo oficial inglês é o seu encontro com o imperador, em que ele descreve que “É um menino de 10 anos com uma aparência agradável. Estava vestido de uniforme azul e ouro, calças brancas e amarrado a uma espada enorme”.   Neste episódio, relativo à comemoração do aniversário da constituição, estavam presentes vários oficiais e ao descrever um deles, o britânico assim se expressa: “Um mulato oficial do exército, tinha o aspecto de um imenso babuíno e, realmente, só lhe faltava o rabo”.  Observa-se pela descrição que dependendo da posição social e econômica, não havia dificuldade de acesso dos mestiços aos altos escalões militares e nem mesmo na corte. O que é bastante desagradável é a forma racista com que o inglês se referia as pessoas de origem africana.
Outro fato curioso são os comentários que faz sobre as mulheres, principalmente com relação aos dentes. Numa ocasião descreve uma mulher brasileira pertencente à elite que não tinha um único dente na boca. Num baile Hamond comenta sobre a dança na moda no Rio de Janeiro, a quadrilha e elogia os músicos, na maioria mulatos.
No dia 24 de junho, dia de São João, relata que houve uma grande festa, mostrando que a comemoração, que hoje tem importância maior no nordeste do que nas outras regiões do país, era uma festa bastante concorrida na capital do império.
Em 31 de julho o seu navio está atracado em Recife, onde ele observa que os escravos negros de lá são bastante diferentes dos existentes no Rio de Janeiro, notando que são provavelmente originários de apenas uma região da África.  Como de costume, ele faz observações racistas ao dizer que alguns teriam belas faces se não fossem negros.
Sua pena crítica não perdoava o governo brasileiro da época ao mencionar que os recursos seriam prodigiosos se as receitas fossem aplicadas corretamente. “Mas o peculato, nos vários departamentos, vai além de qualquer observação possível” (pg.89). Infelizmente isso mostra que nossa vocação para o patrimonialismo tem raízes antigas. Numa outra passagem, comenta sobre a captura de mais um navio negreiro, que apesar da proibição, o tráfico continua no país. Com desalento ele revela que de pouco adiantara a captura, pois em pouco tempo os escravos estariam trabalhando nas fazendas apesar de estarem sob a custódia do governo.
A propalada fama de que as mulheres brasileiras são muito bonitas não encontrava em Hamond uma opinião muito favorável, pois escreve em seu diário que havia poucas mulheres realmente bonitas no Brasil. Cita ainda a opinião de um francês, que havia estado em vários lugares no mundo, que dizia que nunca havia visto, numa reunião, tão grande número de mulheres feias como no Rio de Janeiro.
Os diários do Almirante, apesar dos seus comentários preconceituosos e reveladores de um distanciamento muito grande da realidade brasileira por parte de um oficial elitista e preconceituoso, são interessantes para se captar nuances do cotidiano do Brasil há quase duzentos anos. Um país recentemente independente que manteve intactas as estruturas coloniais após se libertar do jugo da metrópole portuguesa

  • HAMOND, G. E.  “Os diários do Almirante Grahan Eden Hamond 1825 -1838”. Tradução de Geyer, Paulo Fontainha, Rio de Janeiro: Editora JB, 1984.
Renato Ladeia

VIDA DE BOIADEIRO






Meu amigo Álvaro Pequeno, por contradição um grande sujeito, no tamanho e na generosidade, defendeu uma tese um tanto atípica nos meios acadêmicos sobre os peões de boiadeiro em sua trajetória desde os tempos heróicos dos tropeiros. Os atuais peões de boiadeiro usam roupas de grife americanas, com botas que chegam a custar até dois mil dólares. As festas que são realizadas em Barretos chegam a reunir mais público dos que os grandes clássicos de futebol. Os peões colocam suas vidas em jogo por alguns segundos de fama em cima de um boi selvagem. Quando conseguem vencer a disputa e sobrevivem no lombo do boi, podem ganhar uma pequena fortuna. Quando não, podem sobrar umas costelas, pernas  quebradas ou até uma paralisia.  Os pobres peões são parte do espetáculo, mas dormem embaixo dos caminhões enquanto aguardam sua vez de entrar na arena e quando são acidentados são abandonados pelos organizadores.
