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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

ONDE ESTAREMOS EM 2050?

O Congresso Inova FEI de 2017 propôs uma pergunta intrigante. Onde e como estaremos em 2050 em relação à cidade e o campo, mais precisamente como o campo estará em termos de inovação tecnológica e como se relacionará com os centros urbanos? Trinta e dois anos é um tempo relativamente curto, mas a forma rápida como a tecnologia evolui atualmente, muita coisa poderá acontecer nesse período.
Há um consenso de que a maioria da população mundial estará residindo nas cidades, pois é uma realidade já presente em países economicamente mais desenvolvidos e é só acompanhar a evolução do êxodo rural nos últimos cinquenta anos no Brasil para se ter uma ideia de como a distribuição demográfica se alterou.
Falou-se muito em veículos autônomos para o transporte terrestre de pessoas e mercadorias, como também o transporte aéreo que muito em breve prescindirá do ser humano para pilotar aeronaves, reduzindo os riscos de acidentes. A internet das coisas que envolve a aplicação da tecnologia da informação no cotidiano das pessoas, já se torna uma realidade hoje e já é possível inferir o que poderá mudar até lá.
Como serão as fábricas? A previsão de Assimov de que teremos no futuro as fábricas com um homem e um cão. Sendo o homem para alimentar o cão e o cão para evitar que o homem se aproxime das máquinas. 2050 é ainda muito cedo para isso se concretizar, mas a Inteligência artificial cognitiva pode ser realidade no futuro considerando a evolução rápida da tecnologia eletrônica e nanotecnologia. Talvez no ano 2100 os robôs estarão suficientemente inteligentes para conduzir fábricas, fazendas, minas, viagens cósmicas, cirurgias de alto risco, exploração de minas e mares em alta profundidade etc.
Alguém lembrou que a humanidade se desgasta a procura de soluções para um determinado problema e a solução vem por um caminho totalmente inesperado. Por exemplo: o enorme problema das grandes cidades no início do século XX era o que fazer com as fezes dos animais nas ruas, considerando que todo o transporte era feito por veículos com tração animal? Além disso, dezenas de animais morriam nas ruas durante o dia e levavam-se dias para retirá-los, gerando um sério problema de higiene e saúde pública. O problema foi resolvido por uma via totalmente inovadora e rápida com o advento dos motores a combustão utilizados em ônibus, caminhões e veículos particulares.  Mas essa solução gerou outro problema, que é a poluição atmosférica que ainda não se sabe como será resolvida de forma definitiva. Há quem diga que os motores elétricos são muito caros e consomem muita energia para resolver esse problema. Mas há um consenso que em 2050 o carro não terá o protagonismo que tem hoje.
E as universidades terão o mesmo formato das atuais ou o ensino terá mudado tanto que em 2050 será difícil entender como se funcionava no tempo presente. Mas já o consenso de que o conhecimento estará totalmente nas nuvens e não mais exclusivamente nas universidades ou escolas isoladas de ensino superior. O ensino poderá ser predominantemente à distância e o conhecimento disponível para a maioria da população, o que de certa forma já está ocorrendo atualmente com o Google e outros sites de busca.
A saúde mudará tanto que as pessoas poderão ser diagnosticadas sem sair de casa utilizando-se mecanismos de varredura do corpo humano à distância, permitindo-se a identificação de tumores, mau funcionamento de órgãos, infecções etc. As cirurgias poderão ser realizadas totalmente por robôs, dispensando-se grandes equipes de profissionais médicos e auxiliares. Será algo semelhante como a introdução do sistema digital e sua substituição ao sistema analógico. Os medicamentos serão inteligentes e sem efeitos colaterais, agindo diretamente no local do problema.  Além disso, a tecnologia permitirá a produção de alimentos mais saudáveis reduzindo os riscos de doenças comuns atualmente. A tecnologia tornará uma realidade a produção de órgãos através da genética, tornando possível transplantes sem riscos de rejeição e sem depender de doadores.
E a política? Continuará funcionando da mesma forma ou as decisões serão tomadas através de plebiscitos em tempo real, tornando desnecessárias as representações parlamentares?  Assim, sem intermediários, a sociedade poderá ter um papel mais participativo nas decisões de interesse público, eliminando-se a corrupção ou decisões em função de interesses corporativos.

A sustentabilidade será algo sério em 2050, pois as grandes mudanças climáticas exigirão de governantes um cuidado maior com os recursos naturais. A governança mundial como a ONU poderá ter um papel mais relevante e com maior autoridade, evitando que decisões nacionais tenham impacto negativo no planeta. Enfim, o nacionalismo xenófobo poderá estar sepultado definitivamente, prevalecendo as decisões que levem em conta que a terra é a nossa pátria e não uma divisão geográfica construída historicamente.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

AO VENCEDOR AS BATATAS E OS ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL

Num belo e ensolarado dia, o antropólogo de origem polonesa e radicado na Inglaterra, Bronislaw Malinovski,  desembarcou nas ilhas do Pacífico Ocidental numa expedição patrocinada pelo governo inglês para fazer uma pesquisa sobre a cultura dos povos da região no início do século XX. Para não se contaminar com os relatos de comerciantes patrícios, evitou manter com eles qualquer tipo de contato e foi diretamente à fonte.  O seu receio é que a visão etnocêntrica ou mesmo preconceituosa dos estrangeiros poderia influenciá-lo em sua missão de estudar a cultura desse povo.
Assim, autorizado pelo chefe tribal, montou acampamento no meio da aldeia e a partir daí começou a árdua tarefa de aprender o idioma, os costumes, as estruturas familiares e de relações sociais, o sistema econômico etc., usando como forma de sedução o fumo que trazia em sua bagagem, muito apreciado pelos nativos. Os nativos fanáticos pela nicotina proporcionada pelo tabaco plantado no sul dos Estados Unidos, muito se esforçaram para que Malinowski aprendesse os rudimentos do idioma para obter as informações de que necessitava.
E assim Malinovski mergulhou na tarefa de conhecer os papuas, pigmeus, dobus, tobriandeses etc.  Entre os Dobus, ele observou que as mulheres são amistosas e agradáveis em todas as classes sociais, não preservam a castidade e a liberdade sexual é bastante ampla. O casamento é muito simples e quase sem cerimônia. Em resumo, a mulher vai morar na casa do marido e ponto final.
A estrutura de parentesco era matrilinear, ou seja, é a mãe que definia a relação de parentesco com os filhos e não os homens, o que de certa forma ocorre com os judeus.  Assim, se a mãe é judia os filhos são judeus, no entanto se apenas o pai o é, não há uma comprovação automática. No entanto, o poder político era e continua masculino. A fidelidade no casamento era esperada, mas não era uma obrigação e a mulher podia procurar outro marido sem maiores dificuldades. A família da mulher tinha obrigações econômicas em relação ao casal. A herança era transmitida do homem para os filhos das suas irmãs e não havia nenhuma obrigação em relação aos seus filhos. Acreditavam que o papel do homem era secundário na procriação e os pais eram vistos, pelos próprios filhos, mais como um amigo do que como genitor. Era expressamente proibido a um homem gracejar ou falar livremente com uma irmã ou na presença dela ou mesmo olhar para ela.
O chefe tinha o direito de exercer a poligamia e as famílias de suas esposas pagavam a ele tributos em forma de alimentos com os quais ele honrava seus compromissos ou dava festas, cerimonias ou reuniões tribais. Como o principal produto cultivado na região são as batatas, um chefe poderoso tinha muitas batatas e com elas podia dar suas festas, receber outras tribos e fazer comemorações.
E acabei de reler o romance Quincas Borba do velho e bom Machado de Assis e o associei à pesquisa de Malinowski nas ilhas do Pacífico Ocidental.  Será que Machado ficou sabendo do costume dos habitantes da região em cultivar batatas e que elas se constituíam na sua principal riqueza? Quem sabe, mas Machado só publicou o romance em 1891. Entretanto, bem que poderia ter tido acesso a informações sobre esse povo por meio de relatos de viajantes. Infelizmente a cultura dos povos da região foi contaminada pelos vencedores ocidentais que acabaram proibindo as suas formas tradicionais de estrutura familiar e outros costumes. Assim, “ao vencedor as batatas”, como diria o sábio criador do Humanitismo.


