www.celiamattoso.blogspot.com

domingo, 12 de agosto de 2012


O CAÇADOR DE ÁGUAS


Meu pai, já maduro, descobriu-se um caçador de águas. Um alemão com quem trabalhava e que vivia metido em pesquisas sobre radestesia, o convenceu que ele tinha o dom para achar água.  Daí foi um passo para fazer a experiência e tentar descobrir pequenos lençóis freáticos com  alguns metros de profundidade.
Combinaram para tirar a prova num fim de semana e lá foram eles procurar água em um sítio nos arredores de São Paulo. O alemão preparou uma forquilha de goiabeira, segurou-a com as duas mãos, mantendo a ponta para cima e começou a caminhar em várias direções, conforme contava meu pai. De repente ele parou como se sentisse uma estranha sensação e chamou meu pai para ver. A forquilha envergava para baixo, forçando o homem a segurá-la com energia, como se ela quisesse penetrar no solo.
Ele deu a forquilha para o meu pai e ele também sentiu um enorme tranco, como se alguém a puxasse para baixo com grande energia. Aqui tem água, disse o alemão, e pode cavar o poço. Soube-se depois que com poucos metros de profundidade, jorrou água.
Tempos depois meu pai foi convidado por um amigo para testar seu dom para descobrir água em sua chácara. Ainda de calças curtas acompanhei o teste São Tomé e provar que ele não estava mentindo quando falava que já era um caçador de águas. O meu testemunho seria fundamental para acabar com as reticências de minha mãe.
A chácara ficava longe e demoramos quase duas horas para chegar ao local. Meu pai foi preparado com sua forquilha de goiabeira a tiracolo. Depois das preliminares e o cafezinho com bolo, o velho começou a sua labuta como caçador de água. Circundou por toda a chácara nos locais em que o proprietário indicava como os melhores para abrir um poço e nenhum sinal de água. O seu amigo já começou a dizer que esse negócio era superstição e já havia desistido da empreitada quando meu pai levantou-se com sua forquilha e saiu pelo terreno em uma área não prevista, que ficava na divisa com a propriedade vizinha. De repente sentiu o chamado das águas. A forquilha envergava fortemente para baixo como se alguém a puxasse. Pode cavar o poço que eu garanto que tem água, disse meu pai orgulhoso e seguro do que estava falando. O problema é que o poço deveria ser cavado na divisa da propriedade e houve a necessidade de uma negociação com o vizinho que concordou desde que pudesse compartilhar o poço.
 O amigo de meu pai contou que contratou um poceiro e que, após cavar apenas oito metros, deu com um belo veio de água cristalina. Com isso a fama de meu pai de mágico caçador de águas ficou consolidada. Ele acreditava que era um dom divino enquanto que o alemão, mais racionalista, dizia que era pura ciência e tentava explicar os mistérios da radestesia.
Contei a história para um geólogo, que deu um sorriso irônico, afirmando que não há provas científicas de que a radestesia  realmente funciona. Seus professores na Universidade de São Paulo tratavam o assunto como folclore, o que o deixou muito cético.  Verdade ou crendice popular? O que eu tenho certeza é que vi mais de uma vez a forquilha “mágica” funcionar nas mãos do meu velho, que era um homem muito honesto e até um tanto cético. De qualquer forma, para evitar maiores discussões, recorro ao velho e bom Shakespeare em Hamlet: “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que pensa nossa vã filosofia”. Aliás, nesta frase, em todas as traduções, aparece a palavra “vã” antes de filosofia, o que não existe no original.  Tal como a radestesia, a tradução também tem lá os seus mistérios.
Renato Ladeia

