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terça-feira, 26 de agosto de 2008

OS VELHOS COMPANHEIROS

Apesar da garoa fina e do frio, lá vamos nós para uma festa na casa de amigos. Às vezes falta coragem, mas sempre vale a pena quando a alma não é pequena. Nada tão saboroso como os doces encontros com os amigos e amigas de antigas jornadas. Abraços demorados, repletos de afeto e alegria por rever pessoas que fazem parte da nossa história, dos nossos sonhos, das nossas aventuras e desventuras. Sempre festejamos os aniversários, os casamentos, os nascimentos e muitas vezes era apenas para comemorar um retorno, um dia bonito, uma noite de lua cheia ou simplesmente a vontade de rever os velhos companheiros.
Todos são, ou melhor, eram bons de copo. Alguns são vigiados atentamente pelas mulheres, que aproveitando a lei seca, impuseram severo controle sobre o vinho, o uísque e a cerveja. Um copinho só não faz mal... Até o final da festa já passou o efeito... E a conversa vai pegando ritmo. Não se fala mais de política, de violência e de corrupção porque ninguém agüenta mais. Fala-se mais de poesia, de música e da saudade do velho Caymmi que completou seu tempo de permanência no pequeno planeta azul.
Algumas cabeleiras foram devastadas pelo tempo que vai pintando cabelos brancos em antigas recordações. As rugas a cada ano vão se acentuando, fixando as marcas indeléveis das muitas primaveras e principalmente verões, que passamos juntos. As mulheres continuam as mesmas, sempre bonitas e cada vez mais charmosas. Vão enganando o tempo com novas cores e novos cremes. É uma luta constante em busca da eterna juventude.
Um dos amigos usou uma triste metáfora quando nos aconchegamos em volta de uma mesa redonda coberta com uma toalha preta. “Quero ver quando for uma mesa retangular com uma toalha preta?” Ora essa! Que hora para se falar nessas coisas! Morte é fim de festa, é desencontro.
Alguns faltaram ao encontro. Um estava na Escócia em um congresso, outro estava às voltas com seus negócios, outros moram muito longe, um outro, mesmo morando perto, está deixando o tempo passar e está esquecendo de viver. Viver é mais do que trabalhar, dormir e comer. Viver é sentir o calor de uma boa conversa, de relembrar bons e maus momentos, é sentir o abraço estreito com jeito de se agradar. Viver é olhar nos olhos e sentir que amamos as pessoas e somos amados. Viver é desfrutar de amizades desinteressadas, é jogar conversa fora, é um poema do Manuel Bandeira encerrado com força e paixão... “Eu faço versos como quem morre”. Viver é ouvir aquela canção do Caymmi e sentir no fundo da alma as águas batendo na beira da praia e ver um entardecer que parece não acabar nunca de tão bonito. Viver, minha gente é poesia pura na veia. O dinheiro pode ser bom, mas se não tivermos poesia na alma, ele só trás inveja, medo de que todo mundo está querendo pegá-lo. Depois, quando partimos, ele gera apenas a discórdia entre os que ficam. Feliz o homem que deixa para os seus filhos apenas a sua sabedoria, seus versos tortos e sua memória.
O que nos torna humanos de verdade, não são as finanças, as tecnologias, as grandes propriedades. O que nos torna humanos é a paixão. É a paixão que nos leva a escrever versos, a ouvir e ler versos, a se emocionar com a música, com o sorriso, com as lágrimas e com as coisas mais simples da vida. É a paixão que leva o homem para o futuro sem esquecer do passado.
Mas como diria o velho poeta mineiro: “Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

Renato Ladeia
23/08/08

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O EXTERNATO MATTOSO E A VELHA MOOCA











