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terça-feira, 23 de setembro de 2008

A CASA DO BARÃO














Passando por Monteiro Lobato, bucólica cidadezinha do Vale do Paraíba, vimos uma pequena placa “Sítio do Pica Pau Amarelo”. As lembranças do seriado na TV, dos livros do Monteiro Lobato, fizeram com que nossas resistências fossem minadas e pegamos a estradinha poeirenta para conhecer o tal sítio. A viagem foi mais longa do pensávamos, uma estrada que há muito não é conservada e entre subidas e descidas avistamos o casarão colonial que reina majestoso num pequeno vale.
Fomos bem recebidos por vários cães que quase impediram que saíssemos do carro. Mas a proprietária, que não é parente do escritor, nos convidou a visitar a casa por módicos três reais. Contou-nos ela que seu avô comprou a fazenda de um negociante que por sua vez havia comprado do escritor, depois do seu fracasso como fazendeiro. Ainda bem, pois caso contrário o Brasil e o mundo teriam deixado de conhecer as fantásticas aventuras de Narizinho, Pedrinho, a boneca Emília, o Visconde de Sabugosa e outros personagens que povoaram a infância de milhões de brasileiros.
A casa, que pertenceu ao Barão de Tremembé, avô materno do escritor é enorme e bem conservada. As portas parecem que foram dimensionadas para gigantes de tão altas. A sala que dá vista para o jardim cabe muito bem um bom apartamento da cidade. Um cubículo ao lado da sala é chamado de biblioteca e era onde o escritor, quando garoto, fazia suas primeiras leituras.
Da sala acessamos os dormitórios, enormes cômodos com alcovas para que as meninas moças não saíssem do controle dos pais. Não há um corredor para se passar de um quarto a outro. São todos interligados, indicando que não havia nenhuma privacidade na arquitetura colonial que predominou por estas plagas até o século passado. Uma outra porta dá acesso à sala de jantar e cozinha. O dormitório da lendária Tia Anastácia ficava ao lado de um quarto de banho, que dá para a cozinha. Isso mesmo, quarto de banho, pois servia apenas para isso. As necessidades fisiológicas era realizadas numa casinha do lado de fora, bem distante da casa. À noite se utilizava o urinol, como todas as famílias da zona rural, fossem de barões ou de plebeus.
A arquitetura da época não privilegiava os sanitários como uma parte nobre das residências. Diferentemente de hoje, quando as dependências destinadas à higiene pessoal são as mais dispendiosas na maioria das residências. A simplicidade com que viviam muitos barões do café, com todos os recursos de que dispunham, era impressionante. Imaginem vocês leitores, o Barão não ter um lugar reservado para o seu banho ou para aliviar a bexiga num dia chuvoso. O uso do urinol não fazia jus a sua fidalguia. Gilberto Freire, em Casa Grande e Senzala relata que os senhores do Nordeste ao construírem confortáveis casas nas cidades, ainda mantinham o hábito de usar o urinol para desgosto dos empregados e isso já no século XX.
A nossa estranheza não é diferente da percebida diante do texto de Horace Miner, Os Nacirema, um ensaio antropológico que lança um olhar estrangeiro diante dos hábitos e costumes do povo norte-americano. Miner fez uma brincadeira que ficou famosa nos meios acadêmicos, ao descrever a sociedade americana pelo olhar de um antropólogo de uma cultura distante no tempo e no espaço.
Mas voltando a casa do Barão, ainda tivemos a oportunidade de saborear um licor de jabuticabas preparado pela proprietária. Além do licor, geléias caseiras, goiabada cascão são oferecidos aos visitantes a preços convidativos, afinal a casa é propriedade particular e não recebe nenhuma ajuda do governo. Uma pena, pois melhor administrada, com um acesso decente, poderia ser um importante ponto turístico.
Enfim, um último olhar ao casarão, cercado por palmeiras e muito verde, que segundo a proprietária, serviu de inspiração para Urupês, um livro de contos considerado pela crítica como a obra prima do escritor paulista.

