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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Odebrecht: confissão dos erros

A Odebrecht está trabalhando ativamente para recuperar a sua imagem perante a sociedade brasileira e quem está à frente deste trabalho é Marcos Lessa, diretor de marketing, que esteve no Centro Universitário FEI para conversar com alunos e professores sobre esse programa.
A empresa está mesmo dando a cara para bater, assumindo a responsabilidade pelos erros cometidos no passado e prometendo uma nova vida, reassumindo os valores e padrões de comportamento preconizados pelo fundador, Norberto Odebrecht, em um manual de três volumes.
Infelizmente a condução agressiva dos seus executivos para o desenvolvimento de suas atividades, gerou posturas incompatíveis com os padrões básicos de responsabilidades corporativas no mundo dos negócios.  Em razão disso a organização acabou por ser cooptada por um sistema político ávido de poder e recursos, ameaçando a sua sobrevivência e gerou a destruição de mais de cem mil empregos.
A punição para os executivos que tomaram decisões errôneas é justa e deve servir como exemplo para que isso não se repita no futuro, mas a empresa, uma organização social construída há 70 anos que acumulou know-how, tecnologias, inovações e capital intelectual não pode continuar sendo punida indefinidamente.
O patrimônio de uma empresa não pertence unicamente aos seus acionistas, mas também à sociedade através dos seus diversos stakeholders.  As organizações tem uma função social relevante ao gerar produtos, serviços, impostos e, principalmente, empregos e por essa razão deveríamos ter um sistema de recuperação mais rápido para que elas possam retornar às suas atividades produtivas, recontratar funcionários e continuar cumprindo seus papéis sociais.
Tive oportunidade de trabalhar por um período de tempo num grupo em que a Odebrecht era acionista minoritária e que assumiu a gestão do grupo em razão de conflitos entre os controladores e o que presenciei na época (anos 1990) foi um sistema de gestão dinâmico e eficiente dentro dos princípios mais contemporâneos de administração, com visão estratégica dos negócios.
A tarefa do Marcos Lessa sem dúvida alguma será árdua, pois o estrago provocado pelas relações promíscuas entre os executivos da empresa e políticos corruptos criou raízes profundas na sociedade e demandará um bom tempo para que a empresa recupere sua imagem arranhada e recupere sua credibilidade junto à sociedade.
Mas os colaboradores da empresa, como frisou Lessa, ainda acreditam nela e estão dispostos a trabalhar intensamente para recuperar a imagem arranhada. Mesmo aqueles que tiveram de sair, deixaram as portas abertas para retornar.
A depuração das relações promíscuas entre empresas que prestavam serviços ao Estado pode ser um passo importante para se construir um sistema de relações mais transparente e ético. Difícil saber quem iniciou esse processo pernicioso, mas não há dúvidas de que o nosso sistema político, com campanhas eleitorais até então financiadas por organizações privadas que prestavam serviços às empresas públicas e de economia mista é o principal ator que gerou o maior escândalo político, social e econômico da sociedade brasileira.


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

SETE DE SETEMBRO, SE...

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No meu tempo de menino o Sete de Setembro era comemorado com hasteamento da bandeira, hino nacional e discurso da diretora do colégio ou de alguma outra autoridade. A mão direita no peito varonil e lá vinha “Elvira do Ipiranga, margens glácidas, de um povo heroico e brabo...”. Era assim que um menino que ficava do meu lado na fila cantava. Era preciso se segurar para não rir e levar um puxão de orelha.
A história da independência era uma coisa muito séria. Ninguém sabia coisas como o caso da amante de Dom Pedro, a Marquesa de Santos e que no caminho da volta de Santos, foi vítima de uma diarreia que obrigava a comitiva a parar de tempos em tempos para que ele pudesse se aliviar. Parece que a coisa foi brava. Há quem diga que foi uma peixada mal amanhecida. Dom Pedro I, como era ensinado, foi um grande herói que libertou o Brasil do domínio português, acabando com a exploração da metrópole. A viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro levava uma semana, com paradas para dormir. Mas cavaleiros treinados iam a galope à frente para levar a notícia à Corte e preparar a recepção. Dá para imaginar quanto tempo levou para as províncias do norte e nordeste receberem as notícias da independência.
Estava com uns catorze anos, quando li o interessante romance histórico do Paulo Setúbal, o pai do banqueiro e político que um amigo me emprestou. É a história romanceada do nosso primeiro imperador, sua paixão pela Maria Domitila, as encrencas com José Bonifácio, o seu envolvimento com a maçonaria e as más companhias como a do Francisco Gomes da Silva, que o guiava pelos prostíbulos do Rio. Mas o Chalaça, como era conhecido era um sujeito culto e poliglota e teria sido ele quem traduziu a constituição inglesa para D. Pedro elaborar a nossa primeira constituição liberal, que como se sabe não deu certo.
Dom João VI deixou o filho herdeiro por aqui com as melhores das intenções (obviamente para o filho), pois todos devem se lembrar da frase: “Antes que seja para ti do que para qualquer outro aventureiro”. Mas nem tudo ocorreu do jeito que queria o pai e as cortes lusitanas com mais poder depois da Revolução Francesa, que limitou o poder absolutista em quase toda a Europa queria o príncipe regente de volta a terrinha, pois estaria sendo mal influenciado por brasileiros e outros interesses não portugueses.
Proclamada a independência com um grito às margens do riacho Ipiranga, o príncipe chega à acanhada e provinciana São Paulo onde é aclamado pelas elites locais, incluindo a bela Maria Domitila de Castro Canto e Melo recém-separada do marido ciumento e violento. Azeitado pelo Chalaça na histórica noite de sete de setembro de 1822, o príncipe foi recompensado pelo seu ato heroico com o encontro com a bela paulistana para uma noitada de amor. Assim, alguns detalhes da independência eram proibidos para menores de 14 anos.
Sabe-se que havia muita gente envolvida com o movimento de independência, incluindo a maçonaria. A nobreza, os grandes proprietários de terras, comerciantes, mineradores e a pequena classe média ascendente trabalhavam para o fim dos vínculos com Portugal, pois quase toda a América do Sul, já estava livre da Espanha. Contudo, a independência foi fruto do conchavo entre vários interesses sem nenhuma participação popular. Não tivemos uma revolução de independência como a dos EUA e outros países.
E lá vem a pergunta que não quer calar: Por que o Brasil não proclamou uma república ao invés de passar primeiro pela monarquia? A resposta possível é que uma república não conseguiria manter o sistema escravocrata, como queriam as elites. A monarquia manteria a unidade do país em torno sistema escravocrata.  Os movimentos derrotados de independência no norte e nordeste tinham como plataforma o fim da escravidão, pois muitos escravos participaram desses movimentos. A Guerra dos Farrapos, um movimento separatista nos anos 1840, libertaria os escravos caso vencesse, pois muitos deles participaram na luta contra a coroa brasileira. Assim, somente uma monarquia costurada pela aristocracia manteria o sistema funcionando até o seu completo esgotamento como modelo de produção baseado no trabalho escravo.  Uma república naquele momento poderia ter dividido o país em várias repúblicas, tal como ocorreu com as colônias espanholas. Teria sido melhor ou pior? Nunca vamos saber, pois em História não existe SE.






quinta-feira, 31 de agosto de 2017


Marcia Gonçalves: uma luz que passou por aqui.

 

A querida Márcia partiu. Partiu cedo demais para alguém que tinha muita alegria e uma irradiante simpatia nos tempos em que desfrutava de uma vida saudável. A doença foi implacável com a nossa amiga. Mas ela foi feliz até o seu dia derradeiro, sempre amparada pelo seu jardineiro fiel, Carlinhos Kalunga, que cultivava flores no jardim da vida enquanto esperava por sua recuperação.

Convivemos pouco, mas foi o suficiente para selar uma grande amizade. A mudança para o Rio de Janeiro em razão dos compromissos profissionais do seu marido músico a afastou do convívio com muitos dos seus amigos, mas ela sempre continuou presente em nossas lembranças. A última vez que a vimos foi às vésperas de um ano novo, quando o casal se mudou para Santo André. Foi uma noite alegre, cheia de música e sempre, sempre, a sua simpatia aconchegante que fazia com que seus amigos fizessem parte da sua vida.

