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quinta-feira, 25 de abril de 2013


ANDRADINA


Andradina parece um nome de mulher, mas é apenas uma cidade com nome feminino. A origem  vem de Andrade, um rico fazendeiro que se apossou daquelas terras para criar gado.  Como quase toda a região Noroeste Paulista, as cidades são planas, quase sem elevações. É um horizonte sem fim e o sol nem tem como se esconder no final das longas tardes de verão. Andradina, nome que eu ouvia desde menino quando as pessoas da família que moravam em Lavínia a ela se referiam. Uma grande cidade, a morada do rei do gado, um mitológico boiadeiro que virou uma canção da dupla Tonico e Tinoco que meu pai gostava de ouvir pelo rádio no final do dia. “Quem quiser saber meu nome/ que não se faça de arrogado/é só chegar lá em Andradina/ e perguntar pelo rei do gado”. Imaginava que para entrar em Andradina era preciso pedir licença para o rei que ficava sentado em um trono com chapéu, bombacha e botas gauchas, como se vestia meu tio José que também foi boiadeiro. Andradina era também a terra do Auro Moura Andrade, filho do fundador da cidade e senador por São Paulo que ajudou os militares a darem o golpe de misericórdia no presidente João Goulart ao declarar vaga a presidência da república.
                Fui uma única vez a terra do rei do gado e foi para visitar uns parentes que talvez ainda morem por lá. Isso já faz quase trinta anos. Tinha ido à Lavínia visitar uns parentes e estava com meus pais, minha prima Vicenza, que morava em Lavínia, minha mulher e a Mariane, quase um bebê. Meus pais e a Vicenza já partiram e deles ficaram boas lembranças.  Minha mulher mal se lembra da viagem e a Mariane era muito criança para se recordar. Chegamos no meio da tarde e a idéia era voltar no mesmo dia para Lavínia, uns 70 km de distância, mas acabamos ficando por lá e só retornamos no dia seguinte.
                Naquela noite, depois do jantar, duas das primas Zamboni convidaram a mim e a Célia para dar uma volta na cidade, tomar um chope e jogar conversa fora. Num bar, um amigo das primas sentou-se com a gente e lá ficamos até altas horas. Já alegre, depois de alguns chopes, declamei Fernando Pessoa com sotaque lusitano para criar mais clima e o amigo das primas declamou, aliás, muito bem, um poema do Augusto dos Anjos. Quem era aquele rapaz que nem me lembro o nome? Uma pessoa simpática e sensível que ainda fez questão de pagar a conta. Quanta gentileza! Como foi saudosa aquela noite andradinense! Na volta a bateria do carro, um bonito Passat que só me deu problemas, pifou e retornamos a pé cantando pelas ruas por onde, cinqüenta anos atrás era um acampamento que deu origem a cidade. A lua de Andradina parecia bem maior na minha memória. Ela crescia e se afastava na medida em que caminhávamos. O céu era muito limpo e dava para ver o azul escuro que guardava as estrelas. Para que tanta estrela meu Deus? São os olhos do universo expiando a gente, como dizia minha mãe. Meus olhos foram pensando enquanto caminhávamos.  
                No dia seguinte, depois de uma visita a fazenda, voltamos para onde estávamos hospedados, a Fazenda São Vicente, em Lavínia, onde morava a Vicenza. A Vicenza estava sempre doente, mas ela era alegre e gentil. Tratava-nos como reis. Pão feito em casa, doces e mais doces, galinha de Angola e outros quitutes. Quando ela morreu não pude ir ao enterro e só mandei uma coroa de flores que a dona da floricultura me garantiu que era muito bonita. Bem que ela merecia e muito mais. Eu era o seu afilhado mais velho e por isso tínhamos uma ligação muito forte. Fiquei uns três meses com ela na fazenda quando tinha apenas uns quatro anos. Nunca consegui esquecer essa época. Aqueles poucos meses parece-me, hoje, que duraram anos. A invernada, os bois, uma vaca brava, o riacho cheio de taboas, o pau d’alho perto da porteira, o cavalo branco chamado mussulini. Quantas lembranças.
               Voltamos para casa e por alguns anos enviamos cartões de Natal para os Zamboni em Andradina. Com o tempo fomos nos esquecendo de enviá-los e eles também. Minhas primas (eram quatro) não sei o que fizeram da vida. Só me lembro de que uma delas assumia o papel de um filho que o casal não teve e ajudava o pai a cuidar da fazenda.
                A Andradina do rei do Gado, do senador que ajudou o golpe militar, ficou para trás na poeira da estrada. As belas e simpáticas primas devem estar casadas com filhos e talvez até netos, como nós e talvez nem se lembrem da nossa visita. A região Noroeste foi ficando para trás. Araçatuba, onde minha mãe morava com meus avós; Valparaiso onde meus pais se casaram e meu avô foi sepultado numa vala comum, pois com Alzheimer se perdeu e morreu sem saber quem era e onde estava.  Cafelândia, onde meu pai trabalhou durante algum tempo. Olho no mapa e vejo coisas distantes, que parecem estar sumindo nos labirintos de minha memória. 

