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sábado, 5 de novembro de 2011

A MEIA NOITE EM PARIS E A MEIA NOITE NA PAULICEIA DESVAIRADO


Ao sair do cinema na Rua Augusta, depois de assistir o belo filme de Woody Allen, fiquei um pouco frustrado por não estar chovendo como na última cena do filme. A rua estava repleta de carros, com muito barulho, muita gente e em nada sugeria o clima de Paris nos anos 30, palco da trama desenvolvida pelo magistral cineasta. Mas resolvi caminhar um pouco para curtir o clima do filme enquanto aguardava uma carona. Cansado de esperar fui descendo a Augusta no sentido centro e aos poucos fui tomado por um clima diferente. Até hoje não sei se pirei ou se o mundo havia voltado no tempo. Estava em frente ao restaurante Gigetto, onde até hoje, muita gente famosa gosta de jantar depois das peças de teatro, shows ou mesmo para encerrar uma noite de trabalho. Lá encontrei há alguns anos atrás o humorista Ary Toledo, Chico Buarque, Marieta Severo e Elba Ramalho todos numa mesma noite.
Logo que entrei vi sentado em uma mesa num canto o poeta e romancista Mario de Andrade, com sua calva avançada. Ele estava rascunhando alguma coisa, talvez um verso. Imagino que não era no guardanapo porque nos anos 30 ainda se usava de guardanapos de pano. Não importa se era numa folha de papel qualquer, mas ele estava escrevendo. Aproximei-me e ele muito solícito pediu que eu sentasse e começamos a conversar sobre sua obra, principalmente o seu famoso poema Paulicéia Desvairada. Fiquei bisbilhotando o que ele havia escrito no papel e ao notar meu interesse deu para que eu lesse. Era um poema numa linguagem típica dos caipiras paulistas: “Quando da brisa, num açoite/ A flor da noite/ Se acurvô/ Foi se encontrá com a Maroca/meu amor...”  E foi então que ele disse que se tratava de uma letra que estava fazendo para uma canção de um amigo, o Ary Kerner. Mário, depois de beber mais um pouco de cerveja, soltou-se e declamou os versos para mim, ante o olhar espantado de alguns freqüentadores circunspectos do restaurante.
Enquanto conversávamos animadamente eis quem chega ao Gigetto: nada mais nada menos do que o futuro historiador paulista, Sérgio Buarque de Hollanda. Ele ainda era um sujeito magro, muito elegante com seu costume justo no corpo e um chapéu de palheta que levava à cabeça. Saudou-nos alegremente e disse ter gostado muito dos versos que o Mário havia lhe enviado na última semana para o Rio de Janeiro. Mário cuidou de apresentar-me ao seu amigo, mas ainda nem sabia meu nome: “Este é o senhor... “ Eu completei rapidamente dizendo meu nome e disse que estava tentando escrever uns versos e buscava na experiência do Mário de Andrade, algumas orientações e críticas. Nisso o Sergio, muito solícito, ofereceu-se, ele mesmo, para ler os meus versos e analisá-los.
- E o que faz na Paulicéia, Sérgio? Que bons ventos o trazem? Perguntou animadamente o Mário.
- Vim resolver alguns negócios de família, mas devo retornar ao Rio, no final da semana. Contudo, antes quero encontrar com os amigos, ver uma ou outra peça de teatro, comprar alguns livros...
- Você continua um inveterado comprador de livros. Eu também não posso falar muito, pois a minha biblioteca está entupida e não tenho mais lugar para guardá-los.
- Não se preocupem, disse eu, um dia vocês deixarão para uma biblioteca pública que irá guardá-los com muito carinho. Disse pensando no futuro que já conhecia como a famosa biblioteca Mario de Andrade, que na verdade não tem cuidado  muito bem do acervo, mas não poderia desanimá-lo. Quanto à biblioteca do Sérgio, sabia que estava bem guardada na Unicamp.
- E a saúde Mário? Ouvi dizer que você não tem andado muito bem. É algo sério?
- Não sei se é sério. Isso só Deus sabe, pois os médicos entendem mais de cifrões do que de saúde. Mas sinto umas dores no peito que chegam e partem como a poesia.
Ouvindo a conversa lembrei que o poeta Mário de Andrada morreria poucos anos depois, em 1944 e estávamos em 1938, ano da fundação do Restaurante Gigetto. Olhei com tristeza para o seu rosto sereno. Pensei em dar-lhe alguns conselhos, mas não sendo médico não sei se ele ouviria com alguma atenção, mas arrisquei: “Olha Mário, não gosto de dar palpites, mas pode ser o coração. Cigarros, muita gordura e vida sedentária podem entupir as coronárias e daí... O Mário cortou rapidamente a conversa dizendo “Viva a boa vida”, nada de dietas, nada de parar de fumar. São os prazeres que fazem a vida valer a pena”.
- E o livro Raízes do Brasil  Sérgio, como está sendo recebido pela crítica?
- Não sei não... Penso que o pessoal não entendeu bem a expressão “homem cordial”, com que defino o brasileiro.
- Em pleno século XXI ainda há discussão sobre isso. Comentei sem querer, mas logo disse que era uma brincadeira e que quis dizer que provavelmente o livro provocaria polêmicas por muitos e muitos anos.
Sérgio ficou interessado ao saber que eu havia lido seu livro e disse que gostaria de marcar um novo encontro para conversarmos um pouco mais sobre o assunto, pois nesta noite ele estava com um pouco de pressa, pois precisaria tomar o último bonde para se hospedar na casa de um velho amigo dos tempos de colégio.
-  E o Vinicius e o Drummond? Tem visto os dois no Rio?
- Ah sim, o Vinicius está mudando de estilo poético. Não é mais o poeta metafísico de antanho. Deu para escrever versos amorosos e sensuais. Mas são bons versos, não posso deixar de admitir. O nosso Vinícius tem uma sensibilidade rara, principalmente com relação ao sexo feminino. Quanto ao Drummond, aquele mineiro ensimesmado, que fala pouco, mas continua espreitando as saias das mulheres que vivem pela praia, coloridas pelo sol. Olhe só, parece que estou versando...  Vou anotar isso, quem sabe um dos meus futuros filhos resolva escrever versos e poderá aproveitar a idéia (risos).
- Mas ouvi dizer que a amizade do  Drummond com João Cabral anda estremecida. Eles que eram tão amigos. O que será que houve entre os dois? Perguntou Mario de Andrade.
- Não sei não, meu caro amigo. Acho estranha essa conversa, pois o Drummond e a Dolores foram padrinhos de casamento do João. Estavam sempre a trocar correspondências. Bem... é certo que o Drummond, quando se trata de escrever cartas é mais econômico que o personagem avarento dos Mercadores de Veneza de Shakespeare.
Nisso entrou no restaurante o Oswald de Andrade com sua palheta branca, elegantemente vestido. Ao vê-lo na entrada, Mário de Andrade levantou-se, pediu desculpas para nós e disse que tinha um compromisso urgente. Foi aí que me lembrei de que havia certa animosidade entre os dois. Sérgio Buarque também se levantou para cumprimentar Oswald e eu resolvi sair para acompanhar Mário de Andrade até a porta. Cumprimentei Sérgio e combinamos um encontro na Confeitaria Colombo na próxima semana no Rio de Janeiro. Ao sairmos senti que tudo havia desaparecido. Mil carros modernos e velozes passando pela rua e ainda avistei bem longe, envolto por névoas, o andar apressado do Mário.
Infelizmente estou cá sem saber se sonhara caminhando ao descer a Rua Augusta, ainda fascinado pelo filme A meia noite em Paris ou se havia entrado no túnel do tempo. Não imagino o que possa ter acontecido, mas devo dizer que foi emocionante  aquele encontro surrealista com dois dos mais importantes intelectuais paulistas. Como o túnel do tempo é uma ficção, tributo mesmo esta crônica ao desvario da idade.

