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terça-feira, 20 de maio de 2008

As Isabellas são mais comuns do que se pensa.



A tragédia de Isabella Nardoni, longe de ser um caso excepcional em que o pai e a madrasta podem ter trucidado a garota, não é nada absolutamente novo em nossa sociedade. Somente nos últimos dias vieram à tona vários casos de crianças assassinadas, agredidas ou torturadas dentro de casa aqui e no mundo. Então por que tanta celeuma em torno do crime? Parece-me que o caso ganhou tanta projeção apenas por se assemelhar a um folhetim policial ou uma novela da Rede Globo. Todo mundo desconfia do casal, mas eles não confessam e alegam inocência. Ai gera a expectativa de que num determinado momento eles vão confessar o crime. Cria-se uma torcida e há inconscientemente o desejo de todos para que confessem publicamente que foram os autores da tragédia. A polícia faz aí o papel do mocinho que descobre todas as provas, mas a defesa e os suspeitos (os maus da novela) continuam negando e dissimulando. Fica a impressão de que os telespectadores ficam angustiados porque todos estão vendo os fatos e só a justiça e a defesa não consegue enxergar.
Ficam todos esperando a prova cabal em que os suspeitos vão assumir a culpa por estarem sem saída, sem argumentos. No momento da confissão ocorreria o gozo geral da sociedade que acompanha o caso. A prisão dos suspeitos não resolve o problema, porque não houve a expiação da culpa e sem isso, não há gozo possível. Fica um grito parado no ar, que não se concretiza, não se liberta. O gozo seria a catarse final, a libertação como processo apoteótico de espetáculo interativo, tipo “Você decide” ou o Big brother. Os apresentadores fazem suspense, anunciando que dentro de poucos instantes falará um psicanalista ou um perito criminal que dará informações importantíssimas sobre o caso. Mas qual o quê, nada de novo! As informações são repetitivas ou meras suposições que não levam a elucidação do caso.
Se acaso, o que considero pouco provável, surgisse alguém que viu ou que confessasse o crime, livrando o casal, o efeito também seria o mesmo. O gozo se daria através do choro emocionado de toda a sociedade que condenou alguém sem culpa. Só que aí a expiação seria dos expectadores e não dos criminosos, que seriam comuns, corriqueiros. Todos se comprometeriam em orações ou junto ao travesseiro que nunca mais condenariam ninguém sem provas definitivas (isso até o próximo espetáculo).
Se as coisas de fato ocorreram conforme os laudos indicam e que não houve tempo, nem motivo para o crime ter sido cometido por um terceiro ou por terceiros, não seria nada extraordinário, pois a família pode ser um lugar extremamente perigoso, principalmente para as crianças, que são frágeis e muitas vezes irritantes (principalmente as dos outros), que choram quando queremos dormir ou quando estamos vendo o nosso time preferido jogar ou durante um filme. Como nem todos têm a paciência de Jó ou chutam as paredes para não fazer nenhuma besteira, tragédias acontecem... As mães são, normalmente, mais tolerantes por força da própria biologia, mas não confiem muito, pois na semana passada uma delas jogou uma criança de três meses no rio para se livrar das responsabilidades maternas. Há uns quinze dias uma outra mãe prendia a filha com correntes na cama e a marcava com ferro quente. E atire a primeira pedra quem não levou uma surra de fazer xixi nas calças quando criança? Felizmente as surras deixam na maioria das vezes apenas marcas físicas ou psicológicas, mas um tapa de um adulto na cabeça de uma criança pode provocar uma tragédia.
Os outros mamíferos são muito interessantes quando observados sob a perspectiva de uma espécie superior que ainda imagino ser a nossa. Minha cadela teve filhotes os quais protegia com unhas e dentes contra as investidas do pai. A explicação funcional para esse comportamento, é que é comum o pai eliminar os filhotes machos por temerem uma possível concorrência, razão pela qual a mãe, instintivamente, reage agressivamente contra a mera aproximação do macho pai. Normalmente, os machos detestam os filhotes, mas aconteceu algo inusitado lá em casa; ao ter a oportunidade de se aproximar dos filhotes, o pai mostrou-se afetuoso com todos, inclusive os machos. Assim como no comportamento dos animais, as teorias não funcionam de forma linear e previsível. Podemos ser surpreendidos ao descobrir que pessoas estudadas e bem nascidas se revelam pais ou mães violentos contra os filhos ou vice versa, como foi o caso da Suzane que articulou o assassinato brutal dos pais. O ser humano é sempre uma incógnita; aliás, como todos os outros animais. Podemos ser cruéis ou generosos, tolerantes ou vingativos ou podemos ser tudo e nada disso. Somos todos, com certeza, caixas de Pandora, da qual pode tudo sair.

