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quinta-feira, 27 de março de 2008

O ESTRANGEIRO
Quando eram soberanos, ao alacufes eram chamados os “Homens”. Depois, os brancos os designaram com o nome com que eles designavam os brancos: os estrangeiros. Passaram a chamar-se entre si de “estrangeiros”. Em sua própria língua. Enfim, nos últimos tempos, eles se chamaram alacufes, a única palavra que ainda pronunciavam diante dos brancos, o que significa “dá, dá” – só eram designados pelo nome de sua mendicância. Primeiro, eles próprios, depois estrangeiros a si mesmos, enfim ausentes de si: a trilogia dos nomes reflete a exterminação (BAUDRILLARD, 1990:141 e 142)

Os recentes episódios de deportação de brasileiros que tentavam desembarcar na Espanha merecem uma reflexão mais profunda da estrangeiridade. O problema não é recente na Europa e tampouco na Espanha. A diferença é que os barrados foram jovens mestrandos, de classe média, diferentes dos milhares que saem do Brasil a procura de novas oportunidades. O estrangeiro é bem vindo quando não ameaça o status-quo, não rouba os nossos empregos, as nossas mulheres, não invadem os nossos cinemas e restaurantes. Quando passam a incomodar começamos a vê-los como os Outros, os de fora. É exatamente isso que está acontecendo na Espanha. O mais interessante é quando todos, independentemente de serem brancos negros ou mestiços, passam a incorporar o Outro indesejável, aquele que incomoda. Para os policiais da imigração não há diferença. Todos os brasileiros são iguais, são prostitutas, garotos de programa, marginais etc. Tudo vai depender do seu olhar revelador. Ai se dá um processo de racialização do diferente e a questão étnica deixa de ser importante. O problema passa a ser cultural (o jeito de ser, o sorriso, a fala, a roupa etc.).
A estrangeiridade é uma idéia fundamentada na percepção do Outro, o estranho, aquele que se encontra fora do seu espaço original. O estrangeiro, aquele que veio de outro lugar que não o nosso, sempre representou no imaginário humano, uma ameaça à paz, a segurança, às crenças, valores, à família e a propriedade. Por essa razão o estrangeiro representa algo perigoso, que deve ser evitado, mantido à distância. Todos nós passamos por estrangeiros em algum momento da vida, mesmo como um viajante, um visitante ou um turista.
Ser estrangeiro é estar em outro lugar que não o seu lugar de origem e não basta, às vezes, estar no seu lugar de origem se não foi também de seus antepassados. “O estrangeiro vem de outro lugar e nunca está onde estamos, não pertence ao nosso horizonte e não aparece em nenhum horizonte representável, de forma que o invisível seria o seu lugar ” (BLANCHOT, 1969:99).
Somos ao mesmo tempo todos estrangeiros, mesmo na nossa própria comunidade. Somos “estranhos” por pertencermos à outra classe social, a outro bairro, a outra cidade, a outro Estado, a outra religião. Até mesmo o outro sexo é estrangeiro.
“Todavia, ninguém pode realmente ser estrangeiro, salvo na miragem criada pela segregação” (GOLDEMBERG,1998), pois pertencemos a um mesmo planeta, a uma mesma espécie e nenhum povo pode se arvorar como nativo de uma região, de um país, mesmo que seus antepassados o tenha ocupado por centenas ou milhares de anos. No caso dos negros brasileiros que a partir de uma grande diáspora desencadeada pelo tráfico de escravos, milhões deles foram arrancados das entranhas de suas terras onde seus antepassados viveram, sendo despejados numa outra terra distante, onde tornaram estranhos, com outros estranhos, apesar da mesma cor de pele. Conviveram com outros estrangeiros africanos, cujos idiomas, religiões, hábitos e costumes também não conheciam. Tornaram-se todos, independentemente das etnias, em “Outros” numa terra que não era de ninguém e tiveram que construir uma nova identidade com base na cor e no que restou na memória, da cultura dos seus ancestrais.