Quando soube da sua pesquisa lhe ofereci umas fotografias que eu tinha guardadas em casa do meu tio boiadeiro, que labutou pelo interior de São Paulo e Mato Grosso, transportando boiada. José Ladeia , estava com apenas dezessete anos quando abandonou a escola e a família para viajar junto com uma comitiva. Sua primeira função numa viagem para o Estado de Mato Grosso foi como ajudante do cozinheiro. Aos poucos foi pegando jeito e logo já estava tocando a boiada junto com os demais vaqueiros. A vida de boiadeiro ou tocador de boiada era muito difícil, conforme contam os cronistas e as modas de viola. Dormir ao relento em cima do baixeiro era rotina dessa vida nômade levando e trazendo boiadas pelos sertões. Mas para José era uma aventura sem fim, sentia prazer com esse trabalho que lhe dava algumas satisfações e sucesso com as mulheres. Pelo nosso interior adentro ser namorada de boiadeiro era a possibilidade de estar com um homem que conhecia o mundo, uma pessoa viajada, experiente. Além disso, a espera era sempre compensada com presentes vindos de longe.  José aprendeu a tocar viola com o pai, que lhe ensinava algumas modas. Com isso ele divertia a peonada cantando músicas como Viagem Cuiabana que enaltecia a vida de peão de boiadeiro.
Tempos depois já era o chefe de comitiva, cabendo-lhe a responsabilidade pela entrega do gado e recebimento dos pagamentos. Pagava os peões que torravam o pouco que ganhavam nos cabarés das cidades onde deixavam o gado. Lá sempre eram envolvidos por mulheres sedutoras, que prometiam fidelidade eterna com uma mão no coração e outra no bolso do peão.
Boiadeiro não podia casar e quando isso acontecia era inevitável a separação, pois a vida errante não permitia uma vida sedentária. As longas viagens minavam qualquer relacionamento. Foi o que aconteceu com meu tio. Casou-se com uma boa moça do interior, filha de um fazendeiro e com ela teve cinco filhos. Casado, as viagens diminuíram, mas a paixão pelas comitivas falou mais forte e o casamento acabou.
Logo se envolveu com uma professora de Araçatuba, chamada Norma. Era bonita e elegante e estava feliz por ter ao lado  um boiadeiro quase famoso e muito respeitado na cidade. O casal era feliz e viviam aos beijos e abraços até que um dia o jovem boiadeiro, domador de burro bravo e que se gabava por subir em qualquer lombo de boi, teve uma queda fatal. Ficou desacordado e ainda chegou com vida para despedir-se da mulher amada. Morreu com 30 anos com a cabeça ainda cheia de sonhos e paixões.
Ele gabava-se por sair de Araçatuba antes de nascer o sol e chegava à casa dos pais, em Lavínia, antes do sol se pôr. Eram mais de 60 quilômetros a galope no lombo do fiel burro Furioso que deixava poeira para fora pelas estradas boiadeiras que cortavam a região noroeste paulista. O Furioso vinha todo incrementado, com peitoral de argolinha feito sob encomenda pelo Sebastiãozinho traçador.
E o Álvaro Pequeno fez uma pequena homenagem aos boiadeiros brasileiros que labutavam a região sudeste, descrevendo as suas aventuras e desventuras desde o século XIX até Barretos, cidade dos peões de boiadeiro. Ele foi além da tese, bem escrita, com pesquisas teóricas  e empíricas e trouxe para a Universidade um grupo típico de boiadeiros com toda a sua parafernália, incluindo cozinheiro, comida típica como paçoca e arroz de carreteiro. Para encerrar, belas e inesquecíveis modas de viola. José, observava atento a movimentação ao lado do seu burrão Furioso, mas era apenas uma fotografia ampliada em forma de painel que o amigo Álvaro mandou preparar como símbolo de um tempo.

