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terça-feira, 3 de junho de 2014

A HISTÓRIA DE VIDA DE CLORY FAGUNDES MARQUES, CARINHOSAMENTE CHAMADA DE MAMÃE CLORY


Edson Zeca da Silva ficou surpreso ao ser convidado por uma instituição alemã, através de uma velha amiga, para fazer a biografia de Clory Fagundes de Marques, mais conhecida por Mamãe Clory, a fundadora da Associação Cristã verdade e Luz que ampara criança e idosos em São Bernardo do Campo. Até então não sabia exatamente quem era a Mamãe Clory, sua história, seu trabalho em prol dos necessitados. Como não é de recusar desafios, aceitou a empreitada filantrópica com a condição de que não haveria interferências no seu trabalho. Contaria a história de vida de Dona Clory de acordo com os depoimentos da biografada e relatos de pessoas da família e amigos.  Graduado em Ciências Sociais e apesar de não ter exercido nenhuma atividade específica no campo das ciências humanas, conservou algumas características de sua formação e trabalhou procurando situar a vida da biografada no contexto histórico e social.  
               No primeiro contato com Mamãe Clory, uma personagem carismática, ficou bastante impressionado, conforme relatou. Descreveu-me a Mamãe Clory como uma pessoa iluminada, desvinculada de valores materiais e de vaidades pessoais. Ela havia dedicado toda a sua vida para ajudar as pessoas carentes, sem preocupações quanto ao retorno pelas suas boas ações. Pelo prestígio junto à comunidade, mais de uma vez foi assediada para entrar na política, mas sempre recusou, pois seus objetivos eram maiores do ponto de vista humanitário e espiritual.
               A história de vida de Mamãe Clory começa em Alegrete, Rio Grande do Sul, onde nasceu numa família de estancieiros descendentes de açorianos que para o Brasil vieram no século XVIII. Seu pai um homem influente e de espírito pioneiro aceitou o desafio de colonizar o oeste de Mato Grosso e com pouco mais de três anos, Clory estava em terras mato-grossenses. Com outros pioneiros gaúchos, Athaliba Fagundes foi para Cachoeira do Apa, na divisa com o Paraguai. Como a prole do Coronel Athaliba Fagundes era bastante numerosa, ainda muito nova, Clory já ajudava a mãe no cuidado com os irmãos menores.
               Casou-se jovem, contra a vontade de sua mãe, que a queria como religiosa e com oito de dias de casada ganhou o primeiro filho, uma criança que foi abandonada em sua porta. Na sua visão de mundo, havia recebido uma missão para cuidar daquela menina e mesmo com a resistência inicial do marido, a adotou e registrou como filha. Clory era parecida com seu pai, que nunca deixou de acolher pessoas necessitadas em sua porta. Em sua fazenda os filhos biológicos conviveram com vários agregados que procuravam o Coronel Athaliba em busca de ajuda. E foi dessa forma, sempre acolhendo o próximo, que Dona Clory ou Mamãe Clory, teve ao longo de sua vida mais de mil filhos que foram cuidados como se tivessem saído do seu ventre, sempre com muito amor, dedicação e proteção.
               Mas Clory era também uma empreendedora, característica possivelmente herdada do pai, e estava sempre disposta a juntar as tralhas e partir em busca de novos desafios. Do Estado de Mato Grosso, foi para Andradina, no interior de São Paulo, onde trabalhou como costureira, cozinheira, doceira, dona de restaurante e depois proprietária de um hotel, aproveitando as oportunidades surgidas naquela cidade com a construção de uma barragem no Rio Paraná. Mas a pujante cidade da noroeste paulista ainda tinha carências. Seus filhos não podiam progredir, pois não havia ensino superior para que pudessem alcançar novos horizontes.  Não teve dúvidas, vendeu tudo que tinha e arribou para outras naturezas, vindo parar em São Bernardo do Campo, no início dos anos 60. Clory tinha visão de futuro e percebeu logo que a indústria automobilística estava trazendo prosperidade para a região.  Depois de comprada uma casa no bairro da Paulicéia, trouxe consigo seus 87 filhos, uma loucura, como ela mesma afirmava. Mas Clory acreditava na sua missão e não tinha medo de enfrentar dificuldades. E foi assim, com a ajuda da prefeitura que conseguiu, posteriormente, um grande terreno onde aos poucos, com a ajuda de amigos, dos filhos e de pessoas generosas, um grande lar para abrigar todos aqueles que a procuravam.
               Trabalhadora infatigável sentia prazer em dizer que nunca conseguira recusar uma criança. Se a mãe não tinha como sustentar seus filhos ela aceitava todos, pois considerava uma crueldade separar irmãos. Um dos seus maiores orgulhos era o fato dos seus filhos, com raríssimas exceções, terem se tornado cidadãos exemplares, muitos deles com curso superior.
               Os seus depoimentos ao Edson Zeca foram longos e um deles contou até com uma viagem até Andradina, terra onde ela começou a sua trajetória.  Mas logo foram encerrados, pois a sua saúde demandava cuidados, principalmente por causa da idade avançada. Clory faleceu em 21.11.2011, aos 94 anos e deixou como legado de vida, a dedicação aos desamparados sem nunca pedir nada em troca. Foi uma heroína, quase anônima, mas continuará para sempre na memória daqueles que foram por ela amparados e seus incontáveis amigos.
               Enfim, a biografia ficou pronta, revisada e impressa, mas Mamãe Clory não estava mais presente para receber as honras pela sua história. A sua casa ficou em festa para receber os amigos e seus filhos já encaminhados para o lançamento do livro. Edson Zeca autografou carinhosamente cada exemplar, sempre colocando o seu o nome e o de Mamãe Clory nas dedicatórias como se ela também estivesse presente e estava.
               O movo biógrafo que ao longo de sua vida dedicou-se a escrever versos para os seus sambas e marchinhas de sua autoria ou de amigos “aprendeu novas palavras e tornou outras mais belas” e quem sabe, com a experiência adquirida, possa nos presentear no futuro com outras biografias no mundo da música, mares que com certeza sempre navegou mais a vontade.

