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sexta-feira, 24 de julho de 2009

BEBEDOS E BEBEDEIRAS


Beber, como dizia o grande cronista da noite carioca, Antonio Maria, é sempre um mistério, uma sabedoria, que nos leva aos copos e ao estado de graça. Não faço aqui a apologia da bebida, mas existem momentos em que ela é absolutamente necessária e caso se consiga aprecia-la moderadamente, pode ser um santo remédio para as dores da alma. Algumas bebedeiras são motivos de grandes arrependimentos pelas bobagens que se faz, pelas palavras mal pronunciadas que ofende pessoas, destrói amizades ou grandes amores. Outras são motivos de grandes gargalhadas, mesmo depois de passados muitos anos. Algumas são motivos de orgulho, principalmente pelo bêbedo ter falado, num discurso improvisado, alguma coisa que todos gostariam de dizer, mas sempre faltou a coragem que a bebida, às vezes dá, desde que a mente ainda esteja suficientemente lúcida.
Algumas bebedeiras são ontológicas e poderiam ser premiadas pela academia nacional da bebedeira (ANB) pela contribuição sociológica, política, filosófica ou cultural. A embriagues apresenta efeitos variados, dependendo das pessoas. Alguns se tornam agressivos, ofendem amigos e familiares. Outros ficam alegres e tolos repetindo continuamente a mesma frase ou o mesmo assunto. Há também aqueles que ficam quietos e deprimidos. Cada um tem o seu estilo de bebedeira, mas via de regra o dia seguinte é terrível, principalmente pelas críticas da mulher, namorada ou de familiares que ficaram envergonhados com os vexames do dia anterior. Quem escreve já passou por essas, mas sou mais do estilo que ri o tempo todo ou então fico meio sorumbático.
Numa festa em minha casa, a altas horas da noite, resolvi abrir uma garrafa de champagne francês, presente de um cliente da empresa onde trabalhava. Ao abrir a garrafa, uma boa parte da bebida jorrou pela mesa; um sacrilégio. Ao lamentar com um amigo a triste perda, este, já bem alto, se propôs a lamber a mesa para evitar a perda total do produto. Um vexame que ele até hoje ruboriza só de lembrar.
Um outro amigo, num feriadão na aprazível Butiá, rodeado pelos amigos mais queridos, não teve dúvidas, tomou quase um garrafão de cachaça que alguém levou afirmando que era da melhor procedência. Ele quase entrou em coma alcoólica e se na época, tivéssemos um pouco mais de juízo, teríamos levado o japa para um pronto-socorro. Ele apagou, chegando a urinar nas calças, parado no meio do quintal. Felizmente, algumas horas depois o nosso declamador oficial dos poemas do Manuel Bandeira, acordou perguntando pela camisetinha de Tupã, onde ele venceu um campeonato de xadrez. Nesse mesmo feriado, um outro companheiro de boemia, subiu no alto de uma velha usina hidroelétrica desativada e começou a declamar Castro Alves, enquanto embaixo, todos clamavam para que descesse, pois o risco de uma queda era iminente. A gritaria da platéia era entendida pelo amigo alcoolizado como a sua consagração e ele se sentiu como se tivesse incorporado o espírito do poeta.
Essas bebedeiras esporádicas, apesar dos riscos, dificilmente chegam a comprometer, quando se está na companhia de amigos e familiares. Entretanto, quando elas ocorrem em outros ambientes, podem sim criar problemas. Um conhecido meu, entusiasmado com a dosagem etílica acima da média, numa festa de confraternização de fim de ano, resolveu dar um sonoro beijo na bochecha do gerente. Não é preciso dizer o que aconteceu depois. Numa festa de aniversário de uma outra empresa, após o discurso do presidente, um colega entusiasmado e ligeiramente alcoolizado, resolveu levantar um brinde a empresa, dizendo: “Vamos brindar o sucesso da melhor empresa do Brasil”. Houve um silêncio total para o azar do pobre Leonardo, um bom sujeito, que acabou pedindo demissão por não suportar mais as gozações.
Quando o hábito de beber se transforma numa dependência química, que segundo pesquisas atinge de 15 a 20% da população, as coisas se complicam. Foi com imensa tristeza que encontramos, numa padaria, um amigo de velhos tempos numa véspera de feriado bebendo cerveja, sozinho e desconsolado. Eu estava com minha mulher e ao nos ver ficou muito emocionado. Comentamos que estávamos indo para a casa de um amigo comum que havia combinado o encontro para assistirmos a final do festival de música popular da TV Cultura. Não deveria ter falado! Ele resolveu ir junto para fazer uma surpresa ao amigo. Como já estava bem alcoolizado achei melhor que fosse em nosso carro, pois assim não correria maiores riscos. No caminho percebi que estávamos prestes a criar um grande problema. Chegando ao local, começou o festival de vexames. Nosso anfitrião, felizmente, uma pessoa finíssima, encarou o desconforto de receber um alcoólatra mal educado e agressivo como parte dos perigos demais dessa vida. Mesmo assim, a certas horas da noite, ele foi obrigado a dar uma dura no bêbedo, que insistia em falar besteiras, sem se dar conta de que estava na casa de um amigo e na presença da filha desse. Insatisfeito com a cerveja, ele ainda saiu para procurar um bar para beber um uísque. Ficamos na expectativa de que ele aproveitasse a saída e fosse embora, deixando-nos em paz. Qual o quê! Ele retornou com mais um copo e continuou com sua ladainha de palavrões e ofensas indescritíveis.
Até hoje o meu amigo ainda joga suas farpas quando se lembra do episódio e prometeu que ainda irá à forra. “Você me paga por essa”, sempre diz brincando, mas sei que se não fosse pela nossa longa amizade os efeitos da inesperada e pouco desejada visita poderia ter desfechos bem menos agradáveis.

