www.celiamattoso.blogspot.com

terça-feira, 17 de novembro de 2009

BELO HORIZONTE

Hoje me dei conta de que a minha primeira e única visita a Belo Horizonte ainda permanece em minhas retinas fatigadas. Apenas um fim de semana, mas ainda fica a impressão de que durou uma eternidade. A viagem de ônibus foi à noite e fez um frio de doer os ossos. Não consegui pregar os olhos, tal o desconforto. Mas o dia amanheceu bonito, ensolarado e pude conhecer a primeira cidade totalmente planejada do Brasil. Naquele momento me veio à mente a voz da minha professora primária, Da. Teresa Rami, nas aulas de geografia, explicando as características das capitais brasileiras. Mas eu tinha outro motivo, mais relevante para a minha fugaz estadia em BH. Era conhecer a igreja de Pampulha, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e com pinturas do grande mestre Candido Portinari.
A viagem foi a convite de um amigo da época, Marcos Padovani, a quem não vejo há séculos. Sua irmã, Cecília, estava num convento em Pampulha e ele precisava fazer-lhe uma visita, levar-lhe notícias, enfim, coisas de família.
Ao chegarmos ao convento, fomos recebidos pelas irmãs com um almoço, que desfrutamos solitariamente, pois não era permitido às noviças, tomar refeições ao lado de leigos, mesmo parentes. Marcos, um pouco espevitado, abriu um armário e de lá sacou uma garrafa de vinho de missa, do qual saboreamos, pecadoramente, boas doses. Enquanto ele se divertia com a proeza, eu tive a impressão de que viraria churrasco nas profundezas do inferno.
Depois do almoço fomos dar um passeio de barco no lago do jardim do convento. Era uma bela paisagem. O lago era rodeado de choupos que lambiscavam, sorrateiramente, as águas. Cecília era acompanhada pela Alessandra, uma moça bela e suave, que cuidava em remar, vagarosamente, o barco. Marcos, encantado com sua beleza, a provocava, insinuando que ela tivera uma desilusão amorosa com algum Alessandro e por isso o nome. Ela se divertia com as brincadeiras do meu amigo e parecia não se importar com elas. A Cecília que eu já conhecia de vista na igreja do bairro, tinha um olhar profundo e suave, próprio das mulheres que se dedicam de corpo e alma às causas religiosas. Sua voz era serena e amiga, transmitindo paz e tranqüilidade. Uma pessoa inesquecível.
À noite fomos à cidade, pois por motivos óbvios não era possível pernoitar no convento. Vagamos pela cidade tentando comprar amores por preços módicos, pois o dinheiro que tínhamos mal dava para as despesas. Depois de bater pernas inutilmente, acabamos por dormir em um humilde hotelzinho, indicado pelas freiras. As noitadas de amor em BH que seriam cantadas em prosa e verso ficariam para outra oportunidade. Sinceramente, as mulheres mineiras me decepcionaram.
No dia seguinte, um domingo, foi bastante movimentado, com missa no convento, festas e passeios. Lá pude admirar a ousadia arquitetônica de Niemeyer que projetou uma igreja que chegou a ser fechada pela intolerância da conservadora família mineira. Ele quebrou os paradigmas barrocos sob os quais o imaginário popular mineiro concebia uma igreja. Portinari, por sua vez pintou santos rústicos, feios e mal nutridos, representando uma visão primitiva e pura do cristianismo. Isso foi demais para a família mineira, guardiã dos ideais do Brasil colonial. O sábio tempo tratou de curar as feridas deixadas pelas ousadias do arquiteto e do pintor e Pampulha está lá, orgulhosamente no panteão das glórias de Minas.
É sempre triste voltar, pois sempre vem aquele desejo de ficar mais um pouco, conhecer melhor as pessoas, os segredos mais recônditos da cidade, as suas belas mulheres. Voltei sonhando com amores impossíveis, como uma linda freira que abandonaria o hábito e fugiria comigo para uma vida mundana. Antes do amanhecer, a bela freira já teria desistido de abandonar o hábito e eu retornaria a minha vida cotidiana.
Pois é, Belo Horizonte ficou lá, entre as montanhas de Minas e muita, muita coisa aconteceu depois. Cecília Padovani faleceu e hoje é apenas o nome de uma praça em um bairro da cidade, uma homenagem ao seu trabalho voltado para a educação e atendimento à população carente. Os seus gestos suaves, o seu olhar e sua voz serena se perderam por aqueles horizontes verdes azulados, onde olhos mineiros descansam. Quanto a Alessandra, cujos belos olhos encantaram dois adolescentes, que fim terá levado? Belo Horizonte! Quem sabe um dia desses vou novamente à cidade, rever Pampulha e se a sorte estiver do meu lado, tomarei uma boa taça de vinho de missa. Para isso vou precisar da cara de pau do Marcos Padovani, que nem sei por onde anda.

Renato Ladeia

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

LAVINIA REVISITADA

Modéstia a parte nasci em Cachoeiro do Itapemerim, dizia o Ruben Braga. Como dizer modéstia a parte por ter nascido em Lavínia, uma minúscula cidade incrustada no oeste paulista? Tem apenas uma avenida principal, a Perobal que atravessa o povoado de ponta a ponta. O nome perobal está ligado às extensas florestas repletas de peroba que existiam por lá em idos tempos. Até recentemente a avenida ainda era de terra, uma terra vermelha, arenosa, que tinge as casas, os carros, a pele e até as minhas lembranças. O casario baixo, janelas que observam atentamente o movimento das ruas. Um cavaleiro que chega a galope, uma carroça, uma charrete, um jipe empoeirado. Tudo é novidade na cidadezinha qualquer na qual eu nasci. Não me lembro de fotografias da cidade, mas uma delas está comigo e povoou o meu imaginário quando criança. Meu tio José tinha uma comitiva que trazia boiadas do Mato Grosso e Goiás. Nesta foto, no centro da cidade, ele estava todo garboso em sua vestimenta gaucha, como era moda nos anos trinta e quarenta.
Lavínia não tem grandes encantos ou desencantos tampouco. Surgiu durante a nova expansão dos cafezais rumo ao oeste nos anos trinta do século passado. Na época a região ainda era habitada por índios e por posseiros caboclos. Chegaram os trilhos da estrada de ferro Noroeste do Brasil e com eles o progresso dos nossos tristes trópicos. Os índios foram expulsos ou mortos pelos jagunços a mando dos grileiros em toda a região Noroeste. Meu tio, um zeloso testemunha de Jeová, que passava as tardes poeirentas e mornas de Lavínia a ler os textos bíblicos, contou-me horripilantes histórias durante a expulsão dos habitantes das terras “sem dono”. Estupros, queima de plantações, assassinatos e outros tipos de violência, tudo em nome do crescimento econômico, do avanço da economia cafeeira. Ele mesmo deve ter participado das ações, mas sempre negou ter feito qualquer tipo de injustiça. No final dos anos vinte trabalhou com o imigrante italiano Jeremias Lunardelli, que se tornou, por obra divina, o maior proprietário de terras da região. Como meu tio era esperto e letrado, caiu nas graças do patrão e no final conseguiu uma bela fazenda, a São Vicente, nome dado antes de se tornar um crente fundamentalista.
Nasci mesmo na Fazenda São Vicente do meu tio, próxima de uma vila do município de Lavínia, chamada Tabajara, pois se acreditava que foram os tabajaras os primeiros habitantes da região. O parto foi feito pela minha tia Carmem, uma carioca da gema, casada com um dos irmãos de minha mãe. Tabajara hoje é um nome complicado que se tornou sinônimo de malandragem, falcatrua, falsificação e tudo o mais por conta de um ridículo programa humorístico da Rede Globo. Penso que os descendentes dos tabajaras deveriam mover uma ação por danos morais contra a família Marinho por ter denegrido um nome honrado, heróico e valente de um povo que resistiu bravamente contra as invasões em nome do progresso. O poder do programa é tão grande que até uma faculdade de São Paulo que ostentava o honroso de Tabajara, foi obrigada a mudar nome para evitar chacotas e perda de credibilidade.
Fui muitas vezes para Lavínia durante as férias escolares. Era uma aventura inesquecível que me fazia sonhar durante o ano inteiro. Achava o máximo caminhar pelas invernadas da fazenda sem fim do meu tio, pegar frutas no pomar, quebrar coquinho, comer doce feito de leite coalhado - uma delícia inigualável, o milho verde assado, pão feito em casa e tomar o café da fazenda junto ao fogão à lenha. Já adolescente, cavalgava no velho Mussulini, um cavalo branco e manso, pela enorme fazenda sonhando ser o John Wayne em Chaparral. Quanta aventura, meu Deus!
Nasci em Lavínia e nem por isso sou orgulhoso, ao contrário do poeta itabirano; também não trouxe prendas diversas para oferecer aos meus poucos leitores. Mas sobrou a fotografia do meu tio boiadeiro, um balança velha, um ferro de passar a brasa e uma espingarda picapau que espero que nunca funcione. Apesar de ser apenas uma fotografia, Lavínia, um belo nome de mulher, ainda povoa minha imaginação nas longas noites de insônia.

Renato Ladeia

domingo, 8 de novembro de 2009

NAQUELA MESA ESTÁ FALTANDO ELE...

Joanin Moscardi, quem sabe, poderia ter sido um dos maiores pontas da história do verdão do Parque Antarctica, coberto de glórias, endeusado pelos torcedores; mas a vida para um jogador de futebol até os anos cinquenta não era fácil. Não existiam os milhões que os bons e mesmo medíocres jogadores ganham hoje. Praticava-se o esporte por prazer, por amor à camisa, conforme contam os nossos velhos. E foi por isso que o Joanin com profunda tristeza abandonou uma carreira de glórias para se dedicar à família como operário numa indústria.
Não que a vida tenha sido mais fácil, mas o salário era certo todo final de mês. Ao ver os dois filhos, Magali e Jorge crescerem saudáveis, bonitos, inteligentes e bem formados, esquecia o antigo sonho. Afinal, cumprira a sua missão ao lado da sua querida companheira Noêmia, que também já partiu.
Conta seu filho que chegou a ver lágrimas correrem pelos olhos do Joanin quando ele olhava velhos retratos de jogadores que ocuparam a posição que poderia ter sido dele; mas logo em seguida erguia a cabeça e agradecia pela família que tinha, mesmo tendo abandonado um grande sonho.
Joanin depois da aposentadoria teve um negócio de raspagem e aplicação de cascolac em pisos de madeira, que ele não levava muito a sério como atividade econômica. Certa vez, pensando em ajudá-lo, indiquei seu nome para uns conhecidos. Ao ligarem para o Joanin, este descartou o serviço afirmando: “Não vai dar não, pois já coloquei as minhas tralhas de pescar na perua”.
Quantas e quantas vezes nos sentamos à sua mesa na cozinha para um delicioso almoço preparado pela querida Noêmia ou então para um simples cafezinho e o ouvíamos contar suas histórias, sempre com o dedo indicador meio curvado apontando para os seus ouvintes. Era a sua marca registrada.
É impossível deixar de lembrar-se das festas fartas de boa comida e muita música em sua casa. Parecia estar sempre sério, mas às vezes deixava escapar um sorriso meio tímido. Era seu jeito de ser. Às altas horas ele se recolhia para seu quarto e deixava um recado: “Eu vou dormir, mas pode continuar a festa”.
Apesar da doença que o deixou preso à cama durante longo tempo, não perdia as esperanças e estava sempre bem humorado. Apoiado pelos filhos, nora,netos que lhe dedicaram muito carinho e conforto, ele partiu feliz, vestindo a camisa do seu amado Palestra esboçando um sorriso maroto, como querendo dizer: “A minha missão está cumprida”. Só faltou mesmo o dedo indicador, meio curvado, com a sua frase característica: “Não falei pra vocês?”.
Hoje, ao passar pela Rua Tenente Paulo Alves, onde ele viveu bons anos de sua longa existência, senti alguma coisa no ar. As velhas sibipirunas estavam macambúzias, os pássaros silenciosos e tive a sensação de que ele estava por ali, observando o movimento, contando causos e provavelmente falando dos seus velhos tempos do Palestra.
É bem possível que não exista um céu como nós imaginamos, mas até que seria bom se houvesse esse lugar paradisíaco onde as almas pudessem se reunir para um bom papo, relembrando os velhos tempos nas longas tardes da eternidade. Lá se encontrariam todos os que se foram para um carteado ou quem sabe até um futebolzinho, de mesa, é claro. Enquanto isso a Noêmia prepararia uns deliciosos quitutes regados com aquele cafezinho gostoso que só ela sabia passar. Assim o tempo se arrastaria até a chegada das novas gerações, que espero que ainda demore muito. Cada reencontro seria sempre uma festa, repleta de saudades e notícias do mundo terreno. Imagino também o encontro, que aqui nunca ocorreu, do Constantino com o Joanin. O primeiro contando as velhas lorotas de Descalvado, a terra dos causos exagerados, e o segundo esboçando aquele velho sorriso maroto diante das histórias improváveis do novo companheiro.
Essas despedidas, mesmo sendo previsíveis, dão sempre a sensação de uma mesa vazia em um espaço de nossa memória. E os versos do velho samba nos conforta. “Naquela mesa está faltando ele/ e a saudade dele/ está doendo em mim”.

