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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O BAURU DO GOUVEIA

Alguns sabores da vida a gente nunca esquece, principalmente aqueles da juventude. Não eram sabores sofisticados de bons restaurantes, mas coisas simples que matavam a fome no sábado ou domingo à noite depois dos programas bons e ruins. Na Vila Gerty, São Caetano do Sul, perto da Praça da Figueira, havia um bar simples, meio sujo, meio mal frequentado, mas que servia um bauru delicioso: o bar do Gouveia. A receita era simples: pão quente na chapa, mozarela, presunto, rodelas de tomate e um delicioso molho vinagrete à portuguesa que dava o toque final. Era de lamber os beiços.
O Bar do Gouveia era o típico bar da crônica do Antonio Prata sobre os bares simples e rústicos frequentados por gente meio intelectual, meio de esquerda, só que na minha época nunca conheci por lá alguém meio intelectual e meio de esquerda. O que existia mesmo era gente meio proletária, meio classe média baixa. Meio de esquerda, confesso que já fui e algumas vezes para lá arrastei meus amigos meio de esquerda que, como eu, liam Marx, Luckaz, Gramsci e Sartre sem entender muita coisa. Eles acharam o bar o máximo e um deles chegou ao requinte de considerá-lo como um típico bar “proleta” e bem porreta, como um excelente local para uma discussão sobre o que fazer após tomarmos o poder.  Outro, “especializado” em Trotski, e hoje ativista do movimento católico Canção Nova, chegou a propor que fosse designado para as reuniões clandestinas do seu grupo. O Alemão, bem mais relaxado, achou o bauru muito bom e estava mais interessado em forrar o estômago, sem se preocupar com política.  Mas como o pessoal era somente meio de esquerda ou mais propriamente falando, da esquerda festiva, o bar não alcançou o status de reduto revolucionário.
O Gouveia, um sisudo senhor português que de intelectual e de esquerda não tinha absolutamente nada, era de pouca conversa, mas caprichava no bauru e nos salgadinhos que servia.  Ouvia-se muitas histórias sobre o seu Gouveia, atribuídas a ele pela sua procedência lusitana. Verdadeiras ou não, divertia o pessoal durante o ritual gastronômico.  O bar era dividido entre um compartimento de “fast-cachaça” e o outro depois de uma divisória de madeira trançada onde eram servidos os quitutes em mesas de fórmica, sem toalha e sem nenhum charme. O que eu chamo de “fast-cachaça” é aquele serviço rápido em que o sujeito pede uma cachaça, jogo um pouco para o Santo e engole o resto num trago só, larga o dinheiro no balcão e continua andando até o próximo bar. Mas tinha o filho do Gouveia que quebrava o gelo, dando uma atenção especial para a turma. O Luís era da nossa idade e fazia algumas concessões, como uma fatia a mais de presunto ou mozarela. Era só pedir discretamente e ele, longe do olhar controlador do velho, fazia as pequenas liberalidades.
Outro ponto de final de noite em São Caetano do Sul, naqueles saudosos tempos de adolescência, era uma lanchonete que servia cachorro-quente com batatas fritas, daquelas industrializadas. Infelizmente não consegui lembrar o nome da lanchonete.  Com uma coca, um hot-dog e muita mostarda, a moçada enganava o estômago antes dormir. Mas ali era tipicamente classe média, onde rapazes e garotas frequentavam depois de uma sessão no Cine Lido, na Rua Manoel Coelho. O sabor do hot-dog não era dos melhores. Era um gosto sem graça que não deixou saudades como o bauru do Gouveia.
Hoje quem passa pela Praça da Figueira vai encontrar uma praça de verdade, pois nos anos sessenta era somente uma velha figueira cercada por um pequeno canteiro, onde o Jânio Quadros, Ademar de Barros e outros políticos fizeram seus discursos de campanha nos anos sessenta.  Em cima do bar do Gouveia havia um apartamento onde morava um amigo da época, o Douglas Leandrini, que não sei por onde anda e cujo pai era delegado no bairro e dono do prédio. Ele mesmo não frequentava o bar por motivos óbvios. Ao lado do bar funcionava o açougue do Belizário, filho de outro português que tinha um belíssimo Chevrolet Belair que só saia da garagem para dar uma voltinha no bairro.
