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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O IRAQUE NUNCA ESTEVE TÃO PERTO



O Iraque não está tão longe. A expressão "está para lá de Bagdad" perdeu o sentido no mundo globalizado. Infelizmente, a violência que campeia por lá, também está por aqui. De repente podemos ser uma das vítimas ou nossos parentes, amigos e conhecidos. Estamos todos com as cabeças enfiadas na terra, como avestruzes, sem querer enxergar que chegamos a beira do abismo. Há tempos estamos vendo notícias que informam que grupos marginais roubaram quartéis do exército e das polícias militares. Outras dão conta de que os bandidos utilizam armas muito mais sofisticadas do que as disponíveis para nossos policiais. O embate torna-se desigual, desequilibrando o confronto. De um lado, temos policiais militares que têm esposa, filhos ou pai e mãe. Do outro, temos marginais que estão por conta da vida, ou seja, estão para o que der e vier, pois vieram de um ambiente em que a vida não tem mais nenhum valor, em que os vínculos familiares, quando existem, são bastante tênues. De um lado, profissionais de segurança que andam fardados ou podem facilmente ser identificados e de outro, profissionais do crime, sem nada, absolutamente nada, que possa vinculá-los a uma identidade.
Outra questão bastante séria, é que a criminalidade se instalou de uma vez por todas no coração do sistema capitalista. Descobriram as fragilidades do sistema, tanto legais como burocráticas e agem com tranqüilidade e aparência de lisura. Muitas atividades, aparentemente legais, são hoje contaminadas pelo crime organizado, que inclusive dispõe de esquemas de proteção, não somente dentro da própria polícia, como no sistema legislativo, pois o crime organizado financia eleições de políticos, como afirmou a antropóloga Alba Zaluar em uma entrevista que li tempos atrás. Se o crime está alojado no sistema de representação liberal burguês, talvez não haja mais nada a se fazer, usando a famosa expressão: “Se é inevitável, relaxe...”.
Agora, convenhamos, qual é a moral que um Estado tem para combater a criminalidade quando dezenas de deputados, pegos com a boca no trombone, receberam a qualificação de inocentes, que estavam apenas recebendo um “dinheirinho” a mais pelos relevantes serviços prestados a nação? Mais recentemente, vários políticos foram pegos em manipulações de concorrência para a compra de ambulância e tudo indica, pelas investigações, que muitos deputados na ativa estão também envolvidos. Não se deve falar de corda em casa de enforcado, prega o velho aforismo e por isso todos se omitem, pois há mais telhados de vidro no país do que possam perceber nossas retinas fatigadas. O presidente da República, num discurso requentado vem falar que é preciso colocar escolas no país, pois uma escola custa menos do que uma FEBEM. Ora senhor presidente, São Paulo talvez seja o estado em que escola não falta, pelo menos de ensino gratuito fundamental e médio e é onde estamos tendo uma explosão de violência, jamais vista neste país.
O buraco está mais em baixo. Com milhões de jovens entrando na fase adulta, sem perspectiva de emprego ou quando existem, os salários são tão insignificantes que muitos são cooptados pelas atividades marginais como tráfico de drogas. De nada adianta ter escolas e não ter perspectivas de trabalho, de um futuro decente. Do outro lado, os meios de comunicação vendem a imagem de uma sociedade opulenta, com jovens usando roupas e calçados de grifes famosas, criando a falsa impressão de que todos podem ter acesso. É a ideologia que vende o capitalismo como o grande espetáculo, com celebridades esbanjando dinheiro em iates e carros luxuosos, criando um contraste assustador com as periferias das grandes cidades brasileiras.
Outra questão é o discurso politizado dos grupos ligados ao crime organizado. Estariam eles aderindo a uma ideologia de extrema esquerda, colocando-se contra o sistema? Parece-me muito estranho, pois como poderia uma atividade criminosa que se desenvolveu pela simbiose com o sistema capitalista, lutar contra ele? Seria como se o crime fosse um vírus e atacasse o seu hospedeiro até destruí-lo por completo. Mas como o vírus do crime poderia sobreviver sem o seu hospedeiro natural? Numa sociedade hedonista como a nossa em que a busca pelo prazer supera todas as outras perspectivas, não se pode pensar seriamente que o crime poderia migrar para uma militância política com o objetivo de destruir o chamado sistema. Sem ele nada teria sentido, pois o resultado do crime é o dinheiro que possibilita o acesso aquilo que os mais afortunados tem de sobra. Isso motiva o crime e não ideologias superadas pelo processo histórico. Na realidade, em alguns países da América Latina, os militantes da extrema esquerda, migraram, isto sim, para a marginalidade, diante da impossibilidade de “dinamitar a Ilha de Manhatan”, como diria o poeta Drummond em sua Elegia 1938.
O que fazer diante do caos? Primeiramente, criar condições para que as pessoas tenham as mesmas condições e oportunidades como diria Tocqueville em Democracia na América. Se não existirem as mesmas condições, a igualdade se torna uma utopia tão distante como o socialismo sonhado nos anos 60. Paralelamente, seria preciso ter uma policia equipada, moderna, inteligente, bem remunerada para que possa enfrentar os desvios de conduta, os predadores sociais. Além disso, um judiciário mais ágil e uma legislação que não torne o crime compensador, em qualquer nível. Caso contrário, estaremos caminhando rumo a um beco sem saída, quando a sociedade pedirá, como última saída, um regime totalitário, capaz de por ordem no caos, tal como aconteceu na Alemanha no século passado. Como ainda diria Tocqueville, os povos democráticos querem a igualdade na liberdade e, se não a puderem obter, ainda a querem na escravidão.
Renato Ladeia

