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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

TENTATIVAS POÉTICAS

Bananeira

O pé de banana
Deu cachos
Doces bananas
E a lesma se lambuza
No ácido doce
E o bem-te-ví
Regala-se
Na jabuticabeira
E o jabuti
É apenas um nome
em um indecifrável
Dicionário.





O mar

O mar molha
A praia dos meus sentidos
E meus ouvidos
Ouvem o marulhar
Mas o mar
Não chega ao planalto
Alto e insone plano
Para que o mar?
Se a vida já secou
Secou?
Ou as dores do corpo
Perderam
O sentido do mar?

Meu avô

Meu avô
Dormia um sono
Sono de pedra
Entre ossos
E lembranças
Que eram gravadas
Na fina teia
Do cálcio.


Minha mulher

Minha mulher
Não é minha
Pois ela é que me tem
Povoa-me de beijos
Arrasta-me
Loucamente
Para sua teia
De desejos
Eu que não sou nada
Perco-me na lambança
De seu território
Infinito
Onde se escondem
Inefáveis prazeres.



Minha filha
Traça
Silenciosamente
Minha continuidade
Mas se recusa
A sê-la
Ela quer ser
Nada mais do que ela
E eu
Sigo a narrativa
Inenarrável
Dos seus olhos
Cor de mel.

dezembro de 2008

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

OS NOSSOS PRESIDENTES


Lembro-me ainda criança no final dos anos 60 o quanto era difícil escrever Kubitschek, o sobrenome de origem tcheca do presidente da República. Quem não conseguia escrever corretamente perdia pontos na prova e por isso me esmerava em escrever o nome complicado do primeiro mandatário. Naquela época via o presidente apenas em jornais e revistas, pois não tínhamos televisão em casa. Ainda criança cheguei a ver o JK na televisão numa entrevista. Ele falava com bastante desenvoltura e de forma muito otimista sobre o Brasil, apesar de ter ficado longe do país durante muito tempo. Uma das frases que disse foi: “Ao viajar de automóvel por São Paulo, fiquei espantado com o progresso, tive a impressão de estar nos Estados Unidos, com boas estradas e fazendas bem cuidadas”. Era um sujeito simpático, elegante e bem humorado, mas os seus críticos não perdoaram o caos financeiro que deixou pela construção de Brasília. O presidente que o sucedeu, JQ era muito carrancudo, sempre mal humorado e com o colarinho em desalinho. Meu pai era um anti-janista e talvez isso tenha ajudado a construir a minha imagem sobre ele. Aliás, foi do Jânio, a minha primeira caricatura, que foi amplamente aprovada pelo meu velho. Infelizmente a minha carreira de caricaturista feneceu por fala de entusiasmo e talento. O sucessor, João Goulart, me parecia estar sempre deprimido, tristonho, sugerindo estar em total desconforto com o cargo de presidente.

Vieram os militares, quase sempre de óculos escuros. Ouvi dizer que os militares usam esse adereço para evitar o olho no olho e não se envolverem emocionalmente com as pessoas. O Castelo Branco ficou pouco tempo e não tive tempo de acompanhar sua trajetória, mas o Costa e Silva povoou o imaginário da população durante sua permanência na presidência. Não era por suas qualidades, mas pelas anedotas que se contava a seu respeito. É claro que a maioria delas eram adaptações de velhas piadas, mas como diz o ditado: Onde há fumaça há fogo, é possível que refletissem alguma verdade. Uma das anedotas que se contava muito na época era assim: Estava o presidente em um cortejo por uma estrada, quando ele avista uma placa e pergunta ao seu assessor: “Que empresa estatal é essa que eu não conheço? Qual empresa senhor presidente? Essa tal de Emobrás! Desculpe-me presidente, mas não é uma empresa estatal, mas apenas uma placa indicando que a estrada está em obras”. Mas durante a visita da rainha da Inglaterra, os jornais publicaram, muito sutilmente, que o presidente cometera uma gafe. A rainha levantou um brinde à cidade de Brasília, cuja data de fundação, coincidia com o seu aniversário. O presidente teria levantado e feito um brinde ao aniversário da Rainha, o que causou risos e desconforto entre os presentes.

As gafes presidenciais têm sido constantes, principalmente nos cerimoniais mais rígidos ou também por se falar demais. O Collor, falou alto e em bom tom, num comício transmitido pelo jornal nacional que tinha “aquilo” roxo. Nada tão desagradável para um presidente da Republica, expor publicamente a cor de suas partes íntimas como se fosse algo para se gabar. Puro machismo. O Itamar Franco foi flagrado com o clic indiscreto de um fotógrafo, dançando com uma moça sem calcinhas no sambódromo do Rio de Janeiro. Coitado do Itamar pagou um tremendo mico. Fernando Henrique, um intelectual de renome e com experiência internacional, não deixou por menos e cometeu vários deslizes durante seu mandato. Um deles, ao criticar os professores universitários que não pesquisavam, disse: “O professor que não pesquisar e não publicar, coitado, vai ter que dar aula”. Ora, ora, professor é para fazer o que? Com a frase, desqualificou professores e ele mesmo, um mestre aposentado.

Ciro Gomes candidato a presidente, ofendeu, numa entrevista, sua namorada, a atriz Patrícia Pillar, ao responder sobre o papel dela em sua campanha: “O papel dela é na cama, disse com a autoridade de um nordestino machista, de bom calibre. Bom, não precisa dizer que sua campanha despencou depois disso. Anteriormente o Paulo Maluf também deixou seu registro para a história do machismo brasileiro: “Está com desejo sexual, tudo bem, mas não mata”, ao se referir ao estupro seguido de assassinato. O Lula não conseguiu aprender com o Collor, o Ciro e Maluf e soltou a máxima em termos de machismo: “Eu me casei e engravidei a galega na primeira noite”. Tudo isso para provar que o presidente é um homem macho de verdade, desses que matam a cobra e mostram o pau. Isso me lembra uma palestra sobre sexo que um padre dominicano fez há muito, muito tempo. Ele deixou bem claro que um homem não se mede por ter relações sexuais, pois isso qualquer animal é capaz de fazer, mas sim pelo seu caráter, sua cultura, dignidade, honra etc. etc. Aquela frase marcou minha vida e sempre que vejo alguém se gabar de seus feitos sexuais, lembro-me da frase e comparo a pessoa a um bicho qualquer, não um verdadeiro homem, pois não é isto que engrandece alguém. Além disso, soa como cafajestismo expor a vida sexual publicamente, seja ela da qualidade que for. E, convenhamos, quem precisa disso para se afirmar, com certeza deve ter lá os seus problemas.

Mas como o nosso presidente, um ex-operário, que se educou parcamente, leu muito pouco e conviveu em um ambiente machista e preconceituoso e que fala pelos cotovelos, as gafes tendem a se repetir. Aquela frase durante a visita a um país africano em que pronunciou a máxima: “Como esta cidade é limpa, nem parece que estamos na África”, é fruto do preconceito social e racial, muito comum entre os brasileiros. Muitas pessoas não falam, mas pensam muitas vezes dessa forma, mesmo sendo educadas. Educação escolar não reduz o preconceito das pessoas, pois ele é adquirido em casa e num processo de socialização mais amplo.

A solução, para evitar esses vexames, que poderiam em outros tempos até provocar uma guerra, é “Em boca fechada não entra mosca”, ou seja, falar estritamente o necessário, de acordo com o script previamente preparado pelos assessores. Nada de dar opinião sem antes trocar idéias com alguém preparado e de cabeça fresca. Os discursos devem ser lidos e relidos antecipadamente para evitar problemas diplomáticos. Afinal, machismo e preconceito estão longe da civilização e para sermos um país civilizado, é preciso, antes de qualquer coisa, que os nossos homens públicos sejam educados e pensem antes de abrir a boca. E que as mulheres aprendam que homens que não respeitam o outro sexo, estão longe de respeitar as mínimas regras da civilidade e precisam aprender muito antes de se candidataram a cargos públicos.

Renato Ladeia

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

OBAMA E A GRANDE VIRADA


Na pele de um negro ou Black like me, de John Howard Griffin, foi a história de um jornalista norte-americano branco nos anos 1960 que raspou os cabelos e escureceu a pele através de processos químicos e foi viver como um negro no sul do seu país. Este livro construiu o meu imaginário adolescente sobre os Estados Unidos, uma nação que segregava a minoria negra de forma cruel e violenta. Relembro uma passagem em que ele estava sentado em um ônibus e olhou para uma mulher branca para oferecer-lhe o lugar. Ele foi prontamente repudiado simplesmente por se atrever a olhar para uma mulher branca. É através do olhar que nos identificamos como seres humanos e esse olhar lhe foi negado. Griffin sentiu uma profunda solidão, num mundo que era hostil a ele e a cor da pele que não era dele, mas apenas uma representação. Como um ator, ele voltou ao mundo real e publicou o que viu e sentiu na pele de um negro.
Não sei se todos os afro-americanos, depois de mais de quarenta anos da universalização dos direitos civis nos EUA decretados pelo Presidente Kennedy, já podem olhar para um branco como iguais, mas a eleição de um meio negro para presidente provocou uma profunda alteração nas relações raciais americanas. O que é surpreendente mesmo, é que Barack Obama, fruto proibido do racismo americano: o casamento de um negro com uma mulher branca rompeu várias barreiras sociais. Primeiramente, entrou na mais famosa universidade americana, Harvard, elegeu-se senador e conseguiu superar a favorita Hillary Clinton, que representava, não somente a elite branca, mas também a experiência política adquirida durante os oito anos de mandato do marido, Bill Clinton.
A eleição de Obama tem vários ingredientes. Não podemos atribuí-la apenas a incompetência de George W. Bush ou ao discurso conservador de McCain e sua candidata a vice, Sarah Palin. Obama foi quem melhor inovou em termos de utilização da nova mídia, a Internet. Rapidamente ele conquistou jovens hiper-conectados, incluindo brancos, negros e hispânicos que criaram uma eficiente rede de arrecadação de recursos para a campanha. O discurso de Obama foi mais sensível, eloquente e por vezes, poético. Ele conseguiu atingir de forma emocional, todos aqueles que estão desesperançados, excluídos ou que simplesmente sonham com um mundo melhor. O seu perfil carismático impôs diante do perfil racional burocrático do oponente. Manteve-se tranquilo diante dos ataques a lá pit-bul dos adversários, respondendo com elegância e firmeza. O grande número de eleitores que foi às urnas, surpreendendo a todos, foi um ato de vontade, de determinação daqueles que querem mudar a América. Recordo-me que em junho passado, um brasileiro que reside a quinze anos nos EUA afirmou com segurança que o McCain levaria a melhor, porque os que diziam que votariam em Obama tradicionalmente não vão às urnas. Ele errou e muita gente bem informada foi pelo mesmo caminho, porque não conseguiram avaliar as transformações que estavam ocorrendo sob seus pés. A América não é mais a mesma. A América onde Tocqueville, um francês aristocrático, se entusiasmou com o nascimento da primeira grande democracia do mundo, com o voto universal para todos os homens trabalhadores (brancos), caminha em direção às incertezas do mundo moderno.
A América mudou? Muito provavelmente sim. A população branca americana está em franca redução, pois os brancos têm menos filhos do que os negros e hispânicos. Sobrenomes como Garcia, Rodriguez e Lopez estão em alta, superando tradicionais nomes anglo-saxões em algumas regiões. A América está mudando porque a maioria dos jovens repudia também as velhas práticas do american way of life; o ideário de que os EUA são a polícia do mundo e a ideologia de que vale a pena morrer pela pátria e pela democracia está perdendo força. A América está mudando porque a globalização encerrou a era de muitos empregos e bons salários para todos, inclusive para os brancos. A América como grande parte do mundo também está “exportando” seus bons empregos para a Ásia e se tornando uma sociedade de serviços, que hoje já é uma atividade que ocupa a maioria da população economicamente ativa. Neste quadro, as minorias são as parcelas da população que mais sofrem.
Lamentavelmente, pelo menos em um aspecto, a América não mudou e está se tornando pior: a violência. O filme Tiros em Columbine é o retrato da sociedade americana moderna. Os casos de atiradores que assassinam em série se multiplicam. Armas extremamente perigosas podem ser compradas em qualquer esquina, sem um controle por parte das autoridades. O principio da liberdade individual impera sobre o bom senso e impede que haja um mínimo controle sobre a proliferação de armas entre os civis. Aliás, esta é uma das propostas de Obama e em razão disso, as vendas de armas e munições tiveram um aumento estrondoso após os resultados das urnas.
A história americana, provavelmente seja a mais pródiga em assassinatos de políticos e líderes em todo o planeta. Lincoln, Kennedy, Robert Kennedy e Martin Luther King são exemplos que não devem ser esquecidos. Reagan sofreu um atentado e por pouco não teve a mesma sorte. A democracia liberal é o império da maioria e sempre sobram descontentes e inconformados. A segurança de Obama é motivo de grande preocupação, não apenas fora dos Estados Unidos, quando as visitas dos presidentes americanos são cercadas por grandes e até exagerados aparatos, mas dentro do próprio território americano. Mas sejamos otimistas e vamos esperar que os americanos tenham realmente mudado. Longa vida ao Barack Obama.
Renato Ladeia