PAIS E FILHOS


Um velho amigo, quando jovem, contou numa roda que havia dando uma bronca num grupo de marmanjos que humilhavam um bêbado acompanhado do seu filho. Pelo que me recordo foram essas as suas palavras: “Vocês não podem fazer isso com esse homem perto do seu filho. O pai é o maior herói de uma criança. Vocês estão destruindo suas referências”. Fiquei orgulhoso do meu amigo que se arriscou ao desafiar uma turba ignara em defesa de uma criança.
O escândalo protagonizado pelo ex-governador Sérgio Cabral Filho e que envolveu o desvio de milhões de reais a título de propinas fez com que muita gente se lembrasse do seu pai, o velho Sérgio Cabral, jornalista competente, especializado em música popular brasileira, letrista, redator do lendário Pasquim, o semanário que ousou bater de frente com a ditadura.  Pobre do Sérgio! Dizem todos os que o conheceram e leram suas colunas e reportagens.  É triste chegar ao fim da vida e ver o filho nas manchetes policiais como um dos maiores larápios que o Rio de Janeiro já conheceu. Felizmente para o Sérgio pai, sua mente já não funciona mais. O mal de Alzheimer faz com que não se lembre de quem ele é ou quem ele foi e tampouco se tem um filho ou não. Tudo é indiferente para ele, pois vive praticamente vegetando.
Mas algo me intrigou ao reler a biografia de Cabral pai e ver que após alguns mandatos de vereador ele foi presenteado com um invejável cargo de conselheiro do tribunal de contas do município do Rio de Janeiro. Depois de três mandatos de vereador foi nomeado Conselheiro do Tribunal de Contas do Município, onde se aposentou em 2007. Por que o privilégio? Sérgio pai era jornalista e cá entre nós, seus conhecimentos contábeis não iam além da sua conta bancária, pois nunca militou nesta área durante sua carreira jornalística, mais focada em músicas e letras do que em números.  Assim, quero crer que a nomeação para conselheiro do tribunal de contas é um jeitinho bem brasileiro de se presentear amigos e garantir-lhes um final de vida confortável.
O caso Cabral é o pai, mas tem também os casos dos filhos. Isso me faz lembrar do menino chamado Michel Temer Filho, cujo pai, que tem idade para ser seu avô ou até bisavô, alcançou o cargo máximo da república tupiniquim. Pobre menino rico, que é obrigado a ouvir dos coleguinhas de classe expressões pouco lisonjeiras sobre a honestidade do pai. Convenhamos que deva ser difícil e doloroso para uma ele ouvir certos adjetivos sobre aquele que sempre é o maior herói para uma criança. O sofrimento do pequeno Michel deveria ter sido previsto pelo pai, que mesmo depois de tantas operações da Lava-Jato, se aventurou por mares perigosos, mais de uma vez.
Um pai honesto e decente ter um filho acusado de corrupto é difícil, mas acredito que deve ser mais suportável do que uma criança ouvir a mesma acusação sobre o pai. Com certeza o pai se perguntará: Onde foi que errei? Por outro lado, a criança está em formação, sua personalidade ainda está em construção. Os valores que lhe são ensinados na escola e pelos pais ainda estão sendo digeridos. As suas maiores referências são os pais e como um deles está na boca do povo, é como se tivesse perdido o seu principal ponto de apoio, principalmente porque ontem parecia um herói e hoje um homem ameaçado de perder o mandato e até ser preso caso seja condenado por corrupção passiva.
Quanto ao meu velho amigo, hoje médico, penso que não deve estar muito preocupado com o Michel filho, pois a maioria das pessoas do país está em campo político oposto ao Michel pai. Mas foi a lembrança do seu comentário em idos tempos que me fez escrever esta crônica sobre a vergonha de pai e a vergonha de filho.


OS BONS E VELHOS ALFAIATES

Foi-se o tempo em que se ia ao alfaiate para fazer uma roupa. Escolhía-se o tecido no próprio profissional ou levava o corte da preferência adquirido em lojas especializadas em tecidos, que hoje não sei se ainda existem.   Em seguida em tiradas as medidas. Braço esticado, braço encolhido, altura, largura etc. A próxima etapa era a primeira prova. Com o paletó semi-costurado fazia-se a primeira prova, depois a segunda e às vezes a terceira. Finalmente pronto, a última prova para não ter reclamações posteriores. Fazia-se um costume (ainda se chama de terno que a rigor é um costume de três peças, incluindo o colete) para um casamento próprio, para ser padrinho ou como convidado.  Era comum fazer um bom terno para uma festa de formatura dependendo de quem era o formando.
No meu bairro havia um alfaiate chamado Genivaldo, uma figura simpática, gentil e de finíssimo no trato. Depois de entrar no seu atelier, ninguém escapava sem sair de lá com uma encomenda. Não havia alternativa.  Se não era um “terno”, era uma calça ou um blazer. Com sua calva reluzente e fala macia ele convencia todos com a boa conversa de vendedor. Fui lá pela primeira vez com um amigo e me tornei freguês, gastando bons trocados em roupas enquanto morei em São Caetano do Sul.
Depois de mudar para a vizinha São Bernardo, minhas visitas foram rareando até nunca mais visitar a alfaiataria do Genivaldo que tinha uma propaganda de gosto duvidoso: “Adão não se vestia porque o Genivaldo não existia”. Não era nada original, pois essa propaganda estava em todas as cidades do país.
Quem vai à alfaiataria hoje em dia? São poucos, ou melhor, raros. Os alfaiates quase desapareceram, pois as confecções com preços acessíveis, qualidade aceitável, acabaram com os mestres alfaiates com seus cortes bem feitos, caimento e costuras impecáveis que se tornaram obsoletos. Os trajes no passado duravam muito tempo, mas hoje são descartáveis. A moda é muito dinâmica e faz com as pessoas abandonem os costumes que ficaram fora de moda. Além disso, usar paletó e gravata é hoje restrito a poucos executivos. Foi-se o tempo em que o Cine Vitória em São Caetano não permitia a entrada de homens sem paletó.  Até meados dos anos sessenta não se frequentava a casa da namorada sem o traje passeio completo. Era preciso muita intimidade com a família para comparecer sem o mínimo de elegância. Até para morrer, antigamente, se exigia um bom terno, mas hoje nem esse detalhe da elegância masculina está sendo respeitada. Chegar ao paraíso ou ao purgatório mal vestido era considerado de mau agouro, diziam os antigos.
Essa história me faz lembrar o empresário Antônio Ermírio de Moraes que disse, com orgulho, que o terno de casimira inglesa que ainda usava foi do seu pai, um velho político dos anos cinquenta, José Ermírio de Moraes. Ele afirmou que o reformou e ainda estava impecável. Parece estranho que um bilionário reformasse roupas velhas, mas acredito que era para dar exemplo aos seus funcionários sobre a simplicidade e economia e despistar pedidos de aumentos.
Nesses dias li uma reportagem em que muitos jovens estão abraçando as profissões que foram de seus avós ou bisavós, como açougueiros, merceeiros, cabelereiros e os próprios alfaiates. Não sei se é por causa da crise econômica ou por nostalgia dos tempos em que uma boa profissão era aquela em que as pessoas se sentiam felizes realizando um trabalho e não aquelas novas que dão mais status como médico, advogado, engenheiro, administrador etc. Oxalá os alfaiates retornem para confeccionar roupas sob medida, com caimento impecável e qualidade a toda prova. Bom quem sabe poderei mandar fazer meu derradeiro terno (com três peças) e usá-lo na última viagem.
Quanto ao alfaiate Genivaldo, soube que tentou dar uma tacada de mestre, mas foi mal sucedido. Comprou um grande lote de tecidos por um preço generoso, mas um incêndio devorou o seu estabelecimento e o levou à falência.  A bela mulher do Genivaldo, diante da tragédia o trocou pelo dono da padaria em frente, que diziam as más línguas já era um caso antigo.  E o pobre Genivaldo precisou vender tudo o que tinha para pagar as dívidas e foi trabalhar de empregado em uma alfaiataria, outrora concorrente. Soube por outros que já não era o mesmo profissional, pois trabalhava de cabeça baixa e escondia sua simpatia para usá-la em dias melhores.
A história do Genivaldo terminou enquanto fazia um extra para terminar um terno num final de ano, justamente para o dono da padaria. Um disparo que foi ouvido numa noite chuvosa de dezembro tirou a vida de um outrora próspero alfaiate. O seu patrão lamentou que a roupa encomendada ficara estragada com o sangue e amargou um bom prejuízo, mas não dedicou uma só palavra ao pobre Genivaldo. Com a tragédia os fregueses desapareceram e a alfaiataria acabou fechando, deixando de entregar vários ternos pagos antecipadamente.