Renato Ladeia

domingo, 21 de setembro de 2008

DORIVAL CAYMMI

Meu amigo Zéca cobrou-me uma crônica sobre o velho bardo da canção praieira da Bahia. Eu cá sem nenhuma inspiração para escrever sobre uma das maiores figuras da nossa música popular brasileira. Quem não conhece Caymmi? Minha mãe, já velhinha, não sabe quem é. Pois é, mesmo assim, apesar de não se lembrar, ela ainda consegue cantarolar algumas velhas canções como Maracangalha, Marina, Peguei um Ita no norte e outras. Ainda me recordo de ouví-la cantar em casa enquanto cuidava dos afazeres domésticos. Tinha uma voz de soprano e pelo que me consta era razoavelmente afinada. E assim, eu cresci ouvindo o Caymmi, pelo rádio ou através da voz materna. Que privilégio.

Sua obra é mais conhecida do que ele mesmo. Caymmi foi um letrista inspirado que compunha com a simplicidade dos mestres, que sabia tocar forte em qualquer pessoa minimamente sensível. Quem não sente uma saudade danada ao ouvir “Peguei um Ita no Norte”, mesmo que nunca tenha morado no norte ou que tenha ido para o Rio de Janeiro? É assim mesmo, todos nós temos uma saudade atávica de algum lugar no passado. Afinal, somos todos estrangeiros, pelo menos em parte. E o próprio Caymmi, neto de um imigrante italiano, Enrico Caymmi, que aportou na Bahia no século dezenove que se misturou com o sangue africano, é também um estrangeiro nestas plagas.

Foi então, que de tanto pensar no que escrever sobre o Dorival Caymmi, numa noite destas, acabei tendo um sonho com ele. E foi um sonho bom, terno e delicado. Estávamos indo para o interior e ele era nosso convidado para passar um fim de semana na casa de um amigo. Fui encarregado de pegá-lo e levá-lo de carro até o destino. Chegando lá, tive o cuidado de ajudá-lo a sair do carro e fazê-lo sentar-se à varanda para que ele pudesse olhar a verde paisagem do interior.

- Não é como o mar da Bahia, mas é bonito, não é Caymmi? Perguntei preocupado por não tê-lo levado a uma casa de praia onde ele pudesse ver o mar.

- É bonito, é bonito... respondeu o velhinho quase entoando a canção o Mar... quando quebra na praia, é bonito...

Depois, diante dele, que estava sentado numa cadeira de balanço, fizemos um silencio respeitoso àquela figura magnânima do cancioneiro popular. Um homem que traduziu a alma do povo simples que vive na beira da praia como o João Valentão, os jangadeiros do nordeste e suas mulheres que esperam todos os dias a volta dos seus homens que se aventuram pelas águas do Atlântico, sem saber se voltarão para casa para se aconchegarem nos braços das muitas Mariazinhas. Como nos sonhos, tudo é possível, peguei um violão e o coloquei em seu colo. Ele vagarosamente começou a cantar Marina, quando fui acordado pelas maritacas e outros pássaros que invadiram a amoreira do meu quintal. É sempre bom acordar com o cantar dos pássaros, mas neste dia eles foram delicadamente intrometidos.

Mas para meu consolo, hoje, a cantora Mariane Mattoso cantou só para mim, a belíssima canção Marina. Que coisa boa! Quem ficou com inveja, basta ir ao show que ela fará no próximo dia 30, no All Of Jazz, na Rua João Cachoeira. Ela promete uma viagem fantástica pelo mundo de Caymmi, cantando as suas mais belas canções, principalmente aquelas um pouco esquecidas pelo grande público. Estará acompanhada do competente violão de Luciana Romagnolli e da percussão de Rafael Motta.

Evoé Caymmi!