Mamãe Clory: a nobreza da vida – Vida e obra de Clory Fagundes de Marques
De Edson Zeca da Silva
Todos os direitos dessa obra revertem para a ACVL (Associação Cristã Verdade e Luz)
Contatos: diretoria@mamaeclory.org.br



domingo, 27 de abril de 2014

RELEMBRANDO OS TEMPOS DE COLÉGIO OU A PARTIDA DA MARCIA EDWIGES DE OLIVEIRA.

Passados longos anos, já beirando a aposentadoria, às vezes dá vontade de saber por onde anda aquela turma do colegial, uma fase gostosa da vida em que estávamos todos querendo descobrir e consertar o mundo. Era muita alegria, descompromisso com o futuro ou com o presente. Por Essas e outras, num dia desse outono que começa a dar as caras, resolvi dar uma espiada nas redes sociais para ver se encontrava alguém. E os nomes? Muitas mulheres mudam de nome quando casam e muitos não estão sintonizados com a tecnologia da informação. Lembrei-me de alguns e comecei a pesquisar. Qual o quê! Encontrei uma que era uma garota deslumbrante, inteligente culta e que gostava das mesmas músicas e mesmos autores que eu ouvia e lia. Cheguei até pensar que poderia rolar alguma coisa, mas ficou apenas na amizade. Depois descobri que ela não tinha nada a ver comigo. Éramos pessoas muito diferentes.  Encontrei, também, duas irmãs, a Maria Auxiliadora e a Márcia Edwiges de Oliveira.  Eram pessoas bacanas, inteligentes, simpáticas e cheguei a freqüentar a casa delas, almoçando ou jantando. A madrasta era muito simpática e era bastante agradável com os amigos das enteadas.
               A casa da Maria Auxiliadora e da Márcia Edwiges era o lugar onde uma parte da turma ia estudar para as provas nos fins de semana, principalmente porque a Maria era craque em matemática, física e química, que, diga-se de passagem, não era o meu forte. Foram bons tempos em que mais conversávamos sobre tudo e bem menos sobre as matérias que precisávamos estudar. Havia também outra amiga da época, a Vera Lúcia da Silva, que encontrei tempos depois numa reunião do colégio onde minha filha estudava. Virou professora de biologia, área em que era muito boa aluna nos tempos de colégio. Nunca cheguei a pensar que um dia pudesse encontrar uma amiga de escola dando aula para minha filha. Sempre me lembrei da Vera por causa do livro Cem Anos de Solidão do Garcia Marques que lhe emprestei e ela se esqueceu de me devolver. Não que tivesse problemas com isso, mas sempre que procurava o livro para reler vinha à memória a lembrança da Verinha, uma pessoa especial.
               Voltando ao Facebook, solicitei as duas irmãs para me adicionarem na rede. A Maria aceitou, mas até a publicação dessa crônica não havia enviado nenhuma mensagem ou comentário. Como a Márcia não respondeu, por curiosidade, fui dar uma espiada na sua página e descobri que ela não estava mais entre nós. Faz pouco mais de três meses que ela partiu. Lembrei-me dela com o carinho que tinha por toda a turma. Ela era uma garota bonita, cabelos castanhos claros (ou eram loiros?) e vivos olhos azuis. Soube tempos depois que namorou o Pedro Luiz Montini, também da nossa turma, com o qual tive um contato pelo Linkedin. Da Márcia recordei um fato pitoresco, para não dizer desagradável, que quase acabou com a nossa amizade. Vamos à história. Resolvi dar-lhe uma lembrança pelo aniversário e comprei uma caixa de bombons de boa marca e deixei na gaveta de minha mesa onde trabalhava. Um sujeito bastante cafajeste que trabalhava no departamento, sorrateiramente, substituiu os bombons por pedaços de sabão embrulhados com papel higiênico e deixou o pacote embrulhado como veio da loja. À noite, inocentemente, entreguei o que seria a caixa de bombons para a Márcia e não falei mais com ela depois. Somente no dia seguinte fui questionado pela Vera Lúcia porque eu teria feito aquela brincadeira de mau gosto. Foi um choque e ainda bem que não encontrei o tal sujeito naquele momento, pois seria capaz de estrangulá-lo de tão furioso que fiquei. Bem, consegui reaver os bombons e entreguei-os a ela com mil pedidos de desculpas. Como ela era uma pessoa generosa, distribuiu para os colegas mais próximos.