Renato, 5 de novembro de 2009.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

SUPLICY, A VESTAL DO SENADO

Sempre votei no Eduardo Matarazzo Suplicy desde o início de sua vida política, quando participou do MDB autêntico, juntamente com Mario Covas, Fernando Moraes, Fernando Henrique, Audálio Dantas entre outros, mas confesso que sempre o achei enrolado demais para ser político. Nesta época era quase gago, tinha muita dificuldade para articular uma frase, o que dirá um discurso. Mas sempre o considerei um sujeito honesto, bem intencionado, apesar de muito ingênuo, ingênuo demais para a profissão. O Suplicy melhorou muito, muito mesmo com o tratamento de uma fonoaudióloga paulista que é reputada como uma “fera”, segundo informações de um amigo. Hoje ele até fala com certa articulação. Lembro-me de uma palestra que ele fez nos tempos de faculdade nos anos 1970. Foi um desastre. Depois de uns vinte minutos, a metade da platéia foi embora e o restante dormiu. Quer dizer: quase, pois continuei até o final com mais alguns abnegados.
Confesso que esperava que ele fosse se desligar do PT no episódio conhecido como mensalão, mas acabou engolindo um sapo maior do que ele. Um bom cabrito não berra já dizia o adágio popular e o velho Supla está aí para provar que o “partidão” do camarada Lula, o guia do povo brasileiro não admite que ninguém pule fora do barco, principalmente em mares revoltos. Também no episódio Celso Daniel, ele não se convenceu com a versão oficial e deu uma de Sherlock Holmes, mas ninguém deu ouvidos ao nobre senador que ficou falando às moscas.
Na crise do lorde do Maranhão, para não confundir com o Sir do mesmo estado, também esperei que ele pegasse a estrada e deixasse de hipocrisias. Não! O partido para ele é como uma família e não se abandona a família numa crise. “Eu acredito que posso recuperá-la”, disse com a firmeza dos puros.
Depois veio aquela do cartão vermelho. Surpreendente mesmo, pois quando tudo estava sendo esquecido, este “chato”, que insiste na moralidade e na decência da política, resolve colocar mais lenha na fogueira para atrapalhar o projeto do grande camarada. Falou em nome pessoal, contrariando a direção partidária. O Lula deve ter falado cobras e lagartos sobre ele. O presidente do partido negou-lhe o cumprimento uma hora depois do pronunciamento. Os companheiros o criticaram de forma explícita. Pensei que ele havia trilhado uma estrada sem retorno. Teria que ir até o final.
E agora José? Teria chegado a hora de pegar a estrada e mudar de ares. Política é para profissionais da falcatrua e o velho Suplicy, apesar do esforço, não tem estômago para isso. Portanto, a melhor saída seria pegar carona com a Marina enquanto havia tempo, mas não, o Supla continuou em sua batalha quixotesca contra os moinhos de vento verdadeiros ou não.
E para encerrar com garbo as suas aventuras quixotescas, resolveu mostrar que é um homem corajoso, sem medo de enfrentar o partido. Colocou uma sunga por cima das calças e desfilou “elegantemente” pelo congresso. Uma cena digna de chanchada brasileira dos anos cinqüenta. O Suplicy se superou e deixou todos os seus críticos e admiradores boquiabertos ante o inusitado. Depois dessa quero esquecer que já votei no camarada Suplicy e espero que ele se aposente e quem sabe, reate com o seu velho amor, a aguerrida Marta.

domingo, 25 de outubro de 2009

FESTAS JUNINAS



Para os paulistas, as festas juninas são festas de caipiras, capiaus, matutos. Nestas festas os homens das cidades se vestem com calças remendadas nos joelhos e as camisas nos cotovelos, botinas e chapéus de palha. As mulheres usam vestidos de chita rendados, tranças e também chapéus de palha. É um velho estereótipo de que o pessoal do interior se veste mal, é acanhado e não trata dos dentes. São as velhas tradições que foram ficando no imaginário popular.
Neste tipo de festança não pode faltar a tradicional fogueira que tem sua origem no solstício de verão das populações do norte da Europa, que acendiam o fogo para reverenciar os seus deuses pagãos. E tem também a quadrilha, uma dança de salão, também européia, que foi trazida para os trópicos pelos franceses. Tudo muito bem arranjado, num sincretismo que envolve várias culturas: o caboclo, resultado da miscigenação de portugueses com índios, dança da aristocracia francesa e tradições celtas.
No nordeste as festas juninas ganharam outra dimensão. São festas tão importantes que superam o Natal e Ano Novo do Sudeste e Sul. Essas festas são tão relevantes para a cultura local que mesmo as empresas do sul que se instalaram por lá tiveram que se adaptar a esse costume tradicional e guardar os feriados.
Estou escrevendo sobre as festas juninas porque me bateu uma lembrança saudosa dos tempos de juventude, quando a nossa turma resolveu comemorar, com alguns requintes, essas festanças. Naqueles bons tempos queríamos estar sempre juntos para conversar e cantar. Não faltavam bons tocadores de violão, compositores bissextos e poetas. Um deles, Dédo Thenório, escreveu uma bela marchinha junina, chamada Estrelinha brilhante e lançou um desafio: a partir do próximo ano vamos fazer um festival sobre as festas juninas e quero ver todos participando.
O desafio foi aceito e a partir daí virou a festa junina da turma virou uma grande produção cultural. Um grupo era encarregado dos comes e bebes, outros da arrumação e do festival. As primeiras, de uma série de quinze festas aconteceram na casa do Silvio, o cabrunco, que tinha um grande quintal ao lado de sua casa. Foram grandes e inesquecíveis festas, com belas canções e marchas-rancho da melhor qualidade. Juntavam-se músicos como Oscar de Vito, Saulo de Tarso, Zeca da Silva, João Cristal, Dedo Thenório (autor de Estrelinha brilhante),Carlinhos Kalunga, Celinha e suas irmãs e letristas como Sinésio Dozzi Tezza, Erasmão entre outros e produziam belas peças musicais, sempre sobre os balões que coalhavam os céus de São Paulo, fogueiras, bandeirolas, comidas típicas etc. Em cima da hora era escalado o jurado que nem sempre era muito imparcial na hora de julgar, pois todos acabavam se envolvendo nas disputas de acordo com as preferências e a maior ou menor intimidade com os autores. Os membros do juri que ouvia as músicas antes acabavam quase sempre cooptados, o que não chegava a criar problemas, mas mais emoções na competição. Um dos compositores, dos bons, chegou a jogar o troféu no meio do mato porque julgou que o terceiro lugar era incompatível com a qualidade de sua canção, que realmente era muito boa. Coisas de festival.
Aqueles que não compunham participavam de outra forma, organizando concursos de balões, mesmo sendo proibidos. Entre eles estavam sempre o Silvio, Jorge, Chivas, Saulo e Zorba que se esmeravam na confecção de belos e coloridos balões que enfeitavam a noite se confundindo com as estrelas do céu, como cantou o nosso amigo poeta.
Surgiu também outro grande problema: a festa foi aumentando de tamanho, pois todos queriam trazer outros amigos e parentes para participar do evento. Com o tempo foi preciso alugar até sítios para acomodar todo mundo. Com a chegada de pessoas estranhas ao grupo original, começaram a ocorrer vaias na apresentação das músicas, o que era um sacrilégio para os seus idealizadores. Além disso, a perda do controle sobre quem participava, chegou até a gerar umas desinteligências. Infelizmente havia chegado o momento de encerrar o ciclo de quinze anos de festas juninas. Outro motivo, também muito forte, é que o festival, criado com a finalidade das pessoas mostrarem sua arte, virou uma forte competição que poderia até ameaçar a harmonia de um grupo de amigos que se relacionavam há muitos anos.
A festa acabou, o povo sumiu e tudo mofou, mas quem quiser ainda pode acessar o endereço no Google: “Arquivos do Dedo” onde é possível encontrar as belas canções sobre temas juninos, como “O Pau” de Dedo Thenório, “Não Soltem balões” de Oscar de Vito e Sinésio Tezza, “Conta Brasil” de Zeca da Silva e Dedo entre tantas e tantas outras.
Que saudade!

Renato Ladeia

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

FLORAS E FLORADAS



Você conhece alguma Flora? Eu conheci uma, mas não tenho boas lembranças. Ela morava no interior de São Paulo, na pequena Lavínia, minha terra natal. Era a costureira da minha prima e madrinha. Eu ainda era muito criança, mas ainda tenho uma visão clara de sua casa isolada, que ficava no final de uma estrada de terra, ao lado de um velho jequitibá. Era uma construção quadrada, pintada de amarelo e com muitas janelas. Pela minha memória, que pode ser falha, não me lembro de flores em seu quintal. Será que a Dona Flora não gostava de flores? Fui algumas vezes lá com a minha prima, para fazer algumas roupas, numa época em que passei alguns meses em sua companhia. Dona Flora era uma mulher madura e muito séria, que me espetava com o alfinete sempre que fazia a prova das roupas que costurava para mim. Foram poucas vezes, mas o suficiente para deixar uma lembrança amarga da costureira e do seu nome.
Mas hoje Flora me lembra a primavera que está chegando e esbanjando cores apesar da chuva intermitente que deixa todo mundo acabrunhado. As buganvílias ou as populares primaveras plantadas em nosso quintal estão exuberantes de tantas flores e fazem a alegria dos beija-flores, borboletas e abelhas. A amoreira aproveita esta época para dar seus frutos que atraem maritacas, bem-te-vis e sabiás que fazem a festa em nosso pequeno, mas opulento quintal. A pitangueira invejosa também já está se preparando para dar os seus frutos e concorrer pela atenção dos pássaros. Como não sou muito fã de pitangas, deixo-as de bom grado para os pássaros e me divirto com as doces amoras. E num cantinho do jardim, ao lado da jabuticabeira, temos também uns pés de framboesas que tem nos proporcionado generosas colheitas: umas dez por dia. Pode parecer pouco, mas para quem conhece os sabores da infância, sabe que basta uma derretendo na boca para evocar inesquecíveis momentos. Muito a contragosto divido-as com minha filha que ainda reclama que sou um guloso. Confesso que às vezes as devoro e digo que foram os pássaros que comeram. Dou esta desculpa sem ficar vermelho, mas com o olhar maroto de um moleque que ainda existe em minhas retinas fatigadas.
A jabuticabeira, que fica sob a sombra da amoreira, queixa-se da falta de sol, mas às vezes dá bons frutos, que os bem-te-vis devoram antes que os ávidos donos possam saboreá-los. Mas mesmo sem comê-los, nada supera o prazer de ter pássaros em casa e ouví-los cantar todas as manhãs, mesmo que sejam gulosos e egoístas. Espero, contudo, que as fartas amoras bastem para saciar o voraz apetite dos nossos bem-te-vis e consigamos saborear algumas jabuticabas, a mais brasileira das frutas.
E por falar em jabuticabeira, é impossível deixar de lembrar da que o seu Giovani, vizinho do meu amigo Zeca, tinha em seu quintal. Era um árvore majestosa que dava tantos frutos que era impossível aproveitá-los todos. Os pássaros vinham de longe para a festa anual e seu Giovani, um italiano simpático e falante, cantava loas à árvore que seu pai plantou quando ainda era criança. Infelizmente, com a sua partida, a especulação imobiliária viu no terreno uma ótima oportunidade para construir mais um prédio e a velha jabuticabeira foi brutalmente arrancada da mãe-terra sem nenhuma compaixão. Que Deus a tenha e reserve as profundezas do inferno de Dante para os especuladores imobiliários. Quanto ao meu amigo Zeca, ganhou um enorme e incômodo vizinho, com mil olhos a observá-lo, como o Grande Irmão de George Orwell em “1984”.
Enquanto isso vou curtindo a minha primavera particular, aproveitando ao máximo os prazeres proporcionados aos meus olhos, guardando na memória, cada cor, cada fruto e o som do canto do sabiá laranjeira e de um pássaro estranho que apareceu por aqui e ainda não descobri o seu nome. E é por isso que a vida ainda vale à pena, o resto é apenas falta do que fazer (com ela).

