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quinta-feira, 4 de maio de 2017

O CORTIÇO EM SÃO CAETANO


Na minha rua havia um cortiço. Não era nada parecido com o do romance do Aluízio Azevedo, mas tinha lá as suas peculiaridades. O que chamamos de cortiço, regra geral, é uma casa dividida em cômodos com várias famílias ocupando e compartilhando apenas um sanitário e o quintal. É claro que daí surgem os conflitos. Crianças jogando bola nas roupas penduradas no varal, brigas pela utilização do mesmo espaço, conflitos entre crianças e vai por aí.
Quando eu era criança havia pelo menos quatro famílias morando no local. Dona Encarnacion, com quatro ou cinco filhos ocupando apenas um cômodo. Seu marido a abandonara e só aparecia uma vez por mês para ver os filhos e levar a parca pensão. Coitada da Encarnacion era uma vida difícil.  Havia, também, uma antiga moradora do endereço, uma espanhola chamada Maria que vivia amasiada com um Cearense. Tinha uns quatro filhos do primeiro marido e mais uns três do segundo e ocupava dois cômodos. Diariamente ela saia pela cidade para esmolar. Voltava com um ou dois sacos repletos de roupas que nunca utilizava e as colocava no lixo. Era conhecida como Maria Louca, pelas suas extravagâncias, criando encrencas com toda a vizinhança por causa dos filhos. Ela tinha um filho mais velho, chamado Juarez, briguento como ele só. Durante as peladas sempre nos desentendíamos e era briga na certa. Eu sempre levava a melhor, mas ele atirava pedras para se vingar e o jeito era correr antes de levar uma na cabeça. O Juarez e os irmãos eram crianças de rua e meus pais não gostavam que nos brincássemos com eles, mas ninguém levava isso muito a sério. Minha mãe tinha pena das crianças e sempre que percebia que estavam famintos, oferecia um prato de comida. Uma vez meus pais chegaram à noite e encontraram o Juarez dormindo em nossa varanda. Estava um frio de rachar e minha mãe o acomodou em casa com direito ao café da manhã.
Um senhor que lá morava era o mais atípico. Vestia-se com elegância, sempre com camisas bem passadas e gravatas bem ajustadas no colarinho.  Saia todas as noites e nos fins de semana circulava pelos bares do bairro. Sabia-se que trabalhava na Volkswagen, mas nunca comentava o que fazia por lá.  Todos se perguntavam para onde ia o seu Donutti? Sua mulher, dona Clarice, era uma coitada. Além de trabalhar fora, fazia a dupla jornada, cozinhando e lavando para a família. O casal tinha três filhos, sendo o Vanderlei o mais velho que se juntava com a turma nas peladas da rua. Para complicar, a família hospedava o irmão solteiro da dona Clarice, que provavelmente dormia na cozinha, já que a casa tinha apenas um quarto e cozinha. Ficava imaginando o desconforto do moço, que também se vestia com elegância, sempre de paletó e gravata. Dizem que trabalhava em um banco e que falava inglês fluentemente. Depois de algum tempo passou a dar aulas de inglês à noite e saiu da casa da irmã, aparecendo por lá eventualmente para uma visita rápida.
Morou lá também uma família de negros. O José Luiz era muito alto e magro e se parecia com um Neuer (povo africano da África Central que o antropólogo inglês Radcliff Brown estudou). É claro que na época nunca havia ouvido falar no Radcliff.  Ele era muito esperto e hábil em catar balões e pipas quando caiam em nossa rua. Era uma família muito fechada e sabia-se muito pouco sobre eles. Todos tínhamos medo do Zé, pois além do tamanho, era muito rápido com os pés e mãos.  Mas ficaram pouco tempo na casa e logo se mudaram para outro bairro o que nos deu alívio, pois nos livramos do habilidoso catador de balões e pipas. 
O dono do cortiço era um judeu que passava todos os meses para receber os aluguéis. Vinha em um velho Chevrolet dos anos cinquenta, dirigido pelo filho. Parava o carro em frente a casa e o filho chamava os inquilinos para o acerto de contas. Como era raro aparecer um carro por lá, a molecada parava a pelada na rua para admirar o carrão que só víamos nos filmes americanos nas matinês de domingo.  Às vezes algum dos moradores não tinha dinheiro e o velho judeu saia furioso do carro balançando a sua enorme pança e gritando impropérios. O filho procurava acalmá-lo e depois de algumas negociações, iam embora.
Tempos depois o judeu vendeu a propriedade e os inquilinos precisaram se mudar. A primeira foi a dona Clarice com o seu marido elegante. Em seguida mudou-se a Maria Louca, depois de se separar do seu Júlio, um cearense que parecia um índio e arranjar outro marido que tinha uma propriedade em outro bairro. Dona Encarnacion, com todos os seus filhos mudou-se para a mesma rua, mas morreu de câncer logo depois. Ela tinha uma filha chamada Julia, uma garota bonita, com pernas morenas e roliças que deixava a mostra em seus vestidos curtos. Nos meus nove ou dez anos, já fazia planos para levá-la à matinê, mas nunca deu certo, pois faltou coragem para fazer o convite e eu achava que ela toparia, pois me devorava com seus olhinhos de ressaca.
Com o fim do cortiço, acabou-se também a minha infância, as peladas de rua e as brigas intermináveis sobre se foi ou não foi gol, se foi bola na mão ou mão na bola ou quem era o melhor time do campeonato: Corinthians ou Palmeiras ou o Santos? O mais chato mesmo foi a falta que senti da Júlia, a menina das pernas roliças que provocava meus hormônios e eu ainda não entendia muito bem por quê.