Renato Ladeia




quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O TORCEDOR DO SÃO CRISTÓVÃO

O SÃO CRISTÓVÃO E O ESTRELA F.C.  DE VILA MARLENE

O que você acha do Conny? Antes que eu pudesse preparar a resposta, outro amigo entrou na conversa e afirmou categoricamente:
- Ele é bom e não me perguntem o porquê, mas sei que é ele é bom,
- Mas tem que ter algum motivo para ser bom, ora essa.
- Ele é bom porque é torcedor do São Cristóvão.
- Mas só porque torce para o São Cristóvão?  Esse não é um bom motivo para ser considerado um bom escritor.
- Ele não está na Academia Brasileira de Letras? Então é bom e ainda mais que torce pelo São Cristóvão.
 Aqui em São Paulo ele torce pelo Santos, mas no Rio de Janeiro é São Cristóvão e ponto final. Não sabe muito bem porque, mas torce, sofre e chora.   Bom ... saber ele sabe. Uma vez,  contou,  leu uma crônica do Conny em que ele relata que um entregador de pizza apareceu na porta da casa do escritor com a camisa do São Cristóvão e ele curioso perguntou se ele torcia mesmo para o time. Ele e o entregador de pizza eram provavelmente os únicos torcedores do São Cristóvão no Rio de Janeiro. O cronista ficou emocionado por encontrar alguém, vivinho, em carne e osso, que torcia pelo seu time do coração. Deu uma boa gorjeta e foi  comer a pizza que o seu  pessoal já estava esperando.
E foi por isso que o nosso amigo, paulistano e torcedor do  Peixe lembra que depois de ler a crônica ficou meio mamado pelo time de segunda linha, que servia apenas de sparing para os times grandes do Rio. E é o único time que não troca a camisa. Pode jogar contra o Flamengo, o Vasco etc e a camisa é sempre a mesma. Quem quiser que troque a camisa, pois o São Cristóvão não troca. E não é por teimosia não, mas é porque tem apenas um jogo de uniforme. Ou joga com aquela ou joga pelado, não tem opção.
                Depois dessa conversa meio maluca, fiquei pensando se valia mesmo a pena torcer por time grande. Foi aí que me lembrei do velho Estrela F.C. de Vila Marlene, São Caetano do Sul, onde eu morava quando criança. Quase todos os domingos ia assistir aos jogos do time da vila e torcia mesmo, vibrando em cada jogada.  Depois dos jogos, se vitoriosos, os jogadores voltavam a pé, uniformizados, para a sede, que ficava a dois quarteirões  do campo, com mais um trofeu, orgulho dos jogadores. Na sede, um barracão nos fundos de um armazém, os troféus eram expostos em uma  rústica estante de madeira. Na segunda-feira, voltando da escola, gostava de admirar os uniformes dependurados nos varais do quintal de uma lavadeira. Ficava orgulhoso de ver as camisas do meu time da vila balançando ao vento. Quantas glórias!
Argemiro Piffer nosso vizinho de frente, era um zagueiro do time e gostava de tomar sol sem camisa, exibindo seu corpo sarado com uma águia tatuada no peito. Naqueles tempos era raro ver alguém tatuado e a garotada ficava curiosa querendo saber como aquela tinta não saia quando ele tomava banho. Grande Miro, torcedor do Corinthians, beque central do Estrela F.C. que me levou ao Pacaembu pela primeira vez para assistir um jogo do timão. Foi um dia de aventura para os meus 12 anos. Fomos de carona na boléia de um caminhão.   Morreu moço o Miro depois de um acidente inexplicável, deixando mulher e filhos.
             Mas infelizmente o Estrela acabou ou relaxou como se dizia na época. As camisas ficaram gastas e imprestáveis e não apareceu nenhum patrocinador para comprar um jogo novo de camisas. Os grandes craques do Estrela F.C.  também não tinham dinheiro para comprar nem chuteiras, quanto mais o uniforme. O seu Manuel, o português da padaria, às vezes, pagava a lavadeira quando faltava dinheiro, pois sempre tinha alguém desempregado. De qualquer forma o futebol de várzea estava com os seus dias contados por obra da força demolidora da especulação imobiliária. Mas enquanto durou o time, os nossos humildes  ídolos suavam a camisa, ralavam-se no chão de terra batida e tinham como glória apenas o prestígio entre os homens do bairro e das crianças que os reconheciam nas ruas. Para eles aquilo era demais. Por isso eu também acho que ser torcedor do São Cristóvão é motivo de orgulho, pois não ganha campeonato, não aparece na televisão, mas está no coração do povo. Viva o São Cristóvão e todos os seus (poucos) torcedores.
            Quanto ao velho Cony recordo-me do romance Travessia  entre outros que ele publicou ainda nos tempos de ditadura. Travessia é um bom livro, corajoso para a época, mas a história da indenização que ele recebeu por ter sido oposição ao governo militar, confesso que não engoli, uma mancha na sua biografia. Como disse o Millor, eles não fizeram oposição, mas um fundo de pensão.