Renato Ladeia
Outubro de 2009

terça-feira, 29 de setembro de 2009

ODETE BELLINGHAUSEN, A SENHORA DO PIANO


Aquela senhora tinha um piano, mas para que serve um piano? Diz um poema do Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Para mim que ao passar pela Rua João Pessoa e ouvia em meio ao barulho do trânsito o suave som de um piano, servia e muito para abrandar a aridez da cidade. Quem era a senhora do piano vim sabê-lo algum tempo depois. Era Odete Tavares Bellinghausen, a primeira professora de piano da cidade e em cujas mãos muitas crianças passaram para aprender as primeiras notas musicais.
A cidade foi crescendo e a casa dela, que em tempos passados desfrutava um ar ainda bucólico, transformou-se em passagem obrigatória de carros e pedestres. O comércio foi se ampliando e com ele mais movimento. Mas dona Odete, continuou o seu cotidiano entre o grande jardim com seus caramanchões e o piano. Um dia atiraram uma pedra na sua janela, que quebrou a vidraça e caiu bem em cima do piano, um velho alemão de meia cauda. Uma ato de absurda agressão, sinal de tempos difíceis. Aquilo poderia ser um aviso para que tomasse cuidado, pois morava sozinha naquele casarão da década de cinqüenta. Mas ela era corajosa e não se intimidou, apesar de andar com dificuldade e com os sinais da idade alterando a sua percepção das coisas e do mundo. Estava presente em todos os eventos culturais da cidade. Lembro-me de uma homenagem que recebeu das escolas de música da cidade e como o mestre de cerimônia faltou, tive a honra de ler a sua biografia no teatro.
Numa outa vez a encontramos numa despedida de uma amiga comum, Marlita Brandner Valilatti , também professora de piano, que estava de mudança para a Áustria. Como estava só, oferecemos uma carona e ela insistiu que entrássemos em sua casa para um café ou coisa assim. Concordamos, apesar do adiantado da hora. Ela queria um pouco de companhia e não tivemos coragem de negá-la. Apressou-se em mostrar suas coisas, os quadros que ela pintou sobre a antiga paisagem da cidade, suas composições, como a Japonesinha Alegre da qual ganhamos uma cópia da partitura. Ela tocou com alguma dificuldade, pois as suas mãos já não obedeciam mais a sua mente ainda inquieta.
Resolveu oferecer-nos uma bebida, um licorzinho caseiro, que também aceitamos. Mas ela trouxe três doses, inclusive para minha filha Mariane, com apenas dez anos. Desculpou-se, mas como o licor era bom, tomei as duas. Terminamos a visita com a sensação de que ela ainda queria conversar mais, contar causos, suas lembranças, suas memórias de uma mulher idosa que conheceu muita gente, que viveu fatos já apagados da história da cidade. Pensamos em voltar qualquer dia para fazer algum registro de suas memórias que em pouco tempo se apagaria para sempre, mas não cumprimos a promessa.
Hoje a casa de esquina em que havia uma senhora que tinha um piano, é apenas um estacionamento, preservando apenas um muro original com seus balaustres de época. O som do piano ainda ressoa nas tardes frias de inverno, mas ninguém ouve. O aroma das camélias do seu jardim e ainda o doce sabor do licor de jabuticabas ainda estão presentes em minhas lembranças. O som dos mortos é inaudível e somente para aqueles iniciados na arte de lembrar sem ver e sem ouvir é possível dentro das impossibilidades.

domingo, 6 de setembro de 2009

AS FLORES DO IPÊ




Da minha janela avisto em uma rua paralela os seus exuberantes ipês amarelos que impõem um colorido especial para a paisagem do bairro. Lembro-me ainda da professora do primário explicando que as flores são folhas modificadas e o ipê altera todas as suas folhas, transformando-as em um amarelo vivo que chega a arder os olhos de tão intenso.
O Ipê amarelo ou Tabebuia chrysotricha, é nativo da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira e é cultivado em todo o país pela sua beleza singular, mesmo que efêmera.
Sem dúvida ele é privilegiado pela natureza e se transformou na árvore símbolo do Brasil. Mas é um privilégio que dura pouco tempo e as árvores estarão sem flores e sem folhas até o final do inverno, hibernando como um esqueleto sem vida para de novo desabrochar no verão com a verdura de suas folhas.
Há tempos invejo os vizinhos que tem o privilégio de recolher diariamente, durante o inverno, o lençol de flores amarelas que se espalham pela calçada. Para tentar não morrer de inveja, tratamos de plantar o nosso próprio ipê, mas no jardim de nossa casa e não na calçada, numa forma egoísta reservar toda a sua beleza para os nossos olhares privativos. Qual o quê! Nosso ipê, após alcançar a fase adulta, não se dignou a dar flores e chegamos a desconfiar que fomos ludibriados por algum gigolô de flores, como uma velha amiga denomina os comerciantes que se dedicam a compra e venda de plantas e flores.
Diante do risco de perder um só dia da beleza dos ipês, abro todos os dias a janela para apreciá-los, pois dentro de poucos dias as flores partirão com a estação fria, que desta vez deixou umidade até nos ossos. Mas neste ano, junto com as flores do ipê, chegou também o Tom que também aprenderá a amar as plantas e as flores como o Jobim.
Ao abrir pela primeira vez os seus olhinhos cinzentos mostrei-lhe ao longe as manchas amarelas no horizonte. Ele pareceu sorrir e depois chorou dando a entender que chegou a tempo de apreciar um pouco da beleza fugaz do nosso pequeno e maltratado planeta.
Que o Tom floresça em cada inverno, para saudar a primavera e esteja sempre presente como arauto da renovação da vida.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

UM HOMEM IMORTAL


Estava caminhando em um parque quando resolvi fazer uma pausa para descanso e logo em seguida um homem de uns quarenta e poucos anos, pele muito branca e pálida sentou-se ao meu lado. Pareceu-me que queria falar alguma coisa, mas mostrou-se pouco a vontade. Depois de alguns minutos criou coragem e perguntou se eu tinha cigarros. “Não fumo”, respondi prontamente e logo emendei “Não faz bem para a saúde”. Ele sorriu e disse: “Para as pessoas que tem uma vida normal, que nascem e morrem, realmente é preciso cuidar da vida, mas para mim isso não faz muito sentido”.
- Como assim? Perguntei curioso com o que o homem dizia.
- Eu não sou uma pessoa normal, respondeu.
- Como assim? Indaguei surpreso com a resposta.
- Pois é, sou um homem imortal, não vou morrer nunca. Tenho mais de duzentos anos nas costas e não sei quantos séculos ainda vou viver.
- Mas isso deve ser muito bom, disse fingindo que estava acreditando na história.
- Não é nada bom moço. Viver eternamente é um fastio. Não agüento mais esta vidinha. As mulheres que amei morreram e também morreram filhos, netos e bisnetos. Também venho há tempos enterrando amigos queridos e inimigos. A vida acaba ficando rotineira, sem graça e não acaba nunca. Não tenho perspectivas, positivas ou negativas e tudo vai se repetindo de forma monótona.
- Mas você pelo menos deve ser um sábio com tanta experiência de vida, com tantos conhecimentos da história? Perguntei, já começando a me interessar pela conversa do estranho.
- Isso é até interessante, mas tenho poucas pessoas com quem falar sobre isso. Alguns me perguntam se sou professor de história, mas nunca cursei nenhuma faculdade, pois meus documentos vão caducando de tempos em tempos. Atualmente estou sem nenhum, pois está ficando difícil conseguir um registro de nascimento sem autorização do juiz. Imagine um sujeito de quarenta e cinco anos tentando se registrar num cartório? É preciso ter testemunhas, certidão de batismo, certificado de reservista etc.
Ele era um homem comum, com jeito de gente normal. Explicou-me que havia conquistado a imortalidade quando estava com 45 anos e daí em diante, nunca mais envelheceu, ficou doente ou sentiu qualquer dessas coisas que acometem um ser mortal. Pelos seus cálculos já estava com duzentos e tantos anos. Já havia vivido em vários países e cidades do mundo, pois nunca conseguiu ficar num mesmo lugar por muito tempo, pois as pessoas começam a desconfiar de sua jovialidade após algumas décadas de convívio. Uma das coisas que o desagradavam era saber que não morreria nunca, estando, portanto, condenado a viver para todo o sempre. Seus filhos, netos e bisnetos já haviam morrido. Fazendo as contas, os seus trinetos já seriam mais velhos do que ele.
- E o que o senhor faz no Brasil?
- Estou por aqui há bem uns cento e dez anos. Entrei no Brasil por Manaus e lá permaneci por uns 30 anos. Depois fui para Belém, onde fiquei por uns 25 anos. Em seguida fui percorrendo as capitais do Nordeste permanecendo de dez a vinte anos em cada cidade. Depois vim para o sul e atualmente estou em São Paulo, onde permaneço uns dez anos em cada cidade.
Parecia uma conversa de dementes, mas comecei a me interessar pelo inusitado do tema, não tanto por acreditar na história do Juan Bernardo de Alcácer y Gonzales, mas porque ele era bem articulado e argumentava com certa lógica com seu sotaque espanholado. Digo certa lógica porque não parece muito lógico alguém se considerar imortal, mas mesmo admitindo que fosse uma ficção, tinha lá a sua coerência. A sua história pareceu-me muito, muito triste e se não fosse pelo fato de que não havia pedido absolutamente nada e só fazia se lamentar da sua condição; poderia ignorá-lo e imaginar que fosse um louco varrido, mas acabei ficando envolvido pela conversa. Cheguei a matutar que tivesse tentando me aplicar um golpe qualquer, como um empréstimo, mas ele só queria mesmo conversar e contar as suas mágoas por ter uma vida sem fim. Perguntei, um tanto relutante, se ele já não havia tentado o suicídio para dar cabo de sua vida, já que a vida eterna não lhe trazia felicidade. Respondeu que já havia tentado dezenas de vezes. Em algumas ocasiões havia colocado a vida em risco, participando de guerras e revoluções, mas sempre se saia bem, ileso. As balas, as explosões, incêndios, nada o atingia. Muitas vezes acabava sendo considerado um herói por salvar companheiros em perigo. Em outras era preso como inimigo, mas esses acabavam libertando-o sem molestá-lo.
- Mas não tem medo de morrer? Perguntei curioso por saber a sua opinião sobre a morte.
- É impossível temer a morte, pois sei que ela não me atinge. Para mim a morte é um problema dos outros, seu e destas pessoas que estão aqui no parque. Fico insensível diante dela. Não me preocupa.
- E as mulheres? Você deve ter amado muitas mulheres e vai trocando de tempos em tempos quando vão envelhecendo, não é? Perguntei com certa ironia.
- Qual o que, moço! Sempre me casei com viúvas ou mulheres abandonadas pelos maridos. Mas elas duram pouco e logo em seguida vou procurar outras mais jovens. Com a minha idade e quase sempre com poucos recursos, não tenho lá grandes opções. Em geral tenho vivido do meu trabalho, fazendo um bico aqui, outro ali. Em todas as vezes que tive propriedade, acabei deixando para os meus filhos e netos, pois precisei partir para não criar problemas.
Como já estava ficando tarde e tinha compromissos, despedi-me do homem imortal e confesso que foi com certa tristeza. Ainda olhei de longe para aquela figura desconsolada sentada no banco do jardim e fiquei imaginando se fosse realmente real uma pessoa viver eternamente. Seria, como ele disse, um tédio. Fui refletindo pelo caminho sobre a imortalidade e conclui que realmente não valeria a pena viver mais do que uma geração. A imortalidade da alma apregoada pela maioria das religiões também colocaria o mesmo problema. Viver eternamente sem corpo, sem sensações, não sentir o aroma das madrugadas, não ver o por do sol, sem receber ou dar carinho físico para as pessoas que amamos, sem tomar um café quentinho nas manhãs frias de inverno? Penso mesmo que fomos feitos para sermos mortais, de corpo e alma. O problema é que o ego humano é muito grande para admitir um final. Temos complexo de deuses e perseguimos a imortalidade do corpo e do espírito.
No dia seguinte voltei ao mesmo lugar para dar uma nova caminhada e, quem sabe, encontrar o homem imortal. Qual o que! Nem sinal do tal Juan Bernardo. Depois de algumas voltas sentei no mesmo banco e logo fui procurado por um senhor que me perguntou: “Aquele rapaz que estava conversando com o senhor é seu amigo, parente? “Não, fiquei conhecendo ontem”, respondi um pouco surpreso com a pergunta. “Pois é, ele foi atacado por um bandido na saída do parque. Foi levado para o pronto socorro. Parece que não escapa desta, pobre homem.
A notícia foi surpreendente, pois afinal o meu conhecido “imortal”parece ter encontrado a sua hora e a sua vez e lamentavelmente como vítima de uma cidade injusta e violenta. Pensei em ir até o pronto socorro para confirmar se realmente havia morrido e encerrado o seu sofrimento, mas desisti. Concluí que algumas histórias devem terminar com algum ponto de interrogação, sem soluções possíveis. Tudo isso me fez lembrar o seriado Além da Imaginação, que foi exibido na televisão há muitos anos. Houve um episódio em que um sujeito imortal, tal qual como o Juan Bernardo, teria vivido mais de dois mil anos. Conhecera os grandes filósofos gregos, passara pela Palestina e assistira, ao vivo, a Paixão de Cristo. Mas tal qual o nosso Juan, já estava cansado de viver. No final do episódio, ele é assassinado por uma das suas ex-mulheres abandonada por ele. Enciumada, ela o perseguiu até encontrá-lo na saída da casa de uma nova namorada. Envelhecida ela viu aquele homem jovem que parecia ser seu filho, feliz por estar novamente apaixonado. Não teve dúvidas, disparou alguns tiros e viu o seu amado transformar-se em pó e ser levado pelo vento.
Quem sabe o Juan também tenha evaporado durante a viagem de ambulância até o hospital diante do olhar incrédulo do enfermeiro que o acompanhava? E eu cá com meus botões fiquei pensando por que não perguntei como ele teria conseguido a tal imortalidade.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