Recordo-me de algumas vezes em que o casal esteve em nossa casa, uma delas com o Sinésio e Ana Amélia. Foram tardes saborosas e inesquecíveis e sempre com muita música e histórias dos nossos tempos de juventude. Quantas aventuras! E teve o delicioso fim de semana prolongado que passamos em Butiá, terra dos Dozzi Tezza, que foi inesquecível. Quanto riso, oh quanta alegria... As brincadeiras, assustando uns aos outros com os imaginários fantasmas que rondavam a velha casa. Os almoços e jantares com todos sentados no terraço, pois a casa era muito, muito engraçada, apesar de ter teto e paredes, mas não tinha móveis e tampouco cadeiras. O Carlinhos tocando seu violão pela madrugada adentro. E a Marcinha participando de tudo, sempre feliz e sorridente.

A velha casa não existe mais e hoje, como diria o poeta Drummond, é apenas um quadro na parede, mas como dói. A dor é por conta da partida da Marcinha que vai doer eternamente entre todos os que tiveram a oportunidade de conhecê-la. Evoé Marcia! Você sempre estará presente em nossos pensamentos enquanto durar essa centelha de vida que insistimos por descuido ou poesia, mantê-la acesa.

E você querido amigo Carlinhos Kalunga contará sempre com o nosso carinho e amizade para que possa suportar a dor da perda. Aos poucos, depois de derramar todas as lágrimas (mas sempre restará um pouco), abra as janelas e olhe para o infinito, que é de onde os que partem saúdam os que ficaram. E quem sabe, talvez um dia desses, numa das primaveras que surpreendem a gente vadeando nesses tempos sombrios, alguém fará um belo poema que você transformará em música para co-memorarmos a querida e inesquecível Márcia.

DOCE MEL II

Ao escrever a crônica anterior sobre amigos apicultores e méis não me dei conta de que um dos endereçados de meus escritos, o Nhô Dédo Thenório, conhece muito mais do que eu poderia imaginar sobre as melipônias nativas. O nhô que tomei a liberdade de usar antes do seu nome tem uma razão linguística e cultural, pois em nosso meio caipira é utilizado como tratamento de pessoas que gozam de considerável respeito nas comunidades rurais e, via de regra, são portadores de singulares sabedorias.

Foi aí que ele me alertou que a jataí é, entre as abelhas nativas, uma das mais higiênicas, o que faz da afirmação do meu amigo apicultor, infelizmente já falecido, um palpite infeliz, como diria o poeta popular Noel Rosa. E para completar, citando consagrado pesquisador sobre o tema, explicou que a arapuá, sim, utiliza fezes de animais para ajudar na construção de suas colmeias. Como o Paulo era um naturalista autodidata e pesquisador por crença no conhecimento, com certeza ele se debruçaria sobre o tema com mais profundidade.

E na missiva que recebi do meu amigo Nhô Dédo, fiquei, a saber, que o velho e querido Constantino Dozzi Tezza, homem da terra, nascido em Butiá, distrito de Descalvado, era um amante das abelhas nativas, tendo cultivado um especial carinho pela jataí na fazenda da família. Com o Constantino, pessoa saudosa, com quem tive o especial prazer de saborear bons momentos de prosa, nunca tocou no assunto comigo, possivelmente por falta de tempo e, também, pela quase raridade dos nossos encontros.  E por herança seu filho Sinésio tem, também, a sua colmeia, que cultiva com especial carinho. E eis que o Nhô Dédo me confidenciou que tem a sua colmeia de jataí, presente do seu falecido sogro, que cultiva com especial carinho como uma relíquia familiar. Bom, pelo que se sabe, o Ibama não proíbe que se tenha uma colmeia no quintal, já que são as nossas nativas abelhas que escolhem os locais onde constroem sua fabriqueta de mel.

Outra informação que me deixou deveras constrangido, foi o desconhecimento da existência de uma canção que o Dédo fez sobre as nossas abelhas em parceria com os prezados amigos Sinésio e o Carlinhos Kalunga, violonista e compositor. Nessa canção o nobre Nhô Dédo esbanja seus conhecimentos sobre a vida natural e as abelhas nativas sem ferrão, emolduradas pelos acordes saborosos do mestre Carlinhos.

E com mais essa, faço justiça às jataís, abelhas mansas e carinhosas que se enrolavam nos cabelos de minha filha nos bons e saudosos anos de sua infância, resgatando o poder medicinal do seu mel, como também do seu papel no fortalecimento da nossa cultura que tem raízes nos povos nobres indígenas que aqui habitaram por milênios.

RICOS E POBRES

 

Nas novelas da Globo ricos e pobres frequentam os mesmos ambientes e o mesmo espaço público. As famílias de milionários convivem com famílias de pobretões sem eira nem beira. É a democracia global, afinal; mas somos todos iguais em tudo na vida e como disse o poeta João Cabral de Melo Neto, “morremos de morte igual, mesma morte Severina, que é a morte de que se morre, de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte e de fome um pouco por dia...”.  Mas em verdade os seres humanos só se igualam mesmo é na morte, pois todos apodrecem da mesma forma, devorados pelos vermes. O que muda mesmo é o velório, a qualidade do caixão e o custo do evento, depois o resto é silêncio. Mesmo assim algumas igrejas prometem, a quem pagar em vida, um bom terreno no céu, próximo de Jesus, eternizando a divisão social da sociedade.

Essa história me faz recordar de um filme do Wood Allen em que um judeu, condenado à morte por crimes hediondos se converte ao catolicismo. Ao ser questionado por um parente, ele se desculpa alegando que no cristianismo tem pelo menos a chance da vida eterna, enquanto para os judeus, essa possibilidade não existe.

 Mas durante a vida somos mesmo divididos em classes, castas e estamentos sociais, usufruindo dos recursos da natureza em função do poder político, econômico, religioso ou institucional.

Mas existem histórias pitorescas sobre as relações de classe que são até engraçadas, caso não fossem quase trágicas. Contou-me um velho amigo músico e cantor que foi convidado por nada menos do que o José Ricardo Machline, herdeiro milionário, para participar de um espetáculo por ele produzido envolvendo a cantora Claudia. Lá foi ele à residência do produtor artístico para acertar os detalhes do evento. Na saída Machline pediu a ele uma carona. Meu amigo com um carro velho e caindo aos pedaços ficou numa tremenda saia justa, mas não se fez de rogado: “Bom se você não se incomodar em viajar em carro velho, tudo bem”. Machline disse que não haveria problemas e lá foram eles para a viagem. O carro era bem pior do que deveria ter pensado o milionário. Além de sujo e amassado nos quatro lados, a porta do lado do motorista não abria e ele foi obrigado a entrar pela porta do motorista, com todas as dificuldades que sua barriguinha de chope gerava. Mas foram em frente por alguns quilômetros, quando surgiu o primeiro imprevisto: o carro morreu em plena avenida e o carona foi convidado a dar uma forcinha, empurrando o calhambeque para que pudesse dar a partida.

Superado mais esse problema, foram em frente até serem parados por uma batida policial. Mais um pequeno problema: a licença estava vencida e não houve como convencer o policial que os dois tinham um compromisso urgente e que não poderiam esperar, coisa e tal. Resultado: o Machline agradeceu a carona e pegou o primeiro taxi que encontrou, enquanto meu amigo ficou esperando o guarda preencher o auto de infração e apreensão do veículo.

Enfim, as relações entre classes sociais distante existem, mas apenas no plano profissional, com o cabelereiro, o mecânico, o garçom, a empregada doméstica etc. No mais é pura ficção.

 