Considerando que todos vieram de fora, o Brasil é um país de estrangeiros. Todos são estrangeiros e essa percepção se aplica, por mais paradoxal que possa parecer, também aos nativos indígenas que vieram para a América há pelo menos 10.000 anos atrás. Entretanto, entre os estrangeiros que habitam esse país, há um dominante, hegemônico, que controla os mecanismos de poder, incluindo a cultura e a ideologia. O “estrangeiro” branco. Como aqui todos são estrangeiros, não existem os nativos, os autóctones. Os nativos reais foram, ou dizimados, incorporados e depois simbolicamente expulsos e transformados em estrangeiros em sua própria terra, ou pelo menos a terra em que eles estavam há alguns milênios. Essa transformação do nativo em estrangeiro se estabelece em razão da posição hegemônica do invasor, que ocupou, não somente o espaço geográfico, como também o espaço das relações políticas e sociais e conseqüentemente o poder, através dos mecanismos do aparelho de Estado e conseqüentemente da política. Os episódios recentes de assassinatos de indígenas em grandes cidades brasileiras por jovens de classe média, representam a exacerbação do desejo de destruir o outro de forma violenta. Eles são os “Outros”, apenas índios, não humanos. Eles são os “Outros” que devem ser eliminados.
Nem sempre o estrangeiro é apenas isso, ele também pode ser o retrato do fascínio, daqueles a quem atribuímos um certo heroísmo mítico pela sobrevivência na ruptura de uma relação com um Estado, uma nação, um espaço geográfico. No Brasil o estrangeiro é visto sempre com alguém especial, até superior em certos aspectos, pois fala uma outra língua “superior”, tem uma cultura que é venerada e não são mestiços... “O estrangeiro pode ser tanto o Outro inimigo – que pode ser imigrante, árabe, nordestino, negro ou judeu, dependendo da cultura e da época – quanto àquele que fascina por ter sobrevivido à separação” (KOLTAI, 2000:17).
O termo estrangeiro na sua construção histórica, nem sempre teve o mesmo significado que atribuímos hoje para aqueles que vêm de fora. Até o século XIV, na França, era chamado de estrangeiro algo fora do comum, incompreensível. A conotação política de “estrangeiro” para atribuí-la a alguém que vem de fora é mais recente. O termo, como um conceito sociológico, antropológico e mesmo psicanalítico, pode ter conotações diferentes daquilo que chamamos senso comum, utilizado pelas pessoas no cotidiano. Estrangeiro sempre se refere a alguém que vem de outro lugar, que não está em seu lugar de origem. Ele pode ser bem-vindo, mas também pode ser expulso, caso não se comporte adequadamente aos padrões estabelecidos no país que o adotou (KOLTAI, 2000).
É possível admitir que sem atribuir ao “Outro” a condição de estrangeiro não se pode pensar em racismo, pois a gênese desta ideologia está historicamente ligada a forma como atribuímos ao “Outro” uma condição social e política. Castoriadis (1990) lembra que a construção do “Outro” como estrangeiro, ou de fora, aparece, de forma escrita, pela primeira vez, no livro sagrado do povo judeu.
Castoriadis (1990) atribui a discriminação do “Outro”, não ao povo judeu em si mesmo, mas a toda a humanidade. Não foram os ocidentais que inventaram o racismo. Para ele, o racismo nasce com a própria humanidade. O texto do Antigo Testamento deixa explícito que os de fora devem ser eliminados e isso se aplica a todos, incluindo as crianças, pois o “Outro” não pertence a nós e todos os que não fazem parte não devem existir. A eliminação das crianças e mulheres tem o significado mais profundo do que a violência contra os indefesos, pois tem como objetivo “cortar o mal pela raiz”, não deixar “pedra sobre pedra”, enfim impedir qualquer possibilidade de que possam renascer das cinzas, como Phoenix. A segregação do outro como algo ruim, perigoso e ameaçador, está na base do surgimento do discurso racista.
No Brasil se observa a aceitação quase automática dos estrangeiros de fora como seres acima do bem e do mal, enquanto colocamos os compatriotas (os estrangeiros de dentro) numa posição de inferioridade em relação a eles. A situação legal, constitucional, de que todos são iguais (brasileiros), não tem um sentido prático, concreto, nas relações sociais e políticas. Essa situação apenas se manifesta simbolicamente em eventos esportivos, quando todos os brasileiros “vestem a mesma camisa”, independentemente se são brancos, negros, índios ou mestiços. São todos brasileiros enquanto uma identidade nacional, somente enquanto capazes de “esmagar” o “Outro” através do esporte, conseguindo o gozo através da humilhação do estrangeiro.
A identidade entre os brasileiros é bastante frágil e essa condição se deve, em tese, a multiplicidade cultural e étnica e, especialmente, porque todos são metaforicamente estrangeiros. Por isso é comum um branco (ou visto pelos outros como tal) se indagado sobre sua identidade, responder como sendo: português, italiano, alemão, espanhol etc. Até aquele antepassado distante de cinco ou mais gerações atrás, é resgatado para compor a identidade, principalmente se for européia.