sábado, 17 de maio de 2008

HILLARY, OBAMA OU McCAIN?


As eleições norte-americanas vem despertando grande interesse entre nós, talvez muito mais do que nas eleições anteriores. Qual seria a razão para que vários articulistas se dediquem ao tema, quase que diariamente? É claro que a presença de uma mulher candidata ao cargo é uma grande novidade, pois pela primeira vez em mais de duzentos anos da democracia americana, uma se apresenta com alguma probabilidade de vencer. A outra novidade, obviamente, é a candidatura de um negro, também com chances de chegar lá. A pergunta que todos fazem é se a sociedade americana está amadurecida para ser governada por uma mulher ou por um homem negro. Os articulistas inicialmente descartaram a possibilidade do Barack Obama vencer, pois a questão racial fatalmente viria à tona, considerando que Hillary Clinton teria maior probabilidade de vencer o candidato republicano McCain, pois poderia atrair os votos tanto de brancos como de negros e latinos, que normalmente apóiam os democratas.
Por outro lado não podemos esquecer que um candidato negro poderia representar uma mudança importante na forma como os norte-americanos são percebidos, principalmente nos países chamados periféricos. Por sua origem afro-americana, de pai muçulmano e mãe hippie, Obama poderia merecer uma maior boa vontade por parte dos povos mais antiamericanos, abrindo a possibilidade de um maior entendimento, caso ele tenha mesmo a vontade política de mudar a visão do mundo em relação aos seus patrícios.
De acordo com os analistas especializados em política norte-americana, Obama deve sair à frente como o candidato democrático que enfrentará McCain, pois Hillary não tem conseguido se impor como uma alternativa viável para as eleições, fato comprovado pela redução drástica das doações ao seu partido. Obama, por sua vez vem encantando os jovens, brancos e negros pelo seu discurso atraente e inovador.
Hoje, conversando um brasileiro residente em Boston, EUA, ouvi a opinião de alguém que está presente no cotidiano da vida americana, conversando com homens, mulheres, jovens e idosos, nos supermercados, no trabalho, nas ruas. Flávio Dirose, um engenheiro civil que buscou no mercado americano uma alternativa para a década perdida no Brasil durante a recessão dos anos 80, afirmou com convicção, que McCain ganhará as eleições americanas contra Obama, pois o último tem um discurso de retórica bonita e bem articulada, mas vazia de conteúdo. Afirma o meu interlocutor que Obama não tem uma proposta clara para o sistema de saúde norte-americano, que se apresenta como um dos graves problemas do país. Não acredita também que Obama esteja preparado para enfrentar a gravíssima crise econômica desencadeada pelos empréstimos hipotecários. Outro motivo que deixa Dirose descrente quanto à possibilidade do candidato democrata vencer é que os jovens que o apoiam, em sua maioria, não votam.
Da minha parte, sem dúvida alguma pagaria para ver o impacto interno e externo da vitória de um negro na mais antiga democracia liberal do planeta. Considerando que os negros conquistaram os direitos civis somente nos anos 60 do século passado e as cicatrizes da segregação racial ainda não estão totalmente curadas (observe-se a fala do pastor da igreja de Obama), a vitória poderia representar um resgate histórico e a recuperação da auto-estima da população de origem africana em todos os níveis sociais. No plano externo seria até possível uma reunião de Obama com Bin Laden na busca de um amplo entendimento entre os povos do terceiro mundo e a grande potência ocidental(rss). Brincadeiras a parte, as negociações poderiam sim ser mais produtivas sem o cinismo do George W. Bush.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