Renato Ladeia

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CATOLÉ E SUAS HISTÓRIAS




Catolé é o apelido de Cleoton Fernando de Sena, nascido em Catolé do Rocha, Paraíba, que conheci através de amigos em São Caetano do Sul. Funcionário do Banco do Brasil transferiu-se ou foi transferido, não sei ao certo, para São Paulo, onde angariou um grande número de amigos pelo seu jeito simples, brincalhão e também pelas boas histórias que contava com bastante picardia. Catolé também tocava um bom violão, que animava as rodas de samba.
Sua história de vida é surpreendente, de origem muito humilde, foi internado em uma instituição para crianças carentes, chamada Pindobal, lá mesmo na Paraíba, cuja história ele resgatou, tempos depois, através de um vídeo que provava que é sim, possível, tirar crianças da rua e dar-lhes amparo e educação de qualidade. Catolé ao contrário do irmão que fez medicina, fez o curso superior em Belas Artes no Rio de Janeiro e conseguiu um bom emprego através de concurso no Banco do Brasil, onde fez uma longa carreira até a aposentadoria.
Mas Pindobal ficou na memória do Catolé como um paraíso perdido no tempo. No vídeo mostrou os dormitórios, as salas de aula, refeitório, pátios e os locais onde as crianças cultivavam seus próprios alimentos. Era uma imagem contundente do abandono de um projeto que deu certo na época e foi descartado pelo poder público.  Durante a apresentação que fez para os amigos, comentava indignado o abandono da instituição que conseguiu transformar pessoas como ele, em cidadãos dignos desse nome. Em alguns momentos percebia-se lágrimas no seu rosto, fruto das emoções que as lembranças provocavam.
Lembro-me de uma reunião na casa de um amigo em que o Catolé contou algumas histórias muito engraçadas. Uma delas era sobre um primo dele que veio de Sergipe para procurar emprego em São Paulo, ficando hospedado na casa de um tio. Passados três meses nada de emprego e as economias que o rapaz trouxe minguaram, restando apenas o dinheiro para a passagem de volta. O tio ao saber da decisão do jovem tratou logo de animá-lo e não aceitou que um parente seu voltasse fracassado para a terrinha. “Meu filho vou lhe ensinar como é que se procura emprego aqui em São Paulo”, sentenciou o tio, morador há muitos anos na cidade. Foi então que o tio orientou o rapaz para que pegasse o jornal e não se preocupasse com a experiência requerida. “Basta dizer que tem experiência e pronto. Lá dentro você aprende com o tempo”.
Assim, o moço viu um anúncio no jornal: “Indústria eletrônica precisa de nissei com prática” ele não teve dúvidas e no dia seguinte, bem cedo, lá estava na fila de candidatos ao emprego, destacando-se pelo seu porte alto entre os nisseis. O selecionador ao ver aquela figura estranha na fila de candidatos, perguntou curioso: “Você é nissei mesmo?” “Sou sim senhor e tenho muita prática”, respondeu convicto.
Mas Catolé, para tristeza dos muitos amigos que deixou na terra da garoa, voltou para o Nordeste onde trabalhou até se aposentar. E foi no Rio Grande do Norte que passou os seus últimos anos de vida e onde construiu um aconchegante chalé para receber os amigos e parentes.  Mas uma doença que não foi convidada alojou-se sorrateiramente em seu corpo e levou o nosso Catolé para outra dimensão. A dimensão da saudade eterna. Eterna enquanto durar a vida dos seus muitos amigos que ele deixou por estas bandas que vão sempre se lembrar dos seus sambas, das suas histórias e do seu jeito simples e verdadeiro.

Renato Ladeia

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A DESPEDIDA


A primavera havia chegado há poucos dias, mas a garoa fina e o frio continuavam. A festa estava mais para um bom vinho, mas quem é que poderia prever esse tempo maluco de uma região subtropical de transição. Mas a cerveja era das boas, o espetinho estava caprichado e o pernil estava exuberante. Mas boa mesmo era a conversa, conversa de uma juventude bela e sorridente, conversas de velhos resgatando o passado e lembrando que também não tem muito futuro. A vida é assim mesmo.  
Numa roda de homens com os cabelos grisalhos e brancos, um deles falou em alto e bom tom: “De repente a gente descobre que está velho! É assim mesmo, um dia você acorda e sente que as pernas não funcionam tão bem como antes, além de outras coisas. Ontem, incomodado às 7h por um barulho que não me deixava dormir, levantei furioso para xingar os operários que estavam martelando do lado do meu quarto, no terreno vizinho. Coloquei a escada para dar uma bronca, a escada escorregou e desabei. Fiquei estendido no chão até que alguém  me socorresse.  Foi aí que percebi que não sou mais o moço que pensava ainda ser;  caiu a ficha”.
Aquela conversa pode não ter sido muito agradável, pois ninguém gosta de ser lembrado que está ficando velho, mas o  amigo estava conformado e parecia não se preocupar muito com o passar do tempo. Porém, é bom ter o conforto de antigos companheiros para compartilhar a passagem do tempo. Pior é envelhecer sozinho, solitário. Lembrei-me das palavras de uma amiga na passagem dos seus oitenta anos: “Nada me faltará, pois tenho amigos”. Que palavras bonitas, que chegam a dar um calorzinho no coração.
 A festa era a despedida da filha de um velho e querido amigo.  A menina vai para a Austrália com o namorado e vai ficar por lá pelo menos um ano. O nosso amigo estava feliz pela filha ter feito a generosidade de convidar alguns dos seus velhos amigos para que não se sentisse isolado no meio da garotada. Ela vai para o outro lado do mundo. Quando estiver dormindo estaremos acordados e vice-versa. É um país imenso, maior do que o Brasil e tem apenas a população equivalente a do Estado de São Paulo. São novos horizontes, novas culturas, novas expectativas, outra língua e outros mais.
Os filhos crescem, vão cuidando das suas vidas, ganhando independência e vão deixando os velhos em seu mundo, em seu passado. Um mundo que mudou, um mundo diferente daquele que existia em outros tempos.  Os valores são outros, a música é outra, os medos são outros. São novos ditadores, novas opressões e novas incertezas. Mas nosso amigo estava feliz, apesar da partida da filha; fez o seu tradicional churro, riu, cantou, brincou. Mas será que na solidão do seu quarto não chorará baixinho para que ninguém ouça? Quem sabe. Lágrimas foram feitas para chorar e não para guardar.

Renato Ladeia

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O VELHO ADONIRAM


Adoniram Barbosa ou o João Rubinato nasceu em 1910, na cidade de Valinhos, interior do de São Paulo e mudou-se para Santo André no ABC paulista em 1924, onde passou alguns anos trabalhando como operário e biscateiro antes de ir para o bairro do Bexiga que o revelou para o país e talvez para o mundo. Estaria com cem anos se vivo ainda estivesse. Ainda bem, pois já imaginaram a aporrinhação em cima do sambista? Entrevistas para a televisão, rádio, jornais, revistas e curiosos. O genial velhinho ficaria de saco-cheio e provavelmente todo esse assédio não lhe renderia nenhum trocado para aliviar o seu orçamento. Por isso ele desabafou certa vez quando lhe perguntaram como se sentia sendo tão homenageado: “Homenagem não paga as contas”.

E por falar em homenagens, são várias que estão pipocando por aí para lembrar o maior sambista paulista, que com a sua irreverência, resolveu desmentir o Vinicius de Moraes que teria dito que São Paulo era o túmulo do samba. Com o samba Trem das Onze, ganhou um festival de samba no Rio de Janeiro, em comemoração ao IV centenário da cidade. O Vinicius teve que levar para o túmulo a fama de agourento da nossa paulicéia desvairada. Pessoas famosas não podem falar coisas que possam comprometê-las no futuro. Quem não se lembra do Gerson e aquela propaganda odiosa? Pois é, o publicitário bolou uma campanha e sobrou para o jogador o ônus de carregá-la nos ombros até o final dos seus dias.