Entretanto, a partir do momento em que existe a possibilidade de emergirem como indivíduos, como humanos, passam a incomodar, a representar um risco, uma ameaça para aqueles estabelecidos, acomodados a uma situação de dominação do “Outro”. Uma população composta de indivíduos percebidos como intrusos, tentará se assimilar, mas ela se torna objeto de repulsão e gerará a vontade de destruir. O exemplo de Enriquez (1994) com relação ao extermínio de judeus na Alemanha nazista, ajuda a explicar esse raciocínio, pois isso não poderia ocorrer se eles não tivessem sido assimilados ou em vias de ser, principalmente porque eles tinham funções de responsabilidade na indústria, nas finanças, no sistema jurídico, no meio acadêmico
Mas para o racismo, o outro é inconvertível. Vemos imediatamente a quase necessidade do escoramento do imaginário racista em características físicas (portanto irreversíveis) constantes, ou assim supostas (CASTORIADIS, 1990:37). Aí não importa se as características físicas são realmente relevantes. Qualquer detalhe é ampliado e adquire conotações absurdas e irracionais para justificar a diferença. Todorov (1990) estabelece a distinção entre racismo e racialismo, sendo o primeiro um comportamento antigo e de extensão provavelmente universal; o segundo é um movimento de idéias nascido na Europa ocidental e é apresentada como um conjunto coerente de proposições, que se encontram todas no “tipo ideal” ou versão clássica da doutrina.
Ele explica que para o racialista as raças não são simplesmente grupamentos de indivíduos com aparência semelhante. Ele postula, em segundo lugar, a solidariedade das características físicas e morais; em outros termos, à divisão do mundo em raças corresponde uma divisão por culturas, igualmente bem definida. O racialista afirma que as diferenças físicas determinam as diferenças culturais, neste sentido a transmissão hereditária do mental implica na impossibilidade de modificar o mental pela educação. Nesta linha de raciocínio não há qualquer possibilidade de convencimento, de convertibilidade do “Outro”, pois há um determinismo explícito. Ao odiar o “Outro” pelo que ele é e não havendo o desejo de convertê-lo para si, só resta a sua eliminação. Porém, isso não se faz de forma real, concreta, mas num outro plano, através da negação do direito a ter direitos e, em última análise, o direito de desfrutar da cidadania. No racismo, o mais grave, mais abominável é o fato de que se odeia alguém pelo que esse alguém não é responsável: o seu “nascimento”, ou a sua “raça” (CASTORIADIS, 1992:36).
O racismo surge a partir das diferenças, sejam elas concretas, visíveis ou também imaginárias. Essas últimas são socialmente construídas a partir dos estereótipos, da ameaça que o “Outro” pode representar. Não há uma lógica, uma racionalidade com relação a essas diferenças. “Se um racismo latente é descoberto em todas as sociedades em cada indivíduo é porque ele se articula sobre uma primeira diferença entre o “homem” (membro da comunidade) e o estrangeiro que fascina e que inquieta por sua própria estranheza” (ENRIQUEZ, 1994:104).
Enfim, os estrangeiros estão em toda parte. Eles são os nossos vizinhos, os nossos companheiros de trabalho, os nossos colegas nas escolas; estão nos clubes, nas igrejas, nos restaurantes etc. Quando eles são vistos não apenas como diferentes, mas como aqueles pelos quais as pessoas procuram evitar que acessem os seus empregos ou que possam progredir em função da cor ou de outro atributo, estamos diante do racismo, expresso, não apenas através do preconceito, mas também de ações que viam humilhá-los, prejudicá-los, enfim destruí-los..
Enfim, é preciso contar a história dos alacufes da Terra do Fogo que foram aniquilados sem mesmo terem tentado entender os brancos, falar ou negociar com eles. Durante três séculos de convivência, eles ignoraram os brancos não adotando as suas técnicas, continuaram remando com suas velhas canoas. Eles foram dizimados pelos brancos, mas foi como se não existissem. Nunca foram assimilados, nem sequer atingiram o estádio da diferença. Morreram sem mesmo ter dado aos brancos a honra de reconhecê-los como diferentes. Eram irrecuperáveis. Em compensação para os brancos, eles eram os “outros”, seres diferentes, mas humanos, o suficiente em todo o caso para que fossem evangelizados, explorados e, por fim, liquidados (BAUDRILLARD).
FLAVIO VIEIRA DE SOUZA