BEBEDOS E BEBEDEIRAS


Beber, como dizia o grande cronista da noite carioca, Antonio Maria, é sempre um mistério, uma sabedoria, que nos leva aos copos e ao estado de graça. Não faço aqui a apologia da bebida, mas existem momentos em que ela é absolutamente necessária e caso se consiga aprecia-la moderadamente, pode ser um santo remédio para as dores da alma. Algumas bebedeiras são motivos de grandes arrependimentos pelas bobagens que se faz, pelas palavras mal pronunciadas que ofende pessoas, destrói amizades ou grandes amores. Outras são motivos de grandes gargalhadas, mesmo depois de passados muitos anos. Algumas são motivos de orgulho, principalmente pelo bêbedo ter falado, num discurso improvisado, alguma coisa que todos gostariam de dizer, mas sempre faltou a coragem que a bebida, às vezes dá, desde que a mente ainda esteja suficientemente lúcida.
Algumas bebedeiras são ontológicas e poderiam ser premiadas pela academia nacional da bebedeira (ANB) pela contribuição sociológica, política, filosófica ou cultural. A embriagues apresenta efeitos variados, dependendo das pessoas. Alguns se tornam agressivos, ofendem amigos e familiares. Outros ficam alegres e tolos repetindo continuamente a mesma frase ou o mesmo assunto. Há também aqueles que ficam quietos e deprimidos. Cada um tem o seu estilo de bebedeira, mas via de regra o dia seguinte é terrível, principalmente pelas críticas da mulher, namorada ou de familiares que ficaram envergonhados com os vexames do dia anterior. Quem escreve já passou por essas, mas sou mais do estilo que ri o tempo todo ou então fico meio sorumbático.
Numa festa em minha casa, a altas horas da noite, resolvi abrir uma garrafa de champagne francês, presente de um cliente da empresa onde trabalhava. Ao abrir a garrafa, uma boa parte da bebida jorrou pela mesa; um sacrilégio. Ao lamentar com um amigo a triste perda, este, já bem alto, se propôs a lamber a mesa para evitar a perda total do produto. Um vexame que ele até hoje ruboriza só de lembrar.
Um outro amigo, num feriadão na aprazível Butiá, rodeado pelos amigos mais queridos, não teve dúvidas, tomou quase um garrafão de cachaça que alguém levou afirmando que era da melhor procedência. Ele quase entrou em coma alcoólica e se na época, tivéssemos um pouco mais de juízo, teríamos levado o japa para um pronto-socorro. Ele apagou, chegando a urinar nas calças, parado no meio do quintal. Felizmente, algumas horas depois o nosso declamador oficial dos poemas do Manuel Bandeira, acordou perguntando pela camisetinha de Tupã, onde ele venceu um campeonato de xadrez. Nesse mesmo feriado, um outro companheiro de boemia, subiu no alto de uma velha usina hidroelétrica desativada e começou a declamar Castro Alves, enquanto embaixo, todos clamavam para que descesse, pois o risco de uma queda era iminente. A gritaria da platéia era entendida pelo amigo alcoolizado como a sua consagração e ele se sentiu como se tivesse incorporado o espírito do poeta.
Essas bebedeiras esporádicas, apesar dos riscos, dificilmente chegam a comprometer, quando se está na companhia de amigos e familiares. Entretanto, quando elas ocorrem em outros ambientes, podem sim criar problemas. Um conhecido meu, entusiasmado com a dosagem etílica acima da média, numa festa de confraternização de fim de ano, resolveu dar um sonoro beijo na bochecha do gerente. Não é preciso dizer o que aconteceu depois. Numa festa de aniversário de uma outra empresa, após o discurso do presidente, um colega entusiasmado e ligeiramente alcoolizado, resolveu levantar um brinde a empresa, dizendo: “Vamos brindar o sucesso da melhor empresa do Brasil”. Houve um silêncio total para o azar do pobre Leonardo, um bom sujeito, que acabou pedindo demissão por não suportar mais as gozações.
Quando o hábito de beber se transforma numa dependência química, que segundo pesquisas atinge de 15 a 20% da população, as coisas se complicam. Foi com imensa tristeza que encontramos, numa padaria, um amigo de velhos tempos numa véspera de feriado bebendo cerveja, sozinho e desconsolado. Eu estava com minha mulher e ao nos ver ficou muito emocionado. Comentamos que estávamos indo para a casa de um amigo comum que havia combinado o encontro para assistirmos a final do festival de música popular da TV Cultura. Não deveria ter falado! Ele resolveu ir junto para fazer uma surpresa ao amigo. Como já estava bem alcoolizado achei melhor que fosse em nosso carro, pois assim não correria maiores riscos. No caminho percebi que estávamos prestes a criar um grande problema. Chegando ao local, começou o festival de vexames. Nosso anfitrião, felizmente, uma pessoa finíssima, encarou o desconforto de receber um alcoólatra mal educado e agressivo como parte dos perigos demais dessa vida. Mesmo assim, a certas horas da noite, ele foi obrigado a dar uma dura no bêbedo, que insistia em falar besteiras, sem se dar conta de que estava na casa de um amigo e na presença da filha desse. Insatisfeito com a cerveja, ele ainda saiu para procurar um bar para beber um uísque. Ficamos na expectativa de que ele aproveitasse a saída e fosse embora, deixando-nos em paz. Qual o quê! Ele retornou com mais um copo e continuou com sua ladainha de palavrões e ofensas indescritíveis.
Até hoje o meu amigo ainda joga suas farpas quando se lembra do episódio e prometeu que ainda irá à forra. “Você me paga por essa”, sempre diz brincando, mas sei que se não fosse pela nossa longa amizade os efeitos da inesperada e pouco desejada visita poderia ter desfechos bem menos agradáveis.

sábado, 18 de julho de 2009

PARA QUE VERSOS?

Pediram-me versos!
Eu me pergunto:
Para que versos?
Estamos num tempo sem alma
Os homens estão sem memória
Ninguém mais consegue
Ver o deslumbramento
De um amanhecer
Caminhamos para um tempo
Sem sorrisos
Sem mãos que afagam
Sem vozes que cantam
Sem desejos
Sem esperanças
Para que versos meu Deus!
Ele não responde
Ninguém responde
Grito no escuro
Sem ecos
Sem vozes
A cidade está vazia
Mas os passos apressados
Continuam sua longa marcha
Todos fogem
Mas ninguém sabe para onde
Haverá amanhã?
Um ano que vem?
Um futuro?
A vida escapa das nossas mãos frágeis
Não entendemos nada
Não vemos nada
Falamos para ninguém
Enquanto isso
Os pássaros conversam
Na linguagem possível.

OS LIVROS




Um velho amigo, dos tempos de faculdade, contou-me desconsolado que vendera seus livros a um sebo por uma merreca. Fiquei espantado com o inusitado do fato e toparia até comprá-los, caso me oferecesse a relíquia. Mas era tarde demais e só me restou, como consolo, ouví-lo contar sobre a triste separação.

Depois de contemplar seus livros durante horas, lembrando os bons momentos em que estiveram juntos debatendo idéias, criticando e anotando. Alguns deles até lembrou-se do momento da compra, outros foram apropriados, sorrateiramente, nos tempos de estudante, outros presenteados por amigos e parentes. Tudo parecia distante e frio, pois já não sentia mais aquele amor devotado aos livros que aprendera a cultivar durante longos anos. Quantas vezes perdeu a paciência com pessoas mal educadas que dobravam as páginas dos livros ou rasgavam as páginas ou as capas!

Mas já tinha tomado a decisão de vendê-los e ninguém, nada, iria demovê-lo. O primeiro comprador ofereceu um preço apenas razoável, mas pediu o parcelamento do valor. O segundo, apesar do preço mais baixo, pagava a vista. O valor da venda era ridículo perto do valor sentimental, material e intelectual das brochuras. Mais de dois mil livros e só ofereciam cinqüenta centavos para cada um. Uma miséria, menos de sessenta vezes o valor médio de um livro novo. Infelizmente o apartamento era pequeno e não havia mais espaço para acomodá-los. Acumulava poeira e praticamente não tinha mais contato com eles. Há muito, abandonara suas posições políticas e intelectualmente radicais. “Esqueçam o que eu li”, brincava ele, parodiando o intelectual presidente que pedia para esquecerem o que ele havia escrito. O mundo em que acreditou desmoronava-se. As experiências socialistas estavam enterradas, talvez para sempre. Sentia-se cada vez mais anacrônico e deixou de defender antigas posições. Sentia-se envelhecido Ele que sempre foi muito respeitado por suas convicções e honestidade intelectual, lendo com visão crítica tudo que caia em suas mãos, pendurou as chuteiras.

Mas agora, pensava, de que adiantava esses livros todos, acumulando poeira, ocupando espaços preciosos do pequeno apartamento. Provavelmente nunca mais fosse lê-los com interesse. Alguns deles, há anos, não eram sequer tocados. Vendê-los a um sebo seria um sacrilégio, mas não restava alternativa. Quem sabe algum amigo ou conhecido passasse por um desses “sucateiros da cultura” e, ao comprar um livro, reconhecesse a caligrafia cuidadosa nas anotações nas margens e rodapés. Até que seria interessante, chegou a pensar. Talvez esse amigo pudesse imaginar que já estivesse morto ou então numa pindaíba tão grande que precisou até vender as velhas brochuras. Pode ser que esse amigo, depois de comprar um dos livros em um sebo qualquer, poderia até fazer um telefonema e relembrar os velhos tempos de juventude.