Num taxi em direção à Mooca, um velhinho no volante foi me falando com seu sotaque italianado sobre o bairro que conhecia como a palma de sua mão. Ele nasceu e foi criado lá. Hoje, motorista de táxi pertence à cidade, rodando por tudo quanto é canto da São Paulo desvairada.
Paramos em frente ao antigo Externato Mattoso, na Rua dos Trilhos e ele se pôs a falar sobre sua infância quando lá estudava.
- As professoras eram muito rigorosas e ainda hoje tenho marcas de grãos de milho nos joelhos, comentou saudoso.
Quem passava até pouco tempo atrás pela Rua dos Trilhos, ainda via uma construção antiga com a inscrição: Externato Mattoso. Lá funcionou de 1910 até meados dos anos sessenta, a primeira escola do bairro. Lá três irmãs, a Etelvina, a Arlinda e a Marianna da Costa Mattoso, ensinavam as crianças a ler e a escrever. Naquela época, na Mooca, um bairro tipicamente operário, se falava mais o italianês do que o português. Na verdade a língua predominante era o dialeto Vêneto misturado com o nosso idioma. Provavelmente as reuniões dos operários anarquistas eram realizadas em um idioma que os policiais não entendiam, o que dificultaria saber o que estavam exatamente fazendo. Havia também, segundo historiadores, algumas ilhas onde se falava praticamente o espanhol.
Foram mais de sessenta anos e o velho prédio, pelas suas janelas preguiçosas, viu muitos acontecimentos. A revolução tenentista de 1924, liderada pelo General Isidoro Dias Lopes, deixou marcas profundas no prédio, pois foi ocupado pelas forças revolucionárias. Durante muitos anos, as fotografias das crianças tiradas durante as formaturas, tinham como pano de fundo, uma parede crivada de tiros de fuzil. O Custódio da Costa Mattoso, meu sogro e sobrinho das professoras, encontrou, tempos depois no prédio, uma granada (não disparada) e algumas balas de fuzil. Uma das balas está lá em casa como souvenir. Quanto a granada não sei que fim levou.
Em algumas reuniões familiares, tive oportunidade de conversar com duas das velhas professoras, a Marianna e a Arlinda, pois a Etelvina já havia falecido. Eram mulheres orgulhosas do seu passado e do trabalho que desenvolveram educando crianças, sendo que muitas delas não falavam nem o português. Elas contaram que durante a revolução de 1924, foram obrigadas a fugir para um sítio em Santo Amaro, que pertencia a um parente ou amigo. Para empreender a viagem alugaram uma carroça que levou algumas boas horas até chegar ao destino, onde puderam ficar em segurança. São Paulo estava um caos, com muitas casas bombardeadas e pessoas mortas que eram enterradas nos quintais, pois era impossível atravessar as ruas com o tiroteio para se fazer um cortejo fúnebre.
Passado o susto, a cidade foi voltando à normalidade e a velha Mooca também. As professoras do Externato precisaram juntar os cacos, ou seja, consertar tudo. Portas, carteiras e mobiliário em geral quebrados ou destruídos.
A vida econômica da cidade se desorganizou e com fechamento das fábricas, muitas pessoas ficaram sem recursos e houve saques aos armazéns, principalmente o do Matarazzo, de onde levaram muitos sacos de farinha de trigo. Depois a polícia foi de casa em casa para resgatar. Muitos operários italianos, suspeitos de colaborarem com os revoltosos, foram presos e interrogados.
Depois veio a Revolução de 32 e desta vez todo o estado foi envolvido na guerra civil. Foram tempos difíceis, com a mobilização de toda a comunidade para o conflito que no final mostrou-se inútil com a manutenção da ditadura de Getúlio Vargas até 1945. Os homens jovens se engajavam no exército constitucionalista e os que não o faziam eram humilhados nas ruas como maricas. Neste episódio, o Externato também foi um ponto de referência para os voluntários. Lá as mulheres produziam uniformes para os soldados engajados. Meu sogro, com apenas sete anos de idade, levava uniformes até a Estação de trem, no início da Rua da Mooca.
A história do Externato, que já está no seu centenário, começou com a vinda das irmãs de Campinas, onde estudavam em um colégio religioso. Com a morte do pai, Francisco da Costa Mattoso, um apaixonado por corridas de cavalo que não saia do antigo Hipódromo da Mooca, bem próximo do Externato, tiveram que arregaçar as mangas e trabalhar duro. Junto com o Francisco, irmão mais moço, construíram grande parte do prédio. A antiga família Costa Mattoso, cujas origens remontam o século XVIII entre a região de Campinas e Sorocaba, também foi se italianizando, assimilando o sotaque Vêneto através de casamentos e convívio.
Com o crescimento da cidade e a ampliação da rede pública de ensino, a escola, bastante acanhada, não teve como sobreviver. Além disso, as velhas professoras já estavam precisando se aposentar depois de mais de sessenta anos de trabalho. Conta-se que nos anos sessenta, os Mesquita, proprietários do Colégio São Judas propuseram uma parceria, mas as velhinhas desconfiadas, não aprovaram a idéia.
Mais recentemente, conheci o Professor e advogado Aldo Guida que foi goleiro do antigo Palestra Itália, hoje Palmeiras, como reserva do legendário Oberdam nos anos 1940. Ele também estudou no Externato Mattoso e foi amigo de juventude do meu sogro. Foi então que ele contou-me que seu pai, conselheiro do Palestra-Palmeiras, indicou para contratação, o famoso craque Feitiço, alcunha de Luiz Mattoso, primo do meu sogro.
A Mooca tem muita história e duas esquinas adiante do Externato, ficava o lugar onde os famosos Demônios da Garoa ensaiavam os sambas do Adoniran Barbosa. É possível que também eles tenham estudado no velho prédio da Rua dos Trilhos e aprendido antigas as lições.
Hoje o nome em relevo Externato Mattoso, foi definitivamente apagado do prédio, que se transformou em uma pizzaria e a cidade perdeu mais um pouco de sua memória. As velhas professoras de tantas histórias também desapareceram e hoje elas têm como monumento apenas as calçadas pisadas da Rua dos Trilhos. Uma pena.

