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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

LAVINIA REVISITADA

Modéstia a parte nasci em Cachoeiro do Itapemerim, dizia o Ruben Braga. Como dizer modéstia a parte por ter nascido em Lavínia, uma minúscula cidade incrustada no oeste paulista? Tem apenas uma avenida principal, a Perobal que atravessa o povoado de ponta a ponta. O nome perobal está ligado às extensas florestas repletas de peroba que existiam por lá em idos tempos. Até recentemente a avenida ainda era de terra, uma terra vermelha, arenosa, que tinge as casas, os carros, a pele e até as minhas lembranças. O casario baixo, janelas que observam atentamente o movimento das ruas. Um cavaleiro que chega a galope, uma carroça, uma charrete, um jipe empoeirado. Tudo é novidade na cidadezinha qualquer na qual eu nasci. Não me lembro de fotografias da cidade, mas uma delas está comigo e povoou o meu imaginário quando criança. Meu tio José tinha uma comitiva que trazia boiadas do Mato Grosso e Goiás. Nesta foto, no centro da cidade, ele estava todo garboso em sua vestimenta gaucha, como era moda nos anos trinta e quarenta.
Lavínia não tem grandes encantos ou desencantos tampouco. Surgiu durante a nova expansão dos cafezais rumo ao oeste nos anos trinta do século passado. Na época a região ainda era habitada por índios e por posseiros caboclos. Chegaram os trilhos da estrada de ferro Noroeste do Brasil e com eles o progresso dos nossos tristes trópicos. Os índios foram expulsos ou mortos pelos jagunços a mando dos grileiros em toda a região Noroeste. Meu tio, um zeloso testemunha de Jeová, que passava as tardes poeirentas e mornas de Lavínia a ler os textos bíblicos, contou-me horripilantes histórias durante a expulsão dos habitantes das terras “sem dono”. Estupros, queima de plantações, assassinatos e outros tipos de violência, tudo em nome do crescimento econômico, do avanço da economia cafeeira. Ele mesmo deve ter participado das ações, mas sempre negou ter feito qualquer tipo de injustiça. No final dos anos vinte trabalhou com o imigrante italiano Jeremias Lunardelli, que se tornou, por obra divina, o maior proprietário de terras da região. Como meu tio era esperto e letrado, caiu nas graças do patrão e no final conseguiu uma bela fazenda, a São Vicente, nome dado antes de se tornar um crente fundamentalista.
Nasci mesmo na Fazenda São Vicente do meu tio, próxima de uma vila do município de Lavínia, chamada Tabajara, pois se acreditava que foram os tabajaras os primeiros habitantes da região. O parto foi feito pela minha tia Carmem, uma carioca da gema, casada com um dos irmãos de minha mãe. Tabajara hoje é um nome complicado que se tornou sinônimo de malandragem, falcatrua, falsificação e tudo o mais por conta de um ridículo programa humorístico da Rede Globo. Penso que os descendentes dos tabajaras deveriam mover uma ação por danos morais contra a família Marinho por ter denegrido um nome honrado, heróico e valente de um povo que resistiu bravamente contra as invasões em nome do progresso. O poder do programa é tão grande que até uma faculdade de São Paulo que ostentava o honroso de Tabajara, foi obrigada a mudar nome para evitar chacotas e perda de credibilidade.
Fui muitas vezes para Lavínia durante as férias escolares. Era uma aventura inesquecível que me fazia sonhar durante o ano inteiro. Achava o máximo caminhar pelas invernadas da fazenda sem fim do meu tio, pegar frutas no pomar, quebrar coquinho, comer doce feito de leite coalhado - uma delícia inigualável, o milho verde assado, pão feito em casa e tomar o café da fazenda junto ao fogão à lenha. Já adolescente, cavalgava no velho Mussulini, um cavalo branco e manso, pela enorme fazenda sonhando ser o John Wayne em Chaparral. Quanta aventura, meu Deus!
Nasci em Lavínia e nem por isso sou orgulhoso, ao contrário do poeta itabirano; também não trouxe prendas diversas para oferecer aos meus poucos leitores. Mas sobrou a fotografia do meu tio boiadeiro, um balança velha, um ferro de passar a brasa e uma espingarda picapau que espero que nunca funcione. Apesar de ser apenas uma fotografia, Lavínia, um belo nome de mulher, ainda povoa minha imaginação nas longas noites de insônia.

Renato Ladeia