CARANDIRU, impressões de um visitante

Abriram-se as portas do Carandiru e uma grande horda de tribos das mais diversas origens afluiu para ver, com os próprios olhos, como viviam os excluídos da história. Com os próprios olhos tem um sentido relevante, pois ver com os olhos alheios pode implicar em digerir leituras diferentes, com base em narrativas carregadas de emoções, visões místicas, espiritualistas ou materialistas dos fatos. Afinal, como diz Walter Benjamim, cada narrador carrega nas suas tintas, deixando no vaso as marcas de suas próprias mãos.
Numa longa fila, estavam jovens, brancos, negros, mestiços, homens, mulheres, católicos, protestantes, leigos, religiosos, piedosos ou sádicos. Todos esperavam ansiosos para conhecer os labirintos de um dos maiores centros penitenciários do país, aonde chegaram a viver (será?) mais de 7 mil presos. O ambiente ainda guardava um cheiro meio envelhecido de seres humanos que ali se amontoavam. Celas sujas, com roupas velhas abandonadas, revistas, jornais, papéis e alguns utensílios ainda pareciam sugerir que os seus donos voltariam a qualquer momento para retomar os seus restos de memória que ficaram.
Em pequenos cubículos com mais ou menos dois metros por três, sobreviviam quatro a seis pessoas, onde, humanamente, o espaço é apenas suficiente para uma. Mas os seus habitantes reconstruíam o espaço, adaptando-o às mínimas necessidades, criando condições de “conforto” dentro das possibilidades. Uma estante, um box para o banheiro, a pintura do time mais popular na parede, frases de conteúdo moral escritas caprichosamente nas paredes no teto. Enfim, é o ser humano criando condições de adaptabilidade em um ambiente extremamente insalubre e inóspito.
As pinturas nas paredes sugerem a fuga da solidão e o desejo de deixar uma marca para a posteridade. Paisagens bucólicas, algumas até com alguma técnica, pareciam simbolizar o desejo de libertação, da busca do paraíso perdido, principalmente para aqueles que não dispunham de janelas que possibilitassem avistar o horizonte, mesmo de uma cidade degradada e poluída. A religiosidade parecia presente na maioria das celas, com desenhos de santos, orações escritas nas paredes, indicando que as pessoas, apesar dos crimes que cometeram, ainda guardavam o medo mítico do purgatório, obrigando-as a fazer a expiação diária. Versos desconexos cujos sentidos somente a presença dos seus autores poderia dar uma luz para sua compreensão, decoravam algumas celas. Imaginei que aquelas palavras eram vistas diariamente e, talvez, com a explicação dos autores, poderiam adquirir as conotações mais diversas, aliviando corações amargurados pela solidão.

