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terça-feira, 13 de setembro de 2011

O VELHO ADONIRAM


Adoniram Barbosa ou o João Rubinato nasceu em 1910, na cidade de Valinhos, interior do de São Paulo e mudou-se para Santo André no ABC paulista em 1924, onde passou alguns anos trabalhando como operário e biscateiro antes de ir para o bairro do Bexiga que o revelou para o país e talvez para o mundo. Estaria com cem anos se vivo ainda estivesse. Ainda bem, pois já imaginaram a aporrinhação em cima do sambista? Entrevistas para a televisão, rádio, jornais, revistas e curiosos. O genial velhinho ficaria de saco-cheio e provavelmente todo esse assédio não lhe renderia nenhum trocado para aliviar o seu orçamento. Por isso ele desabafou certa vez quando lhe perguntaram como se sentia sendo tão homenageado: “Homenagem não paga as contas”.

E por falar em homenagens, são várias que estão pipocando por aí para lembrar o maior sambista paulista, que com a sua irreverência, resolveu desmentir o Vinicius de Moraes que teria dito que São Paulo era o túmulo do samba. Com o samba Trem das Onze, ganhou um festival de samba no Rio de Janeiro, em comemoração ao IV centenário da cidade. O Vinicius teve que levar para o túmulo a fama de agourento da nossa paulicéia desvairada. Pessoas famosas não podem falar coisas que possam comprometê-las no futuro. Quem não se lembra do Gerson e aquela propaganda odiosa? Pois é, o publicitário bolou uma campanha e sobrou para o jogador o ônus de carregá-la nos ombros até o final dos seus dias.

E por essas e outras fui assistir ao show do Carlinhos Vergueiro, acompanhado pela “cara-metade” e o amigo sambista e compositor Zeca da Silva, na cidade de Santo André, onde o Adoniram morou alguns anos. Esperávamos a casa cheia e por isso tratamos de chegar cedo para evitar a disputa indesejável de poltronas com pessoas mal educadas. Qual o quê! Uma platéia quase vazia aplaudiu e vibrou com o velho e bom sambista Carlinhos Vergueiro, dono de uma vitalidade incrível, que cantou e contou histórias sobre o homenageado, com o qual conviveu e se tornou parceiro em alguns sambas. Numa delas, ele relata outra versão da história da letra de Iracema. Segundo ele, o Adoniran estava caído por uma moça que não lhe dava a menor chance. Desiludido, avisou a tal que iria matá-la (simbolicamente, é claro) compondo o samba em que sua diva morre atropelada.

Adoniram foi mais do que um sambista, foi também um cronista da Paulicéia. Vivendo e circulando entre os bairros do Bexiga, Mooca e Brás, ele captou o jeito típico do paulistano boêmio, gozador e também sofredor. Com letras simples e usando um português muito distante do idioma de Camões, repleto de italianismos e erros de concordância, ele conquistou o coração dos paulistas e também dos imigrantes. São histórias do homem comum, do trabalhador, do desempregado, do sem teto, que busca sobreviver na grande capital. Saudosa Maloca, que retrata o eterno problema de moradia com as invasões de espaços públicos e particulares pelos sem-teto, revela uma crítica social, mas também um conformismo diante do sistema econômico. Os velhos palacetes assobradados abandonados ainda existem e de vez em quando lemos nos jornais que foram invadidos ou desocupados à força. O edipiano Trem das Onze que passava no Jaçanã apenas para rimar com amanhã lembra o problema do transporte público na maior cidade do país e se tornou a música símbolo dos paulistanos. A Iracema que morre atropelada por atravessar na contramão é mais uma cena do cotidiano paulistano, com os milhares de atropelamentos, interrompendo vidas de crianças, jovens e adultos de uma forma violenta, deixando rastros de tristezas e saudades.

Mas há outra história sobre a carreira de Adoniran Barbosa, contada pelo Walter Silva, o “Pica-Pau”. Adoniran era bem diferente daquela figura brincalhona, irônica e engraçada que conhecemos. Teria sido um sujeito mais sério, que cantava músicas de Noel, como Filosofia, que ele defendeu num programa de calouros. O Adoniran que fez sucesso na paulicéia e depois no Brasil foi criado pelo produtor Oswaldo Molles para um programa de rádio nos anos cinquenta. O personagem foi o “Charutinho”, que ele incorporou até o final dos seus dias. Walter Silva ainda afirmou que o português errado dos sambas foi, muitas vezes, obra dos “Demônios da Garoa”, que imprimiam um tom humorístico às suas músicas.

