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segunda-feira, 28 de julho de 2008

MONTE VERDE

“Verde que te quiero verde/ Verde viento, verde rama” (Garcia Lorca)

Pela primeira vez estou em Monte Verde. Apesar do frio quase suportável, principalmente à noite, e muita poeira na estrada, vale a pena deixar a paulicéia desvairada e dar uma relaxada na pequena vila incrustada na serra da Mantiqueira. É uma Campos do Jordão menor, menos estressada e mais bucólica. O ambiente é mais caseiro e é possível passar na Rua dos Bem-te-vis e visitar a casa da dona Nata, uma paulistana que adotou Monte Verde há muitos anos e curtir os beija-flores que invadem o seu quintal, além dos esquilos que vêm comer amêndoas na mão da gente. Depois é só comprar um potinho de geléia de amoras ou de framboesas (não é obrigatório, mas é educado) que o seu marido, o seu Renato, prepara ouvindo o canto das sabiás.
Na Pousada Locanda Belvedere onde estamos hospedados, o ambiente é bastante aconchegante, com muita música popular brasileira sob a direção de um dos sócios, o Roberto Lapicirela, um boêmio, compositor e músico aposentado que se dedica também a pesquisa sobre a música popular brasileira. Na Locanda funciona também um museu da MPB, onde é possível encontrar qualquer música gravada no Brasil em 78 rpm, LPs ou CDs, além de revistas de época, livros, fotos e objetos.
O mais interessante é que o Roberto tem músicas lançadas desde os anos 30 o que torna possível ouvir as canções com os arranjos originais gravados em CDs. Um verdadeiro achado. O visitante fala o nome do cantor ou do compositor e o nosso anfitrião localiza em poucos segundos e assim, pode-se curtir aquelas músicas que ouvíamos quando crianças ou foram ouvidas pelos pais e avós.
Conversando com o Roberto, apesar do seu jeito aparentemente sisudo, é possível extrair boas histórias da música popular brasileira. Ele foi proprietário do Bar Bom Motivo, que marcou presença na noite paulistana, onde a MPB reinava absoluta. Lá muita gente boa deu canja, como a Mônica Salmaso, entre outros. Ele também escreveu um belo livro sobre as marchinhas de carnaval desde os anos 30, com histórias, letras e partituras, uma obra fundamental para historiografia musical brasileira.
A Pousada conta também com a simpatia da Néia, um misto de recepcionista e quituteira, que prepara uma deliciosa pizza com os temperos da nona dos Lapicirela, que trouxe da pequena Vieste na Itália. Devo ainda afirmar, sem medo de errar, que é a melhor pizza de Monte Verde. Mesmo na velha São Paulo, famosa pelas pizzas, ainda não saboreei uma igual.
O pai dos proprietários, Roberto e Michele o italiano Gaetano Lapicirela foi um dos primeiros a acreditar no potencial da vila e há mais de 30 anos comprou um lote que se transformou numa Pousada ou Locanda em italiano. Na locanda é possível apreciar as pinturas do pintor italiano Bassi, amigo do Gaetano, que o presenteou com seus quadros. São dezenas de pinturas com bucólicas paisagens da península itálica. Na sede da Locanda, há uma varanda com uma linda vista do vilarejo e um lugar delicioso para a leitura.
Enfim, um lugar para voltar e retomar a conversa sobre a melhor música popular do mundo com o seu Roberto, que se delicia falando dos seus compositores preferidos, como Noel Rosa, Ari Barroso e Chico Buarque. Com um pouquinho de jeito dizem que é até possível fazê-lo pegar o violão e fazer uma bela seresta. Desta não consegui, mas vou tentar na próxima vez que visitar Monte Verde. Monte Verde que te que quero verde, verdes plagas, verdes morros, verdes olhares.

Renato Ladeia
24-07-08

2 comentários:

  1. Velho mestre Ladeia. Sempre pitoresco, nos levando a seus passeios de maneira impecável e graciosa. Parabéns! Grazie Tanto!
    Dédo.

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  2. Renato,
    Estivemos em Monte Verde em Março. Um pedaço do paraíso. Você lembrou bem. Ah, também visitei a Locanda, o Roberto Lapicirela e seus vinis. Uma preciosidade.
    Abraços.

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