Pelo burburinho, a maioria dos visitantes acreditava que poderia ver, através do espaço de concreto, corpos jogados, corpos insones vagando pelos corredores, ou tentando encontrar algum sentido para a vida entre quatro paredes e o calor das noites de verão, onde o ar seria insuficiente para tanta gente. Outros diziam ter visto fantasmas dos mortos da grande chacina vagando pelas celas e corredores, atropelando os visitantes. Outros viam movimentos e ouviam sinistros barulhos nas celas, como as portas se fechando. Havia, entre os visitantes, expressões de medo, de piedade e de terror. A maioria registrava apenas com os olhos as cenas das celas sem vida, outros fotografavam compulsivamente o espaço para o registro histórico pessoal, como um fetiche para ser rememorado no futuro. Nos pátios onde os presos encontravam raros momentos de liberdade, quando podiam olhar para o céu e se banharem ao sol, parecia ser possível ainda ouvir as palavras de conforto, os risos, os choros dos familiares que vinham visitá-los. Eram momentos de esperança em que a solidão era interrompida por breves oportunidades de troca de afeto entre pais, filhos, esposas e amigos.
A história do Carandiru, a sua verdadeira história, talvez nunca venha a ser escrita. O que temos é a história oficial, dos gabinetes, dos visitantes, dos pesquisadores que por lá passaram e registraram pequenos flashes de vida. A verdadeira história do Carandiru esta nas conversas nas celas, nos corredores, na violência, nas lágrimas derramadas, nas orações, no sexo proibido, nas esperanças, no medo e na luta cotidiana para a sobrevivência. É a história oral dos esquecidos que ficará presente nas memórias dos seus entes mais íntimos, cuja narrativa se fará nas alcovas subterrâneas, quando a dor estiver se dissipando e for permitido o uso da palavra.
Aviões decolavam do aeroporto próximo com um barulho ensurdecedor causando a impressão de que tudo iria pelos ares, gerando apreensão e medo nos visitantes que pisavam o solo numa mistura de respeito e temor. Ninguém tocava em nada, o medo da contaminação parecia dominar a todos, pois se acreditava, pelas conversas sorrateiramente ouvidas, que os objetos e as paredes estavam repletos de doenças perigosamente transmissíveis. Mas havia algo além, que é o medo do Estado, o medo do poder policial, cuja força simbólica ainda estava lá. Ninguém, nem mesmo os homens livres, pareciam estar a salvo da ameaça à liberdade. É provável que sejamos eternos prisioneiros dos ditadores, do purgatório, dos opressores e dos campos de concentração, ainda que existam apenas difusamente em nossas memórias. A verdadeira liberdade somente será possível quando nos livrarmos desse poder ameaçador cujas armas mais poderosas são os tentáculos que deitam raízes profundas em nosso inconsciente.
Os homens, como escreve Halbwachs em Memória Coletiva, não são apenas o espaço material onde eles se agrupam, mas também, e, principalmente, as relações invisíveis, sejam elas econômicas, sociais e religiosas. Assim, nas celas vazias de homens e de relações, as memórias estavam incompletas, pois não estavam presentes as relações que existiam entre os seus habitantes. E, ali, as relações seriam fundamentais, pois a exigüidade do espaço obrigaria os moradores a uma negociação constante sobre os direitos de cada um, sob o risco de se chegar a conflitos de proporções imprevisíveis. Os papéis de cada um eram construídos e reconstruídos no dia a dia das relações cotidianas. A vida econômica estava presente e a moeda de troca podia ser o cigarro ou algum privilégio qualquer. Nas prisões, os direitos são estabelecidos por regras próprias, onde não valem aquelas dos homens livres, mas há um respeito pela palavra empenhada até que fatos novos não a atropelem. Cada cela seria um subsistema quase fechado de relações, que só se abriria no espaço público da penitenciária, o pátio, onde todos poderiam usufruir do sol e de relações mais amplas. As relações com o meio exterior, excetuando as afetivas com o grupo familiar e de amigos, seriam mais complexas e dependeriam de códigos e metáforas para serem concretizadas em suas formas políticas e econômicas.
Enfim, é previsível que o sistema de relações nas novas unidades prisionais deve estar sendo construído pari passu, com negociações que envolvem novos direitos, novos deveres em novos espaços, com novas relações afetivas e, principalmente, políticas que definirão as condições de sobrevivência. Com unidades menores, a teia de relações existente no Carandiru foi desconstruída, fragmentada, e dependerá de habilidades de articulação e de adaptação para tornar possíveis novos projetos de vida. Mas a memória do Carandiru ainda permanecerá como símbolo do medo, para quem estava lá dentro ou do lado de fora. Mesmo depois de transformado em área de lazer, escolas, locais de trabalho, ficará presente, para sempre, enquanto perdurar a capacidade humana de narrar suas memórias, reais ou não, o medo do Carandiru.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Abotoou o paletó ou a história moderna da vestimenta, uma analogia ao De Pallio de Tertuliano