Renato Ladeia
7/8/08

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Histórias de Piedade (II)

Dedo estava em novas atividades no banco. Agora era um inspetor de financiamento rural e seu trabalho consistia em visitar os clientes do banco para verificar se estavam aplicando corretamente os recursos. Pegou a pastinha com a relação dos clientes a serem visitados, subiu na motocicleta e saiu para mais um dia de trabalho. As estradas vicinais são difíceis, mal conservadas e sem nenhum tipo de sinalização ou indicação. Para localizar as pessoas nos sítios era preciso ir perguntando para quem encontrava pelo caminho. Muitos dos clientes são conhecidos por apelidos, o que torna a tarefa ainda mais difícil. Um tal de Antonio José dos Santos foi muito difícil de achar. Ninguém conhecia o homem até que um senhor se lembrou e disse:
- Deve ser o Toto do Titico. Ele mora lá em riba.
Chegando lá encontrou uma senhora de meia idade varrendo o quintal em frente a casa. Estava tão concentrada em seu trabalho que nem percebeu a moto chegar. Ela parou de varrer e apoiando as mãos na vassoura cumprimentou o visitante.
- Bom dia!
- Bom dia, minha senhora! É aqui que mora o senhor Antonio João dos Santos?
- Não senhor, aqui não mora não...
- Será que eu me enganei? Um senhor da venda me disse que ele mora aqui, disse o Dedo surpreso com a resposta.
- Não... não conheço não; repetiu a senhora.
- Me falaram que o apelido dele é Toto do Ti...
- Ah! É o Toto do Titico, filho meu moço! Respondeu a senhora surpresa.
- Mas como? A senhora não sabe o nome do seu filho? Disse o Dedo espantado e sorrindo para não deixá-la constrangida.
- Ah! Nois aqui não se trata pela assinatura não moço. Respondeu a senhora calmamente apoiando o queixo no cabo da vassoura.
Depois de resolvido o problema, o Dedo pegou a moto e foi pensando no episódio. Ele se lembrou do livro Parceiros do Rio Bonito, escrito pelo Antonio Cândido, com base numa pesquisa na região próxima de Piedade nos anos 1940. No livro, Antonio Cândido, faz referência ao hábito da população rural não usar os nomes de registro. Ele cita um tal de Roque Lameu, que depois descobriu se tratar de Roque Antonio da Rocha que era neto de Bartolomeu da Rocha, que no linguajar caipira era Berto Lameu. Naquela época as relações eram bem informais, dispensando documentos, nomes próprios etc. Assim, bastava a palavra ou um fio de bigode que um negócio estava garantido, sem a necessidade de documentos.
Os nomes passados em cartório é procedimento recente no Brasil. O registro civil para casamentos e nascimentos só chegou em nossa terra com a proclamação da república e isso muito lentamente. Até então, a única prova de nascimento era o assento de batismo, isto é, quando a pessoa era batizada. Sabe-se que no Portugal medieval não havia sobrenomes, que só apareceram aos poucos com a utilização de apelidos de antepassados em função de profissões, topônimos, relações de dependência etc. A patronímia, ou seja, a utilização do nome do genitor continuou aqui no Brasil. Isso explica o caso do Toto (apelido de Antonio) do Titico (que poderia ser seu pai, seu avô ou mesmo o sogro).
Assim, na vida simples do interior, onde as relações pessoais não dependem de status ou identidades marcadas pelo sobrenome de família, as pessoas dão pouca importância a isso. Diferentemente dos povos europeus, aqui no Brasil, as pessoas não são denominadas pelos nomes de família, mas pelo pré-nome. Como escreveu Sergio Buarque de Hollanda em Raízes do Brasil, preferimos o tratamento mais informal, que revela uma intimidade que muitas vezes não temos com as pessoas. O José de Souza para nós não é o Sr. Souza, mas simplesmente o Zé ou Zezinho. É o nosso jeito, mesmo nas cidades em que as pessoas conhecem as “assinaturas”.