Renato Ladeia

domingo, 7 de setembro de 2008

LYGIA FAGUNDES TELLES

Barra de São João, uma pequena vila da cidade de Casemiro de Abreu no Rio de Janeiro, era onde passávamos nossas férias de verão. Um lugar bucólico, com a arquitetura colonial preservada em algumas casas, talvez pelo fato das praias não serem tão atrativas aos turistas como da sua vizinha Rio das Ostras. Mas era ali que ficava a casa onde morou o poeta Casemiro de Abreu e também onde ele estaria sepultado (diz o povo que o corpo foi roubado). Mas foi também ali, em frente ao Rio São João, num casarão colonial abandonado pelo descaso do poder público, que o grande pintor Pancetti morou por algum tempo, buscando inspiração para suas belas marinhas. Lá tudo andava devagar e devagar as janelas se abriam e fechavam observando lentamente os passantes.

E foi ali, numa de nossas férias que o nosso querido Fiico, um sósia do Martinho da Vila, um sujeito simpático e bom de conversa, além de violonista de primeira nos contou que a escritora Lygia Fagundes Telles estava hospedada na pousada onde habitualmente ficávamos. Era uma bela oportunidade para conhecer pessoalmente uma das mais importantes escritoras do país. E foi no segundo dia, que entrando na pousada demos de frente com a Lygia, acompanhada de uma amiga.
- Lygia Fagundes Telles, disse em voz alta, simulando alguma intimidade.
Um pouco surpresa, ela procurou por alguém conhecido a sua volta. Ai me apresentei como seu admirador apesar de ter lido apenas um livro de contos de sua autoria e alguns contos esparsos em antologias. Pensei em tirar uma fotografia da escritora com minha filha, para que ela pudesse guardar como uma valiosa lembrança, mas cheguei à conclusão de que seria uma caretice de fã e abandonei a idéia. Acabamos falando de uma palestra em minha cidade, promovida pelo centro acadêmico da faculdade em que ela fora uma das personalidades convidadas e do seu refúgio preferido, a pequena São João com seu ar interiorano, apesar de litoral.
Ainda a encontramos em um barzinho tomando água de coco com sua amiga, mas não ousamos incomodá-la, pois quem sabe estaria reservando aqueles momentos para inspirar-se para mais um conto ou romance. Ela olhava as ruas com seus olhos profundos e suaves e às vezes os lançada em direção ao mar, onde as ondas quebravam com violência na praia. Poderia ser um momento de criação e nada tão inoportuno do que um fã para atrapalhar sua concentração e quem sabe perder-se o fio da meada de uma história que estaria nascendo. No dia seguinte ela se fora e nossa pousada perdera sua fugaz notoriedade, mas com certeza apenas minha família e o velho Fiico sabiam da importância da hóspede para a cultura nacional. Afinal um escritor raramente está na telinha e quando isto acontece à audiência é diminuta.
De volta a São Paulo tratei de recuperar o tempo perdido e mergulhei nos livros da nossa escritora, prometendo a mim mesmo, caso a encontrasse novamente, poder falar sobre seus livros como um velho e experiente leitor. Há tempos não volto à Barra de São João e quem sabe por um desses caprichos do destino em minhas próximas férias poderei encontrá-la na mesma pousada e conversarmos longamente sobre um dos meus assuntos prediletos: a literatura.