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O IRAQUE NUNCA ESTEVE TÃO PERTO



O Iraque não está tão longe. A expressão "está para lá de Bagdad" perdeu o sentido no mundo globalizado. Infelizmente, a violência que campeia por lá, também está por aqui. De repente podemos ser uma das vítimas ou nossos parentes, amigos e conhecidos. Estamos todos com as cabeças enfiadas na terra, como avestruzes, sem querer enxergar que chegamos a beira do abismo. Há tempos estamos vendo notícias que informam que grupos marginais roubaram quartéis do exército e das polícias militares. Outras dão conta de que os bandidos utilizam armas muito mais sofisticadas do que as disponíveis para nossos policiais. O embate torna-se desigual, desequilibrando o confronto. De um lado, temos policiais militares que têm esposa, filhos ou pai e mãe. Do outro, temos marginais que estão por conta da vida, ou seja, estão para o que der e vier, pois vieram de um ambiente em que a vida não tem mais nenhum valor, em que os vínculos familiares, quando existem, são bastante tênues. De um lado, profissionais de segurança que andam fardados ou podem facilmente ser identificados e de outro, profissionais do crime, sem nada, absolutamente nada, que possa vinculá-los a uma identidade.
Outra questão bastante séria, é que a criminalidade se instalou de uma vez por todas no coração do sistema capitalista. Descobriram as fragilidades do sistema, tanto legais como burocráticas e agem com tranqüilidade e aparência de lisura. Muitas atividades, aparentemente legais, são hoje contaminadas pelo crime organizado, que inclusive dispõe de esquemas de proteção, não somente dentro da própria polícia, como no sistema legislativo, pois o crime organizado financia eleições de políticos, como afirmou a antropóloga Alba Zaluar em uma entrevista que li tempos atrás. Se o crime está alojado no sistema de representação liberal burguês, talvez não haja mais nada a se fazer, usando a famosa expressão: “Se é inevitável, relaxe...”.
Agora, convenhamos, qual é a moral que um Estado tem para combater a criminalidade quando dezenas de deputados, pegos com a boca no trombone, receberam a qualificação de inocentes, que estavam apenas recebendo um “dinheirinho” a mais pelos relevantes serviços prestados a nação? Mais recentemente, vários políticos foram pegos em manipulações de concorrência para a compra de ambulância e tudo indica, pelas investigações, que muitos deputados na ativa estão também envolvidos. Não se deve falar de corda em casa de enforcado, prega o velho aforismo e por isso todos se omitem, pois há mais telhados de vidro no país do que possam perceber nossas retinas fatigadas. O presidente da República, num discurso requentado vem falar que é preciso colocar escolas no país, pois uma escola custa menos do que uma FEBEM. Ora senhor presidente, São Paulo talvez seja o estado em que escola não falta, pelo menos de ensino gratuito fundamental e médio e é onde estamos tendo uma explosão de violência, jamais vista neste país.
O buraco está mais em baixo. Com milhões de jovens entrando na fase adulta, sem perspectiva de emprego ou quando existem, os salários são tão insignificantes que muitos são cooptados pelas atividades marginais como tráfico de drogas. De nada adianta ter escolas e não ter perspectivas de trabalho, de um futuro decente. Do outro lado, os meios de comunicação vendem a imagem de uma sociedade opulenta, com jovens usando roupas e calçados de grifes famosas, criando a falsa impressão de que todos podem ter acesso. É a ideologia que vende o capitalismo como o grande espetáculo, com celebridades esbanjando dinheiro em iates e carros luxuosos, criando um contraste assustador com as periferias das grandes cidades brasileiras.
Outra questão é o discurso politizado dos grupos ligados ao crime organizado. Estariam eles aderindo a uma ideologia de extrema esquerda, colocando-se contra o sistema? Parece-me muito estranho, pois como poderia uma atividade criminosa que se desenvolveu pela simbiose com o sistema capitalista, lutar contra ele? Seria como se o crime fosse um vírus e atacasse o seu hospedeiro até destruí-lo por completo. Mas como o vírus do crime poderia sobreviver sem o seu hospedeiro natural? Numa sociedade hedonista como a nossa em que a busca pelo prazer supera todas as outras perspectivas, não se pode pensar seriamente que o crime poderia migrar para uma militância política com o objetivo de destruir o chamado sistema. Sem ele nada teria sentido, pois o resultado do crime é o dinheiro que possibilita o acesso aquilo que os mais afortunados tem de sobra. Isso motiva o crime e não ideologias superadas pelo processo histórico. Na realidade, em alguns países da América Latina, os militantes da extrema esquerda, migraram, isto sim, para a marginalidade, diante da impossibilidade de “dinamitar a Ilha de Manhatan”, como diria o poeta Drummond em sua Elegia 1938.
O que fazer diante do caos? Primeiramente, criar condições para que as pessoas tenham as mesmas condições e oportunidades como diria Tocqueville em Democracia na América. Se não existirem as mesmas condições, a igualdade se torna uma utopia tão distante como o socialismo sonhado nos anos 60. Paralelamente, seria preciso ter uma policia equipada, moderna, inteligente, bem remunerada para que possa enfrentar os desvios de conduta, os predadores sociais. Além disso, um judiciário mais ágil e uma legislação que não torne o crime compensador, em qualquer nível. Caso contrário, estaremos caminhando rumo a um beco sem saída, quando a sociedade pedirá, como última saída, um regime totalitário, capaz de por ordem no caos, tal como aconteceu na Alemanha no século passado. Como ainda diria Tocqueville, os povos democráticos querem a igualdade na liberdade e, se não a puderem obter, ainda a querem na escravidão.
Renato Ladeia

A MORTE INOVADA


“Funeral é um negócio como qualquer outro e precisa ser inovado constantemente”. A frase, ouvida num jornal na TV me deixou um tanto chocado, pois me habituei a ouvir e ver a morte como algo funesto, desagradável e que coveiro ou o agente funerário eram as piores profissões do mundo, com todo respeito que todas as profissões merecem. Quando criança passava longe das funerárias e só de pensar que um ente querido poderia ser encaixotado me causava arrepios. Lembro-me que ao descobrir que um colega do colégio era filho do proprietário de uma agência, provocou o meu distanciamento dele tal como o diabo foge da cruz. Um carro funerário passando pela rua me provocava asco e olhava para o outro lado. A cor rocha até hoje me é desagradável, por mais que queiram me convencer que é uma cor da moda.
Algum trauma de infância diagnosticaria um psicanalista interessado em algumas sessões de análise. Um medo infundado creio eu, mas pode ter origem nas histórias que eu ouvia quando criança, pintando a morte como um ser perigoso e traiçoeiro, que chegava na calada da noite para levar os escolhidos. O Sétimo Selo de Bergmann ajudou a compor o personagem sinistro em minha memória.
Que tempos modernos são esses em que um coveiro bem vestido, com terno e gravata e todo empolado, vem dizer que a morte é um ótimo negócio e que basta ser inovador para ter sucesso? As inovações a que se referiu o empresário pasmem! São os “bem mortos” (como o docinho chamado bem casado distribuído nos casamentos), lanches, doces e outras guloseimas para fazer inveja para aqueles que passam a pão com margarina e arroz, feijão, ovos e, às vezes, um bife de segunda. Senti náusea e somente não cheguei às vias de fato porque desliguei a TV e fui respirar um pouco de ar puro no jardim lá de casa. Não consigo imaginar alguém comendo em um velório. Perco o apetite só de ouvir notícias sobre uma bomba que explodiu na Palestina. O cheiro de velas e flores me provoca uma sensação horrível e nem um cafezinho se torna palatável.
Sei também que é um problema cultural. Católicos latinos lidam de forma diferente com a morte, mesmo em relação aos outros cristãos como os protestantes. Os orientais têm o hábito de receber todos aqueles que vêem se despedir do morto com uma boa refeição, mostrando a hospitalidade da família. No México, a morte é uma santa que desce dos céus para livrar os crentes do sofrimento da terra. Mas eu sou ainda sou do tempo em que se fazia velórios em casa. Um pano bordado roxo era colocado na porta de entrada para indicar para os passantes que ali um morto estava sendo velado.
Os passantes tiravam o chapéu e faziam o sinal da cruz. Hoje ninguém quer saber de velório em casa. É coisa antiquada, de gente atrasada, dizem os modernos. Um bom velório, de acordo com as regras mercadológicas, deve mesmo ser no crematório com música ambiente, garçons bem vestidos servindo uísque, vinhos e canapés. Contou-me minha filha que no velório do pai de uma amiga no crematório, colocaram em consultar a família, um fundo musical eletrizante, mais compatível com uma balada de sábado à noite. O mal estar foi geral, mas não dava nem para interromper porque a sala de som ficava muito longe do local onde o morto era velado.
Agora, uma coisa é preciso admitir, essa inovação deve ser muito interessante para os penetras, que podem fazer uma boquinha aqui e ali sem maiores problemas. Quem vai contestar a presença de alguém, mesmo que nunca tenha sido visto na vida, que veio consolar a família num momento tão traumático?
Mas foi-se o tempo em que as famílias velavam os seus mortos durante toda a noite. Hoje em dia, por questões de segurança, fecham-se as portas à meia noite e somente retornam no dia seguinte. Os assaltos se tornaram uma constante nos velórios. Os amigos do alheio chegam a altas horas e limpam os bolsos da turma e se o morto tiver alguma coisa de valor, não ficam constrangidos em levar também. Como a segurança pública é precária, o melhor mesmo é prevenir.
Quanto aos crematórios, sempre achei que era uma ótima solução para os restos mortais. Um processo mais higiênico, sem danos ambientais. Mas ao ver um documentário, tempos atrás, sobre o que acontece depois que o morto desaparece, descendo em direção ao forno, fiquei chocado. Mesmo sendo uma pessoa que tem pretensões de ser o mais racional possível, mudei de idéia. Os mortos são colocados em fila, por ordem de chegada e no final do expediente o forno é aceso e começa o processo que leva a noite toda. Depois da queima do caixão, das roupas e flores, entra a parte mais difícil, a queima da carne. Em seguida, restam os ossos com as partes que não foram tostadas totalmente e aí entra o “técnico em cremação” com uma barra de ferro e vai batendo nos cadáveres para soltar os restos de carne, quebrando todos os ossos. No final, o que sobrou da ossada, vai para um moinho para produzir as cinzas. Pode ser também que a inovação dos processos tenha chegado aos crematórios e, também, peço desculpas se cometi alguma incorreção, pois a memória é, muitas vezes, traiçoeira.
Fico pensando se os “coveiros” de crematórios, desses para quem a morte é o cotidiano mais natural, não junta todas as cinzas e as distribui pelas caixinhas para entregar para os familiares. Será que alguém vai conferir? Deve pensar o profissional. Muita gente pode estar levando gato por lebre ou um morto que não é seu. As cinzas de alguém que gostaria que elas fossem espalhadas em sua terra natal podem ter ido para o mar. Nada mais desagradável para um morto do que não ser atendido em seu último desejo. Como não soube de ninguém que reclamou até hoje, vamos levando a vida, ou melhor, a morte.
Renato Ladeia

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

LUPICÍNIO RODRIGUES REVISITADO



Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, despeito, amizade ou horror
Eu só sei que quando eu a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor


O crime de Lindembergue Alves, que assassinou sua ex-namorada Eloá e feriu gravemente a amiga dela, Mayara, me fizeram lembrar dos versos do grande compositor gaúcho, Lupicínio Rodrigues, que foi classificado como shakesperiano por Augusto de Campos. O moço não sabia, tal como o poeta, o que ele trazia no peito, depois do fim de uma relação afetiva. O poeta, como diria Fernando Pessoa, é um fingidor, mas o amante nem sempre consegue sublimar a sua dor através da poesia ou outra forma não violenta. O desejo de morte ou de dor tomou conta do rapaz que não viu alternativa, a não ser mostrar para a jovem todo o seu sofrimento, ficando exposto ao risco de perder a vida e levá-la para o mesmo caminho.
A relação tinha tudo para não dar certo. Ele com vinte e dois anos e ela com quinze. Ele, um garoto mal amado que procurava na família da namorada um aconchego que nunca teve sendo órfão de pai vivo. A proximidade com a família da menina, de apenas doze anos, quando iniciaram o namoro, criou o envolvimento. Ouvi muita gente dizer que seria um caso de pedofilia. Há aí um pouco de preconceito e moralismo. Nossas avós e bisavós etc se casavam após o início do ciclo menstrual, com doze ou treze anos. O mundo mudou, principalmente para as classes mais abastadas, mas nos confins do Brasil a infância de muitas meninas é, ainda hoje, interrompida pelo casamento, trabalho e, lamentavelmente, pela prostituição. Como eu disse, o mundo mudou e hoje as meninas, morando nas grandes cidades, chegam a visualizar um futuro diferente e ainda podem se dar ao luxo (Luxo?) de pensar em estudar (como foi o caso da Eloá, que estava reunida com colegas de escola para fazer um trabalho), ir às baladas, shows de rap, hip hop e outras formas de lazer, antes de se dedicarem às atividades domésticas e cuidarem de filhos.
Namorar uma pessoa adulta, enquanto, como menina de quinze anos, ainda vivia numa fase de transição entre a adolescência e a fase adulta, realmente pode ter sido traumático para Eloá, que percebendo a possessividade e violência do namorado resolveu acabar com o relacionamento. Para ela deve ter sido um alívio, uma libertação, mas para Lindembergue foi um martírio que alternava paixão e ódio ao mesmo tempo. O desejo de morte para Lupicínio sugere que o apaixonado estava entre cometer o suicídio ou continuar sofrendo, mas para o nosso caso real a morte seria apenas do objeto do amor. Se ela não poderia ser dele, não seria de ninguém. A Mayara, como a melhor ou a amiga mais próxima seria a cúmplice da decisão de Eloá e por isso, acredito, o desfecho quase fatal.
Foi ciúme ou despeito? Poderia também ter sido ambos. O sentimento pela perda, o vazio que se abre para o indivíduo quando se encerra um relacionamento pode ser muito grande e muitos têm dificuldade para reencontrar o seu eixo, vindo daí o desespero, o alcoolismo, as drogas, a depressão ou em alguns casos, felizmente, menos freqüentes, a vingança violenta.É óbvio que nada justifica a violência passional contra as mulheres, mas ela existe em todas as sociedades, quer elas sejam tecnologicamente e economicamente avançadas ou pobres e atrasadas como a nossa e outras tantas. É provável que a psiquiatria e a psicanálise não tenham soluções para esses males, que estão ligados à uma cultura em que a mulher é uma propriedade do homem e não pode tomar uma decisão como o rompimento de um relacionamento. Entretanto, a literatura, a música e a poesia podem ser um meio para mergulhar as mágoas e sublimar as pulsões violentas numa perda amorosa. Pena que o Lupicínio quase não é ouvido e os jovens como Lindembergue talvez nunca tenham ouvido falar dele.
Renato Ladeia

terça-feira, 23 de setembro de 2008

A CASA DO BARÃO














Passando por Monteiro Lobato, bucólica cidadezinha do Vale do Paraíba, vimos uma pequena placa “Sítio do Pica Pau Amarelo”. As lembranças do seriado na TV, dos livros do Monteiro Lobato, fizeram com que nossas resistências fossem minadas e pegamos a estradinha poeirenta para conhecer o tal sítio. A viagem foi mais longa do pensávamos, uma estrada que há muito não é conservada e entre subidas e descidas avistamos o casarão colonial que reina majestoso num pequeno vale.
Fomos bem recebidos por vários cães que quase impediram que saíssemos do carro. Mas a proprietária, que não é parente do escritor, nos convidou a visitar a casa por módicos três reais. Contou-nos ela que seu avô comprou a fazenda de um negociante que por sua vez havia comprado do escritor, depois do seu fracasso como fazendeiro. Ainda bem, pois caso contrário o Brasil e o mundo teriam deixado de conhecer as fantásticas aventuras de Narizinho, Pedrinho, a boneca Emília, o Visconde de Sabugosa e outros personagens que povoaram a infância de milhões de brasileiros.
A casa, que pertenceu ao Barão de Tremembé, avô materno do escritor é enorme e bem conservada. As portas parecem que foram dimensionadas para gigantes de tão altas. A sala que dá vista para o jardim cabe muito bem um bom apartamento da cidade. Um cubículo ao lado da sala é chamado de biblioteca e era onde o escritor, quando garoto, fazia suas primeiras leituras.
Da sala acessamos os dormitórios, enormes cômodos com alcovas para que as meninas moças não saíssem do controle dos pais. Não há um corredor para se passar de um quarto a outro. São todos interligados, indicando que não havia nenhuma privacidade na arquitetura colonial que predominou por estas plagas até o século passado. Uma outra porta dá acesso à sala de jantar e cozinha. O dormitório da lendária Tia Anastácia ficava ao lado de um quarto de banho, que dá para a cozinha. Isso mesmo, quarto de banho, pois servia apenas para isso. As necessidades fisiológicas era realizadas numa casinha do lado de fora, bem distante da casa. À noite se utilizava o urinol, como todas as famílias da zona rural, fossem de barões ou de plebeus.
A arquitetura da época não privilegiava os sanitários como uma parte nobre das residências. Diferentemente de hoje, quando as dependências destinadas à higiene pessoal são as mais dispendiosas na maioria das residências. A simplicidade com que viviam muitos barões do café, com todos os recursos de que dispunham, era impressionante. Imaginem vocês leitores, o Barão não ter um lugar reservado para o seu banho ou para aliviar a bexiga num dia chuvoso. O uso do urinol não fazia jus a sua fidalguia. Gilberto Freire, em Casa Grande e Senzala relata que os senhores do Nordeste ao construírem confortáveis casas nas cidades, ainda mantinham o hábito de usar o urinol para desgosto dos empregados e isso já no século XX.
A nossa estranheza não é diferente da percebida diante do texto de Horace Miner, Os Nacirema, um ensaio antropológico que lança um olhar estrangeiro diante dos hábitos e costumes do povo norte-americano. Miner fez uma brincadeira que ficou famosa nos meios acadêmicos, ao descrever a sociedade americana pelo olhar de um antropólogo de uma cultura distante no tempo e no espaço.
Mas voltando a casa do Barão, ainda tivemos a oportunidade de saborear um licor de jabuticabas preparado pela proprietária. Além do licor, geléias caseiras, goiabada cascão são oferecidos aos visitantes a preços convidativos, afinal a casa é propriedade particular e não recebe nenhuma ajuda do governo. Uma pena, pois melhor administrada, com um acesso decente, poderia ser um importante ponto turístico.
Enfim, um último olhar ao casarão, cercado por palmeiras e muito verde, que segundo a proprietária, serviu de inspiração para Urupês, um livro de contos considerado pela crítica como a obra prima do escritor paulista.

Renato Ladeia

domingo, 21 de setembro de 2008

DORIVAL CAYMMI

Meu amigo Zéca cobrou-me uma crônica sobre o velho bardo da canção praieira da Bahia. Eu cá sem nenhuma inspiração para escrever sobre uma das maiores figuras da nossa música popular brasileira. Quem não conhece Caymmi? Minha mãe, já velhinha, não sabe quem é. Pois é, mesmo assim, apesar de não se lembrar, ela ainda consegue cantarolar algumas velhas canções como Maracangalha, Marina, Peguei um Ita no norte e outras. Ainda me recordo de ouví-la cantar em casa enquanto cuidava dos afazeres domésticos. Tinha uma voz de soprano e pelo que me consta era razoavelmente afinada. E assim, eu cresci ouvindo o Caymmi, pelo rádio ou através da voz materna. Que privilégio.

Sua obra é mais conhecida do que ele mesmo. Caymmi foi um letrista inspirado que compunha com a simplicidade dos mestres, que sabia tocar forte em qualquer pessoa minimamente sensível. Quem não sente uma saudade danada ao ouvir “Peguei um Ita no Norte”, mesmo que nunca tenha morado no norte ou que tenha ido para o Rio de Janeiro? É assim mesmo, todos nós temos uma saudade atávica de algum lugar no passado. Afinal, somos todos estrangeiros, pelo menos em parte. E o próprio Caymmi, neto de um imigrante italiano, Enrico Caymmi, que aportou na Bahia no século dezenove que se misturou com o sangue africano, é também um estrangeiro nestas plagas.

Foi então, que de tanto pensar no que escrever sobre o Dorival Caymmi, numa noite destas, acabei tendo um sonho com ele. E foi um sonho bom, terno e delicado. Estávamos indo para o interior e ele era nosso convidado para passar um fim de semana na casa de um amigo. Fui encarregado de pegá-lo e levá-lo de carro até o destino. Chegando lá, tive o cuidado de ajudá-lo a sair do carro e fazê-lo sentar-se à varanda para que ele pudesse olhar a verde paisagem do interior.

- Não é como o mar da Bahia, mas é bonito, não é Caymmi? Perguntei preocupado por não tê-lo levado a uma casa de praia onde ele pudesse ver o mar.

- É bonito, é bonito... respondeu o velhinho quase entoando a canção o Mar... quando quebra na praia, é bonito...

Depois, diante dele, que estava sentado numa cadeira de balanço, fizemos um silencio respeitoso àquela figura magnânima do cancioneiro popular. Um homem que traduziu a alma do povo simples que vive na beira da praia como o João Valentão, os jangadeiros do nordeste e suas mulheres que esperam todos os dias a volta dos seus homens que se aventuram pelas águas do Atlântico, sem saber se voltarão para casa para se aconchegarem nos braços das muitas Mariazinhas. Como nos sonhos, tudo é possível, peguei um violão e o coloquei em seu colo. Ele vagarosamente começou a cantar Marina, quando fui acordado pelas maritacas e outros pássaros que invadiram a amoreira do meu quintal. É sempre bom acordar com o cantar dos pássaros, mas neste dia eles foram delicadamente intrometidos.

Mas para meu consolo, hoje, a cantora Mariane Mattoso cantou só para mim, a belíssima canção Marina. Que coisa boa! Quem ficou com inveja, basta ir ao show que ela fará no próximo dia 30, no All Of Jazz, na Rua João Cachoeira. Ela promete uma viagem fantástica pelo mundo de Caymmi, cantando as suas mais belas canções, principalmente aquelas um pouco esquecidas pelo grande público. Estará acompanhada do competente violão de Luciana Romagnolli e da percussão de Rafael Motta.

Evoé Caymmi!

Renato Ladeia

domingo, 7 de setembro de 2008

LYGIA FAGUNDES TELLES

Barra de São João, uma pequena vila da cidade de Casemiro de Abreu no Rio de Janeiro, era onde passávamos nossas férias de verão. Um lugar bucólico, com a arquitetura colonial preservada em algumas casas, talvez pelo fato das praias não serem tão atrativas aos turistas como da sua vizinha Rio das Ostras. Mas era ali que ficava a casa onde morou o poeta Casemiro de Abreu e também onde ele estaria sepultado (diz o povo que o corpo foi roubado). Mas foi também ali, em frente ao Rio São João, num casarão colonial abandonado pelo descaso do poder público, que o grande pintor Pancetti morou por algum tempo, buscando inspiração para suas belas marinhas. Lá tudo andava devagar e devagar as janelas se abriam e fechavam observando lentamente os passantes.

