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quarta-feira, 11 de julho de 2018


O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO


Em 1932 o escritor Aldous Huxley publicou um livro polêmico, o Admirável Mundo Novo. Uma ficção que previa como seria o mundo em 632 DF. O DF seria depois de Ford, um novo Deus cultuado pela ciência e tecnologia. No mundo imaginado por Huxley a família estaria abolida e as pessoas seriam geradas em incubadoras. Os óvulos seriam divididos em tantas vezes que poderiam ser gerados milhares de gêmeos idênticos. Os indivíduos durante a incubação podiam se tornar Alfa, Beta, Gama e Delta, dependendo da quantidade de oxigênio injetada. Os indivíduos inferiores receberiam maior quantidade de álcool e teriam inteligência rudimentar, apenas suficiente para realizarem trabalhos repetitivos ou atuarem nas insalubres minas de carvão e outros serviços de alto risco.  Os livros seriam proibidos às “castas” inferiores, pois não seria apropriado que tivessem informação ou sensibilidade.
O sexo ainda seria praticado, mas como algo mecânico sem nenhum tipo de afetividade.  As relações afetivas seriam proibidas, pois poderiam contaminar a ordem estabelecida. Para administrar a ansiedade e a depressão, as pessoas receberiam constantemente doses de Soma, uma droga desenvolvida para acalmar as populações. Nos anos 632 DF, não haveria casamentos e o sexo seria livre, mas aquele que se envolvesse emocionalmente com o parceiro ou parceira seria sumariamente eliminado. Aos 45 anos todos morreriam.  Uma injeção letal seria aplicada e as crianças seriam convidadas para festejar com bolos, doces, bolas e música. Assim, a morte se tornaria algo alegre e feliz.
Mas um acontecimento ameaça o mundo governado por um governo central. Um selvagem que vivia isolado nas florestas da América Central encontra um livro de Shakespeare e aprende a ler e foge com uma garota nascida em uma incubadora.  A possibilidade de descoberta da verdade o torna um perigo para a sociedade. Huxley reproduz o mito do casal primordial em que um novo Adão e Eva redescobrem o amor pela obra shakespeariana.
O livro de Huxley traça uma perspectiva de futuro sombria, talvez até mais sombria do que outro livro publicado nos anos 1940 por George Orwel, “1984”, que projeta um mundo controlado também por um governo central em que as pessoas seriam vigiadas pelo Big Brother (Grande Irmão) em todos os momento de suas vidas. Seria uma analogia ao futuro que se desenhava na União Soviética por causa dos espiões do partido comunista, a KGB.
Ao terminar a leitura do Homo Deus de Yuval Harari, autor de outro best-seller, Sapiens, mais uma vez me defronto com um futuro sinistro. Mas esse livro não é um romance e suas previsões estão baseadas em possibilidades concretas, muito próximas da nossa realidade. Harari não prevê, mas mostra como o mundo está caminhando para uma sociedade onde Deuses serão algoritmos e as religiões seriam substituídas pelo controle dos dados. Teríamos assim uma nova crença, o Dataísmo. Já temos o carro autônomo que vai dispensar o ser humano como condutor. Softwares estão substituindo advogados na análise de contratos e processos com uma eficiência extremamente superior. Temos, há tempos, software que substituem engenheiros nos cálculos de estruturas de edifícios, sistemas que dispensam os pilotos de aviões. E já é uma quase realidade, os diagnósticos sobre a saúde humana realizados por computadores, além de cirurgias extremamente delicadas.
O que será do ser humano neste novo mundo em que sua capacidade de armazenar informações é bastante inferior as dos robôs? Talvez a arte fosse uma saída para manter os seres humanos ocupados, mas um programa desenvolvido por Cope conseguiu em um único dia, compor 1500 peças ao estilo de Bach. Algumas dessas peças foram apresentadas num festival e foram louvadas pela sensibilidade, mas muitos ficaram chocados ao saberem que se tratava de músicas compostas por um computador. Um compositor chamado Larson propôs a Cope que fossem apresentadas para um público seleto, três peças, uma de Bach, uma do EMI (Experiments in Musical Inteligence) e outra do próprio Larson. No final o público elegeu como uma autêntica música do Bach uma peça do EMI, a música do Bach foi eleita como música do Larson e a música do Larson como música composta pelo computador.
Essa experiência indica que até para coisas sensíveis o ser humano poderá ser descartado. Harari cita uma pesquisa de Oxford, que estima que 47% dos empregos nos EUA correm o risco serem substituídos por algoritmos de computadores nos próximos vinte anos.  Nem os garçons vão escapar, pois os clientes já estão fazendo seus pedidos diretamente em um computador em alguns restaurantes.  Kurzweil, um pesquisador sobre inteligência artificial projeta para daqui a 30 anos o desenvolvimento de computadores inteligentes, capazes de se auto programarem, ou seja, pensarem como seres humanos, mas com capacidade infinita de armazenar informações.
Harari termina o livro com três questões-chave: 1. Será que os organismos são apenas algoritmos, e a vida apenas processamento de dados? 2. O que é mais valioso – a inteligência ou a consciência? 3. O que vai acontecer à sociedade, aos políticos e à vida cotidiana quando algoritmos não conscientes, mas altamente inteligentes nos conhecerem melhor do que nós nos conhecemos?