E por essas e outras fui assistir ao show do Carlinhos Vergueiro, acompanhado pela “cara-metade” e o amigo sambista e compositor Zeca da Silva, na cidade de Santo André, onde o Adoniram morou alguns anos. Esperávamos a casa cheia e por isso tratamos de chegar cedo para evitar a disputa indesejável de poltronas com pessoas mal educadas. Qual o quê! Uma platéia quase vazia aplaudiu e vibrou com o velho e bom sambista Carlinhos Vergueiro, dono de uma vitalidade incrível, que cantou e contou histórias sobre o homenageado, com o qual conviveu e se tornou parceiro em alguns sambas. Numa delas, ele relata outra versão da história da letra de Iracema. Segundo ele, o Adoniran estava caído por uma moça que não lhe dava a menor chance. Desiludido, avisou a tal que iria matá-la (simbolicamente, é claro) compondo o samba em que sua diva morre atropelada.

Adoniram foi mais do que um sambista, foi também um cronista da Paulicéia. Vivendo e circulando entre os bairros do Bexiga, Mooca e Brás, ele captou o jeito típico do paulistano boêmio, gozador e também sofredor. Com letras simples e usando um português muito distante do idioma de Camões, repleto de italianismos e erros de concordância, ele conquistou o coração dos paulistas e também dos imigrantes. São histórias do homem comum, do trabalhador, do desempregado, do sem teto, que busca sobreviver na grande capital. Saudosa Maloca, que retrata o eterno problema de moradia com as invasões de espaços públicos e particulares pelos sem-teto, revela uma crítica social, mas também um conformismo diante do sistema econômico. Os velhos palacetes assobradados abandonados ainda existem e de vez em quando lemos nos jornais que foram invadidos ou desocupados à força. O edipiano Trem das Onze que passava no Jaçanã apenas para rimar com amanhã lembra o problema do transporte público na maior cidade do país e se tornou a música símbolo dos paulistanos. A Iracema que morre atropelada por atravessar na contramão é mais uma cena do cotidiano paulistano, com os milhares de atropelamentos, interrompendo vidas de crianças, jovens e adultos de uma forma violenta, deixando rastros de tristezas e saudades.

Mas há outra história sobre a carreira de Adoniran Barbosa, contada pelo Walter Silva, o “Pica-Pau”. Adoniran era bem diferente daquela figura brincalhona, irônica e engraçada que conhecemos. Teria sido um sujeito mais sério, que cantava músicas de Noel, como Filosofia, que ele defendeu num programa de calouros. O Adoniran que fez sucesso na paulicéia e depois no Brasil foi criado pelo produtor Oswaldo Molles para um programa de rádio nos anos cinquenta. O personagem foi o “Charutinho”, que ele incorporou até o final dos seus dias. Walter Silva ainda afirmou que o português errado dos sambas foi, muitas vezes, obra dos “Demônios da Garoa”, que imprimiam um tom humorístico às suas músicas.

Adoniran, com português errado propositalmente ou não, deixou sua marca no samba e na cultura paulistana. Até hoje muitos cariocas acreditam que os paulistas falam como nas suas canções; mas mesmo sendo um descendente de italianos meio acaipirado, colocou a paulicéia no panteão do samba. E sobre falar errado, é dele a frase: “A pessoa, pra falar errado, precisa saber falar errado. Se não souber é melhor não falar errado”.

Renato Ladeia













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A PRIMEIRA TELEVISÃO





A primeira televisão a gente nunca esquece, não é mesmo? É evidente que eu me refiro àquelas pessoas com mais de cinqüenta anos que viram o aparelhinho entrar pela primeira vez em casa. Meus pais resistiram muito em comprar uma TV por acharem que o rádio já estava ótimo. Além disso, os aparelhos da época ficavam mais nas oficinas de conserto do que na sala de visitas. Isso era visível quando o carro da Eletrônica Kodama parava em nossa rua para levar ou trazer aparelhos com problemas. O japonês era o melhor técnico da praça, pois consertava tão bem os aparelhos que ficavam funcionando até três meses, o que era um recorde. Naqueles tempos ter uma televisão significava ter mais um filho para sustentar.
Uma senhora que morava em frente à nossa casa comprou a primeira TV da rua e como tínhamos uma intimidade maior com ela, eu e meu irmão mais novo íamos lá assistir o Zorro, A turma do Sete e até o Alô Doçura, com o John Herbert e a Eva Wilma. Programão! E foi por causa da televisão da vizinha que meus pais resolveram comprar uma também, pois detestavam que a gente fosse à casa dos vizinhos para incomodá-los. A nossa primeira foi uma Invictus, uma perfeita bomba se considerarmos os padrões de hoje. Em todo momento ela desregulava e precisávamos ficar girando os botõezinhos da vertical e da horizontal. Normalmente na melhor parte do filme ou programa, a faixa horizontal disparava.
Havia também a disputa por programas. Meu pai adorava o telecatch aos sábados e a garotada preferia, obviamente, o Bonanza, um faroeste sobre uma família de fazendeiros que fez muito sucesso nos anos sessenta. Era o máximo, desde que meu pai não ficasse com o saco-cheio da lengalenga do Bonanza e resolvesse dar uma espiadela na luta livre. Era um saco. Ninguém saía da sala  por uma questão de respeito ao velho, mas que dava vontade, isso dava.
Lá em casa se ouvia falar sobre a televisão há muito tempo, mesmo antes das primeiras aparecerem no bairro. Meu avô falava nela desde os anos quarenta, quando leu umas notícias numa revista estrangeira que ele assinava. Meu pai contava que quando ele falava sobre a televisão o pessoal do interior pensava que ele tinha ficado louco. “Onde já se viu ver as pessoas de longe? Isso é coisa de velho caduco”. Meu amigo Sinézio Dozzi Tezza contava que em Descalvado o prefeito colocou um aparelho na praça para o povo assistir e ele com seus amigos subiam numa árvore e ficavam assistindo com os olhos fixos no aparelho. Para espantar “coisa ruim” eles faziam figa nos dedos, pois os mais velhos diziam que era coisa do demônio.
Mas a televisão, apesar das suas múltiplas vantagens em termos de lazer e informação, acabou destruindo uma extensa rede social. Os gibis foram perdendo o seu glamour, já que podíamos ver os nossos heróis diretamente na telinha, “vendo a vida mais vivida, que vem lá da televisão”, como diria o poeta. Nossos vizinhos sempre apareciam durante a semana ou no final para um cafezinho e falar de política ou sobre os últimos acontecimentos. Com a telinha se espalhando pelo bairro, os contatos diminuíram tanto que as pessoas mal se falavam. A televisão isolou as famílias no aconchego dos lares. O cinema do bairro, aos poucos foi perdendo o público e isso aconteceu também depois com os cinemas centrais. A conversa quando se encontravam não era mais sobre a família, as novidades, as receitas, as viagens. Os assuntos mais importantes vinham lá da televisão. A imagem passou a ser mais importante do que a realidade.