Mas o comprador chegou, e sem demora, sob a orientação da sua mulher, foi encaixotando todos eles sem nenhuma consideração especial. Meros papéis... Foram várias viagens até encerrar o carregamento. Deixou um cheque e despediu-se como se tivesse comprado algumas caixas de ferro velho. Nenhuma palavra de consolo para aquele que estava se desfazendo de parte de sua vida, de suas lembranças, de suas utopias. Sentou-se, apoiou as mãos sobre a bengala e chorou, como uma criança.

terça-feira, 30 de junho de 2009

NATALINA, UMA DOMÉSTICA DE CULTURA



O pedreiro passou lá em casa e deixou uma pequena obra e muita sujeira. A limpeza seria árdua se não fossem os esforços da Natalina, uma empregada que passou uns tempos lá em casa. Mas no início da faxina minha mulher antecipou que seria muito difícil e eu disse que seria necessário esfregar exaustivamente para conseguir algum resultado. Algum tempo depois ouvi a Natalina dizer: “Já esfreguei exaustivamente e não consegui nenhum resultado”. Primeiramente pensei que ela tivesse gostado da palavra e a havia incorporado ao seu repertório pela sonoridade do vocábulo, mas logo depois percebi que não era bem isso.
Tempos depois, sentado no sofá lendo meu jornal num dia de folga, enquanto a Natalina fazia a faxina na estante ouvi a máxima: “As vinhas da Ira é um livro muito interessante. É o livro que mais gosto do Steimbeck”. Olhei para os lados para me certificar de que fora mesmo a Natalina que havia pronunciado aquela frase. E era mesmo. “Você leu todo o Steimbeck?” Perguntei surpreso. Li toda a obra e muitos outros também. Foi aí que descobri que a minha biblioteca era pequena demais para a cultura de nossa empregada, que começou a ler aos oito anos de idade e nunca mais parou. Explicou-nos depois, que praticamente nascera na casa em que sua mãe trabalhava e ainda menina bisbilhotava a enorme biblioteca da casa. O dono, percebendo o interesse da garota foi orientando a sua leitura e com isso, passava horas e horas na biblioteca.
Natalina era negra, alta e forte com um sorriso simpático e acolhedor. Ela tinha a dignidade de uma dama. Ela sustentava uma irmã doente que trabalhara durante trinta anos em uma casa de família, que a despejou tão logo ficou enferma. Quando a irmã morreu ficou numa situação difícil, pois não dispunha de recursos para o enterro. Quando ofereci o dinheiro para as despesas, ela respondeu: “Vocês não tem nenhuma obrigação em me ajudar. Eu vou falar com a ex-patroa dela. Ela sim tem obrigação”. No final precisou, a contragosto, aceitar a minha oferta, desde que fosse como empréstimo, mesmo com o meu discurso de que eu também tinha obrigação de ajudá-la num momento como aquele. Foi difícil convencê-la de que não era um empréstimo, mas uma doação.
Mas nossa alegria durou pouco e nem tivemos tempo de promover algumas reuniões literárias com a nossa culta empregada, que desapareceu de repente, sem dar notícias. Fomos até o bairro onde morava e não conseguimos localizá-la e ninguém sabia do seu paradeiro. Pobre Natalina desapareceu da mesma forma como entrou em nossas vidas, sem muita explicação.

UM COMUNISTA


Lembro-me quando meu pai contou a um primo mais velho que estava preocupado com a possibilidade de eu ter me tornado um comunista. Não que ele soubesse exatamente o seria um comunista ou comunismo. Ele tinha uma idéia muito vaga sobre isso com base nos discursos da direita conservadora. Era frequente nos meios de comunicação, os militares falarem no perigo cripto-comunista que ameaçava a família brasileira. Ele era eleitor fiel do Ademar de Barros, um famoso político do “rouba, mas faz”, mais conhecido pelas denúncias de corrupção como negociatas, desvios de dinheiro público etc. A culpa toda do medo do meu pai foi de um livro sobre a União Soviética que um colega de trabalho emprestou-me para ler. O livro na verdade não fazia apologia da União Soviética, mas uma crítica ao comunismo. Era um documentário sobre o primeiro país comunista do mundo e comentava sobre alguns progressos, mas criticava a falta de liberdade, ausência de eleições livres etc. A pessoa que me emprestou o livro não era um comunista, muito pelo contrário, ele era um liberal esclarecido. Seu nome, Rubens Novaes, o contador da empresa, e de certa forma, foi meu preceptor e chefe. Ele me ensinou os meandros da burocracia, como preencher uma nota fiscal, fazer controle de estoque, cálculos de custo, orçamentos etc. Mas ele foi além, ao me incentivar a ler romances, biografias e revistas de conhecimentos gerais. Politicamente ele oscilava entre o conservadorismo e a esquerda liberal, mas nunca assumiu uma posição política muito clara. Na fase mais crítica do governo Goulart, quando o debate sobre as Reformas de Base ganhava as ruas, ele era um ardoroso defensor da tese do desenvolvimento nacionalista autônomo. Mas quando os militares tomaram o poder, logo ele passou a defender e justificar as medidas “moralizadoras” do novo governo. Mas ele não era muito convicto, sugerindo que queria acreditar que o país havia de melhorar. De qualquer forma, devo muito ao Rubens a minha formação. Era uma pessoa bastante culta para o seu nível de escolaridade, pois lia muito. Eu estava com catorze anos quando comecei a trabalhar com ele. Durante o expediente sempre arranjava tempo para falar dos grandes escritores nacionais e estrangeiros. Lembro-me que me contou, com detalhes, Os Miseráveis de Victor Hugo, quase poupando-me de ler o volumoso romance. Pelo menos um capítulo por dia era desfiado durante o expediente, aproveitando os intervalos e a ausência do gerente.
Mas havia na empresa um comunista de verdade, com carteirinha e tudo. Era um torneiro mecânico chamado Paulo Ponciano, mineiro de Belo Horizonte. O Paulo era um mulato, culto, educado e também muito articulado, conhecedor da dialética marxista, condição que lhe dava grandes vantagens nos debates políticos durante os intervalos para o café e após o almoço. Ele tinha posições muito claras sobre o papel da classe operária na revolução e desfiava o processo revolucionário e a importância da classe operária durante os intervalos para o café e durante o horário de almoço. Mas a sua competência profissional e seriedade acabaram lhe pregando uma peça, pois acabou sendo promovido a Encarregado, situação que o deixou bastante desconfortável. Ser revolucionário e ao mesmo tempo precisar defender os interesses do capital junto aos operários como: exigir maior produtividade e disciplina, desgastaram a sua imagem.
Os operários comentavam a boca pequena: “Era comunista quando era peão, depois virou a casaca”. Depois disso, raramente se metia em discussões políticas, preferindo falar sempre em tese sobre as tendências do capitalismo. Soube, tempos depois, que pediu demissão e voltou para Minas, onde montou uma pequena indústria e se tornou um “burguês” empreendedor.
Renato Ladeia

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O GOLPE DO RELÓGIO



Ao ver os camelôs nas ruas e praças do centro de São Paulo com centenas de relógios importados de todas as marcas, autênticos e falsificados, faz-me recordar os tempos em que a máquinas de marcar horas eram objetos pouco acessíveis à maioria das pessoas. Um bom e reluzente relógio de pulso era também símbolo de status e cidadania. Por um relógio muitos caiam no conto-do-vigário. O famoso Ômega, um suíço de pedigree era o sonho de consumo de muita gente. Falava-se no Ômega Ferradura (confundia-se a letra grega com a ferradura utilizada nas patas dos cavalos e se pronunciava o nome sem o acento).
Meu sogro, paulistano da Mooca acabou caindo no famoso conto lá pelos anos quarenta. Ele havia conseguido o seu primeiro emprego numa companhia de seguros. Com seu terno de casimira inglesa azul marinho e um chapéu Ramenzoni, faltava um relógio para completar a sua elegância. Ao receber o seu primeiro salário, não teve dúvidas, tirou o final da tarde para namorar as vitrinas das relojoarias e quem sabe, comprar um bom relógio. Enquanto sonhava diante de uma na Praça Patriarca, um homem se aproximou e lhe disse:
- Está procurando por um bom relógio moço? Tenho um por um preço bem melhor do que o da loja.
- Não, obrigado, respondeu um pouco desconfiado.
- Dê uma olhadinha e veja que belo relógio, disse o estranho, abrindo o paletó e mostrando um relógio em uma caixinha.
- Ainda desconfiado, o meu sogro desconversou, apesar do preço ser muito convidativo.

Mas o homem insistiu tanto e foi abaixando tanto o valor do relógio, que o jovem paulistano acabou topando fazer o negócio. O homem achou melhor que se retirassem para um local mais discreto, pois o relógio era muito valioso e poderia chamar a atenção. Chegando à escadaria que dá acesso ao vale do Anhangabaú, o homem mostrou o belo relógio e meu sogro imediatamente pagou. O homem entregou a caixinha e subiu a escadaria desaparecendo por entre a multidão.
No bonde não suportava mais a ansiedade de pegar o relógio e coloca-lo no pulso, mas preferiu deixar para fazer isso em casa, com calma, pois poderia ser arriscado ser aliviado por um batedor de carteiras, figura sinistra naqueles tempos. Desceu do bonde na Rua dos Trilhos e foi para casa, mal conseguindo respirar de tanta emoção. Diante dos pais tirou a caixinha do bolso do paletó e abriu. Uma desagradável surpresa: um pedaço de pedra.
No dia seguinte tentou em vão encontrar o vigarista, mas qual! Eles nunca agiam nos mesmos lugares depois de pegar um otário e ele precisou de conformar e esperar o próximo pagamento para ter o seu objeto de desejo. Naqueles tempos o roubo envolvia a esperteza e dotes de artista para ter sucesso. Convencia-se o incauto pela sua própria ambição e desejo, ainda que inconsciente, de ludibriar alguém e levar vantagem.
Alguém se lembra do golpe dos sapatos de cromo alemão nos anos sessenta? Pois bem, vale a pena contá-lo. Um senhor bem vestido entrou numa pastelaria vizinha de uma sapataria e encomendou 300 pasteis para retirar às 15 horas. Em seguinte foi à sapataria e experimentou um belo par de calçados de fino cromo alemão e manifestou sua aprovação pelo conforto que dava aos seus pés. Falou com o vendedor que não tinha dinheiro no momento, mas ia receber um dinheiro do pasteleiro ao lado e caso concordasse, pediria para que ele lhe pagasse a importância, 150 contos. O vendedor falou com o gerente e foram até a pastelaria para combinar. Lá chegando, o homem disse para o pasteleiro: “Dos 300 o senhor dê a ele 150”. O Chinês sem entender nada, confirmou o negócio. O homem levou os sapatos e às três horas em ponto, o chinês levou à sapataria, nada mais nada menos do que 150 pastéis. Não é preciso dizer que o delegado caiu na gargalhada pelo inusitado do conto diante do pasteleiro que queria receber o dinheiro pelos trezentos pastéis e do sapateiro que queria receber pelos sapatos.
São Paulo era assim, com seus vigaristas lendários e porque não dizer simpáticos. Afinal convenciam as pessoas a abrirem mão de seus bens de forma pacífica e civilizada. Que voltem os bons tempos da vigarice bem feita! Com certeza ninguém sentirá saudades de assaltos a mão-armada e cheios de violência, mas a vigarice tinha lá o seu charme.