CHAPÉUS RAMENZONI, UMA QUESTÃO DE CLASSE
Descrição: Resultado de imagem para chapeus ramenzoni
São Paulo até o início dos anos sessenta ainda era elegante. Nenhum homem de bem saia de casa sem um terno de casimira, gravata e um bom chapéu cobrindo a cabeça. Os chapéus eram um caso a parte, pois se tinha lá para todos os gostos e bolsos. Um Ramenzoni, confeccionado com lã de ovelha era o fino da elegância.  Lembro-me que ainda de calças curtas pedi um ao meu pai que respondeu que ainda não era tempo. Quem sabe um dia, quando me tornasse um homem de verdade poderia ter um ou até herdaria o seu Ramenzoni marrom,  aba estreita que ele cuidava com especial zelo. Para ele um menino de dez anos era apenas um projeto de homem.
Ao chegar em casa ele tirava o chapéu, escovava-o e o repunha na sua caixa ovalada, colocando-o no guarda-roupa. Era um chapéu de passeio. No dia a dia usava outro mais simples e surrado.  Ai de quem tocasse nele! Mas como toda criança levada, fazia ouvidos de mercador e, na sua ausência, me admirava diante do espelho prevendo o dia em que teria o meu e poderia encantar as moças elegantes na Rua Direita.
A fábrica de chapéus Ramenzoni era lendária em São Paulo. Foi fundada pelo italiano Dante Ramenzoni em 1894. Ele trouxe de Parma, sua cidade natal, as técnicas de produção de chapéus e aqui recomeçou a fabricá-los aproveitando a oportunidade de um país que crescia muito rapidamente. Nos anos 1950 a fábrica chegou a produzir 6000 chapéus por dia e ainda havia outros fabricantes como Cury e Prada, também conceituados. Mais de 1800 empregados sustentavam suas famílias fabricando chapéus e fazendo a fortuna do velho italiano e seus descendentes. A indústria chapeleira era tão importante que nos anos 1917 tivemos a primeira grande greve paulistana, chamada de Greve dos chapeleiros. As condições de trabalho eram muito difíceis e os direitos eram poucos ou inexistentes.
Mas os chapéus caíram de moda. Mudanças culturais aqui e no mundo, aposentaram as belas coberturas de cabeleiras ou de reluzentes carecas.  As moças já não se incomodavam  com rapazes elegantes tirando parcialmente os chapéus para cumprimenta-las. Passaram a apreciar as cabeleiras bem penteadas ou em desalinho e somente alguns carecas ainda insistiam em usá-los para disfarçar a calvice. Os filmes americanos já não mostravam homens de chapéu e galãs como James Dean dirigindo seu Porsche com os cabelos ao vento encantavam mais as garotas do que circunspectos homens de terno e chapéu.
Outra mudança foi no clima e a velha garoa que caia em São Paulo quase todo final de tarde, inspirando poetas e seresteiros, desapareceu com o desmatamento e expansão urbana.  “Eh São Paulo! São Paulo da Garoa, São Paulo terra boa!”. Sem garoa e sem astros de Hollywood usando chapéus, a Ramenzoni fechou suas portas em 1972. A marca ainda existe, mas quem fabrica é a Cury, que adquiriu os direitos de usar o nome.  “Não é a mesma coisa”, diria meu pai, um fã ardoroso da marca que ainda usava o seu cobrindo a calva, mesmo sendo considerado um hábito démodé.
E de fato herdei o seu Ramenzoni, mas precisei disputa-lo com uma sobrinha, que por ser a neta mais velha e com sobrenome italiano, arvorou-se de direitos. Por fim ela concordou que deveria ficar comigo o chapéu símbolo de uma São Paulo que não existe mais, pois ainda poderia usá-lo nas raras tardes em que a garoa despenca dos céus como um choro triste e cheio de saudades: “Eh São Paulo! São Paulo da garoa, São Paulo terra boa”.



FOTOGRAFIAS

Fotografar hoje em dia é brincadeira. Qualquer celular é capaz de fazer bons registros de pessoas, viagens, encontros, desencontros e inúteis paisagens. Antes da popularização das câmeras fotográficas, fazer retratos era coisa para profissionais e as famílias faziam os seus registros em estúdios, com fundo decorado e iluminação apuradíssima. Mas havia também os velhos lambe-lambes que percorriam ruas e praças para registrar imagens.
O que será da fotografia? Com as câmeras digitais e celulares fazemos centenas ou milhares de fotografias, mas quase ninguém as revela em papel. Com o tempo poderão até desaparecer. Quem poderá garantir que daqui a cem anos poderemos acessar fotos que ficaram guardadas em câmeras digitais, computadores que ficaram obsoletos? É uma incógnita. A tecnologia coloca hoje os registros feitos em celulares em “nuvem”, mas se ocorrer um ataque de hackers que apague tudo? A história das imagens poderá ser perdida para sempre.
De tempos em tempos minha mãe pegava toda a tropa bem arrumadinha e lá íamos fazer um retrato no japonês que ficava na Rua Manoel Coelho, perto da estação. Mandava fazer várias cópias e as enviava para os parentes do interior com as dedicatórias nos versos. “Aceite esse retrato como prova do nosso afeto e amizade”.  Mas também se recebia retratos, com as mesmas dedicatórias. Outro dia expiando um velho álbum de família encontrei figuras desconhecidas que ninguém mais sabia quem eram. Só minha mãe, se viva estivesse, seria capaz de decifrar. Num dos retratos aparecia um bigodudo com cara de árabe. Era o Mané Turco, que de turco não tinha nada. Era o sírio Mamede Abdul, um velho amigo da família que ganhava a vida como mascate na região Noroeste de São Paulo. Tinha também um japonês, amigo inseparável do meu pai na juventude, Ishiso Mishikawa, que teve a paciência de ensinar um pouco do idioma do Sol Nascente para o meu velho, desde que ele lhe ensinasse português.
Meu sonho era ser fotógrafo. Achava o máximo ser profissional da fotografia. Mas era preciso, primeiramente ter um câmera fotográfica, o que realizei com o salário do meu primeiro emprego. Era uma Olympus Trip com a qual gastava os tubos para comprar filmes e revelá-los. Era só alegria. E muita emoção em tirar fotografias e depois curtir a ansiedade para ver o resultado. Levava uma semana até a retirada do pacote para a alegria ou tristeza, dependendo da qualidade das imagens.
Um jornalista e fotógrafo, Carlos Clementino Lacerda, ao ver as minhas primeiras fotografias fez uma análise crítica, mostrando onde eu havia acertado e onde errei feio. Tinha mais erros do que acertos. Mas ensinou-me elementos básicos de enquadramento, foco, luz, fundo etc. Por fim desisti de ser fotógrafo, pelo menos profissionalmente. Mas dois amigos, Edélcio Thenório e Sonia Nabarrete resolveram viver de fotografias e montaram um estúdio em São Caetano, o Inay.  Ele estudante de Letras e ela de jornalismo. Cada um com sua câmera registravam casamentos, festas, batizados e outras milongas até que num casamento de uma família burguesa, as duas câmeras falharam, não saindo uma só foto para o registro do evento. Uma tragédia.
Como dizer para os nubentes que não tinha nenhuma foto? O negócio foi inventar uma história bem trágica para sensibilizar os noivos e familiares. Um assalto à mão armada que naqueles tempos ainda assustavam. Explicaram aos clientes que os meliantes levaram tudo, câmeras, flashes, tripés, carteiras, casacos etc. Foi uma tristeza para os dois lados. Não sei como a história foi resolvida, mas imagino que os noivos, padrinhos e familiares voltaram à igreja só para as fotografias retroativas. Essa história era contada aos cochichos entre os amigos mais próximos, pois se a verdade chegasse aos noivos poderia gerar até um processo por danos morais. Hoje, depois de tanto tempo, se souberem, provavelmente mostrariam largos sorrisos com a história, caso ainda lhes tenham sobrado os dentes.
A experiência que teria sido cômica se não tivesse sido trágica, desanimou os dois com a atividade empreendedora.  Thenório virou bancário e a Sônia Nabarrete continuou fotografando, mas para ilustrar as suas reportagens como jornalista de um jornal local.
Aliás, é bom registrar que foi o Edélcio Thenório que me orientou na aquisição da minha primeira câmera reflex, Asahi Pentax, que estreei quando nasceu minha única filha.  Coloquei o filme colorido de 36 poses e preparei o coração para as grandes emoções - o nascimento e as fotografias.  Cliquei mãe e filha desde as primeiras horas, a saída do hospital, a chegada em casa, a primeira mamada etc. Mas ao abrir a câmera descobri tardiamente que o filme havia escapado. Depois de um mês, nenhuma foto da filha. Hoje penso que a minha tragédia foi pior do que a do casamento burguês, que de uma forma ou outra acabou sendo resolvida.

De todo modo a fotografia tradicional ou digital ainda é uma arte, pois o olhar da câmera é o olhar do artista. Ele ou ela podem ver coisas que as pessoas comuns não veem. Dizem que o diabo está nos detalhes de tudo, mas em fotografia é o olhar de artista que está lá.
O DESAPARECIMENTO DE SULAMITA SCAQUETTI PINTO