ENFIM, UM FIM DE SEMANA
Na atual fase da vida, meus fins de semana  em geral são mornos, sem grandes emoções. Mas neste  último saímos da rotina. No sábado fomos para a Rua Augusta no lançamento do livro de contos Primeiramente e levamos a amiga jornalista e escritora Sonia Nabarrete. Foi um gostoso papo de São Bernardo até a metrópole. Lá encontramos vários amigos e companheiros da antologia de contos. Entre os amigos e novos amigos, encontramos a querida Elizabeth Pudles,  também jornalista que estava lá prestigiando o evento. Apesar do tempo e das nossas rugas, um rosto amigo é sempre o mesmo, com a vitalidade da juventude ainda fresca no olhar que não vai desaparecer enquanto a nossa memória conseguir manter o registro.
Lá estava também a querida Nádia Novaes, uma guerreira dos velhos tempos, sempre sorridente, entusiasmada e feliz, acreditando na amizade, na poesia e no futuro. O Paulo Lai Werneck, arquiteto, escritor e artista da madeira, a Manu com suas duas filhas a tiracolo, feliz com um sorriso que ouvia-se de longe (o sorriso pode ser ouvido também...). O Jorge Nagao que conheci lá e que fotografou a família com inigualável delicadeza. E outros tantos que não há espaço para citar.
No domingo tínhamos um convite imperdível para um almoço na casa dos nossos antigos amigos Guacira e Milton Eto. No cardápio estavam, também, Edson Silva e Drágica Mitrowich, sempre ótimas companhias. Edson ou Zeca, escritor, sambista e compositor e a Drágica, que faz a ponte entre a cultura alemã e sérvia com a brasileira, guiada pela gentileza do Zeca.
O delicioso almoço preparado pela Guacira, tinha salada com flores cultivadas pela Cintia, e peixe assado com molho da erva dil.  Guacira, nome indígena e  poético,  que dá nome a uma velha canção (Adeus Guacira) foi incorporado com orgulho pela Fuzae quando se casou.
Lá tivemos contato com o livro delicadíssimo da Cintia Eto, filha do casal. Um “abuso” de sensibilidade. O livro, particularmente inovador vai participar da mostra Nascente de arte da Universidade de São Paulo, onde ela, uma arquiteta e artista plástica, faz o curso de Letras.  Enquanto folheava o livro, cometi a indiscrição de ler um poema da Cintia, que aqui não transcrevo por não estar autorizado, mas é de uma delicadeza indescritível.  Aliás, registro que estranhei quando a Cintia resolveu fazer o curso de letras depois de cursar arquitetura, seguindo o caminho trilhado pelo pai, professor de língua e literatura portuguesa. Mas isso tinha uma razão de ser. Ela precisava incorporar a poesia à sua linguagem de artista plástica e nada como estudar os clássicos da língua para incorporá-los à sua arte.
A boa conversa foi longa e bom seria se não fosse para tão grandes amizades, tão curta a vida. Terminamos a visita  no final da noite com uma pizza e um expresso para não dormir no caminho. Mas antes conversamos sobre política (inevitável), mais literatura e, por sugestão da Cintia, sobre O Narrador de Walter Benjamim, sobre o qual ela nos contou alguns detalhes pouco conhecidos  do livro e do autor.  E termino essa crônica citando o autor: “... a narrativa não é apenas informação, mas imerge essa substância na vida do narrador para, em seguida, retirá-la dele próprio. Assim a narrativa revelará sempre a marca do narrador, assim como a mão do artista é percebida”.
 
 
 
 

MEL, DOCE MEL

Quem não gosta de mel? Se não gosta deve ser diabético ou não tem glândulas gustativas. Eu gosto de mel e adoro saborear os favos. Meu falecido amigo apicultor e poeta Paulo Duarte, além de me fornecer mel trazia também os favos cortados em pequenos cubos. Era supimpa. Depois de ter passado alguns meses nos porões da ditadura, onde foi barbaramente torturado, resolveu usar um sitio da família para se dedicar às abelhas. Ficava feliz em observar o trabalho dos bichinhos fabricando mel, própolis e cera, com sua rígida divisão do trabalho social. Confessou-me que chegava a sonhar com a sociedade humana organizada como as abelhas. Eu sempre repetia: muita organização é totalitarismo meu amigo. Ele ria e tentava me convencer do contrário.

Naqueles tempos em que frequentava nossa casa, surgiu do nada no jardim, uma colmeia de jatai. O Paulo tratou de estudar uma forma de domesticá-las, já que as abelhas nacionais são, em geral, pouco laboriosas e nada disciplinadas como as africanas e europeias. Ele construiu uma casinha estruturada de forma que fosse possível retirar o mel de jataí, que dizem ter propriedades medicinais.  Não deu certo. A colmeia ficou totalmente bagunçada, pois elas desconstruíram toda a engenharia que o Paulo elaborou para domesticá-las, fazendo entradas e saídas para todos os lados. Mas tempos depois o próprio Paulo me alertou que a jataí, apesar do delicioso mel, visitava fezes de animais o que tornava o mel um perigoso transmissor de doenças. Nunca consumimos o mel de Jataí, mas elas ficaram por um bom tempo em nosso quintal aproveitando as nossas flores e as da vizinhança até que sua inimiga natural, as formigas, as descobriram. O enxame partiu para outra freguesia ou foi totalmente devorado pelas também organizadas formigas.

O Paulo foi atropelado logo depois que saiu da prisão, ficando paraplégico. Sua energia e resiliência eram formidáveis. Circulava pela cidade e o sítio de carro com uma cadeira de rodas no porta-malas e se virava sozinho, sem precisar de ajuda nos seus deslocamentos.  No fim, com a mobilidade reduzida decidiu abandonar a apicultura se dedicando a outras atividades até a sua morte prematura.

Outro apicultor que conheci foi o Nelson Borghi, que tinha a alma caipira e uma criação de abelhas em um sítio em Camanducaia conseguindo uma boa produção, que ajudava no seu orçamento de aposentado. O Nelson tinha uma teoria estranha. Ele explicava que as abelhas nativas produzem pouco porque no Brasil temos floradas o ano todo e por esta razão não se dão ao trabalho de estocar mel e pólen, já que algumas plantas desabrocham suas flores em plena estação do frio. Ele usava isso para explicar que os brasileiros do interior são indolentes como as abelhas nacionais pela mesma razão. “Pra que trabaiá se tem cumida o ano inteiro?” E cantarolava a música de “Papo pro ar” do Joubert de Carvalho “Se tenho na feira, feijão, rapadura, pra que trabaiá?” E assim, as nativas produzem para o gasto e nada de acumular para o porvir.

Por outro lado as abelhas europeias que aqui se estabeleceram por conta dos jesuítas no século XVIII, sofreram um revés com a chegada das africanas, muito agressivas e com maior produtividade. Um pesquisador da USP trouxe algumas colmeias da África para pesquisa e por acidente escaparam algumas rainhas e se espalharam pelo Brasil afora. Depois de alguns ataques fatais elas foram se acalmando ao se miscigenarem com as europeias, reduzindo a agressividade. Com os desmatamentos e a destruição do nosso ecossistema, as abelhas nacionais como Arapuá, Jataí, tiúba, jandaíra, uruçu, iraí, mirim-preguiça, mandaçaia, mirim-guaçu entre outras, sobre cujos nomes o meu amigo Nhô Dedo Thenório de Piedade é capaz de dissertar horas a fio com a sua sabedoria sobre a natureza, estão perdendo a competição. Aliás, o velho Thenório fez uma providencial correção: É a Arapuá, abelha nativa sem ferrão, que usa as fezes para construir sua colmeia, corrigindo uma informação errônea do Paulo Duarte. De qualquer forma as abelhas nativas estão desparecendo e as mestiças estão se tornando hegemônicas em nossas paragens, adoçando os nossos lábios e corações.

 

 

ERETOS


Sonia Nabarrete, jornalista, fotógrafa, contista e poeta lançou recentemente a sua primeira novela. Um livro forte, utilizando uma linguagem sem censura, como é do seu jeito de ser. Ela se refere às coisas com os nomes que são utilizados nos guetos, nos bares, nas ruas, nos prostíbulos e na alcova.

Sua carreira de jornalista sempre foi pautada por reportagens arrojadas, como a que escreveu sobre os índios tupis no litoral norte nos anos 1970 e que teve alguma repercussão. Neste trabalho expôs de forma nua e crua a realidade desse grupo indígena explorado pela população local e turistas.

Nos últimos anos, depois de passar por um período como jornalista corporativa, editando órgãos internos de empresas, Sonia Nabarrete voltou a escrever poesias e contos, tendo alguns trabalhos premiados.

Sua primeira novela e espero que publique outras, porque talento e criatividade não lhe faltam, é arrojada e totalmente despojada do lirismo comedido. O sexo é tratado de forma nua e crua, bem ao estilo do grande escritor norte-americano Henry Miller, que chocou o mundo com Tropico de Câncer e outros.

Eretos é uma novela tipo policial, ao estilo de Agatha Christie em que vários personagens são unidos por um mesmo destino. Uma dona de casa, um juiz, um detetive, um policial militar, um militante político, uma cafetina, um casal de cuidadores, um médico, um empresário e um transexual, Cada um deles cometeu um crime, uns leves, outros mais pesados e entre eles um algoz maníaco que espera puni-los, segundo seus critérios de justiça. O enredo é bem dinâmico, fazendo com que o leitor se prenda na trama, esperando uma resposta para o enigma esclarecido no final.   Para início de conversa todos os personagens apostaram na Mega Sena acumulada e um deles levou sozinho a bolada.