A MORTE INOVADA


“Funeral é um negócio como qualquer outro e precisa ser inovado constantemente”. A frase, ouvida num jornal na TV me deixou um tanto chocado, pois me habituei a ouvir e ver a morte como algo funesto, desagradável e que coveiro ou o agente funerário eram as piores profissões do mundo, com todo respeito que todas as profissões merecem. Quando criança passava longe das funerárias e só de pensar que um ente querido poderia ser encaixotado me causava arrepios. Lembro-me que ao descobrir que um colega do colégio era filho do proprietário de uma agência, provocou o meu distanciamento dele tal como o diabo foge da cruz. Um carro funerário passando pela rua me provocava asco e olhava para o outro lado. A cor rocha até hoje me é desagradável, por mais que queiram me convencer que é uma cor da moda.
Algum trauma de infância diagnosticaria um psicanalista interessado em algumas sessões de análise. Um medo infundado creio eu, mas pode ter origem nas histórias que eu ouvia quando criança, pintando a morte como um ser perigoso e traiçoeiro, que chegava na calada da noite para levar os escolhidos. O Sétimo Selo de Bergmann ajudou a compor o personagem sinistro em minha memória.
Que tempos modernos são esses em que um coveiro bem vestido, com terno e gravata e todo empolado, vem dizer que a morte é um ótimo negócio e que basta ser inovador para ter sucesso? As inovações a que se referiu o empresário pasmem! São os “bem mortos” (como o docinho chamado bem casado distribuído nos casamentos), lanches, doces e outras guloseimas para fazer inveja para aqueles que passam a pão com margarina e arroz, feijão, ovos e, às vezes, um bife de segunda. Senti náusea e somente não cheguei às vias de fato porque desliguei a TV e fui respirar um pouco de ar puro no jardim lá de casa. Não consigo imaginar alguém comendo em um velório. Perco o apetite só de ouvir notícias sobre uma bomba que explodiu na Palestina. O cheiro de velas e flores me provoca uma sensação horrível e nem um cafezinho se torna palatável.
Sei também que é um problema cultural. Católicos latinos lidam de forma diferente com a morte, mesmo em relação aos outros cristãos como os protestantes. Os orientais têm o hábito de receber todos aqueles que vêem se despedir do morto com uma boa refeição, mostrando a hospitalidade da família. No México, a morte é uma santa que desce dos céus para livrar os crentes do sofrimento da terra. Mas eu sou ainda sou do tempo em que se fazia velórios em casa. Um pano bordado roxo era colocado na porta de entrada para indicar para os passantes que ali um morto estava sendo velado.
Os passantes tiravam o chapéu e faziam o sinal da cruz. Hoje ninguém quer saber de velório em casa. É coisa antiquada, de gente atrasada, dizem os modernos. Um bom velório, de acordo com as regras mercadológicas, deve mesmo ser no crematório com música ambiente, garçons bem vestidos servindo uísque, vinhos e canapés. Contou-me minha filha que no velório do pai de uma amiga no crematório, colocaram em consultar a família, um fundo musical eletrizante, mais compatível com uma balada de sábado à noite. O mal estar foi geral, mas não dava nem para interromper porque a sala de som ficava muito longe do local onde o morto era velado.
Agora, uma coisa é preciso admitir, essa inovação deve ser muito interessante para os penetras, que podem fazer uma boquinha aqui e ali sem maiores problemas. Quem vai contestar a presença de alguém, mesmo que nunca tenha sido visto na vida, que veio consolar a família num momento tão traumático?
Mas foi-se o tempo em que as famílias velavam os seus mortos durante toda a noite. Hoje em dia, por questões de segurança, fecham-se as portas à meia noite e somente retornam no dia seguinte. Os assaltos se tornaram uma constante nos velórios. Os amigos do alheio chegam a altas horas e limpam os bolsos da turma e se o morto tiver alguma coisa de valor, não ficam constrangidos em levar também. Como a segurança pública é precária, o melhor mesmo é prevenir.
Quanto aos crematórios, sempre achei que era uma ótima solução para os restos mortais. Um processo mais higiênico, sem danos ambientais. Mas ao ver um documentário, tempos atrás, sobre o que acontece depois que o morto desaparece, descendo em direção ao forno, fiquei chocado. Mesmo sendo uma pessoa que tem pretensões de ser o mais racional possível, mudei de idéia. Os mortos são colocados em fila, por ordem de chegada e no final do expediente o forno é aceso e começa o processo que leva a noite toda. Depois da queima do caixão, das roupas e flores, entra a parte mais difícil, a queima da carne. Em seguida, restam os ossos com as partes que não foram tostadas totalmente e aí entra o “técnico em cremação” com uma barra de ferro e vai batendo nos cadáveres para soltar os restos de carne, quebrando todos os ossos. No final, o que sobrou da ossada, vai para um moinho para produzir as cinzas. Pode ser também que a inovação dos processos tenha chegado aos crematórios e, também, peço desculpas se cometi alguma incorreção, pois a memória é, muitas vezes, traiçoeira.
Fico pensando se os “coveiros” de crematórios, desses para quem a morte é o cotidiano mais natural, não junta todas as cinzas e as distribui pelas caixinhas para entregar para os familiares. Será que alguém vai conferir? Deve pensar o profissional. Muita gente pode estar levando gato por lebre ou um morto que não é seu. As cinzas de alguém que gostaria que elas fossem espalhadas em sua terra natal podem ter ido para o mar. Nada mais desagradável para um morto do que não ser atendido em seu último desejo. Como não soube de ninguém que reclamou até hoje, vamos levando a vida, ou melhor, a morte.
Renato Ladeia