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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

UMA HISTÓRIA NATALINA

Pelo que eu me lembro, tinha vivido uns oito ou nove anos, mas foi um natal que continua colado em minha memória, como se fosse o único. Estávamos em dificuldades, principalmente porque meu pai resolveu ampliar a casa e desembocamos no Natal num canteiro de obras; o piso de terra e poeira por todos os lados. O pedreiro contratado e pago antecipadamente desapareceu, sem dar notícias. Nem móveis havia mais, pois parte deles ficou em outra casa. Papai, ajudado por mamãe tratou de montar uma mesa improvisada com uns cavaletes e tábuas da obra. Os bancos em volta da mesa eram tábuas sobre pilhas de tijolos e por isso era preciso muito cuidado para que não caíssem. Mamãe colocou um velho lençol branco sobre a enorme mesa e começou a colocar as iguarias de Natal. Era uma mesa simples, mas farta.
Neste dia meu pai chamara um senhor que morava próximo para ajudá-lo, pois até no dia de Natal ele trabalhara duro para colocar a casa em ordem, pois estava sem recursos para pagar um profissional. Esse senhor, um homem muito pobre e mal vestido carregava entulhos de um lado para outro e passou diante de nossa mesa de Natal. Parou e lançou um olhar para mesa, que para ele deveria ser a maior fartura do mundo.
Logo depois minha mãe convocou todos para almoço e lá fomos à mesa para degustar a lauta refeição. Já sentados, meu pai lembrou-se do seu Antenor que estava do lado de fora trabalhando e o convidou para o almoço.  “Não, muito obrigado, mas eu não posso aceitar”. Como não seu Antenor? Respondeu meu pai ofendido com a negativa. “Como eu posso comer aqui se os meus filhos não tem nem o que comer?” Pois então vá buscar a sua família, respondeu papai prontamente depois de consultar minha mãe com os olhos.
Ficamos angustiados, pois precisaríamos dividir nosso almoço de Natal com pessoas que não conhecíamos e também poderia ser uma família muito numerosa e a comida talvez não fosse suficiente para todos. Os nossos olhares de crianças desaprovavam o gesto magnânimo de nosso pai, mas quem ousaria contestar sua autoridade? Era mais fácil passarmos o Natal a pão e água para o regalo dos convidados do que fazê-lo mudar de opinião.
O seu Antenor mostrou um sorriso tímido e feliz e não se fez de rogado; rapidamente, foi buscar sua família. Para o nosso alívio não era tão grande, apenas duas crianças pequenas e a mulher. Ajeitamo-nos para dar lugar aos novos  comensais  e depois da oração de agradecimento dirigida por minha mãe iniciamos o almoço de Natal. Meu pai não era dado a rezas e creio e pelo que me lembro nunca foi de ir à igreja, apesar de desfrutar de uma velha e sincera amizade  com o pároco do bairro. Sempre alegava que tinha coisas a fazer, desculpando-se por não ir às missas, casamentos e batizados. Mas nunca contradizia mamãe, uma mulher profundamente católica, que obrigava  os filhos a freqüentarem a igreja, mesmo que para isso precisasse nos ameaçar com castigos. Por isso, quando alguém dava risadinhas durante as orações éramos olhados com severidade por papai que não admitia um mínimo sinal de desrespeito. Lembro-me de que ele também resolveu dizer algumas palavras após as orações. Agradeceu a Deus pela mesa farta e pela possibilidade de compartilhá-la com uma família necessitada.
O Natal como uma festa cristã representa o momento de compartilhamento do “pão” com os outros. É o sentido mais profundo de comunidade, onde todos participam da mesa,  num sentimento de pertença à espécie humana, independentemente de classes, etnias ou grupos sociais. Meu pai, mesmo sem ter uma vida religiosa formal deu-nos um exemplo de humanismo cristão e de doação, mesmo na dificuldade.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ALBUM DE RETRATOS E O VELHO RIO DE JANEIRO





Catete
Estrada da Gávea
                                                                  
Revendo um velho álbum de retratos da família, encontrei  uma foto desgastada pelo tempo do meu tio Elisiário Ladeia  no longínquo ano de 1929. Era mês de julho e ele  posava numa fotografia para enviar de lembranças para a família que residia em Araçatuba, São Paulo. Com sua letra miúda e caprichada, ele escreveu: “Para o meu bom pai, uma lembrança do seu filho na Avenida Atlântica, capital da República”.
Ele trabalhava como guarda-livros em um banco e morava na residência de um médico parente de minha avó. Guarda-livros era o nome que se dava para os contadores antigamente. Quando se contava a história lá em casa eu ficava imaginando que ele passava os dias tomando conta de livros, um bibliotecário.
E lá estava meu tio em branco e preto curtindo as praias cariocas  enquanto o crack da  bolsa de Nova Iorque liquidava com  grandes fortunas.  Milionários davam tiros nos ouvidos ante a perspectiva de ficarem pobres de uma hora para outra. No Brasil a crise ainda demorou a provocar os seus efeitos que somente ocorreram uns dois anos depois, mas uma revolução estava próxima. A política do Café com Leite em que Minas e São Paulo se revezavam no poder máximo da República estava com os dias contados. A Aliança Liberal estava se preparando para tomar o poder. Washington Luís, o “paulista de Macaé”, ainda saía a pé, de fraque e cartola, pelas ruas do Rio de Janeiro, sem o aparato de segurança que acompanha hoje um presidente. Meu tio, em cartas, contava que via sempre  o presidente nas proximidades do Palácio do Catete.
Washington Luís apoiou um candidato de São Paulo, deixando os mineiros revoltados, pois seria a vez deles. Getúlio, candidato da oposição, perdeu as eleições, que na época eram constantemente fraudadas. Não havia voto secreto e nem justiça eleitoral. Meu tio votou em Getúlio esperou que ele chegasse ao Rio e fosse aclamado pelo povo. 
Getúlio teria amarrado os cavalos no obelisco do Rio de Janeiro, humilhando a República Velha, mas meu tio não viu, estava trabalhando.  Contou que notou pouca movimentação no Rio naquele distante  24 de outubro.  Minha avó preocupada com a sua segurança queria saber notícias do filho em perigo, mas meu avô, sempre bem informado pelos jornais, mesmo atrasados, dizia que era uma revolução de compadres. Ele estava certo, foi uma revolução sem tiros. A morte de João Pessoa, vice de Getúlio, na Paraíba, que foi o estopim da revolução, teria sido por  motivos passionais.
Mas a nomeação de João Alberto, um pernambucano, como interventor em São Paulo e o adiamento de uma nova constituição, deixaram os paulistas revoltados e desencadeou a guerra. Ecléa Bosi, em seu livro Memória de velhos, trás depoimentos indicando que os pobres acreditavam mais em Getúlio do que nos velhos barões do café. A história de que São Paulo queria se separar do Brasil foi uma bobagem que, provavelmente, Getúlio estimulou para isolar os paulistas, o que de fato conseguiu. Isolado, sem o apoio do seu maior parceiro, o Estado de Minas, São Paulo teve de arcar sozinho com uma guerra desigual, pois as forças federais estavam bem melhor equipadas e com um contingente seguramente maior, apesar da mobilização de todas as classes sociais do estado. Getúlio, ao adiar sine die uma nova constituição, justificava que precisava consolidar a revolução e evitar retrocessos por parte das elites arcaicas que se opunham as mudanças. É inegável que o Getúlio teve um papel importante na modernização do país, mas foi a custa de uma longa ditadura e um estado forte que se eternizou na sociedade brasileira.
Quanto ao meu tio nunca soube  se foi engajado ou se engajou espontaneamente nas forças federais. A verdadeira história ele deve ter levado para o túmulo. A guerra civil durou pouco tempo, mas foi o suficiente para que muitos morressem ou ficassem inválidos nas frentes de batalha e minha avó quase morresse de preocupação. Terminado o confronto militar ele voltou para casa. Era outro homem. Vivia assombrado pela guerra, ouvindo tiros de fuzis e canhões no meio da noite. Saia em disparada de cuecas pelo quintal gritando. Depois de algum tempo recuperava o controle e voltava a ser novamente um homem gentil e educado.
Pelos relatos da família, ele nunca mais teve uma vida normal. Não conseguiu mais trabalhar e passou a vida viajando de um lugar para outro sem paradeiro. Desaparecia durante longos meses ou mesmo anos, enviando para consolo da família algumas cartas e fotografias. Num dos desaparecimentos foi localizado em Buenos Aires. As cartas trocadas com o consulado brasileiro por meus avós indicavam que ele tivera um surto e não sabia mais quem era.
A última notícia que a família teve dele, veio do Paraguai, de  onde escreveu dizendo que estava a negócios. Depois da morte dos meus avós, nunca mais escreveu ou deu notícias. Solteiro, desapareceu no mundo, sem deixar rastros. Ao rever as fotos, inclusive de cartões postais, recordo-me ainda menino olhando estas mesmas imagens. Ele era o “Meu tio da América”, um romântico aventureiro com muitas aventuras e desventuras, que construiu em meu imaginário um mundo um mundo que não existe mais.