Encontrar o Prof. Flávio pelos corredores da FEI era sempre surpreendente. Tinha sempre um repertório novo de anedotas que contava como se fosse um adolescente e soltando sonoras gargalhadas. Ria de modo a ouvir-se de longe, brincava com ele parodiando o poeta português Fernando Pessoa.
Além das anedotas, gostava também de poesias e em uma oportunidade me parou no corredor para declamar um longo e pouco conhecido poema de Pessoa. A sua memória era prodigiosa lembrando e saboreando cada verso, cada palavra como se estivesse lendo.
Era sempre o mestre de cerimônias dos eventos da instituição, encerrando os trabalhos com humor e graça, fazendo trocadilhos espirituosos e inteligentes ou mesmo transformando em anedotas algum fato recente.
A última vez que nos vimos, estava muito pálido e já falava com dificuldade. Conversamos alguns minutos e percebi que as suas forças estavam se esvaindo, mas continuava irônico e brincalhão. “Só dói quando eu rio”, teria dito antes de nos despedirmos. Provavelmente sentia dor sempre porque continuava brincando e rindo da vida, apesar dos seus graves problemas de saúde. A doença há alguns anos, vinha consumindo a sua vitalidade, mas como era um homem otimista e de muita fibra, não se deixava abater e continuava a sua jornada encarando a vida como uma missão que deve ser cumprida até o último minuto.
Nesta madrugada seu corpo não resistiu ao longo sofrimento e deixou a vida e muita tristeza para todos que o amaram e que tinham sempre o conforto de sua alegria e sabedoria. Sua sala estará vazia, mas os seus livros estarão esperando por quem os leia novamente e dêem vida às palavras frias espalhadas por milhares de folhas de papel. Grande parte do que leu estará lá na sua estante, mas cada novo leitor reconstruirá seu conhecimento do seu modo, diferente do jeito dele de ser, de interpretar o mundo, o passado e o futuro.
Enfim, o mundo não se repete e os homens e mulheres também não. Ao partir para a sua última viagem em outra dimensão, o nosso querido professor Flávio deixa muitas saudades, mas também bons e alegres momentos dos quais nos relembraremos enquanto durar a centelha de nossa breve passagem pelo planeta azul que não será o mesmo depois dele. Alguma coisa mudou.

