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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ALBUM DE RETRATOS E O VELHO RIO DE JANEIRO





Catete
Estrada da Gávea
                                                                  
Revendo um velho álbum de retratos da família, encontrei  uma foto desgastada pelo tempo do meu tio Elisiário Ladeia  no longínquo ano de 1929. Era mês de julho e ele  posava numa fotografia para enviar de lembranças para a família que residia em Araçatuba, São Paulo. Com sua letra miúda e caprichada, ele escreveu: “Para o meu bom pai, uma lembrança do seu filho na Avenida Atlântica, capital da República”.
Ele trabalhava como guarda-livros em um banco e morava na residência de um médico parente de minha avó. Guarda-livros era o nome que se dava para os contadores antigamente. Quando se contava a história lá em casa eu ficava imaginando que ele passava os dias tomando conta de livros, um bibliotecário.
E lá estava meu tio em branco e preto curtindo as praias cariocas  enquanto o crack da  bolsa de Nova Iorque liquidava com  grandes fortunas.  Milionários davam tiros nos ouvidos ante a perspectiva de ficarem pobres de uma hora para outra. No Brasil a crise ainda demorou a provocar os seus efeitos que somente ocorreram uns dois anos depois, mas uma revolução estava próxima. A política do Café com Leite em que Minas e São Paulo se revezavam no poder máximo da República estava com os dias contados. A Aliança Liberal estava se preparando para tomar o poder. Washington Luís, o “paulista de Macaé”, ainda saía a pé, de fraque e cartola, pelas ruas do Rio de Janeiro, sem o aparato de segurança que acompanha hoje um presidente. Meu tio, em cartas, contava que via sempre  o presidente nas proximidades do Palácio do Catete.
Washington Luís apoiou um candidato de São Paulo, deixando os mineiros revoltados, pois seria a vez deles. Getúlio, candidato da oposição, perdeu as eleições, que na época eram constantemente fraudadas. Não havia voto secreto e nem justiça eleitoral. Meu tio votou em Getúlio esperou que ele chegasse ao Rio e fosse aclamado pelo povo. 
Getúlio teria amarrado os cavalos no obelisco do Rio de Janeiro, humilhando a República Velha, mas meu tio não viu, estava trabalhando.  Contou que notou pouca movimentação no Rio naquele distante  24 de outubro.  Minha avó preocupada com a sua segurança queria saber notícias do filho em perigo, mas meu avô, sempre bem informado pelos jornais, mesmo atrasados, dizia que era uma revolução de compadres. Ele estava certo, foi uma revolução sem tiros. A morte de João Pessoa, vice de Getúlio, na Paraíba, que foi o estopim da revolução, teria sido por  motivos passionais.
Mas a nomeação de João Alberto, um pernambucano, como interventor em São Paulo e o adiamento de uma nova constituição, deixaram os paulistas revoltados e desencadeou a guerra. Ecléa Bosi, em seu livro Memória de velhos, trás depoimentos indicando que os pobres acreditavam mais em Getúlio do que nos velhos barões do café. A história de que São Paulo queria se separar do Brasil foi uma bobagem que, provavelmente, Getúlio estimulou para isolar os paulistas, o que de fato conseguiu. Isolado, sem o apoio do seu maior parceiro, o Estado de Minas, São Paulo teve de arcar sozinho com uma guerra desigual, pois as forças federais estavam bem melhor equipadas e com um contingente seguramente maior, apesar da mobilização de todas as classes sociais do estado. Getúlio, ao adiar sine die uma nova constituição, justificava que precisava consolidar a revolução e evitar retrocessos por parte das elites arcaicas que se opunham as mudanças. É inegável que o Getúlio teve um papel importante na modernização do país, mas foi a custa de uma longa ditadura e um estado forte que se eternizou na sociedade brasileira.
Quanto ao meu tio nunca soube  se foi engajado ou se engajou espontaneamente nas forças federais. A verdadeira história ele deve ter levado para o túmulo. A guerra civil durou pouco tempo, mas foi o suficiente para que muitos morressem ou ficassem inválidos nas frentes de batalha e minha avó quase morresse de preocupação. Terminado o confronto militar ele voltou para casa. Era outro homem. Vivia assombrado pela guerra, ouvindo tiros de fuzis e canhões no meio da noite. Saia em disparada de cuecas pelo quintal gritando. Depois de algum tempo recuperava o controle e voltava a ser novamente um homem gentil e educado.
Pelos relatos da família, ele nunca mais teve uma vida normal. Não conseguiu mais trabalhar e passou a vida viajando de um lugar para outro sem paradeiro. Desaparecia durante longos meses ou mesmo anos, enviando para consolo da família algumas cartas e fotografias. Num dos desaparecimentos foi localizado em Buenos Aires. As cartas trocadas com o consulado brasileiro por meus avós indicavam que ele tivera um surto e não sabia mais quem era.
A última notícia que a família teve dele, veio do Paraguai, de  onde escreveu dizendo que estava a negócios. Depois da morte dos meus avós, nunca mais escreveu ou deu notícias. Solteiro, desapareceu no mundo, sem deixar rastros. Ao rever as fotos, inclusive de cartões postais, recordo-me ainda menino olhando estas mesmas imagens. Ele era o “Meu tio da América”, um romântico aventureiro com muitas aventuras e desventuras, que construiu em meu imaginário um mundo um mundo que não existe mais.