O PAPAGAIO IRREVERENTE




Ganhamos um papagaio. Que o IBAMA nos perdoe, mas o tal papagaio foi criado em casa e aprendeu, a duras penas, a falar palavrão. Vai te..., Vai tomar..., eram expressões habitualmente utilizadas pelo bichinho de estimação. Minha cunhada, a dona do louro, trabalhava fora e para aplacar a solidão, ele repetia impropérios que eram ouvidos por toda a vizinhança do prédio. Uma vizinha, ciosa dos bons costumes, fez uma queixa num juizado de pequenas causas, pois o papagaio estava prejudicando a educação dos seus filhotes, soltando palavrões até na mesa de refeições. Entretanto, ficou uma incógnita sobre quem ensinou o bicho o indesejável repertório. A família reza de pés-juntos que não foi ninguém da casa. Conhecendo os hábitos familiares, é impossível duvidar. Com toda certeza foi algum moleque de algum apartamento vizinho, que aproveitando a ausência da dona, enriqueceu o vocabulário da ave.
Diante do impasse, ela resolveu doar o bichinho e escolheu a nós para recebê-lo. Como negar? Vamos tentar reeducá-lo para que esqueça os palavrórios pouco condizentes com os bons costumes. Minha filha até sugeriu que lêssemos poesia para que ele se tornasse um papagaio culto e de repente poderíamos até levá-lo à televisão para uma performance.
Instalado em casa, o bicho desandou a dizer besteiras. A nossa empregada, uma ciosa senhora evangélica pediu de pronto demissão. “Ou eu ou o papagaio?”. Evidentemente que foi ela, pois nunca fomos tão puritanos ao ponto de crucificar um papagaio em nome da moral e dos bons costumes. Quando aos versos de Drummond, Bandeira e Cecília Meirelles, nem pensar. Até tentamos o Bocage, mas ele considerou os versos um tanto anacrônicos e não se deu ao trabalho de repeti-los.
Além de dizer palavrórios pouco adequados a um casal razoavelmente educado e com uma filha pequena, o nosso arauto não gostava da nossa cadela, a Alpha, uma pastora mansa e meiga. O papagaio para provocá-la, chamava-a pelo nome e quando ela se aproximava da gaiola ele largava uma bicada sem nenhuma graça no focinho dela. Isso gerou uma profunda inimizade que foi a responsável direta por uma tragédia que veio acontecer alguns meses depois.
Como minha filha tinha o tom de voz parecido com a minha sobrinha, o papagaio a chamava de Carolina e por mais que ela repetisse o seu nome, ele por pirraça continuava chamando-a pelo nome errado.
- Eu sou a Mariane!
- Ahhh! Carolina!
Aos poucos fomos dando uma folga para o bicho e resolvemos soltá-lo pelo quintal. Ele muito esperto, sempre ficava nas árvores ou sobre o telhado para evitar a cachorra que o observava sorrateiramente. Quando ele resolveu dar passeios mais longos, começamos a ter problemas para localizá-lo e foi aí que alguém sugeriu que cortássemos suas asas para que ele não fugisse. A partir daí ele era colocado em uma árvore para curtir o sol da manhã e depois recolocado na gaiola.
Um dia, saímos cedo e deixamos o bicho na gaiola, como sempre fazíamos. Ao voltarmos, cadê o papagaio? Ele havia soltado o trinco da gaiola e fugido. Procuramos por toda a parte e nada do papagaio. Perguntamos aos vizinhos e nenhum sinal.
Só fomos descobrir o mistério no dia seguinte ao observar nas fezes da cachorra, restos de penas e um bico que não foram digeridos pela raiva canina. A vingança da Alpha foi fatal. Ela não perdoou jamais as bicadas no seu focinho, mesmo não considerando um papagaio uma boa refeição. Como se diz no ditado popular: vingança se come cru.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

ADEUS LENIN


Para a geração de 1968, o ano que não terminou, imaginar que um dia a estátua de Lênin seria carregada com um guindaste para ser depositada em uma caçamba de entulho, era algo simplesmente inusitado. Lembro-me de ter lido, na época, um artigo no Estadão que afirmava categoricamente que jamais haveria retrocesso na revolução russa. Ela poderia avançar, mas nunca retornar ao capitalismo consumista. O autor sinalizava que após setenta anos de revolução e várias gerações, o socialismo já estava no DNA do povo soviético. Ele ia mais longe e afirmava que a URSS estava prestes a passar por uma nova revolução, mas com outras finalidades, como por exemplo desbancar a burocracia partidária que havia se apoderado da primeira experiência socialista do planeta. Esta revolução seria mais um avanço histórico e democrático em direção à utopia comunista, uma sociedade sem classes, sem privilégios, sem fome e sem desigualdades sociais.
A Primavera de Praga, segundo o autor, que infelizmente não me recordo o nome, teria sido um passo tímido em direção às mudanças estruturais e democráticas no socialismo. Mas como ainda não havia condições históricas, ela foi violentamente reprimida pelo poderio da camarilha soviética.
Meus antigos amigos, taciturnos e revolucionários, ficaram entusiasmadíssimos com o artigo, pois muito embora torcessem por uma revolução socialista no Brasil, tinham pavor da ditadura do proletariado, que deveria vir com muita repressão aos direitos individuais. Alguns eram poetas, românticos e porque não dizer: mulherengos. A exploração da mulher como objeto sexual estaria com os dias contados após a revolução. Beber vinhos ou whisky eram hábitos pequenos burgueses que seriam varridos do mapa. Um desses meus amigos era fanático por Trotski do qual lia tudo, sendo o Profeta Armado o seu preferido. Seu sonho era passar uns dias em Paris depois da revolução para curtir as francesas que eram, na sua opinião, apaixonadas por revolucionários latinos. Era o seu sonho de consumo “pequeno burguês” e revolucionário.
Uma revolução que não suprimisse todas as liberdades e que permitisse um chopinho a beira-mar com belas garotas não faria mal a ninguém e estaria bem ao gosto do povo brasileiro que nunca seria tão radical como os russos ou chineses. Além do mais seria necessário estimular a poesia, fundamental para a saúde da alma. Alguém se lembra daquela frase dita por Stelnikoff, um bolchevista radical para o poeta Dr. Jivago: “Sua poesia é muito pessoal e a vida pessoal acabou na Rússia”? Pois é, poesia somente as revolucionárias como a do Maiakovski. Quem sabe o Ferreira Gullar seria até tolerado, mas não por muito tempo. O Poema Sujo poderia ser considerado um poema pequeno burguês decadente. Eu duvido que até o Chico Buarque, ícone da esquerda festiva brasileira, seria suportado depois dos festejos revolucionários. Músicas como Olé Olá, Carolina, Sabiá entre tantas outras seriam consideradas como resquícios de uma classe média decadente que precisaria ser extirpada de nossa sociedade.
Mas deixemos de muita conversa e voltemos ao Adeus Lênin, filme que é o objetivo desta crônica. Ele é profundamente triste do ponto de vista do personagem que busca por todos os meios preservar a memória de sua mãe que retorna a vida após meses em coma. Como dizer a alguém idealista que dedicou toda a sua vida a causa socialista que a Coca-Cola era a bebida mais consumida pela juventude da Alemanha Oriental? Que os carros do capitalismo decadente haviam destruído a indústria automobilística da República Democrática Alemã? O sonho havia acabado e ele não ousava despertar sua mãe que acordou sem saber que durante sua longa ausência pela enfermidade, uma grande revolução mudou drasticamente o mundo socialista. O neoliberalismo triunfou e acabou a História como disse Fukuyama em seu polêmico livro “O fim da História e o último homem”. O muro de Berlin desabou com a fúria popular. Um capitalismo corrupto e selvagem se instalou em toda URSS e nos países que antes eram seus satélites. Os anos de repressão violenta de nada adiantaram e o “maligno” retornou com força total. Nada restou do sonho (para alguns) de uma sociedade igualitária que era cantada em prosa e versos por sonhadores latinos.
Simbolicamente a personagem de Adeus Lênin talvez tenha sido o último suspiro da utopia que povoou o imaginário de algumas gerações. Muita gente sonhou em ser um Che Guevara aventureiro pelos campos da América do Sul, como um frei dominicano que conheci. Ele abandonou sua noiva e seu conforto para cantar as veias abertas da América Latina e salvar, para a redenção eterna, todos os pobres e infortunados latino-americanos.
Hoje, a estatua de Lênin provavelmente está disponível como peça de algum antiquário europeu, sedento para lucrar alguns dólares em seu negócio. Há também a múmia que, provavelmente, estará em algum porão de armazém corroído pelos micróbios dos quais foi religiosamente preservada durante a fase da idolatria revolucionária. Che Guevara virou um ícone da contra-cultura ou uma quase grife da moda juvenil. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura, jamás”, famosa frase que teria sido dita pelo Che já perdeu o seu encanto, pois ele teria sido um revolucionário mais duro e cruel do que a imagem construída de que era um homem charmoso, romântico e humanista.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

LEITE DERRAMADO

Chico Buarque de Hollanda é uma unanimidade nacional e é por isso mesmo que o seu último romance, Leite Derramado, alcançou um sucesso de vendas que poucos escritores, alguns até mais consagrados pelo público e pela crítica, conseguem. É um livro bem editado, com duas opções de capa e é para ninguém botar defeito. A leitura não é das mais fáceis, pois Chico não é um escritor de textos previsíveis, com começo, meio e fim. O personagem Eulalio d´Assumpção começa a sua história em cima de uma maca se dirigindo a enfermeira que o atende num hospital público, onde as pessoas ficam largadas nos corredores, retratando a real situação da saúde brasileira.
Um velho senil que se perde entre o passado e o presente confunde personagens da história, fatos e lugares. Com cem anos de idade, Eulálio ainda conserva o orgulho de pertencer a um tradicional tronco de famílias brasileiras. Seu bisavô teria chegado com a família real portuguesa. Na sua árvore genealógica figurariam grandes fortunas do império que teriam transitado pelos corredores do poder até a República Velha.
O velhinho, apesar de arruinado, sem plano de saúde e morando em um quarto de favor em uma favela não se dá por vencido e ainda brada sua origem pelas repartições, tentando retornar o tempo perdido ou o leite derramado. Ninguém dá mais importância às tradições de famílias, principalmente para aquelas que não tem mais dinheiro. Às vezes, o personagem se torna um tanto inverossímil, com um raciocínio lógico e coerente, pois tenho a impressão de que a senilidade, pelos casos que conheço, dá pouco espaço para a lucidez. Mas o Chico consegue levar a história até o seu final com os devaneios do Eulálio.
Chico Buarque retrata de forma bastante cáustica e irônica a decadência das grandes famílias e tenho a impressão de que ele ironiza a si mesmo. Todos sabem que os Buarque de Hollanda vem de uma antiga linhagem pernambucana, que remonta aos invasores holandeses e senadores do império. Os Gonçalves Moreira, de sua avó paterna também vem de uma linhagem que envolve tradicionais famílias mineiras e ramos paulistas. A família de sua mãe, também não fica atrás, com os Cesário Alvin, uma antiga família mineira que controlou o poder político no estado. É possível que o Chico tenha ouvido durante a sua infância as velhas histórias dos seus antepassados, com suas glórias, tradições, poder, dinheiro e escravos.
Não acredito que a obra foi influenciada por Raízes do Brasil, publicada por seu pai em 1937, como afirmaram alguns críticos. O livro de Sérgio Buarque é um trabalho teórico, influenciado pela sociologia compreensiva de Max Weber, sociólogo alemão, cuja obra ele conheceu na sua estada na Alemanha no final dos anos 30. O livro do Chico, por seu turno, retrata o apego das velhas famílias aos valores tradicionais que tentam viver do passado e da pureza inexistente da “raça”, ignorando as mulheres índias e negras que ajudaram a compor a sua genealogia. A saga da família Assumpção acompanha a história do Brasil nos séculos XIX e XX, sendo neste último a decadência. Pessimista, o autor não somente empobreceu o personagem, como transformou os seus descendentes em marginais na sociedade moderna. De grandes importadores de armas, proprietários de terras e políticos influentes, foram parar na favela da Rocinha, vivendo do tráfico de cocaína. Alguma coisa no livro me lembra os Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Márquez, que também retrata a saga da família Buendia na Colômbia.
A saga dos Assumpção ou o Leite Derramado reflete uma visão pessimista em relação ao futuro pelo autor, prevendo uma sociedade cada vez mais decadente e corrupta, com antigos valores conflitando com o crime organizado e a necessidade de sobrevivência. Dos casarões para a favela em três gerações e um desfecho pouco provável para uma família tradicional brasileira que na pior das hipóteses vai morar em apartamentos de classe media de Copacabana. Mas isso não altera a qualidade do romance. O Chico já não é apenas samba, mas um escritor de talento e daqui para frente os seus fãs irão vê-lo mais nas estantes das livrarias do que nas lojas de discos.

sábado, 9 de maio de 2009

ELE NÃO MORA MAIS AQUI



- Alô! Quero falar com o Asdrúbal?
- Quem? Ah! Ele não mora mais aqui.
- Como não mora ...? Quem está falando?
- É o filho dele..
- O que aconteceu? Morreu?
- Não meu senhor. É que ele mudou.

