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sexta-feira, 9 de julho de 2010

O BAR DO XANDÓCA





O velho Thenório, com os seus cabelos brancos encaracolados e seu sorriso simpático, pitava o seu cigarro de palha e de vez em quando tomava um trago de cachaça à base de pitanga, que ele mesmo preparava. Sentado ao lado da lareira, observava o movimento dos cães e das pessoas que circulavam pela casa, quase sempre com visitas que vinham para ouvir os seus velhos causos ou ouvi-lo tocar violão e cantar as suas belas canções. “As canções são eternas. Depois que caem no domínio público, alcançam a eternidade. A mesma sorte não tem a literatura e tampouco a pintura. A pintura é efêmera como os bambus”, dizia para uma pequena platéia atenta e interessada em ouvir os seus comentários.
Ao falar sobre pintura, uma mulher que o visitava e que estava olhando um pequeno quadro na parede, perguntou: “Onde o senhor conseguiu este quadro?”. Era uma pequena pintura a óleo de um velho amigo que há tempos não via e nem sabia se ainda vivo estava. Thenório levantou-se e reviu o quadro empoeirado e já desgastado pela umidade e pelas traças. Demorou-se para se lembrar do quadro e sobre o que representava. A memória já um pouco fraca, foi aos poucos emergindo em meio ao emaranhado escurecido da poeira do tempo. Era um antigo bar de beira de estrada, com duas portas pequenas e propagandas de antigas bebidas estão na parede desgastada pelo tempo. Era possível ver traços de pessoas na porta e dentro da bodega. O estabelecimento pertencia ao Xandóca, um caiçara que viveu na Barra do Una e era onde ele e sua antiga turma de estudantes acampavam pela praia ainda pouco frequentada do lugar. Lá o Saulo de Tarso, um talentoso cantor e instrumentista, tocava violão e a turma cantava belas canções até o dia amanhecer. Viajavam para lá em fins de semana prolongados e se esqueciam da vida, das responsabilidades, dos empregos, das dívidas, dos trabalhos escolares e de horários. Lá se vivia numa liberdade total, pelo menos até o dia do retorno, quando era preciso pegar a estrada e voltar para a neurose como se dizia na época.
Thenório viajou através do quadro e recordou-se do Xandóca, do Catraca, do Heitor, do Paco, todos personagens da Barra. A turma de estudantes era muito grande e nem sabia se todos ainda estavam vivos. Mas quando já estava começando a sentir nos pés o calor das areias claras da praia, a mulher o chamou à realidade para perguntar se ele conheceu o Xandóca, pois era seu primo e sua mãe havia nascido lá. Ela mesmo morou na Barra quando criança e naqueles tempos ia para lá a cavalo com sua família para visitá-lo, pois moravam numa cidade não muito distante do litoral. O velho Thenório ficou comovido e algumas lágrimas brotaram dos seus olhos maltratados pelo tempo. “Pois é, dona, não só conheci o bar como também o Xandóca, que vendia cerveja e cachaça fiado para gente. Fizemos muito partido alto para aquele caiçara. Esse quadro foi pintado por um dos amigos que ia para lá sempre com a gente. Não pintava por profissão, mas apenas para registrar alguns momentos da vida”, disse Thenório.
A mulher sentiu-se feliz ao rememorar com o anfitrião as velhas histórias da Barra do Uma, uma vila de pescadores que tinha seus encantos, com as casas simples, de paredes caiadas que faziam doer os olhos, as quais conviviam com algumas mansões a beira da praia. O bar do Xandóca era mais povão, muito simples e era utilizado pela população nativa e campistas. A mulher sentiu-se feliz por estar mais próxima do velho Thenório e por ter compartilhado pessoas, paisagens e acontecimentos que para ela pareciam tão distantes.
Com essa história, o velho Thenório refletiu que não somente as canções são eternas. As imagens também podem ser, mesmo que vivam apenas na memória das pessoas. Um pequeno quadro, sem grandes qualidades artísticas, foi capaz de resgatar velhas lembranças e unir pessoas que pareciam tão distantes. O pincel como a pena, são a lingua da alma, como diria Dom Quixote.
No dia seguinte ele tratou de limpar o quadro, por uma moldura nova e colocá-lo num lugar de destaque em sua casa. Queria que o quadro fosse visto todos os dias para não esquecer mais da querida turma e assim alimentar sua alma com as boas lembranças que o velho bar do Xandóca trouxe para suas retinas fatigadas. Quanto ao pintor, passou a madrugada tentando localizá-lo, mas os endereços e telefones mudaram. Quando os primeiros filetes de luz começaram a invadir sua casa ele percebeu que o tempo havia passado e teria que se contentar apenas com as velhas recordações, um quadro na parede e o aperto no coração que parecia doer, mas era de alegria.

Renato Ladeia