E foi ali, numa de nossas férias que o nosso querido Fiico, um sósia do Martinho da Vila, um sujeito simpático e bom de conversa, além de violonista de primeira nos contou que a escritora Lygia Fagundes Telles estava hospedada na pousada onde habitualmente ficávamos. Era uma bela oportunidade para conhecer pessoalmente uma das mais importantes escritoras do país. E foi no segundo dia, que entrando na pousada demos de frente com a Lygia, acompanhada de uma amiga.
- Lygia Fagundes Telles, disse em voz alta, simulando alguma intimidade.
Um pouco surpresa, ela procurou por alguém conhecido a sua volta. Ai me apresentei como seu admirador apesar de ter lido apenas um livro de contos de sua autoria e alguns contos esparsos em antologias. Pensei em tirar uma fotografia da escritora com minha filha, para que ela pudesse guardar como uma valiosa lembrança, mas cheguei à conclusão de que seria uma caretice de fã e abandonei a idéia. Acabamos falando de uma palestra em minha cidade, promovida pelo centro acadêmico da faculdade em que ela fora uma das personalidades convidadas e do seu refúgio preferido, a pequena São João com seu ar interiorano, apesar de litoral.
Ainda a encontramos em um barzinho tomando água de coco com sua amiga, mas não ousamos incomodá-la, pois quem sabe estaria reservando aqueles momentos para inspirar-se para mais um conto ou romance. Ela olhava as ruas com seus olhos profundos e suaves e às vezes os lançada em direção ao mar, onde as ondas quebravam com violência na praia. Poderia ser um momento de criação e nada tão inoportuno do que um fã para atrapalhar sua concentração e quem sabe perder-se o fio da meada de uma história que estaria nascendo. No dia seguinte ela se fora e nossa pousada perdera sua fugaz notoriedade, mas com certeza apenas minha família e o velho Fiico sabiam da importância da hóspede para a cultura nacional. Afinal um escritor raramente está na telinha e quando isto acontece à audiência é diminuta.
De volta a São Paulo tratei de recuperar o tempo perdido e mergulhei nos livros da nossa escritora, prometendo a mim mesmo, caso a encontrasse novamente, poder falar sobre seus livros como um velho e experiente leitor. Há tempos não volto à Barra de São João e quem sabe por um desses caprichos do destino em minhas próximas férias poderei encontrá-la na mesma pousada e conversarmos longamente sobre um dos meus assuntos prediletos: a literatura.

Renato Ladeia

MEU PRIMEIRO NERUDA

Comprei meu primeiro Neruda em meados dos anos 80, não me lembro ao certo e foi um acontecimento. Li os primeiros poemas ainda em pé na livraria e prometi, na hora de fazer o pagamento, que devoraria o livro e que satisfaria a minha ansiedade da poesia do grande poeta chileno. Qual o que! Li algumas páginas e o Canto Geral, era esse o nome do livro, ficou acumulando a poeira do tempo na estante.
De tempos em tempos olhava para a brochura e continua prometendo que o leria em breve e nada de cumprir a promessa. A vida moderna, com muito trabalho, o nascimento da única filha, o stress e tudo o mais e fui deixando, para o futuro, a leitura. Às vezes lia algum dos poemas para minha filha antes de dormir, mas, sinceramente, ela preferia o Drummond. O verso “O vento brinca nos bigodes do construtor” era o seu preferido e ela ria de modo a ouvir-se de longe.
Tempos depois um amigo, suspeitando que eu fosse um apaixonado pela poesia de Neruda me presenteou com os Versos do Capitão, com uma bela dedicatória. O pequeno livro foi devorado e os versos de amor ainda rondam minhas noites de insônia. “Quitame el pan, si quieres/quítame ela ire, pero/no me quites tu risa”.
Outro dia, decidido a ler poesia e quem sabe participar de um sarau literário, resolvi buscar o Canto Geral do saudoso Neruda na mesma estante onde permaneceu por anos a fio. Qual o que!
- Onde está o meu Neruda? Perguntei impaciente.
Ninguém tinha notícias e minha filha, irônica, ainda perguntou:
- Aquele que você ainda não leu?
Essa frase me fez lembrar de um velho samba do Chico, quando ele diz: “Devolva meu Neruda, que você levou e que não leu”. E é bem provável que eu tenha emprestado, mas não sei para quem. Passei em revista na memória todos os amigos possíveis leitores de poesia e não encontrei nenhuma pista que me levasse ao livro. Que meus amigos me perdoem pela indiscrição, mas cheguei a bisbilhotar suas estantes e nada encontrei. Provavelmente, esse alguém chegou em casa, colocou o livro na estante e nunca mais tocou nele. Uma frase que ouvi do Milton Eto, um amigo professor de literatura portuguesa, bateu forte em minha memória: “Nos empréstimos de livros há sempre dois ingênuos, o que empresta e o que devolve”. Eu era, sem dúvida alguma, o ingênuo.
Enfim, o meu “pobre” Neruda deveria estar em alguma estante esperando pelo seu leitor, que levou e não leu, conclui com tristeza.
Mas o mundo é pequeno e os encontros e desencontros se sucedem quando menos esperamos. Não é que num dia destes, visitando um sebo a procura de alguma preciosidade abandonada, encontrei o livro com a minha assinatura e tudo! Pois então resolvi recomprá-lo imediatamente, mas estava sem dinheiro e sem o talão de cheques. Pedi, encarecidamente, ao proprietário do sebo que o reservasse para mim. Ele prometeu que guardaria até o final do expediente, mas depois disso se alguém quisesse comprá-lo ele não perderia a oportunidade da venda. Dito e feito! Compromissos fizeram com que deixasse para o dia seguinte a visita ao sebo e quando lá cheguei, alguém mais esperto, tinha comprado o Canto Geral. Também pudera! Estava uma pechincha. Desconsolado, xinguei todas as gerações da pessoa a quem eu havia emprestado o livro, que além de não ter lido, o vendeu a um sebo, por uma merreca. Depois pensando melhor, talvez ele tenha emprestado a um outro qualquer que, sem escrúpulos, o deixou num sebo. Com certeza meus amigos não fariam comigo, tal desfeita.
Por estranha coincidência encontrei depois, no mesmo sebo, outro livro do Neruda, o “Tercer Libro de Las Odas” com uma dedicatória: “Maria de Lourdes, São Paulo, Brazil. Recuerdo: 9 de Enero 1979”. Será que Maria de Lourdes leu o poema Ode a la casa dormida e os primeiros versos “Hacia adentro, em Brasil, por altas sierras y desbocados rios, de noche, a plena luna... Las cigarras llenaban tierra y cielo com su telegrafia crepitante.” Não sei se depois de 29 anos, Maria ainda vive e o livro somente foi parar no sebo depois de sua morte. Ou então, o marido enciumado encontrou o livro em meio aos guardados da mulher e descobriu o Neruda que, possivelmente, estava associado a um antigo amor chileno. Especulações, meras especulações...

Renato Ladeia

terça-feira, 26 de agosto de 2008

OS VELHOS COMPANHEIROS

Apesar da garoa fina e do frio, lá vamos nós para uma festa na casa de amigos. Às vezes falta coragem, mas sempre vale a pena quando a alma não é pequena. Nada tão saboroso como os doces encontros com os amigos e amigas de antigas jornadas. Abraços demorados, repletos de afeto e alegria por rever pessoas que fazem parte da nossa história, dos nossos sonhos, das nossas aventuras e desventuras. Sempre festejamos os aniversários, os casamentos, os nascimentos e muitas vezes era apenas para comemorar um retorno, um dia bonito, uma noite de lua cheia ou simplesmente a vontade de rever os velhos companheiros.
Todos são, ou melhor, eram bons de copo. Alguns são vigiados atentamente pelas mulheres, que aproveitando a lei seca, impuseram severo controle sobre o vinho, o uísque e a cerveja. Um copinho só não faz mal... Até o final da festa já passou o efeito... E a conversa vai pegando ritmo. Não se fala mais de política, de violência e de corrupção porque ninguém agüenta mais. Fala-se mais de poesia, de música e da saudade do velho Caymmi que completou seu tempo de permanência no pequeno planeta azul.
Algumas cabeleiras foram devastadas pelo tempo que vai pintando cabelos brancos em antigas recordações. As rugas a cada ano vão se acentuando, fixando as marcas indeléveis das muitas primaveras e principalmente verões, que passamos juntos. As mulheres continuam as mesmas, sempre bonitas e cada vez mais charmosas. Vão enganando o tempo com novas cores e novos cremes. É uma luta constante em busca da eterna juventude.
Um dos amigos usou uma triste metáfora quando nos aconchegamos em volta de uma mesa redonda coberta com uma toalha preta. “Quero ver quando for uma mesa retangular com uma toalha preta?” Ora essa! Que hora para se falar nessas coisas! Morte é fim de festa, é desencontro.
Alguns faltaram ao encontro. Um estava na Escócia em um congresso, outro estava às voltas com seus negócios, outros moram muito longe, um outro, mesmo morando perto, está deixando o tempo passar e está esquecendo de viver. Viver é mais do que trabalhar, dormir e comer. Viver é sentir o calor de uma boa conversa, de relembrar bons e maus momentos, é sentir o abraço estreito com jeito de se agradar. Viver é olhar nos olhos e sentir que amamos as pessoas e somos amados. Viver é desfrutar de amizades desinteressadas, é jogar conversa fora, é um poema do Manuel Bandeira encerrado com força e paixão... “Eu faço versos como quem morre”. Viver é ouvir aquela canção do Caymmi e sentir no fundo da alma as águas batendo na beira da praia e ver um entardecer que parece não acabar nunca de tão bonito. Viver, minha gente é poesia pura na veia. O dinheiro pode ser bom, mas se não tivermos poesia na alma, ele só trás inveja, medo de que todo mundo está querendo pegá-lo. Depois, quando partimos, ele gera apenas a discórdia entre os que ficam. Feliz o homem que deixa para os seus filhos apenas a sua sabedoria, seus versos tortos e sua memória.
O que nos torna humanos de verdade, não são as finanças, as tecnologias, as grandes propriedades. O que nos torna humanos é a paixão. É a paixão que nos leva a escrever versos, a ouvir e ler versos, a se emocionar com a música, com o sorriso, com as lágrimas e com as coisas mais simples da vida. É a paixão que leva o homem para o futuro sem esquecer do passado.
Mas como diria o velho poeta mineiro: “Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

Renato Ladeia
23/08/08

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O EXTERNATO MATTOSO E A VELHA MOOCA