Renato Ladeia

MEU PRIMEIRO NERUDA

Comprei meu primeiro Neruda em meados dos anos 80, não me lembro ao certo e foi um acontecimento. Li os primeiros poemas ainda em pé na livraria e prometi, na hora de fazer o pagamento, que devoraria o livro e que satisfaria a minha ansiedade da poesia do grande poeta chileno. Qual o que! Li algumas páginas e o Canto Geral, era esse o nome do livro, ficou acumulando a poeira do tempo na estante.
De tempos em tempos olhava para a brochura e continua prometendo que o leria em breve e nada de cumprir a promessa. A vida moderna, com muito trabalho, o nascimento da única filha, o stress e tudo o mais e fui deixando, para o futuro, a leitura. Às vezes lia algum dos poemas para minha filha antes de dormir, mas, sinceramente, ela preferia o Drummond. O verso “O vento brinca nos bigodes do construtor” era o seu preferido e ela ria de modo a ouvir-se de longe.
Tempos depois um amigo, suspeitando que eu fosse um apaixonado pela poesia de Neruda me presenteou com os Versos do Capitão, com uma bela dedicatória. O pequeno livro foi devorado e os versos de amor ainda rondam minhas noites de insônia. “Quitame el pan, si quieres/quítame ela ire, pero/no me quites tu risa”.
Outro dia, decidido a ler poesia e quem sabe participar de um sarau literário, resolvi buscar o Canto Geral do saudoso Neruda na mesma estante onde permaneceu por anos a fio. Qual o que!
- Onde está o meu Neruda? Perguntei impaciente.
Ninguém tinha notícias e minha filha, irônica, ainda perguntou:
- Aquele que você ainda não leu?
Essa frase me fez lembrar de um velho samba do Chico, quando ele diz: “Devolva meu Neruda, que você levou e que não leu”. E é bem provável que eu tenha emprestado, mas não sei para quem. Passei em revista na memória todos os amigos possíveis leitores de poesia e não encontrei nenhuma pista que me levasse ao livro. Que meus amigos me perdoem pela indiscrição, mas cheguei a bisbilhotar suas estantes e nada encontrei. Provavelmente, esse alguém chegou em casa, colocou o livro na estante e nunca mais tocou nele. Uma frase que ouvi do Milton Eto, um amigo professor de literatura portuguesa, bateu forte em minha memória: “Nos empréstimos de livros há sempre dois ingênuos, o que empresta e o que devolve”. Eu era, sem dúvida alguma, o ingênuo.
Enfim, o meu “pobre” Neruda deveria estar em alguma estante esperando pelo seu leitor, que levou e não leu, conclui com tristeza.
Mas o mundo é pequeno e os encontros e desencontros se sucedem quando menos esperamos. Não é que num dia destes, visitando um sebo a procura de alguma preciosidade abandonada, encontrei o livro com a minha assinatura e tudo! Pois então resolvi recomprá-lo imediatamente, mas estava sem dinheiro e sem o talão de cheques. Pedi, encarecidamente, ao proprietário do sebo que o reservasse para mim. Ele prometeu que guardaria até o final do expediente, mas depois disso se alguém quisesse comprá-lo ele não perderia a oportunidade da venda. Dito e feito! Compromissos fizeram com que deixasse para o dia seguinte a visita ao sebo e quando lá cheguei, alguém mais esperto, tinha comprado o Canto Geral. Também pudera! Estava uma pechincha. Desconsolado, xinguei todas as gerações da pessoa a quem eu havia emprestado o livro, que além de não ter lido, o vendeu a um sebo, por uma merreca. Depois pensando melhor, talvez ele tenha emprestado a um outro qualquer que, sem escrúpulos, o deixou num sebo. Com certeza meus amigos não fariam comigo, tal desfeita.
Por estranha coincidência encontrei depois, no mesmo sebo, outro livro do Neruda, o “Tercer Libro de Las Odas” com uma dedicatória: “Maria de Lourdes, São Paulo, Brazil. Recuerdo: 9 de Enero 1979”. Será que Maria de Lourdes leu o poema Ode a la casa dormida e os primeiros versos “Hacia adentro, em Brasil, por altas sierras y desbocados rios, de noche, a plena luna... Las cigarras llenaban tierra y cielo com su telegrafia crepitante.” Não sei se depois de 29 anos, Maria ainda vive e o livro somente foi parar no sebo depois de sua morte. Ou então, o marido enciumado encontrou o livro em meio aos guardados da mulher e descobriu o Neruda que, possivelmente, estava associado a um antigo amor chileno. Especulações, meras especulações...

Renato Ladeia