Renato Ladeia
Arcos de Santa Tereza

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

UM SUJEITO DE BEM COM A VIDA


Algumas pessoas se tornam lendárias em nossas memórias, principalmente aquelas que conhecemos em nossa juventude. É o caso do Ademir Bellucci, amigo dos tempos de faculdade. Era um sujeito de boa pinta, louro de olhos azuis, que fazia algum sucesso com as mulheres apesar de ser deficiente físico. Ele perdeu a mão quando garoto trabalhando em um açougue em sua cidade natal. Nunca se queixou com relação ao problema e ao contrário, gostava de brincar com a deficiência sem o menor constrangimento. Se alguém contava uma anedota de maneta, ele mostrava  o toco de braço e brincava com a própria desgraça. Fez isso com um amigo, o Erasmo, que chorou copiosamente ao ver que ele era maneta. As pessoas é que ficavam profundamente constrangidas com o seu defeito físico e muitas vezes ele, sem maldade,  tirava proveito dessa condição. Quando trabalhava no departamento de Estatística do Estado como estagiário, mostrava o toco e a chefe toda emocional, chegava às lágrimas quando ele contava, pela enésima vez, como aconteceu o acidente. Com isso ele sempre conseguia sair mais cedo e sem desconto nos seus vencimentos.
Quando ia a um restaurante chamava o garçom e solicitava que cortasse o bife para ele. O garçom, via de regra, reagia alegando que não tinha tempo para isso com tanta gente para atender. Aí entrava o braço sem a mão  em cena. O pobre garçom pedia perdão e com lágrimas nos olhos cortava o seu bife em pequenos pedaços para que ele não tivesse dificuldades em tomar a refeição.
Certa vez, um rapaz se declarou estar perdidamente apaixonado ao despedir-se dele ao deixá-lo em casa, após um encontro com a turma em um bar.  Ele não achou graça nenhuma na história e entrou em pânico, pois nunca havia imaginado que o colega fosse gay. Sendo um rapaz simples do interior, aquilo foi um choque profundo. Não teve dúvidas, foi contar para uma amiga e confidente o ocorrido, pedindo por todos os santos que ela mantivesse o segredo. Acontece que depois de alguns dias, ele mesmo não suportou a guarda do segredo e acabou espalhando a informação para mais algumas pessoas. Em pouco tempo o assunto virou tema das rodas de amigos. Entretanto, para sua surpresa, descobriu-se que era tudo armação, pois o colega era um gozador de mão cheia.
Fiquei muito tempo sem vê-lo, até que um dia, ao passar num açougue próximo do trabalho dei de cara com ele cortando bifes. Fiquei surpreso ao saber que abandonara a profissão e retornara a ocupação que lhe trouxe tantos problemas. Ele contou que tinha mais dois açougues, pois chegara a conclusão que trabalhar de empregado não tinha futuro e resolveu ser empresário e que no capitalismo o melhor mesmo é ser capitalista.  E
Ademir se casou com uma moça muito simpática e inteligente, filha de um coronel da polícia militar. A resistência do pai da moça era grande, mas acabou cedendo à determinação da filha. Tiveram três filhos e por fim ele e o sogro se tornaram grandes amigos. Na época, ainda em plena ditadura militar, ele e a namorada participavam de grupos políticos que lutavam pela redemocratização do país e como o pai da namorada era  militar e conservador, todos temiam pela sua segurança. Mas felizmente nada aconteceu e a festa de casamento ocorreu na confortável casa do coronel com a presença de várias patentes e muito policiamento nos arredores. A família do Bellucci, gente muito humilde de Santo Anastácio, ficara distante das rodas elegantes da festa, mas ele não se sentia nem um pouco constrangido e circulava feliz entre a família da Guga e o povo humilde do interior, que eram seus familiares. “São as diferenças de classe”, dizia ele brincando.
Depois de alguns anos tive outra surpresa. Passando por Bragança Paulista, uma pequena cidade no interior, entrei numa loja de tintas para pedir  uma informação e vejo aquela mesma figura dos tempos de estudante atrás de um balcão. Já não usava barba, mas continuava com os cabelos vastos e desalinhados, sempre com a mão direita ligeiramente escondida nas costas.  Estava com minha mulher e filha, que avisadas vieram ao histórico encontro. No balcão colocamos em dia as novidades sobre os amigos comuns e familiares.  Já não era o jovem radical que queria derrubar o governo e implantar a ditadura do proletariado. Bem mais maduro, falava de negócios e investimentos, indicando que a loja estava indo bem e que em breve pretendia abrir uma filial numa cidade próxima. Marcamos um encontro no sítio onde estava morando,  para um fim de semana com muito churrasco e cerveja. O endereço e o mapa vieram comigo, mas nunca deu certo e quem sabe, mais uma vez, por acaso ou por alguma estranha artimanha do destino a gente acabe se encontrando novamente.

Renato Ladeia

NEGÓCIOS E OPORTUNIDADES

Numa manhã ensolarada de primavera a campainha tocou. Era um casal bem apresentável. Ele de terno e gravata e ela vestida com uma saia e blusa bem combinadas. Pensei tratar-se de pregadores evangélicos, o que é muito comum nos fins de semana em meu bairro. Pediram-me um minuto de atenção. Dispus-me, educadamente, a ouví-los, considerando que estava de bom humor por causa do belo dia e pelas flores exuberantes do quintal. “Estamos fazendo uma oferta especial para pessoas de alto nível como o cidadão. Trata-se de um excelente lote no cemitério da Eternidade. É uma oportunidade única para pessoas que pensam no futuro”. Ao ouvir aquele discurso empolado e falso, desatei a rir. Tentei me conter, mas sem sucesso. O casal não entendeu nada e como não conseguia parar de rir, os dois deixaram um prospecto e foram embora, visivelmente irritados com a minha falta de cortesia.
Na realidade a frase do vendedor não tinha  nada de engraçado, mas o fato é que me lembrei de uma pitoresca  história contada por um tio, que era fazendeiro no interior de São Paulo. Contou-me ele, há bons tempos, que um dos colonos da fazenda apareceu para pedir-lhe um empréstimo para pagar um bom terreno que havia comprado. Meu tio quis saber mais detalhes sobre a compra, já que seu colono, um homem trabalhador e responsável, em breve o deixaria para trabalhar em sua própria terra. Mas para seu espanto, o inocente colono explicou que o terreno ficava a nada mais nada menos do que 384.405 quilômetros da terra, mais precisamente, na lua. A história se passou em 1969, logo depois da primeira viagem  do homem ao satélite e um malandro resolveu aproveitar a oportunidade para fazer “bons negócios” com a repercussão do acontecimento.
Percebe o leitor que fiz uma analogia maluca entre um terreno no cemitério e um hipotético terreno na lua, o que não é de toda descabível. Um promete uma propriedade em um satélite estéril, sem atmosfera e sem água em estado líquido, cuja exploração era e ainda é impossível. O outro oferecia um terreno em que o futuro proprietário jamais tomaria posse em vida. Um investimento para um futuro sem futuro.
Meu tio, um protestante cético com relação à ciência e a tecnologia, não teve dúvidas. Pegou a sua velha espingarda de caça e, com a autoridade que lhe era conferida por ser inspetor de quarteirão, expulsou o malandro, não sem antes fazer com que devolvesse o que já tinha arrecado dos demais.
Quanto a mim, conformei-me  que o negócio proposto pelo casal, apesar de funesto, era perfeitamente legal, já que numa sociedade capitalista, precisamos pagar por um pequeno pedaço de terra se quisermos ter um descanso relativamente eterno. Caso contrário a ossada é removida depois de algum tempo e despejada num depósito coletivo, chamado ossuário. Como nunca me preocupei com o que será feito do meu corpo após a morte, já deixei expressa a minha vontade de ser cremado com corpo, alma e tudo o mais que tiver direito para não correr o risco de voltar por aqui e incomodar amigos e parentes.

Renato Ladeia

domingo, 7 de novembro de 2010

A DESPEDIDA DO POETA (Delcy Thenório 1926-2010)




                                          Delcy Thenório com seu filho Edélcio Thenório

O último encontro que tive com o poeta  Delcy Thenório, foi em sua casa em Santo André, para um café, tradição da família nos domingos à tarde. Foi um longo e prazeroso encontro. Conversou-se sobre tudo, até mesmo como preparar um bom café e quase todos os presentes se apresentaram como bons baristas, cada um com o seu jeito peculiar de preparar a bebida que é a preferência nacional. Até o Zeca, que todos sabem não conhecer os segredos de um bom café, deu lá os seus palpites. Boas anedotas correram soltas, sob o olhar distante da Antonieta que fingia entendê-las e esboçava um sorriso complacente. Falou-se muito de poesia e é claro, dos versos do Delcy, cuja sagacidade provocava gargalhadas descontraídas. Até o Elcio, seu filho, um bom vivant, presenteou-nos com um belo poema que compôs sobre a velha Itália. Surpreendeu a todos, ficando a leve suspeita de que os pendores poéticos são hereditários. É claro que não é a poesia em si, mas a sensibilidade para a vida, a capacidade de ver os acontecimentos, as pessoas e a natureza através de outro olhar.
Não sei por qual razão surgiu um assunto nada agradável, a finitude da vida. Delcy, solto, alegre, descompromissado com as coisas materiais, falou sobre isso com uma descontração de fazer inveja. Disse, na ocasião, que a morte não tinha significado maior. Ele tinha o conforto de acreditar que o seu corpo era apenas algo que poderia ser jogado em qualquer lugar, pois para ele havia algo maior que continuava eternamente, independente do tempo dos homens. Confesso que senti inveja de sua convicção e pensei no conselho do Montaigne de que não devemos perder tempo aprendendo a morrer, pois quando chegar a hora vamos saber morrer direito.
Essa longa e agradável tarde do último inverno seria uma despedida, não definitiva, para uma mudança. Delcy, logo depois, mudaria para Piedade, terra dos seus antepassados, onde viveria seus últimos anos ao lado do seu filho Edélcio e sua nora Ângela. O motivo da mudança era a saúde debilitada de sua Antonieta, que precisava de cuidados especiais, para os quais ele já não tinha mais condições físicas de prover. Seria uma nova fase de sua modesta e profícua existência, onde poderia resgatar a inspiração para voltar a escrever os seus versos e crônicas do cotidiano. Os ares de Piedade, com suas verdes colinas, os cantares descompromissados dos pássaros, sua gente simples e hospitaleira seriam seu regalo para alguns bons anos, mesmo convicto de que a vida é expressamente provisória.
Dias atrás Delcy recebeu, em Piedade, um belo presente. Edson da Silva, o Zeca musicou seu poema “Quase” , inspirando-se no sambista paulistano, Adoniram Barbosa. Foi a união perfeita de um samba com sotaque da Mooca com os versos bem humorados do nosso poeta. Um presente que ele recebeu com muita alegria.
Mas viver é muito perigoso, já dizia o Riobaldo, personagem de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa. E foi assim que recebi um telegrama virtual do velho amigo Edélcio Thenório:
“Sinto informar que faleceu hoje às 17 horas meu pai José Delcy Thenório, aos 84 anos, aqui em casa, por motivo natural. Viveu uma vida serena e impecável. Agradeço profundamente a Deus por ter sido seu filho”.

Delcy aproveitara a gostosa tarde da última sexta-feira para colher jabuticabas em um sítio vizinho na companhia de sua nora e netos. Aproveitou o passeio como se fosse o último e regalou-se com o doce azul da fruta que só dá no Brasil e foi com essa doçura que ainda impregnava seus lábios que partiu em silêncio.
Quero crer que em seus últimos instantes de vida tenha vindo à sua memória seus versos sobre a morte: “Não quero que vocês chorem/Rogo até que comemorem/Com estrondosas risadas/Na frigidez do velório/Rebusquem no repertório/As mais picantes piadas”.
E assim, num triste e chuvoso sábado, fui para Piedade com mais quatro amigos (Sinésio, Zeca, Saulo e Zorba) para nos despedirmos do poeta e dar conforto aos seus filhos, netos e noras. No caminho, tal qual era a recomendação do poeta, contamos muitas piadas e lembramos com carinho da grandeza do ser humano Delcy Thenório. No velório encontramos, também, o Erasmo, que se uniu a nós para co-memorar o poeta e a poesia. Lembramos também de algumas passagens de sua vida, sempre pautada pela integridade, honestidade e retidão de caráter. Soube-se que em uma de suas passagens por Sorocaba, onde a sua Antonieta está internada, recusou-se a quebrar as regras por estar fora do horário de visitas. De nada adiantou argumentar que a instituição havia liberado para que ele a visitasse em qualquer horário. “Prefiro não ter privilégios, mesmo em tal circunstância”, disse ele.
José Delcy Thenório, autodidata, profissional zeloso e competente e, acima de tudo, poeta, cumpriu sua missão. Plantou árvores, amou, teve filhos e netos, escreveu um livro e deixou a vida com um imenso rastro de saudades. E para dar provas de que ele queria era mesmo alegria em sua despedida, dois pássaros, um “chan-chan” e o outro um “quero-quero” deram as boas vindas ao poeta no cemitério do Jardim Eterno, com seu cantar alegre e sem compromisso com coisas sérias.
O resto é silêncio...

