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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

“O ROUBO DO CELULAR”


 Contou-me um velho camarada que acordou disposto no último sábado e resolveu fazer uma visita surpresa à uma velha amizade em Piedade, cidade ao sul da capital paulista. Convocou o filho como motorista, pois é uma viagem e tanto para os seus quase 70 anos. A cidade, para quem não conhece, é bastante pacata, um povo hospitaleiro e gentil. É a própria cidadezinha qualquer que o poeta Drummond imortalizou nos seus versos. Ninguém por lá tem muita pressa, sinal de que a febre do “time is Money” ainda não chegou com tudo por aqueles recantos. As coisas em Piedade tem um ritmo próprio nem muito apressado, nem muito devagar. Trombadinhas e assaltantes são coisas estranhas e quando acontece, rapidamente, o delegado descobre que não é de Piedade, mas de alguma outra cidade vizinha ou gente da capital.
E foi pensando no bucolismo da velha Piedade, que meu amigo acompanhado do filho aportou no lugarejo, passando antes num restaurante para não chegar de barriga vazia na casa do amigo, que não estava esperando a visita. É evidente que se chegasse com fome, a amável dona da casa fritaria uns ovos, esquentaria o feijão com arroz e estava tudo bem como reza a tradicional hospitalidade do nosso interior; mas meu amigo é orgulhoso e não gosta de dar trabalho.
No restaurante saboreou um frango grelhado com salada e deu uma bicada na cerveja. Conversa vai conversa vem, deixou seus pertences na mesa aos cuidados do filho e foi se aliviar no banheiro (Não sei por que a gente tem mania de chamar de banheiro, um local que nunca tem chuveiro). Terminado o almoço, acertadas as contas, pegaram o carro e no caminho se deu conta de que o celular não estava com ele. O filho não reparou o celular na mesa. “Fui roubado” exclamou  decepcionado. “Até aqui em Piedade já tem ladrão de celular! Está tudo perdido”, foi reclamado até o destino.
Na casa do amigo contou a história e este tratou logo de acalmá-lo lembrando que a dona do restaurante era uma velha conhecida e se o celular foi roubado lá, ela haveria de encontrar o larápio e o objeto surrupiado. “Aqui no interior a gente sabe de tudo”, disse ele com a tranqüilidade que lhe é peculiar.  Depois de colocarem a conversa em dia, relembrando as  antigas aventuras e desventuras, as notícias dos amigos, tocaram viola e cantaram em dueto velhas modas caipiras. Terminada a visita, foram os três à cidade e passaram no restaurante para ver se a dona tinha notícias do telefone móvel, como se diz em Portugal.
Lá chegando, o amigo de Piedade explicou o acontecido para a dona do restaurante, que muito zangada, disparou:
- Ah quer dizer que foi o f.d.p. que foi cagar e derrubou o celular no vaso é seu amigo? Precisei chamar um encanador para consertar o estrago. Quero saber quem vai pagar o meu prejuízo?
            O piedadense virou-se para procurar o seu amigo da capital e não viu nem rastro. Como a amiga falou muito alto ficou a impressão de que era uma discussão com ele.  Precisou se desculpar com ela e saiu sorrateiramente em meio ao movimento da casa antes que encontrasse algum conhecido. O meu amigo e seu filho, quando ouviram a conversa e já sabendo que o celular já era, deram meia volta e saíram de fininho antes que a “obra” se tornasse pública e, além disso, poderia correr o risco de pagarem a conta do encanador.
No retorno à São Paulo foi pensando no celular e na tecnologia que permitia que  a sua mulher, os clientes e os chatos acompanhassem os seus passos em tempo integral, onde quer que fosse. “É, o celular está resolvendo problemas que eu não tinha antes...”, matutou.  Como o filho havia esquecido o dele em casa, estava feliz da vida, pois não recebeu nenhuma ligação desde que o maldito celular tinha ido para o esgoto. E assim aproveitou a viagem para apreciar o verde entre Piedade e Ibiúna que se espalhava até onde a vista alcançava. “Verde que te quero verde...”. E assim, recostou-se preguiçoso nos versos do poeta de Andaluzia e só acordou com o barulho infernal do trânsito de São Paulo.
O seu velho companheiro de Piedade logo  se deu conta de que o amigo fez uma “bela cagada”. Além de perder o celular, que não devia ser dos mais baratos, ainda o deixou em maus lençóis na cidade. Voltou para casa pensando no partido-alto logo mais a noite do bar do Mineiro em que o assunto com certeza estaria em pauta. Em cidade pequena as notícias andam mais rápido do que na internet. Vai ser um mico daqueles. “É... quem mandou ter amigo moderno da capital?”, resmungou desacorçoado, enquanto acendia um cigarro de palha.

Renato Ladeia