Eretos. Editora @link, Sonia Nabarrete, 160 pg.

domingo, 18 de junho de 2017

Brasileiro profissão esperança



Ser brasileiro
Não é apenas uma nacionalidade
Ser brasileiro
Não é apenas uma cultura, um idioma,
Ser brasileiro
Não é apenas samba, carnaval e futebol
Ser brasileiro
Não  é  só  trabalho, não é só dinheiro
Ser brasileiro
É esperar o tempo das coisas
Coisas boas e ruins
É ter uma oração pra cada tristeza
É ter uma oração pra cada alegria
É ver poesia em cada palmo de estrada
É esperar o amanhã como se espera um filho
Ser brasileiro é esperança

Brasileiro: profissão esperança

UM ESTRANHO HOMEM



Ele surgiu do nada no meio da confusão. Suas roupas eram estranhas, parecendo um beduíno, carregando um saco com seus pertences. De repente viu policiais batendo nas pessoas com cassetetes, jogando bombas de gás lacrimogênio ou atirando balas de borracha. Sua primeira reação foi interceder para que as pessoas não se machucassem, mas acabou apanhando também. De nada adiantou se explicar que estava tentando ajudar as pessoas que estavam sendo castigadas sem motivo.
- Vocês não sabem quem eu sou? Estou aqui para uma missão muito importante que meu pai me encarregou. Vocês não podem bater nessas pessoas. Ninguém tem direito de castigar o próximo.
O policial não pensou duas vezes e deu-lhe um tremendo safanão que ele caiu há alguns metros. Machucado pela queda continuou não entendendo nada. Nunca havia sido tratado assim, a não ser... Mas logo depois foi recolhido pelos policiais e levado para uma viatura algemado. Ficou pasmo com a situação, nunca imaginou que desta vez sua missão fosse tão rápida que não tivesse nem mesmo tempo para explicar a que veio. “Atirem a primeira pedra aqueles que nunca erraram”, gritava dentro do camburão.
Esse cara deve ser um fanático maluco. Deve ser de uma seita evangélica achando que vai salvar a humanidade, comentou um policial. Os outros riram e também não deram importância para o clamor do homem.
Na delegacia ele ficou junto com outros detidos na manifestação. A maioria era de jovens estudantes que não estavam intimidados com a situação. Conversavam normalmente, trocando ideias sobre como deveriam agir na próxima vez e contavam que seriam libertados em breve, pois não havia acusação formal contra eles. Os jovens acharam estranho aquele homem com aquelas roupas exóticas, um tipo de manto sobre o corpo e calçando uma velha sandália de couro cru. Perguntaram-lhe quem era e o que estava fazendo na manifestação, mas ele estava tão cansado e machucado que não teve forças para responder.
A noite chegou e nada dos jovens serem libertados. Todos famintos e esgotados e nem sinal do delegado que iria pegar os depoimentos e depois fichá-los e libertá-los. Alguns dormiram e outros continuaram discutindo questões políticas e estudantis, planejando como seria a próxima manifestação, sempre acreditando que seria arrasadora, que abalaria  os pilares do estado. Como o homem estranho havia acordado, um dos estudantes perguntou quem era ele e o que estava fazendo na passeata. Ele repetiu a mesma ladainha que fez diante dos policiais, mas já se retraindo com medo de que fossem também atacá-lo.
- Calma, calma, não vamos machucá-lo. Somos amigos, disse um dos estudantes. Estamos fazendo um movimento para derrubar o governo. São uns fascistas que estão no poder e querem ferrar com o povão.
- Vocês não devem lutar contra o governo. Lembrem-se: A César o que é de César. A Deus o que é de Deus”. Eu não sou daqui, não pertenço a este lugar.
- Como assim? Você é um estrangeiro ilegal? Tem passaporte? Como entrou no país? Perguntou um estudantes, observando que ele tinha um sotaque levemente estranho, apesar de falar bem o português.
- Vocês não me entenderam. Eu não sou daqui. Sou de outro lugar. Estou aqui em uma missão, o meu pai...
Nisso um dos estudantes começou a cantar uma ciranda do folclore baiano, gravada pelo Caetano Velloso: “Eu não sou daqui, marinheiro só, eu não tenho amor, marinheiro só...” E todos caíram na gargalhada.
Logo depois entrou um policial e chamou o homem estranho para ser identificado e liberado. Diante do delegado reclamou que foi agredido sem que tivesse ao menos ameaçado o guarda. Achou uma injustiça o que fizeram com ele e com os jovens que também foram presos. O delegado fez de conta que não ouvia as reclamações e ordenou ao escrivão para que tomasse as digitais do homem e providenciasse a fotografia. Em seguida perguntou pelo seu nome, endereço, profissão. Ele não entendeu nada do que foi perguntado. Disse que veio direto para a rua e ainda não sabia onde ficaria. Talvez numa rua qualquer. Um cantinho protegido da chuva e dos bichos seria suficiente para ele.  Nome? Por que haveria de dizer seu nome? Quem és tu? Perguntou. És o César?
- Aqui não tem ninguém que se chama César. Vai falando logo que eu não tenho tempo a perder. Nome?
- José
- José de que?
- Bem, sou José de Belém.
-Escrivão!  Escreva aí: José de Belém. Profissão?
- Sou pedreiro e carpinteiro.
- Está liberado, mas se você aparecer de novo por aqui vou botá-lo em cana por uns meses para aprender a não desacatar autoridade policial.
Ele continuou não entendendo nada. Pegou sua sacola e saiu em direção à rua. Agora estava tudo calmo, tranquilo, apenas as pessoas circulando e todas com muita pressa. Tentou em vão abordá-las. Queria conversar, mas ninguém lhe dava atenção. Cansado, sentou-se sob uma marquise e ficou observando o movimento. Era uma igreja. Tentou entrar, mas as portas estavam fechadas. Como uma igreja pode estar com as portas fechadas? Falou pra si mesmo.
Estava escuro e o movimento da rua foi diminuindo só restando uns mendigos que reclamaram que ele estava ocupando um lugar que já tinha dono.
- Como? Não há dono da casa do Senhor, respondeu irritado.
Os mendigos riram e se afastaram para outro local, onde colocaram uns papelões para passar a noite. Ele continuou ali estranhando aquele lugar onde ele foi parar. Não conseguia entender porque Deus o deixou ali, sem nenhuma explicação. Sabia que o Pai escrevia certo por linhas tortas, mas deveria ter algum sinal para que entendesse a sua missão. Mas conformou-se, repetindo: Deus sabe o que faz, Deus sabe o que faz...
No meio da madrugada os mendigos voltaram e ao perceberem que o estranho homem estava dormindo, foram ver o que havia em sua sacola. O barulho o acordou e, por instinto, tentou reagir, mas eram três mendigos e estavam com pedaços de pau que usaram para bater no homem até deixá-lo desacordado. Ele sentiu uma grande dor nas costas e na cabeça por causa das pancadas. Tentou acordar, mas sentiu suas forças esvaírem.
Abriram a mochila e encontraram um livro em um idioma que desconheciam, uma pequena caneca de estanho e um crucifixo de madeira. Junto um manuscrito enrolado, também num outro idioma. Como não viram nada de valor, largaram tudo e se afastaram para evitar problemas, pois o homem poderia ter morrido.
Pela manhã ele foi encontrado já frio e sem vida. Um judeu que passava por ali viu o livro e o manuscrito e resolveu dar uma olhada. Ele leu o manuscrito escrito em aramaico:
“A todos os homens de boa vontade”:
O portador deste é meu filho que estou enviando à terra para uma nova missão. Por favor, cuidem bem dele, pois não quero que ele sofra como da última vez”. Assinado: Jeovah. Depois de ler guardou o manuscrito, pensando em aproveitá-lo em seu antiquário, assim como o livro, o crucifixo e a caneca de estanho. “Ganhei o dia hoje, pensou o comerciante”.
Horas depois um camburão recolheu o estranho homem como indigente, levando-o para o IML, onde analisariam a causa mortis e ficaria aguardando algum parente reclamar. Ninguém reclamou. Nenhum parente, nenhum amigo deu por falta dele. Depois de algum tempo, foi sepultado numa vala comum, com outros indigentes, que as dezenas são sepultados todos os dias.
O comerciante de antiguidades colocou as peças em exposição colocando um bom preço por elas, pois pareciam autênticas e em bom estado.