Renato Ladeia
Arcos de Santa Tereza

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

UM SUJEITO DE BEM COM A VIDA


Algumas pessoas se tornam lendárias em nossas memórias, principalmente aquelas que conhecemos em nossa juventude. É o caso do Ademir Bellucci, amigo dos tempos de faculdade. Era um sujeito de boa pinta, louro de olhos azuis, que fazia algum sucesso com as mulheres apesar de ser deficiente físico. Ele perdeu a mão quando garoto trabalhando em um açougue em sua cidade natal. Nunca se queixou com relação ao problema e ao contrário, gostava de brincar com a deficiência sem o menor constrangimento. Se alguém contava uma anedota de maneta, ele mostrava  o toco de braço e brincava com a própria desgraça. Fez isso com um amigo, o Erasmo, que chorou copiosamente ao ver que ele era maneta. As pessoas é que ficavam profundamente constrangidas com o seu defeito físico e muitas vezes ele, sem maldade,  tirava proveito dessa condição. Quando trabalhava no departamento de Estatística do Estado como estagiário, mostrava o toco e a chefe toda emocional, chegava às lágrimas quando ele contava, pela enésima vez, como aconteceu o acidente. Com isso ele sempre conseguia sair mais cedo e sem desconto nos seus vencimentos.
Quando ia a um restaurante chamava o garçom e solicitava que cortasse o bife para ele. O garçom, via de regra, reagia alegando que não tinha tempo para isso com tanta gente para atender. Aí entrava o braço sem a mão  em cena. O pobre garçom pedia perdão e com lágrimas nos olhos cortava o seu bife em pequenos pedaços para que ele não tivesse dificuldades em tomar a refeição.
Certa vez, um rapaz se declarou estar perdidamente apaixonado ao despedir-se dele ao deixá-lo em casa, após um encontro com a turma em um bar.  Ele não achou graça nenhuma na história e entrou em pânico, pois nunca havia imaginado que o colega fosse gay. Sendo um rapaz simples do interior, aquilo foi um choque profundo. Não teve dúvidas, foi contar para uma amiga e confidente o ocorrido, pedindo por todos os santos que ela mantivesse o segredo. Acontece que depois de alguns dias, ele mesmo não suportou a guarda do segredo e acabou espalhando a informação para mais algumas pessoas. Em pouco tempo o assunto virou tema das rodas de amigos. Entretanto, para sua surpresa, descobriu-se que era tudo armação, pois o colega era um gozador de mão cheia.
Fiquei muito tempo sem vê-lo, até que um dia, ao passar num açougue próximo do trabalho dei de cara com ele cortando bifes. Fiquei surpreso ao saber que abandonara a profissão e retornara a ocupação que lhe trouxe tantos problemas. Ele contou que tinha mais dois açougues, pois chegara a conclusão que trabalhar de empregado não tinha futuro e resolveu ser empresário e que no capitalismo o melhor mesmo é ser capitalista.  E
Ademir se casou com uma moça muito simpática e inteligente, filha de um coronel da polícia militar. A resistência do pai da moça era grande, mas acabou cedendo à determinação da filha. Tiveram três filhos e por fim ele e o sogro se tornaram grandes amigos. Na época, ainda em plena ditadura militar, ele e a namorada participavam de grupos políticos que lutavam pela redemocratização do país e como o pai da namorada era  militar e conservador, todos temiam pela sua segurança. Mas felizmente nada aconteceu e a festa de casamento ocorreu na confortável casa do coronel com a presença de várias patentes e muito policiamento nos arredores. A família do Bellucci, gente muito humilde de Santo Anastácio, ficara distante das rodas elegantes da festa, mas ele não se sentia nem um pouco constrangido e circulava feliz entre a família da Guga e o povo humilde do interior, que eram seus familiares. “São as diferenças de classe”, dizia ele brincando.
Depois de alguns anos tive outra surpresa. Passando por Bragança Paulista, uma pequena cidade no interior, entrei numa loja de tintas para pedir  uma informação e vejo aquela mesma figura dos tempos de estudante atrás de um balcão. Já não usava barba, mas continuava com os cabelos vastos e desalinhados, sempre com a mão direita ligeiramente escondida nas costas.  Estava com minha mulher e filha, que avisadas vieram ao histórico encontro. No balcão colocamos em dia as novidades sobre os amigos comuns e familiares.  Já não era o jovem radical que queria derrubar o governo e implantar a ditadura do proletariado. Bem mais maduro, falava de negócios e investimentos, indicando que a loja estava indo bem e que em breve pretendia abrir uma filial numa cidade próxima. Marcamos um encontro no sítio onde estava morando,  para um fim de semana com muito churrasco e cerveja. O endereço e o mapa vieram comigo, mas nunca deu certo e quem sabe, mais uma vez, por acaso ou por alguma estranha artimanha do destino a gente acabe se encontrando novamente.