Ao encontrar o amigo Zéca, despudoradamente, sem paletó no casamento do filho de um amigo, brinquei com a sua falta de “compostura”. Onde já se viu ir a um casamento sem paletó e gravata? Diante do seu sorriso matreiro, insisti que um paletó era uma indumentária essencial. Afinal, mesmo para partir desta para melhor, é preciso de um. O amigo riu da observação, mas continuou achando que a clássica peça do vestuário masculino era desnecessária e excessivamente burguesa para o seu gosto. E ainda avisou que contaria comigo para o caso de precisar de tal peça para o enterro. “Depois a gente se acerta no purgatório”, completou se divertindo.
Essa conversa me conduziu à infância e me fez lembrar de um presente que meu pai deu a cada um dos meus dois irmãos menores. Era uma pequena gaita de plástico, uma coisa sem muita importância. Entretanto, aquilo me magoou profundamente. Ao perceber o meu desapontamento, meu pai explicou que aquilo era um pequeno brinquedo de criança e que eu já estava ficando mocinho e precisava de um presente melhor, um terno, por exemplo. Respondi que ternos não serviam para brincar e que preferia ganhar uma gaita. Foi então que meu pai disse que um homem precisa de pelo menos um paletó, mesmo que seja para morrer. O velho gostava de contar suas histórias e disse: “Sente aqui que eu vou lhe contar a razão”.
A história era de um sujeito que não nunca se preocupou em ter um bom terno. Gastava seu dinheiro em divertimento, bebidas, passeios e presentes. Quando alguém lhe falava que ele não tinha um bom terno, nem para morrer, respondia: “Não se preocupe, pois quando eu morrer alguém me empresta um paletó. Uma gravata eu já tenho”. E foi o que aconteceu algum tempo depois. Muito mal de saúde, o sujeito teve uma última conversa com um dos seus velhos companheiros e pediu emprestado um paletó para o seu enterro. “Mas você me devolve, não é?”, disse o amigo em tom zombeteiro. “Com toda certeza eu vou devolvê-lo”, respondeu o moribundo.
Alguns dias depois, com a notícia da sua morte, o amigo preparou seu único terno de casimira inglesa, bem cortado, estilo jaquetão, escovando e passando a ferro para deixá-lo impecável para as exéquias do companheiro. O defunto ficou bonito de se ver. A barba bem feita, cabelos bem penteados e um bom terno que causou admiração a todos que foram ao velório, pois nunca haviam visto o homem tão bem vestido. “Pelo menos para a última viagem ele se aprumou” diziam todos que por lá passavam.
Chegando ao céu, o Gaspar - era assim que ele se chamava - foi muito bem recebido, pois era um bom cristão, mas foi avisado de que deveria devolver o terno ao amigo, pois promessa é dívida, mesmo depois da morte. Foi então que o pobre Gaspar tirou o terno e vagou, por anos da eternidade, passando frio e fome com a roupa na mão para devolvê-la ao seu benfeitor. Como o encontro se daria na eternidade, Gaspar precisou esperar a morte do amigo para devolver o terno. Foi com espanto que a família do morto viu, sobre uma cadeira, na manhã seguinte, depois de uma noite de velório, o velho terno de casemira.
Esta história me deixou arrepiado e quase não dormi a noite, aterrorizado com a possibilidade de morrer sem um terno. No dia seguinte procurei meu pai e disse: “Pai, eu vou querer um terno”. “É assim que se fala meu filho”, respondeu o velho, feliz por ter me convencido da importância de se ter um bom costume para usar em ocasiões especiais.
O meu primeiro terno ou costume, já que tinha apenas duas peças, era de calças curtas cor cinza e com riscas de giz. Tirei com ele algumas fotos e fui à missa algumas vezes, ostentando uma gravata borboleta, bem ao estilo da época. É claro que tive outros e sempre era uma história no momento da compra. Minha mãe muito zelosa com as economias domésticas pechinchava exaustivamente para conseguir um bom desconto. Meu pai, ao contrário, não gostava de ser visto com um sovinha e achava que o preço sempre estava adequado.
Meu pai durante toda a sua vida, sempre se preocupou em ter bons ternos para usá-los nos passeios ou mesmo para ir ao centro da cidade para resolver algum assunto cotidiano. Não importava o calor que fizesse, ele suportava elegantemente o paletó e a gravata apertada no pescoço. Muitos anos depois resolvi presenteá-lo com um terno em meu alfaiate. Pedi que escolhesse o melhor tecido disponível no Seu Benedito alfaiate. Esse terno era seu orgulho e pediu-me, discretamente, que queria ser enterrado com ele. E assim se fez. No dia de sua morte fui buscar em sua casa o terno e escolher uma gravata para a sua última viagem. Ao vê-lo bem arrumado no seu último descanso, lembrei-me da história que havia me contado. Bem, e se realmente existir o paraíso, ele não precisará devolver a roupa, como aconteceu com o tal de Gaspar.