Adoniran, com português errado propositalmente ou não, deixou sua marca no samba e na cultura paulistana. Até hoje muitos cariocas acreditam que os paulistas falam como nas suas canções; mas mesmo sendo um descendente de italianos meio acaipirado, colocou a paulicéia no panteão do samba. E sobre falar errado, é dele a frase: “A pessoa, pra falar errado, precisa saber falar errado. Se não souber é melhor não falar errado”.

Renato Ladeia













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A PRIMEIRA TELEVISÃO





A primeira televisão a gente nunca esquece, não é mesmo? É evidente que eu me refiro àquelas pessoas com mais de cinqüenta anos que viram o aparelhinho entrar pela primeira vez em casa. Meus pais resistiram muito em comprar uma TV por acharem que o rádio já estava ótimo. Além disso, os aparelhos da época ficavam mais nas oficinas de conserto do que na sala de visitas. Isso era visível quando o carro da Eletrônica Kodama parava em nossa rua para levar ou trazer aparelhos com problemas. O japonês era o melhor técnico da praça, pois consertava tão bem os aparelhos que ficavam funcionando até três meses, o que era um recorde. Naqueles tempos ter uma televisão significava ter mais um filho para sustentar.
Uma senhora que morava em frente à nossa casa comprou a primeira TV da rua e como tínhamos uma intimidade maior com ela, eu e meu irmão mais novo íamos lá assistir o Zorro, A turma do Sete e até o Alô Doçura, com o John Herbert e a Eva Wilma. Programão! E foi por causa da televisão da vizinha que meus pais resolveram comprar uma também, pois detestavam que a gente fosse à casa dos vizinhos para incomodá-los. A nossa primeira foi uma Invictus, uma perfeita bomba se considerarmos os padrões de hoje. Em todo momento ela desregulava e precisávamos ficar girando os botõezinhos da vertical e da horizontal. Normalmente na melhor parte do filme ou programa, a faixa horizontal disparava.
Havia também a disputa por programas. Meu pai adorava o telecatch aos sábados e a garotada preferia, obviamente, o Bonanza, um faroeste sobre uma família de fazendeiros que fez muito sucesso nos anos sessenta. Era o máximo, desde que meu pai não ficasse com o saco-cheio da lengalenga do Bonanza e resolvesse dar uma espiadela na luta livre. Era um saco. Ninguém saía da sala  por uma questão de respeito ao velho, mas que dava vontade, isso dava.
Lá em casa se ouvia falar sobre a televisão há muito tempo, mesmo antes das primeiras aparecerem no bairro. Meu avô falava nela desde os anos quarenta, quando leu umas notícias numa revista estrangeira que ele assinava. Meu pai contava que quando ele falava sobre a televisão o pessoal do interior pensava que ele tinha ficado louco. “Onde já se viu ver as pessoas de longe? Isso é coisa de velho caduco”. Meu amigo Sinézio Dozzi Tezza contava que em Descalvado o prefeito colocou um aparelho na praça para o povo assistir e ele com seus amigos subiam numa árvore e ficavam assistindo com os olhos fixos no aparelho. Para espantar “coisa ruim” eles faziam figa nos dedos, pois os mais velhos diziam que era coisa do demônio.
Mas a televisão, apesar das suas múltiplas vantagens em termos de lazer e informação, acabou destruindo uma extensa rede social. Os gibis foram perdendo o seu glamour, já que podíamos ver os nossos heróis diretamente na telinha, “vendo a vida mais vivida, que vem lá da televisão”, como diria o poeta. Nossos vizinhos sempre apareciam durante a semana ou no final para um cafezinho e falar de política ou sobre os últimos acontecimentos. Com a telinha se espalhando pelo bairro, os contatos diminuíram tanto que as pessoas mal se falavam. A televisão isolou as famílias no aconchego dos lares. O cinema do bairro, aos poucos foi perdendo o público e isso aconteceu também depois com os cinemas centrais. A conversa quando se encontravam não era mais sobre a família, as novidades, as receitas, as viagens. Os assuntos mais importantes vinham lá da televisão. A imagem passou a ser mais importante do que a realidade.

Renato Ladeia