Renato Ladeia

NEGÓCIOS E OPORTUNIDADES

Numa manhã ensolarada de primavera a campainha tocou. Era um casal bem apresentável. Ele de terno e gravata e ela vestida com uma saia e blusa bem combinadas. Pensei tratar-se de pregadores evangélicos, o que é muito comum nos fins de semana em meu bairro. Pediram-me um minuto de atenção. Dispus-me, educadamente, a ouví-los, considerando que estava de bom humor por causa do belo dia e pelas flores exuberantes do quintal. “Estamos fazendo uma oferta especial para pessoas de alto nível como o cidadão. Trata-se de um excelente lote no cemitério da Eternidade. É uma oportunidade única para pessoas que pensam no futuro”. Ao ouvir aquele discurso empolado e falso, desatei a rir. Tentei me conter, mas sem sucesso. O casal não entendeu nada e como não conseguia parar de rir, os dois deixaram um prospecto e foram embora, visivelmente irritados com a minha falta de cortesia.
Na realidade a frase do vendedor não tinha  nada de engraçado, mas o fato é que me lembrei de uma pitoresca  história contada por um tio, que era fazendeiro no interior de São Paulo. Contou-me ele, há bons tempos, que um dos colonos da fazenda apareceu para pedir-lhe um empréstimo para pagar um bom terreno que havia comprado. Meu tio quis saber mais detalhes sobre a compra, já que seu colono, um homem trabalhador e responsável, em breve o deixaria para trabalhar em sua própria terra. Mas para seu espanto, o inocente colono explicou que o terreno ficava a nada mais nada menos do que 384.405 quilômetros da terra, mais precisamente, na lua. A história se passou em 1969, logo depois da primeira viagem  do homem ao satélite e um malandro resolveu aproveitar a oportunidade para fazer “bons negócios” com a repercussão do acontecimento.
Percebe o leitor que fiz uma analogia maluca entre um terreno no cemitério e um hipotético terreno na lua, o que não é de toda descabível. Um promete uma propriedade em um satélite estéril, sem atmosfera e sem água em estado líquido, cuja exploração era e ainda é impossível. O outro oferecia um terreno em que o futuro proprietário jamais tomaria posse em vida. Um investimento para um futuro sem futuro.
Meu tio, um protestante cético com relação à ciência e a tecnologia, não teve dúvidas. Pegou a sua velha espingarda de caça e, com a autoridade que lhe era conferida por ser inspetor de quarteirão, expulsou o malandro, não sem antes fazer com que devolvesse o que já tinha arrecado dos demais.
Quanto a mim, conformei-me  que o negócio proposto pelo casal, apesar de funesto, era perfeitamente legal, já que numa sociedade capitalista, precisamos pagar por um pequeno pedaço de terra se quisermos ter um descanso relativamente eterno. Caso contrário a ossada é removida depois de algum tempo e despejada num depósito coletivo, chamado ossuário. Como nunca me preocupei com o que será feito do meu corpo após a morte, já deixei expressa a minha vontade de ser cremado com corpo, alma e tudo o mais que tiver direito para não correr o risco de voltar por aqui e incomodar amigos e parentes.