Num taxi em direção à Mooca, um velhinho no volante foi me falando com seu sotaque italianado sobre o bairro que conhecia como a palma de sua mão. Ele nasceu e foi criado lá. Hoje, motorista de táxi pertence à cidade, rodando por tudo quanto é canto da São Paulo desvairada.
Paramos em frente ao antigo Externato Mattoso, na Rua dos Trilhos e ele se pôs a falar sobre sua infância quando lá estudava.
- As professoras eram muito rigorosas e ainda hoje tenho marcas de grãos de milho nos joelhos, comentou saudoso.
Quem passava até pouco tempo atrás pela Rua dos Trilhos, ainda via uma construção antiga com a inscrição: Externato Mattoso. Lá funcionou de 1910 até meados dos anos sessenta, a primeira escola do bairro. Lá três irmãs, a Etelvina, a Arlinda e a Marianna da Costa Mattoso, ensinavam as crianças a ler e a escrever. Naquela época, na Mooca, um bairro tipicamente operário, se falava mais o italianês do que o português. Na verdade a língua predominante era o dialeto Vêneto misturado com o nosso idioma. Provavelmente as reuniões dos operários anarquistas eram realizadas em um idioma que os policiais não entendiam, o que dificultaria saber o que estavam exatamente fazendo. Havia também, segundo historiadores, algumas ilhas onde se falava praticamente o espanhol.
Foram mais de sessenta anos e o velho prédio, pelas suas janelas preguiçosas, viu muitos acontecimentos. A revolução tenentista de 1924, liderada pelo General Isidoro Dias Lopes, deixou marcas profundas no prédio, pois foi ocupado pelas forças revolucionárias. Durante muitos anos, as fotografias das crianças tiradas durante as formaturas, tinham como pano de fundo, uma parede crivada de tiros de fuzil. O Custódio da Costa Mattoso, meu sogro e sobrinho das professoras, encontrou, tempos depois no prédio, uma granada (não disparada) e algumas balas de fuzil. Uma das balas está lá em casa como souvenir. Quanto a granada não sei que fim levou.
Em algumas reuniões familiares, tive oportunidade de conversar com duas das velhas professoras, a Marianna e a Arlinda, pois a Etelvina já havia falecido. Eram mulheres orgulhosas do seu passado e do trabalho que desenvolveram educando crianças, sendo que muitas delas não falavam nem o português. Elas contaram que durante a revolução de 1924, foram obrigadas a fugir para um sítio em Santo Amaro, que pertencia a um parente ou amigo. Para empreender a viagem alugaram uma carroça que levou algumas boas horas até chegar ao destino, onde puderam ficar em segurança. São Paulo estava um caos, com muitas casas bombardeadas e pessoas mortas que eram enterradas nos quintais, pois era impossível atravessar as ruas com o tiroteio para se fazer um cortejo fúnebre.
Passado o susto, a cidade foi voltando à normalidade e a velha Mooca também. As professoras do Externato precisaram juntar os cacos, ou seja, consertar tudo. Portas, carteiras e mobiliário em geral quebrados ou destruídos.
A vida econômica da cidade se desorganizou e com fechamento das fábricas, muitas pessoas ficaram sem recursos e houve saques aos armazéns, principalmente o do Matarazzo, de onde levaram muitos sacos de farinha de trigo. Depois a polícia foi de casa em casa para resgatar. Muitos operários italianos, suspeitos de colaborarem com os revoltosos, foram presos e interrogados.
Depois veio a Revolução de 32 e desta vez todo o estado foi envolvido na guerra civil. Foram tempos difíceis, com a mobilização de toda a comunidade para o conflito que no final mostrou-se inútil com a manutenção da ditadura de Getúlio Vargas até 1945. Os homens jovens se engajavam no exército constitucionalista e os que não o faziam eram humilhados nas ruas como maricas. Neste episódio, o Externato também foi um ponto de referência para os voluntários. Lá as mulheres produziam uniformes para os soldados engajados. Meu sogro, com apenas sete anos de idade, levava uniformes até a Estação de trem, no início da Rua da Mooca.
A história do Externato, que já está no seu centenário, começou com a vinda das irmãs de Campinas, onde estudavam em um colégio religioso. Com a morte do pai, Francisco da Costa Mattoso, um apaixonado por corridas de cavalo que não saia do antigo Hipódromo da Mooca, bem próximo do Externato, tiveram que arregaçar as mangas e trabalhar duro. Junto com o Francisco, irmão mais moço, construíram grande parte do prédio. A antiga família Costa Mattoso, cujas origens remontam o século XVIII entre a região de Campinas e Sorocaba, também foi se italianizando, assimilando o sotaque Vêneto através de casamentos e convívio.
Com o crescimento da cidade e a ampliação da rede pública de ensino, a escola, bastante acanhada, não teve como sobreviver. Além disso, as velhas professoras já estavam precisando se aposentar depois de mais de sessenta anos de trabalho. Conta-se que nos anos sessenta, os Mesquita, proprietários do Colégio São Judas propuseram uma parceria, mas as velhinhas desconfiadas, não aprovaram a idéia.
Mais recentemente, conheci o Professor e advogado Aldo Guida que foi goleiro do antigo Palestra Itália, hoje Palmeiras, como reserva do legendário Oberdam nos anos 1940. Ele também estudou no Externato Mattoso e foi amigo de juventude do meu sogro. Foi então que ele contou-me que seu pai, conselheiro do Palestra-Palmeiras, indicou para contratação, o famoso craque Feitiço, alcunha de Luiz Mattoso, primo do meu sogro.
A Mooca tem muita história e duas esquinas adiante do Externato, ficava o lugar onde os famosos Demônios da Garoa ensaiavam os sambas do Adoniran Barbosa. É possível que também eles tenham estudado no velho prédio da Rua dos Trilhos e aprendido antigas as lições.
Hoje o nome em relevo Externato Mattoso, foi definitivamente apagado do prédio, que se transformou em uma pizzaria e a cidade perdeu mais um pouco de sua memória. As velhas professoras de tantas histórias também desapareceram e hoje elas têm como monumento apenas as calçadas pisadas da Rua dos Trilhos. Uma pena.

Renato Ladeia
7/8/08

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Histórias de Piedade (II)

Dedo estava em novas atividades no banco. Agora era um inspetor de financiamento rural e seu trabalho consistia em visitar os clientes do banco para verificar se estavam aplicando corretamente os recursos. Pegou a pastinha com a relação dos clientes a serem visitados, subiu na motocicleta e saiu para mais um dia de trabalho. As estradas vicinais são difíceis, mal conservadas e sem nenhum tipo de sinalização ou indicação. Para localizar as pessoas nos sítios era preciso ir perguntando para quem encontrava pelo caminho. Muitos dos clientes são conhecidos por apelidos, o que torna a tarefa ainda mais difícil. Um tal de Antonio José dos Santos foi muito difícil de achar. Ninguém conhecia o homem até que um senhor se lembrou e disse:
- Deve ser o Toto do Titico. Ele mora lá em riba.
Chegando lá encontrou uma senhora de meia idade varrendo o quintal em frente a casa. Estava tão concentrada em seu trabalho que nem percebeu a moto chegar. Ela parou de varrer e apoiando as mãos na vassoura cumprimentou o visitante.
- Bom dia!
- Bom dia, minha senhora! É aqui que mora o senhor Antonio João dos Santos?
- Não senhor, aqui não mora não...
- Será que eu me enganei? Um senhor da venda me disse que ele mora aqui, disse o Dedo surpreso com a resposta.
- Não... não conheço não; repetiu a senhora.
- Me falaram que o apelido dele é Toto do Ti...
- Ah! É o Toto do Titico, filho meu moço! Respondeu a senhora surpresa.
- Mas como? A senhora não sabe o nome do seu filho? Disse o Dedo espantado e sorrindo para não deixá-la constrangida.
- Ah! Nois aqui não se trata pela assinatura não moço. Respondeu a senhora calmamente apoiando o queixo no cabo da vassoura.
Depois de resolvido o problema, o Dedo pegou a moto e foi pensando no episódio. Ele se lembrou do livro Parceiros do Rio Bonito, escrito pelo Antonio Cândido, com base numa pesquisa na região próxima de Piedade nos anos 1940. No livro, Antonio Cândido, faz referência ao hábito da população rural não usar os nomes de registro. Ele cita um tal de Roque Lameu, que depois descobriu se tratar de Roque Antonio da Rocha que era neto de Bartolomeu da Rocha, que no linguajar caipira era Berto Lameu. Naquela época as relações eram bem informais, dispensando documentos, nomes próprios etc. Assim, bastava a palavra ou um fio de bigode que um negócio estava garantido, sem a necessidade de documentos.
Os nomes passados em cartório é procedimento recente no Brasil. O registro civil para casamentos e nascimentos só chegou em nossa terra com a proclamação da república e isso muito lentamente. Até então, a única prova de nascimento era o assento de batismo, isto é, quando a pessoa era batizada. Sabe-se que no Portugal medieval não havia sobrenomes, que só apareceram aos poucos com a utilização de apelidos de antepassados em função de profissões, topônimos, relações de dependência etc. A patronímia, ou seja, a utilização do nome do genitor continuou aqui no Brasil. Isso explica o caso do Toto (apelido de Antonio) do Titico (que poderia ser seu pai, seu avô ou mesmo o sogro).
Assim, na vida simples do interior, onde as relações pessoais não dependem de status ou identidades marcadas pelo sobrenome de família, as pessoas dão pouca importância a isso. Diferentemente dos povos europeus, aqui no Brasil, as pessoas não são denominadas pelos nomes de família, mas pelo pré-nome. Como escreveu Sergio Buarque de Hollanda em Raízes do Brasil, preferimos o tratamento mais informal, que revela uma intimidade que muitas vezes não temos com as pessoas. O José de Souza para nós não é o Sr. Souza, mas simplesmente o Zé ou Zezinho. É o nosso jeito, mesmo nas cidades em que as pessoas conhecem as “assinaturas”.

Renato Ladeia

Histórias de Piedade I

Histórias de Piedade

Murilo deu um bocejo e sentiu que já estava passando da hora de fechar a bodega. Fazer as contas, pegar o caminho de casa e descansar para mais um dia de labuta. Já ia pegando a chave quando entrou um velho com uns setenta e poucos anos. O homem chegou meio cambaleando e parou no balcão. Tirou o chapéu e pediu um café bem forte. O Murilo pensou com seus botões, mais essa agora... Na horinha de fechar. Café até que tinha um restinho que havia sobrado, mas servir, sujar copo e ainda agüentar conversa de bêbado? De jeito nenhum.
- Não tem mais café não meu amigo. Acabou.
O homem fez de conta que nem ouviu a resposta do dono do bar e emendou em seguida um novo pedido:
- Então o senhor me faz um misto quente com bastante queijo.
O Murilo já foi perdendo a paciência de Jô e, pedindo desculpas, disse que a chapa já estava fria e que não dava para fazer o lanche não. Bem agora o homem vai embora e eu posso fechar as portas, pensou. Ledo engano, o velhinho não desistiu e mandou outro pedido:
- Me vê então uma coxinha e pronto!
- Eu outra vez vou pedir desculpa pro senhor, mas os salgadinhos acabaram... Respondeu o Murilo já ansioso para encerrar a conversa e fechar o bar. O velhinho olhou bem para o Murilo, passou os olhos pelas prateleiras e disse:
- Ta bom, eu vou embora, mas me responde uma coisa seu moço: Aqui não é bar?
Depois dessa o Murilo ficou sem saber se ria ou chorava. Pensou duas vezes e respondeu calmamente:
- Não senhor, isso aqui é uma farmácia, disse o Murilo um pouco preocupado com a possibilidade de o homem perder a calma.
- Ah! Eu bem que desconfiava; respondeu desanimado. Pegou o chapéu de palha e seguiu o seu caminho.
Lá fora a lua estava bonita e a noite prometia ser fresca e clara. Ao trancar a porta olhou para a estrada e ainda viu o homem caminhando em ziguezague. A gente vê cada uma neste mundo de Deus! Pensou em voz alta o Murilo. Cansado e precisando de um bom banho para relaxar, também pegou a estrada e foi seguindo a lua nova que brincava faceira de se esconder pelas colinas da cidade.
Chegando em casa ainda tomou um gole de uma cachaça especial que ganhou de um amigo que trouxe de Minas, não sem antes ouvir a mulher reclamar. Tomou um banho demorado e resolveu contar o acontecido para a patroa.
Terminando de contar o causo, começou a rir sozinho como uma criança. A mulher deu de ombros e perguntou: “Uai que graça tem isso, sô?” Pois é Murilo, têm histórias que só vendo e ouvindo pra rir. Contando assim não tem graça não. E o Murilo foi dormir lembrando do velho.