O prédio foi demolido e apesar da boa urbanização do local com uma praça com bancos e árvores o local perdeu o seu charme, sem os deliciosos baurus e aqueles papos alienados de adolescentes. O Brasil da época vivia numa ditadura cruel que a maioria das pessoas nem percebia. O Brasil de hoje mudou muito, mais democrático, mas mais violento e cada vez mais corrupto. Hoje eu teria receio de passar a pé por ali de madrugada como era hábito na época. Mas se o Gouveia ainda funcionasse, imagino que seria uma loucura conseguir uma vaga para estacionar e saborear o delicioso bauru. Com certeza o bar estaria reformado e teria perdido definitivamente o jeito de bar simples, meio proletário e meio classe média.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012


FÉRIAS NO INTERIOR E OUTRAS HISTÓRIAS

Ao ler uma crônica do José de Souza Martins sobre as férias no interior, tive a sensação de que perdi o trem. Explico: há tempos pensei em escrever uma crônica com o mesmo tema e o velho Professor Martins me passou a perna, no bom sentido, é claro. Acontece que ele, como eu, morava em São Caetano do Sul, o C do ABC e também passávamos as férias no interior e tomávamos o mesmo trem em direção à Estação da Luz e de lá para o paraíso. Ele para Pinhalzinho, perto de Bragança Paulista e eu para Lavínia, na Noroeste de São Paulo.  A estação antiga tinha um ar romântico talvez por conta do estilo que os ingleses, fundadores da São Paulo Railways, trouxeram para o Brasil.
Tenho boas lembranças do sociólogo cronista, além dos seus livros e artigos, como a palestra que ele apresentou na Fundação Santo André nos anos 70 sobre a música caipira. Depois de uma análise teórica sobre a diferença entre música caipira e música sertaneja - que muita gente pensa que é a mesma coisa - e suas origens de natureza antropológica, sociológica e econômica, ele ainda deu de brinde, para a plateia, algumas modas de viola, num modesto toca-discos portátil, acompanhadas de uma  análise sociológica e antropológica. Lembro-me que foi emocionante ouvir o cateretê Boi de Carro, em que o Tonico e Tinoco comparam a vida do boi de carro usado e abusado nas lides da fazenda com a vida do peão, que são descartados no ocaso de suas existências. O boi de carro ia para o matadouro e o velho peão ia viver de favores, caso encontrasse alguém disposto a tal.
Mas voltemos às férias do interior. O ritual era o mesmo descrito pelo Martins. Pegávamos o trem por volta das sete horas da noite, com meu pai carregando as malas mais pesadas, minha mãe contando os filhos (eram cinco) com medo de deixar alguém para trás. Os preparativos eram sempre fascinantes. O tempo não passava até a hora de embarcar em direção ao interior. Pegávamos o trem que ia até Bauru, onde fazíamos a baldeação para o embarque em outra composição que ia até Andradina, divisa com Mato Grosso, que naqueles tempos ainda não era do sul. Íamos sempre de segunda classe ou classe econômica. Os bancos eram de madeira e doía o traseiro, mas tudo valia a pena, pois as nossas almas de crianças não eram pequenas.
Chegávamos a Bauru quase de madrugada e quase em seguida embarcávamos num outro trem até Lavínia, uns sessenta quilômetros depois de Araçatuba, a cidade onde os reis do café e do Gado se defrontavam disputando poder. A música Rei do Gado menciona Ribeirão Preto, mas há controvérsias.  O rei do café estaria engravatado fumando charuto cubano, acesos com notas miúdas de cruzeiros e o rei do gado, que chegara com uma comitiva, trazendo nas roupas a poeira da estrada.