Renato Ladeia

domingo, 7 de novembro de 2010

A DESPEDIDA DO POETA (Delcy Thenório 1926-2010)




                                          Delcy Thenório com seu filho Edélcio Thenório

O último encontro que tive com o poeta  Delcy Thenório, foi em sua casa em Santo André, para um café, tradição da família nos domingos à tarde. Foi um longo e prazeroso encontro. Conversou-se sobre tudo, até mesmo como preparar um bom café e quase todos os presentes se apresentaram como bons baristas, cada um com o seu jeito peculiar de preparar a bebida que é a preferência nacional. Até o Zeca, que todos sabem não conhecer os segredos de um bom café, deu lá os seus palpites. Boas anedotas correram soltas, sob o olhar distante da Antonieta que fingia entendê-las e esboçava um sorriso complacente. Falou-se muito de poesia e é claro, dos versos do Delcy, cuja sagacidade provocava gargalhadas descontraídas. Até o Elcio, seu filho, um bom vivant, presenteou-nos com um belo poema que compôs sobre a velha Itália. Surpreendeu a todos, ficando a leve suspeita de que os pendores poéticos são hereditários. É claro que não é a poesia em si, mas a sensibilidade para a vida, a capacidade de ver os acontecimentos, as pessoas e a natureza através de outro olhar.
Não sei por qual razão surgiu um assunto nada agradável, a finitude da vida. Delcy, solto, alegre, descompromissado com as coisas materiais, falou sobre isso com uma descontração de fazer inveja. Disse, na ocasião, que a morte não tinha significado maior. Ele tinha o conforto de acreditar que o seu corpo era apenas algo que poderia ser jogado em qualquer lugar, pois para ele havia algo maior que continuava eternamente, independente do tempo dos homens. Confesso que senti inveja de sua convicção e pensei no conselho do Montaigne de que não devemos perder tempo aprendendo a morrer, pois quando chegar a hora vamos saber morrer direito.
Essa longa e agradável tarde do último inverno seria uma despedida, não definitiva, para uma mudança. Delcy, logo depois, mudaria para Piedade, terra dos seus antepassados, onde viveria seus últimos anos ao lado do seu filho Edélcio e sua nora Ângela. O motivo da mudança era a saúde debilitada de sua Antonieta, que precisava de cuidados especiais, para os quais ele já não tinha mais condições físicas de prover. Seria uma nova fase de sua modesta e profícua existência, onde poderia resgatar a inspiração para voltar a escrever os seus versos e crônicas do cotidiano. Os ares de Piedade, com suas verdes colinas, os cantares descompromissados dos pássaros, sua gente simples e hospitaleira seriam seu regalo para alguns bons anos, mesmo convicto de que a vida é expressamente provisória.
Dias atrás Delcy recebeu, em Piedade, um belo presente. Edson da Silva, o Zeca musicou seu poema “Quase” , inspirando-se no sambista paulistano, Adoniram Barbosa. Foi a união perfeita de um samba com sotaque da Mooca com os versos bem humorados do nosso poeta. Um presente que ele recebeu com muita alegria.
Mas viver é muito perigoso, já dizia o Riobaldo, personagem de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa. E foi assim que recebi um telegrama virtual do velho amigo Edélcio Thenório:
“Sinto informar que faleceu hoje às 17 horas meu pai José Delcy Thenório, aos 84 anos, aqui em casa, por motivo natural. Viveu uma vida serena e impecável. Agradeço profundamente a Deus por ter sido seu filho”.