E já se foram sete anos que a Sulamita Scaquetti Pinto desapareceu. Não se sabe se ela estava triste, se estava alegre ou simplesmente estava sensível como diria Cecilia Meirelles.  Ia buscar o filho na escola e foi levada por outros caminhos até hoje desconhecidos. Ninguém sabe se perdeu o rumo, a memória, razão ou a vida. Simplesmente, a moça bonita, de belos olhos azuis nunca mais foi vista.
Os pais, os amigos e os parentes saíram pelas ruas perguntando a quem passava, mostrando a fotografia, mas ninguém viu. Alguns diziam que viram, mas não viram ou apenas acharam que era ela, mas não era. Participamos dessas desventuras quando tiveram notícias de que uma moça com a descrição da Sula havia aparecido num bairro distante. Era triste ver os pais desesperados por uma notícia da filha, com uma fotografia na mão, lembrando da tatuagem nas costas, dos cabelos loiros, dos olhos azuis, mas como de outras vezes, voltaram de mãos vazias e um grande nada na alma.
Uma criança de cinco anos de repente ficou sem a mãe para levá-lo à noite para a cama e lhe contar histórias de ninar. Hoje já quase um adolescente, tem vaga imagem da mãe, que aos poucos vai desaparecendo como uma miragem. Às vezes ainda chora ou fica triste quando as mães dos seus amiguinhos aparecem para as festas na escola.
Moacir, o pai, desde moço saiu em busca de aventuras e quis conhecer o Brasil profundo dos grotões mais distantes. Largou um bom emprego e decidiu pegar sozinho a estrada em direção aos sertões, mas a namorada Elvira depois de muita relutância resolveu acompanhá-lo e foram passar um ano sabático nos sertões, bem para lá das veredas do Guimarães Rosa.
Eles voltaram, arranjaram novos empregos e casaram de papel passado, uma concessão aos pais da Elvira, católicos tradicionalistas, que não se conformaram com a filha vivendo com o namorado sem estar casada. E lá fui eu com a minha companheira como testemunhas para a oficialização do matrimonio.  Depois disso, novas aventuras e desta vez foram para o Ceará, onde ficaram alguns anos e onde nasceu a Sula.
Escreviam sempre e numa das cartas a Elvira, entre lembranças e esperanças, comunicou a gravidez, e que já havia decidido que a filha nasceria cearense, filha de paulistas, fazendo o roteiro inverso das sagas dos migrantes. O nome era de uma colega de universidade, filha de fazendeiros do Cariri, com quem fizeram uma profunda amizade.
Mas chegou o tempo de voltar e pegaram a estrada de para São Paulo e o Moacir se engajou na política e entre outros livros escreveu “Histórias no Brasil que elegeu Lula”, crônicas operárias e de uma família tipicamente brasileira, que veio do interior para ganhar a vida na indústria e de um jovem aprendiz do SENAI às voltas com as mudanças sociais e econômicas do ABC.  Resolveu fazer Ciências Sociais para entender melhor seu país, mas talvez tenha saído mais confuso do que entrou. Leu muito, discutiu muito, mas o curso não preencheu a imensa lacuna que trazia na alma.
Mas o amor do casal acabou ou ficou muito morno para mentes tão inquietas e cada um foi para seu lado, mas sempre ligados pelas duas filhas, Sula e Rosinha. Sula foi fazer odontologia, mas desistiu no meio do curso. Não era bem o que gostaria de fazer de sua vida.  Deu aulas de inglês, casou, descasou e depois foi ser esteticista, mudando radicalmente seu rumo. E assim, a menina que conheci ainda bebê, foi para São Bernardo, berço da família, onde despareceu sem deixar sinal num dia triste, frio e melancólico.
Depois de seis anos os pais, os parentes, o filho e os amigos ainda esperam que um dia ela apareça na porta dizendo: “Demorei um pouco, não?”. Tal como o desaparecimento de Luiza Porto cantada em versos pelo poeta Drummond, “Mas há de voltar, espontânea ou trazida por mão benigna, o olhar desviado e terno, canção”.


A PASSARINHA CHEGOU COM A PRIMAVERA

Ao meio dia do início da Primavera uma amiga, dessas que riem de modo a ouvir-se de longe,  teve uma agradável surpresa: uma passarinha, dessas coloridas e desavisadas, cansada de voar para lá e para cá, entrou pela janela de sua sala, mesmo sem ser convidada e viu no vaso de uma pequena “árvore da felicidade”, a possibilidade de por os seus ovos e procriar. Lá fez o seu ninho sorrateiramente e se estabeleceu. Ficou aí provado que não são apenas os seres humanos que invadem terrenos desocupados para criar um lar, também, os passarinhos voam a procura de um teto e às vezes o encontram em locais menos prováveis.  Talvez já esteja se formando um movimento dos pássaros sem teto, o MPST. Com tantos movimentos por aí, mais um não vai atrapalhar e eu já me candidato a sócio colaborador.
Os passarinhos sofrem muito com o desmatamento, pois as árvores estão se tornando cada vez mais raras em nosso meio ambiente. Além de raros, os ipês, oitis, cinamomos, quaresmeiras, manacás entre outros também sofrem com a poluição sonora e química com a combustão dos veículos que despejam sua fumaça sobre elas. O bicho homem está acabando com tudo deve ter pensado o bichinho de asas e mesmo receosa escolheu o lugar bem ao lado de uma estante de livros.  Lá estava o livro de poesias do Drummond e entre tantos versos um que diz: Era uma vez um czar naturalista que caçava homens/ mas quando lhe disseram que se caçam borboletas e passarinhos/ Achou uma barbaridade.
Feliz da vida a minha amiga e sua família mudaram os hábitos. Nada de ligar a televisão muito alto, nada de falar alto, arrastar móveis, usar aspirador de pó e outras tranqueiras domésticas. A passarinha precisava de paz e de tranquilidade para que seus rebentos pudessem se desenvolver e voar para o mundo. Comida e aconchego não faltaram para a bichinha que se sentiu a vontade naquele lar cheio de amor e carinho.
Ainda extasiada com a novidade, tratou logo de postar uma fotografia na rede social e participar para o mundo que uma passarinha, espontaneamente, escolheu seu apartamento como seu novo lar.  Até hoje, quase um mês depois ainda não se sabe ao certo o nome oficial do bichinho e por via das dúvidas ela a batizou de Primavera.
O encantamento da natureza com flores, pássaros e borboletas coloridos dá mesmo a sensação de que nem tudo está perdido apesar da poluição sonora e do ar. Assim, espero que esse início de Primavera perdure pela vida inteira de minha amiga.








MARIANA, A PRIMEIRA CAPITAL MINEIRA E SEUS FANTASMAS


Há quem diga que Mariana, pequena cidade colonial distante doze quilômetros de Ouro Preto é mais bela do que a antiga Vila Rica, aquela cantada em prosa e verso pelos poetas da Inconfidência. Foi acreditando nisso que nos hospedamos por lá em 1997. Um belo e bem localizado hotel ao lado igreja matriz pareceu ser uma boa pedida para conhecer o local, visitar museus e igrejas. Mas Mariana foi, em verdade, a primeira cidade mineira e, também, sua primeira capital florescendo no ciclo do ouro e chegou a pertencer a Capitania de Itanhaém, tendo sido, portanto, uma extensão do território paulista. O seu nome foi uma homenagem do Rei Dom João V a sua mulher, Maria Ana, duquesa da Áustria.
Estaria tudo maravilhoso se a praça da matriz não fosse o local escolhido pelos carnavalescos de Mariana para os ensaios que se estendiam pela madrugada. Era impossível dormir. O esperado sono só chegava mesmo quando os últimos foliões deixavam a praça. Mas como estávamos em férias, seguimos o velho adágio: “Se é inevitável, relaxe e aproveite”.
Se não fosse pelas ladeiras íngremes, Mariana seria o melhor lugar do mundo para passar alguns dias visitando museus e igrejas, mas no final do dia as pernas doem, obrigando os turistas a se sentarem em qualquer lugar, podendo ser uma escadaria ou mesmo nas calçadas que talvez tenham sido pisadas pelos inconfidentes no final do século XVIII. No primeiro dia fomos ao ponto mais alto da vila e conhecemos a velha igreja Santo Pedro dos Clérigos e fomos guiados com muita competência por um menino de uns dez anos chamado John Lennon da Silva. Que luxo ser guiados pelo John, um menino simpático e falante que sabia tudo sobre a igreja, construída no século XVII, dissertando sem parar sobre o altar de madeira  de lei esculpido pelo Aleijadinho, preservadíssimo, mas não sabia quase nada sobre o famoso Beatle. Mostrou-nos o caminho secreto das torres e improváveis segredos. Fizemos uma foto do John que prometemos enviar-lhe uma cópia e lhe contamos outras tantas histórias sobre o autor de Imagine. Infelizmente a carta se perdeu pelos becos de Mariana e retornou para nosso endereço.
Os velhos sobrados coloniais de Mariana parecem esperar lentamente o amanhecer, aconchegados nos ombros da noite, lançam olhares sonolentos para os turistas apressados e vadios.  Na madrugada, almas escravas arrastavam-se pelos becos escuros a procura da redenção que parecia nunca chegar. À luz do dia, artistas postavam-se nas calçadas com seus cavaletes, tintas e pinceis e roubavam sorrateiramente a beleza de Mariana transpondo-as para intermináveis telas. Um velho mendigo me confidenciou que nas noites de lua cheia hordas de bandeirantes paulistas cavavam buracos nas ruas, casas e sítios a procura do ouro escondido enquanto El Rey cavalgava com seu séquito protegendo seu quinto. Ele tinha mais histórias para contar, mas a noite em Mariana era pequena e mal dava para acomodar meu sono.
Conhecemos o artista plástico Álvaro que esculpia anjos, santos e portas belíssimas, mas gastava quase todo seu ganho comprando uísque. Quase todos os dias passávamos pelo seu atelier para um dedo de prosa antes de nossas andanças. Numa noite ele nos apresentou o seu velho piano e implorou para que a Celia tocasse alguma coisa de Chopin, seu compositor preferido, mas estava tão desafinado que era impossível tirar algum som decente.  Contou-nos que o piano foi dado como pagamento por uma bela porta de cedro esculpida para um hotel e o dono, quase falido, não tinha como pagar.
Na terra do poeta Alphonsus Guimaraens, autor de Ismália, é uma descortesia visitar a cidade e não dar uma passadinha por onde ele morou. Seu fantasma está sempre por lá e quem me garantiu foi um senhor que cuida do local, “mas não adianta marcar hora que ele parece detestar visitas programadas”. Não levo os fantasmas muito a sério, mas sei que eles existem e como diria um velho conhecedor do assunto que nasceu em Descalvado: “Na minha terra
fantasma tem de bando”.
Entre Mariana e Ouro Preto ainda existem muitas e muitas histórias mal contadas que ficaram pelo caminho entre as duas cidades e que ainda precisam ser esclarecidas, mas esse é um assunto para outra crônica.