Jogava um pano legal em cima de mim ou uma singela homenagem ao Edson José da Silva, o Zéca

Era o casamento do filho de um amigo. Aí eu me pergunto: Com que roupa? Ponho a gravata ou não? Será que não ficaria um pouco exagerado ir de gravata num casamento e sem ser padrinho? Finalmente decidi colocar a gravata no pescoço meio envergonhado em usar uma roupa tão formal para encontrar com velhos amigos.
Chegando a igreja percebi que todos estavam vestidos com costume risca de giz, impecáveis. O meu terno, marrom escuro, que pensei estar muito chique, ficou obscurecido pela elegância reinante. Mas no meio da igreja, sentado muito a vontade, com uma camisa listrada e arregaçada nas mangas, estava o Zéca, desafiando o mundo. Até o filho, um adolescente de dezessete anos estava impecável. Ele optou por uma vestimenta trivial, despojada, ainda que elegante, como sempre.
Mas o Zéca é assim mesmo, detesta formalismo, detesta bares e restaurantes em que os garçons se vestem de pingüim e o chamam de doutor. “Não tenho nada contra os veados, mas detesto mesmo a veadagem”, costuma dizer quando percebe muita frescura, muito formalismo em algum ambiente.
Saímos da igreja e fomos para o bufê Maison Sei lá o quê. Aí o Zéca veio com essa: “Se eu soubesse como era o ambiente, assim, decente, jogava um pano legal em cima de mim”, um velho samba gravado pela Maria Bethânia. É claro que falou isso mais para colocar o samba na pauta da conversa. Mas ele nem sempre foi assim. Nos tempos de funcionário diligente e bem remunerado de uma grande multinacional alemã, era possível vê-lo com uma gravatinha que deixava na gaveta para receber alguma visita especial ou comparecer a uma reunião de última hora. Lembro-me também que em seu casamento, ele estava de gravata borboleta, um tanto estranho para a época. Aliás, este seu casamento, que terminou depois de pouco mais de vinte anos de união, é a nossa diferença, pois continuo convicto de que ele não me convidou para o enlace. Com certeza não foi por maldade, mas por não se preocupar com coisas pequenas. Imagino que ele se esqueceu e achou que eu ficaria sabendo pelos demais amigos e ficaria tudo certo. Que pena! Perdi uma boa festa, com leitão assado, daqueles com uma maça na boca, como lembra o nosso querido o Cabrunco.
Mas o nosso amigo, já no limiar do terceiro tempo, rompeu mesmo com os padrões burgueses de vestimenta e somente não foi de calção e camiseta por consideração ao dono da festa, um burguês gente boa, um sujeito finíssimo, como costuma se referir ao Pedrão, o pai do noivo. Mas não era para menos, pois serviu bons vinhos, whisky e champanha, além de um jantar para ninguém botar defeito e tudo para ver os amigos sorrirem de satisfação.
Foi aí que falei para o Zéca que era preciso ter pelo menos um paletó. Afinal de contas, no dia do juízo final, é preciso estar vestido a caráter, mesmo que seja pela última vez. A expressão abotoou o paletó, tem lá a sua razão de ser. Ninguém fala abotoou a camisa. Mas ele bem humorado, saiu com essa: “Se eu não tiver um, você me empresta e fica tudo certo e depois eu devolvo no paraíso. Assim, a gente marca um encontro numa das tardes da eternidade para tomar uma cervejinha e colocar a conversa em dia e quem sabe cantar um samba do Noel”.