Delcy aproveitara a gostosa tarde da última sexta-feira para colher jabuticabas em um sítio vizinho na companhia de sua nora e netos. Aproveitou o passeio como se fosse o último e regalou-se com o doce azul da fruta que só dá no Brasil e foi com essa doçura que ainda impregnava seus lábios que partiu em silêncio.
Quero crer que em seus últimos instantes de vida tenha vindo à sua memória seus versos sobre a morte: “Não quero que vocês chorem/Rogo até que comemorem/Com estrondosas risadas/Na frigidez do velório/Rebusquem no repertório/As mais picantes piadas”.
E assim, num triste e chuvoso sábado, fui para Piedade com mais quatro amigos (Sinésio, Zeca, Saulo e Zorba) para nos despedirmos do poeta e dar conforto aos seus filhos, netos e noras. No caminho, tal qual era a recomendação do poeta, contamos muitas piadas e lembramos com carinho da grandeza do ser humano Delcy Thenório. No velório encontramos, também, o Erasmo, que se uniu a nós para co-memorar o poeta e a poesia. Lembramos também de algumas passagens de sua vida, sempre pautada pela integridade, honestidade e retidão de caráter. Soube-se que em uma de suas passagens por Sorocaba, onde a sua Antonieta está internada, recusou-se a quebrar as regras por estar fora do horário de visitas. De nada adiantou argumentar que a instituição havia liberado para que ele a visitasse em qualquer horário. “Prefiro não ter privilégios, mesmo em tal circunstância”, disse ele.
José Delcy Thenório, autodidata, profissional zeloso e competente e, acima de tudo, poeta, cumpriu sua missão. Plantou árvores, amou, teve filhos e netos, escreveu um livro e deixou a vida com um imenso rastro de saudades. E para dar provas de que ele queria era mesmo alegria em sua despedida, dois pássaros, um “chan-chan” e o outro um “quero-quero” deram as boas vindas ao poeta no cemitério do Jardim Eterno, com seu cantar alegre e sem compromisso com coisas sérias.
O resto é silêncio...