Renato Ladeia

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

CAFÉ LUÁ

Trinta anos sem o Café Luá

O pessoal da velha guarda do ABC deve lembrar com saudade do velho Café Luá, na Rua Manoel Coelho, em São Caetano, no final dos anos 70. Era um misto de um café parisiense com bar carioca dos tempos da bossa nova. A arquitetura do espaço era bem concebida, com um mezanino de onde se podia avistar o palco, onde sempre bons músicos estavam lá para proporcionar aos freqüentadores o que havia de melhor na música popular brasileira.
Os cafés servidos eram sofisticados e com uma imensa variedade, atendendo aos gostos mais refinados. E não faltavam os chás que podiam ser degustados pelos abstêmios ou após uma noitada pesada quando a madrugada dava os seus últimos suspiros antes dos primeiros raios de sol penetrarem pelas amplas janelas.
O Zeca, sócio e idealizador do espaço era um perfeito anfitrião, estando sempre a postos para recepcionar os velhos amigos. Como o lema do Café Luá era “Até o último freguês”, isso lhe custou sérios problemas. O primeiro foi com a sua namorada, pois o Lua passou a ser um rival de peso. O segundo foi sua saúde. Zeca ficou cadavérico, parecendo um esqueleto ambulante, pois continuou suas atividades profissionais em uma multinacional. Assim, mal tinha tempo para dormir.
O velho Café Luá foi fruto de um sonho concretizado, mesmo que de forma efêmera. Zeca da Silva, depois de ter concluído a faculdade, acreditava que era preciso manter a turma unida, cantando, compondo e conversando naqueles tempos sombrios. Esse relacionamento não podia acabar depois da formatura. Era preciso aglutinar, criar laços cada vez mais profundos para que pudéssemos fazer a travessia sempre unidos, mantendo os mesmos valores que havia gerado o grupo.
Recordo-me que em uma das muitas festas de aniversário o Zeca chamou alguns amigos de lado e falou sobre a sua idéia de criar um espaço cultural, onde a turma se encontraria sempre, sem precisar marcar hora ou data. Seria um espaço livre, de todos, com um violão e uma cervejinha sempre gelada. Seria sempre uma festa ou um sarau dois ou três dias por semana. A idéia entusiasmou todo o grupo que também compartilhava com a preocupação do Zeca. Tanto foi real que saímos à procura de um imóvel para alugar. Num dos imóveis visitados e quase alugado, o proprietário perguntou se a finalidade seria comercia, pois achou estranho aquele bando de jovens procurando um imóvel. O Milton Eto, ingenuamente, disse que era para a turma se reunir, cantar e discutir política. Como estávamos em plena ditadura militar, não é difícil adivinhar que o dono da corretora encerrou a conversa ali mesmo. Por outro lado, a racionalidade também começou a pesar. Como vai ser a cobrança? E se alguém não pagar, como é que fica? Quem será o responsável pelo aluguel? A idéia, por estas e outras razões não foi adiante.
Mas o Zeca não desistiu e partiu para outro projeto: um bar no estilo dos bares cariocas dos anos cinqüenta, onde emergiram grandes talentos da música popular brasileira como Tom Jobim, Johnny Alf, Vinicius etc. Era uma tentativa de reviver, nos anos 70, o mesmo clima boêmio do Rio de Janeiro em uma cidade do ABC paulista. Será que daria certo? Ele pagou para ver e com um sócio partiu para a ação. Alugaram uma velha casa, que foi totalmente reformada e estruturada para dar lugar ao projeto boêmio. Estava criado o Café Lua, um dos mais sofisticados redutos boêmios que já existiu no ABC.
O mais importante de tudo era o espaço destinado aos músicos, principalmente os amigos que teriam um lugarzinho para tocar e cantar sem a necessidade de convite. Essa era a essência do projeto do seu idealizador, que resgataria assim o seu antigo sonho.
Inicialmente as coisas estavam indo muito bem, mas com o tempo foram surgindo os velhos problemas de uma atividade comercial. Os amigos nem sempre podiam freqüentar a casa da forma como gostariam, pois os preços eram um tanto salgados para manter o padrão dos serviços e produtos. Como os amigos, principalmente os músicos, não podiam freqüentar assiduamente o bar, foi preciso contratar músicos profissionais e o espaço acabou perdendo parte do romantismo inicial.
Além do pessoal do “Boca da Noite”, composto pelo Valtinho, Marcão, Salvelino, Jorginho, Lole, Itamar, Luis, Finóca e a cantora Claudia Regina, que não está mais entre nós, muita gente boa se apresentou no Café. O Oscar de Vitto, que era da turma, se apresentava esporadicamente, como amigo da casa. Saulo de Tarso, “o maior do Brasil”, foi atração exclusiva durante algum tempo. Carlinhos Kalunga, violonista, compositor e arranjador, foi também uma presença constante. Aliás, foi com o Carlinhos que aconteceu uma cena pitoresca no Café. A Isaurinha Garcia (1923-1993), cantora da velha guarda e considerada a Edit Piaf brasileira, foi convidada para cantar na casa. Para evitar transtornos de última hora, o Zeca foi buscá-la em sua casa em São Paulo, bem mais cedo. Chegando ao Luá, ela pediu uma bebida. Pensou-se em uma bebida leve, já que ela estava a trabalho. Longe disso, pediu logo um conhaque e copo cheio. E não ficou por aí. Tomou vários conhaques durante a noite, sempre em dose dupla. E a Isaurinha cantou, cantou, se emocionou, chorou e, de repente, desabou em cima do Carlinhos que a estava acompanhando ao violão. Foi um tombo espetacular, que quase colocou o músico a nocaute. Depois disso, ela ainda conseguiu cantar algumas canções sentada num banquinho. O músico ao falar sobre o episódio lembra-se que parecia um tsunami que desabava sobre ele.
Mas numa tarde, ao abrir a casa, o Zeca teve um choque ao ver a frase “Clube Gay” pichada na parede. Não descobriu a razão, por outro lado também não perdeu tempo em investigar, mas jogou a toalha, saindo da sociedade. Não usufruiu nada no negócio em termos financeiros, mas ganhou no prazer de ouvir bons músicos e receber os amigos. De sobra ficaram também um corpo esquelético e o stress. Tinha investido seu tempo livre e algumas economias e no final saiu como um passarinho, livre do estafante lema “Até o último freguês”, que o obrigava a sair de lá com os primeiros raios de sol.
E assim o Café Luá foi desaparecendo, pois sem a presença do principal anfitrião, a casa perdeu a sua alma se transformando em mais um bar, sem o antigo charme. Algum tempo depois deixou de ser uma casa noturna para se transformar num restaurante. Trinta anos depois, restaram na memória os bons momentos no Café Luá, onde se cultuava a melhor música popular brasileira. O burburinho nas mesas, um velho samba do Chico, a lua vigiando a noite, os amigos taciturnos e o café quente na madrugada; tudo isso ainda está presente em nossas retinas fatigadas. Acabou, sem choro, nem vela, mas ficou uma alegria triste, daquelas que sentimos ao ouvir uma bela canção numa manhã chuvosa.
Para o Zeca, ficou um pôster com a figura do Noel e o nome da casa, como troféu e os velhos e queridos amigos, com quem ainda hoje mantem profundos laços de amizade, compartilhando alegrias, tristezas e também bons sambas. Há também um samba de uma compositora que não conheceu o Luá, mas ouviu seus pais falarem muito dele, e que em breve será lançado em um CD.
Enfim, o Café Luá é apenas um pôster na parede, mas ainda alimenta uma saudade danada dos nossos bons tempos. “Evoé Zeca da Silva, sambista, compositor e empreendedor. Durou pouco, mas foi infinito enquanto existiu”.

Renato Ladeia

sábado, 30 de outubro de 2010

MARIA DE FÁTIMA: UMA MULHER BRASILEIRA

Maria de Fátima, não era bonita, ou melhor, dizendo, estava mesmo mais para a feiúra do que para a beleza. Era magra, quase esquelética, usava óculos de aros escuros e muito pesados. Tinha dois filhos e era casada com um policial militar. Ela estava com quase trinta anos, quando resolveu voltar a estudar e mudar sua pacata vida de dona de casa. Fez o ginásio e o curso normal à noite, pois seu sonho era ser professora primária. Foi até longe demais para as suas condições, mas tudo isso teve o seu preço. Seu marido, no início, até que tolerou a decisão da mulher, mas aos poucos começaram os conflitos. Ele a acusava de abandono do lar para arranjar amantes na escola. Para ela ficava cada vez mais difícil cuidar da casa, dos filhos do trabalho e dos estudos que não pretendia abandonar.
Um outro problema a deixava em conflito. O marido, desde há muito tempo, queria apimentar a vida sexual do casal e insistia, de toda forma, que ela concordasse em praticar sodomia, o que ela abominava. Considerava isso um desrespeito à mulher. As brigas começaram a se tornar cada vez mais freqüentes, principalmente pela sua recusa em atender aos desejos do marido. Cansada da vida de casada e dos assédios do marido resolveu se separar, mas ele ficou com a guarda das crianças, dois meninos. A partir daí Fátima ficou a deriva. Livre como um passarinho. Passou a freqüentar a igreja de um padre que era ligado em movimentos políticos e sociais. Participava de passeatas, reuniões, debates, além dos programas de ação social da igreja. Passou a conviver com jovens, garotos e garotas, cujas idades variavam entre 16 a 20 anos. Fátima se soltou, liberou geral, como se dizia na época. Passou a discutir sexo com a meninada, abrindo seu coração.
Num dia foi assistir a uma peça de teatro com a garotada e foi lá que encontrou Cesar, um rapaz de uns 18 ou 19 anos, que conhecia de vista na igreja. Ficaram conversando sobre amenidades, sexo e política. Sentaram juntos no teatro e ela tão logo que pode, ela segurou a sua mão. Ele aceitou a investida e assistiram a peça de mãos dadas. Ela encostou a cabeça em seu ombro e algum tempo depois se beijaram no escurinho do teatro. Terminada a peça, houve um debate e Cesar, bastante falante, participou ativamente. Ela ficou deslumbrada em estar de mãos dadas com aquele menino brilhante, inteligente, que falava coisas que ela achava bonitas e bem colocadas, mas não tinha capacidade de dizer. No final ele foi acompanhá-la até sua casa e durante o caminho pararam várias vezes para trocarem beijos apaixonados. Fátima estava em êxtase.
Convidou o rapaz para ir à sua casa, onde morava com uma irmã também separada com os filhos. Foi lá que após todos dormirem que Fátima teve a sua primeira aventura amorosa depois da separação. A experiência foi eletrizante para uma mulher separada e romântica. Daí para frente nos encontros semanais, ela lavava a alma. Ela queria mais, muito mais, e chegou a propor que morassem juntos, mas o rapaz desconversou.
Num dos encontros, precisou ir à escola onde estudara e pediu ao Cesar acompanhá-la. Aquilo foi uma tortura para ele, pois havia muitos jovens por lá, que olhavam com estranheza uma mulher com um rapaz que parecia ser seu filho. Cesar ficaria aguardando do lado de fora enquanto ela resolvia seus problemas. Quando voltou ele não estava mais lá. Nunca mais se viram. E assim acabou a primeira aventura amorosa de Maria de Fátima, sem despedidas, sem ciúmes, sem brigas. Mas ela não desanimou e continuou a freqüentar a igreja e as reuniões de jovens, sempre na esperança de seduzir outro garotão.
Tempos depois na mesma igreja em que freqüentava, começou uma amizade com o Evandro; conversa vai conversa vem, um novo romance. Para o Evandro, virgem até então, estava ótimo, mas ela voltou a propor uma relação mais séria, que o rapaz descartou como o anterior. Fátima não se conformou e chegou a se entregar de corpo e alma, aceitando até aquilo que recusou a vida toda com o ex-marido; mas a grande diferença de idade foi mais forte e o Evandro acabou também fugindo da relação.
Ela manteve as suas atividades, participando de movimentos sociais clandestinos e sempre se envolvendo com rapazes bem mais jovens do que ela. Foi presa numa batida do Deops na igreja que freqüentava. Abriu a boca, entregando o nome de todo mundo que freqüentava a casa paroquial. Não deu em nada. O grupo era mais festivo do que voltado para a ação política mais séria. Foi libertada e nunca mais apareceu na igreja ou se encontrou com a turma, que a condenou por traição da causa.
Fátima continuou com a vida de professora primária e dona de casa, desistindo da participação política e social. Convenceu-se de que não tinha mesmo jeito para a coisa. Reencontrou-se com o ex-marido, já aposentado e também sozinho. Acertaram as contas, inclusive sobre sexo e voltaram a viver juntos e, desta vez, até que a morte os separassem. Mas essa não demorou muito tempo para chegar e Maria de Fátima partiu alguns meses depois quando foi descoberto um câncer em seu útero.