UM FUTURO JORNALISTA

Estava com quatorze ou quinze anos quando decidi que seria jornalista. Por quê? Achava o máximo sentar diante de uma máquina de escrever (das antigas), fumando Mistura Fina (o cigarro do meu pai) e prevendo o futuro político do país numa redação repleta de grandes cabeças pensantes.
Com esse futuro planejado fundei com o Tomás Padovani, um ex-seminarista, colega de classe, o meu primeiro jornal, que em verdade era um mensário, pois jornais devem ser publicados todos os dias (giorno). O nome era H.Zetinha e foi sugerido pelo Tomás. Publicamos poesias, curiosidades e entrevistas com professores. A primeira entrevista foi com a professora de português, Da. Takiko, uma nissei tímida e reservada e foi difícil tirar alguma coisa dela. Confesso que fui agressivo por ela não responder a maioria das questões propostas, mas depois me arrependi e pedi desculpas. O outro entrevistado foi o professor de História, Josué Augusto da Silva Leite que falou sobre tudo, menos sobre o que gostaríamos de saber. O H.Zetinha durou apenas três longos meses, pois a direção do colégio achou melhor acabar com a brincadeira, pois ficou com medo da ditadura. Onde já se viu estudantes ginasianos publicando jornal?
A outra experiência foi no segundo grau, mas em outro colégio. Desta vez assumi sozinho a empreitada e, felizmente, a saudosa diretora Da. Lucia Jorge Abdalla era uma mulher de visão, aberta a qualquer tipo de discussão com os alunos. Por via das dúvidas ela encarregou a professora de língua e literatura portuguesa, Hamide Assain José como responsável (leia-se censora). Mas a Hamide não estava nem aí e deixava rolar. Quando alguém comentava alguma coisa ela dizia: “Eu sou educadora e não censora”.  O Praxe era uma revista de variedades, com entrevistas com professores, alunos, piadas, poesias, artigos de fundo etc. Teve vida longa, uns dois anos e era impresso no mimeografo da própria escola, com distribuição para todos alunos.
O Praxe era lido religiosamente pelo jornalista Carlos Clementino Lacerda, namorado da professora Hamide. Ele sempre elogiava o jornal e acreditava que eu tinha talento (às vezes mesmo pessoas sérias se enganam) e me aconselhou a não ser jornalista, pois o ambiente era muito pesado para um jovem. Havia muita competição, intrigas, fofocas e as pessoas bebiam muito e rolava muita droga.
O resultado foi que abandonei a “promissora” carreira e fui fazer Letras, pois sempre tive muito interesse por literatura, mas logo abandonei o curso e fui para as Ciências Sociais.  Foi na faculdade que me envolvi com o primeiro jornal no ensino do terceiro grau. Saiu apenas um número e cheguei a ser ameaçado por um segurança por causa de um artigo irônico que escrevi sobre a repressão na escola. A ilustração da matéria ficou por conta do Pedro Luiz Montini, meu colega de colégio que tinha um excelente traço, mas virou Meteorologista.  Depois, já como presidente do diretório acadêmico, fizemos outro jornal, “Coesão”. As atividades do diretório me ocupavam muito e quem tocava o jornal era mesmo o Edélcio Thenório, um desenhista de primeira que fazia as ilustrações e a diagramação. O Zeca cuidava especialmente de entrevistas com compositores populares, como Adoniram Barbosa, Luiz Vieira entre outros. E tinha ainda o Milton Eto, que fazia a revisão e escrevia sobre cinema.  Eu escrevia o editorial e um ou outro artigo. O jornal foi publicado durante toda a nossa gestão e considerando aqueles tempos sombrios, até que durou muito. Já calejado pelas aventuras políticas, evitava temas muito polêmicos. A saída era publicar artigos e entrevistas sobre cinema, música popular, literatura etc., passando longe das questões políticas.
Enfim, contei um pouco da história de um menino que amava os Beatles, Rolling Stones, Noel Rosa, Tom Jobim, Milton Nascimento entre outros e que queria ser jornalista. Mas a vida o levou para outros caminhos e hoje ele é apenas um professor universitário, mas ainda tem pesadelos numa sala de redação com problemas de censura e fechamento da última edição.


PARIS: UM LUGAR PARA SE DESPEDIR QUANDO O MUNDO ACABAR



Paris deve ser mesmo uma cidade magica. Parece que o mundo todo um dia vai se encontrar em Paris. E se um dia se souber com antecedência que o mundo vai se acabar por um choque de um meteoro gigante contra a Terra, vai ser um congestionamento monstro no Aeroporto de Orly, pois todos que puderem vão se despedir da vida terrena e para a última taça de vinho, para uma última visita ao Museu do Louvre, ao Palácio de Versalhes, a Torre Eiffel, ao Museu D’orsey ou a Igreja de Notre Dame para os católicos mais fieis. Roma, Londres, Madrid, podem ser cidades interessantes, mas nenhuma se assemelha a velha Lutécia pelo seu charme, pela poesia, pela arte, enfim, pela sua magia. Mas para ser sincero penso que o filme Melancolia retrata melhor uma possível hecatombe com um planeta se aproximando lentamente da Terra. O planeta tem o nome de Melancolia, bem a propósito.
Mas como escreveu Betty Milan: “Paris não acaba nunca”. Se visitá-la uma centena de vezes, sempre vai ficar um lugarzinho que não foi visto e um motivo a mais para lá retornar.
O Museu do Louvre é uma das coisas que não acaba nunca, pois é impossível ver todas as obras com alguma atenção em uma semana, em um mês. O problema é que a cidade atrai tanta gente, de tantos lugares do mundo, que tudo se transforma em um congestionamento de gente atrapalhando a concentração. Versalhes, então é outro problema maior ainda, pois o palácio é tão gigantesco que é preciso preparação de atleta para fazer todo o circuito.
Numa visita a Paris passamos em frente ao Hotel Saint-Michel, onde o escritor Jorge Amado e sua companheira Zélia Gattai lá se hospedaram durante uns dois anos no final dos anos quarenta quando precisou sair do Brasil por motivos políticos. O hotel mudou muito. Reformado, com banheiros nos apartamentos, coisa que não havia naquele tempo, pois os hóspedes precisavam utilizar um banheiro coletivo. Lá o casal brasileiro improvisava uma cozinha, onde preparavam a tradicional feijoada para os amigos brasileiros como Carlos Scliar, Mário Schemberg entre outros. Mas a fachada continua a mesma que a Zélia descreveu em suas memórias. Já habituado ao local e à cidade, o casal foi expulso do país por causa da Guerra Fria, pois sendo Jorge Amado comunista de carteirinha, era uma ameaça para as relações da França com os EUA. Por tudo isso se pode dizer que a política é o ridículo da vida.
Uma visita que impressiona são as Catacumbas. Centenas de milhares de ossadas e crânios empilhados oferecendo um espetáculo dantesco aos visitantes. Lá estão nas mesmas posições nobres, plebeus, artistas, poetas, políticos igualados pelo mesmo final da vida. Os crânios descarnados parecem sorrir lembrando que um dia seremos também mais um. Um velho cemitério ficou exaurido depois de séculos de sepultamentos sobrepostos. Segundo a história, o odor do chorume era tão forte que estragava a comida e vinhos nas proximidades. Depois de do último desmoronamento as autoridades decidiram levar todas as ossadas para uma velha e desativada mina de carvão, onde foram depositadas, transformando-se em um ponto turístico no século XX.
Os velhos cafés, tais como nos anos vinte do século passado onde artistas da chamada geração perdida como Fitzgerald, Hemingway e Cole Porter, frequentavam para conversar, tocar e escrever tem o mesmo cheiro de fumaça, o mesmo aroma de bebidas alcoólicas e de boemia pairando no ar. O som de jazz parece ainda estar presente entre o burburinho das mesas com Cole Porter brincando ao piano.
E assim, a despedida da vida humana da Terra poderá ser com muito vinho, jazz e poesia. Das calçadas dos cafés os parisienses e visitantes poderão apreciar a queda da Torre Eiffel, do Arco do Triunfo, do Louvre, da Catedral Notre Dame entre outros monumentos ouvindo os acordes improvisados de um pianista solitário tocando “As time Goes by” enquanto um jovem romântico dirá para seu par: “Não chore, ainda temos Paris na eternidade”.



OS JAPONESES
O extremo oeste de São Paulo foi a última área de expansão agrícola do Estado. No final dos anos vinte do século passado os índios e posseiros foram expulsos para darem lugar aos imensos cafezais, que mesmo com a crise de 1929, ainda representava a possibilidade de riqueza para os imigrantes que lá se estabeleceram. Grandes hordas de japoneses, italianos, espanhóis, portugueses e migrantes de outras regiões do Brasil ocuparam a região como trabalhadores diaristas, meeiros, parceiros, pequenos e grandes proprietários.