domingo, 5 de agosto de 2012


A TERRA DO NUNCA E A PARTIDA DA DONA ÁUREA FERRARI DA SILVA

Dona Áurea, mãe do amigo Edson Zeca da Silva, como a minha e a da  Dalva, também partiu para a Terra do Nunca. Há tempos ela se refugiu depois de um AVC. Não que estivesse impossibilitada, mas optou ficar como se o estivesse. Não recebia visitas e não saia de casa, recolhendo-se quando o sol se punha. Vivia como um compromisso, sem prazeres e sem alegrias. Seus contatos humanos praticamente se restringiam ao filho e a enfermeira.  Como diria o poeta Drummond: “Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação” no poema Meus ombros suportam o mundo.
        Dona Áurea Ferrari da Silva era simpática, mesmo sendo uma mulher de poucos sorrisos, sempre séria, ensimesmada - pelo menos essa é a imagem que guardei dela - mas gostava de cantar, principalmente as músicas do Chico Alves, Herivelto Martins, Lupicínio entre outros.  Nas festas familiares seu filho dava o tom no violão e a arrastava para o sarau. No início, ficava um pouco sem jeito, mas depois se soltava e se embalava nas boas canções da velha guarda. Era uma pessoa atenciosa com os amigos dos filhos, sempre os recebendo bem. Não se incomodava com as visitas de última hora e colocava com prazer mais um ou dois pratos a mesa ou improvisava para que ninguém saísse com fome de sua casa.  Ademir Bellucci,  hoje um senhor quase sério,  caso não fosse tão galhofeiro, lembra ainda com saudades dos refogados bem temperados da mãe do Zeca.
       Mas eis que um novo acidente, não de carro, mas  vascular cerebral,  a levou, silenciosamente, numa madrugada fria e cinzenta. Ela não chegou a ver a luz do dia, nem os sanhaços e sabiás que invadiram o seu quintal para mais um banquete diário de carambolas.
       E foi pensando na partida das mães que me lembrei de um poema do  Drummond insinuando que devia ser proibido que as mães morressem, que peço licença para reproduzir um trecho:

“Mãe não morre nunca
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora
será pequenino
feito grão de milho”

      Mas o Drummond, como todos os poetas, são fingidores, chegando até a fingir que existe dor na dor que sentem verdadeiramente. Enfim, é preciso entender que há sempre um momento de chegar e outro de partir. As partidas são sempre tristes, principalmente as partidas definitivas, em que não há mais perspectiva de retorno. As partidas do sono eterno machucam, como se tirassem um pedaço da gente, mas são necessárias para que o ciclo da vida continue. Se as mães vivessem para sempre ou mesmo por muito, muito tempo, sofreriam muito, pois testemunhariam a partida dos filhos, dos netos, bisnetos, como a viúva  Úrsula Buendia dos Cem Anos de Solidão do Garcia Marquez. E aí sofreriam bem mais e para que fazer as mães sofrerem mais?
       As religiões são confortantes, pois quase todas pregam que o corpo perece e a alma permanece, subindo aos céus para viver na eternidade, caso não se tenha grandes pecados a expiar. Onde é o céu? Continua a perguntar o menino que ainda existe em mim. As viagens espaciais, as fotografias do universo visível mostram que a terra é um minúsculo planeta a girar em torno de uma estrela de quinta grandeza, entre trilhões e trilhões de outras estrelas e outros planetas, cometas, satélites e asteróides. Somos menos do que bactérias na imensidão do universo. Quem dará importância a seres tão miúdos? Mas para  tudo isso os teólogos tem respostas que a ciência talvez nunca tenha.
       Mas voltando à Terra do Nunca, voando um pouco mais a frente, depois da primeira estrela a direita, onde fica a terra do nunca, dá para avistar a terra das mães. Pena  que nenhum escritor de contos de fada teve tempo ou inspiração para escrever sobre ela. Lá as mães, como no poema do Drummond, vivem para sempre, embalando o sono dos seus filhos eternos. Lá não existe filho mal educado, nem palmadas, apenas longas tardes da eternidade onde as mães contam histórias da carochinha, entre bolinhos de chuva e café com leite.

Renato Ladeia