VIZINHOS

Não conheço meus vizinhos. Não sei o que eles fazem, o que pensam, em quem votam ou do que não gostam. Alguns são silenciosos, outros são barulhentos, mas é somente isso que posso lembrar sobre eles. Quando era criança sabia a vida de todos os habitantes das redondezas. Meu bairro era uma pequena aldeia e todos estavam conectados. Hoje estamos todos conectados globalmente e perdemos o contato pessoal com as pessoas próximas.
Pensando nisso, resolvi revisitar a mesma rua onde morei até os vinte e sete anos.  Era uma rua com pouco movimento e lá podíamos brincar de taco o dia inteiro sem o risco de passar um carro em velocidade. O taco era um tipo de basebol adaptado às circunstâncias e recursos disponíveis. Fui abrindo o livro da memória e resgatando os velhos tempos.  Naquela rua jogávamos também futebol com bolas de borracha, de couro ou feitas com meias. Trânsito só tinha mesmo nas ruas laterais, por onde transitavam os ônibus circulares. Algumas vezes os vizinhos reclamavam, principalmente quando uma bola caia nos quintais, quebrando plantas ou vidraças. A coisa ficava feia e num piscar de olhos a turma toda desaparecia. A rua ficava um deserto e somente no dia seguinte o pessoal aparecia e muito desconfiado.  Era difícil saber quem foi e por isso acabava ficando por isso mesmo. Mas para os vizinhos, os meninos mais pobres eram sempre os culpados. Como sempre, o preconceito de classe social fazia as suas vítimas.
Algumas calçadas ainda eram de terra e nelas fazíamos as biroscas ou buraquinhos para jogar bolinhas de vidro. Era uma alegria só. Os “patos”, jogadores muito ruins, perdiam todas as bolinhas compradas no armazém do seu Antônio. As brincadeiras tinham a sua época própria, obedecendo a uma sazonalidade que parecia programada. Eram épocas dos piões, das bolinhas de vidro, das pipas, da unha na mula e outras tantas. Quando chegava o verão e começava a escurecer o divertimento era pegar vagalumes e coloca-los em vidros. Era um luxo só ter um abajur de vagalumes.
Cada um dos nossos vizinhos tinha uma história diferente. Era uma rua quase internacional. Dona Maria, uma senhora polonesa, que todos chamavam de Maria Hungareza, era prima do papa João Paulo II conforme se descobriu tempos depois, e tinha o mesmo sobrenome, Woytila.  A Dona Ana, uma alemã, tinha uma filha bonitona, que era professora no grupo escolar, chamada Rasma. Tinha mais dois filhos, um deles o pobre Frederico, que tinha retardamento mental. Todos os meninos cresceram e foram ficando rapazinhos enquanto o Frederico só ficou grande, mas com a cabeça de uma criança. Corria entre as crianças menores para apanhar balões, disputando a tapas a primazia de apagar a tocha.  Ele sempre pegava os balões, pois tinha quase dois metros de altura.
Quase em frente de nossa casa morava o seu Affonso que trabalhava nas indústrias Matarazzo e nas horas vagas cortava o cabelo da criançada por um preço bem mais baixo do que nas barbearias do bairro. Enquanto cortava minhas madeixas gostava de conversar, principalmente pelo fato de que eu já estava no ginásio e por isso achava que eu já devia ter opiniões sobre tudo. Seu pai era um velhinho italiano, baixinho e roliço que adorava uma caninha. Saia de casa todos os dias e andava uns dois quarteirões para tomar uma branquinha. Voltava tropeçando na sombra. Seu Antônio era muito simpático e brincalhão com as crianças e todos nós o adotamos como o nono. Isso com direito a pedir-lhe a benção que ele adorava. Gostava de fazer charadas com as crianças como uma em que fazia uma afirmação sem vírgulas que mudava o sentido da frase: “Matar o rei não é pecado ou Matar o rei, não, é pecado”. Hoje eu me lembro muito bem que ele repetia sempre a mesma coisa e nós achávamos sempre graça. Uma vez ele me flagrou fazendo xixi atrás do muro de sua casa. Fiquei assustado, mas ele foi muito gentil e disse que fazia mal parar. “Pode continuar sossegado”, aconselhou no seu sotaque italiano. Numa outra vez um menino me chamou de f.d.p. e ele ouviu indignado. “Na Itália, chamar a mãe de alguém assim, dá cadeia”. Pode ser que era no seu tempo, final do século XIX, mas hoje os italianos...