quinta-feira, 4 de maio de 2017

O CORTIÇO EM SÃO CAETANO


Na minha rua havia um cortiço. Não era nada parecido com o do romance do Aluízio Azevedo, mas tinha lá as suas peculiaridades. O que chamamos de cortiço, regra geral, é uma casa dividida em cômodos com várias famílias ocupando e compartilhando apenas um sanitário e o quintal. É claro que daí surgem os conflitos. Crianças jogando bola nas roupas penduradas no varal, brigas pela utilização do mesmo espaço, conflitos entre crianças e vai por aí.
Quando eu era criança havia pelo menos quatro famílias morando no local. Dona Encarnacion, com quatro ou cinco filhos ocupando apenas um cômodo. Seu marido a abandonara e só aparecia uma vez por mês para ver os filhos e levar a parca pensão. Coitada da Encarnacion era uma vida difícil.  Havia, também, uma antiga moradora do endereço, uma espanhola chamada Maria que vivia amasiada com um Cearense. Tinha uns quatro filhos do primeiro marido e mais uns três do segundo e ocupava dois cômodos. Diariamente ela saia pela cidade para esmolar. Voltava com um ou dois sacos repletos de roupas que nunca utilizava e as colocava no lixo. Era conhecida como Maria Louca, pelas suas extravagâncias, criando encrencas com toda a vizinhança por causa dos filhos. Ela tinha um filho mais velho, chamado Juarez, briguento como ele só. Durante as peladas sempre nos desentendíamos e era briga na certa. Eu sempre levava a melhor, mas ele atirava pedras para se vingar e o jeito era correr antes de levar uma na cabeça. O Juarez e os irmãos eram crianças de rua e meus pais não gostavam que nos brincássemos com eles, mas ninguém levava isso muito a sério. Minha mãe tinha pena das crianças e sempre que percebia que estavam famintos, oferecia um prato de comida. Uma vez meus pais chegaram à noite e encontraram o Juarez dormindo em nossa varanda. Estava um frio de rachar e minha mãe o acomodou em casa com direito ao café da manhã.
Um senhor que lá morava era o mais atípico. Vestia-se com elegância, sempre com camisas bem passadas e gravatas bem ajustadas no colarinho.  Saia todas as noites e nos fins de semana circulava pelos bares do bairro. Sabia-se que trabalhava na Volkswagen, mas nunca comentava o que fazia por lá.  Todos se perguntavam para onde ia o seu Donutti? Sua mulher, dona Clarice, era uma coitada. Além de trabalhar fora, fazia a dupla jornada, cozinhando e lavando para a família. O casal tinha três filhos, sendo o Vanderlei o mais velho que se juntava com a turma nas peladas da rua. Para complicar, a família hospedava o irmão solteiro da dona Clarice, que provavelmente dormia na cozinha, já que a casa tinha apenas um quarto e cozinha. Ficava imaginando o desconforto do moço, que também se vestia com elegância, sempre de paletó e gravata. Dizem que trabalhava em um banco e que falava inglês fluentemente. Depois de algum tempo passou a dar aulas de inglês à noite e saiu da casa da irmã, aparecendo por lá eventualmente para uma visita rápida.
Morou lá também uma família de negros. O José Luiz era muito alto e magro e se parecia com um Neuer (povo africano da África Central que o antropólogo inglês Radcliff Brown estudou). É claro que na época nunca havia ouvido falar no Radcliff.  Ele era muito esperto e hábil em catar balões e pipas quando caiam em nossa rua. Era uma família muito fechada e sabia-se muito pouco sobre eles. Todos tínhamos medo do Zé, pois além do tamanho, era muito rápido com os pés e mãos.  Mas ficaram pouco tempo na casa e logo se mudaram para outro bairro o que nos deu alívio, pois nos livramos do habilidoso catador de balões e pipas. 
O dono do cortiço era um judeu que passava todos os meses para receber os aluguéis. Vinha em um velho Chevrolet dos anos cinquenta, dirigido pelo filho. Parava o carro em frente a casa e o filho chamava os inquilinos para o acerto de contas. Como era raro aparecer um carro por lá, a molecada parava a pelada na rua para admirar o carrão que só víamos nos filmes americanos nas matinês de domingo.  Às vezes algum dos moradores não tinha dinheiro e o velho judeu saia furioso do carro balançando a sua enorme pança e gritando impropérios. O filho procurava acalmá-lo e depois de algumas negociações, iam embora.
Tempos depois o judeu vendeu a propriedade e os inquilinos precisaram se mudar. A primeira foi a dona Clarice com o seu marido elegante. Em seguida mudou-se a Maria Louca, depois de se separar do seu Júlio, um cearense que parecia um índio e arranjar outro marido que tinha uma propriedade em outro bairro. Dona Encarnacion, com todos os seus filhos mudou-se para a mesma rua, mas morreu de câncer logo depois. Ela tinha uma filha chamada Julia, uma garota bonita, com pernas morenas e roliças que deixava a mostra em seus vestidos curtos. Nos meus nove ou dez anos, já fazia planos para levá-la à matinê, mas nunca deu certo, pois faltou coragem para fazer o convite e eu achava que ela toparia, pois me devorava com seus olhinhos de ressaca.
Com o fim do cortiço, acabou-se também a minha infância, as peladas de rua e as brigas intermináveis sobre se foi ou não foi gol, se foi bola na mão ou mão na bola ou quem era o melhor time do campeonato: Corinthians ou Palmeiras ou o Santos? O mais chato mesmo foi a falta que senti da Júlia, a menina das pernas roliças que provocava meus hormônios e eu ainda não entendia muito bem por quê.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

A TURMA DO PRIMÁRIO


Estudar depois do primário era praticamente um privilégio nos anos sessenta, pois não havia colégios públicos na periferia de São Caetano do Sul. O único ficava no centro e além da concorrência, ainda era preciso ter QI (ou quem indicou), termo usado na época para indicações políticas. Assim, quem terminava o primário ou ficava em casa ou arranjava um subemprego até completar catorze anos, idade permitida para trabalhar com carteira assinada. Foi o que aconteceu com vários dos meus colegas do Grupo Escolar Padre Luiz Capra. Poucos deles, como Elias Ladislau Pinto, Antonio Avelino, Arnaldo, Nelson Cabral de Lima, Ademir Duó, Piccinini, Roberto Ravagnani, Valter Corotti Trigo, Vagner Benedetti, Valter Belini entre outros foram estudar em um colégio particular, chamado Barão do Rio Branco.
Mário Corbalan Gomez foi um dos meus colegas de curso primário que não foi para o ginásio. Era um garoto bonachão, simpático e sempre sorridente. Ele era o filho mais novo de uma família de espanhóis e sua mãe já devia ter mais de quarenta anos quando ele nasceu.  Como morava a dois quarteirões de minha casa estávamos sempre nos encontrando; ora na rua, ora na igreja ou nas peladas num terreno baldio. Sua mãe às vezes ia chamá-lo durante as peladas gritando em um espanhol que só ele entendia. Depois do curso primário cada um seguiu rumos diferentes. Eu também fui fazer o ginásio no Barão do Rio Branco, graças a uma bolsa de estudos conseguida por contatos políticos do meu pai.  Quanto ao Mário, foi trabalhar com seus irmãos que tinham um caminhão para transportes ou coisa do gênero.
Com quinze anos também comecei a trabalhar, mas diferentemente do Mário, consegui um emprego em um escritório como aprendiz. Às vezes nos encontrávamos no ônibus quando voltávamos do trabalho. Eu com roupas limpas e mãos macias e ele com roupas sujas e mãos calejadas pelo trabalho duro de ajudante de motorista. Confesso que sentia algum orgulho por estar numa situação melhor do que a dele, mas ao mesmo tempo tristeza pela vida não oferecer as mesmas oportunidades para todos os meus amigos, principalmente para os companheiros de infância. Nesses momentos me lembrava de que mesmo tendo poucos recursos, meus pais faziam um grande sacrifício para que eu e meus irmãos pudéssemos ter uma vida melhor e a bem da verdade nem sempre correspondíamos.
                Chegou à época do serviço militar, quando pensei que seria o momento de reencontrar os velhos amigos da escola primária, onde aprendemos as primeiras letras com a professora Teresa Rami, uma mulher elegante, mas muito rígida com seus alunos. Mas qual! O Tiro de Guerra da cidade escolheu apenas os jovens que haviam estudado pelo menos o curso ginasial para o engajamento militar, quanto os demais, foram dispensados por excesso de contingente.  Era na realidade uma forma de exclusão social, não que fosse maravilhoso fazer o serviço militar estudando e trabalhando, mas era uma forma de fazer parte de um grupo, de participar de um ritual de passagem.
                Nesta época encontrei novamente o Mário no ponto de ônibus e ele comentou que estava desempregado. Como eu trabalhava no departamento de pessoal de uma empresa me ofereci para tentar lhe conseguir uma colocação. Passei-lhe o endereço da empresa, mas ele não apareceu, talvez por timidez.
  Dois dias depois quando voltava do serviço militar juntamente com o Ravagnani e Valter Belini, vimos uma movimentação estranha na casa do Mário e viemos saber que ele havia morrido afogado em uma represa em São Bernardo.  Entramos para dar os pêsames à família e lá ficamos por alguns minutos. Assim, três soldadinhos rasos prestaram a última homenagem a um ex-colega de escola desempregado que por falta de ocupação foi se divertir na perigosa represa que já havia levado e continuaria levando várias vidas de garotos das redondezas.  Antes de sair quebramos um protocolo da hierarquia militar e batemos continência diante do caixão de um civil que não havia sido convocado para o exército por não ter ido além do curso primário. Do pobre Mário só restou uma fotografia com toda a turma, tirada um pouco antes de concluirmos o curso primário. A sua história terminou cedo, bem  antes do tempo.



