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segunda-feira, 2 de março de 2009

UMA CANÇÃO PARA MAYSA




Com bastante atraso escrevo sobre a minissérie Maysa, exibida na televisão. Confesso que pouco ou nada me liguei na cantora durante sua vida. No auge de sua carreira eu ainda era muito jovem para entender as suas canções de fossa. Na fase final ou na sua decadência, estava ligado na nova geração de compositores e cantores da fase áurea da MPB, como Caetano, Chico, Edu, Milton Nascimento, Tom Jobim entre outros. Lembro-me de uma revista de fotonovelas que apareceu lá em casa trazida pelas minhas irmãs mais velhas que contava a história da musa. Era a história típica de um conto de fadas. Uma moça da classe média casando com o sobrenome ícone do capitalismo nacional. Tinha tudo para dar certo se não fosse a música e a sua personalidade independente e boêmia. Um casamento dentro dos padrões tradicionais de uma família burguesa não conseguiu suportar a presença de uma vida cercada de holofotes, fofocas e notícias nos jornais. Artista famoso não tem vida privada e ponto final.
A sua morte trágica foi um choque, mesmo para aqueles que estavam distantes da cantora. Alguns dias depois estava no antigo Bar Samambaia, reduto de boêmios da cidade, tomando um bom chope quando um cantor de cabelos desalinhados e dentes salientes pediu licença ao público para falar sobre a próxima canção. “Esta é uma homenagem singela a uma das maiores cantoras do Brasil, Maysa”. O público ficou emocionado e aplaudiu bastante antes mesmo de ouvir a canção, cuja letra transcrevo:
“O tempo correu, repintou o passado
Na tela o apogeu de um sonho dourado
Navegou na ilusão desse viver
Viu o amor vingar sorrir e emudecer
Estou tão infeliz na dor que me invade
No peito cicatriz no coração, saudade...
Foi tão lindo o azul daquele céu
Que cedo escureceu
Desceu da noite um negro véu
Juntou-se ao mar e a brisa
Num triste adeus levou Maysa”.

Depois da canção, dignamente interpretada pelo cantor, o público aplaudiu de pé pedindo bis. O interprete avisou que a música havia sido composta naquela tarde juntamente com um amigo. No depoimento disse que já estava com a música na cabeça quando se encontrou com o parceiro, que rascunhou, numa mesa de bar, a letra no mesmo instante sobre um guardanapo de papel. O Luiz Tati disse, numa entrevista, que esse negócio de compositor escrever músicas em guardanapo é anedota. Como já pude testemunhar coisas deste tipo, posso afirmar que o moço está enganado.
Tempos depois conheci os autores. O músico e cantor, Saulo de Tarso e o letrista Sinésio Dozzi Tezza. O primeiro vivia da música, cantando de bar em bar para o seu sustento. O letrista tinha uma vida menos aventureira e ganhava o pão de cada dia como vendedor de produtos químicos. À noite curtia a boemia da cidade participando intensamente da vida cultural com incursões em festivais de música e no teatro.
A canção correu pela cidade e em todos os bares era tocada com ou sem a presença dos compositores. Há relatos de que a música foi ouvida no Rio de Janeiro e em Recife, mas nunca foi gravada e continua desconhecida do grande público e da maioria dos fãs da cantora. Um amigo que foi ao Japão me confidenciou que ouviu alguém cantá-la numa casa especializada em MPB na cidade de Tóquio. Non sei se vero, ma beni trovato, diria o Dozzi Tezza em seu dialeto meio Vêneto e meio caipira.
A minissérie me trouxe saudades da canção e fiquei imaginando se ela tivesse conseguido chegar aos ouvidos do diretor e filho da artista. Os dois desconhecidos autores poderiam ganhar a ribalta e os fãs poderiam ter a oportunidade de ouvir uma bela canção, resgatando o trabalho anônimo de artistas desconhecidos pela mídia. Soube depois que um amigo da época chegou a enviar o CD pelo correio, mas duvido que tenha chegado às mãos do diretor ou alguém influente.
Este é o nosso Brasil. Um país repleto de artistas que vivem no anonimato e com as gavetas repletas de canções que talvez nunca sejam ouvidas pelo grande público. Enquanto isso, a mediocridade campeia pelos meios de comunicação de massa. O artista Saulo de Tarso, pobre e sem muita saúde, ainda perambula pelas noites do ABC a procura de um palco para cantar e tocar seu violão. O Dozzi Tezza, felizmente, teve um futuro melhor, mas à custa de muito, muito trabalho numa pequena indústria, deixando as letras inspiradas apenas como objeto de lazer.
Os velhos boêmios já não freqüentam os mesmos bares e provavelmente Saulo de Tarso Azevedo não canta mais a sua mais “famosa” canção. No entanto, ela deve estar gravada no firmamento e a cantora dos belos olhos verdes deve ouví-la nas infinitas tardes da eternidade. Pode ser apenas um sonho, mas quem sobrevive sem isso?


