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domingo, 13 de abril de 2008

Ao poeta do povo, Carlos Drummond de Andrade.

Todos sabem que tu não eras do povo
O povo, esse desconhecido...
Era a tua poesia
Mas as preocupações do povo
Nunca foram os teus versos
Porque tu sabes, como “poeta do povo”
Que o povo não ama seus poetas
Nem a poesia.

Mas aqueles que o amaram
(Que não eram do povo)
Não se conformaram
Com a morte do poeta
E foram para as ruas do povo
Declamar teus poemas
Gritaram nos teatros, no rádio, na TV
Que eras um poeta do povo.

As crianças do povo
Acredite, te amariam
Mas os pais do povo
Não tem olhos para a poesia.

Mas minha filha ouve teus poemas
E sorri quando leio o verso:
“O vento brinca nos bigodes do construtor”
E confessa ter entendido tudo
Pois há poesia em tudo
Até onde não há vestígios de poesia.
Depois, cansada de ouvir versos
Adormece nos ombros da poesia.

Ela soube que o poeta morreu
Ou melhor, adormeceu
Para que o sempre o velasse
Não chorou, por que as crianças não choram
E os poetas não morrem
Eles partem...
Deixando rastros de poemas
Para a eternidade.

Agosto de 1987.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

GERÂNIOS


Meus olhos são janelas para o universo
Por onde percebo minha humanidade
Da minha janela vejo os gerânios florescerem
De repente
A cada primavera

Meu universo são os gerânios coloridos
Que espalham cores sob os raios de sol
E pelo meu olhar percebo o universal das coisas
O universal dos gerânios florescerem
De repente
Como a luz da manhã
Como um encantamento
Para meus sentidos

Meus sentidos...
São os gerânios coloridos
A espalhar cores por onde minha vista alcança e
Minha janela se abre
Para o mundo
Para o universo
E eu não vejo nada além
Do que os gerânios florescerem

Meus olhos se prendem aos gerânios
Mas eles partem com o fim da primavera
Porém eles continuam em mim
E aquém da janela que se abre:
Eu vejo
Pelos sentidos
Gerânios na escuridão.




1/10/00












PAULICÉIA


Salve Paulicéia Desvairada
Percorro o trilho dos desvalidos
As veias abertas e cansadas
Dos seus heróis vencidos

Salve Paulicéia insensata
Dos becos estreitos e sombrios
Com suas cores e vozes mulatas
Dos bares e desejos tardios

Tu és meu eterno desatino
Estação primeira do meu destino
Minha alma se achou em ti

Com minh'alma vadia de menino
Procuro o templo onde o sino
Pranteia para que eu fique aqui
O COTIDIANO

A magia de um dia após o outro
Encanta meus olhos
E saboreio com o olhar de tudo
A simplicidade do vai e vem
Do sol e da lua
Do claro e do escuro
Da pele sedosa
Das rugas que teimam
Em pintar o tempo nas coisas.

ERRO

Errar é como atropelar
O espaço
O tempo
Os pensamentos
Que insistem em atravessar
A contra mão do tempo
Errar é atravessar
Distraidamente
As palavras dispersas.



DÚVIDA

Um texto
Textura
Um doce
Rapadura
Um beijo
Desejo

Mas é contra mão!
Estou perdido
Na contra direção

Chega o inverno
Que deita cobertores
Em minha alma
E eu?
Não sou mais
Do que uma criança
A comer rapaduras
Atrás da porta
Que porta?
Aquela do jardim
Atrás da casa
Qual casa?
Qual tempo?


LEMBRETE

Não se esqueça de nada
Das roupas
Dos livros
Dos recados
Das pequenas coisas
Dos detalhes
Mais ínfimos
Mais íntimos

São eles que dão sentido
Ao nosso cotidiano
Aos dias
Aos anos
De nossa breve
Mas infinita
Vida.


A MORTE


Como é frio e solitário
O nosso último ato
É de solidão completa
Nenhuma companhia

Fecham-se as cortinas
Apagam-se as luzes
E ninguém espera
Os últimos ais dos mortos

Ficam só na escuridão
Sem luz e sem companhia
Sem cobertores e sem livros
....

Os mortos não precisam de nada
E nos, vivos, precisaremos de tudo
Enquanto eles adormecem
No sonho eterno
Nós prosseguimos
Bebendo
Lendo
Cantando
Amando
Esperando
Esperando...
O tempo das tardes eternas
Sem por do sol
Sem amanhecer
Um tempo sem tempo
Que fica do outro lado
Do lado do lado de lá
Dos calendários.