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domingo, 29 de julho de 2012


UM CAFÉ COM ANTONIETA SECCO THENÓRIO

Passávamos um fim de semana em Piedade na casa dos Thenórios. Fazia um frio que doía nos ossos. Como sou um madrugador acordei com os primeiros filetes de luz que entraram pela janela e senti uma vontade imensa de tomar um cafezinho bem quente. Logo levantei e fui para a cozinha, evitando fazer barulho para não acordar o pessoal.  Água na chaleira, pó no coador e fiquei esperando o fogo fazer o seu serviço. Enquanto isso fiquei olhando pela janela o gramado que parecia um tapete branco. Sugeria neve, mas não era. Ainda bem. Não sinto nem um pouco de inveja de quem vive onde cai neve. Neve é triste, monocromática e não tem graça nenhuma. 
Mas eis que a água ferveu e comecei a passar o esperado café. Café gostoso, café com cheiro bom, cheiro de roça, cheiro de mato, cheiro de manhã se espalhou pela casa. Logo ouvi uns passos pelo corredor. Era a Dona Antonieta, mãe do nosso anfitrião, que se levantou com o cheirinho da bebida que conquistou a humanidade desde o século XIX.
- Que cheiro bom! Que delícia sentir o cheiro de um cafezinho logo cedo! Não sabia que você fazia café, disse sorrindo a Antonieta.
Sentou-se à mesa e eu a servi e começamos a falar sobre os vários modos de se fazer um bom café, enquanto saboreávamos a bebida naquela distante manhã de inverno.
- Eu gosto de escaldar o coador, pois tira o gosto de pano e café velhos, disse ela.
- Ah eu também faço isso, concordei.
- Eu não coloco o bule sobre a pia. Prefiro colocar uma tábua embaixo, pois assim o café não esfria tão rápido.
- Eu coloco o café bem socadinho no coador, pois ele tira mais sabor do pó, apesar de coar mais lentamente, eu disse estimulando a conversa.
- Nunca tinha pensado nisso, vou experimentar fazer o café assim. Eu não gosto de deixar a água fervendo, pois queima o café, como fazia minha mãe; disse ela confiando-me o segredinho de família.
- Os baristas, especialistas em café, dizem a mesma coisa, que não se deve deixar a água ferver muito. Quando inicia a fervura, deve-se apagar o fogo e começar a passar o café, disse.
- Pra mim barista é coisa de bar. Que nome esquisito para os entendidos em café, mas que bom que eu faço o café certinho; não é mesmo?
- Bom, eu também não sabia o que era isso. Li numa revista na semana passada.´

Faz tanto tempo este diálogo e eu me recordo dele como se tivesse ocorrido ontem. Antonieta era uma mulher alegre, feliz, despreocupada. Parecia que nada atrapalhava seu bom humor e estava sempre de bem com a vida. Quando ligava para sua casa para falar com seu filho era difícil encerrar a conversa, pois ela ia puxando um assunto atrás do outro. Adorava conversar, saber das novidades. Seu marido, Delcy Thenório, cuidava de tudo, dos pagamentos, das compras e da poesia. Antonieta vivia para o marido e para os filhos e netos. Recordo-me que quando visitávamos o casal, ficávamos quase sempre na cozinha. Enquanto ela passava um café o seu Delcy lia seus novos versos. Ela ria de modo feliz por seu marido ser poeta e escrever coisas bonitas e as pessoas gostarem do que ele escrevia.
Para a tristeza de todos, a Antonieta partiu levando com ela o seu sorriso bonito e feliz. A vida ficou mais triste sem ela, mas na memória sempre fica a lembrança, como uma fotografia na parede do tempo passado. Juntou-se ao seu amado Delcy Thenório que deve andar lá a escrever seus versos nas tardes do sono eterno. Entre uma rima outra ele deve pegar a Antonieta pela mão e caminham em direção ao horizonte, sem pressa, sem preocupações. E eles vão sumindo entre as estrelas distantes, como diria seu filho poeta.