NÓS E OS RUSSOS

O Garrincha, com o seu jeito simplório, respondeu ao técnico Vicente Feola da seleção brasileira de 1958 sobre as táticas que queria utilizar contra os times adversários: “Mas você já combinou com os russos?”. Essa frase tem servido para boas e bem humoradas respostas.  Ele se foi e sua frase ficou na história. Para ele os russos eram quase todos os estrangeiros, principalmente europeus, englobando suecos, suíços, ingleses etc.
Quando criança em São Caetano do Sul tínhamos vizinhos russos. Eram simpáticos e me lembro bem da dona Amélia que frequentava nossa casa. O casal era espírita e minha mãe, às vezes, frequentava as sessões de orações na casa deles, mais para agradar a amiga, pois era católica convicta.  O marido, seu Dimitri, contava histórias sobre a Rússia, principalmente do Stalin e seu regime de terror.  Sobre o comunismo, outra vizinha, dona Maria, uma Checa, casada com um homem negro, também tinha suas narrativas de como fugiram da invasão soviética no seu país. Eram sempre histórias tristes, com relatos de violência, fome, maus tratos e pessoas generosas que ajudavam os refugiados a escaparem. Havia também duas famílias de poloneses que toda vizinhança chamava de russos, seguindo a lógica do Garrincha, incluindo velho um judeu que jogava praga e pedras nos moleques quando invadiam o seu quintal para surrupiar amoras.
Os russos entraram no imaginário brasileiro depois da Revolução de Outubro de 1917, liderada por Lênin. Pela primeira vez na história as classes subalternas estariam no poder, pelo menos simbolicamente, pois quem estava mesmo no controle era uma classe média intelectualizada e revolucionária que assumiu o governo do país, seguindo alguns princípios do marxismo.  Mas Lênin não viveu muito tempo para ver a sua revolução progredir e o cruel e sanguinário Stálin assume o poder de forma totalitária reprimindo violentamente nos seus opositores, incluindo os revolucionários de primeira hora como Leon Trotsky. 
Entre as esquerdas brasileiras havia uma percepção de que sob o comando de Lênin as coisas teriam sido diferentes, mas a revisão histórica indica que não mudaria muito, mesmo ele sendo um intelectual e mais refinado do que o brutamonte Josef Stalin. Mas quando se toma o poder pela força a história mostra que é preciso governar de forma totalitária suprimindo liberdades e direitos e só assim se consolida o poder. Numa revolução, os desalojados sempre vão querer recuperar o poder. A troca de comando nunca se dá de forma civilizada, mas com troca de chumbo.
Fora isso, os russos também fizeram sucesso por aqui com a viagem da cachorrinha laika, que deu a volta na terra numa nave espacial. Ela não sobreviveu e não pode usufruir da fama que merecidamente ganhou por ter sido a primeira terráquea viajante espacial da história. Mas depois o russo Yuri Gagarin fez fama ao ver pela primeira vez na história da humanidade o nosso planeta do espaço. A sua frase: “A terra é azul” ficou eternizada. Ele viu ao vivo que o céu não existia. Só viu planetas, galáxias e estrelas no espaço cósmico. E imaginar que Galileu Galilei quase foi lançado à fogueira porque queria provar que a Terra não era o centro do universo.
A Rússia me faz também lembrar de um artigo que li nos anos 1970, em que o autor afirmava que na União Soviética havia uma forte oposição ao regime em razão do atraso em relação ao Ocidente, pelas perseguições políticas, repressão e censura. Entretanto, ele afirmava com segurança: “A URSS deverá passar por profundas mudanças, mas jamais retornará ao regime capitalista. A população que nasceu sob o socialismo jamais aceitará mudanças no sistema econômico”. Enganou-se o autor cujo nome não gravei.  A URSS se desintegrou, voltando a Rússia e os países que dela faziam parte ao capitalismo e da pior espécie, quase selvagem e corrompido. Hoje a Rússia, maior país do mundo em território, é governada por um quase ditador que tem pretensões a ser um novo Czar legitimado por uma frágil democracia.
Enfim, talvez a Rússia até leve a Copa do Mundo, pois o Putin poderá fazer qualquer coisa para manter-se no poder, resgatando o velho império e o prestígio internacional que teve no pós-guerra, como a segunda maior potência global. Para levar a Copa para o seu país gastou bilhões e tudo indica muito mais do que o Brasil. Nada como o pão e circo, lição que todos os chefes de estado aprenderam com o velho Império Romano, para agradar o povo e conseguir a estabilidade política.