Renato Ladeia

segunda-feira, 28 de julho de 2008

MONTE VERDE

“Verde que te quiero verde/ Verde viento, verde rama” (Garcia Lorca)

Pela primeira vez estou em Monte Verde. Apesar do frio quase suportável, principalmente à noite, e muita poeira na estrada, vale a pena deixar a paulicéia desvairada e dar uma relaxada na pequena vila incrustada na serra da Mantiqueira. É uma Campos do Jordão menor, menos estressada e mais bucólica. O ambiente é mais caseiro e é possível passar na Rua dos Bem-te-vis e visitar a casa da dona Nata, uma paulistana que adotou Monte Verde há muitos anos e curtir os beija-flores que invadem o seu quintal, além dos esquilos que vêm comer amêndoas na mão da gente. Depois é só comprar um potinho de geléia de amoras ou de framboesas (não é obrigatório, mas é educado) que o seu marido, o seu Renato, prepara ouvindo o canto das sabiás.
Na Pousada Locanda Belvedere onde estamos hospedados, o ambiente é bastante aconchegante, com muita música popular brasileira sob a direção de um dos sócios, o Roberto Lapicirela, um boêmio, compositor e músico aposentado que se dedica também a pesquisa sobre a música popular brasileira. Na Locanda funciona também um museu da MPB, onde é possível encontrar qualquer música gravada no Brasil em 78 rpm, LPs ou CDs, além de revistas de época, livros, fotos e objetos.
O mais interessante é que o Roberto tem músicas lançadas desde os anos 30 o que torna possível ouvir as canções com os arranjos originais gravados em CDs. Um verdadeiro achado. O visitante fala o nome do cantor ou do compositor e o nosso anfitrião localiza em poucos segundos e assim, pode-se curtir aquelas músicas que ouvíamos quando crianças ou foram ouvidas pelos pais e avós.
Conversando com o Roberto, apesar do seu jeito aparentemente sisudo, é possível extrair boas histórias da música popular brasileira. Ele foi proprietário do Bar Bom Motivo, que marcou presença na noite paulistana, onde a MPB reinava absoluta. Lá muita gente boa deu canja, como a Mônica Salmaso, entre outros. Ele também escreveu um belo livro sobre as marchinhas de carnaval desde os anos 30, com histórias, letras e partituras, uma obra fundamental para historiografia musical brasileira.
A Pousada conta também com a simpatia da Néia, um misto de recepcionista e quituteira, que prepara uma deliciosa pizza com os temperos da nona dos Lapicirela, que trouxe da pequena Vieste na Itália. Devo ainda afirmar, sem medo de errar, que é a melhor pizza de Monte Verde. Mesmo na velha São Paulo, famosa pelas pizzas, ainda não saboreei uma igual.
O pai dos proprietários, Roberto e Michele o italiano Gaetano Lapicirela foi um dos primeiros a acreditar no potencial da vila e há mais de 30 anos comprou um lote que se transformou numa Pousada ou Locanda em italiano. Na locanda é possível apreciar as pinturas do pintor italiano Bassi, amigo do Gaetano, que o presenteou com seus quadros. São dezenas de pinturas com bucólicas paisagens da península itálica. Na sede da Locanda, há uma varanda com uma linda vista do vilarejo e um lugar delicioso para a leitura.
Enfim, um lugar para voltar e retomar a conversa sobre a melhor música popular do mundo com o seu Roberto, que se delicia falando dos seus compositores preferidos, como Noel Rosa, Ari Barroso e Chico Buarque. Com um pouquinho de jeito dizem que é até possível fazê-lo pegar o violão e fazer uma bela seresta. Desta não consegui, mas vou tentar na próxima vez que visitar Monte Verde. Monte Verde que te que quero verde, verdes plagas, verdes morros, verdes olhares.

Renato Ladeia
24-07-08

sexta-feira, 27 de junho de 2008

MANAUS E O ENCONTRO DAS ÁGUAS

Por hoje e talvez por amanhã também, nada será tão poético para mim como a expressão: o encontro das águas. Águas que vêm do sem-fim das Américas, das águas do degelo dos Andes, que vêm arrastando paus, pedras, vidas, flores, dores, amores por onde passam e de repente se encontram com outras águas, águas escurecidas, que vêm do norte, do sem fim do lado de lá do Equador. E foi isso que eu vi, com esses olhos que um dia a terra há de devorar que as águas do Solimões e as águas do Rio Negro se abraçam num enlace amoroso e permanente até chegar ao mar.
Uma simpática senhora manauense me perguntou se era realmente verdade que das margens do Rio Negro seria possível mesmo ver o encontro das águas. A verdade está no olhar de cada um. O poeta finge que vê e que também não vê. Enquanto isso, o rio arrasta suas águas indefinidamente até o final dos tempos. O físico e quase poeta Stephen Hawking disse que o universo em expansão um dia faria o caminho inverso até o nada. Voltaríamos todos até o óvulo e além dele, aos abraços, ao amor. Infelizmente ele voltou atrás para dizer que o tempo era a única coisa permanente, que não volta nunca mais.
José Luiz, que no fundo de sua alma é um poeta, avisou que ir a Manaus sem ver o encontro das águas é um pecado mortal. Ele nasceu olhando o rio desde os olhos de sua mãe e, até hoje, continua sonhando com ele. Tomando cerveja e saboreando um peixe do rio e olhando para as águas ele disse que não havia coisa mais bonita do que o por do sol no Rio Negro. Percebi que ele sonhava com o seu rio, como o João Valentão da inesquecível canção do Dorival Caymmi que também sonhava com o mar da Bahia. “E assim adormece esse homem, que nunca precisa dormir, pra sonhar, porque não há sonho mais lindo, do que sua terra, não há”.
O rio é sempre uma forte presença na cultura humana. Quem poderia pensar em Paris sem se lembrar do velho e poluído Sena ou de Londres sem o seu quase restaurado Tamisa. E o que seria do Fernando Pessoa sem o Tejo? “O Tejo é o mais belo rio que corre pela minha aldeia/ Mas o Tejo não é mais belo do que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”. O nosso bardo e poeta Caetano Velloso também imortalizou o rio que passava em sua pequena Santo Amaro com os belos versos: “Onde eu nasci passa um rio/ que deságua num igual sem fim/ igual sem fim minha terra/ passava dentro de mim”.
É por isso que invejo os manauaras, porque eles têm um enorme rio, um rio que às vezes a vista não alcança. Um rio que corre silencioso e sem pressa para o seu encontro com o Solimões e com o mar. Um rio colorido pelos barcos que se preparam para as festas de Parintins. Os barcos parecem ensaiar seus passos de dança, enfeitados por fitas coloridas que criam um belo contraste com a sujeira do cais. Eu olho inseguro para aquele povo que não conheço. São olhares índios e mestiços que estão atentos aos movimentos dos barcos e aos passantes. Sigo o Vitangelo, um italiano que adotou a Amazônia e que é meu guia nessa misteriosa, ameaçadora e selvagemente bela cidade. Como seu patrício que descobriu a América, ele desvendou aos poucos os encantos do rio, do porto, dos becos me guiando soberbo pela Manaus que um dia sonhou ser uma Paris às margens do rio Negro. Avistamos o teatro que o meu imaginário construiu bem maior. Enquanto meu guia me contava sobre os áureos tempos da febre da borracha, eu via fantasmas vestidos de ternos de linho branco e chapéus panamá, acompanhados por elegantes senhoras em direção ao teatro para assistirem a mais um espetáculo de ópera.
Mas o tempo é curto e tristemente me despeço de Manaus e dos rios por um derradeiro olhar que até pouco tempo era um privilégio apenas de Deus. Mas, por sorte, os homens criaram os aviões contrariando a vontade divina e nós, pobres mortais, podemos ver o mundo com o mesmo olhar de um criador ao concluir sua obra.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

REFLEXÕES SOBRE OS DIREITOS SOCIAIS

A sociedade moderna é um espetáculo de exclusões sociais constantes. A cada nova turbulência do capitalismo milhões de indivíduos são jogados numa vala comum. Essa imagem é metafórica, mas não perde conexão com a realidade concreta. Não se trata de um massacre clássico no sentido da violência física em que o carrasco se apropria do corpo do outro e o destrói. É um massacre sutil, mas igualmente destrutivo, pois nega ao outro os direitos fundamentais à vida. É o massacre em que são utilizados mecanismos retóricos que mascaram uma ideologia cruel e avassaladora, convencendo o outro da sua condição de paria social, de um desnecessário ao sistema produtivo, algo descartável no sentido exato que se dá a esse termo na sociedade de consumo, enfim, é a reificação do ser humano. O espaço público é negado da forma mais violenta, pelo não reconhecimento ou mesmo da negação da existência do outro. Como destaca Hannah Arendt (2001) a história do mundo moderno poderia ser descrita como a história da dissolução do espaço público.

Todos os avanços conquistados pela modernidade parecem ter perdido a razão de ser . As conquistas sociais que deram algum sentido de dignidade às pessoas comuns são destruídas através de um discurso ideológico da negação, apoiado por um racionalismo perverso que parte da justificativa de que o resultado importa mais do que a essência das coisas. A criação se tornou mais importante do que o criador, pois deixou de ter o sentido de glorificar a espécie, para ter um fim em si mesma. O desenvolvimento das forças produtivas que poderia suscitar a possibilidade de uma nova era de inclusão, de acesso aos bens e confortos proporcionados pelo avanço científico e tecnológico, transformou-se em um monstrengo cruel e insaciável que transforma os seres humanos em culpados pela nova desordem. “É uma sociedade marcada pela indiferença em relação às questões públicas, pelo individualismo e atomização, pela competição e por uma instrumentalização de tudo o que diz respeito ao mundo” (Arendt, 2001).

O que fazer daqueles que não se enquadram nos ditames da nova ordem, que por suas características peculiares, habilidades e aptidões não conseguem acompanhar a inexorável turbulência? O discurso esconde a brutalidade análoga a dos campos de extermínio nazistas, negando um verdadeiro apartheid social e econômico. Os novos paradigmas vêm anulando importantes conquistas sociais que tiveram custos altíssimos, consumindo preciosas vidas. Mesmo o discurso simbólico utilizado para a mediação do conflito, vem sendo crescentemente substituído por um outro discurso: o da perversão cruel e narcisista, o discurso dos vencedores, da hegemonia total e absoluta do capitalismo em sua concepção mais cruel. A “voz” do vencedor dispensa o reconhecimento do outro, é simplesmente instrumental, racionalista e negadora da condição humana. Já não se faz necessária a retórica, pois a linguagem se faz direta, sem subterfúgios e os números são deificados como soberanos absolutos da nova realidade.

Esta reflexão tenta estabelecer uma conexão do ponto de vista dos direitos sociais entre três importantes autores do pensamento moderno, como Hannah Arendt, E.R.Thompson e Jacques Ranciere, com vistas à identificação de pontos de convergências entre suas teorias. Parece bastante claro que a discussão sobre os direitos sociais nos remete, obviamente, para a questão das classes sociais, palco onde os conflitos se apresentam, seja pela conquista, seja pela manutenção desses direitos. A existência de uma sociedade dividida em classes, envolve, necessariamente, a apropriação de excedentes sociais por uma classe dominante. Essa apropriação que Marx (1975) chama de acumulação de capital pelo controle e posse dos meios de produção por parte dos capitalistas, implica por sua vez, também na distribuição desigual dos recursos gerados pela sociedade.

As classes sociais

Como surgem as classes sociais e como elas se estruturam historicamente? As classes sociais não existiriam de forma independente umas das outras. A existência de classes é fruto do antagonismo, do conflito de interesses entre os seres humanos. Pensar a classe social levando em consideração os aspectos formais da estrutura, número, importância econômica é percebê-la como coisa e classe não é coisa, mas relações sociais, fruto da experiência absorvida através de mecanismos culturais, valores, tradições, instituições etc (Thompson, 1989). Essas relações ocorrem num espaço público, onde os seres humanos expressam seus pontos de vista, suas diferenças, sua diversidade, seus interesses na esfera pública, que em última análise é a esfera política (Arendt, 2001).

Portanto, não se pode condicionar uma classe para que aceite o seu papel social, canalizando de forma adequada suas queixas e reivindicações, pois isso nega as classes como fruto das relações históricas, do conflito, da oposição entre elas (Thompson, 1989). Assim, tentar impor um consenso entre as classes é uma tentativa totalitária de negar a existência do conflito. Sobre esta questão, Ranciere (2000), ressalta que o fim do socialismo soviético, amplamente criticado pelo seu totalitarismo, gerou entre os vencedores a percepção de que poderiam impor, de forma unilateral, os mesmos princípios antes criticados, ou seja, uma concepção da política sem alternativas, o consenso em torno da economia de mercado, que se apresenta como algo definitivo e incontestável.

O consenso pode ser considerado como uma tentativa de esquecimento, de anulação do modo de racionalidade próprio à política. Esquecer isso é negar que a política é o dissenso e nunca o consenso, que em última análise reflete uma visão totalitária da sociedade (Ranciere, 1996).

A existência de um mundo comum, compartilhado, onde se expressam as divergências, conforme Hannah Arendt (1999) é uma construção, um arfetato humano que depende dessa forma específica de sociabilidade que só o espaço público pode instituir. O mundo comum é regido pela pluralidade humana, da qual depende a existência da própria realidade.