Renato Ladeia

O LOBISOMEM



Uma história assombrosa povoava minha imaginação de menino. Era sobre um português chamado Manoel Joaquim Quinquinello. Ele morava na fazenda de meu tio, no interior de São Paulo com a mulher, dona Joaquina e seus filhos. A casa era uma tapera que ficava ao meio de um outeiro ao lado de um pequeno córrego que cortava a fazenda. Meus primos diziam que o seu Manoel virava lobisomem nas noites de lua cheia. Quando era visto na fazenda, estava sempre com um bode ao seu lado e um facão preso à cintura para cortar capim para alimentar seu fiel escudeiro. Lembro-me da primeira vez que vi o seu Manoel. Ele vinha com o seu bode ao lado, com enormes barbas brancas e esbravejando aos quatro ventos. Era uma figura sinistra, digna de assustar meninos, ainda mais com a lenda de que virava lobisomem. Meus primos mais velhos me assustaram mais ainda, avisando que ele iria me pegar. Meu coração disparou e não sabia se me agarrava aos primos ou saia em disparada. O Seu Manoel parou e perguntou: “Quem é o miúdo?”. “É o filho do tio Manoel”, respondeu um dos meus primos. “Oh raios! Como vai teu pai miúdo?” perguntou se dirigindo a mim. Meus primos se encarregaram de responder, pois eu não conseguia abrir a boca de tão assustado.
A fama do seu Manoel vinha de um hábito que preservara desde que chegou a fazenda. Dormia durante quase todo o inverno e somente se levantava à noite para dar umas voltas. Cabia aos filhos e a mulher as tarefas de cuidar da lavoura e outros afazeres da casa. A lenda sobre a sua figura era criada pelos vizinhos, inconformados com seu modo de vida. Nas noites de lua cheia, muitos colonos ficavam espreitando a sua casa para ver a transformação, mas nunca ninguém viu de fato a transformação. Meu tio, um evangélico fundamentalista, se encarregava de destruir essa lenda e que ninguém viesse lhe contar tais bobagens, pois ele esbravejava “soltando os cachorros” naqueles que insistiam terem visto o “maligno”, meio homem, meio lobo.
Seu Manoel era analfabeto e sempre que recebia cartas de sua família em Portugal, levava-as para que minha mãe as lesse para ele. Minha mãe contava que ele ficava acabrunhado depois da leitura, pois já não tinha mais esperanças de que voltaria para a terrinha. Como já estava muito velho e não tinha conseguido comprar suas próprias terras sentia-se um imigrante fracassado e condenado a ser enterrado em terras do além mar.
Tempos depois o velho Manoel Joaquim veio a falecer, deixando a viúva, dona Joaquina, duas filhas moças e dois rapazes, um deles com um defeito no pé, o que o tornava quase inválido para o trabalho. Meu tio, viúvo, com quase setenta anos, deu-se a se engraçar pela moçoila que logo viu no velho uma oportunidade de mudar de vida. Logo depois se casaram e dona Joaquina, com os filhos, foi morar na casa grande. A viúva passou a responder pela cozinha e a filha dedicava-se a fazer chamegos no velho que se deitava na rede todas as tardes para contemplar seus campos. Uma vida de rainha para a estranha rapariga, filha de um lobisomem. Depois que a mãe morreu, precisou pegar no batente e cuidar da casa, coisa que não apreciava muito. Quando visitava meu tio e ele pedia que ela passasse um café, ela respondia: “Ora, pois, pois, será que ele quer mesmo meu velho?”
A rapariga ainda deu um filho ao velho, que veio a se chamar Euzébio, um rapagão, que veio para dividir com os filhos do primeiro casamento, a bela e saudosa Fazenda São Vicente do Pau d’alho, por onde nas noites de lua cheia ainda hoje passeia um velho e solitário lobisomem lusitano. Pode ser invenção do povo, mas como dizem os espanhóis: “Não creio nas bruxas, mas que existem, existem”.
Uma das irmãs da Dona Izabel morava no bairro da Penha e numa das visitas do meu tio, fui encarregado de acompanhá-lo na visita à cunhada. Foi uma longa viagem e de tristes lembranças. Meu tio atacado por uma velha bronquite, tinha acessos de tosse, o que me deixava envergonhado. Depois de horas de viagem de São Caetano à Penha, com três conduções, chegamos ao local. Ainda me lembro de uma enorme área gramada com enormes pedras, que dava uma sensação de estar no interior. A casa da Dona Elvira era modesta, mas tinha uma filha bonita, com quem troquei olhares durante todo o tempo. Dormimos por lá e no outro dia bem cedo voltamos ao martírio da tosse do meu tio que precisava parar a cada vinte metros que andávamos. Na volta eu já não me importava muito com isso, pois os olhares da meiga rapariga ainda embriagavam minha cabeça de adolescente. Nada como começar a falar de lobisomem e terminar com as lembranças dos olhares de uma bela rapariga que inundou minha imaginação por um bom tempo.

Renato Ladeia