O filme da cineasta Tizuko Yamasaki, Gaigin, retratou fielmente a vida de muitos colonos japoneses em São Paulo que foram explorados por fazendeiros inescrupulosos que se aproveitavam das dificuldades da língua e diferenças culturais do povo do Sol Nascente, instituindo uma semiescravidão. Mas esse problema não foi generalizado e esse povo trabalhador, obstinado e disciplinado se integrou bem em várias regiões, como a da Noroeste Paulista, progredindo e muitos se tornaram proprietários de terras, comerciantes e empreendedores.
Foi lá que meu pai, com vinte anos e solteiro, conheceu Ishiso Matsuo, com quem fez uma duradoura amizade, trabalhando juntos e também se divertindo. Ishiso falava muito mal o português e se apaixonou por uma moça brasileira de origem espanhola. Não havia como dialogar com a moça e o relacionamento não andava. A colônia japonesa em Valparaiso encheu a cidade e belas jovens circulavam por lá e meu pai acabou por se apaixonar por uma moça japonesa, a Mitico, mas também tinha dificuldades em estabelecer uma conversa. Daí surgiu um trato entre os dois. Meu pai ensinaria português para o Ishiso e ele o japonês para o meu pai. Como meu pai havia aprendido tocar sanfona como autodidata graças ao ouvido privilegiado, em pouco tempo já conseguia ter uma conversa trivial com a Mitico, passando a frequentar a casa da moça. Infelizmente Ishiso não conseguiu compreender quase nada do idioma de Camões e o seu namoro não foi em frente.
O namoro do meu pai foi em frente e o próspero pai da Mitico já havia amealhado um bom capital para comprar umas terras no Paraná. Como ele era um jovem forte,  trabalhador e muito esperto a família da jovem decidiu que eles se casariam e iriam para o Paraná para abrir uma fazenda.  Como o Japão fazia parte do eixo com a Alemanha e Itália, muitos japoneses ainda acreditavam que o Japão não havia perdido a guerra, realidade retratada no livro Corações sujos, os amigos do meu pai o alertaram sobre o perigo de se isolar no Paraná numa região dominada pela colônia. O medo falou mais alto e não houve casamento. A  desconsolada Mítico foi solteira para novas fronteiras e meu pai continuou sendo convidado para tocar nos bailes pelo interior adentro e ganhando a vida com serviços de carpintaria e caixões fúnebres, esses muitas vezes gratuitos, pois não cobrava de pessoas muito pobres.
Para minha sorte, ele conheceu a cunhada de um abastado fazendeiro, chamada Itanina, que alfabetizava colonos,  lia suas cartas e gostava de cantar e de declamar poesias.  Assim, Manoel se casou com a filha do Seu João, um culto farmacêutico autodidata, que fazia comprimidos fitoterápicos, tocava viola e sabia o que acontecia pelo mundo afora e da dona Theó, uma costureira, que tocava harmônica. Assim, ele se casou com a Ita, que não havia entrado na história e com isso eu nasci e acabei por escrever esta modesta crônica.


Fotografia: da esquerda para a direita Antonio, primo do meu pai, meu pai, seu irmão Francisco e  Ishiso. Combinaram de tirar uma fotografia, mas o Ishiso não encontrou uma gravata igual às dos demais. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Odebrecht: confissão dos erros

A Odebrecht está trabalhando ativamente para recuperar a sua imagem perante a sociedade brasileira e quem está à frente deste trabalho é Marcos Lessa, diretor de marketing, que esteve no Centro Universitário FEI para conversar com alunos e professores sobre esse programa.
A empresa está mesmo dando a cara para bater, assumindo a responsabilidade pelos erros cometidos no passado e prometendo uma nova vida, reassumindo os valores e padrões de comportamento preconizados pelo fundador, Norberto Odebrecht, em um manual de três volumes.
Infelizmente a condução agressiva dos seus executivos para o desenvolvimento de suas atividades, gerou posturas incompatíveis com os padrões básicos de responsabilidades corporativas no mundo dos negócios.  Em razão disso a organização acabou por ser cooptada por um sistema político ávido de poder e recursos, ameaçando a sua sobrevivência e gerou a destruição de mais de cem mil empregos.
A punição para os executivos que tomaram decisões errôneas é justa e deve servir como exemplo para que isso não se repita no futuro, mas a empresa, uma organização social construída há 70 anos que acumulou know-how, tecnologias, inovações e capital intelectual não pode continuar sendo punida indefinidamente.
O patrimônio de uma empresa não pertence unicamente aos seus acionistas, mas também à sociedade através dos seus diversos stakeholders.  As organizações tem uma função social relevante ao gerar produtos, serviços, impostos e, principalmente, empregos e por essa razão deveríamos ter um sistema de recuperação mais rápido para que elas possam retornar às suas atividades produtivas, recontratar funcionários e continuar cumprindo seus papéis sociais.
Tive oportunidade de trabalhar por um período de tempo num grupo em que a Odebrecht era acionista minoritária e que assumiu a gestão do grupo em razão de conflitos entre os controladores e o que presenciei na época (anos 1990) foi um sistema de gestão dinâmico e eficiente dentro dos princípios mais contemporâneos de administração, com visão estratégica dos negócios.
A tarefa do Marcos Lessa sem dúvida alguma será árdua, pois o estrago provocado pelas relações promíscuas entre os executivos da empresa e políticos corruptos criou raízes profundas na sociedade e demandará um bom tempo para que a empresa recupere sua imagem arranhada e recupere sua credibilidade junto à sociedade.
Mas os colaboradores da empresa, como frisou Lessa, ainda acreditam nela e estão dispostos a trabalhar intensamente para recuperar a imagem arranhada. Mesmo aqueles que tiveram de sair, deixaram as portas abertas para retornar.
A depuração das relações promíscuas entre empresas que prestavam serviços ao Estado pode ser um passo importante para se construir um sistema de relações mais transparente e ético. Difícil saber quem iniciou esse processo pernicioso, mas não há dúvidas de que o nosso sistema político, com campanhas eleitorais até então financiadas por organizações privadas que prestavam serviços às empresas públicas e de economia mista é o principal ator que gerou o maior escândalo político, social e econômico da sociedade brasileira.


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

SETE DE SETEMBRO, SE...

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No meu tempo de menino o Sete de Setembro era comemorado com hasteamento da bandeira, hino nacional e discurso da diretora do colégio ou de alguma outra autoridade. A mão direita no peito varonil e lá vinha “Elvira do Ipiranga, margens glácidas, de um povo heroico e brabo...”. Era assim que um menino que ficava do meu lado na fila cantava. Era preciso se segurar para não rir e levar um puxão de orelha.
A história da independência era uma coisa muito séria. Ninguém sabia coisas como o caso da amante de Dom Pedro, a Marquesa de Santos e que no caminho da volta de Santos, foi vítima de uma diarreia que obrigava a comitiva a parar de tempos em tempos para que ele pudesse se aliviar. Parece que a coisa foi brava. Há quem diga que foi uma peixada mal amanhecida. Dom Pedro I, como era ensinado, foi um grande herói que libertou o Brasil do domínio português, acabando com a exploração da metrópole. A viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro levava uma semana, com paradas para dormir. Mas cavaleiros treinados iam a galope à frente para levar a notícia à Corte e preparar a recepção. Dá para imaginar quanto tempo levou para as províncias do norte e nordeste receberem as notícias da independência.
Estava com uns catorze anos, quando li o interessante romance histórico do Paulo Setúbal, o pai do banqueiro e político que um amigo me emprestou. É a história romanceada do nosso primeiro imperador, sua paixão pela Maria Domitila, as encrencas com José Bonifácio, o seu envolvimento com a maçonaria e as más companhias como a do Francisco Gomes da Silva, que o guiava pelos prostíbulos do Rio. Mas o Chalaça, como era conhecido era um sujeito culto e poliglota e teria sido ele quem traduziu a constituição inglesa para D. Pedro elaborar a nossa primeira constituição liberal, que como se sabe não deu certo.
Dom João VI deixou o filho herdeiro por aqui com as melhores das intenções (obviamente para o filho), pois todos devem se lembrar da frase: “Antes que seja para ti do que para qualquer outro aventureiro”. Mas nem tudo ocorreu do jeito que queria o pai e as cortes lusitanas com mais poder depois da Revolução Francesa, que limitou o poder absolutista em quase toda a Europa queria o príncipe regente de volta a terrinha, pois estaria sendo mal influenciado por brasileiros e outros interesses não portugueses.
Proclamada a independência com um grito às margens do riacho Ipiranga, o príncipe chega à acanhada e provinciana São Paulo onde é aclamado pelas elites locais, incluindo a bela Maria Domitila de Castro Canto e Melo recém-separada do marido ciumento e violento. Azeitado pelo Chalaça na histórica noite de sete de setembro de 1822, o príncipe foi recompensado pelo seu ato heroico com o encontro com a bela paulistana para uma noitada de amor. Assim, alguns detalhes da independência eram proibidos para menores de 14 anos.
Sabe-se que havia muita gente envolvida com o movimento de independência, incluindo a maçonaria. A nobreza, os grandes proprietários de terras, comerciantes, mineradores e a pequena classe média ascendente trabalhavam para o fim dos vínculos com Portugal, pois quase toda a América do Sul, já estava livre da Espanha. Contudo, a independência foi fruto do conchavo entre vários interesses sem nenhuma participação popular. Não tivemos uma revolução de independência como a dos EUA e outros países.
E lá vem a pergunta que não quer calar: Por que o Brasil não proclamou uma república ao invés de passar primeiro pela monarquia? A resposta possível é que uma república não conseguiria manter o sistema escravocrata, como queriam as elites. A monarquia manteria a unidade do país em torno sistema escravocrata.  Os movimentos derrotados de independência no norte e nordeste tinham como plataforma o fim da escravidão, pois muitos escravos participaram desses movimentos. A Guerra dos Farrapos, um movimento separatista nos anos 1840, libertaria os escravos caso vencesse, pois muitos deles participaram na luta contra a coroa brasileira. Assim, somente uma monarquia costurada pela aristocracia manteria o sistema funcionando até o seu completo esgotamento como modelo de produção baseado no trabalho escravo.  Uma república naquele momento poderia ter dividido o país em várias repúblicas, tal como ocorreu com as colônias espanholas. Teria sido melhor ou pior? Nunca vamos saber, pois em História não existe SE.






quinta-feira, 31 de agosto de 2017


Marcia Gonçalves: uma luz que passou por aqui.