O meu amigo Asdrúbal mudou de endereço e não avisou ninguém. Deixou a bela casa que construiu, tijolo por tijolo, com amor, suor e lágrimas, como diria alguém mais dramático. Lembro-me de quando mudou para o local, indo morar na edícula enquanto levantava a casa dos seus sonhos. O terreno espaçoso, onde abrigaria a área de lazer com churrasqueira e local para as rodas de samba, uma de suas grandes paixões. A amoreira ficou lá, no meio do quintal. “É para os passarinhos se regalarem, dizia orgulhoso”. Ficou também uma goiabeira que no outono carregava, sobrando para presentear amigos e parentes, além dos doces e compotas.
A casa do Asdrúbal vivia repleta de bem-te-vis, sabiás, rolinhas que passeavam livres, alem de velhos sambistas que ele ia colecionando no seu rol de amizades. Por lá passaram Catolé, Padilha, Xará, Dedo, Saulo de Tarso, Wilson e outros que a minha memória deixou envolvidos em teias de aranha. Com esses sambistas baixavam os espíritos do Noel, Vadico, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Ari Barroso, Geraldo Pereira entre outros, transformando a casa do Asdrúbal num templo da boa música brasileira. Ele mesmo desfilava dezenas de sambas, resgatando coisas do arco da velha, fruto de suas pesquisas. Além disso, o nosso Asdrúbal compunha as suas marchinhas e alguns sambas memoráveis. Pena que o grande público não teve oportunidade de conhecer as canções bem construídas com letras bem humoradas e repletas de picardia. Ainda me lembro de sambas como “Dois Tijolos”, que ele fez sobre o Padilha, que há muito deixou nossa companhia.
E agora eu me pergunto: Como o velho Asdrúbal estará sem aquele espaço, rodeado de natureza e ainda impregnado do clima de antigas rodas de samba? Soube que conseguiu de um velho amigo, um cantinho numa loja de plantas e flores. Como sempre foi apaixonado pela natureza, preferiu o desconforto a ficar sem ela. Dizem que levou apenas a vitrolinha dos anos sessenta, seus discos e alguns poucos livros, entre os quais o Grande Sertão Veredas do Guimarães Rosa, que ele relê sempre que ouve a canção Mês de Maria, do Ari Barroso, cujos versos ele sempre repete “Tenho saudades do Brasil, caipira/ dos madrigais ao som da lira...”. Morar num apartamento, nem pensar. Repetia sempre o Asdrú, como carinhosamente era chamado. A vitrolinha, dizem os amigos comuns, está pelas tabelas e o chiado só aumenta. Computador, CD e outras modernidades, o velho não quer nem pensar. “Enquanto a vitrolinha funcionar eu não me separo da minha velha coleção de vinil. O chiadozinho me faz lembrar dos bons momentos, é uma ligação com o meu passado”, gostava sempre de dizer quando alguém falava sobre as inovações da tecnologia.
As lembranças do Asdrú, que pensava em passar o resto da vida na bela casa da Rua Maria das Dores, me comoveu e eu lá com meus botões fiquei a matutar sobre a tristeza de mudar sozinho, levando a roupa do corpo, deixando o espaço e todo aquele tempo vivido que foi se acumulando na memória. Por outro lado as coisas mudaram também. As rodas de samba com churrasco e cerveja já estavam rareando. Amigos mortos, outros morando longe, outros perto, mas distantes. A casa do Asdrúbal ficou apenas como uma fotografia na parede, mas com certeza, ainda dói.
Vamos deixar de tristezas porque o velho Asdru não é disso não. Com certeza ele está curtindo a sua nova vida, mesmo solitário. Seus filhos que o adoram continuam a visitá-lo para saborear os peixes que ele prepara com requintes de grand chef e ouvir os seus sábios conselhos. Uma coisa até hoje ninguém convenceu o Asdru: comer frango ou qualquer tipo de bicho penado. Aves para ele só voando no quintal ou nas florestas e campos. É capaz de passar fome, mas não coloca um grelhado de frango na boca. Dizem as más línguas que na sua adolescência até deixou de namorar a garota mais desejada do bairro somente porque diziam que ela era meio galinha. Pode?
Depois do telefonema, estou tentando encontrar o velho amigo, mas está difícil. Continua arisco como lambari em água fria. Mas prometo que quando encontrá-lo vou encomendar a ele um samba com o sugestivo título: “Ele não mora mais aqui”. Se não doer, quem sabe vamos ainda reunir a turma para cantar mais uma do velho Asdrú.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO



Se vocês pensam que eu vou contar minha droga de vida com todos os detalhes sórdidos, podem ir tirando o cavalo da chuva. Eu vou contar apenas algumas coisas que eu tenho vontade de contar, mas vou omitir e mentir em muitas coisas. Ao contrário do Holdem Caulfield do Apanhador em campo de centeio, a minha infância foi pobre, mesmo tendo estudado uns três anos em colégio particular. Eu não fui expulso como ele, mas fui jubilado depois de repetir duas vezes na mesma série. E foi mais por preguiça mesmo do que dificuldade para aprender. Eu era um perfeito relaxado, se é que é possível ser perfeito nessas coisas. Eu não era burro, mas era indisciplinado. Algumas coisas não entravam na minha cabeça. Em português eu até me defendia, pois lia e escrevia com alguma facilidade e era capaz de ler várias páginas em pé, segurando um livro, sem gaguejar. Em matemática me defendia para o gasto. Mas quando era necessário decorar coisas que não me interessavam? Era um desastre.
Minha primeira professora no curso primário se chamava Edméia, era uma mulher simpaticíssima e meiga. Ela até gostava de mim. Eu posso até jurar que gostava, mas hoje não teria muita certeza não, pois professores bonzinhos gostam de todos os alunos, sejam eles feios, bonitos, burrinhos ou inteligentes. Ela era linda e tinha um sorriso encantador. Eu ficava horas olhando para o seu jeito de falar e sorrir. Era realmente uma mulher fantástica. Pena que ela foi embora antes de terminar o ano. Eu acho que foi para ter um bebê, mas não tenho certeza. Depois veio a dona Mariana, uma mulher também simpática, mas mais madura. Um tipo maternal que usava umas roupas muito sérias. Foi com ela que eu fiz a minha primeira porcaria de redação. Na verdade não era uma redação, mas uma composição. De qualquer forma até hoje eu não sei a diferença entre uma coisa e outra. Ela colocou um quadro pendurado na lousa com uma fazendinha ridícula. Ridícula porque tinha uma casinha boba, uma vaca idiota, um cavalo pangaré, uma galinha e não sei mais o que. Eu muito idiota escrevi uma relação de coisas que tinha no quadro, como “Eu tenho uma fazenda, eu tenho um cavalo...” ao invés de uma composição. Ela leu a minha em voz alta e todo mundo me gozou. Foi a maior humilhação, aliás, a primeira que eu recebi publicamente. Eu fiquei puto da vida. A bosta é que ela não explicou direito o que era composição ou então eu estava tão distraído, como era meu hábito, que não prestei atenção e escrevi aquela esculhambação.
No ano seguinte tive outra professora que devia ter uns oitenta anos ou mais. Era brava e muito feia. Usava uns óculos enormes e prendia os cabelos com um birote atrás da cabeça. Ela usava o tempo todo um ponteiro de madeira para bater nos dedos da criançada que estava conversando ou distraída. Aquilo doía para cacete, principalmente quando estava um pouco frio. Às vezes ela batia com aquele treco na cabeça da gente, mas não muito forte porque ela não era besta. Algumas vezes ela tirava o sapato de salto alto e jogava na molecada. Não falei que era doidona? Já pensaram se machucasse uma criança, que confusão que iria dar? Ela fazia isso porque não conhecia minha mãe. Se eu contasse que ela havia me caceteado a minha mãe virava uma fera. Ela era capaz de ir até a escola e peitar a professora e a diretora, colocando o dedo na cara. Mas era por isso que eu não contava nada, pois tinha a maior vergonha da minha mãe dar escândalo. Não é por nada não, pois a imbecil dessa professora bem que merecia, mas o problema era depois ter de agüentar a gozação da molecada.
Tinha um aluno repetente na classe que era malandro. Ele devia ter o dobro da minha idade, mas não conseguia aprender nada. Além disso, o Zé, esse era o seu nome, andava roubando coisas pelo bairro. Um dia a polícia apareceu na casa dele, que morava muito perto da minha casa. Os policiais o levaram com o pai até a delegacia para prestar depoimento e ele sumiu da escola. Não sei se ficou preso, mas ele não foi a aula nos dias seguintes. A professora perguntou se alguém sabia do José. Eu dei uma de otário e contei para ela o que havia acontecido. Imaginem os tabefes que eu levei do grandão depois da aula, pois alguém da classe me entregou para ele. A minha sorte foi que o meu pai conhecia o pai do sujeito e ele maneirou um pouco na surra. Neste dia aprendi que a duras penas que não é nada bom se intrometer na vida alheia, principalmente em assuntos delicados como esse.
Tive ainda outra professora, chamada Maria Lúcia com quem eu dei a maior mancada, quer dizer, a maior cagada. Não é simbolismo não! Foi no duro. Ela estava explicando uma matéria sobre a história do Brasil e de repente senti umas contrações violentas na barriga. Aí não deu para segurar e pedi para ir ao banheiro. Sabem o que a imbecil da professora disse: - “Espere eu terminar a explicação”. Não deu outra. Diante da fedentina e todo mundo reclamando eu pedi de novo e aí ela mandou que eu fosse depressa. Aí não adiantou mais nada e a única coisa que eu fiz foi me limpar. Fui para casa mais cedo todo sujo de merda. Hoje fico pensando como é ridículo um professor não deixar o aluno sair para ir ao banheiro. Como se as necessidades fisiológicas podem esperar a vontade do professor.
E assim, eu encerro esta crônica num estilo J.D. Salinger, o grande escritor americano, autor do Apanhador no campo de centeio (The catcher in the rye). De quebra, aproveito para agradecer, tardiamente, ao professor Esdras Pinto da Silva, meu professor de Inglês no colégio que, na época, emprestou-me o livro. Para quem não leu, vai aí uma boa sugestão de leitura. É realmente imperdível.

JUNIA COSTA, A MOÇA QUE DEIXOU UM VIOLÃO LÁ EM CASA



JUNIA COSTA, A MOÇA QUE DEIXOU UM VIOLÃO LÁ EM CASA


Um dia desses, arrumando as coisas em casa, encontrei um velho violão Gianini todo empoeirado e comecei a pensar na sua história. Foi uma moça, lá das Minas Gerais, mais precisamente de “Belzonte”, como ela chamava a capital do estado, que o deixou aqui. Não sei se ela gostava ou não do violão, mas parece que foi coisa do passado, quando ainda era muito jovem e estudante. Depois de formada o violão foi ficando meio de lado e acabou esquecido, propositalmente por aqui. Quando ela mudou-se para outras plagas, perguntamos:
- E o violão, não vai levar?”
- Acho que não vou não. Eu gostaria de deixá-lo aqui. Vocês se incomodam?
Claro que a gente não ia se incomodar. Mesmo tendo o nosso, um violão a mais nunca seria demais, pois às vezes aparecia mais de um músico para os nossos animados saraus. Depois, um violão é um objeto que tem vida. Não é um vaso, um móvel. As pessoas tocam belas canções e com eles passamos bons momentos de nossas vidas com nossos amigos. Enfim, um violão sempre tem muitas, muitas histórias para contar. Se fosse um ser vivo, estaria lembrando-se das mãos leves, suaves, femininas, ou mãos pesadas, ásperas, mas sempre sensíveis e inspiradas que dedilharam as suas cordas. Isso me faz lembrar aquela linda canção do Cartola:
Ah! Essas cordas de aço
Este minúsculo braço
Do violão que os dedos meus acariciam
Ah, esse bojo perfeito
Que trago junto ao meu peito...