Renato Ladeia

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A violência doméstica é uma constante em todas as camadas sociais e as residências das famílias são os locais mais perigosos para as crianças. Cerca de 30% das crianças são vítimas de maus tratos dentro da própria casa e seus algozes podem ser pai, mãe, padrastos, madrastas, tios, avós, irmãos etc. Infelizmente isso não é privilégio do Brasil. Também nos EUA e na Europa isso ocorre com freqüência quase semelhante.
A história de Helenice faz parte deste quadro estarrecedor. Ela tinha o lado esquerdo do rosto deformado por uma grave queimadura. No trabalho ninguém ousava perguntar a causa, pois todos imaginavam que falar sobre o assunto causaria um sofrimento desnecessário à moça. Assim os colegas conviveram com ela durante meses fazendo de conta que não havia nada de diferente nela. Almoçavam juntos, participavam do happy-hour e tomavam o cafezinho na cantina e nada de se falar sobre o seu rosto.
Mas um dia, durante o almoço, sem que ninguém houvesse tocado no assunto, ela desandou a falar sobre o trágico acontecimento. A história foi a seguinte: Seus pais estavam separados e sua mãe vivia com um homem que de vez em quando desaparecia e só retornava dois ou três dias depois. Mas sua mãe era apaixonada por ele e preparava-lhe o jantar todos os dias, mesmo sabendo que ele poderia não voltar para casa. A família era muito, muito pobre e a mãe reservava para o marido um bom bife enquanto ela e as crianças se serviam apenas de arroz e feijão. Numa noite ela e as duas irmãs menores ficaram sozinhas e resolveram comer um pedaço do bife do padrasto que há dias não aparecia. Juraram que ninguém contaria para a mãe, que as ameaçava com castigos se tocassem no jantar do seu homem.
Mas nesta noite a mãe retornou com o padrasto e ficou furiosa com as crianças por terem comido o bife. Como ninguém denunciava quem teria sido o culpado, ela jogou álcool nos rostos das três crianças e em seguida acendeu um fósforo ameaçando atear fogo se não contassem quem havia desobedecido as suas ordens. Nisso Helenice resolveu reclamar da atitude da mãe, a qual não vacilou, jogando o fósforo em seu rosto. Percebendo que colocara em risco a vida da menina, um dos irmãos tratou logo de jogar água para evitar que o fogo se espalhasse pelo corpo todo e a levaram a um hospital. No caminho a mãe prometeu que a mataria se contasse para alguém o ocorrido. Helenice passou por várias cirurgias para recompor o rosto, mas precisaria ainda fazer uma plástica quando estivesse adulta.
Depois do episódio ela foi morar com o pai e mesmo se encontrando eventualmente com a mãe, nunca tocou no assunto. Muito tempo depois, numa das visitas à mãe, essa lhe perguntou: “Por que está me olhando com essa cara feia?” Helenice respondeu: “Essa cara feia foi você quem me deu”. Nesse momento, em lágrimas, a mãe prometeu-lhe que lhe pagaria uma cirurgia plástica.
Tempos depois, com seus próprios recursos, Helenice estava com a data da cirurgia plástica marcada. No dia em que faria a internação, recebeu um telefonema de um irmão avisando que a mãe acabara de falecer. Diante da morte da mãe, Helenice desistiu de fazer a cirurgia. Por quê? Todos na mesa perguntaram. “Neste dia cheguei à conclusão de que não era mesmo para fazer a cirurgia”. A partir daí assumiu a queimadura da face como algo normal, sem traumas ou constrangimentos. “Eu sou assim mesmo e daí?”.
Ela satisfez a curiosidade de todos, mas uma pergunta continuou no ar: Como pode uma mãe fazer uma crueldade desta? Para Rousseau a culpa é da sociedade que torna o homem cruel, ambicioso, perverso... Para Freud nosso inconsciente é movido por pulsões de ódio, de amor, de destruição. Enfim, o ser humano é uma incógnita. Nem todos conseguem reprimir as suas pulsões selvagens. Portanto, não há amor incondicional, nem de mãe.

Renato Ladeia

sábado, 16 de outubro de 2010

A CAMISA VERDE

A saia verde de minha mãe enroscou em uma cerca lá de casa e ela ficou desconsolada, pois gostava muito da peça. Era um linho verde de boa qualidade e muito bonito. Mas como ela era uma mulher muito prática, olhou bem para a saia e pensou na melhor forma de aproveitá-la. “Vou fazer uma camisa para você”. Achei o máximo ter uma camisa verde e aceitei de cara o presente. Como ela mesma sabia costurar combinamos qual seria o modelo. Depois de pronta, pensei eu, poderia fazer inveja aos meus colegas palmeirenses, apesar de ser, na época, um fanático corintiano.
A camisa ficou tão supimpa que no dia seguinte, resolvi usá-la para ir à escola. Na época, no segundo ano primário, minha professora era muito rígida e furiosa. Ela usava um ponteiro de madeira com o qual batia nas cabeças e mãos dos alunos indisciplinados. Às vezes, em ataques de fúria, jogava até o sapato sobre as indefesas crianças. A escola era pública e da periferia de São Caetano do Sul e não havia a obrigatoriedade de utilização de uniforme, mas ela fazia questão de que todos os alunos viessem de camisa branca e calça azul.
Não deu outra. A professora colocou a classe em fila e viu aquela camisa verde exuberante contrastando com as brancas dos demais os meninos. Ela teve um choque. Tirou-me da fila e despachou-me imediatamente para casa.
Com oito anos de idade, achei o máximo ir para casa por culpa e graça da professora. Já fazia planos para jogar futebol ou caçar passarinhos, quando encontrei minha mãe no portão, espantada ao ver-me. Depois das explicações ela não teve dúvidas. Pegou-me pela mão e lá fui eu de volta à escola.
Minha mãe era decidida e corajosa. Entrou na sala da diretora e passou-lhe um sermão que provavelmente ela nunca mais esqueceu, de tão contundente. Dona Rosa assustada chamou imediatamente a professora e ordenou que eu entrasse na sala de camisa verde e tudo. Entrei constrangido e a professora muito mais. Eu havia desconstruído a sua tentativa de padronizar a vestimenta das crianças. Ela sentiu-se humilhada ao ver na classe uma camisa verde, destoando da maioria. Ela deu a aula como se eu não existisse e em nenhum momento olhou em minha direção.
A história não ficou só nisso. Semanalmente, minha mãe me obrigava a ir de verde para a escola, mesmo que eu tivesse camisas brancas limpas e passadas. Isso foi minando a autoridade da dona Carmem, que aos poucos foi relaxando a sua determinação de padronizar a vestimenta dos alunos e não mais obrigou as crianças a usarem camisas brancas.
Assim, aos oito anos, com o apoio da minha mãe, comecei a abalar as estruturas sociais. A professora, de tão arrasada, pediu transferência no ano seguinte e a comunidade se livrou de uma educadora colérica e violenta que não respeitava os direitos das crianças.

domingo, 10 de outubro de 2010

MENTIRAS

“Saber mentir é um gesto de nobreza
pra não ferir alguém com a franqueza.

Mentira não é crime,
é bem sublime o que se diz
mentindo pra fazer alguém feliz " (Noel Rosa)


Mentira tem perna curta, diz o adágio popular. Será mesmo? Muitas mentiras atravessam séculos sem nunca serem desmentidas. Pois é, não foi recentemente que pesquisadores comprovaram que Joseph Stalin fez um acordo secreto com Hitler para a invasão da Polônia? Já faz mais de setenta anos e a mentira ficou embaixo do tapete todo esse tempo. Mas a verdade é que todos mentem, uns mais outros menos. Políticos então mentem sempre que for necessário para os interesses do Estado, do poder e também pessoais.
Maquiavel, que não era necessariamente maquiavélico, escreveu que um Príncipe deve mentir ou falar a verdade, mas ser sempre honrado. A ética do poder tem lá suas razões para permitir a mentira. O pensador florentino sabia das coisas e se baseava em exemplos históricos em que os soberanos incapazes de cometer uma mentirinha normalmente se davam mal. Para ele a ética e a moral não se aplicavam necessariamente à política. Essa teria leis próprias e sua eficácia dependeria dos resultados obtidos e não dos meios.
Quem ainda não contou a sua mentirinha? Atire a primeira pedra aquele que passou a vida com extrema retidão só falando a verdade. Até na vida profissional a mentira é uma constante. Será que alguém pode ser ingênuo ao ponto de acreditar que um vendedor vai dizer ao seu cliente que o produto não vai ser entregue no prazo solicitado, mesmo sabendo da impossibilidade cumprir o prometido? É evidente que não. Quando o cliente reclamar ele inventará uma desculpa bem dramática e nada de remorsos.
Lembro-me de uma história de um sujeito da igreja Testemunhas de Jeová que ficou sabendo, pelo cargo que ocupava numa empresa, que um importante executivo seria dispensado. Todos os envolvidos foram avisados de que se tratava de um assunto extremamente sigiloso que não poderia sair daquela sala. Para ele a mentira estava fora de cogitação, pois a sua religião proibia, em qualquer hipótese, que um dos seus membros mentisse. Ao ser questionado pelo executivo se sabia de alguma notícia sobre o seu futuro na empresa, ele relutou em responder, mas ao perceber que estaria mentindo se não confirmasse, caiu na armadilha. Resultado: os dois foram para a rua.
Existem pessoas que nomeiam as mentiras como omissão ao dizer: “Eu não sabia de nada”. Mas omissão é omitir a verdade e trata-se de mentira e ponto final. Dizer que não sabe de nada é uma escapatória, quando é do conhecimento público que se sabia de tudo. Saber que alguma coisa errada está sendo feita e não coibir e depois ainda afirmar que não sabia de nada é uma dupla falta, pois foi conivente e mentiroso ao mesmo tempo. O pior de tudo, ao se perceber que não colou muito bem, é jogar a culpa nos outros. O que reputo como a pior das mentiras.
Contou-me um amigo, a quem reputo como muito honesto, que ao vender o seu Chevrolet sedã em ótimo estado, respondeu a contragosto a uma pergunta do possível comprador:
“Nunca foi batido?”
“Claro que não, o carro está inteirinho”, respondeu meu amigo constrangido.
Ouvindo a conversa, o seu filho, de uns dez anos, entrou de sola com o ar de maior sabichão.
“Bateu sim pai. Você não se lembra que a mamãe deu uma porrada no carro?”
Bom, é claro que não houve negócio e o meu amigo ficou na maior saia justa e rezou para que o homem fosse embora o mais rápido possível para se justificar com o filho. Dar bronca no garoto, nem pensar, pois sei que é um sujeito centrado; mas que ele chutou as paredes, isso eu tenho certeza. E caso ele diga o contrário, sinto muito, mas não dá para acreditar.