Uma mãe bem diferente
De Giselle Larizzatti Agazzi

Escrever uma história com base na própria história foi um grande desafio para Giselle Agazzi. É uma história da história em que a dor está presente, mas escrever é um processo catártico, que alivia a alma e coloca compressas suaves nas feridas.
A mãe da história da Giselle é uma mãe especial, diferente, que representa o lado triste da diversidade humana. Uma mãe que às vezes se esquece dos filhos, pois não consegue lidar com seus próprios fantasmas.  É a mãe que metaforicamente está na terceira margem do rio, tal como o personagem do conto de Guimarães Rosa, mas continua sendo mãe em seus momentos de lucidez ou normalidade.
Em paralelo às agruras da relação com a mãe, a menina Clara, protagonista da história, sofre bullyng dos seus colegas por ter uma mãe fora dos padrões de normalidade social. Mas ao mesmo tempo Clara não é clara e talvez seja escura, pois a mãe é negra. Assim, ela precisa lidar com dois preconceitos ao mesmo tempo.
O livro é a história de uma criança que tem uma mãe diferente, fora do eixo em que se estrutura toda a sociedade, que é também a história da Giselle, com todos os sofrimentos, preconceitos, exclusão, ausência de equilíbrio nas relações do cotidiano familiar.
Enfim, esta pequena história representa uma oportunidade para crianças e adultos entrarem em contato com a diversidade humana do ponto de vista psicológico e mental, o nosso lado mais sombrio e mais complexo.
Destaque para as ilustrações de Flávia Marinho e Melissa Ferrauche, pela criatividade e sensibilidade, dando ao livre a suavidade necessária.