E a moça do violão partiu, foi para a Europa e lá se enfiou em um cantinho qualquer e tocou a sua vida. Casou e com muito esforço conseguiu autorização para exercer a profissão de médica em um país nórdico, o que não é fácil não. Sempre nos lembramos dela em vários momentos. Um deles foi numa fria manhã de junho. Ela estava no portão desesperada, com a porta do carro aberta e um cão atropelado sobre o banco traseiro. No primeiro momento pensamos que era uma pessoa ferida. Depois ela foi se acalmando e explicando que tinha visto o atropelamento do cão e resolveu socorrê-lo. Como não conhecia nenhum veterinário, resolveu bater em nossa porta para ajudá-la. E a história não terminou por aí. Depois de constatado que o cão não teria mais recuperação, pagou as despesas para o sacrifício e o enterro do animal e ainda foi procurar o dono para comunicá-lo. Pobrezinha! A primeira coisa que o dono do cão queria saber é se teria de pagar alguma coisa e nem perguntou o que havia acontecido com o pobre cão.
Ela adorava os nossos cães e mal sabíamos se quando nos visitava era por nossa causa ou por eles, tanto era o afeto que demonstrava para com os bichos. Brincadeiras a parte, ela era (e continua sendo), uma pessoa doce e amável. Nós a tratávamos como uma irmã mais jovem e algumas vezes até com umas broncas para colocá-la nos eixos.
Numa outra ocasião, socorreu nossa filha em um pequeno, mas sério acidente doméstico. Ela fez um trabalho primoroso de reconstituição de um dedo macerado em uma cadeira de armar e praticamente sem recursos em um hospital público.
A última vez que a vimos foi no aeroporto, quando voltava de BH depois de uma rápida visita ao Brasil para o enterro, não de uma pessoa, mas de uma cadelinha que deixou com sua mãe.
Depois de uma desilusão amorosa ela conheceu o Thomas, um dinamarquês que eu apelidei de Hamlet. O “Hamlet”, diferentemente do personagem de Shakespeare, nunca me pareceu muito preocupado com questões existenciais. É uma pessoa doce e gentil que adora cães, gatos e companhia. E foi esse quase personagem que arrebatou para sempre o coração desta médica mineira que cantava bossa-nova deixando o Brasil mais pobre e com menos poesia.
Mas o velho Gianini continua por aqui e foi nele que a Mariane compôs algumas de suas canções como: Gente Média, Café Luá, Vai virar, Melhor parar, entre tantas outras. De vez em quando também aparece o Zéca, um dos maiores conhecedores de sambas desde Noel até os nossos dias e o maestro Orlando Marcus Mancini, também um dos maiores conhecedores da MPB, que despertam a alma do velho pinho em inesquecíveis noitadas.
Enquanto ela não volta para apanhar o seu pinho, ele vai ficando por aqui, saudoso de sua dona que tal vez já tenha se esquecido do português e o que dirá da bossa-nova.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Extraterrestres




Revendo quase por acidente o filme ET em que um extraterrestre é apresentando como um pequeno monstrinho sensível e delicado, observa-se um grande contraste com as declarações de pessoas que se dizem abduzidas pelos seres de outros planetas. Umas duas mulheres que relataram os seus “casos” com alienígenas, revelaram que eram altos, loiros e com olhos azuis. Essas pessoas juram por todos os deuses que tiveram filhos destas relações e não ficam constrangidas em mostrá-los na televisão. A entrevistadora faz expressão séria ao formular as perguntas sobre como ocorreram as abduções. A cena me fez lembrar do livro de Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios em que o autor procura desmascarar, através de explicações fundamentadas na ciência, esses depoimentos sobre encontros com extraterrestres. Sagan não usou meias palavras para criticar esse modismo contemporâneo. Lembra o físico e astrônomo que não há registro histórico de contatos com seres extraterrenos nos séculos anteriores aos livros de ficção de Julio Verne ou antes da famosa locução do ator norte-americano Orson Welles sobre a invasão da terra utilizando um texto de H.G. Wells. Até então só temos registros de aparecimentos de personagens religiosas.
Nos anos setenta do século passado foi publicado um livro chamado Eram Deuses os Astronautas de Von Danicken, tentando provar que algumas obras arquitetônicas foram obras de seres alienígenas que visitaram a terra em tempos idos. O livro foi convincente e eu mesmo embarquei na história, pois acreditava na possibilidade concreta de que a terra não poderia ser o único planeta habitável do universo. Considerando a existência de trilhões de estrelas no centro de possíveis sistemas solares, nada seria mais lógico e racional do que aceitar a possibilidade de haver vida em outras partes do universo. Sagan, que era um profundo conhecedor de astronomia – dentro das possibilidades disponíveis pelo atual estágio da ciência, não descartava esta possibilidade, mas colocava também a hipótese de que a terra também poderia ser o único exemplo de vida em todo o universo. Caso haja mesmo vida inteligente fora da terra, as dificuldades para contato serão as mesmas que encontramos atualmente. Como o universo tem a mesma idade e o processo evolutivo teria ocorrido paralelamente em todos os sistemas solares, estaríamos no mesmo estágio de outras “Terras” em termos de desenvolvimento tecnológico. Considerando também as distâncias existentes, mesmo dentro de um mesmo sistema solar, as probabilidades de contato ou de viagens interplanetárias seriam, no mínimo, bastante complicadas. Eventuais viagens no futuro talvez somente sejam possíveis através de fetos congelados.
Por outro lado, parece um tanto óbvio que viajantes alienígenas não se dariam ao trabalho de ficar bisbilhotando a terra sem a preocupação de fazer algum contato inteligente para eventuais intercâmbios tecnológicos ou culturais. Alguns estudiosos de OVNIS afirmam categoricamente que a força aérea americana e a NASA escondem tais fatos da população para evitar turbulências. Ora essa! Será que com tanta gente informada sobre o assunto (pilotos, militares, políticos, técnicos etc.) ninguém sairia dando entrevista na mídia falada e escrita? Impossível.
Sagan, muito educadamente considerava essas pessoas sinceras, mas paranóicas. Para ele, mesmo com um detector de mentiras não seria possível desmascarar essas pessoas, pois elas acreditam fielmente no que falam e defendem. Pessoas que vivem falando que ouvem vozes ou mantêm contatos com pessoas falecidas ou de outro mundo, são consideradas dementes e eventualmente vão para sanatórios. Entretanto, se são bem articuladas, entram para o seleto clube dos ovnianos e conseguem até a proeza de dar entrevista na televisão e em jornais. A história do matemático John Nash, prêmio Nobel de Economia que sofre de esquizofrenia e viu durante anos pessoas inexistentes com quem conversava, é um exemplo de como a mente humana é capaz de burlar a racionalidade. Sem mais delongas, devo dizer que se eventualmente existir vida inteligente fora da terra, provavelmente os ETs deverão parecer muito estranhos para nós, pois a vida teria se desenvolvido de forma bastante inusitada em outro planeta, mesmo em condições semelhantes às da Terra. Mas o mais intrigante mesmo é a pergunta que Ray Kurzweil faz em seu livro: A era das máquinas espirituais: Será que a vida inteligente é relevante no universo?

segunda-feira, 2 de março de 2009

UMA CANÇÃO PARA MAYSA




Com bastante atraso escrevo sobre a minissérie Maysa, exibida na televisão. Confesso que pouco ou nada me liguei na cantora durante sua vida. No auge de sua carreira eu ainda era muito jovem para entender as suas canções de fossa. Na fase final ou na sua decadência, estava ligado na nova geração de compositores e cantores da fase áurea da MPB, como Caetano, Chico, Edu, Milton Nascimento, Tom Jobim entre outros. Lembro-me de uma revista de fotonovelas que apareceu lá em casa trazida pelas minhas irmãs mais velhas que contava a história da musa. Era a história típica de um conto de fadas. Uma moça da classe média casando com o sobrenome ícone do capitalismo nacional. Tinha tudo para dar certo se não fosse a música e a sua personalidade independente e boêmia. Um casamento dentro dos padrões tradicionais de uma família burguesa não conseguiu suportar a presença de uma vida cercada de holofotes, fofocas e notícias nos jornais. Artista famoso não tem vida privada e ponto final.
A sua morte trágica foi um choque, mesmo para aqueles que estavam distantes da cantora. Alguns dias depois estava no antigo Bar Samambaia, reduto de boêmios da cidade, tomando um bom chope quando um cantor de cabelos desalinhados e dentes salientes pediu licença ao público para falar sobre a próxima canção. “Esta é uma homenagem singela a uma das maiores cantoras do Brasil, Maysa”. O público ficou emocionado e aplaudiu bastante antes mesmo de ouvir a canção, cuja letra transcrevo:
“O tempo correu, repintou o passado
Na tela o apogeu de um sonho dourado
Navegou na ilusão desse viver
Viu o amor vingar sorrir e emudecer
Estou tão infeliz na dor que me invade
No peito cicatriz no coração, saudade...
Foi tão lindo o azul daquele céu
Que cedo escureceu
Desceu da noite um negro véu
Juntou-se ao mar e a brisa
Num triste adeus levou Maysa”.

Depois da canção, dignamente interpretada pelo cantor, o público aplaudiu de pé pedindo bis. O interprete avisou que a música havia sido composta naquela tarde juntamente com um amigo. No depoimento disse que já estava com a música na cabeça quando se encontrou com o parceiro, que rascunhou, numa mesa de bar, a letra no mesmo instante sobre um guardanapo de papel. O Luiz Tati disse, numa entrevista, que esse negócio de compositor escrever músicas em guardanapo é anedota. Como já pude testemunhar coisas deste tipo, posso afirmar que o moço está enganado.
Tempos depois conheci os autores. O músico e cantor, Saulo de Tarso e o letrista Sinésio Dozzi Tezza. O primeiro vivia da música, cantando de bar em bar para o seu sustento. O letrista tinha uma vida menos aventureira e ganhava o pão de cada dia como vendedor de produtos químicos. À noite curtia a boemia da cidade participando intensamente da vida cultural com incursões em festivais de música e no teatro.
A canção correu pela cidade e em todos os bares era tocada com ou sem a presença dos compositores. Há relatos de que a música foi ouvida no Rio de Janeiro e em Recife, mas nunca foi gravada e continua desconhecida do grande público e da maioria dos fãs da cantora. Um amigo que foi ao Japão me confidenciou que ouviu alguém cantá-la numa casa especializada em MPB na cidade de Tóquio. Non sei se vero, ma beni trovato, diria o Dozzi Tezza em seu dialeto meio Vêneto e meio caipira.
A minissérie me trouxe saudades da canção e fiquei imaginando se ela tivesse conseguido chegar aos ouvidos do diretor e filho da artista. Os dois desconhecidos autores poderiam ganhar a ribalta e os fãs poderiam ter a oportunidade de ouvir uma bela canção, resgatando o trabalho anônimo de artistas desconhecidos pela mídia. Soube depois que um amigo da época chegou a enviar o CD pelo correio, mas duvido que tenha chegado às mãos do diretor ou alguém influente.
Este é o nosso Brasil. Um país repleto de artistas que vivem no anonimato e com as gavetas repletas de canções que talvez nunca sejam ouvidas pelo grande público. Enquanto isso, a mediocridade campeia pelos meios de comunicação de massa. O artista Saulo de Tarso, pobre e sem muita saúde, ainda perambula pelas noites do ABC a procura de um palco para cantar e tocar seu violão. O Dozzi Tezza, felizmente, teve um futuro melhor, mas à custa de muito, muito trabalho numa pequena indústria, deixando as letras inspiradas apenas como objeto de lazer.
Os velhos boêmios já não freqüentam os mesmos bares e provavelmente Saulo de Tarso Azevedo não canta mais a sua mais “famosa” canção. No entanto, ela deve estar gravada no firmamento e a cantora dos belos olhos verdes deve ouví-la nas infinitas tardes da eternidade. Pode ser apenas um sonho, mas quem sobrevive sem isso?


Renato Ladeia