Renato Ladeia

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A MEMÓRIA

Não há nada mais extraordinário e complexo do que a memória. Somos um imenso arquivo de idéias, fatos, imagens, rancores, alegrias, odores, sons, músicas, conhecimentos, enfim, tudo o que podemos registrar através dos nossos sentidos. Ao longo de uma existência vamos construindo uma imensa biblioteca virtual. É realmente um mundo fantástico. Nossa capacidade memorizar parece ser infinita, mas com o passar dos anos, vamos gradativamente perdendo essa dádiva que a vida nos dá.
Sem memória não somos nada. É a memória que possibilita a nossa existência como “homo-sapiens” e que tornou o ser humano um animal dominante, presente em todos os espaços do planeta. Nós somos, concretamente, a nossa memória, que foi agregando ao longo de nossa existência, a capacidade de ler, escrever, recordar informações, fatos, imagens, odores, alegrias, tristezas etc.
Aos poucos, com o avançar da idade vamos esquecendo nomes de pessoas conhecidas com as quais temos contatos menos frequentes. Nomes de artistas, cantores, compositores, escritores, filmes e livros desaparecem de nosso arquivo e, para resgatá-los, é preciso vasculhá-lo sem muita pressa para que possamos colocá-los em pauta novamente. Às vezes demoramos horas ou mesmo dias para recuperá-los. Parecem que estão na “ponta da língua”, mas a palavra não aparece.
Tudo se inicia com a amnésia anterógrada, quando começamos a esquecer nomes próprios e as lembranças mais próximas: onde foi mesmo que deixei o meu relógio? Depois vem a amnésia anterorretrógrada, em que os acontecimentos dos últimos meses e anos. Finalmente vem a amnésia retrógrada que apaga todas as lembranças de uma vida inteira. Esta é a situação mais triste, pois se perde a identidade como pessoa.
Minha mãe, com 84 anos, lembra-se de poucas coisas ou quase nada do que acontece durante o dia ou durante a semana. Confunde quem são os netos e de quem eles são filhos. Esquece se almoçou ou tomou o café da manhã. Os filhos, os netos, passam a ser vagas lembranças. Os mais assíduos nos últimos anos são um pouco mais lembrados. Os que ficaram mais distantes perderam a primazia da lembrança. A falta de memória afeta até o sofrimento, que parece ser bem menor quando ocorrem perdas. Neste caso, menos mal, pois ela sofre menos.
Halbwachs escreveu em Memória Coletiva que a nossa memória é também construída com as lembranças do passado com contribuições do presente. Assim, nem sempre a memória seria real, pois pode incorporar elementos que a pessoa não viveu ou presenciou. Ele tinha razão, pois já percebi que minha mãe e outras pessoas se lembram de coisas que não aconteceram realmente da forma como contam. Misturam fatos com opiniões ou outros acontecimentos com uma coerência que sugere serem verdadeiras as lembranças, mas para quem presenciou de fato, parecem colagens. Sobre isso, o cineasta Luis Buñuel nos lembra em seu livro “Meu último suspiro”, que nossa memória é invadida sempre pela imaginação e o devaneio, e, como existe uma tentação de crer na realidade do imaginário, acabamos por tornar nossa mentira em uma verdade.
Existem também pessoas mitomaníacas, que tem uma propensão doentia à mentira que criam tantas fantasias que acabam acreditando em suas histórias como verdadeiras, por mais absurdas ou inverossímeis que possam ser. Esse tipo de gente gasta muito tempo construindo informações para justificar as suas invenções e muitas vezes caem em contradição. Mas isso não faz com que mudem o hábito.
Será que um dia a tecnologia conseguirá resgatar preciosas memórias através da inteligência artificial? Afirmam os especialistas como Kurzweil, que num tempo não muito distante as inteligências de pessoas de mentes brilhantes poderão ser preservadas e continuarão funcionando eternamente mesmo após os seus corpos terem desaparecido. O lado bom é que um Einstein poderia continuar desenvolvendo teorias infinitamente ou um Tom Jobim poderia compor suas canções para todo o sempre. O lado cruel é que ninguém mais precisará pensar ou criar.

Renato Ladeia

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

CINE ÁTILA, O MEU CINE PARADISO

O CINE ÁTILA E O CINEMA PARADISO

Também tive o meu cinema Paradiso, mesmo sem os encantos e a poesia de uma pequena cidade italiana, onde o diretor Giuseppe Tornatore desenvolve sua trama. O filme traça a trajetória de um garoto apaixonado por cinema tendo por pano de fundo uma humilde sala de exibição nos anos cinqüenta. Ali se desenvolvem vários dramas humanos, conflitos de classe, choques culturais com a influência norte-americana através dos filmes, relações afetivas etc.
As minhas primeiras viagens ao mundo do cinema foram em um velho pulgueiro chamado Átila, na Vila Gerty, bairro periférico de São Caetano do Sul. Pulgueiro era como se designava os cinemas mal frequentados e não muito limpos. Lá, quase todos os domingos, eu ia com minhas irmãs mais velhas assistir às matinês. Era uma festa de emoções e surpresas. O aroma de pipoca embriagava minha mente inquieta enquanto aguardava na fila a abertura da porta que possibilitava a entrada no mundo dos sonhos. Eram duas sessões por um preço bem camarada. Na primeira eram exibidos os chamados seriados com os heróis da época: Rock Lane, Zorro, Hoppalang Cassidy, Roy Rogers entre outros. Às vezes também se exibia um filme de segunda linha, normalmente de curta duração. Aí vinha o intervalo, de quase meia hora, onde os espectadores aproveitavam para fumar um cigarrinho, tomar um refrigerante ou saborear uma guloseima. Os mais velhos aproveitam esse intervalo para fazer um footing pelos corredores, observando as garotas desacompanhadas. Um olhar, um sorriso ou uma piscada de olho, eram sinais para fazer um primeiro contato e quem sabe assistir à segunda sessão de mãos dadas. Quanta emoção!
Cresci indo nas matinês do cine Átila até que o proprietário construiu outro cinema mais próximo de minha casa, com o nome de Real. Esse era mais amplo, com corredores largos, o que permitia um footing mais confortável. Foi lá também que assisti a primeira sessão de cinema de mãos dadas com alguma garota. Também o primeiro beijo e a primeira expulsão por comportamento inconveniente. O lanterninha era uma figura sinistra e temível e tinha poderes absolutos sobre os pobres adolescentes que se limitavam a obedecer as suas ordens. Antes da expulsão, vinha também um “sabão” do dono do cinema que perguntava o nome dos pais para possíveis comunicações que nunca ocorriam.
Uma vez por ano, na semana santa, uma velha produção mexicana da Paixão de Cristo, cheia de emendas, era exibida com casa cheia. Eu já sabia quase de memória as falas, mas todos choravam com a crueldade dos romanos com o pobre Cristo. No final da sessão observava as pessoas com os olhos inchados e vermelhos. Quando criança sempre pensava que pudesse acontecer alguma coisa que impedisse a perversidade dos soldados, mas a história era sempre a mesma e acabava na crucificação. Algum tempo depois assisti Ben-Hur, herói romano que se aproximava de Cristo em uma das cenas e perguntava-lhe se poderia fazer algo por ele. Cristo, obviamente, recusava a ajuda, alegando que seu sofrimento era necessário para salvar a humanidade dos seus pecados. Sinceramente nunca entendi isso e até hoje não sei se a humanidade realmente precisa ser salva de alguma coisa.
Poucas vezes prestava atenção nos filmes na adolescência, pois nesta época mais focado nas possíveis conquistas amorosas do que nos espetáculos. Mas alguns filmes marcaram minha memória, como Um lugar ao sol, com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift que foi inesquecível. Foi um filme chocante, em que um jovem em busca da ascensão social assassina a namorada pobre e grávida. Outros foram os filmes do Hitchcock, como um corpo que cai e Janela Indiscreta, Psicose e os bons faroestes de John Ford com John Wayne. Eram filmes antigos que eram reprisados nos cinemas de bairro por várias vezes. Os lançamentos somente ocorriam nos cinemas do centro, como o Vitória e Max. Lembro-me de um filme grego, que numa cena, aparecia um sujeito transando com uma mulher bem mais velha. Ao ser gozado pelos amigos, ele saiu com essa: “Galinha quanto mais velha, melhor o caldo”. Achei a frase o máximo e um dia resolvi utilizá-la ao me referir a uma dona da nossa rua. Minha mãe ouviu e não gostou nada da brincadeira e fui premiado com pimenta malagueta na boca para não mais esquecer.
Por essa e por outras, o filme Cinema Paradiso foi um filme que deixou saudades e não sei por que razão ele não está entre os cem filmes essenciais da revista Bravo. Uma gafe imperdoável.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A ROCA DE FIAR