Renato Ladeia

sábado, 5 de março de 2011

UMA MENINA CHAMADA MARIA QUE ABALOU O QUARTEL


Foi no longínquo 1967 e Maria estava com pouco mais de dezesseis anos; não era bonita, nem feia, era pobre e morava, provavelmente, em algum dos muitos  cortiços de São Caetano do Sul, no ABC paulista. Sem muito que fazer,  circulava pelas imediações do Tiro de Guerra paquerando os jovens bonitos e sarados de classe média. Ninguém lhe  dava atenção, mas ela continuava insistindo em passearr por ali e, às vezes, ficava no portão observando os exercícios militares. Eram duas horas de atividades diárias, com um pequeno intervalo para um cafezinho e um cigarro, para quem fumava. Terminadas as instruções, todos saiam às pressas para o trabalho ou para estudar e nunca ninguém prestava atenção na pobre Maria.
Mas Maria apareceu por lá numa quente e enluarada noite de sábado. Os rapazes estavam de plantão. Seriam doze longas horas de fastio. Cada Companhia tinha a sua escala e dez ou doze rapazes eram sorteados para a triste tarefa. Como eram da mesma Companhia, todos se conheciam, o que criava condições para alguma cumplicidade com o cabo da guarda, responsável perante o sargento pela disciplina do grupo.  Com 18 anos e com alguma rara exceção, eram todos imaturos, e se deliciavam em fazer brincadeiras durante o período como urinar nas botas dos companheiros que dormiam durante o descanso. Soube que numa outra ocasião, desceram até o centro da cidade, todos carregando os velhos e inúteis fuzis de instrução. Entraram em bares e causaram bastante alvoroço, principalmente porque o país estava  em plena ditadura militar.
Neste  fatídico sábado estavam de plantão alguns garotos, muitos  de tradicionais famílias do local e já passava das 23 horas quando alguém convidou Maria para entrar no quartel. O sargento residente não estava, o que facilitou as coisas. A pobre menina talvez tivesse pensado que fosse passar alguns momentos com aquele moço bonito que a convidara, mas mal sabia o que a esperava.
Num aposento do andar superior, um após outro penetrava a pobre menina que não podia gritar ou reclamar, enquanto os demais ficavam de plantão para qualquer emergência. Um recruta dava o sinal para o próximo.  Terminada a farra, Maria, que sonhou uma história de amor, estava destruída, sem forças nem para andar. Colocaram-na em um carro e a abandonaram numa rua alguns quarteirões distante do quartel. Estaria tudo resolvido se uma viatura da policia não houvesse passado por lá e encontrasse a menina desmaiada na calçada. Levada para o pronto-socorro, o médico diagnosticou o caso como estupro. Depois de medicada, os policiais a levaram até o quartel onde identificou todos os rapazes, incluindo aqueles que estavam dormindo, pois não tinha condições de se lembrar dos rostos, todos muito parecidos com os cabelos com corte à americana.
            No domingo, durante o intervalo, o comentário sobre o caso se espalhava por toda a guarnição. Os sargentos estavam tensos, os colegas envolvidos mais ainda. As conseqüências pareciam trágicas para todos eles. Dois deles eram noivos, outros tinham compromissos sérios com boas moças pertencentes à famílias tradicionais da cidade.  Alguns trabalhavam em bancos ou empresas da região. Recordo-me de que havia encontrado alguns deles em um baile próximo ao quartel. Estavam planejando ir para o quartel depois do baile para  encontrar com a turma e nem imaginavam, o que poderia acontecer. Também esses participaram do caso, com o agravante de que não estavam de serviço na Guarnição militar.
            Todos eles afirmaram que a garota era uma vadia e que entrou no quartel porque quis e não foi forçada a nada.  Mas a notícia estava nas primeiras páginas dos jornais da segunda-feira e nada seria capaz de amenizar o impacto causado. O fato da garota não ter dezoito anos complicou ainda mais a situação. Todos seriam julgados por um tribunal militar por estarem engajados ou seriam expulsos e julgados pela polícia civil? A expulsão do quartel era óbvia, mas o crime continuava sendo militar.
            No domingo seguinte o comandante fez um discurso pesado, exaltando a moralidade e a disciplina militar. Os colegas envolvidos foram destacados do grupo e já sem fardas foram formalmente expulsos. Todos esperavam que um camburão da polícia estaria do lado de fora para levá-los presos, mas nada disso aconteceu. Todos voltaram para as suas casas e responderam o processo em liberdade. O processo se arrastou por mais de um ano e no final  os mais implicados foram fazer o serviço militar em outros Estados os demais foram desligados por mau comportamento.
Algum tempo depois, já concluído o serviço militar encontrei com um deles. Tínhamos estudado no mesmo colégio e era uma pessoa bastante educada e simpática. Fomos a uma festa juntos e algumas vezes falamos sobre o episódio. Percebi que isso provocava um grande mal estar. A família da namorada o acusou de tarado e foi proibido de vê-la.
Alguns anos depois o encontrei novamente, desta vez estava numa situação deplorável. Embriagado, estava parado na porta de um bar perturbando as pessoas que passavam com palavras de baixo calão. Parei diante dele e o cumprimentei. Ao reconhecer-me ficou um pouco envergonhado por seu estado lastimável. Aos poucos consegui convencê-lo a ir até um local mais tranqüilo para tomarmos uma bebida. Durante o caminho falou sobre a merda que se transformou sua vida depois do episódio da garota. “Eu não tive culpa, todo mundo estava trepando com ela. O que eu poderia fazer?”, repetia o tempo todo.
E a pobre Maria, onde andará? No que transformou sua vida, seus sonhos e esperanças? E o restante da turma? Quase todos eles se casaram, tiveram filhos e são cidadãos respeitáveis, mas será que ainda se lembram da menina? Provavelmente não. Um deles encontrei num vôo para Manaus, aonde ele ia a trabalho como eu. Durante a viagem, falamos dos velhos tempos de serviço militar, mas sobre a pobre Maria, ele não pronunciou uma única palavra. O quente e enluarado sábado caiu no vazio do esquecimento.