terça-feira, 29 de maio de 2018

POEMAS PARA UMA CONTA DE MAIS

Gosto de poesia, mas confesso que sou ignorante sobre o assunto. Gosto porque sinto que gosto, me emociono, me encanto, mas longe de mim teorizar sobre os escritos que vem do fundo da alma, que expressam às vezes o lado sombrio da existência.  Lembro-me do Rainer Maria Rilke em Cartas para um jovem poeta, presente de um velho amigo que me acreditava um poeta aprendiz. Confesso que depois de ler, fiquei tempos sem escrever, pois não sabia se o que escrevia era mesmo poesia. “Não faça poesia sobre acontecimentos, pois não é poesia...”
Mas estou diante do livrinho de poesia da amiga Bete Cunha, Poemas para uma conta de mais, cujo nome sugere um poema cartesiano. Poema pode ser a soma de tudo e mais alguma coisa. O livro é bilíngue e algum leitor distraído pode pensar que se trata de uma autora nascida em algum lugar das Américas em que o castelhano se tornou dominante. Mas não, ela é daqui mesmo, nascida em São Caetano do Sul, de pai cearense e mãe de origem italiana. Essa mistura de etnias que o pai trouxe dos confins do Brasil, índias, portugueses homens, mulheres negras vindas da África se amalgama com uma descendente de italianos, cuja formação envolve também noutras tantas etnias, como gregos, fenícios, mouros, vândalos etc.
Mas por que um livro de poesia em português e espanhol? Bete talvez tenha um sonho, o de tornar a América Latina uma só, nem portuguesa, nem espanhola, mas ibérica.  Eu ainda lhe pergunto se considera a sonoridade espanhola mais musical do que a portuguesa. Ela não saberá responder e talvez se limite dizer: Ya no sé de mis fronteras/ me he perdido entre las tuyas/ no sé si vou o comienzo...”
Em Te ouço, ela diz: “Por entre as sombras, nas dobras da luz, eu te procuro.”  E aí me lembro novamente de Rilke quando ele diz: “Fale das suas tristezas e dos seus desejos, dos pensamentos que o tocam, da sua fé na beleza”.
“Ninguém/nem améns/poderão celebrar a missa dos demais. Eu e você sós/ nessa conta de mais”. Para o criador nada é pobre, nem uma conta de mais, não há coisas mesquinhas ou indiferentes. A conta de mais soma coisas, soma lembranças, soma esperanças, soma desejos não realizados. Mas as contas de menos, subtraem de nossas memórias aquilo que perdemos ou que não desejamos.  Como diz Bete no poema, somos in-divíduos, únicos e inexpugnáveis. Ninguém  “... saberá de nós o que fomos”.
Em essência, os versos “Tempo,/ tempo passado/ presente, futuro/ relativizações da essência de um igual”, me lembraram T.S.Eliot: “O tempo passado e o tempo presente/ Estão ambos talvez presentes no tempo futuro/ E o tempo futuro contido no tempo passado./ Se todo tempo é eternamente presente/ Todo tempo é irredimível.” .Não sei se a Bete Cunha leu esse poema, mas ela e Eliot concluem de forma diferente a reflexão sobre o tempo. Para a poeta é tudo relativo, mais um experimento. “Em la curva dos los años, em el espacio del aprender...”. Enquanto Eliot se perde em sua erudição sem fim, uma perpétua possibilidade em direção à porta que jamais será aberta.
Enfim, ler os poemas para uma conta de mais foi prazeroso, e me ajudou a rever Rainer Maria Rilke e seu pequeno livro para entender um pouco mais de poesia e sentir o “cheiro de terra amanhecendo no ar”. Bete ainda tem muitos versos escondidos escritos desde os nossos tempos de juventude inquieta e esperançosa, mesmo sem esperanças que precisam emergir em novos livros para somar às nossas contas.
Poemas para uma conta de mais. 

CUIDADO COM AS VÍRGULAS...