Sempre que visitava antiquários, gostava de ficar observando as antigas rocas de fiar e imaginando que uma delas poderia ter sido de uma das minhas bisavós e até fiquei tentado a comprar uma para deixá-la como relíquia lá em casa. Por sorte, uma amiga de longa data, a Luci, ligou um dia desses avisando que tinha um presente para nós, que ficaria muito bem em nossa casa. Para minha surpresa, era uma roca de fiar, muito antiga, que ela ganhou de presente. Seu patrão se desfez de uma fazenda e ofereceu a ela, entre outros objetos, uma roca, que ela gentilmente nos presenteou. Hoje uma centenária roca de fiar está presente em nossa casa e, além de servir como objeto de decoração, é a alegria do Tom, meu neto, que fica encantado ao girar a roda da roca. Para ele é um divertimento quando vem nos visitar e passa algumas horas em nossa companhia. Ele grita e ri de modo a ouvir-se de longe, como se a roca fosse a máquina do mundo.
Recordo-me, quando criança, que minha mãe contava histórias e nós nos sentávamos à beira da cama para ouví-la. Meu pai depois de alguns minutos já roncava e ela continuava tecendo velhas histórias da carochinha, emendando uma na outra, sempre cutucada pela Neusa, minha irmã mais velha. E a roca de fiar aparecia em algumas delas. A mais conhecida era a da Bela Adormecida, recontada pelos irmãos Grimm. O que é uma roca de fiar mãe? Perguntei mais de uma vez. Ela explicava, explicava e eu não conseguia entender, até quando vi numa gravura de um livro de histórias infantis que apareceu lá em casa. Mesmo assim não consegui descobrir como funcionava.
As rocas de fiar foram inventadas na China ou na Índia há mais de 1000 anos e chegaram à Europa, provavelmente, através dos navegadores portugueses. E foram através dos lusitanos que chegaram ao Brasil colonial. É um instrumento para torcer fios para depois utilizá-los nos teares, que permaneceu praticamente igual durante séculos e séculos. Os desenhos ou fotografias de antigas rocas mostram que eram idênticas as rocas construídas no Brasil e algumas delas ainda existem em museus ou em antiquários. No Brasil, mesmo no início do século XX, ainda se utilizava as rocas para fazer fios. Naqueles tempos, antes da popularização das roupas de confecções, comprar tecidos em lojas ainda era um luxo acessível a poucos. Para a população do interior, muito distante dos centros urbanos, roupas, cobertores, redes, mantas, eram todos feitos em teares bastante rudimentares e a roca era fundamental para a obtenção dos fios.
Minha mãe contava que a avó dela passava horas e horas na roca. Em volta dela, as mulheres conversavam, trocavam informações, fofocavam ou contavam casos; enquanto isso os maridos falavam sobre política na sala. E assim, a velha roca era como uma mídia nos idos tempos. “E o que foi feito da roca de fiar da sua avó”? “Ah! Deve ter sido dada de presente a uma das escravas de meu avô”, respondeu minha mãe. Poucas pessoas se preocupariam em guardar esse objeto para a posteridade. Quem guardou, vendeu como peça de antiguidade.
Enquanto isso, sem suas funções originais, a nossa roca de fiar, que deve ter servido como instrumento de trabalho para várias gerações de senhoras dos confins do Brasil, ocupa seu lugar ao pé da lareira, silenciosa, como convém a um objeto de museu. Nas noites de lua cheia ouço, em altas horas, a sua roda girar. Levanto e vejo uma velhinha pedalando a roca, mas sem nenhum fio para torcer. Volto à cama em silêncio para não incomodá-la e continuo dormindo como sempre estive. Em meus sonhos, sonho que faço coisas durante o sonho.

sábado, 28 de agosto de 2010

AS GUERRILHEIRAS

Nos anos setenta conheci uma guerrilheira que utilizava o codinome Rosa. Era uma moça afável e meiga. Era alta e tinha um corpo roliço e um pouco gordinha. Eu era estudante secundarista, ainda adolescente e ela já havia iniciado uma faculdade que não me lembro qual. Entre suas leituras preferidas havia um escritor considerado reacionário, o russo Boris Pasternak, autor do romance Doutor Jhivago, que é a história de um poeta e médico que perde o encanto pela revolução depois que ela atinge a sua vida pessoal. “A vida pessoal acabou na Rússia”, era a fala de um personagem revolucionário, Stenicoff no filme homônimo. Fiquei triste ao ler o livro e descobrir que o roteirista inventou a frase. Mas até hoje não entendi porque a Rosa me emprestou um livro de filosofia do Pasternak, um escritor católico conservador, sendo ela ligada a uma corrente revolucionária chinesa, super radical.
Outra que conheci era de um movimento trotskista que também acabou optando pela luta armada. Essa era feia e mesmo nos momentos de grande solidão e desânimo, não estimulava os hormônios de ninguém. Não sei o que aconteceu com nenhuma das duas. Consultei o livro Brasil Nunca Mais, reportagens e nem sinal delas. Outras mulheres que conheci nos movimentos contra a ditadura militar eram mais audaciosas e até autoritárias. Uma delas, cujo nome não me lembro, me passou uma descompostura pública por eu estar lendo um texto muito rápido para um grupo. Senti-me como um menino de escola primária levando um sabão da professora. Nunca mais apareci nas tais reuniões.
Na igreja que eu freqüentava, muito mais por motivos políticos do que religiosos, porque nem mesmo o padre era muito preocupado com coisas da liturgia; mulheres e rapazes de todas as tendências por lá passavam para encontros rápidos, agendamento de reuniões, encontros clandestinos ou discussões políticas. Infelizmente eram poucas as mulheres que participavam do movimento e por isso faltavam namoradas para os rapazes engajados. As disponíveis eram sempre as mais feias, inteligentes e autoritárias. Namorar garotas alienadas, nem pensar, pois seria um retrocesso político, além do risco de abrirem a boca. Por outro lado, as muito inteligentes queriam usar os encontros em barzinhos para discutir textos de Marx, Sartre, Mcluhan etc. Outro problema era que defendíamos o sexo sem casamento e eram poucas as meninas dispostas a abrir mão da virgindade sem uma proposta segura. Achávamos que seríamos revolucionários profissionais, pois após a revolução no Brasil precisávamos percorrer toda a América Latina e fazer o trabalho que o Che Guevara deixou incompleto.
Minha vida de estudante secundarista participante foi repleta de desencontros e gafes. Numa reunião para a eleição da diretoria da UNES, União Nacional dos Estudantes Secundaristas, na USP, fiquei tão enjoado dos debates que resolvi dar uma relaxada em um dos alojamentos de umas pessoas que conheci por lá. No meio do entra e sai, vi um cara tentando datilografar uma matriz para impressão em mimeógrafo de um panfleto. Como ele catava milho, ofereci-me para ajudar e era justamente contra o grupo ao qual eu estava envolvido, muito mais por amizade do que por afinidade ideológica. Quando vi o meu pessoal com o papel na mão, tentei disfarçar, mas alguém me entregou e foi a maior gozação, além de ser acusado de conspiração e traição ideológica.
Na verdade nunca me entusiasmei muito com revoluções, não por ser alienado, mais por ser realista demais. Enquanto muita gente acreditava que a revolução conduzida pelos partidos revolucionários, com o apoio do povo derrubaria a ditadura militar e instauraria uma república socialista, eu com meus botões ficava preocupado com a cabeça extremamente autoritária desses revolucionários. O estalinismo estava presente nos discursos e visão política de muita gente, seja da Ação Popular, de linha chinesa, como também de outros movimentos trotskistas e leninistas. Ficava imaginando o que esse pessoal faria caso tomassem o poder. Lembro-me de que nossa turminha foi encarregada de montar um boletim sobre o Sete de Setembro e o meu texto foi aprovado por unanimidade, mas um dos dirigentes considerou que meu texto precisava ser cortado em alguns pontos, pois revelavam visões pequeno-burguesas. Foi aí que imaginei que com esse pessoal no poder, adeus liberdade de imprensa, artística, de opinião etc. Fariam a mesma coisa que a ditadura militar, mas com a desculpa de que seria preciso impedir o avanço dos gorilas capitalistas.
Hoje temos uma ex-guerrilheira pleiteando a presidência da república e não sei por que razão, ela se parece muito com aquele pessoal que conheci nos velhos tempos. Autoritária, pragmática e inflexível. Como ela seria no poder? Seria eternamente grata ao Lula por tê-la levado ao posto mais importante da república e obedeceria as suas ordens ditadas por telefone de seu refúgio em São Bernardo do Campo? Seguiria a política liberal com foco social ou radicalizaria fazendo uma ruptura política e econômica? Alinhar-se-ia às nações hegemônicas capitalistas ou optaria por um engajamento neo-socialista latino-americano, seguindo o ideário político do Hugo Chaves e Morales? Seria flexível, tal como o Lula, no seu relacionamento com políticos tradicionais e corruptos ou os trataria de forma radical, cortando privilégios e alianças políticas nefastas? Como se comportaria com um congresso em que seu partido de base continuará sendo minoria?
Essas e muitas outras perguntas são feitas por todos os analistas políticos, por empresários, cientistas políticos, oposição e simpatizantes, mas as respostas somente serão possíveis depois da posse, caso seja eleita. Se todas as previsões se concretizarem em razão do temperamento da candidata, é possível que o presidencialismo brasileiro continue sendo um velho barril de pólvora. Incapaz de negociar por sua personalidade forte e pouco flexível poderá levar o país a crises políticas sem precedentes. Aliado a isso, há a séria questão da fragilidade de sua saúde que poderá ser posta a prova diante de um cenário de conflito entre uma ex-revolucionária e um sistema político dominado por velhas oligarquias patrimonialistas, que confundem os bens públicos com os seus bolsos.
As pesquisas por enquanto indicam que ela poderá vencer as eleições, pois a máquina do poder e o prestígio do Lula com freqüência têm conseguido resultados satisfatórios. Mas o mundo, provavelmente, será diferente daquele que favoreceu amplamente o Lula, ou seja, forte crescimento da economia mundial aliado à estabilidade da moeda, déficit público reduzido, inflação sob controle etc.

Renato Ladeia

O APAGÃO

De repente as luzes começaram a se apagar e a escuridão invadiu todos os espaços, esparramando-se pelas avenidas, praças, vielas, prédios e quintais como uma nuvem que desceu dos céus. Mas aos poucos algumas pequenas e tímidas luzes foram surgindo e tive a sensação de que voltávamos para o século XIX, antes da eletricidade ser trazida pelos ingleses. Foi como se aos poucos, depois do susto inicial, as pessoas estivessem saindo do estado de letargia ou preguiça tecnológica e começassem a buscar soluções para o caos. As velhas, antiquadas e poluidoras velas de parafina, com cheiro de velório, sempre presentes nas gavetas como lembranças de outros apagões, ganharam a cena e ajudaram as pessoas a se olharem numa outra perspectiva. Os penteados, as maquiagens, as roupas, deixaram de ter importância. O que passou a valer de verdade foram as vozes, as palavras, os gestos que se faziam presentes como num teatro de sombras.
As ruas da Vila Madalena, reduto boêmio da cidade estavam salpicadas de pequenas luzes de velas acesas que se destacavam no negrume da noite. A lua, escondida, não deu o ar de sua graça para pratear a noite dos enamorados e poetas. Alguns românticos saíram à rua para procurar a lua, que sorrateira, fazia um jogo de esconde-esconde entre as nuvens. Um homem de cabelos brancos e quase calvo saiu apressado com medo do caos do trânsito que já se anunciava, pois os semáforos deixaram de funcionar e deixou sobre a mesa do bar uns versos rascunhados: " Chora-Lua no cerrado, manda-chuva te contar...". Fiquei imaginando que fosse um poeta do interior que vivera nos velhos tempos das lamparinas e lampiões e se inspirara naquele momento com as lembranças da ave de rapina, de hábitos noturnos que talvez ainda habite os cerrados paulistas. Talvez ele se lembrasse dos versos rascunhados e completasse o poema ou o teria esquecido para sempre. Fiquei com aquele guardanapo na mão sem saber o que fazer com ele até que tive a idéia de entregá-lo ao garçom para que colocasse no quadro de avisos onde o poeta pudesse resgatá-lo e completar o poema. O garçom não se entusiasmou com o meu pedido, pois estava mais preocupado em evitar que algum freguês escapulisse sem pagar e o colocou no bolso. Quem teria interesse por um guardanapo de papel com algumas palavras escritas?
A escuridão que se espalhou pela antiga vila paulistana demorou em partir e enquanto isso os boêmios inveterados aproveitavam para saborear, das mesas dos bares, a cidade escura e os bons sambas de outrora só para provar que a vida continuava, com ou sem luz elétrica. Numa mesa ao lado, alguém se lembrou que na escura paulicéia desvairada do século XIX, o poeta Castro Alves poderia ter escrito os versos: “Se existe um povo que a bandeira empresta para cobrir tanta infâmia e cobardia/ e deixa-se rolar nesta festa, de manto impuro e bacante fria” Não sei se o fato é ou não verdadeiro, mas onde há poetas, a vida está em outras dimensões, as dimensões da sensibilidade, do imaginário.
No dia seguinte, ainda sonolento da noite boêmia e das dificuldades para chegar em casa, acordei com o noticiário sobre o apagão, que alguns preferiam chamar de black out. Culpou-se a natureza, com seus temporais. Como ela não pode se defender ficou o dito pelo não dito e vamos esperar o próximo. Quem sabe o homem da rua, desses que perambulam solitários pelos bares, descubra um pouco mais de poesia desta cidade sem ser ofuscado pela luz elétrica.