Renato Ladeia

terça-feira, 1 de março de 2011

A BENGALA

A BENGALA


                Francisco tinha uma bela bengala japonesa que herdou do seu avô. Era de cerejeira com cabo de prata. Com quase setenta anos de idade, ele circulava com ela orgulhoso pelos corredores da empresa. Não que precisasse da bengala para se locomover, mas por um pouco de esnobismo. Mas isso não significava que era um esnobe, apesar do sobrenome pomposo que revelava uma origem nada modesta. Ele apenas tinha saudades dos esnobismo dos velhos tempos do Rio de Janeiro quando seu avô paterno circulava por Copacabana usando elegantemente seu chapéu Panamá  e a bengala. Algumas vezes, contava ele, o avô o levava para saborear algumas guloseimas na Confeitaria Colombo. Era um acontecimento inesquecível, que gostava de relembrar sempre que me encontrava. Contava, também, que às vezes, o avô o deixava brincar com a bengala desde que não se afastasse muito do seu olhar, pois era muito ciumento com ela. Mas disse-lhe, claramente, que seria sua depois que partisse.
E assim o seu Chico empurrava com lentidão os seus dias; aguardava ansioso a sua aposentadoria, quando então poderia retornar ao Rio e curtir o que havia restado da velha cidade maravilhosa. Quando saia para visitar clientes, não deixava de levar a sua velha bengala que teria quase duzentos anos, justificando que era uma boa defesa em caso do ataque de algum malandro que resolvesse se aproveitar da situação por ele ser idoso.
Alguns funcionários mais jovens já reclamavam do velho por ser difícil trabalhar com ele, que não produzia o suficiente, que estava empregado por ser protegido por um diretor. Essa desconfiança era até plausível, pois os dois pareciam ter algum laço de parentesco, principalmente pelo jeito de falar e de andar. Protegido ou não ele não perdia a fleuma e circulava elegante com a velha bengala trazida do país do sol nascente e, vez por outra, pitava um velho cachimbo, que dizia ser um inglês autêntico.
Num dia desses esqueceu a velha bengala em um dos veículos utilizados pelos vendedores da empresa. Ficou desesperado, pois não conseguia se lembrar onde deixara a sua relíquia. Passou o dia procurando e perguntando em todos os departamentos se alguém a havia visto. Nem sinal. Ainda o encontrei no corredor lamentando a perda com os olhos marejados.  O mistério da bengala desaparecida durou alguns dias, tornando-se um caso que subiu ao topo da hierarquia da empresa. Finalmente, o mistério foi desvendado. Um vendedor, por acaso, japonês, como a bengala, encontrou-a  no carro que ia usar e, por absoluta falta de sensibilidade, a jogou no recipiente de lixo juntamente com alguns jornais velhos que estavam no banco traseiro.
A história circulou pelos escritórios e todos se sensibilizaram com o velho Chico que perdera sua velha bengala que o ligava aos seus ancestrais. Lamentou por vários dias, sempre contando a alguém a história do sumiço da bengala e sobre a maldade do colega. Classificara a atitude como insensível e desrespeitosa para com os pertences alheios.
Mas não tardou e  a sua aposentadoria finalmente chegou;  entretanto, não voltaria para o Rio de Janeiro para passear na velha Copacabana no final da tarde e aproveitar os últimos raios de sol, como planejara. A história da bengala tirou a alegria do velho, que se fechou numa tristeza de fazer pena. Num dia, que não terminou para ele, ficou debruçado sobre a mesa de trabalho e nunca mais acordou.  Na manhã seguinte o faxineiro foi avisá-lo  que encontrara a velha bengala. Estava no depósito que ficava ao lado da garagem, junto com vassouras e material de limpeza. Alguém a achou e  se esqueceu de perguntar de quem era.  Mas para o seu Chico era tarde demais.

Renato Ladeia

               

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

“O ROUBO DO CELULAR”


 Contou-me um velho camarada que acordou disposto no último sábado e resolveu fazer uma visita surpresa à uma velha amizade em Piedade, cidade ao sul da capital paulista. Convocou o filho como motorista, pois é uma viagem e tanto para os seus quase 70 anos. A cidade, para quem não conhece, é bastante pacata, um povo hospitaleiro e gentil. É a própria cidadezinha qualquer que o poeta Drummond imortalizou nos seus versos. Ninguém por lá tem muita pressa, sinal de que a febre do “time is Money” ainda não chegou com tudo por aqueles recantos. As coisas em Piedade tem um ritmo próprio nem muito apressado, nem muito devagar. Trombadinhas e assaltantes são coisas estranhas e quando acontece, rapidamente, o delegado descobre que não é de Piedade, mas de alguma outra cidade vizinha ou gente da capital.
E foi pensando no bucolismo da velha Piedade, que meu amigo acompanhado do filho aportou no lugarejo, passando antes num restaurante para não chegar de barriga vazia na casa do amigo, que não estava esperando a visita. É evidente que se chegasse com fome, a amável dona da casa fritaria uns ovos, esquentaria o feijão com arroz e estava tudo bem como reza a tradicional hospitalidade do nosso interior; mas meu amigo é orgulhoso e não gosta de dar trabalho.
No restaurante saboreou um frango grelhado com salada e deu uma bicada na cerveja. Conversa vai conversa vem, deixou seus pertences na mesa aos cuidados do filho e foi se aliviar no banheiro (Não sei por que a gente tem mania de chamar de banheiro, um local que nunca tem chuveiro). Terminado o almoço, acertadas as contas, pegaram o carro e no caminho se deu conta de que o celular não estava com ele. O filho não reparou o celular na mesa. “Fui roubado” exclamou  decepcionado. “Até aqui em Piedade já tem ladrão de celular! Está tudo perdido”, foi reclamado até o destino.
Na casa do amigo contou a história e este tratou logo de acalmá-lo lembrando que a dona do restaurante era uma velha conhecida e se o celular foi roubado lá, ela haveria de encontrar o larápio e o objeto surrupiado. “Aqui no interior a gente sabe de tudo”, disse ele com a tranqüilidade que lhe é peculiar.  Depois de colocarem a conversa em dia, relembrando as  antigas aventuras e desventuras, as notícias dos amigos, tocaram viola e cantaram em dueto velhas modas caipiras. Terminada a visita, foram os três à cidade e passaram no restaurante para ver se a dona tinha notícias do telefone móvel, como se diz em Portugal.
Lá chegando, o amigo de Piedade explicou o acontecido para a dona do restaurante, que muito zangada, disparou:
- Ah quer dizer que foi o f.d.p. que foi cagar e derrubou o celular no vaso é seu amigo? Precisei chamar um encanador para consertar o estrago. Quero saber quem vai pagar o meu prejuízo?
            O piedadense virou-se para procurar o seu amigo da capital e não viu nem rastro. Como a amiga falou muito alto ficou a impressão de que era uma discussão com ele.  Precisou se desculpar com ela e saiu sorrateiramente em meio ao movimento da casa antes que encontrasse algum conhecido. O meu amigo e seu filho, quando ouviram a conversa e já sabendo que o celular já era, deram meia volta e saíram de fininho antes que a “obra” se tornasse pública e, além disso, poderia correr o risco de pagarem a conta do encanador.
No retorno à São Paulo foi pensando no celular e na tecnologia que permitia que  a sua mulher, os clientes e os chatos acompanhassem os seus passos em tempo integral, onde quer que fosse. “É, o celular está resolvendo problemas que eu não tinha antes...”, matutou.  Como o filho havia esquecido o dele em casa, estava feliz da vida, pois não recebeu nenhuma ligação desde que o maldito celular tinha ido para o esgoto. E assim aproveitou a viagem para apreciar o verde entre Piedade e Ibiúna que se espalhava até onde a vista alcançava. “Verde que te quero verde...”. E assim, recostou-se preguiçoso nos versos do poeta de Andaluzia e só acordou com o barulho infernal do trânsito de São Paulo.
O seu velho companheiro de Piedade logo  se deu conta de que o amigo fez uma “bela cagada”. Além de perder o celular, que não devia ser dos mais baratos, ainda o deixou em maus lençóis na cidade. Voltou para casa pensando no partido-alto logo mais a noite do bar do Mineiro em que o assunto com certeza estaria em pauta. Em cidade pequena as notícias andam mais rápido do que na internet. Vai ser um mico daqueles. “É... quem mandou ter amigo moderno da capital?”, resmungou desacorçoado, enquanto acendia um cigarro de palha.