            Morava em minha rua, quase em frente a minha casa, um velhinho italiano chamado Antônio. Era uma pessoa adorável. Baixinho e roliço, usava um chapéu de feltro, calças largas e surradas botinas. Era uma figura ímpar e muito querida da garotada do bairro. Quando ele passava pela rua corríamos ao seu encontro e pedíamos sua benção.
Sua diversão era fazer charadas e contar histórias para a garotada. Seu Antônio Piffer era um assíduo frequentador de minha casa e diariamente ele passava por lá para um cafezinho e um dedo de prosa. Sentava-se à nossa varanda e já ia perguntando: “Gosta mais do papai ou da mamãe?” Nós sempre respondíamos: “Gostamos igual".  "É mentira, dizia ele, eu sei que vocês gostam mais de um do que do outro", dizia com seu sotaque italiano. Outras vezes fazia umas pegadinhas tirando as vírgulas das frases para mudar o sentido. Matar o rei non é pecado. Está certo ou errado? Perguntava. Nós respondíamos: Está errado. Ele ria e corrigia a frase colocando as vírgulas. “Uma vírgula muda tudo. Precisa ter cuidado com elas”.
Uma vez ele me flagrou fazendo xixi atrás do muro da casa onde ele morava. Fiquei assustado e pedi desculpas. Ele riu e disse: “Non faz mar e não pode parar o xixi, pois non é bom pra saúde”. Em outra vez eu estava às turras com outro moleque do bairro que me chamou de f.d.p. Seu Antônio ouviu e falou: “Nom pode chamar a mãe do outro assim. Se fosse na Itália você seria preso. É um crime xingar a mama dos outros”.  Como eu também xingava as mães dos outros meninos, o sabão me serviu para e nunca mais xinguei as mães dos outros meninos. Xingava de outros nomes, mas nunca as mães.
            Ele adorava minha mãe, principalmente pelo cafezinho que ela preparava sempre esperando que ele viesse.  Aliás, em casa o café era uma bebida sagrada e não faltava em qualquer hora do dia ou da noite. Nossos parentes do interior sempre enviavam café in-natura para nós, que era torrado e moído por mim, invariavelmente. Era um café especial no sabor e no aroma. Meu pai dizia que era a minha memória e que o café não era tão bom assim. Memória ou não, eu guardei o aroma e sabor que nunca senti em lugar nenhum.
            Mas voltemos ao Seu Antônio. Ele às vezes discutia com a nora, uma senhora muito amiga de minha mãe.  Um dia ele apareceu cedo em casa, fora do seu horário habitual para o cafezinho.  Sentou-se na varanda e ficou com a cabeça baixa, pensativo, não brincando como era seu hábito. Quando minha mãe trouxe o café percebemos que estava com lágrimas nos olhos. Eu briguei com a Luzia e falei que não voltava mais. Agora eu não tenho para onde ir, disse ele desconsolado.
            Ele estava muito triste e sentido e como minha mãe sempre teve o coração mole, foi dizendo “O senhor pode ficar com a gente seu Antônio. Pode ficar sossegado que o senhor não vai dormir na rua”.  Ele ficou emocionado e chorou mais ainda. Naquele dia o nono almoçou, tomou o café da tarde e nos contou muitas, muitas histórias. Já estava gostando da ideia de tê-lo morando com a gente e ouvi-lo contar seus casos dia e noite. Mas a minha mãe já havia avisado a nora dele que ele estava em casa, aliás, aviso desnecessário, pois ela sabia aonde ele iria. Mais tarde ela veio buscá-lo como se nada houvesse acontecido.
            Ele agradeceu a hospitalidade de minha mãe e disse emocionado: “Você vai pro céu filha”. Como à época ainda se acreditava em céu e inferno, fiquei feliz por saber que minha mãe teria um lugarzinho reservado no paraíso e, nos meus nove anos, tinha a certeza de que o nono sabia das coisas. E sabia mesmo.


