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segunda-feira, 15 de junho de 2009

O GOLPE DO RELÓGIO



Ao ver os camelôs nas ruas e praças do centro de São Paulo com centenas de relógios importados de todas as marcas, autênticos e falsificados, faz-me recordar os tempos em que a máquinas de marcar horas eram objetos pouco acessíveis à maioria das pessoas. Um bom e reluzente relógio de pulso era também símbolo de status e cidadania. Por um relógio muitos caiam no conto-do-vigário. O famoso Ômega, um suíço de pedigree era o sonho de consumo de muita gente. Falava-se no Ômega Ferradura (confundia-se a letra grega com a ferradura utilizada nas patas dos cavalos e se pronunciava o nome sem o acento).
Meu sogro, paulistano da Mooca acabou caindo no famoso conto lá pelos anos quarenta. Ele havia conseguido o seu primeiro emprego numa companhia de seguros. Com seu terno de casimira inglesa azul marinho e um chapéu Ramenzoni, faltava um relógio para completar a sua elegância. Ao receber o seu primeiro salário, não teve dúvidas, tirou o final da tarde para namorar as vitrinas das relojoarias e quem sabe, comprar um bom relógio. Enquanto sonhava diante de uma na Praça Patriarca, um homem se aproximou e lhe disse:
- Está procurando por um bom relógio moço? Tenho um por um preço bem melhor do que o da loja.
- Não, obrigado, respondeu um pouco desconfiado.
- Dê uma olhadinha e veja que belo relógio, disse o estranho, abrindo o paletó e mostrando um relógio em uma caixinha.
- Ainda desconfiado, o meu sogro desconversou, apesar do preço ser muito convidativo.

Mas o homem insistiu tanto e foi abaixando tanto o valor do relógio, que o jovem paulistano acabou topando fazer o negócio. O homem achou melhor que se retirassem para um local mais discreto, pois o relógio era muito valioso e poderia chamar a atenção. Chegando à escadaria que dá acesso ao vale do Anhangabaú, o homem mostrou o belo relógio e meu sogro imediatamente pagou. O homem entregou a caixinha e subiu a escadaria desaparecendo por entre a multidão.
No bonde não suportava mais a ansiedade de pegar o relógio e coloca-lo no pulso, mas preferiu deixar para fazer isso em casa, com calma, pois poderia ser arriscado ser aliviado por um batedor de carteiras, figura sinistra naqueles tempos. Desceu do bonde na Rua dos Trilhos e foi para casa, mal conseguindo respirar de tanta emoção. Diante dos pais tirou a caixinha do bolso do paletó e abriu. Uma desagradável surpresa: um pedaço de pedra.
No dia seguinte tentou em vão encontrar o vigarista, mas qual! Eles nunca agiam nos mesmos lugares depois de pegar um otário e ele precisou de conformar e esperar o próximo pagamento para ter o seu objeto de desejo. Naqueles tempos o roubo envolvia a esperteza e dotes de artista para ter sucesso. Convencia-se o incauto pela sua própria ambição e desejo, ainda que inconsciente, de ludibriar alguém e levar vantagem.
Alguém se lembra do golpe dos sapatos de cromo alemão nos anos sessenta? Pois bem, vale a pena contá-lo. Um senhor bem vestido entrou numa pastelaria vizinha de uma sapataria e encomendou 300 pasteis para retirar às 15 horas. Em seguinte foi à sapataria e experimentou um belo par de calçados de fino cromo alemão e manifestou sua aprovação pelo conforto que dava aos seus pés. Falou com o vendedor que não tinha dinheiro no momento, mas ia receber um dinheiro do pasteleiro ao lado e caso concordasse, pediria para que ele lhe pagasse a importância, 150 contos. O vendedor falou com o gerente e foram até a pastelaria para combinar. Lá chegando, o homem disse para o pasteleiro: “Dos 300 o senhor dê a ele 150”. O Chinês sem entender nada, confirmou o negócio. O homem levou os sapatos e às três horas em ponto, o chinês levou à sapataria, nada mais nada menos do que 150 pastéis. Não é preciso dizer que o delegado caiu na gargalhada pelo inusitado do conto diante do pasteleiro que queria receber o dinheiro pelos trezentos pastéis e do sapateiro que queria receber pelos sapatos.
São Paulo era assim, com seus vigaristas lendários e porque não dizer simpáticos. Afinal convenciam as pessoas a abrirem mão de seus bens de forma pacífica e civilizada. Que voltem os bons tempos da vigarice bem feita! Com certeza ninguém sentirá saudades de assaltos a mão-armada e cheios de violência, mas a vigarice tinha lá o seu charme.