Seu Antonio, o vizinho do lado, era um homem enorme que andava sempre de terno preto e muito quieto. Sua mulher, dona Iracema era uma mulher de pouco humor. Eles não tiveram filhos e por isso a pouca tolerância com crianças. Vieram de Osasco, na época uma pequena cidade no oeste da capital. Em seu quintal havia pessegueiros, ameixeira, amoreiras etc. que eram a delícia dos pássaros e da molecada. De vez em quando corríamos o sério risco de levar uma lambada entrando furtivamente em seu quintal para surrupiar umas ameixas amarelinhas. Tempos depois descobrimos que a Da. Iracema não era tão ruim como inicialmente pensava. Ela fazia um nhoque imbatível.
Outro vizinho chegado às caninhas era o seu Osvaldo, um santista que o meu irmão gostava de imitar e o fazia tão bem que confundia até os seus filhos. Uma vez, quando comprei o meu primeiro fusquinha, ele resolveu que precisava me ensinar algumas dicas para ser um bom motorista e acabou dando uma ralada em meu primeiro carrinho. Ele prometeu pagar o conserto, mas como quem tomava conta do dinheiro era sua mulher, fiquei a ver navios.
Na esquina morava uma família enorme, também de origem italiana. Eram quatro ou cinco filhas e dois filhos, com os quais travamos violentas brigas de pedras e lá se iam vidraças. As ruas não eram calçadas e a prefeitura para evitar atolamentos de veículos, colocava resíduos de siderúrgicas, que deixavam pedras pesadas e ponte agudas, um perigo quando acertava a cabeça de alguém. Aliás, a minha ainda conserva marcas de petardos atirados por algum desafeto.
Dona Frida, uma russa, professava o espiritismo e convidava os vizinhos para participaram da mesa branca. Minha mãe sempre ia, pois apesar de católica, gostava de transitar pela Umbanda e o Kardexismo. Uma vez fui com ela, pois estava com uns problemas de saúde e ela resolveu tentar a sorte antes de levar-me ao médico. Com meus doze anos, achei estranha cerimônia, bastante diferente dos rituais da igreja Católica. Havia um copo com água sobre a mesa com toalha branca e algumas velas acesas. A luz era apagada para criar um clima de paz para que os espíritos se comunicassem. Confesso que não vi nem senti nada. De repente, no meio do ritual, a Dona Amélia, que tinha um leve sotaque russo, começou a falar português com sotaque nordestino, depois mudou para um sotaque alemão. Minha mãe me explicou que ela era um cavalo que estava recebendo o espírito de alguém estrangeiro. Ora, pensei com meus botões: Por que não fala na língua de origem e não em português. Fiz a pergunta para minha mãe e ela mandou que eu calasse a boca, pois não entendia nada.