Renato Ladeia
16 de março de 2008

domingo, 9 de março de 2008

CRISE GEOPOLÍTICA NA AMÉRICA DO SUL

A crise na América do Sul, mesmo depois de ser apaziguada, ainda deixa algumas questões que precisam ser respondidas com urgência. Uma delas é porque o Hugo Chaves se apressou em ampliar o conflito para que ganhasse dimensões maiores do que realmente tinha. Uma das hipóteses mais veiculadas entre os comentaristas seria que Chaves precisa urgentemente de um fato novo para desviar a atenção sobre a crescente crise econômica na Venezuela. A velha tática de que um inimigo externo pode reduzir o impacto de inimigos intermos poderosos como a inflação em alta, desemprego, produção em declínio, enfim, descontentamento generalizado. Outra hipótese é que o caudilho venezuelano tem projetos muito mais ambiciosos do que pode pensar nossa vão filosofia. A guerra enfraqueceria o estado colombiano, deixando-o a mercê das FARC que poderia desencadear um processo revolucionário, destituindo o governo institucional de Uribe. Dessa forma, Chaves já teria dado o primeiro passo para a instituição da República Bolivariana, incluindo a Venezuela, Colombia e Equador. Fica faltando a Bolívia, que estaria desconectada do vice-reinado bolivariano. A saída poderia ser a reivindicação de forma mais contundente de parte do território brasileiro que o Morales considera pertencente ao povo boliviano, trocado por um cavalo pelo ditador de plantão.
Outra questão que merece resposta, é a presença de tropas das FARC em território equatoriano sem nenhum tipo de represália. Como admitir a presença de um acampamento com mais de cinquenta soldados com todo equipamento militar e de comunicação? O Equador é um estado de pequena dimensão, comparado com os demais países do entorno, o que tornaria fácil detetar e expulsar os invasores. A presença do grupo terrorista no Equador não é novidade e é bem possível que tenham tido o alvará do governo Correa.
Após o ataque, Rafael Correa se apressou em conseguir apoio político e diplomático dos países vizinhos para referendar sua decisão de transformar o episódio em uma profunda crise geopolítica. Felizmente Chile, Argentina e Brasil procuraram manter o bom senso, evitando colocar mais lenha na fogueira. Por que Correa não procurou resolver a crise exigindo do governo equatoriano respostas prontas sobre o problema e partiu para a retaliação verbal pura e simples? E as provas encontradas no acampamento que deixam visível a existência de relações políticas entre as FARC e os governos venezuelano e equatoriano? Pode até ser que essas provas não existam, mas e se existirem? Qual seria o tratamento que deveria ser dado pela ONU para governos que abrigam grupos terroristas que ameaçam um país vizinho em seu território? Não seria um atentado gravíssimo à soberania de um país vizinho?
E a Venezuela, realmente está empenhada na ação humanitária de resgate das vítimas de sequestro na Colômbia ou está simplesmente utilizando este fato para criar e justificar uma liderança continental? Qual é a explicação da corrida armamentista que está se processando na Venezuela? Apenas para defesa ou existem objetivos subreptícios?
Acredito que a crise é muito mais ampla do que parece. Questões de geopolítica com a exumação do cadáver do velho mito bolivariano pode  explicar esses movimentos, cada vez mais perigosos neste complicado jogo de xadrês. Será preciso muito mais do que habilidade política do governo brasileiro e sua assessoria diplomática. É preciso procurar enxergar além dos discursos recheados de velhas e superadas ideologias e tomar posições preventivas para evitar remédios amargos no futuro. O isolamento político de Chaves é essencial para o equilíbrio geopolítico da América do Sul e Central. Democracias estáveis da região como Brasil, Argentina e Chile podem dar o tom de um movimento para evitar maiores riscos para a estabilidade política.