Renato Ladeia



sábado, 22 de janeiro de 2011

O FRANGO-PARATI


“Quem for a Ilha do Cardoso, paraíso ecológico do litoral sul de São Paulo e não  saborear o parati frito da bodega do seu Malaquias, na enseada da Baleia, podes crer, não conheceu a ilha. O sabor do peixe é inconfundível e o jeitinho do proprietário em prepará-lo o torna uma das melhores iguarias da culinária caiçara”. Meu amigo Dedo, antigo freqüentador da ilha sempre cantou em prosa e verso as virtudes do parati frito do seu Malaca e na última vez que fui para lá resolvi tirar a prova. Só que é longe, muito longe de onde estávamos hospedados, se é que se pode dizer hospedados na ilha. Na Ilha do Cardoso a gente não se hospeda, a gente se ajeita num canto, se acomoda. Para ficar na ilha a pessoa não pode ser luxenta, enjoada, fresca... Tem estar pronto para o que der e vier.
Como já disse  a bodega do seu Malaquias fica longe e bota longe nisso. São quase doze quilômetros caminhando pelas praias. Assim foram três horas de andanças, contemplando o mar, a natureza quase virgem, mas chegamos à Enseada da Baleia com a fome e a sede de anteontem. Eu já estava ouvindo o barulhinho da fervura do azeite fritando e a minha imaginação começou a colocar até o cheiro de peixe frito no ar. Era um cheiro bom, gostoso, caseiro. Foi o que aconteceu comigo na chegada à Enseada da Baleia.
Mas lá tivemos uma triste surpresa. O velho Malaquias havia falecido e  o seu neto estava tocando o negócio. O meu velho companheiro sentiu que a bodega não era a mesma sem a maestria e a presença do seu Malaquias. Lá se comia e se bebia fiado com base na amizade e confiança. Ele gostava de ver a freguesia alegre e festejando. Nada de cara feia. O bar era muito simples, mas gostoso.  O destaque da bodega é uma foto dele com o Lula durante a campanha eleitoral de 2002, tomando uma caninha no balcão. “Quero ver o que este comunista vai aprontar lá em Brasília”, disparou  o Malaca depois que soube da vitória do Lula nas urnas.
Fomos chegando e perguntando se tinha alguma coisa para comer. Peixe fresco? Não. Camarão? Qual o quê. O moço estava mais preocupado em fazer chamego para a namorada do que em atender a freguesia. Só tinha mesmo as geladinhas de sempre.
A minha fome era tanta que sentia um vazio maior do que o corpo. Como não tenho gordura de reserva, comecei até sentir um mal estar. Foi então que uma moça de Sorocaba que acompanhava a gente se ofereceu para buscar alguma coisa, quem sabe parati frito numa casa vizinha. Foi num pé e voltou em outro com uma travessa fumegante e cheirosa. Não tive dúvidas. Ataquei o parati frito. Era um sabor delicioso, soberbo, senti o tempero inebriando a alma. Não tinha chef francês que faria coisa melhor. Era uma iguaria para ser servida em jantar de posse de presidente. Meu amigo já ia abrindo a latinha de uma “loura” geladinha quando alertei:
- Parceiro, experimente esse parati frito antes de abrir a geladinha. Você vai sentir o sabor da ceia dos deuses.
Foi aí que a moça que foi buscar a comida, avisou: “Pera aí Zeca, não é parati frito não, é frango mesmo”. Aquilo doeu fundo. Eu que sempre abominei carne de frango ou de qualquer outro  bicho que voa. Como é que não percebi o gosto. Como é que vai  ficar minha reputação de inimigo das penosas diante dos amigos que precisam mudar o cardápio na  última hora quando apareço para fazer uma boquinha? Uma velha amiga chegou a fazer uma tremenda encrenca numa festa  porque resolveu mudar o cardápio na última hora porque tinha frango. Como é que eu vou ficar diante dos amigos? Vou pagar o maior mico da minha vida.
Mas o meu companheiro de viagem, sacando a minha profunda decepção e desconforto, saiu em meu socorro:
- Olha Zeca, pode não ser parati, mas que eu vi uns franguinhos diferentes no quintal eu vi. Deve ser um clone de peixe com frango, pois os bichinhos não tinham penas, mas escamas. Acho que deve ser um tal de frango-parati que anda na boca do povo  pela ilha.
Não levei muito a sério a explicação do meu amigo porque ele já tinha devorado umas cinco latinhas e de estômago vazio, mas talvez possa mesmo salvar a minha pele. De qualquer forma para quem quiser me convidar para um rega bofe, vou adiantando: frango eu até como, mas só se for frango-parati, que só tem na Ilha do Cardoso.

Renato Ladeia

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O SABOR DA GALINHA - D’ANGOLA