Renato Ladeia

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

CAFÉ LUÁ

Trinta anos sem o Café Luá

O pessoal da velha guarda do ABC deve lembrar com saudade do velho Café Luá, na Rua Manoel Coelho, em São Caetano, no final dos anos 70. Era um misto de um café parisiense com bar carioca dos tempos da bossa nova. A arquitetura do espaço era bem concebida, com um mezanino de onde se podia avistar o palco, onde sempre bons músicos estavam lá para proporcionar aos freqüentadores o que havia de melhor na música popular brasileira.
Os cafés servidos eram sofisticados e com uma imensa variedade, atendendo aos gostos mais refinados. E não faltavam os chás que podiam ser degustados pelos abstêmios ou após uma noitada pesada quando a madrugada dava os seus últimos suspiros antes dos primeiros raios de sol penetrarem pelas amplas janelas.
O Zeca, sócio e idealizador do espaço era um perfeito anfitrião, estando sempre a postos para recepcionar os velhos amigos. Como o lema do Café Luá era “Até o último freguês”, isso lhe custou sérios problemas. O primeiro foi com a sua namorada, pois o Lua passou a ser um rival de peso. O segundo foi sua saúde. Zeca ficou cadavérico, parecendo um esqueleto ambulante, pois continuou suas atividades profissionais em uma multinacional. Assim, mal tinha tempo para dormir.
O velho Café Luá foi fruto de um sonho concretizado, mesmo que de forma efêmera. Zeca da Silva, depois de ter concluído a faculdade, acreditava que era preciso manter a turma unida, cantando, compondo e conversando naqueles tempos sombrios. Esse relacionamento não podia acabar depois da formatura. Era preciso aglutinar, criar laços cada vez mais profundos para que pudéssemos fazer a travessia sempre unidos, mantendo os mesmos valores que havia gerado o grupo.
Recordo-me que em uma das muitas festas de aniversário o Zeca chamou alguns amigos de lado e falou sobre a sua idéia de criar um espaço cultural, onde a turma se encontraria sempre, sem precisar marcar hora ou data. Seria um espaço livre, de todos, com um violão e uma cervejinha sempre gelada. Seria sempre uma festa ou um sarau dois ou três dias por semana. A idéia entusiasmou todo o grupo que também compartilhava com a preocupação do Zeca. Tanto foi real que saímos à procura de um imóvel para alugar. Num dos imóveis visitados e quase alugado, o proprietário perguntou se a finalidade seria comercia, pois achou estranho aquele bando de jovens procurando um imóvel. O Milton Eto, ingenuamente, disse que era para a turma se reunir, cantar e discutir política. Como estávamos em plena ditadura militar, não é difícil adivinhar que o dono da corretora encerrou a conversa ali mesmo. Por outro lado, a racionalidade também começou a pesar. Como vai ser a cobrança? E se alguém não pagar, como é que fica? Quem será o responsável pelo aluguel? A idéia, por estas e outras razões não foi adiante.
Mas o Zeca não desistiu e partiu para outro projeto: um bar no estilo dos bares cariocas dos anos cinqüenta, onde emergiram grandes talentos da música popular brasileira como Tom Jobim, Johnny Alf, Vinicius etc. Era uma tentativa de reviver, nos anos 70, o mesmo clima boêmio do Rio de Janeiro em uma cidade do ABC paulista. Será que daria certo? Ele pagou para ver e com um sócio partiu para a ação. Alugaram uma velha casa, que foi totalmente reformada e estruturada para dar lugar ao projeto boêmio. Estava criado o Café Lua, um dos mais sofisticados redutos boêmios que já existiu no ABC.
O mais importante de tudo era o espaço destinado aos músicos, principalmente os amigos que teriam um lugarzinho para tocar e cantar sem a necessidade de convite. Essa era a essência do projeto do seu idealizador, que resgataria assim o seu antigo sonho.
Inicialmente as coisas estavam indo muito bem, mas com o tempo foram surgindo os velhos problemas de uma atividade comercial. Os amigos nem sempre podiam freqüentar a casa da forma como gostariam, pois os preços eram um tanto salgados para manter o padrão dos serviços e produtos. Como os amigos, principalmente os músicos, não podiam freqüentar assiduamente o bar, foi preciso contratar músicos profissionais e o espaço acabou perdendo parte do romantismo inicial.
Além do pessoal do “Boca da Noite”, composto pelo Valtinho, Marcão, Salvelino, Jorginho, Lole, Itamar, Luis, Finóca e a cantora Claudia Regina, que não está mais entre nós, muita gente boa se apresentou no Café. O Oscar de Vitto, que era da turma, se apresentava esporadicamente, como amigo da casa. Saulo de Tarso, “o maior do Brasil”, foi atração exclusiva durante algum tempo. Carlinhos Kalunga, violonista, compositor e arranjador, foi também uma presença constante. Aliás, foi com o Carlinhos que aconteceu uma cena pitoresca no Café. A Isaurinha Garcia (1923-1993), cantora da velha guarda e considerada a Edit Piaf brasileira, foi convidada para cantar na casa. Para evitar transtornos de última hora, o Zeca foi buscá-la em sua casa em São Paulo, bem mais cedo. Chegando ao Luá, ela pediu uma bebida. Pensou-se em uma bebida leve, já que ela estava a trabalho. Longe disso, pediu logo um conhaque e copo cheio. E não ficou por aí. Tomou vários conhaques durante a noite, sempre em dose dupla. E a Isaurinha cantou, cantou, se emocionou, chorou e, de repente, desabou em cima do Carlinhos que a estava acompanhando ao violão. Foi um tombo espetacular, que quase colocou o músico a nocaute. Depois disso, ela ainda conseguiu cantar algumas canções sentada num banquinho. O músico ao falar sobre o episódio lembra-se que parecia um tsunami que desabava sobre ele.
Mas numa tarde, ao abrir a casa, o Zeca teve um choque ao ver a frase “Clube Gay” pichada na parede. Não descobriu a razão, por outro lado também não perdeu tempo em investigar, mas jogou a toalha, saindo da sociedade. Não usufruiu nada no negócio em termos financeiros, mas ganhou no prazer de ouvir bons músicos e receber os amigos. De sobra ficaram também um corpo esquelético e o stress. Tinha investido seu tempo livre e algumas economias e no final saiu como um passarinho, livre do estafante lema “Até o último freguês”, que o obrigava a sair de lá com os primeiros raios de sol.
E assim o Café Luá foi desaparecendo, pois sem a presença do principal anfitrião, a casa perdeu a sua alma se transformando em mais um bar, sem o antigo charme. Algum tempo depois deixou de ser uma casa noturna para se transformar num restaurante. Trinta anos depois, restaram na memória os bons momentos no Café Luá, onde se cultuava a melhor música popular brasileira. O burburinho nas mesas, um velho samba do Chico, a lua vigiando a noite, os amigos taciturnos e o café quente na madrugada; tudo isso ainda está presente em nossas retinas fatigadas. Acabou, sem choro, nem vela, mas ficou uma alegria triste, daquelas que sentimos ao ouvir uma bela canção numa manhã chuvosa.
Para o Zeca, ficou um pôster com a figura do Noel e o nome da casa, como troféu e os velhos e queridos amigos, com quem ainda hoje mantem profundos laços de amizade, compartilhando alegrias, tristezas e também bons sambas. Há também um samba de uma compositora que não conheceu o Luá, mas ouviu seus pais falarem muito dele, e que em breve será lançado em um CD.
Enfim, o Café Luá é apenas um pôster na parede, mas ainda alimenta uma saudade danada dos nossos bons tempos. “Evoé Zeca da Silva, sambista, compositor e empreendedor. Durou pouco, mas foi infinito enquanto existiu”.

Renato Ladeia