Assim, a realidade está intrinsecamente relacionada ao reconhecimento da diversidade, da diferença entre as pessoas, entre as classes, entre as etnias. Negar esta pluralidade pode ser entendido, também, como a negação do outro, anulando a sua voz. A imposição de uma única concepção da realidade como definitiva e inconteste é também a dissolução do espaço público, onde se expressam as diferenças, a pluralidade, onde se pode ser visto e ouvido por outros, e o mais importante, que todos possam ver e ouvir a partir de ângulos diferentes. É a pluralidade dos pontos de vista que confere certeza ao que existe.

As Leis

As leis também podem ser vistas como instrumentos ideológicos para legitimação da dominação de uma classe sobre as outras (Thompson, 1989). Sob esse enfoque, as leis teriam um papel formal na mediação dos conflitos de classe, não para resolvê-los através do estabelecimento da igualdade de direitos, mas para legitimar um sistema de exploração. A busca do consenso, na realidade, pode resultar, como afirma Ranciere (1996), numa tentativa de imposição de valores de forma hegemônica, pois aqueles que não têm o que negociar acabam sendo cooptados, contribuindo para a legitimação do sistema. Thompson (1989) observa a não existência de consenso na formulação das leis, que são empregadas direta e instrumentalmente para imposição do poder de uma classe sobre as outras. Essa posição contrasta com a tese de Ranciere que vê o consenso como tentativa de manipulação e o não reconhecimento das diferenças, buscando uma igualdade que não existe e nem pode ser admitida. Como a classe dominante detém o controle do aparato jurídico e institucional do Estado, ela consegue impor leis que podem servir para garantir o sistema de dominação, mantendo ao mesmo tempo a sua legitimidade perante a sociedade como um todo.

No plano simbólico as leis utilizam a retórica da igualdade no sentido de que são feitas para todos, indistintamente, apesar de ter como finalidade maior, a legitimação do poder de uma classe sobre as outras. Entretanto, essas mesmas leis, formuladas para legitimar o sistema, acabam estabelecendo, pela tradição e sedimentação na sociedade, direitos para todos, mesmo que tenham como objetivo original, a legitimação de uma sociedade dividida em classes e conseqüentemente, desigual (Thompson, 1989).

Sob o ponto de vista da participação política, a lei como fronteira para a ação, delimita o espaço no qual a interação política se dá e pode se realizar. Ela estabelece as referências a partir das quais cada um pode “reconhecer o outro como seu semelhante” (Arendt, 2001). Neste caso, a lei pode delimitar o espaço de manobra do mais forte, garantindo a “voz” do mais fraco, ainda que sob o ponto de vista formal e simbólico. Assim as leis, apesar do vício de origem, podem se constituir em importantes instrumentos de garantia dos direitos sociais, possibilitando a inclusão dos excluídos, ou seja, ter “direitos a ter direitos”. Ao ter direito a ter direito, mesmo numa democracia “burguesa”, cuja representação política se situa mais no plano ritual e simbólico do que de forma efetiva, as chamadas classes subalternas garantem um lugar no mundo, o seu reconhecimento no espaço público.
Um exemplo de legislação que pode garantir algum tipo de direito é a lei da reforma agrária. Essa lei determina que as terras improdutivas devam ser desapropriadas em benefício do programa de reforma agrária. Logo, a ocupação de terras nestas condições, mesmo que contrariando o princípio da propriedade privada, cria uma brecha no sistema institucional que não chega a legitimar essa ação por parte do MST (Movimento dos Trabalhadores sem Terra), mas legitima a luta política pelo direito à terra. Dentro desta mesma linha de raciocínio, a inviolabilidade do domicilio e a prerrogativa exclusiva do poder judiciário para a autorização do uso da força policial para expulsão de trabalhadores que ocupam uma terra improdutiva, garantem, pelo menos no papel, o direito de lá permanecerem até que um juiz determine a reintegração de posse. Essa mesma lei foi formulada para garantir, em outros tempos, que fazendeiros ocupassem áreas devolutas ou de propriedade do Estado até que obtivessem o direito a posse definitiva pelo uso capião. No mesmo sentido, a lei que garante a inviolabilidade do domicilio também não foi feita para os excluídos, mas para garantir às dissidências dentro da classe dominante e mesmo para intelectuais e profissionais de imprensa com a preservação de direitos individuais contra eventuais tiranias.

Considerações finais

As perspectivas de Hannah Arendt, Jacques Rancière e E.P. Thompson, convergem em direção a questão dos direitos sociais sob ângulos distintos, quer sob o ponto de vista filosófico, sociológico, político ou sob a perspectiva histórica dos direitos, reforçando a necessidade do direito a ter direitos, da existência do espaço público como uma conquista social de extrema importância em sociedades pluralistas que convivem com uma ampla diversidade humana, social e política.

A questão do consenso e do dissenso, discutida por Ranciere coloca em cheque a tendência dominante no sentido de se buscar sempre uma harmonização dos pontos de vista, dos interesses e também dos direitos. Isto, a rigor, se revela impossível, pois para obtenção da convergência, são utilizados os mecanismos da violência da maioria, que acaba impondo seus princípios para as minorias, sem levar em consideração a diversidade cultural, ética, de valores etc. Ao se impor o ponto de vista da maioria, busca-se em resumo, tornar invisível os diferentes, não reconhecendo a sua existência. Aqueles que não existem não podem ter direitos, nem direitos a ter direitos.

BIBLIOGRAFIA:

ARENDT, Hannah. A condição Humana. Rio de Janeiro, Ed. Forense Universitária, 2001.
_________ Origens do Totalitarismo. Rio de Janeiro, Cia. das Letras, 1989.
_________ A crise da República. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1999.
MARX, Karl. El Capital Crítica de la Economía Política. México, Fondo de Cultura Económica
SILVA TELLES, Vera. Política e espaço público na constituição do “mundo comum”: notas sobre o pensamento de Hannah Arendt. In Direitos Sociais, Afinal do que se trata? Belo Horizonte, Ed. UFMG, 1999.
THOMPSON, E.P. Senhores e caçadores: a origem da lei Negra. São Paulo, Paz e Terra, 1989.
_________ A formação da classe operária inglesa. São Paulo, Paz e Terra, 1989.
RANCIÈRE, Jacques. O dissenso. In A crise da razão. Organização: Novaes, Adauto. Rio de Janeiro, Cia. das Letras, 1996.
__________ O desentendimento: política e filosofia. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1996.

Oscar de Vito, um artista de talento

Depois de vinte e três anos fomos rever um amigo. Lá estava ele com os bigodes grisalhos, os olhos ainda mais miúdos e o sorriso simpático. O abraço ainda era forte e sincero, sugerindo que sentia prazer em rever-nos. Mal sabíamos por onde começar. Falar de trabalho, de lembranças antigas, da cidade, do barulho, da crise econômica, do medo do futuro? Mas as pessoas que não tiveram uma relação formal ou apenas superficial, mas profunda, acabam desatando os nós do tempo e articulando novas conversas e por fim conseguem se reencontrar como se o tempo não tivesse passado, que foi apenas um breve intervalo entre acontecimentos.

A casa muito aconchegante, com quadros de barcos espalhados pelas paredes, sugerindo que estava ocupada por um velho marinheiro que abandonara suas lidas com o mar e se recolhera ao aconchego de antigas lembranças. Confesso que fiquei surpreso com o interesse do amigo por barcos, mar, marinheiros, pois tinha em mente que o Oscar era pouco ligado ao mar e preferia o isolamento do campo, as invernadas, as matas e cachoeiras. Ledo engano! Acabei descobrindo um lado desconhecido do amigo e seus laços atávicos com o mar. A mãe nascera olhando para o mar, em Santos, e o avô, um alemão, era apaixonado por barcos e pescas.

O pai nascera na capital, precisamente na avenida São João, centro nervoso da velha São Paulo, onde deve ter convivido com a paisagem boêmia e visto muitas cenas de sangue nos bares da redondeza, por negócios do amor. Afinal, o amor é o ridículo da vida como diz a velha canção popular. Seu pai se casou e foi para o subúrbio, Santo André, e lá viveu isolado do mundo em que nascera e crescera, sem boêmios, sem serestas e sem violão. O Oscar foi crescendo ouvindo as velhas canções de Chico Alves, o inesquecível seresteiro morto prematuramente num acidente. Os discos, colecionados pelo pai, foi sua melhor herança e ele ainda os guarda como um tesouro precioso que de fato são. A semente foi plantada no solo mais fértil e fez emergir um jovem que passou sua juventude resgatando a memória do pai, ajudando a construir um mundo boêmio numa cidade árida, onde as pessoas estavam voltadas para o trabalho nas fábricas e dispunham de pouco tempo para a música e o lazer.

O primeiro violão foi um presente da mãe, a doce Iracema, com seus eternos olhos azuis. Com ele aprendeu a criar belas canções e envolveu-se com a noite, o teatro, a boemia e até com o movimento estudantil. Os sambas-canções e as serestas do Chico Alves se encontraram com o Elvis Presley, Neel Sedaka, Paul Anka e depois com os Beatles e conviveram, harmonicamente, na sua memória. Cada um teve o seu espaço, sem xenofobia, sem ressentimentos. Contou-nos também, emocionado, o momento em que mostrou sua primeira canção para o pai, que fez sinal de aprovação com a credencial de um velho boêmio. O resgate do avô, um pescador, do pai, que cresceu em meio à boemia da Avenida São João, me fez lembrar do mito do herói na mitologia grega. É a aventura da eterna busca do pai, quando Atena ordenou a Telêmaco, filho de Ulisses: “Vá procurar o seu pai”. “Essa busca do pai é uma aventura heróica superior... é a aventura de procurar o seu próprio horizonte, a sua própria natureza, a sua própria fonte”, como disse Campbell.

A Miriam, sua mulher e também nossa amiga, sempre simpática e alegre, convidou-nos para um café e aí descobrimos, para nossa surpresa, mais uma faceta desconhecida do Oscar: um mestre-cuca diletante. Serviu-nos um delicioso bolo de maçã que havia preparado para a ocasião. À mesa tivemos ainda a companhia da filha Anna Clara, com seu sorriso doce e encantador que escondia uma inteligência brilhante e maturidade pouco comum para uma jovem de dezessete anos. Ela já construiu seu sonho e parece que lutará por ele. Pretende trabalhar em organismos internacionais para ajudar a humanidade em busca da paz como fazia o inesquecível Sergio Vieira de Mello. Como é bom descobrir jovens que estão em busca de sua utopia, não preocupados com o consumismo, com o carreirismo. Isso me faz voltar à juventude estudantil em que nós lutávamos por uma sociedade mais justa e democrática, enfrentando os canhões da ditadura militar.

A conversa continuou, sempre instigada pela Celinha, e o “velho” Oscar foi desfiando o tecido de antigas memórias, relembrando a participação numa peça da Cacilda Becker, compondo a trilha musical. Da Cacilda Becker ainda se lembrou do beijo que ganhou em agradecimento pelo seu trabalho e a xícara de café que levou como souvenir. Falou-nos do Bar do Zé Colméia que ficava em frente ao Teatro de Alumínio onde o grupo de reunia para tocar, cantar e declamar poemas. Lembrou-se do Geraldo Poeta, parceiro saudoso que ficou desgostoso com uma brincadeira e nunca mais apareceu no botequim. Recordou-se saudoso do Samambaia, reduto da boemia emergente de Santo André, onde conheceu antigos companheiros como Sinésio Dozzi Tezza, Erasmão, Sissi, Carlinhos Kalunga,Magoo, Dedo Thenório e tantos outros. Hoje o Samambaia é apenas um estacionamento que ocupou o lugar onde fervilhavam emoções, mas como dói.