Renato Ladeia

Histórias de Piedade I

Histórias de Piedade

Murilo deu um bocejo e sentiu que já estava passando da hora de fechar a bodega. Fazer as contas, pegar o caminho de casa e descansar para mais um dia de labuta. Já ia pegando a chave quando entrou um velho com uns setenta e poucos anos. O homem chegou meio cambaleando e parou no balcão. Tirou o chapéu e pediu um café bem forte. O Murilo pensou com seus botões, mais essa agora... Na horinha de fechar. Café até que tinha um restinho que havia sobrado, mas servir, sujar copo e ainda agüentar conversa de bêbado? De jeito nenhum.
- Não tem mais café não meu amigo. Acabou.
O homem fez de conta que nem ouviu a resposta do dono do bar e emendou em seguida um novo pedido:
- Então o senhor me faz um misto quente com bastante queijo.
O Murilo já foi perdendo a paciência de Jô e, pedindo desculpas, disse que a chapa já estava fria e que não dava para fazer o lanche não. Bem agora o homem vai embora e eu posso fechar as portas, pensou. Ledo engano, o velhinho não desistiu e mandou outro pedido:
- Me vê então uma coxinha e pronto!
- Eu outra vez vou pedir desculpa pro senhor, mas os salgadinhos acabaram... Respondeu o Murilo já ansioso para encerrar a conversa e fechar o bar. O velhinho olhou bem para o Murilo, passou os olhos pelas prateleiras e disse:
- Ta bom, eu vou embora, mas me responde uma coisa seu moço: Aqui não é bar?
Depois dessa o Murilo ficou sem saber se ria ou chorava. Pensou duas vezes e respondeu calmamente:
- Não senhor, isso aqui é uma farmácia, disse o Murilo um pouco preocupado com a possibilidade de o homem perder a calma.
- Ah! Eu bem que desconfiava; respondeu desanimado. Pegou o chapéu de palha e seguiu o seu caminho.
Lá fora a lua estava bonita e a noite prometia ser fresca e clara. Ao trancar a porta olhou para a estrada e ainda viu o homem caminhando em ziguezague. A gente vê cada uma neste mundo de Deus! Pensou em voz alta o Murilo. Cansado e precisando de um bom banho para relaxar, também pegou a estrada e foi seguindo a lua nova que brincava faceira de se esconder pelas colinas da cidade.
Chegando em casa ainda tomou um gole de uma cachaça especial que ganhou de um amigo que trouxe de Minas, não sem antes ouvir a mulher reclamar. Tomou um banho demorado e resolveu contar o acontecido para a patroa.
Terminando de contar o causo, começou a rir sozinho como uma criança. A mulher deu de ombros e perguntou: “Uai que graça tem isso, sô?” Pois é Murilo, têm histórias que só vendo e ouvindo pra rir. Contando assim não tem graça não. E o Murilo foi dormir lembrando do velho.

Renato Ladeia