O PAPAGAIO IRREVERENTE




Ganhamos um papagaio. Que o IBAMA nos perdoe, mas o tal papagaio foi criado em casa e aprendeu, a duras penas, a falar palavrão. Vai te..., Vai tomar..., eram expressões habitualmente utilizadas pelo bichinho de estimação. Minha cunhada, a dona do louro, trabalhava fora e para aplacar a solidão, ele repetia impropérios que eram ouvidos por toda a vizinhança do prédio. Uma vizinha, ciosa dos bons costumes, fez uma queixa num juizado de pequenas causas, pois o papagaio estava prejudicando a educação dos seus filhotes, soltando palavrões até na mesa de refeições. Entretanto, ficou uma incógnita sobre quem ensinou o bicho o indesejável repertório. A família reza de pés-juntos que não foi ninguém da casa. Conhecendo os hábitos familiares, é impossível duvidar. Com toda certeza foi algum moleque de algum apartamento vizinho, que aproveitando a ausência da dona, enriqueceu o vocabulário da ave.
Diante do impasse, ela resolveu doar o bichinho e escolheu a nós para recebê-lo. Como negar? Vamos tentar reeducá-lo para que esqueça os palavrórios pouco condizentes com os bons costumes. Minha filha até sugeriu que lêssemos poesia para que ele se tornasse um papagaio culto e de repente poderíamos até levá-lo à televisão para uma performance.
Instalado em casa, o bicho desandou a dizer besteiras. A nossa empregada, uma ciosa senhora evangélica pediu de pronto demissão. “Ou eu ou o papagaio?”. Evidentemente que foi ela, pois nunca fomos tão puritanos ao ponto de crucificar um papagaio em nome da moral e dos bons costumes. Quando aos versos de Drummond, Bandeira e Cecília Meirelles, nem pensar. Até tentamos o Bocage, mas ele considerou os versos um tanto anacrônicos e não se deu ao trabalho de repeti-los.
Além de dizer palavrórios pouco adequados a um casal razoavelmente educado e com uma filha pequena, o nosso arauto não gostava da nossa cadela, a Alpha, uma pastora mansa e meiga. O papagaio para provocá-la, chamava-a pelo nome e quando ela se aproximava da gaiola ele largava uma bicada sem nenhuma graça no focinho dela. Isso gerou uma profunda inimizade que foi a responsável direta por uma tragédia que veio acontecer alguns meses depois.
Como minha filha tinha o tom de voz parecido com a minha sobrinha, o papagaio a chamava de Carolina e por mais que ela repetisse o seu nome, ele por pirraça continuava chamando-a pelo nome errado.
- Eu sou a Mariane!
- Ahhh! Carolina!
Aos poucos fomos dando uma folga para o bicho e resolvemos soltá-lo pelo quintal. Ele muito esperto, sempre ficava nas árvores ou sobre o telhado para evitar a cachorra que o observava sorrateiramente. Quando ele resolveu dar passeios mais longos, começamos a ter problemas para localizá-lo e foi aí que alguém sugeriu que cortássemos suas asas para que ele não fugisse. A partir daí ele era colocado em uma árvore para curtir o sol da manhã e depois recolocado na gaiola.
Um dia, saímos cedo e deixamos o bicho na gaiola, como sempre fazíamos. Ao voltarmos, cadê o papagaio? Ele havia soltado o trinco da gaiola e fugido. Procuramos por toda a parte e nada do papagaio. Perguntamos aos vizinhos e nenhum sinal.
Só fomos descobrir o mistério no dia seguinte ao observar nas fezes da cachorra, restos de penas e um bico que não foram digeridos pela raiva canina. A vingança da Alpha foi fatal. Ela não perdoou jamais as bicadas no seu focinho, mesmo não considerando um papagaio uma boa refeição. Como se diz no ditado popular: vingança se come cru.