segunda-feira, 15 de abril de 2013


'OS INTALIANOS"



É assim até em nossos dias que os caboclos chamam os italianos no interior paulista. As modas caipiras de antanho grafam exatamente assim: “Os intalianos”, fazendo referências a um povo trabalhador, valente e defensor de suas famílias e propriedades. As belas italianas, como também as não tão belas, não tinham colher de chá e iam para a roça trabalhar na enxada de sol a sol. Com roupas longas e chapéus tipo sombreiro, era difícil ver as faces coradas quase sempre cobertas de poeira. Relatam sociólogos e historiadores, que em São Paulo foram incontáveis as moças italianas que fugiram de casa com homens negros, que ao contrário dos italianos, não permitiam que as suas mulheres fossem enfrentar os cabos de enxada.  As más línguas dizem que o motivo principal foi outro, mas são apenas suposições, pois nunca perguntaram para aquelas moças os motivos pelos quais fugiram de casa. Eu mesmo conheci uma senhora italiana casada com um senhor negro, que moravam na fazenda de um tio. De fato, dona Gisella nunca ia à roça e dedicava-se a cuidar da horta, das galinhas e da casa. 
Os italianos que por essas plagas chegaram, eram principalmente do sul da península, região mais atrasada do que o norte. Em geral eram analfabetos e conservavam as tradições, como privilegiar sempre os filhos, que tinham mais liberdade e eram herdeiros dos bens paternos. As mulheres eram proibidas de cortar os cabelos, se pintarem ou usarem qualquer adereço que ressaltassem a feminilidade. Por lá contava-se a história de uma moça, cujo pai era um fazendeiro abastado, que se casou com um dos filhos de um italiano na região noroeste de São Paulo. Até o casamento foi tudo bem. Depois a história foi outra. A moça foi criada longe do fogão, com boas roupas, cabelos curtos, sombras nos olhos e tudo o que tinham direito as garotas da cidade, mesmo morando na fazenda. No primeiro dia após o casamento, acabou a festa e a dondoca tornou-se uma autêntica doméstica, proibida de sair de casa, de cortar ou arrumar os cabelos, tirar sobrancelhas e outras vaidades femininas. Como era uma moça de personalidade forte, não quis se submeter ao marido de forma incondicional. Resultado: entraram em cena os personagens do Nelson Rodrigues e a violência patriarcal.   Levou tempo para que a moça conseguisse avisar a sua família sobre a situação em que passou a viver depois do casamento.
O pai da senhora Bellantonio, homem austero e conservador, cioso dos seus poderes que a tradição lhe legou, não aceitou que um carcamano qualquer espancasse sua filha, criada com todo o conforto e mesuras. Diante das notícias que chegaram não teve dúvidas. Chamou alguns empregados, passou a mão numa velha winchester e, de caminhão para trazer a mudança, foi buscar a filha. O moço quando viu o sogro na porta de sua casa com todo o aparato, amarelou. Jurou por São Genaro que nunca batera na esposa, prometendo que a partir desse dia iria tratá-la como uma rainha.  Não contente com as promessas do genro, o velho mandou chamar o sogro da filha e com a winchester segurando o queixo do italiano assegurou-se de que as juras seriam cumpridas.
Semanalmente a jovem senhora passou a receber visitas do pai, da mãe, das irmãs, irmãos e tios, que obtinham informações sobre como ela estava sendo tratada. O “intaliano” deu-se por vencido e deixou as coisas tomarem seu curso. Nunca mais maltratou a esposa e aos poucos se tornou um marido mais liberal.