sábado, 18 de julho de 2009

PARA QUE VERSOS?

Pediram-me versos!
Eu me pergunto:
Para que versos?
Estamos num tempo sem alma
Os homens estão sem memória
Ninguém mais consegue
Ver o deslumbramento
De um amanhecer
Caminhamos para um tempo
Sem sorrisos
Sem mãos que afagam
Sem vozes que cantam
Sem desejos
Sem esperanças
Para que versos meu Deus!
Ele não responde
Ninguém responde
Grito no escuro
Sem ecos
Sem vozes
A cidade está vazia
Mas os passos apressados
Continuam sua longa marcha
Todos fogem
Mas ninguém sabe para onde
Haverá amanhã?
Um ano que vem?
Um futuro?
A vida escapa das nossas mãos frágeis
Não entendemos nada
Não vemos nada
Falamos para ninguém
Enquanto isso
Os pássaros conversam
Na linguagem possível.

OS LIVROS




Um velho amigo, dos tempos de faculdade, contou-me desconsolado que vendera seus livros a um sebo por uma merreca. Fiquei espantado com o inusitado do fato e toparia até comprá-los, caso me oferecesse a relíquia. Mas era tarde demais e só me restou, como consolo, ouví-lo contar sobre a triste separação.

Depois de contemplar seus livros durante horas, lembrando os bons momentos em que estiveram juntos debatendo idéias, criticando e anotando. Alguns deles até lembrou-se do momento da compra, outros foram apropriados, sorrateiramente, nos tempos de estudante, outros presenteados por amigos e parentes. Tudo parecia distante e frio, pois já não sentia mais aquele amor devotado aos livros que aprendera a cultivar durante longos anos. Quantas vezes perdeu a paciência com pessoas mal educadas que dobravam as páginas dos livros ou rasgavam as páginas ou as capas!

Mas já tinha tomado a decisão de vendê-los e ninguém, nada, iria demovê-lo. O primeiro comprador ofereceu um preço apenas razoável, mas pediu o parcelamento do valor. O segundo, apesar do preço mais baixo, pagava a vista. O valor da venda era ridículo perto do valor sentimental, material e intelectual das brochuras. Mais de dois mil livros e só ofereciam cinqüenta centavos para cada um. Uma miséria, menos de sessenta vezes o valor médio de um livro novo. Infelizmente o apartamento era pequeno e não havia mais espaço para acomodá-los. Acumulava poeira e praticamente não tinha mais contato com eles. Há muito, abandonara suas posições políticas e intelectualmente radicais. “Esqueçam o que eu li”, brincava ele, parodiando o intelectual presidente que pedia para esquecerem o que ele havia escrito. O mundo em que acreditou desmoronava-se. As experiências socialistas estavam enterradas, talvez para sempre. Sentia-se cada vez mais anacrônico e deixou de defender antigas posições. Sentia-se envelhecido Ele que sempre foi muito respeitado por suas convicções e honestidade intelectual, lendo com visão crítica tudo que caia em suas mãos, pendurou as chuteiras.

Mas agora, pensava, de que adiantava esses livros todos, acumulando poeira, ocupando espaços preciosos do pequeno apartamento. Provavelmente nunca mais fosse lê-los com interesse. Alguns deles, há anos, não eram sequer tocados. Vendê-los a um sebo seria um sacrilégio, mas não restava alternativa. Quem sabe algum amigo ou conhecido passasse por um desses “sucateiros da cultura” e, ao comprar um livro, reconhecesse a caligrafia cuidadosa nas anotações nas margens e rodapés. Até que seria interessante, chegou a pensar. Talvez esse amigo pudesse imaginar que já estivesse morto ou então numa pindaíba tão grande que precisou até vender as velhas brochuras. Pode ser que esse amigo, depois de comprar um dos livros em um sebo qualquer, poderia até fazer um telefonema e relembrar os velhos tempos de juventude.

Mas o comprador chegou, e sem demora, sob a orientação da sua mulher, foi encaixotando todos eles sem nenhuma consideração especial. Meros papéis... Foram várias viagens até encerrar o carregamento. Deixou um cheque e despediu-se como se tivesse comprado algumas caixas de ferro velho. Nenhuma palavra de consolo para aquele que estava se desfazendo de parte de sua vida, de suas lembranças, de suas utopias. Sentou-se, apoiou as mãos sobre a bengala e chorou, como uma criança.