sábado, 8 de março de 2008

A PARTIDA DO VELHO E SAUDOSO CONSTANTINO DOZZI TEZZA

Conheci o velho Constantino há mais de vinte anos. Foi-me apresentado pelo seu filho numa festa de aniversário de um dos seus netos. Era um homem esguio, de porte elegante e muito alegre. Era um ítalo-caipira, com o seu jeito sorrateiro de observar as pessoas e sugeria, ainda que não fosse fumante, estar sempre picando um fumo de corda e enrolando numa palha sem fim. Rapidamente, como se fossemos velhos amigos deu-se a me contar causos. Alguns um tanto escabrosos, como o do bando de assombrações que vivia a infernizar a vida do povo de Butiá, um vilarejo de Descalvado no interior do Estado de São Paulo, onde nasceu e morou. Contou-me a história com um sorriso maroto nos lábios, saboreando cada palavra, cada passagem, como quem come um cuscuz bem feito. “Rapaz eu nunca tive medo de assombração, mas daquela vez me arrepiei todo. Os companheiros saíram em disparada largando sanfona, violão e até as botinas pela estrada. Eu fiquei firme, segurando minha flauta. Eu não corro de vivo, vou correr de morto!”.

Constantino era um mestre contador de histórias e Butiá era seu palco preferido onde passou sua infância e juventude. Lá aconteceram os grandes bailes, as conquistas amorosas, as brigas de foice e facão e as fugas atabalhoadas pelas invernadas. Eram histórias de valentias dignas da melhor literatura de cordel.

Em todas as festas em que estava presente tomava conta da cena, pois ninguém deixava de ouvir as suas histórias e anedotas bem humoradas. No dia em que nos conhecemos falávamos da aridez da cidade, sem flores, sem campos e sem poesia, quando ele contou-me sobre as flores e as rosas que sua mãe cultivava na fazenda da família, chamada Caucaia do Alto, em Butiá. Toda a vizinhança admirava suas flores e ela sempre repetia os versinhos: “Quem não tem jardim na frente/ não vem de boa gente”. Foi assim que cresceu o Constantin, sob o olhar severo da mama e a beleza de suas flores que ele aprendeu a amar e respeitar.

A velha Butiá, como os velhos amigos, aos poucos também vai desaparecendo, ficando apenas um quadro esboçado na parede da casa do Sinésio, filho do Constantino, mas continua arranhando nossos corações com velhas lembranças. Quando lá estive, há mais de vinte anos, fiquei imaginando um bando de rapazes tocando e cantando pelas estradas para espantar o medo atávico de assombrações. E na minha imaginação o nosso querido Constantino estava entre eles, rindo e assustando os demais com seus causos do além.

E foi pra lá que ele voltou, graças ao filho pródigo que cumpriu o último desejo do pai. “Como eu não sou de pedra e algum dia morrerei, na minha Butiá, meus despojos deixarei”. Imagino que foi assim o pedido do Constantino, pois ficaria mais perto das flores de sua mãe que há tempos florescem na dimensão da poesia, dos velhos campos repletos de butiás que balançam com o antigo vento que sopra do sem fim e dos velhos companheiros de bailes e aventuras. Mas... Para terminar essas mal traçadas linhas, já que a emoção me impede de prosseguir, recorro a uns versos quase anônimos como epitáfio para o querido amigo que partiu: “Butiá, Butiá, de longe não posso chorar/ pois meu coração ficou naquele lugar”.


