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terça-feira, 30 de junho de 2009

NATALINA, UMA DOMÉSTICA DE CULTURA



O pedreiro passou lá em casa e deixou uma pequena obra e muita sujeira. A limpeza seria árdua se não fossem os esforços da Natalina, uma empregada que passou uns tempos lá em casa. Mas no início da faxina minha mulher antecipou que seria muito difícil e eu disse que seria necessário esfregar exaustivamente para conseguir algum resultado. Algum tempo depois ouvi a Natalina dizer: “Já esfreguei exaustivamente e não consegui nenhum resultado”. Primeiramente pensei que ela tivesse gostado da palavra e a havia incorporado ao seu repertório pela sonoridade do vocábulo, mas logo depois percebi que não era bem isso.
Tempos depois, sentado no sofá lendo meu jornal num dia de folga, enquanto a Natalina fazia a faxina na estante ouvi a máxima: “As vinhas da Ira é um livro muito interessante. É o livro que mais gosto do Steimbeck”. Olhei para os lados para me certificar de que fora mesmo a Natalina que havia pronunciado aquela frase. E era mesmo. “Você leu todo o Steimbeck?” Perguntei surpreso. Li toda a obra e muitos outros também. Foi aí que descobri que a minha biblioteca era pequena demais para a cultura de nossa empregada, que começou a ler aos oito anos de idade e nunca mais parou. Explicou-nos depois, que praticamente nascera na casa em que sua mãe trabalhava e ainda menina bisbilhotava a enorme biblioteca da casa. O dono, percebendo o interesse da garota foi orientando a sua leitura e com isso, passava horas e horas na biblioteca.
Natalina era negra, alta e forte com um sorriso simpático e acolhedor. Ela tinha a dignidade de uma dama. Ela sustentava uma irmã doente que trabalhara durante trinta anos em uma casa de família, que a despejou tão logo ficou enferma. Quando a irmã morreu ficou numa situação difícil, pois não dispunha de recursos para o enterro. Quando ofereci o dinheiro para as despesas, ela respondeu: “Vocês não tem nenhuma obrigação em me ajudar. Eu vou falar com a ex-patroa dela. Ela sim tem obrigação”. No final precisou, a contragosto, aceitar a minha oferta, desde que fosse como empréstimo, mesmo com o meu discurso de que eu também tinha obrigação de ajudá-la num momento como aquele. Foi difícil convencê-la de que não era um empréstimo, mas uma doação.
Mas nossa alegria durou pouco e nem tivemos tempo de promover algumas reuniões literárias com a nossa culta empregada, que desapareceu de repente, sem dar notícias. Fomos até o bairro onde morava e não conseguimos localizá-la e ninguém sabia do seu paradeiro. Pobre Natalina desapareceu da mesma forma como entrou em nossas vidas, sem muita explicação.

UM COMUNISTA


Lembro-me quando meu pai contou a um primo mais velho que estava preocupado com a possibilidade de eu ter me tornado um comunista. Não que ele soubesse exatamente o seria um comunista ou comunismo. Ele tinha uma idéia muito vaga sobre isso com base nos discursos da direita conservadora. Era frequente nos meios de comunicação, os militares falarem no perigo cripto-comunista que ameaçava a família brasileira. Ele era eleitor fiel do Ademar de Barros, um famoso político do “rouba, mas faz”, mais conhecido pelas denúncias de corrupção como negociatas, desvios de dinheiro público etc. A culpa toda do medo do meu pai foi de um livro sobre a União Soviética que um colega de trabalho emprestou-me para ler. O livro na verdade não fazia apologia da União Soviética, mas uma crítica ao comunismo. Era um documentário sobre o primeiro país comunista do mundo e comentava sobre alguns progressos, mas criticava a falta de liberdade, ausência de eleições livres etc. A pessoa que me emprestou o livro não era um comunista, muito pelo contrário, ele era um liberal esclarecido. Seu nome, Rubens Novaes, o contador da empresa, e de certa forma, foi meu preceptor e chefe. Ele me ensinou os meandros da burocracia, como preencher uma nota fiscal, fazer controle de estoque, cálculos de custo, orçamentos etc. Mas ele foi além, ao me incentivar a ler romances, biografias e revistas de conhecimentos gerais. Politicamente ele oscilava entre o conservadorismo e a esquerda liberal, mas nunca assumiu uma posição política muito clara. Na fase mais crítica do governo Goulart, quando o debate sobre as Reformas de Base ganhava as ruas, ele era um ardoroso defensor da tese do desenvolvimento nacionalista autônomo. Mas quando os militares tomaram o poder, logo ele passou a defender e justificar as medidas “moralizadoras” do novo governo. Mas ele não era muito convicto, sugerindo que queria acreditar que o país havia de melhorar. De qualquer forma, devo muito ao Rubens a minha formação. Era uma pessoa bastante culta para o seu nível de escolaridade, pois lia muito. Eu estava com catorze anos quando comecei a trabalhar com ele. Durante o expediente sempre arranjava tempo para falar dos grandes escritores nacionais e estrangeiros. Lembro-me que me contou, com detalhes, Os Miseráveis de Victor Hugo, quase poupando-me de ler o volumoso romance. Pelo menos um capítulo por dia era desfiado durante o expediente, aproveitando os intervalos e a ausência do gerente.
Mas havia na empresa um comunista de verdade, com carteirinha e tudo. Era um torneiro mecânico chamado Paulo Ponciano, mineiro de Belo Horizonte. O Paulo era um mulato, culto, educado e também muito articulado, conhecedor da dialética marxista, condição que lhe dava grandes vantagens nos debates políticos durante os intervalos para o café e após o almoço. Ele tinha posições muito claras sobre o papel da classe operária na revolução e desfiava o processo revolucionário e a importância da classe operária durante os intervalos para o café e durante o horário de almoço. Mas a sua competência profissional e seriedade acabaram lhe pregando uma peça, pois acabou sendo promovido a Encarregado, situação que o deixou bastante desconfortável. Ser revolucionário e ao mesmo tempo precisar defender os interesses do capital junto aos operários como: exigir maior produtividade e disciplina, desgastaram a sua imagem.
Os operários comentavam a boca pequena: “Era comunista quando era peão, depois virou a casaca”. Depois disso, raramente se metia em discussões políticas, preferindo falar sempre em tese sobre as tendências do capitalismo. Soube, tempos depois, que pediu demissão e voltou para Minas, onde montou uma pequena indústria e se tornou um “burguês” empreendedor.
Renato Ladeia