Renato Ladeia

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

OS ÓCULOS


Os óculos fazem parte das pessoas, é um objeto que integra a personalidade dos indivíduos que utilizam. O jeito de arrumá-lo no rosto, de limpá-lo, de olhar... Usar óculos torna as pessoas mais cautelosas, controladas e até mais elegantes.
      Escrevo sobre os óculos porque encontrei, ao remexer velhos papéis, velhos livros, antigas gavetas, os que pertenceram ao meu pai. Estavam velhos e desgastados pelo tempo, mas ao tocá-los senti uma vibração como se estivesse tocando  algo vivo e não uma coisa inerte constituída de plástico, metais e lentes de cristal, além do trabalho humano, nele impregnado. Ele foi usado ao longo de muitos anos e viu muita coisa passar pelas suas lentes. Durante anos, todas as manhãs, após o café, com eles ia até o portão e observava os transeuntes, amigos e desconhecidos. Via as rugas que marcavam seus antigos companheiros, via as crianças que passavam ao colo de mães que eram filhas ou noras de seus amigos. Viu velhos conhecidos e amigos passarem em cortejos fúnebres e as velhas lentes ficaram embaçadas pelas lágrimas.
        Com eles viu pela última vez seus filhos, noras e netos. Contemplou a casa que serviu de abrigo a si e a sua companheira e filhos durante quase cinqüenta anos. As velhas paredes com várias camadas de tinta que foram se sobrepondo a cada natal, quando a pintava quando ainda tinha forças. Avaliou as partes da casa que foram ampliadas, que custaram muito suor e as parcas economias.
      Por eles seus olhos contemplaram cada almoço de natal e a mesa farta que o enchia de um orgulho quase infantil. Viu por eles as ferramentas com as quais ganhou o pão de cada dia e labutou na construção do seu lar. Com elas ajudou vizinhos e amigos emprestando as suas múltiplas habilidades, sem aceitar ou pedir nada em troca, apenas à amizade e respeito.
Com eles viu seus filhos crescerem e darem os primeiros passos em busca da autonomia na vida, buscando seus próprios caminhos. Viu os diplomas obtidos com muito sacrifício pelos filhos e molhou-os de lágrimas de emoção ao perceber que tinha cumprido sua missão. Missão essa que nunca ninguém lhe cobrou, mas que ele tinha certeza de que fazia parte de sua existência.
       Ele também viu por eles, o último dia raiar e o último por do sol. Suas lentes o acompanharam na última caminhada pelas ruas do bairro, quando foi comprar o seu último pão, quando deu seu último cumprimento aos amigos e conhecidos que encontrou pelo caminho. Por eles observou a paisagem urbana que se modificou tanto desde quando para lá se mudou. Ao ver que desapareceram as vegetações que compunham o horizonte, hoje repleto de prédios e casas, sentiu-se num mundo estranho, em contínua mudança. Através deles viu o seu último café fumegante na xícara antes de sorvê-lo vagarosamente, fazendo um pequeno barulho.
      Velhos óculos, antigos e saudosos olhares. Quem dera se tivessem sido registrados em suas lentes tantos momentos, alegres, tristes ou simplesmente poéticos? Mas meu olhar por eles conserva muitas lembranças, lembranças que carrego nas lentes de uma alma que não esquece e mesmo com os olhos fechados, as imagens se projetam em minhas retinas fatigadas.

Renato Ladeia

domingo, 1 de agosto de 2010

A MOENDA

Dona Elisa morava na casa em frente a nossa. Meus pais achavam que ela não regulava bem da cabeça, pois falava sozinha, andava vestida de modo estranho e gostava muito de crianças. Quando eu digo que ela gostava de crianças estou me referindo a brincar como criança, conversar ou agir como tal. Uma vez ela reuniu várias crianças da rua e, para desespero dos pais, levou todas para um longo passeio. Lembro-me que fomos até uma rodovia, distante uns dois quilômetros de nossa casa. Até lá fomos passando por locais incríveis para os meus olhos de menino, que conhecia aquela paisagem de forma bem distante. Meu olhar sonhava aquelas paragens e eu pude descobrir que tudo aquilo era maior do que o meu olhar.
Na volta, depois de algumas horas, todos cansados, mas felizes, recebemos uma repreensão dos pais, que estavam todos reunidos na esquina à espera da “raptora” de crianças. Pobre dona Elisa, precisou ouvir o que não queria do seu marido, o seu Sebastião, um homem muito sério e sisudo, pouco afeito a brincadeiras.
Numa outra ocasião, ela convidou-nos, eu e meus irmãos, para conhecer o seu quintal. Era um pequeno espaço entre a casa dela, que ficava nos fundos, e a casa vizinha. Para nossos olhares era um lugar fantástico, uma descoberta incrível. Naquele pequeno espaço, de mais ou menos 25 metros quadrados, dona Eliza plantava flores, algumas árvores frutíferas, que não me lembro quais e uma touceira de cana. Havia também uma moenda, construída em madeira, para fazer garapa, que foi uma sensação. A nossa anfitriã cortou alguns caules de cana e começou a espremê-las para preparar uma deliciosa garapa. Estávamos antevendo aquela delícia quando nossa mãe, ciosa de suas responsabilidades, passou-nos uma reprimenda e nos privou de saborear o suco de cana da dona Elisa, que ficou desconcertada. De nada adiantou ela pedir para que minha mãe esperasse para que tomássemos a sua garapa. Minha mãe foi dura, implacável e levou-nos para casa, revoltados como convém a crianças entre sete e doze anos.
Passamos semanas comentando a ruindade de nossa mãe ao nos privar do pequeno quintal de nossa vizinha, que carinhosamente, nos recebeu. Minha mãe alegou que aquela moenda não era limpa e poderíamos ter ficado doentes caso tivéssemos tomado a garapa. Com certeza não acreditamos nessa história, mas com o tempo fomos esquecendo e nunca mais visitamos a dona Elisa. Aliás fomos expressamente proibidos e sabíamos que desobedecer significava o sério risco de um rigoroso castigo.
Em algumas coisas minha mãe era inflexível e uma delas era com relação freqüentar as casas dos nossos vizinhos. Por mais que se pedisse, ela jamais concordava em que nós brincássemos nas casas dos nossos vizinhos. Na rua era até tolerado, pois morávamos numa viela sem saída, com apenas três casas de cada lado, mas nunca nas casas alheias. Era uma obsessão da qual ela não fazia qualquer tipo de concessão. Hoje penso que a sua forma de agir a protegia contra as investidas da garotada da vizinhança em brincar em nossa casa. Ao deixar bem claro, em alto e bom tom, que não gostava que nós aborrecêssemos a vizinhança, dava um sinal claro que esperava reciprocidade.
Mas a dona Elisa, com o seu jeito meio maluco e seu quintal repleto de segredos e surpresas, que nunca consegui desvendar, ficaram em minha memória. Coisas como a moenda de madeira e a garapa escorrendo por um funil de lata, continuam sem solução, como uma equação mal compreendida na aula de matemática. São coisas de adultos que as crianças não conseguem entender e eles sentem um prazer sádico em complicar.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