Renato Ladeia

NOÊMIA MOSCARDI

Passava um pouco apressado pela rua Tenente Antonio Alves, no bairro da Saúde e lembrei-me de velhos tempos. Tempos sombrios, é verdade. Estávamos em plena ditadura militar, mas isso não alterava o humor da maioria das pessoas. Os conscientes da situação pintavam o mundo de forma arrasadora, prevendo o caos que nunca chegaria. Os inconscientes ou alienados como eram chamados de acordo com o jargão da época, pouco se lixavam com a situação. Enfim, entre alienados e conscientes, o tempo passava morno e indiferente.
Essas lembranças me fizeram parar o carro e olhar para uma casa simples, com aspecto de abandono, com folhas secas espalhadas pelo quintal. Ali moravam a dona Noêmia e o seu Joanin. Entrei no túnel do tempo e divaguei em direção a casa. Lá estava a pequena horta cultivada com carinho pela dona da casa. Na verdade, se é que me lembro mesmo, era um pouco de jardim misturado com horta. No canteiro havia flores que se misturavam às pimentas, ao cheiro verde, pimentão e outras hortaliças. Aquilo tudo era motivo de orgulho para a dona da casa, que utilizava esses produtos para incrementar sua cozinha ou para oferecer aos amigos e parentes. Aliás, diga-se de passagem, ela cozinhava muito bem. Lembro-me saudoso das deliciosas lasanhas, tortas, assados e bolos que ela preparava com carinho, não somente para a família, mas também para os amigos do seu filho, que eram sempre bem recebidos com alguns quitutes, regados com o tradicional cafezinho. Ela sentia um prazer encantador em saciar o apetite de todos que por lá passavam.
Mas a viagem no tunel do tempo não para por aí. No ano novo ou Natal lá estava a turma em peso na casa dos Moscardi, onde varávamos a noite sob o som de bons sambas, chorinhos e outras bossas. A dona Noêmia, sempre atenciosa, abastecia o pessoal com seus quitutes, sempre deliciosos, e as imprescindíveis cervejas. O Joanin, que quase ganhou fama, nos seus bons tempos, como ponta direita do Palestra Itália, com seu jeitão carrancudo, deixava a festa correr e só pedia para o pessoal fechar a porta quando alguém fosse embora. Ele se retirava para o seu quarto e em pouco tempo ouvia-se seu ronco sonoro que se misturava aos sons dos violões, cavacos, flauta e pandeiros.
Tempos depois, já casado, sempre recebíamos o convite do Jorge, filho do casal, para filar um almoço dominical na casa da mama, o que fazíamos com grande prazer, não somente pelas delícias que ela preparava, como também pela sua presença alegre e simpática. “Fiz só umas coisinhas simples, não vão reparar!” Era sempre modesta ao falar dos saborosos pratos que preparava e servia com alegria. Durante o almoço, o silêncio era sempre quebrado pelo Joanin, que reclamava da ingratidão do filho com a mama: “ Ele sai por ai e não avisa e deixa essa pobre aí preocupada, sem dormir”, dizia apontando o dedo indicador curvado para a dona Noêmia. Ela ficava em silêncio e esboçava um leve sorriso, como da Monalisa.
O tempo foi passando e aos poucos fomos perdendo o contato. Sempre quando passava por ali, sentia uma vontade danada de tocar a campainha e tomar um café gostoso, passado na hora, acompanhado de um pedaço de torta que só ela sabia fazer. Qualquer dia eu paro, mesmo que chegue atrasado no trabalho, pensei inúmeras vezes. Qual o que! A vida tem sido muito corrida e não temos tempo para as coisas realmente boas da vida e nunca encontramos tempo para nada.
Um dia desses tomamos uma decisão: visitar a dona Noêmia e o seu Joanin. Pegamos o novo endereço, compramos um ramalhete de rosas, as flores que ela mais gostava, e nos preparamos para fazer a visita. Infelizmente ela estava internada com problemas de saúde e a visita precisou ser adiada. As flores ficaram alguns dias no vaso, mas o tempo foi cruel com elas como foi com a querida Noêmia, que nos deixou, leve e suave, como sempre foi.

