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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA NATALINA

Pelo que eu me lembro, tinha vivido uns oito ou nove anos, mas foi um natal que continua colado em minha memória, como se fosse o único. Estávamos em dificuldades, principalmente porque meu pai resolveu ampliar a casa e desembocamos no Natal num canteiro de obras; o piso de terra e poeira por todos os lados. O pedreiro contratado e pago antecipadamente desapareceu, sem dar notícias. Nem móveis havia mais, pois parte deles ficou em outra casa. Papai, ajudado por mamãe tratou de montar uma mesa improvisada com uns cavaletes e tábuas da obra. Os bancos em volta da mesa eram tábuas sobre pilhas de tijolos e por isso era preciso muito cuidado para que não caíssem. Mamãe colocou um velho lençol branco sobre a enorme mesa e começou a colocar as iguarias de Natal. Era uma mesa simples, mas farta.
Neste dia meu pai chamara um senhor que morava próximo para ajudá-lo, pois até no dia de Natal ele trabalhara duro para colocar a casa em ordem, pois estava sem recursos para pagar um profissional. Esse senhor, um homem muito pobre e mal vestido carregava entulhos de um lado para outro e passou diante de nossa mesa de Natal. Parou e lançou um olhar para mesa, que para ele deveria ser a maior fartura do mundo.
Logo depois minha mãe convocou todos para almoço e lá fomos à mesa para degustar a lauta refeição. Já sentados, meu pai lembrou-se do seu Antenor que estava do lado de fora trabalhando e o convidou para o almoço.  “Não, muito obrigado, mas eu não posso aceitar”. Como não seu Antenor? Respondeu meu pai ofendido com a negativa. “Como eu posso comer aqui se os meus filhos não tem nem o que comer?” Pois então vá buscar a sua família, respondeu papai prontamente depois de consultar minha mãe com os olhos.
Ficamos angustiados, pois precisaríamos dividir nosso almoço de Natal com pessoas que não conhecíamos e também poderia ser uma família muito numerosa e a comida talvez não fosse suficiente para todos. Os nossos olhares de crianças desaprovavam o gesto magnânimo de nosso pai, mas quem ousaria contestar sua autoridade? Era mais fácil passarmos o Natal a pão e água para o regalo dos convidados do que fazê-lo mudar de opinião.
O seu Antenor mostrou um sorriso tímido e feliz e não se fez de rogado; rapidamente, foi buscar sua família. Para o nosso alívio não era tão grande, apenas duas crianças pequenas e a mulher. Ajeitamo-nos para dar lugar aos novos  comensais  e depois da oração de agradecimento dirigida por minha mãe iniciamos o almoço de Natal. Meu pai não era dado a rezas e creio e pelo que me lembro nunca foi de ir à igreja, apesar de desfrutar de uma velha e sincera amizade  com o pároco do bairro. Sempre alegava que tinha coisas a fazer, desculpando-se por não ir às missas, casamentos e batizados. Mas nunca contradizia mamãe, uma mulher profundamente católica, que obrigava  os filhos a freqüentarem a igreja, mesmo que para isso precisasse nos ameaçar com castigos. Por isso, quando alguém dava risadinhas durante as orações éramos olhados com severidade por papai que não admitia um mínimo sinal de desrespeito. Lembro-me de que ele também resolveu dizer algumas palavras após as orações. Agradeceu a Deus pela mesa farta e pela possibilidade de compartilhá-la com uma família necessitada.
O Natal como uma festa cristã representa o momento de compartilhamento do “pão” com os outros. É o sentido mais profundo de comunidade, onde todos participam da mesa,  num sentimento de pertença à espécie humana, independentemente de classes, etnias ou grupos sociais. Meu pai, mesmo sem ter uma vida religiosa formal deu-nos um exemplo de humanismo cristão e de doação, mesmo na dificuldade.