SAULO DE TARSO: O MAIOR DO BRASIL

Ele nasceu em Minas Gerais, de família grande e musical. Quase todos tocavam algum instrumento. Avós, tias, tios e ele não poderia fugir à regra. Aos nove anos já tocava cavaquinho e depois, para abraçar o violão, foi só uma questão de tempo. Mas Minas, apesar das montanhas, da couve refogada, do tutu e do torresminho, não dava mais. “Minas já não há”, disse num poema o poeta de Itabira. E por isso, a família Azevedo, de mala e cuia, não viu outra saída e, como bons mineiros, não perderam o trem. Malas de couro forradas, a mãe até a porta, os amigos até a estação e assim a família foi deixando um rastro de saudade, de lembranças, histórias e canções.
Com apenas quatro anos, ele caminhou com as suas próprias pernas pela estrada poeirenta até chegar à estação de trem. A mãe contava, de cinco em cinco minutos, se todos os cinco filhos estavam lá. E foi uma viagem longa, a maior que eles já tinham feito na vida. São Paulo era um mundo novo, cheio de esperanças e oportunidades. Mas o medo provocava um vazio na barriga. Será que vai dar certo? “Deus sabe o que faz e vamos colocar nas mãos dele o nosso destino”, pensava o seu João.
A família chegou e logo se acomodou na Vila Paula, em São Caetano, mas algum tempo depois conseguiu uma casinha própria em Santo André. Os meninos foram crescendo, virando gente grande. Saulo precisou trabalhar cedo para ajudar a família, mas não via futuro nisso. Começou num armazém de secos e molhados, mas não pensava em passar a vida numa fábrica até se aposentar como a maioria dos garotos do bairro. Queria ganhar o mundo, subir nos palcos e empolgar as platéias. Sua voz era forte, bonita e afinada. Suas raízes bem brasileiras se misturaram com as músicas que encantavam os jovens do seu tempo. Elvis Presley, Paul Anka, Sedaka e depois os Beatles, já faziam a cabeça da garotada. Mesmo assim, ele não se acanhava em cantar músicas sertanejas. Estavam na sua raiz, no seu mais profundo eu. Ouvia muito Tonico e Tinoco, Luizinho e Limeira, Carreira e Carreirinho entre outros.
A turminha foi se formando. Sinésio, um paulista de Descalvado, branquelo e falante começou a freqüentar a casa dos Azevedo. Era um sujeito bem despachado. Entrava sem cerimônia na cozinha, abria as panelas e degustava os quitutes da dona Quilda. Nas redondezas conheceu também o Edélcio, nascido em Santo André, mas o pai, o seu Delcy, não escondia o seu sotaque interiorano de Ibiúna. Apareceu por lá também o Luiz Carlos, de Barra Bonita, que logo recebeu a alcunha de Erasmo pelo tamanho e semelhança com o ídolo da Jovem Guarda. Oscar, filho de um boêmio paulistano, também entrou na roda com um jeito especial de tocar violão e também uma bela voz. Enfim, era um tempo de desafios, mudanças culturais e de comportamento. Geraldo Poeta, Zhorba, Jânio e outros tantos, foram se juntando à turma. O Geraldo era o único que era engajado politicamente. Uma esquerda brava, como diz o Saulo. O grupo se envolveu com teatro, festivais e a boemia. A vida era dura para a maioria deles. Muitos batiam cartão nas fábricas e escritórios, mas depois do expediente a turma ia para os bares ou para a casa de alguém para curtir um som, compor, cantar e declamar poesia.
Todos sonhavam com a possibilidade de mostrar o seu trabalho em festivais, na televisão e no rádio. Mas a vida era difícil, dura demais. “Quem não tem de ir pro céu, é à-toa olhar pra cima”, dizia o seu velho, seu João Mendes Azevedo, com a sua sabedoria mineira. Mas o Saulo continuava vivendo as suas paixões: música, futebol e pescaria. Ele fazia as suas escolhas e seus critérios dependiam da ocasião, da oportunidade. “A vida vale pelo prazer que ela pode proporcionar”, assim que ele ainda pensa.
Com os irmãos, Bacana e Batista e seu primo Daniel, montou o Quartetão, que ganhou até um contrato com a TV Paulista, depois Rede Globo. O grupo chegou a participar da gravação de uma faixa do disco Tropicália do Gilberto Gil e Caetano Velloso, seu grande orgulho. Mas muitas vezes o futebolzinho na vila era mais importante do que ir tocar na televisão. O grupo foi relaxando e ele acabou optando por cantar nas boates da cidade. Não gostava de ficar preso a compromissos. Preferia viver solto como passarinho. E foi assim que perdeu boas oportunidades no meio artístico. Sempre foi movido pelas paixões e nem sempre elas estavam no lado prático da vida.
Compôs belas canções com seus parceiros de longas jornadas, como "Maysa" com o Sinésio, uma homenagem à cantora logo após o seu trágico falecimento, mas nunca correu desesperado atrás do sucesso. Sucesso para ele era cantar com os amigos. Podia ser um rock, uma moda de viola ou Bossa Nova. Tudo valia a pena, pois sua alma nunca foi pequena.
Ontem ele estava no palco do bar Saramandaia, onde durante muitos anos mostrou sua arte. Os amigos organizaram uma homenagem para aquele que aqueceu corações com sua voz e belas canções durante anos a fio. Nem sempre o dinheiro era suficiente para as despesas, mas cantar foi o seu jeito de sobreviver, de ganhar a vida. O prazer de ser amado pelos amigos e admiradores para ele sempre foi o suficiente. Ele guarda alguma semelhança com o grande Garrincha. Não pelo vício que dizimou com o jogador, pois nunca bebeu; mas pela inocência, pela simplicidade e, principalmente, pela falta de uma visão pragmática da vida. Para ele basta um violão, uma bola, uma vara de pescar e a companhia da esposa, dos filhos e dos amigos.
O público que ele sempre quis estava diante dele. Não era um público comum. Era um público especialíssimo. Eram seus velhos amigos e companheiros de longas jornadas e amantes da música e da poesia. Eram também os filhos e netos dos seus companheiros que ouviam os pais comentarem sobre o maior cantor do Brasil. Estavam lá também a Silvia, companheira de grande valor, os filhos e netos.
Foram muitas canções, algumas interpretadas juntamente com seus antigos parceiros que se esforçaram para fazer bonito diante do grande interprete. As lembranças de acontecimentos pitorescos da sua vida, do seu jeito peculiar de ser, mostravam a outra faceta do artista. Um artista que não precisou da mídia para ser amado e admirado. Um humilde operário da canção que foi capaz de resgatar a solidariedade de todos num momento difícil de sua vida. Ontem ele estava lá, sentindo-se tão importante como se recebesse um Oscar pela sua carreira e com certeza ele não trocaria esta simples homenagem dos seus amigos por outra cheia de pompas na grande mídia.
Ele se lembrou de Minas, de suas raízes. Minas continua nele, desafiando o tempo, mesmo tendo sido adotado por São Paulo. As canções mineiras não acabam nunca neste velho bardo. As montanhas de Minas ainda fazem com que ele sonhe com as suas velhas cantigas de ninar. As montanhas mineiras podem até não existir mais, mas estarão presentes para sempre em suas canções.
Mas a festa não foi apenas do Saulo, como queriam os idealizadores. Foi uma festa de todos, pois velhos amigos se reencontraram. Não estavam mais solteiros nas mesas dos bares ouvindo o Saulo cantar. Desta vez trouxeram filhos e netos para a grande festa. A festa acabou, mas todos foram para casa leves e felizes como crianças, respirando poesia, amizade e solidariedade. As canções e a poesia da festa inundaram suas vidas inteiras.

Renato Ladeia

terça-feira, 13 de julho de 2010

COPA DO MUNDO



Era ainda criança e não entendia bulhufas de futebol, mas sabia que o Brasil estava enfrentando os seus mais ferozes inimigos. Meu pai bradava e esmurrava o radio que ficava sobre um aparador fixado na parede. Seu rosto ficava vermelho e tenso e dava a impressão de que teria um surto a qualquer momento. Enfim, terminada a partida, ele se sentiu aliviado e ria como uma criança que ganha um novo brinquedo. Era um dia bonito e ensolarado de inverno e todos os vizinhos saíram para a rua para comemorar. Alguns soltaram fogos e o compadre do papai, seu Luiz Marson, havia feito um belo balão verde e amarelo para soltá-lo depois da vitória na final. O balão subindo foi apoteótico. Todos vibraram e acompanharam o balão até que ele desaparecesse no céu azul.
Meu pai contava histórias sobre a copa de 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai na final, em pleno Maracanã. Lá em Lavínia, interior de São Paulo, meu tio Agripino atirou o rádio no meio do mato de tão furioso que ficou. Infelizmente esse tio morreu sem ver a grande desforra de 1958.
Só sei que a partir daquela copa virei um torcedor fanático da seleção canarinha e queria saber tudo sobre o esquadrão de ouro composto por Gilmar, De Sordi, Bellini, Nilton Santos, Zito e Orlando. Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagallo. Já fazia as contas para a próxima copa que seria no Chile. Em 1962, algumas horas depois, assistíamos aos jogos pela televisão. Não era a mesma coisa do que ver ao vivo, mas dava para curtir os eletrizantes dribles do Mané Garrincha, entortando os adversários de forma impiedosa. Era uma alegria só. Ia para um lado, o adversário ia para o outro. Era uma humilhação que enchia nossos corações de alegria e patriotismo. Éramos nós que estávamos representados pelas pernas tortas daquele monstro sagrado do futebol. O Pelé estava contundido e não foi possível repetir a dobradinha de 1958, quando os dois craques emocionaram os gringos nos campos da Suécia.
Em 1970 estava dividido entre o amor pela pátria e o ódio dos ditadores. O general Médici era um ardoroso torcedor da seleção e para mim parecia claro que os militares usariam a possível vitória para alienar o povo com aquele slogan fascista do “Ame-o ou deixe-o”. Resisti o quanto pude e procurei não assistir aos jogos para não cair em tentação. Mas a seleção jogou muita bola. As jogadas de Pelé, Rivelino e Jairzinho eram impagáveis e na final eu estava lá torcendo com toda a família. Meus amigos do movimento estudantil, mais radicais do eu, estavam torcendo contra a seleção para que os militares não usassem a vitória como trunfo da ditadura.
Depois da vitória, com o coração alegre e solto, fui para o centro da cidade para espairecer. A festa ganhava as ruas. O povo dançava, pulava e gritava. Homens, mulheres, jovens e crianças faziam a festa, era uma catarse total. Eis que vejo meus companheiros de luta contra a ditadura militar: Paulon, Alemão, Rubinho e Zoca, sambando e gritando, como crianças. Também eles haviam sido cooptados pela alegria do esporte mais popular do país. O imaginário de nação, de povo, falou mais forte. As emoções construídas durante toda a infância ouvindo e cantando o hino nacional junto com o hasteamento da bandeira, chegavam à flor da pele e era impossível escondê-las sob mantos ideológicos.
Depois do jejum de doze anos, eis que uma nova seleção entusiasma. Zico, Falcão, Eder e Sócrates, principalmente o último, um jogador consciente que lutava pela democracia dentro dos clubes, representavam o resgate do futebol arte, com toques belos toques de bola. A derrota para a Itália doeu fundo. Amanheci de cabeça inchada e prometi que nunca, nunca mais torceria com tanto entusiasmo e paixão.
Assim procurei me convencer de que a associação entre futebol, que tem um conteúdo emocional muito forte como esporte e a identidade nacional é uma carga explosiva para os corações já envelhecidos. A idéia de nação é uma utopia construída pelos estados modernos. Tinha um sentido mais claro durante as lutas pela autodeterminação dos povos, mas depois perderam o sentido original. Todos sabem que o povo brasileiro é um conceito abstrato, pois não se pode dizer que os nossos caboclos dos profundos grotões do Brasil, são os mesmos brasileiros que compõem a classe média paulistana. A idéia de nação é muito mais emocional do que racional. E viva para as emoções!
Mas o futebol, um esporte que seduziu grande parte da humanidade e se transformou numa grande indústria, movimentando bilhões de dólares, transformando num passe de mágica, jovens simples em celebridades milionárias, está perdendo os seus encantos originais, mesmo com todo o empenho da mídia em resgatar o orgulho nacional enferrujado. Os jogadores não são mais os nossos vizinhos, os nossos compatriotas; são agora cidadãos do mundo globalizado, distanciados da realidade dos seus países de origem.
Mas enfim a copa de 2010. Não senti as mesmas emoções do passado. Não tinha ídolos. Os grandes craques não estavam presentes. Ronaldinho Gaúcho, mesmo numa fase não muito boa, poderia desequilibrar o futebol mecânico das seleções européias. As promessas jovens como Neymar e Ganso, ficaram fora sob a alegação de que não tinham muita experiência. Faltou a coragem do Feola, que em 1958 colocou um menino de dezessete anos para jogar. Ele encantou o mundo.
Um amigo músico da Banda Sinfônica de São Paulo nos convidou para assistir a apresentação da banda sob a batuta de um competente maestro espanhol e depois assistir o jogo em sua casa. Era o jogo do Brasil e Costa do Marfim. De todos os presentes, somente um chegou a vibrar com os gols. Os demais fizeram gestos mecânicos sem grandes emoções. Enquanto os fogos e as vuvuzelas faziam alarde do lado de fora, tomamos um gostoso café com bolo, falando de coisas do espírito, de saúde e trivialidades. E o futebol? Ora o futebol!

Renato Ladeia