               Terminado o colégio, nunca mais falei com o pessoal. Cada um foi para um lado, seguindo carreiras diferentes. Na faculdade encontramos novas pessoas, fazemos novas amizades e esquecemos aquela fase da vida. É uma pena, pois amigos nunca são demais, nem que seja para um telefonema, contar as novidades boas e as ruins que ocorrem na estrada da vida. Apesar do longo tempo sem contato, confesso que senti um aperto no peito ao saber da morte da Márcia, uma pessoa tão cheia de vida, tão doce e cujo sorriso encantava a todos.  Pode ser que outros já tenham deixado esse pequeno planeta azul e quem sabe se encontrem nas tardes da eternidade para contar piadas ou declamar poemas do Fernando Pessoa que aprendemos na escola.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A OLIVEIRA DO CEILÃO


Cansado dos negócios da carne no seu sentido literal, quando via diariamente cadáveres de bois, porcos e galinhas, um velho amigo dos tempos idos resolveu partir para a vida bucólica do campo. Passou nos cobres a sua rede de açougues, que apesar de bastante rentável, dava muito, muito trabalho, pois não tinha fim de semana ou feriado para o merecido lazer. Todo dia é dia de carne na mesa das pessoas.
               Perambulando pelo interior viu muitas propriedades, algumas maravilhosas, mas que não cabiam em seu bolso. Até que um dia descobriu em Pinhalzinho, perto de Bragança, um bucólico sítio, com boa nascente e boa terra. Era uma antiga fazenda de café, com o seu velho terreiro sustentado por uma muralha de pedra cujas origens remontam os tempos da escravidão. Lá encontrou até uma pequena senzala, onde o primeiro proprietário mantinha sua escravaria. O velho casarão ele decidiu demolir, mesmo contrariando a Guta, sua mulher, que teria preferido restaurar a antiga sede de fazenda em nome da preservação da memória histórica. Ao ouvir conversas de que ali morreram muitos escravos e que o cruel proprietário cortava as mãos dos fujões, não sossegou enquanto não viu as paredes colocadas abaixo, juntamente, com as lembranças de sofrimentos.
               Outra coisa que encantou o casal foi descobrir uma velha oliveira do Ceilão, carregada de belas azeitonas. As frutas são um pouco mais compridas do que as européias e a árvore bem maior. A Guta imediatamente visualizou dezenas de vidros de conservas de azeitonas nas prateleiras da cozinha.
               Fechado o negócio colocaram as mãos à obra. Construíram uma boa casa para acomodar a família que estava crescendo, além de uma grande área de lazer com churrasqueira, fogão a lenha e salão de jogos. Aproveitando a bela nascente, botaram abaixo um bambuzal e construíram um belo lago para a criação de peixes e também para a garotada dar uns mergulhos nos dias de verão. O fim do bambuzal deu alguns problemas, pois um antigo empregado descontente com a demissão denunciou o desmatamento do bambuzal, o que acabou rendendo uma multa ambiental. De nada adiantou tentar provar para o fiscal que eles haviam plantado muito mais árvores do que existiam originariamente no terreno.
               E as azeitonas do Ceilão? Guta com todas as suas habilidades tentou, em vão, transformá-las nas apetitosas conservas para enriquecer os pratos que preparava. As frutas depois de cozidas de acordo com os padrões lusitanos apodreciam. Desanimada, abandonou o projeto. A oliveira do Ceilão continua lá e seus frutos não atraem pássaros ou bichos rasteiros e apodrecem inutilmente durante todos os outonos. Guta uma educadora de profissão e doceira por distração, preferiu preparar doces variados e deliciosos que serve para os amigos que se empanturram após as lautas refeições, mas continua frustrada por não aproveitar as azeitonas do Ceilão.
               Escrevendo para um velho amigo que residiu alguns anos no Ceilão, eis que resolvemos o problema da Guta. O velho Dedo Thenório um aventureiro errante que a duras penas aprendeu o idioma local e também a sua botânica, deu-me o prazer de enviar uma receita para o aproveitamento das falsas azeitonas, que prazerosamente encaminhei à amiga Guta. As tais azeitonas falsas podem ser preparadas através de deliciosas compotas doces ou salgadas.

               Enquanto a Guta vai preparando as suas compotas, seu zeloso marido tenta tocar uma harpa paraguaia, que comprou em uma de suas viagens à tierra Guarany.  O problema é que o rapaz não consegue tirar mais do que um truumm, truumm, o que está tirando o sono da família e da vizinhança. Dois velhos amigos, para consolá-lo, até compuseram uma guarânia em sua homenagem, enaltecendo a sua história de vida. O ex-pintor, ex-professor, ex-sociólogo, ex-açougueiro continua tentando tirar algum som agradável do instrumento e com isso até os pássaros se afastaram do seu belo recanto.