Nossos vizinhos dos fundos tinham filhos da mesma idade que a gente e por isso éramos mais próximos. Estávamos sempre brincando e íamos muito a casa deles. Uma vez eu e meu irmão mais novo dormimos lá, pois minha mãe estava internada por causa de uma cirurgia. Foi muito divertido e o pai deles seu Pepe, um mecânico, ensinou vários truques para mim. Vimos televisão até tarde da noite, coisa que nunca acontecia em casa, pois meu pai além de dormir cedo, pensava que se a televisão ficasse ligada por muito tempo daria problemas e despesas com o técnico. O filho mais velho deles, o Paulinho Cabeção, era assim chamado por ter a cabeça um pouco grande, mas era um bonachão e apesar de mais velho tinha comportamento de garotos de menos idade. Ele se divertia rodando um pneu de carro pelas ruas. Não conseguiu terminar a escola primária e teve dificuldades para trabalhar. Encontrei com ele na casa dos meus pais em 1995, quando meu pai estava se recuperando de uma pneumonia. Paulinho já era um senhor de cabelos muito brancos, bastante envelhecido para idade. Neste mesmo dia meu pai teve um enfarto e só saiu do hospital para a última viagem.
Outra vizinha, dona Itália, foi vítima de uma grande tragédia. Seu filho de 18 anos morreu afogado em uma represa em São Bernardo. Foi muito triste, pois era apenas um garoto. Ele saiu com uma turma para nadar e aconteceu o trágico acidente. Logo depois o seu marido morreu com câncer, que em casa se chamava doença ruim, ou aquela doença que ninguém gostava de falar o nome. Fui com meu pai visitá-lo uma vez. Era um senhor alegre e simpático que mesmo acamado sem poder andar, ainda fumava e dizia besteiras. Dona Itália, sua mulher chorou muito no velório. Gritava desesperada que os dois únicos homens de sua vida tinham partido. Ficou ela e a filha Marizilda, uma garota levada da breca, que era a valentona do bairro e batia até nos marmanjos. Como a mãe trabalhava fora, ela abria a casa e servia pão com manteiga e café com leite para toda a molecada. Ser amigo dela era uma proteção. Um dia ela resolveu ir para a nossa casa com toda a sua turma. Minha irmã mais velha acabou deixando, mas constrangida porque nossa mãe não gostava de crianças em nossa casa. No dia seguinte teve muitas palmadas e puxões de orelha, além das terríveis broncas. Ela só não contou para meu pai com medo de que ele ficasse muito furioso.  Mas a Dona Itália, tempos depois teve um caso com um rapaz solteirão, filho do marceneiro.  Ela bem mais velha do que ele e era muito ciumenta e ele chegado a um rabo de saia conforme se falava lá em casa. Um belo dia de sol apareceu uma moça bonita e elegante na esquina do armazém do seu Antonio e perguntou-me se eu conhecia o Alexandre. Claro que conheço, respondi prontamente. Então ela pediu-me que fosse dar um recado que ela muito queria falar com ele. Fui rapidinho até a casa do tal de Alexandre, que estava dormindo. Quando falei que uma moça estava querendo falar com ele, a Dona Itália ficou uma fera e saiu de chinelas para encontrar a rival. Foi o maior barraco. A moça, muito educada tentou contornar a situação, mas foi humilhada publicamente, com todos os impropérios que as mulheres ciumentas utilizam contra as suas rivais. Naquele dia aprendi novas palavras e tornei outras mais feias. Começou a juntar muita gente até que o Alexandre apareceu e apartou o que seria uma briga de fato. A moça foi embora e ele levou a mulher para casa.
E por falar em afogamentos, esses eram constantes na represa em São Bernardo e de vez em quando tínhamos notícias de novas tragédias. Um colega do grupo primário, o Mário Corvalan, também caiu na armadilha e morreu com 18 anos na mesma represa. Meu irmão Nelson quase foi vítima da mesma tragédia. Por sorte na segunda vez que subiu à superfície, um bombeiro conseguiu retirá-lo de lá. Outro menino, que estudava no mesmo colégio que eu, também foi vítima e este estava com apenas 16 anos.