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

QUE HORAS ELA  VAI CHEGAR?



O filme se baseia numa história comum em nosso cotidiano. Uma empregada doméstica numa residência burguesa, que deixou a filha em Pernambuco aos cuidados de uma irmã. Mas a filha fica moça e resolve prestar vestibular para ingressar na USP.
Estaria tudo certo se a empregada doméstica tivesse a sua própria casa para receber a filha. Mas não. Ela mora no emprego desde que chegou do Nordeste ajudando a criar o filho do casal, pois a mãe trabalha fora e o pai, um rico burguês que recebeu uma herança, não faz absolutamente nada, tampouco cuidar do filho.
A dona da casa concorda que a filha da empregada venha morar em sua casa por um tempo suficiente para que ela se arranje. A partir daí as relações com a empregada começam a mudar. Antes ela era vista como uma pessoa da família, que ajudara a criar o filho do casal. Ela era ótima, pois não criava problemas e servia a família quase como um serviçal dos tempos coloniais.
Com a filha, avessa aos padrões de comportamento burguês, começa a quebrar as regras da casa, como comer o sorvete preferido do filho, sentar a mesa do café da manhã e entrar na piscina. Entrar na piscina foi demais para os patrões, que viram nisso uma invasão do seu espaço senhorial. A cena lembra um pouco a história vivida por uma cantora negra nos EUA que ousou entrar na piscina do clube de madrugada. No dia seguinte a piscina foi esvaziada e lavada, pois um ser considerado “inferior” ousou banhar-se no mesmo local dos seus sócios brancos.
Aos poucos a empregada que era tratada com todas as mesuras possíveis para uma empregada, principalmente, porque ela conhecia o “seu lugar”, começa a perceber as relações de classe, desencadeada com a presença da filha.  O lugar dela era da área de serviço para trás. Nos demais espaços da casa sua presença era permitida apenas para limpar ou servir.
O filme retrata do ponto de vista sociológico, o conflito de classe existente no cotidiano da vida familiar, não só das elites, mas também da classe média, cujos membros precisam trabalhar e dependem de alguém para cuidar da casa e dos filhos. A empregada se sente realmente da família, até o momento em que ultrapassa os limites estabelecidos pela família. A partir daí é convocada a se colocar no “seu lugar”.
Esse problema é mais comum do que se possa imaginar, pois após a empregada participar da vida familiar, funcionar muitas vezes como confidente, dando opiniões etc e tal, há o momento em que recebe uma bronca por um serviço mal feito ou por uma indiscrição. Nesse momento as relações de classe emergem como uma ruptura nas relações até então amigáveis. A partir daí se torna impossível à empregada continuar trabalhando na casa, pois se rompem as relações cordiais, que Sérgio Buarque de Holanda define, nas entrelinhas de “Raízes do Brasil”, como falsas, frutos  de interesses e relações de favores.
O filme, muito bem interpretado por Regina Casé merece ser visto, mesmo considerando que nem todo o elenco está à altura da protagonista. É também um filme divertido se não fosse também trágico.


CIGARRO DE PALHA


José, chefe de comitiva de boiadeiros, levava uma boiada para o Mato Grosso, quando deu uma parada para ver um boi que tinha se desgarrado. Foi aí que  apareceu o cavaleiro bem falante, que o abordou:

- O senhor teria fumo?

- Tenho, sim senhor, respondeu, oferecendo ao viajante.

- O senhor por acaso teria um canivete?

-Pois não, aqui está.

O homem picou o fumo caprichosamente, devolvendo o canivete e o tolete de fumo para José e mais uma vez perguntou:

- Não querendo abusar, o senhor teria palha?

- Tenho sim senhor, respondeu, entregando a palha ao homem.

Depois de enrolar o cigarro, o viajante ainda fez um novo pedido.

- O senhor me faria o obséquio de emprestar o fogo?

- Pode deixar que eu acendo, respondeu, pegando a binga e colocando o cigarro nos lábios.

Acesso o cigarro, José deu uma tragada e acenou para o viajante dizendo:

- Pode deixar que eu fumo pro senhor. E partiu a galope pela estrada se juntando aos demais da comitiva.


A POLÊMICA DA FEIJOADA


A feijoada é o prato da preferência nacional, não importa a classe social, a origem, a cor, a idade. Todos apreciam uma feijoada. Bem quase todos. Eu mesmo não sou um fã ardoroso do cozido de feijão com paio, linguiça, carne, toucinho, pé, joelho e outras partes do porco. Aliás, um suíno, parente do javali europeu que o nosso herói gaulês, Asterix e seu inseparável companheiro Obelix, preferiam assado na brasa.
Para harmonizar uma feijoada os brasileiros preferem a indispensável cerveja bem gelada, mas há controvérsias. Um amigo somelier prova, com bons argumentos, que o melhor acompanhamento para a feijoada, um prato de sabores fortes, é um bom Cabernet Sauvignon. A cerveja fermenta no estômago e deixa o comensal estufado, segundo ele. Mas há também aqueles que não dispensam uma caipirinha antes e durante a orgia gastronômica.
A origem da feijoada gera muita discussão. Meu querido amigo, o maestro Orlando Marcus Mancini, teimoso como ele só, diz que foram os escravos africanos que inventaram a feijoada durante os trezentos anos de escravidão, pois os senhores de engenho jogavam fora as partes menos nobres dos suínos abatidos e os escravos as recolhiam e despejavam em um caldeirão  com feijão.  Contra essa versão, a historiadora Mary Del Priori em seu belo livro Histórias da Gente Brasileira, diz que os senhores de engenho não gostavam de criar porcos porque ficavam muito selvagens. Gilberto Freyre, antropólogo e autor de Casa Grande e Senzala afirmava que os portugueses trouxeram o seu cozido de feijão com pedaços de carne de porco, paio, linguiça, pés etc e o adaptaram às condições dos trópicos. Logo se deduz que os senhores não deixavam nada para os escravos, que tinham que se contentar com a pouco nutritiva farinha de mandioca e algum calango ou outro bicho do mato que caçavam nas raras horas vagas.
Em verdade se comia muito mal no período colonial. Plantava-se muito pouco além da lucrativa cana de açúcar e, muitas vezes, faltava alimento para a subsistência dos próprios escravos. Em razão disso houve até um decreto de sua Majestade da metrópole portuguesa obrigando os fazendeiros a destinarem uma parte das terras e mão de obra para o plantio de alimentos para a subsistência , pois sem uma boa alimentação a produtividade dos engenhos caia, colocando em risco a economia colonial. Quem tinha dinheiro importava alimentos da metrópole, mas as condições de conservação eram péssimas e muitas vezes os suprimentos estragavam gerando problemas intestinais muito sérios.
Há também outra polêmica quanto ao estado natal da feijoada. Os cariocas afirmam que o Rio de Janeiro foi o berço dessa invenção da culinária, pois os escravos, depois da libertação em 1889, foram morar nos arredores da cidade maravilhosa trazendo essa iguaria a tira colo. Mas há aqueles que defendem que foi na Bahia que a feijoada ganhou as características atuais e depois a levaram para o Rio de Janeiro.
Mas há um detalhe que muitos se esquecem. Há uma versão da feijoada em cada país com as suas peculiaridades. Na França, o cassolet é uma feijoada branca com carne de porco, frango, coelho, linguiça e outros adereços. Em Portugal, conforme já mencionei, é o cozido português muito parecido com a feijoada, mas com feijão branco. Enfim, em todos os lugares do mundo onde se consome feijão, alguém sempre vai lembrar-se de colocar alguma coisa junto para melhorar o seu poder nutricional e deixar o cozido mais saboroso. O historiador francês Le Pen, afirmou que o feijão salvou a Europa da fome. A leguminosa, descoberta nas Américas foi levada e cultivada em solo europeu gerando fartura e melhorando a qualidade nutritiva da alimentação das classes menos favorecidas.
Polêmicas a parte, o feijão cozido com pedaços de porco, sejam de onde for, linguiça, paio e toucinho, acompanhado com molho de pimenta, couve refogada, farofa e arroz branco agrada a grande maioria dos brasileiros, seja no almoço ou no jantar, com cerveja gelada, caipirinha e até com vinho é comida para ninguém botar defeito.