Daí pra frente meus olhos de menino curioso e sonhadores ficavam grudados na janela atentos à paisagem que passava depressa por mil olhos que a seguiam nos vagões. Campos, plantações, rios, lagoas. Aos poucos as casas iam aparecendo, um pouco esparsas, até chegar aos pequenos centros urbanos que eram, naquela época, as cidades do interior. As estações, ainda no velho estilo inglês, com seus arcos de ferro fundido e madeira pintada de uma cor avermelhada, recebiam o trem, que ia apitando e reduzindo a velocidade até parar para alguns viajantes descerem e outros embarcarem. A cada parada, perguntávamos: “Chegamos Mãe?”. “Está longe, muito longe, respondia ela pacientemente”. Eram mais de vinte horas de viagem, quando não ocorria algum atraso.
Ao entardecer a pequena Lavínia aparecia no horizonte, logo depois de Valparaíso.  Cafezais dominavam a paisagem junto às invernadas salpicadas de bois.  Bem antes meu pai e minha mãe já colocavam as malas e sacolas no chão. Novamente minha mãe contava os filhos com atenção redobrada no caçula. Enfim chegávamos e começava outra etapa da viagem.
Alugávamos uma charrete e partíamos em direção à fazenda de um tio, onde ficávamos hospedados. A pequena viagem era ainda mais emocionante do que a de trem. A lenta velocidade do trotar do cavalo permitia apreciar bem melhor a paisagem. Às vezes ficávamos na casa de algum parente próximo da cidade e íamos para a fazenda do Pau d’Alho ou São Vicente no outro dia bem cedo.
O por do sol num horizonte que não tinha fim era outro espetáculo inesquecível. A cada porteira de fazenda (eram quase todas iguais), eu tinha a impressão de que estávamos chegando. Mas qual o que! ainda estávamos longe da Pau D’alho. Enfim, quando menos se esperava o charreteiro parava para abrir a porteira e entravamos na velha São Vicente ou Pau D’Alho, por conta de uma velha árvore que ficava do outro lado da porteira. Eram mais de dois quilômetros por um carreador cortando o cafezal até a colônia, onde moravam os colonos, meeiros e parceiros e logo em seguida a sede da fazenda.
Avisados por telegrama, já éramos esperados com um delicioso jantar, que incluía galinha de Angola e o doce de leite que só a Vicenza, minha prima e madrinha sabia fazer. A Vicenza era um capítulo a parte. Criatura alegre, calorosa e generosa que fazia de tudo para agradar seus hóspedes. Infelizmente ela já partiu, bem mais cedo do que deveria.
Ainda não havia eletricidade por aqueles lados e jantávamos a luz de lampião a querosene, cuja fumaça ajudava a espantar os pernilongos. Depois do jantar a conversa corria solta. Novidades sobre os outros parentes, as colheitas, o preço do gado, política... Em pouco tempo eu já estava dormindo sobre a mesa, tal o cansaço, reflexo da noite mal dormida no trem. O sono era embalado por siri lampos, sapos e pássaros se acomodando nas árvores.
O amanhecer era outra das delícias esperadas. O gado mugindo no mangueirão, os pássaros festejando o dia, o cheiro de café colhido na fazenda, socado, torrado e moído na casa grande. O aroma e sabor eram especiais, bem superiores aos cafés gourmet que proliferam pelas modernas cafeterias. O leite tinha gosto de leite, espumante, denso, encorpado, um luxo. O pão, a manteiga, o queijo, feitos em casa, eram outras iguarias impensáveis na cidade.
O Drummond escreveu um poema sobre a sua infância em uma fazenda em Minas Gerais que termina dizendo que  sua vida era bem mais interessante do que as aventuras do Robinson Crusoé que ele estava lendo.  Eu cá com meus botões, tenho a pretensão de dizer que as minhas aventuras durante as férias na fazenda São Vicente eram também bem mais interessantes do que o livro e também, que me desculpe o José de Souza Martins, eram bem mais emocionantes do que as dele.