Andando pela rua acabei lembrando também de um caso que quase virou uma tragédia. Dona Mariquinha, a mulher do padeiro, ficou furiosa com um menino que bateu em seu filho. Não foi nada de mais, mas o menino chorou pra burro.  Dona Mariquinha foi até onde o garoto estava e deu-lhe uns safanões para que aprendesse a nunca mais bater em seus filhos. A mãe do menino trabalhava numa fábrica até as dez da noite e no outro dia, sabendo da história pelos outros filhos, não teve dúvidas. Levantou-se cedo, colocou um punhal escondido no peito, mas que dava para ver um pedaço do cabo. Tirou o garoto da cama e o levou arrastado até a casa da vizinha. Ele não queria ir, principalmente porque ele havia molestado o garoto sem nenhum motivo e depois ficou seriamente com medo do que poderia acontecer. A molecada foi atrás da dona Custódia como uma procissão. Chegando à casa da dona Mariquinha, esta abriu a janela e tremeu igual uma vara verde. Dona Custódia com o filho puxado pela mão entrou na varanda da casa e bateu forte na porta. Dona Mariquinha saiu de camisola e pediu pelo amor de Deus que não batesse nela e que tivesse dó dos seus filhos. Dona Custódia mostrava o filho e falava: “Quero que tu bata nele agora! Vamos sua covarde, encoste um dedo nele que tu não vai ver mais seus filhos”. A mulher chorou desesperada e se ajoelhou nos pés da dona Custódia, uma gaucha valente que só vendo. Pessoalmente, acho que ela não ia fazer nada, mas quis impressionar e garantir que ninguém iria molestar seus filhos em sua ausência, já que eles ficavam sozinhos quase o dia inteiro.
Eu também protagonizei uma cena que ficou nos anais da memória dos velhos. Um garoto gordo e molengão chamado Rodil bateu em meu irmão mais novo. Não tive dúvidas, fui tirar satisfações com o grandalhão e apliquei-lhe uma gravata e uma rasteira e só ouvi o tombo do menino no chão. A mãe, uma senhora roliça, resolveu entrar na briga e acabou caindo no chão junto com o filho. Diante do inusitado, dei o fora, pois brigar com adultos era encrenca na certa. No dia seguinte ela estava em nossa porta para conversar com minha mãe. Dona Itanina pediu desculpas pelo que aconteceu, mas antes advertiu a senhora balofa que em briga de crianças, adultos não devem se envolver. Mas de qualquer forma levei uma surra bem dada com um velho cinto do papai, grosso, cruel e pesado, que deixou manchas vermelhas pelas pernas e na alma.
Nesta visita a minha rua e ao meu bairro, senti saudades dos velhos e distantes tempos de criança. As paixões de infância, como a Geni que era filha do guarda civil, depois a Mirian, filha de um amigo do papai e, finalmente, a Maria, minha vizinha do lado, fizeram-me lembrar que, naquela época, eu era bem volúvel em matéria de amor. Prédios deram lugar as casas dos antigo vizinhos e companheiros de infância. Nada é para sempre e na época não se pensava nisso. Parecia que o mundo seria sempre o mesmo.  O sol sempre quente e as peladas na rua que duravam eternamente. Virava depois de seis gols e acabava com doze e nas férias jogávamos várias partidas que só paravam quando o sol se punha no horizonte. Fizemos mais gols do que o Pelé e o Romário juntos, mas como não havia ninguém para registrar, caíram no esquecimento.


O MARQUINHOS

Marquinhos era “mariquinha”. Era assim que todos os garotos do bairro se referiam a ele. A molecada era cruel, mas ele nem dava bola para a galera. Com sete ou oito anos, passava batom na boca e usava os sapatos de salto de sua irmã mais velha. Muita gente da turma falava em “comer” o Marquinhos, mas era só conversa, principalmente, porque ele nem sabia direito o que era isso. E continuava com seu jeitinho efeminado, dengoso e sempre na dele.
Pobre Marquinhos morava num cortiço com mais seis irmãos em apenas um quarto. O banheiro era dividido com outras famílias. Sua mãe dona Encarnacion, era uma espanhola magra e doente que trabalhava duro para sustentar a família. O marido de vez em quando aparecia para ver os filhos, mas ajudava pouco ou nada. O dono do cortiço quase sempre aparecia para cobrar os aluguéis atrasados. Parava o Chevrolet Bel Air e descia engravatado com o filho e um empregado. Era um acontecimento na vizinhança.  Era comer ou pagar o aluguel. Dona Encarnacion dizia para os vizinhos: “No hay dinero para comer, no hay dinero para alugueres”. E assim iam tocando a vida.