 

A querida Márcia partiu. Partiu cedo demais para alguém que tinha muita alegria e uma irradiante simpatia nos tempos em que desfrutava de uma vida saudável. A doença foi implacável com a nossa amiga. Mas ela foi feliz até o seu dia derradeiro, sempre amparada pelo seu jardineiro fiel, Carlinhos Kalunga, que cultivava flores no jardim da vida enquanto esperava por sua recuperação.

Convivemos pouco, mas foi o suficiente para selar uma grande amizade. A mudança para o Rio de Janeiro em razão dos compromissos profissionais do seu marido músico a afastou do convívio com muitos dos seus amigos, mas ela sempre continuou presente em nossas lembranças. A última vez que a vimos foi às vésperas de um ano novo, quando o casal se mudou para Santo André. Foi uma noite alegre, cheia de música e sempre, sempre, a sua simpatia aconchegante que fazia com que seus amigos fizessem parte da sua vida.

Recordo-me de algumas vezes em que o casal esteve em nossa casa, uma delas com o Sinésio e Ana Amélia. Foram tardes saborosas e inesquecíveis e sempre com muita música e histórias dos nossos tempos de juventude. Quantas aventuras! E teve o delicioso fim de semana prolongado que passamos em Butiá, terra dos Dozzi Tezza, que foi inesquecível. Quanto riso, oh quanta alegria... As brincadeiras, assustando uns aos outros com os imaginários fantasmas que rondavam a velha casa. Os almoços e jantares com todos sentados no terraço, pois a casa era muito, muito engraçada, apesar de ter teto e paredes, mas não tinha móveis e tampouco cadeiras. O Carlinhos tocando seu violão pela madrugada adentro. E a Marcinha participando de tudo, sempre feliz e sorridente.

A velha casa não existe mais e hoje, como diria o poeta Drummond, é apenas um quadro na parede, mas como dói. A dor é por conta da partida da Marcinha que vai doer eternamente entre todos os que tiveram a oportunidade de conhecê-la. Evoé Marcia! Você sempre estará presente em nossos pensamentos enquanto durar essa centelha de vida que insistimos por descuido ou poesia, mantê-la acesa.

E você querido amigo Carlinhos Kalunga contará sempre com o nosso carinho e amizade para que possa suportar a dor da perda. Aos poucos, depois de derramar todas as lágrimas (mas sempre restará um pouco), abra as janelas e olhe para o infinito, que é de onde os que partem saúdam os que ficaram. E quem sabe, talvez um dia desses, numa das primaveras que surpreendem a gente vadeando nesses tempos sombrios, alguém fará um belo poema que você transformará em música para co-memorarmos a querida e inesquecível Márcia.

DOCE MEL II

Ao escrever a crônica anterior sobre amigos apicultores e méis não me dei conta de que um dos endereçados de meus escritos, o Nhô Dédo Thenório, conhece muito mais do que eu poderia imaginar sobre as melipônias nativas. O nhô que tomei a liberdade de usar antes do seu nome tem uma razão linguística e cultural, pois em nosso meio caipira é utilizado como tratamento de pessoas que gozam de considerável respeito nas comunidades rurais e, via de regra, são portadores de singulares sabedorias.

Foi aí que ele me alertou que a jataí é, entre as abelhas nativas, uma das mais higiênicas, o que faz da afirmação do meu amigo apicultor, infelizmente já falecido, um palpite infeliz, como diria o poeta popular Noel Rosa. E para completar, citando consagrado pesquisador sobre o tema, explicou que a arapuá, sim, utiliza fezes de animais para ajudar na construção de suas colmeias. Como o Paulo era um naturalista autodidata e pesquisador por crença no conhecimento, com certeza ele se debruçaria sobre o tema com mais profundidade.

E na missiva que recebi do meu amigo Nhô Dédo, fiquei, a saber, que o velho e querido Constantino Dozzi Tezza, homem da terra, nascido em Butiá, distrito de Descalvado, era um amante das abelhas nativas, tendo cultivado um especial carinho pela jataí na fazenda da família. Com o Constantino, pessoa saudosa, com quem tive o especial prazer de saborear bons momentos de prosa, nunca tocou no assunto comigo, possivelmente por falta de tempo e, também, pela quase raridade dos nossos encontros.  E por herança seu filho Sinésio tem, também, a sua colmeia, que cultiva com especial carinho. E eis que o Nhô Dédo me confidenciou que tem a sua colmeia de jataí, presente do seu falecido sogro, que cultiva com especial carinho como uma relíquia familiar. Bom, pelo que se sabe, o Ibama não proíbe que se tenha uma colmeia no quintal, já que são as nossas nativas abelhas que escolhem os locais onde constroem sua fabriqueta de mel.

Outra informação que me deixou deveras constrangido, foi o desconhecimento da existência de uma canção que o Dédo fez sobre as nossas abelhas em parceria com os prezados amigos Sinésio e o Carlinhos Kalunga, violonista e compositor. Nessa canção o nobre Nhô Dédo esbanja seus conhecimentos sobre a vida natural e as abelhas nativas sem ferrão, emolduradas pelos acordes saborosos do mestre Carlinhos.

E com mais essa, faço justiça às jataís, abelhas mansas e carinhosas que se enrolavam nos cabelos de minha filha nos bons e saudosos anos de sua infância, resgatando o poder medicinal do seu mel, como também do seu papel no fortalecimento da nossa cultura que tem raízes nos povos nobres indígenas que aqui habitaram por milênios.

RICOS E POBRES

 

Nas novelas da Globo ricos e pobres frequentam os mesmos ambientes e o mesmo espaço público. As famílias de milionários convivem com famílias de pobretões sem eira nem beira. É a democracia global, afinal; mas somos todos iguais em tudo na vida e como disse o poeta João Cabral de Melo Neto, “morremos de morte igual, mesma morte Severina, que é a morte de que se morre, de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte e de fome um pouco por dia...”.  Mas em verdade os seres humanos só se igualam mesmo é na morte, pois todos apodrecem da mesma forma, devorados pelos vermes. O que muda mesmo é o velório, a qualidade do caixão e o custo do evento, depois o resto é silêncio. Mesmo assim algumas igrejas prometem, a quem pagar em vida, um bom terreno no céu, próximo de Jesus, eternizando a divisão social da sociedade.

Essa história me faz recordar de um filme do Wood Allen em que um judeu, condenado à morte por crimes hediondos se converte ao catolicismo. Ao ser questionado por um parente, ele se desculpa alegando que no cristianismo tem pelo menos a chance da vida eterna, enquanto para os judeus, essa possibilidade não existe.

 Mas durante a vida somos mesmo divididos em classes, castas e estamentos sociais, usufruindo dos recursos da natureza em função do poder político, econômico, religioso ou institucional.

Mas existem histórias pitorescas sobre as relações de classe que são até engraçadas, caso não fossem quase trágicas. Contou-me um velho amigo músico e cantor que foi convidado por nada menos do que o José Ricardo Machline, herdeiro milionário, para participar de um espetáculo por ele produzido envolvendo a cantora Claudia. Lá foi ele à residência do produtor artístico para acertar os detalhes do evento. Na saída Machline pediu a ele uma carona. Meu amigo com um carro velho e caindo aos pedaços ficou numa tremenda saia justa, mas não se fez de rogado: “Bom se você não se incomodar em viajar em carro velho, tudo bem”. Machline disse que não haveria problemas e lá foram eles para a viagem. O carro era bem pior do que deveria ter pensado o milionário. Além de sujo e amassado nos quatro lados, a porta do lado do motorista não abria e ele foi obrigado a entrar pela porta do motorista, com todas as dificuldades que sua barriguinha de chope gerava. Mas foram em frente por alguns quilômetros, quando surgiu o primeiro imprevisto: o carro morreu em plena avenida e o carona foi convidado a dar uma forcinha, empurrando o calhambeque para que pudesse dar a partida.

Superado mais esse problema, foram em frente até serem parados por uma batida policial. Mais um pequeno problema: a licença estava vencida e não houve como convencer o policial que os dois tinham um compromisso urgente e que não poderiam esperar, coisa e tal. Resultado: o Machline agradeceu a carona e pegou o primeiro taxi que encontrou, enquanto meu amigo ficou esperando o guarda preencher o auto de infração e apreensão do veículo.

Enfim, as relações entre classes sociais distante existem, mas apenas no plano profissional, com o cabelereiro, o mecânico, o garçom, a empregada doméstica etc. No mais é pura ficção.

