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terça-feira, 29 de setembro de 2009

ODETE BELLINGHAUSEN, A SENHORA DO PIANO


Aquela senhora tinha um piano, mas para que serve um piano? Diz um poema do Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Para mim que ao passar pela Rua João Pessoa e ouvia em meio ao barulho do trânsito o suave som de um piano, servia e muito para abrandar a aridez da cidade. Quem era a senhora do piano vim sabê-lo algum tempo depois. Era Odete Tavares Bellinghausen, a primeira professora de piano da cidade e em cujas mãos muitas crianças passaram para aprender as primeiras notas musicais.
A cidade foi crescendo e a casa dela, que em tempos passados desfrutava um ar ainda bucólico, transformou-se em passagem obrigatória de carros e pedestres. O comércio foi se ampliando e com ele mais movimento. Mas dona Odete, continuou o seu cotidiano entre o grande jardim com seus caramanchões e o piano. Um dia atiraram uma pedra na sua janela, que quebrou a vidraça e caiu bem em cima do piano, um velho alemão de meia cauda. Uma ato de absurda agressão, sinal de tempos difíceis. Aquilo poderia ser um aviso para que tomasse cuidado, pois morava sozinha naquele casarão da década de cinqüenta. Mas ela era corajosa e não se intimidou, apesar de andar com dificuldade e com os sinais da idade alterando a sua percepção das coisas e do mundo. Estava presente em todos os eventos culturais da cidade. Lembro-me de uma homenagem que recebeu das escolas de música da cidade e como o mestre de cerimônia faltou, tive a honra de ler a sua biografia no teatro.
Numa outa vez a encontramos numa despedida de uma amiga comum, Marlita Brandner Valilatti , também professora de piano, que estava de mudança para a Áustria. Como estava só, oferecemos uma carona e ela insistiu que entrássemos em sua casa para um café ou coisa assim. Concordamos, apesar do adiantado da hora. Ela queria um pouco de companhia e não tivemos coragem de negá-la. Apressou-se em mostrar suas coisas, os quadros que ela pintou sobre a antiga paisagem da cidade, suas composições, como a Japonesinha Alegre da qual ganhamos uma cópia da partitura. Ela tocou com alguma dificuldade, pois as suas mãos já não obedeciam mais a sua mente ainda inquieta.
Resolveu oferecer-nos uma bebida, um licorzinho caseiro, que também aceitamos. Mas ela trouxe três doses, inclusive para minha filha Mariane, com apenas dez anos. Desculpou-se, mas como o licor era bom, tomei as duas. Terminamos a visita com a sensação de que ela ainda queria conversar mais, contar causos, suas lembranças, suas memórias de uma mulher idosa que conheceu muita gente, que viveu fatos já apagados da história da cidade. Pensamos em voltar qualquer dia para fazer algum registro de suas memórias que em pouco tempo se apagaria para sempre, mas não cumprimos a promessa.
Hoje a casa de esquina em que havia uma senhora que tinha um piano, é apenas um estacionamento, preservando apenas um muro original com seus balaustres de época. O som do piano ainda ressoa nas tardes frias de inverno, mas ninguém ouve. O aroma das camélias do seu jardim e ainda o doce sabor do licor de jabuticabas ainda estão presentes em minhas lembranças. O som dos mortos é inaudível e somente para aqueles iniciados na arte de lembrar sem ver e sem ouvir é possível dentro das impossibilidades.

domingo, 6 de setembro de 2009

AS FLORES DO IPÊ




Da minha janela avisto em uma rua paralela os seus exuberantes ipês amarelos que impõem um colorido especial para a paisagem do bairro. Lembro-me ainda da professora do primário explicando que as flores são folhas modificadas e o ipê altera todas as suas folhas, transformando-as em um amarelo vivo que chega a arder os olhos de tão intenso.
O Ipê amarelo ou Tabebuia chrysotricha, é nativo da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira e é cultivado em todo o país pela sua beleza singular, mesmo que efêmera.
Sem dúvida ele é privilegiado pela natureza e se transformou na árvore símbolo do Brasil. Mas é um privilégio que dura pouco tempo e as árvores estarão sem flores e sem folhas até o final do inverno, hibernando como um esqueleto sem vida para de novo desabrochar no verão com a verdura de suas folhas.
Há tempos invejo os vizinhos que tem o privilégio de recolher diariamente, durante o inverno, o lençol de flores amarelas que se espalham pela calçada. Para tentar não morrer de inveja, tratamos de plantar o nosso próprio ipê, mas no jardim de nossa casa e não na calçada, numa forma egoísta reservar toda a sua beleza para os nossos olhares privativos. Qual o quê! Nosso ipê, após alcançar a fase adulta, não se dignou a dar flores e chegamos a desconfiar que fomos ludibriados por algum gigolô de flores, como uma velha amiga denomina os comerciantes que se dedicam a compra e venda de plantas e flores.
Diante do risco de perder um só dia da beleza dos ipês, abro todos os dias a janela para apreciá-los, pois dentro de poucos dias as flores partirão com a estação fria, que desta vez deixou umidade até nos ossos. Mas neste ano, junto com as flores do ipê, chegou também o Tom que também aprenderá a amar as plantas e as flores como o Jobim.
Ao abrir pela primeira vez os seus olhinhos cinzentos mostrei-lhe ao longe as manchas amarelas no horizonte. Ele pareceu sorrir e depois chorou dando a entender que chegou a tempo de apreciar um pouco da beleza fugaz do nosso pequeno e maltratado planeta.
Que o Tom floresça em cada inverno, para saudar a primavera e esteja sempre presente como arauto da renovação da vida.