Faltava apenas um detalhe importante para fecharmos com chave de ouro o encontro tão aguardado: o velho violão Di Giorgio que ganhou em um festival de música estudantil. Ao tomá-lo nas mãos lembrou-se do Jorge, outro dos antigos amigos, que conhecera pessoalmente o velho italiano fabricante de violões, o vecchio signore Di Giorgio. Falou do Zeca e sua vontade de sentar com ele e ouvir suas memoráveis marchinhas. Quando chegou o momento propício, a Celinha cutucou leão... e vieram as canções inesquecíveis que muitos de nós aprendemos a amar com ele, como Ronda, As velas do Mucuripe, As Cordas de Aço, Mês de Maria entre outras. Não faltaram as parcerias com o Sinésio, Dedo, Carlinhos entre outras. Cantou a canção Butiá, que fizemos juntos numa noite de lua cheia perto da fazenda onde o Sinésio nasceu. A emoção tomou conta da sala e viajamos para os velhos tempos em que nos encontrávamos, quase que semanalmente, com muita conversa e sobretudo, muita música e poesia.

Entramos pela madrugada adentro e quase nos recostamos no confortável sofá para esperar os primeiros raios de luz entrando pela janela como nas inesquecíveis noitadas de juventude. Mas preferimos pegar o caminho de casa, pois os tempos são outros e sabemos que não é possível resgatar de uma vez tudo o que se passou. Devagar com o andor...

JOSÉ DE ARRUDA PENTEADO, UM EDUCADOR


Num dia desses  visitava um sebo para passar o tempo, quando, surpreso, vi o livro Comunicação Visual e Expressão, do professor José de Arruda Penteado. Comprei o exemplar e pus-me a recordar os tempos de faculdade em que ele era professor e nosso mentor intelectual. Era uma figura ímpar, com seu vozeirão impostado e uma fina ironia. Rapidamente estreitamos contato e nas sextas-feiras saíamos em turma para tomar vinho e conversar. Era um dos poucos professores em que era possível criticar, sem medo, a ditadura militar. Penteado era um educador, profissão que abraçara com convicção e paixão. Seu ídolo e mestre foi o grande pedagogo Anísio Teixeira, que ele enaltecia com freqüência em nossos encontros semanais. Defendia um modelo de educação voltado para uma prática socialista e democrática, coisa rara naqueles tempos.

Depois disso, soube que estava coordenando o curso de mestrado em Artes Visuais da Unesp e ficamos de fazer contato com o ilustre e inesquecível mestre. Mas o tempo foi passando e sempre fomos deixando para depois. É assim mesmo: deixamos sempre o essencial para depois, quando não há mais tempo... E de fato ele não esperou por nós e partiu num dia desses. Por sorte (não sei se azar) às vezes dou uma olhadela na página de anúncios fúnebres do jornal e vi seu nome: José de Arruda Penteado, paulista de velha estirpe, faleceu aos 78 anos... Senti uma profunda tristeza e arrependimento por perder a oportunidade de um último contato com aquela personalidade carismática que aprendemos a amar e respeitar pelas suas convicções e amor pela profissão de educador.

Minha mulher, a Célia, lembrou da sopa de legumes que preparara muitas vezes para as nossas noitadas. Ele fazia questão do vinho, assunto que conhecia com alguma propriedade. Uma vez, como o encontro era improvisado, precisou comprar o vinho numa padaria do bairro. Ele indagou solene ao velho português sobre os vinhos disponíveis em seu estoque. Espantado com o freguês, o comerciante não teve dúvidas, pediu licença e foi buscar duas garrafas de um “português legítimo” que trouxera de sua última viagem a terrinha. O vinho foi classificado pelo professor Penteado como um vinho maduro, com personalidade. Nessa noite, após a sopa regada ao bom vinho lusitano, o mestre adormeceu no sofá de nossa casa e somente acordou quando o sol já estava alto. Esqueceu de avisar a família, o que lhe causou sérios aborrecimentos.

Infelizmente, o mestre saiu da faculdade, provavelmente demitido por questões políticas, pois era um crítico contundente da estrutura educacional vigente, tema no qual os conformados e medíocres preferiam não tocar. Soube depois que concluíra a livre docência e estava assessorando universidades no interior do Estado. Ele foi um mestre que preferia estar em contato com as bases, os alunos. Gostava de ouví-los, sentir as suas aspirações, seus medos e esperanças. Acreditava que a academia precisava estar mais perto dos estudantes, pois eles que davam vida à universidade. Essa característica não era bem vista pela maioria dos seus colegas que optavam por manter uma distância arrogante em relação aos alunos. Com a morte do professor Penteado perde o país um grande educador e intelectual, além de um importante interlocutor entre a cultura popular e a academia.

terça-feira, 20 de maio de 2008

As Isabellas são mais comuns do que se pensa.



A tragédia de Isabella Nardoni, longe de ser um caso excepcional em que o pai e a madrasta podem ter trucidado a garota, não é nada absolutamente novo em nossa sociedade. Somente nos últimos dias vieram à tona vários casos de crianças assassinadas, agredidas ou torturadas dentro de casa aqui e no mundo. Então por que tanta celeuma em torno do crime? Parece-me que o caso ganhou tanta projeção apenas por se assemelhar a um folhetim policial ou uma novela da Rede Globo. Todo mundo desconfia do casal, mas eles não confessam e alegam inocência. Ai gera a expectativa de que num determinado momento eles vão confessar o crime. Cria-se uma torcida e há inconscientemente o desejo de todos para que confessem publicamente que foram os autores da tragédia. A polícia faz aí o papel do mocinho que descobre todas as provas, mas a defesa e os suspeitos (os maus da novela) continuam negando e dissimulando. Fica a impressão de que os telespectadores ficam angustiados porque todos estão vendo os fatos e só a justiça e a defesa não consegue enxergar.
Ficam todos esperando a prova cabal em que os suspeitos vão assumir a culpa por estarem sem saída, sem argumentos. No momento da confissão ocorreria o gozo geral da sociedade que acompanha o caso. A prisão dos suspeitos não resolve o problema, porque não houve a expiação da culpa e sem isso, não há gozo possível. Fica um grito parado no ar, que não se concretiza, não se liberta. O gozo seria a catarse final, a libertação como processo apoteótico de espetáculo interativo, tipo “Você decide” ou o Big brother. Os apresentadores fazem suspense, anunciando que dentro de poucos instantes falará um psicanalista ou um perito criminal que dará informações importantíssimas sobre o caso. Mas qual o quê, nada de novo! As informações são repetitivas ou meras suposições que não levam a elucidação do caso.
Se acaso, o que considero pouco provável, surgisse alguém que viu ou que confessasse o crime, livrando o casal, o efeito também seria o mesmo. O gozo se daria através do choro emocionado de toda a sociedade que condenou alguém sem culpa. Só que aí a expiação seria dos expectadores e não dos criminosos, que seriam comuns, corriqueiros. Todos se comprometeriam em orações ou junto ao travesseiro que nunca mais condenariam ninguém sem provas definitivas (isso até o próximo espetáculo).
Se as coisas de fato ocorreram conforme os laudos indicam e que não houve tempo, nem motivo para o crime ter sido cometido por um terceiro ou por terceiros, não seria nada extraordinário, pois a família pode ser um lugar extremamente perigoso, principalmente para as crianças, que são frágeis e muitas vezes irritantes (principalmente as dos outros), que choram quando queremos dormir ou quando estamos vendo o nosso time preferido jogar ou durante um filme. Como nem todos têm a paciência de Jó ou chutam as paredes para não fazer nenhuma besteira, tragédias acontecem... As mães são, normalmente, mais tolerantes por força da própria biologia, mas não confiem muito, pois na semana passada uma delas jogou uma criança de três meses no rio para se livrar das responsabilidades maternas. Há uns quinze dias uma outra mãe prendia a filha com correntes na cama e a marcava com ferro quente. E atire a primeira pedra quem não levou uma surra de fazer xixi nas calças quando criança? Felizmente as surras deixam na maioria das vezes apenas marcas físicas ou psicológicas, mas um tapa de um adulto na cabeça de uma criança pode provocar uma tragédia.
Os outros mamíferos são muito interessantes quando observados sob a perspectiva de uma espécie superior que ainda imagino ser a nossa. Minha cadela teve filhotes os quais protegia com unhas e dentes contra as investidas do pai. A explicação funcional para esse comportamento, é que é comum o pai eliminar os filhotes machos por temerem uma possível concorrência, razão pela qual a mãe, instintivamente, reage agressivamente contra a mera aproximação do macho pai. Normalmente, os machos detestam os filhotes, mas aconteceu algo inusitado lá em casa; ao ter a oportunidade de se aproximar dos filhotes, o pai mostrou-se afetuoso com todos, inclusive os machos. Assim como no comportamento dos animais, as teorias não funcionam de forma linear e previsível. Podemos ser surpreendidos ao descobrir que pessoas estudadas e bem nascidas se revelam pais ou mães violentos contra os filhos ou vice versa, como foi o caso da Suzane que articulou o assassinato brutal dos pais. O ser humano é sempre uma incógnita; aliás, como todos os outros animais. Podemos ser cruéis ou generosos, tolerantes ou vingativos ou podemos ser tudo e nada disso. Somos todos, com certeza, caixas de Pandora, da qual pode tudo sair.

sábado, 17 de maio de 2008

HILLARY, OBAMA OU McCAIN?


As eleições norte-americanas vem despertando grande interesse entre nós, talvez muito mais do que nas eleições anteriores. Qual seria a razão para que vários articulistas se dediquem ao tema, quase que diariamente? É claro que a presença de uma mulher candidata ao cargo é uma grande novidade, pois pela primeira vez em mais de duzentos anos da democracia americana, uma se apresenta com alguma probabilidade de vencer. A outra novidade, obviamente, é a candidatura de um negro, também com chances de chegar lá. A pergunta que todos fazem é se a sociedade americana está amadurecida para ser governada por uma mulher ou por um homem negro. Os articulistas inicialmente descartaram a possibilidade do Barack Obama vencer, pois a questão racial fatalmente viria à tona, considerando que Hillary Clinton teria maior probabilidade de vencer o candidato republicano McCain, pois poderia atrair os votos tanto de brancos como de negros e latinos, que normalmente apóiam os democratas.
Por outro lado não podemos esquecer que um candidato negro poderia representar uma mudança importante na forma como os norte-americanos são percebidos, principalmente nos países chamados periféricos. Por sua origem afro-americana, de pai muçulmano e mãe hippie, Obama poderia merecer uma maior boa vontade por parte dos povos mais antiamericanos, abrindo a possibilidade de um maior entendimento, caso ele tenha mesmo a vontade política de mudar a visão do mundo em relação aos seus patrícios.
De acordo com os analistas especializados em política norte-americana, Obama deve sair à frente como o candidato democrático que enfrentará McCain, pois Hillary não tem conseguido se impor como uma alternativa viável para as eleições, fato comprovado pela redução drástica das doações ao seu partido. Obama, por sua vez vem encantando os jovens, brancos e negros pelo seu discurso atraente e inovador.
Hoje, conversando um brasileiro residente em Boston, EUA, ouvi a opinião de alguém que está presente no cotidiano da vida americana, conversando com homens, mulheres, jovens e idosos, nos supermercados, no trabalho, nas ruas. Flávio Dirose, um engenheiro civil que buscou no mercado americano uma alternativa para a década perdida no Brasil durante a recessão dos anos 80, afirmou com convicção, que McCain ganhará as eleições americanas contra Obama, pois o último tem um discurso de retórica bonita e bem articulada, mas vazia de conteúdo. Afirma o meu interlocutor que Obama não tem uma proposta clara para o sistema de saúde norte-americano, que se apresenta como um dos graves problemas do país. Não acredita também que Obama esteja preparado para enfrentar a gravíssima crise econômica desencadeada pelos empréstimos hipotecários. Outro motivo que deixa Dirose descrente quanto à possibilidade do candidato democrata vencer é que os jovens que o apoiam, em sua maioria, não votam.
Da minha parte, sem dúvida alguma pagaria para ver o impacto interno e externo da vitória de um negro na mais antiga democracia liberal do planeta. Considerando que os negros conquistaram os direitos civis somente nos anos 60 do século passado e as cicatrizes da segregação racial ainda não estão totalmente curadas (observe-se a fala do pastor da igreja de Obama), a vitória poderia representar um resgate histórico e a recuperação da auto-estima da população de origem africana em todos os níveis sociais. No plano externo seria até possível uma reunião de Obama com Bin Laden na busca de um amplo entendimento entre os povos do terceiro mundo e a grande potência ocidental(rss). Brincadeiras a parte, as negociações poderiam sim ser mais produtivas sem o cinismo do George W. Bush.