Nunca mais saboreei galinha-d’angola depois que abandonei o hábito de passar as férias no interior, na casa de parentes. Na verdade nem me lembro mais do sabor dessa galinha.  Imagino  que é um pouco mais dura do que o frango comprado no mercado e tem um leve  sabor de caça (será?).  As galinhas-d’angola eram criadas nas fazendas, soltas e viviam em bandos; elas conseguem voar um pouco mais do que as galinhas comuns, empoleirando nas árvores próximas as casas. As galinhas d’angola vieram mesmo do continente africano, trazidas pelos portugueses durante a colonização e se espalharam pelo país de norte a sul e são também conhecidas por sakué ou guiné.
Quando menino ia passar as férias na fazenda de um tio no interior de São Paulo e uma das coisas que a minha memória auditiva gravou para sempre foi o “to-fraco, to-fraco”.  Fazenda sem esse som para mim não é fazenda, pois não consegue despertar em mim as sensações de férias, de natureza, de aventura, de liberdade. Minha mãe, logo depois de instalada na fazenda, já dizia: “Ah que vontade de comer galinha-d’angola”. Meu tio prometia que para o jantar ele iria providenciar. Assim, quando ia entardecendo, ele pegava a sua velha espingarda e saia para o quintal. As crianças, por medida de segurança, eram todas recolhidas na casa grande. Ouvia-se ao longe os estampidos e barulho de coisa caindo pelos lados do abacateiro. Logo depois o velho aparecia com duas galinhas-d’angola e as entregava para as mulheres na cozinha. A pontaria dele era certeira. Um tiro para cada uma gabava-se ele.
No jantar a galinha era servida ao molho pardo ou simplesmente cozida para o regalo de minha mãe. “Não há galinha melhor do que esta. Ah! se eu pudesse criaria galinhas d’angola em casa”. É claro que isso era impossível, pois essas galinhas são meio selvagens, vivem em bandos e poderiam perturbar a vizinhança. São também mães pouco cuidadosas, não se importando muito com seus filhotes. Elas põem seus ovos sob várias camadas de palha e somente os de cima são chocados, por isso é difícil de encontrar seus ovos.
Foi  ouvindo essas histórias que resolvi, nos devaneios dos meus oito anos de idade, caçar ovos de galinha de angola. Campeei toda manhã pelas proximidades da casa da fazenda até descobrir uma galinha botando. Aproximei-me cuidadosamente e fiquei a espreita até que ela saísse para apanhar os ovos, colocá-los no boné e aparecer como um heroi diante dos meus primos e primas.  Como a galinha estava demorando, resolvi pegar um pau para espantá-la. Mas o pau que vi se mexeu ao tocá-lo. Não era pau coisa nenhuma, mas uma grande cobra. Escapei por pouco graças ao barulho da galinha que deixou o réptil em dúvida para qual lado daria o seu bote.
Achou os ovos? Perguntou minha prima. Ainda assustado não quis nem conversa e dei uma desculpa qualquer. Naquele dia e no que se seguiu fiquei ainda assombrado com a possibilidade de ter morrido picado por uma cobra venenosa, cujas histórias há muito ouvia falar. Contava-se que um empregado da fazenda foi picado por uma jararaca e como naquele tempo não havia carro, até arrear o cavalo e atrelá-lo à carroça, não houve tempo para chegar até a cidade, distante dezoito quilômetros da fazenda. O pobre homem morreu no caminho deixando mulher e filhos pequenos. Mas no jantar ninguém entendeu porque eu não comi da galinha,  mas  também não contei. Há razões que a própria razão desconhece.
Num dia desses, acompanhado da família, tentei resgatar o sabor da galinha de angola e fomos a um restaurante especializado em pratos africanos. A decoração era esmerada, com objetos e fotografias do velho continente. Os talheres, pratos e copos eram todos de madeira africana, conforme rezava o cardápio.  Sentamos e fomos gentilmente atendidos por uma garçonete negra vestida a caráter. “Vocês tem galinha-d’angola?” Perguntei ansioso. Ela respondeu afirmativamente e fizemos o pedido.
Logo depois a moça retornou dizendo: “Infelizmente a galinha-d’angola acabou. Vocês aceitariam outro prato? Temos...”
Apesar da gentileza da moça, recusamos  a oferta e desistimos de comer no restaurante africano, pois o objetivo era mesmo comer a tal galinha, que eu cantava em prosa e verso. Acabamos indo para uma casa de massas, por sugestão de minha mulher. Lá enquanto degustávamos uma deliciosa pasta à bolonhesa, fiquei refletindo sobre a distância cultural  entre a Itália, África e a galinha-d’angola preparada pela dona Isabel, mulher do meu tio, uma portuguesa trasmontana, que usou  temperos tipicamente brasileiros. Assim me dei conta de que o Brasil de minha infância está se acabando e o sabor da galinha-d’angola foi substituído por um molho tipicamente italiano.

Renato Ladeia


domingo, 2 de janeiro de 2011

A TERCEIRA MARGEM DO RIO


A metáfora de “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, uma obra prima do conto brasileiro, é o esquecimento ou alheamento de tudo. Uma tentativa de buscar um mundo de sonhos, de afastamento das coisas reais para viver numa outra dimensão. É a história de um homem que, sem mais, nem menos, para o estranhamento da mulher, dos filhos e dos amigos, manda fazer uma canoa, despede-se e parte para uma viagem sem retorno. Uma viagem que não é uma viagem. É um desligamento da vida, das coisas materiais, das relações pessoais.  Ele estava ali, a vista, mas distante de tudo e de todos.
            A alienação  é constante na literatura. Em Rei Lear, de Shakespeare, o pai resolve, em vida, repartir seu reino entre suas filhas. Uma delas, a sua preferida,  considera a sua  decisão insensata. Ofendido por isso, ele a deserda. No final , já demente,  é abandonado pelas filhas herdeiras e é amparado pela filha deserdada.
             Dom Quixote de La Mancha, ao embriagar-se das novelas de cavalarias no século XVI e resolver sair pelo mundo como um cavaleiro andante, também buscou a sua terceira margem do rio para se desvincular do mundo real que o oprimia. Dom Quixote, como personagem, vivia entre o real e o imaginário e por vezes interpretando o real através das suas fantasias.  Cervantes faz uma profunda ironia com o seu personagem, pois em nossos dias, muita gente vê, tal como na época do autor, monstros em moinhos de ventos. Pessoas que se dizem abduzidas por seres extraterrenos, com visões de naves espaciais que nunca foram comprovadas. A loucura pode ser vista como positiva, quando o louco reproduz os interesses de segmentos da sociedade. Assim, muitos loucos estão na mídia, fazendo proselitismo de suas idéias religiosas, políticas ou mesmo artísticas.
            O personagem de Cervantes tem um comportamento intelectualmente racional quando procura explicar a importância dos cavaleiros andantes na defesa da ordem, dos injustiçados e das donzelas desamparadas, mas quando vê o real a partir da ficção, cai em descrédito.
            O seu fiel escudeiro, um mentecapto interesseiro, que mesmo tendo consciência de que o seu amo está mais para a loucura do que para a sanidade, continua insistindo em acompanhá-lo, na perspectiva de que possa algum dia receber alguma recompensa.  O escudeiro é também esperto o suficiente para enganar Quixote para evitar que este faça mais loucuras. Mas é também um insano obcecado pela ambição.
            Outra obra genial que trata da loucura ou da perda do discernimento é o Alienista de Machado de Assis. O médico Simão Bacamarte, de tanto ver insanidade nos outros, acaba percebendo-se também insano. O gênio de Machado deixa  então a dúvida  se a insanidade e a normalidade não estariam tão próximas que às vezes podem se confundir na complexidade das relações humanas.
            Quixote, Bacamarte e o Velho da “terceira margem do rio”,  não seriam personagens que vivem entre nós nas escolas, nas empresas, na política, no governo, nas ruas, nos bares? A normalidade parece ser relativa e assim pode depender do ponto de vista. Quantas vezes não refletimos sobre a sanidade de conhecidos,  parentes e amigos? Não seria também uma atitude de modéstia refletir sobre nossos próprios atos? Isso, convenhamos,  é bem mais complicado, pois nossa vaidade não deixa chegar ao ponto de admitirmos que nem sempre somos normais. Normais? Afinal o que é normalidade?

Renato Ladeia