FEITO EM CASA


Tornou-se um costume lá em casa criar um porquinho nos fundos do quintal, apesar das leis municipais proibirem a prática em área urbana. Mas meu pai fazia ouvidos de mercador mantendo um chiqueirinho com uma boa drenagem de água para criar um leitão à base de milho. A grande preocupação era manter o local sempre limpo e desinfetado para que nenhum vizinho reclamasse e acabasse por gerar uma multa e um prazo de 48 horas para se desfazer do bichinho.
Os porquinhos chegavam bonitinhos, engraçadinhos, mas acabavam crescendo e muito, tornando-se enormes, chegando a pesar mais de cem quilos. Nos primeiros dias ficava solto no quintal e nos divertíamos correndo atrás do animal. Mas logo ele era confinado e nosso trabalho consistia em limpar o local e abastecer o cocho com água e alimento.
Mas sempre chegava a hora triste, quando bicho, já enorme e arrastando a barriga no chão seria sacrificado para o deleite dos apreciadores de carne suína. Um dia antes meu pai combinava com um ou dois amigos para empreender a tarefa, que, diga-se de passagem, ele bem que gostava, pois se sentia como se estivesse na fazenda.  Os preparativos envolviam a afiação das facas e a preparação da lenha para o fogo. O porco parecia perceber que havia chegado a sua hora e começava a gritar bem antes do momento fatal. Isso me deixava angustiado e, não raro, tive crises psicossomáticas como febre alta e vômito. Ficava de longe e preferia não olhar, mas sabia exatamente o que aconteceria. Com um ou dois amigos segurando o porco, meu pai enfiava um longo punhal no coração do infeliz e em poucos minutos já estava morto. A segunda parte consistia em lavá-lo com água fervente e raspar a pelagem antes de abrir a carcaça.
Do porco se aproveitava tudo, menos, é claro, o grunhido. As vísceras como fígado, coração, rins etc eram iguarias disputadas. A pele era usada para fazer torresmo. Os pernis eram defumados para fazer presunto.  Os intestinos eram limpos e utilizados para fazer linguiça e chouriço. O restante da carne cortada em postas que eram fritas na própria banha do porco e assim conservadas por meses, uma antiga técnica de conservação de alimentos trazida pelos europeus antes das geladeiras.
Para mim tudo aquilo era um horror só, pois detestava carne suína e era obrigado a comê-la no almoço e no jantar e não via a hora de acabar aquela lambança para voltar ao franguinho ou a carne bovina. Em toda essa história, a única coisa que me dava prazer era o pão de torresmo, feito na padaria do bairro, sob encomenda, com a participação post-mortem dos nossos porquinhos. Com manteiga no café da manhã, era uma iguaria.
Os vizinhos e os amigos mais chegados eram presenteados com uma porção de carne, além de alguns passarem em nossa casa para fazer uma boquinha com o churrasquinho preparado pelo meu pai e seus amigos. O meu pai não bebia, mas sempre havia a cerveja gelada trazida pelos convidados.
Com o tempo essa tradição do interior, levada para a cidade por meus pais acabou. O custo do milho e algumas reclamações de vizinhos mal humorados e a fiscalização da prefeitura desanimaram o hábito; assim, a carne suína, a preferida do meu pai, passou a ser comprada no açougue ou no supermercado, encerrando mais um dos hábitos caipiras que os migrantes do interior traziam para a cidade grande.



Caminhas entre os mortos e com eles conversas...


Quando criança os mortos me assustavam e com eles tinha pesadelos que terminavam com um grito no meio da noite.  Hoje, com tantos entes queridos e amigos mortos perdi o medo e também a esperança de que eles voltam para puxar as nossas pernas como as histórias que as minhas irmãs mais velhas contavam para assustar os irmãos mais novos.
Minha mãe volta e meia sonhava com mortos: pai, mãe, irmãos e pelo menos com duas irmãs tinha sonhos frequentes. Uma dela se matou por ver seu amor proibido pela família e a outra se mudou para o Mato Grosso e nunca mais a viu. Com a última ficou uma pendência não resolvida. Era o remorso pela falta do perdão e de despedida. A que se matou era quase a sua mãe. Por ser a mais velha e minha mãe a mais nova, era quem cuidava dela enquanto a mãe cuidava da casa e das suas costuras. Quando minha mãe começou a ter demência senil, os seus encontros com os mortos ocorriam mesmo quando estava acordada. Quando ia visitá-la, às vezes, ela dizia: “Seu pai esteve aqui, conversamos bastante sobre nossa vida juntos e os filhos. Ele está preocupado com fulano e não é para estar?” Em outras ocasiões falava sobre o encontro com a irmã que nunca mais viu. Eram sempre momentos de perdões, arrependimentos e lágrimas.
Quando sonho com os mortos, estamos no cotidiano de nossa outrora vida familiar. Às vezes durante o sonho lembro de que eles estão mortos, mas na maioria das vezes nem me lembro disso. Mas isso acontece quase sempre na casa onde morávamos e na penumbra da noite. Meus sonhos sempre ocorrem à noite ou, raramente, no entardecer. Nunca pesquisei a causa, mas deve ser porque dormimos sempre à noite. Sonho com coisas absurdas, coloridas, músicas, discussões filosóficas, políticas ou literatura.
Tive um tio, casado com a irmã de minha mãe que era da seita Testemunhas de Jeová, que acreditava que depois do Armagedom, a grande batalha do bem contra o mal, os fieis ressuscitariam e voltariam à vida na terra e gozariam a eternidade felizes, sem guerras, tristezas, mortes, fome etc. Meu pai, um tanto cético, questionava, mas como a fé não deixa espaço para questionamentos, meu tio deslizava seguro de que o seu passaporte para o retorno da eternidade estava garantido.
A grande verdade é que o ser humano não se conforma com a morte, quando cessa a nossa história de vida e ficamos apenas nas lembranças dos parentes e amigos por algum tempo. Aqueles que fazem história vão para os livros, praças e ruas e podem ser lembrados por mais tempo, mas não pela eternidade, pois é muito pouco, pois sou pouco otimista de que teremos vida na terra nos próximos 100 ou 200 anos.
E foi no poema Elegia 1938, que o poeta Drummond escreve: Caminhas entre os mortos e com eles conversas/ Sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. E assim, a morte se torna companhia para os poetas, filósofos e teólogos, sempre com a pergunta: “Haverá vida depois?”. Nossos mortos nunca responderam e os seres humanos só encontram conforto nas palavras dos livros religiosos. Para os que creem, isso basta. Para aqueles que não creem resta o conforto da ciência: “Viveremos para sempre no DNA dos nossos descendentes, desde que os tenhamos”. Com bom humor Millor Fernandes assim se manifestou sobre a descoberta de múmias de três mil anos descobertas no Egito: “A morte pode não ser eterna, mas que dura muito tempo ninguém pode duvidar”.