A irmã mais velha do Marquinhos, a Lola, começou a trabalhar numa fábrica lá pelos lados da Mooca. Coitada, precisava levar marmita e quase sempre era um ovo frito com arroz e feijão. Entrava às duas da tarde e saia às dez da noite. Chegava em casa quase meia noite, quando não chovia. Um dia, desgostosa da vida, resolveu cair na vida e não voltou mais para casa. Demorou muito tempo até que apareceu muito bem vestida e distribuiu presentes para todos os irmãos e nunca mais voltou. A mãe, uma senhora muito respeitosa e religiosa, renegou a filha, uma puta.
A outra irmã, a Marisa, era muito bonita e tinha belas pernas.  Era avoada e por pouco não foi seduzida por um dos rapazes metidos a bacana do bairro. E não sei que fim levou, pois algum tempo depois a família mudou-se do cortiço para outro bairro.  Com os hormônios a flor da pele, tive pesadelos com a Marisa e as suas pernas morenas e roliças sempre a mostra por causa dos vestidos curtos.  Para que tanta perna meu Deus! Meu coração pensava. Mas meus olhos não pensavam em nada. Eu ainda não havia lido o Drummond, mas o poema se encaixava perfeitamente nos meus devaneios.
E Marquinhos continuava sendo um menino diferente. Quando estava lá pelos treze anos, desandou de vez, passou a usar tamanquinho de salto, calças agarradíssimas, pulseirinhas e outros adereços. A turma toda gritava: “Marquinhos boneca” e ele nem dava bola e até rebolava para provocar o pessoal. Dizem que a dona Encarnacion mudou de bairro por causa da vergonha que sentia. Uma filha virou puta e o filho mais novo... Era demais para uma mulher conservadora, sofrida e miserável.
Tempos depois surgiram notícias do Marquinhos através de uma garota do bairro que descobriu ele estava trabalhando num salão de beleza. Começou fazendo unhas e depois cabelos. Era a glória para ele, que adorava conversar com as garotas e trocar ideias sofre penteados e roupas. Depois disso começou a frequentar o bairro novamente, mas por causa de outro menino que morava numa rua próxima. Os dois saiam de tamanquinho e maquiados para a alegria dos fofoqueiros do bairro. Era um comentário geral sobre as duas figuras diferentes. A família do outro menino se sentia envergonhada, mas a dona Zelda não abandonou o filho que continuou morando na casa mesmo contra a vontade do pai que queria que ele fosse internado em algum lugar bem distante. O irmão, o Luizinho bozó, era metido a moleque malandro desde criança. Depois de adolescente começou a fumar maconha e andar com outros “boys” do bairro. Usava calça boca de sino, que era uma roupa emblemática do pessoal que pitava a canabis sativa. Luizinho bozó chegou a ser preso, passando mais de um ano no xilindró. Sugeria que ele queria se mostrar malandro para não acharem que ele poderia ser igual ao irmão.
Mas Marquinhos continuou com o seu jeito que causava estranheza no bairro. Passou a se travestir. Vestia-se de mulher e desfilava pela cidade à noite virando bolsinha. Sua carreira não foi tão longa, pois logo foi contaminado pela AIDS nos primeiros anos em que a doença começou a aparecer no Brasil. Foi um longo sofrimento. Vítima do preconceito e da doença virou um trapo humano. Dona Encarnacion, sua única protetora, morreu de câncer com pouco mais de cinquenta anos. Marquinhos, homossexual assumido e aidético, morreu aos 26 anos de complicações generalizadas em decorrência da doença. O menino teve uma vida curta e não viu a passagem do século, quando prometia soltar a franga na folia e quem sabe na Parada Gay em plena Avenida Paulista.


Renato Ladeia