 

ENFIM, UM FIM DE SEMANA
Na atual fase da vida, meus fins de semana  em geral são mornos, sem grandes emoções. Mas neste  último saímos da rotina. No sábado fomos para a Rua Augusta no lançamento do livro de contos Primeiramente e levamos a amiga jornalista e escritora Sonia Nabarrete. Foi um gostoso papo de São Bernardo até a metrópole. Lá encontramos vários amigos e companheiros da antologia de contos. Entre os amigos e novos amigos, encontramos a querida Elizabeth Pudles,  também jornalista que estava lá prestigiando o evento. Apesar do tempo e das nossas rugas, um rosto amigo é sempre o mesmo, com a vitalidade da juventude ainda fresca no olhar que não vai desaparecer enquanto a nossa memória conseguir manter o registro.
Lá estava também a querida Nádia Novaes, uma guerreira dos velhos tempos, sempre sorridente, entusiasmada e feliz, acreditando na amizade, na poesia e no futuro. O Paulo Lai Werneck, arquiteto, escritor e artista da madeira, a Manu com suas duas filhas a tiracolo, feliz com um sorriso que ouvia-se de longe (o sorriso pode ser ouvido também...). O Jorge Nagao que conheci lá e que fotografou a família com inigualável delicadeza. E outros tantos que não há espaço para citar.
No domingo tínhamos um convite imperdível para um almoço na casa dos nossos antigos amigos Guacira e Milton Eto. No cardápio estavam, também, Edson Silva e Drágica Mitrowich, sempre ótimas companhias. Edson ou Zeca, escritor, sambista e compositor e a Drágica, que faz a ponte entre a cultura alemã e sérvia com a brasileira, guiada pela gentileza do Zeca.
O delicioso almoço preparado pela Guacira, tinha salada com flores cultivadas pela Cintia, e peixe assado com molho da erva dil.  Guacira, nome indígena e  poético,  que dá nome a uma velha canção (Adeus Guacira) foi incorporado com orgulho pela Fuzae quando se casou.
Lá tivemos contato com o livro delicadíssimo da Cintia Eto, filha do casal. Um “abuso” de sensibilidade. O livro, particularmente inovador vai participar da mostra Nascente de arte da Universidade de São Paulo, onde ela, uma arquiteta e artista plástica, faz o curso de Letras.  Enquanto folheava o livro, cometi a indiscrição de ler um poema da Cintia, que aqui não transcrevo por não estar autorizado, mas é de uma delicadeza indescritível.  Aliás, registro que estranhei quando a Cintia resolveu fazer o curso de letras depois de cursar arquitetura, seguindo o caminho trilhado pelo pai, professor de língua e literatura portuguesa. Mas isso tinha uma razão de ser. Ela precisava incorporar a poesia à sua linguagem de artista plástica e nada como estudar os clássicos da língua para incorporá-los à sua arte.
A boa conversa foi longa e bom seria se não fosse para tão grandes amizades, tão curta a vida. Terminamos a visita  no final da noite com uma pizza e um expresso para não dormir no caminho. Mas antes conversamos sobre política (inevitável), mais literatura e, por sugestão da Cintia, sobre O Narrador de Walter Benjamim, sobre o qual ela nos contou alguns detalhes pouco conhecidos  do livro e do autor.  E termino essa crônica citando o autor: “... a narrativa não é apenas informação, mas imerge essa substância na vida do narrador para, em seguida, retirá-la dele próprio. Assim a narrativa revelará sempre a marca do narrador, assim como a mão do artista é percebida”.
 
 
 
 

MEL, DOCE MEL

Quem não gosta de mel? Se não gosta deve ser diabético ou não tem glândulas gustativas. Eu gosto de mel e adoro saborear os favos. Meu falecido amigo apicultor e poeta Paulo Duarte, além de me fornecer mel trazia também os favos cortados em pequenos cubos. Era supimpa. Depois de ter passado alguns meses nos porões da ditadura, onde foi barbaramente torturado, resolveu usar um sitio da família para se dedicar às abelhas. Ficava feliz em observar o trabalho dos bichinhos fabricando mel, própolis e cera, com sua rígida divisão do trabalho social. Confessou-me que chegava a sonhar com a sociedade humana organizada como as abelhas. Eu sempre repetia: muita organização é totalitarismo meu amigo. Ele ria e tentava me convencer do contrário.

Naqueles tempos em que frequentava nossa casa, surgiu do nada no jardim, uma colmeia de jatai. O Paulo tratou de estudar uma forma de domesticá-las, já que as abelhas nacionais são, em geral, pouco laboriosas e nada disciplinadas como as africanas e europeias. Ele construiu uma casinha estruturada de forma que fosse possível retirar o mel de jataí, que dizem ter propriedades medicinais.  Não deu certo. A colmeia ficou totalmente bagunçada, pois elas desconstruíram toda a engenharia que o Paulo elaborou para domesticá-las, fazendo entradas e saídas para todos os lados. Mas tempos depois o próprio Paulo me alertou que a jataí, apesar do delicioso mel, visitava fezes de animais o que tornava o mel um perigoso transmissor de doenças. Nunca consumimos o mel de Jataí, mas elas ficaram por um bom tempo em nosso quintal aproveitando as nossas flores e as da vizinhança até que sua inimiga natural, as formigas, as descobriram. O enxame partiu para outra freguesia ou foi totalmente devorado pelas também organizadas formigas.

O Paulo foi atropelado logo depois que saiu da prisão, ficando paraplégico. Sua energia e resiliência eram formidáveis. Circulava pela cidade e o sítio de carro com uma cadeira de rodas no porta-malas e se virava sozinho, sem precisar de ajuda nos seus deslocamentos.  No fim, com a mobilidade reduzida decidiu abandonar a apicultura se dedicando a outras atividades até a sua morte prematura.

Outro apicultor que conheci foi o Nelson Borghi, que tinha a alma caipira e uma criação de abelhas em um sítio em Camanducaia conseguindo uma boa produção, que ajudava no seu orçamento de aposentado. O Nelson tinha uma teoria estranha. Ele explicava que as abelhas nativas produzem pouco porque no Brasil temos floradas o ano todo e por esta razão não se dão ao trabalho de estocar mel e pólen, já que algumas plantas desabrocham suas flores em plena estação do frio. Ele usava isso para explicar que os brasileiros do interior são indolentes como as abelhas nacionais pela mesma razão. “Pra que trabaiá se tem cumida o ano inteiro?” E cantarolava a música de “Papo pro ar” do Joubert de Carvalho “Se tenho na feira, feijão, rapadura, pra que trabaiá?” E assim, as nativas produzem para o gasto e nada de acumular para o porvir.

Por outro lado as abelhas europeias que aqui se estabeleceram por conta dos jesuítas no século XVIII, sofreram um revés com a chegada das africanas, muito agressivas e com maior produtividade. Um pesquisador da USP trouxe algumas colmeias da África para pesquisa e por acidente escaparam algumas rainhas e se espalharam pelo Brasil afora. Depois de alguns ataques fatais elas foram se acalmando ao se miscigenarem com as europeias, reduzindo a agressividade. Com os desmatamentos e a destruição do nosso ecossistema, as abelhas nacionais como Arapuá, Jataí, tiúba, jandaíra, uruçu, iraí, mirim-preguiça, mandaçaia, mirim-guaçu entre outras, sobre cujos nomes o meu amigo Nhô Dedo Thenório de Piedade é capaz de dissertar horas a fio com a sua sabedoria sobre a natureza, estão perdendo a competição. Aliás, o velho Thenório fez uma providencial correção: É a Arapuá, abelha nativa sem ferrão, que usa as fezes para construir sua colmeia, corrigindo uma informação errônea do Paulo Duarte. De qualquer forma as abelhas nativas estão desparecendo e as mestiças estão se tornando hegemônicas em nossas paragens, adoçando os nossos lábios e corações.

 

 

ERETOS


Sonia Nabarrete, jornalista, fotógrafa, contista e poeta lançou recentemente a sua primeira novela. Um livro forte, utilizando uma linguagem sem censura, como é do seu jeito de ser. Ela se refere às coisas com os nomes que são utilizados nos guetos, nos bares, nas ruas, nos prostíbulos e na alcova.

Sua carreira de jornalista sempre foi pautada por reportagens arrojadas, como a que escreveu sobre os índios tupis no litoral norte nos anos 1970 e que teve alguma repercussão. Neste trabalho expôs de forma nua e crua a realidade desse grupo indígena explorado pela população local e turistas.

Nos últimos anos, depois de passar por um período como jornalista corporativa, editando órgãos internos de empresas, Sonia Nabarrete voltou a escrever poesias e contos, tendo alguns trabalhos premiados.

Sua primeira novela e espero que publique outras, porque talento e criatividade não lhe faltam, é arrojada e totalmente despojada do lirismo comedido. O sexo é tratado de forma nua e crua, bem ao estilo do grande escritor norte-americano Henry Miller, que chocou o mundo com Tropico de Câncer e outros.

Eretos é uma novela tipo policial, ao estilo de Agatha Christie em que vários personagens são unidos por um mesmo destino. Uma dona de casa, um juiz, um detetive, um policial militar, um militante político, uma cafetina, um casal de cuidadores, um médico, um empresário e um transexual, Cada um deles cometeu um crime, uns leves, outros mais pesados e entre eles um algoz maníaco que espera puni-los, segundo seus critérios de justiça. O enredo é bem dinâmico, fazendo com que o leitor se prenda na trama, esperando uma resposta para o enigma esclarecido no final.   Para início de conversa todos os personagens apostaram na Mega Sena acumulada e um deles levou sozinho a bolada.

Eretos. Editora @link, Sonia Nabarrete, 160 pg.