UMA CACHAÇA DA BOA


Já estava perto do horário de almoço, quando chegou ao balcão do bar um homem de uns quarenta anos, se muito. Bem educado, perguntou pro Manoel, proprietário do bar se ele tinha uma cachaça da boa, daquelas de alambique pequeno, artesanal. “Mas tem que ser da boa mesmo, pois na minha terra é que tem cachaça de verdade. Sou lá de Minas, Salinas, a terra da cachaça, conheces”?
Manoel não conhecia Salinas, mas tinha uma cachaça de um fornecedor pequeno, mas de excelente qualidade, explicou orgulhoso. “Só ofereço pra quem entende, não é pra qualquer gajo”, disse no seu sotaque lusitano pegando uma garrafa na prateleira.
- Se é boa mesmo, então pode servir que eu quero provar, disse o estranho.
Ao encher o cálice, o aroma da cachaça impregnou o ambiente, deixando o homem entusiasmado. Nisso ele oferece a bebida para uns três frequentadores do bar, que prontamente aceitaram a oferta, diante do olhar incrédulo do Manoel.
- Pode servir, por favor. E faço questão que o senhor também brinde com a gente. Mais um copo para o senhor.
Manoel que não era dado a beber no trabalho ficou desconfortável, mas diante da insistência do cavalheiro aquiesceu. Brindaram e saborearam a boa cachaça, cuja garrafa custava três vezes o preço da comum. Terminado o brinde, o homem simplesmente agradeceu ao dono do estabelecimento e saiu sob o olhar estupefato de Manoel que ainda ameaçou gritar para sujeito.
No dia seguinte, na mesmo horário lá estava o homem novamente. Encostou a barriga no balcão, cumprimentou a todos e perguntou para Manoel: “Ainda tem daquela cachacinha boa”? Manoel pensou duas vezes na resposta e já ia dizendo: “Tem, mas pra quem pode pagar”, mas ficou só no pensar. Com os bofes remoendo respondeu secamente: “Ainda tenho cá, mas é muito mais cara”.
Pois então sirva pra nós e faço questão que o senhor também tome um trago, pois é merecido. Manoel engoliu a seco e repetiu o mesmo ritual do dia anterior servindo para os outros fregueses e para si mesmo. O homem levantou o brinde e bradou: “Saúde pra todos”. Agradeceu e já ia saindo do bar quando Manoel o alcançou e disse lá alguns impropérios. O homem, muito educadamente pediu que ele se acalmasse e que não havia necessidade de exaltação.  Mesmo assim, não pagou e seguiu seu caminho para o desgosto do velho português.
Mas no terceiro dia, eis que novamente o cavalheiro aparece à porta do estabelecimento, tira o chapéu, cumprimenta a todos e pede novamente a prestigiada cachacinha. Manoel se preparou para o pior. Hoje esse sujeito não me escapa, pois, pois.. pensou lá com seus botões. A cachaça foi servida ao homem, que ofereceu para uns três ou quatro, que aceitaram prontamente. Afinal não era sempre que tinham a oportunidade de saborear uma iguaria como aquela.
Faltava apenas oferecer ao Manoel, quando o homem disse bem humorado: “Pro senhor não, pois quando bebes ficas muito bravo.”.
E mais uma vez saiu em direção à porta, sem pagar a conta.






UM CRIME QUASE PERFEITO

Todas as sextas-feiras ele fazia serão. Ligava para Margarete e dizia que tinha uma reunião de final de semana para acertas os detalhes para a segunda feira. Além disso, sempre dizia, “vou para o happy hour com o pessoal do escritório”. Em verdade, era tudo conversa fiada. Margarete sempre acreditava ou fazia de conta, pois por mais que procurava se enganar, o cheiro de perfume de mulher nas roupas dele era indício de que havia algo mais do que um inocente happy hour com a turma do escritório. Mas ela era uma mulher conformada com a vidinha que levava. Não faltava nada em casa. Podia comprar suas coisinhas, ir ao cabelereiro, fazer as unhas e ainda tinha a sua mãe que morava com eles e os filhos. Nestor era um bom marido e não havia do que reclamar.
Na sexta-feira ele chegava por volta das onze e meia. Tomava um banho rápido e caia na cama, pois no sábado, bem cedinho, tinha o compromisso de ir com a família para a chácara em Ibiúna. Era uma rotina. Levantavam cedinho, mulher, crianças e a sogra no carro e pé na estrada. Mas neste sábado alguma coisa parece que estava dando errado. Viu um sapato de salto alto embaixo do banco do passageiro.
Começou a suar frio. Será que a Doroty, sua secretária, tinha bebido demais e esquecera o sapato no carro. Não é possível que ela tenha aprontado essa comigo, pensou com seus botões. Ela estava mesmo alta e estava com um sapato na mão. Será possível que a cretina largou o outro pé no carro? Calma, calma Nestor. Nada de desespero, que não vai resolver o problema. Maquinou uma solução. Distraiu a Margarete, pegou o sapato e o colocou do seu lado e ficou esperando uma oportunidade para distrair o pessoal, quando viu uma fazenda com o gado pastando num lugar bucólico.
- Olha que interessante esse lugar!  Disse apontando para o lado direito.
Todos olharam e ele, matreiramente, jogou o sapato pela sua janela. Ainda bem que ninguém viu, pensou. Doroty que se vire sem o sapato. Tudo bem eu compro um par novo para ela. O importante é que ninguém viu. Sentiu-se aliviado. Era outro homem. Nunca, nunca mais vou permitir que ela faça isso comigo novamente. Acho que nem vou mais sair com ela. Vou acabar com esse relacionamento. A Margarete não merece isso.  Onde já se viu deixar a marca do crime em meu carro! Não queria magoar a Margarete, pois era uma boa esposa, recatada e do lar. Não era nem ciumenta. Um amor de mulher. Devia dar graças a Deus...
- Não vamos dar uma parada Nestor? O posto já está perto. Avisou Margarete.
- Claro, claro, querida. Vamos parar sim.
Nestor estacionou o carro e desceu. Deu uma espreguiçada e olhou o horizonte enquanto o pessoal saia do carro. Nisso ouviu sua sogra gritando.
- Cadê meu sapato? Onde está meu sapato? Eu tirei aqui no carro. Estava aqui, nos meus pés.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

PIEDADE, MEU PÉ DE SERRA QUE NEM DEUS SABE ONDE ESTÁ.



Aposto que apenas os poucos que me leem conhecem Piedade, uma cidadezinha logo depois de Ibiúna, aquela que ficou conhecida no final dos anos sessenta por abrigar o histórico congresso nacional da UNE, em 1968.  Na ocasião foram presos mais de 600 estudantes, incluindo lideranças como José Dirceu e Luiz Travassos. Foram os moradores de Ibiúna que telefonaram para a polícia, denunciando o evento. Enquanto Ibiúna ganhou fama como a cidade que entregou os estudantes, Piedade continuou no ostracismo, mas por pouco tempo.
Piedade fica a 30 quilômetros de Ibiúna, com altitude de 781 metros e tem invernos bastante rigorosos, mas nada que se assemelhe a famosa São Joaquim em Santa Catarina. Graças ao clima, lá se produz caqui, maças, peras, cerejas, framboesas entre outras frutas, graças, também, a contribuição das laboriosas colônias italianas, alemãs, suíças, austríacas e japonesa. Mas em outros tempos, foi considerada a capital da produção de cebola em nosso estado.
Foi por lá, também, que o fabricante da famosa cama patente, instalou uma unidade fabril. A cama patente, um produto genuinamente nacional, concepção original do imigrante espanhol Celso Martinez Carrera em 1915.  Tempos depois, o imigrante italiano Luigi Liscio, patenteou a cama e obteve o direito de exclusividade sobre o produto, ficando Martinez proibido de fabricá-la.  A cama, pelo seu preço acessível, fez muito sucesso e o negócio se expandiu tanto, que ao redor da fábrica, em Piedade foi construída uma vila operária, chamada Vila Élvio em homenagem ao filho do empresário. Lá trabalhou quando jovem o falecido poeta José Delcy Thenório, pai do Edélcio.  Ele lembrava com saudade desses tempos, mas lamentava a destruição da floresta nativa para a exploração da madeira utilizada nas camas Patente.
Como diria Manuel Bandeira, “Em Piedade tem tudo, é outra civilização..”. Lá o carnaval é um dos mais criativos de São Paulo, abrigando grandes autores de marchinhas. Em junho ocorrem as serestas com composições de autores locais e declamações de poesias.  Edélcio Thenório, poeta, compositor e artista plástico nas horas vagas (que são poucas), é um dos compositores populares da cidade. Ele não nasceu lá, mas sua família foi uma das pioneiras do vilarejo, fundado em 1840 por tropeiros. O casal teve dois filhos e uma filha. Um dos filhos, Iberê Thenório, é o idealizador do site Manual do Mundo, que conta com mais de um  milhão de acessos. Enfim,. o mundo descobriu Piedade, a princesinha da Serra. Tal como a imaginária cidade Guacira da famosa canção de Hekel Tavares e Joracy Camargo. ”...onde  a lua pequenina, não encontra na colina, nenhum lago para se olhar”.
A cidade não é a mesma que conheci nos anos setenta. Meio acanhada, com ainda muitas construções do final do século XIX, lembrava um pouco as cidades históricas do sul de Minas. A economia pujante transformou a cidadezinha. Hoje ela abriga lojas sofisticadas, agências dos principais bancos nacionais e, infelizmente, um trânsito de cidade grande.
Foi lá que numa das minhas visitas, encontrei uma vez a grande cantora e pesquisadora de folclore Inezita Barroso com seu violão a tiracolo se apresentando no teatro local. Ela cantou a famosa canção de Anacleto Rosas Jr, chamada Cavalo Preto que menciona Piedade em seus versos. Dizem que foi apenas para rimar com cidade, mas para os antigos do vilarejo, o autor por lá passou em tempos idos e se apaixonou pelo lugar, um “pé de serra que nem Deus sabe onde está”.