Renato Ladeia

domingo, 2 de março de 2008

RUA DA ETERNIDADE

Passo rápido pela Rua da Eternidade. Um sacrilégio. Deveria passar por esta rua, calmamente, sem pressa, sem compromissos, leve, solto, nada nos bolsos ou nas mãos. Essa rua começa em uma pequena praça em minha cidade e termina na Estrada das Lágrimas. Não é sugestivo? Depois da eternidade, chega-se as lágrimas ou pode-se ser o inverso: depois das lágrimas à eternidade.
Quando menino eu avistava do quintal de minha casa, do alto do pé de sabugueiro, o que é hoje a “rua eterna”. Na época, era apenas um depósito de lixo da cidade e um pouco mais acima, avistava-se uma velha casa de fazenda abandonada, com muitas portas e janelas que todos diziam ser mal-assombrada. A garotada do bairro fazia apostas: quem teria a coragem de ir até lá na escuridão da noite? Todos se arrepiavam de medo e eu, só de pensar, passava noites insones. Para chegar até lá era preciso também, atravessar um pequeno matagal, que para os meus olhos de menino, era uma imensa floresta, repleta de bichos vivos e fantasmas. Aquilo tudo povoava meu imaginário de menino e eu me recolhia ao meu quarto, feliz por ter um teto protegido por minha família. Aquilo tudo parecia ser eterno, imutável. Nada mudava. Era um tempo em que as coisas andavam devagar e devagar as janelas olhavam para o mundo.
A fama da casa mal-assombrada era porque apareciam luzes durante a noite que percorriam o casarão. Na verdade, os fantasmas eram apenas mendigos ou sem-tetos, que não tendo luz elétrica, usavam lampiões ou lamparinas para circularem entre os enormes cômodos. Isso vim a saber muito tempo depois, pois até então minha mãe, laconicamente, alimentava em nossas mentes histórias do além.
Mas houve um tempo que tudo mudou por aquelas plagas. Eu também havia mudado e já não tinha mais medo de assombração (pelo menos dizia que não). E descobri, também, que o pé de sabugueiro não era tão alto e nem a mata era tão grande. O lixão virou a Rua da Eternidade, a casa mal-assombrada e seus arredores, um bairro novo e ao lado da “rua do tempo sem fim”, o Cemitério da Saudade. Era para lá que todos iriam ao fim do tempo. Meu pai, zombeteiro e cético, dizia: “Agora sim, quando eu morrer estarei bem perto da última morada, basta descer a rua que chegarei lá. Dá para levar o caixão a pé, não vai precisar nem alugar o carro funerário”. Ele ria disso enquanto minha mãe, muito religiosa, fazia o sinal da Santa Cruz e rezava um Padre Nosso para espantar os maus agouros. Meu pai não acreditava em nada depois da morte. A morte era eterna, acabava-se tudo, dizia ele convicto. Não era ateu, pois tinha a firme convicção de que Deus era um espírito poderosíssimo, mas era descrente com relação a todas as religiões.
E foi para a Rua da Eternidade que ele foi um dia. Não direto de nossa casa, mas do hospital onde ficara internado. Lá ficou exposto durante quase todo o dia, contrariamente ao que sempre desejou: um enterro rápido, sem cerimônias. O padre Ernesto foi encomendar o corpo, mesmo sabendo que o amigo era um incrédulo. Vi lágrimas nos seus olhos, pois freqüentava a nossa casa habitualmente, sempre esperando convencer meu pai a ingressar no rebanho da igreja. Foram mais de quarenta anos de proselitismo, muita conversa e poucos resultados, mas ficou uma grande amizade entre um padre e um quase incrédulo.
E a Rua da Eternidade ainda continua lá e não se sabe até quando. É possível que um dia um vereador mais afoito faça um projeto para mudar o nome para Rua da Esperança e a Estrada das Lágrimas para Estrada do Riso sob o pretexto de dar mais alegria ao povo. Enquanto isso, meu pai, da eternidade, ensaia passos de dança esperando por minha mãe, já que os dois eram notórios pés-de-valsa. Só espero que a eternidade dos dois seja a mesma, pois caso contrário haverá um desencontro no tempo infinito que somente poderá ser corrigido em alguns trilhões de anos-luz.

Renato Ladeia