segunda-feira, 14 de maio de 2018


ADÃO E EVA

Era uma das primeiras histórias que se ouvia. Em casa tínhamos uma bíblia ilustrada e tão logo aprendíamos a ler, já queríamos saber mais detalhes sobree essa fantástica história.  Adão, criado do barro  com um sopro divino. Eva  ou a mãe de todos, foi criada com uma costela de Adão. Uma serpente teria induzido Eva a comer o fruto proibido, desobedecendo as ordens expressas do criador.
Filho de mãe católica praticante e pai quase agnóstico, viví num ambiente sem muitas certezas com relação às crenças religiosas. Enquanto minha mãe obrigava os filhos a irem à missa toda semana, fazer o catecismo e a Primeira Comunhão, meu pai fazia ouvidos de mercador às queixas dela com relação à desobediência dos filhos no tocante à religião. As minhas irmãs seguiram os padrões da época,  mas eu e meus irmãos fizemos as obrigações religiosas aos trancos e barrancos. Fugíamos das aulas de catecismo para brincar na rua ou no próprio pátio da igreja.
Me recordo que tempos depois o padre da paróquia começou a frequentar nossa casa com o objetivo de convencer meu pai a frequentar a igreja e quem sabe se casar no religioso, já que era casado apenas no civil. E foi em casa que ouvi primeiras discussões sobre Adão e Eva com o Padre Ernesto Cozer que afirmava que era uma história simbólica e não podia ser levada ao pé da letra. Como era apenas um casal,  deduzia-se que para  povoar a Terra houve o casamentos incestuosos, mas esses detalhes ficavam apenas subentendidos. A liberalidade do padre tornava a conversa sobre religião bem mais interessante e a acabou conquistando meu pai que o recebia com grande prazer.  Suas visitas eram semanais e se repetiram por anos e acredito que eram por dois motivos: pela boa conversa e pelo uísque que era servido sem moderação.
Anos depois Adão e Eva acabaram voltando às discussões em casa quando um compadre intelectualizado, funcionário do IBGE, que eles conheciam desde o interior começou a falar em teoria da evolução de Darwin. E foi ele que deixou alguns livros em casa sobre esse e outros temas.  Essa conversa era um pouco complexa e gerou pouco interesse em casa. Entretanto, logo entendi que pela teoria darwiniana não houve apenas um Adão e uma Eva, mas possivelmente vários casais no processo evolutivo que deu origem ao homo sapiens. O professor de ciências no ginásio, um dentista de origem judaica tocava no assunto,  mas de forma muito superficial e logo foi questionado por um aluno curioso que talvez tivesse lido mais sobre evolução do que ele. E foi por isso ele mandou que eu saísse da sala para não atrapalhar a aula.
Em Paraiso Perdido de Milton do século XVII, além da discussão sobre questões humanas, mostra que o primeiro casal do Eden era apaixonado e também sugeria de que tinham descoberto o sexo. O livro de Milton li, também, precocemente e sem entender muita coisa quando trabalhava como office boy. Mas meu chefe era muito culto e me explicava alguns detalhes.
Mais tarde vieram as descobertas dos poemas mesopotâmicos de  Gilgamash, um rei mitológico, de existência anterior à presença hebraica na Mesopotâmia. Eles foram decifrados através das pranchetas cuneiformes que revelaram grande semelhança com as narrativas do primeiro livro bíblico como a criação do homem, a figura da serpente e o dilúvio.
Mas é com a ideologia do Gênero que o papel de Eva começa a ser contestado. Ao invés de ser apontada como a culpada por todas as desgraças humanas, uma corrente feminista afirma que foi apenas usada pelo homem para instituir o poder patriarcal. Assim, a inocência dos primeiros humanos foi quebrada com a instituição da diferença sexual, do poder e da transgressão.
A história fantástica do primeiro casal criado por inspiração divina não tem mais o interesse que havia na minha infância, pois a teoria de Darwin ensinada nas escolas desconstruiu essa forma de ver a origem da humanidade.  Mas existem reações contra essa teoria e em alguns estados norte-americanos é proibido ensinar outra teoria além do criacionismo. Opiniões a parte, continuo achando que o nosso pároco tinha mesmo razão. Para ele a explicação da Bíblia é simbólica e fazia sentido há mais de dois mil anos. Hoje, com as descobertas arqueológicas, os estudos do genoma humano entre outros, acabaram sepultando o mito.




DESCOBRIMENTO DO BRASIL


Quando a professora Maria Lúcia no segundo ano primário deu sua aula de história do Brasil, fiquei impressionado. Ela contou em detalhes quando as caravelas portuguesas partiram do Porto em direção à costa africana. Mas algo estranho aconteceu. Uma forte calmaria fez com que as naus fossem desviadas para oeste, bem longe do contorno do continente africano que era o caminho em direção às Índias.
Depois de dias e mais dias, o comandante da expedição Pedro Alvares Cabral começou a observar pedaços de madeira no mar. Depois pássaros e finalmente, terra a vista. Primeiro pensaram se tratar de uma ilha que deram o nome de Vera Cruz, depois perceberam que era uma grande extensão de terra e deram o nome de Terra de Santa Cruz.
E sempre que ela fala no navegador lusitano, Pedro Alvares Cabral, todos olhavam para  um colega que se chamava Nelson Cabral, como se ele tivesse alguma relação com o descobrimento. Muito esperto ele falou orgulhoso: “Foi meu avô”. Todos riram e a professora explicou que avô não era, mas poderia ter sido um parente muito, muito distante do Nelson.
Mas uma coisa sempre me intrigou. Por que no Tratado de Tordesilhas, em 1494, Portugal e Espanha, com o beneplácito do Papa, dividiram as terras à Oeste  entre os dois países?  Por que oito anos depois Cabral desembarcaria por aqui? Somente no ginásio o professor de história, Josué Augusto da Silva Leite tocou no assunto, dizendo que havia duas correntes, uma que dizia que o descobrimento foi ao acaso e a outra, foi intencional, pois já se tinha conhecimento de que havia terras a oeste.
Mas foi o professor jesuíta, Mario Ghislandi que foi mais categórico. Além de dizer que não foi por acaso que o Brasil foi descoberto, mas um plano bem planejado de conquista ultramarina antes que outros países europeus por aqui chegassem. Não foi uma descoberta, mas uma invasão de conquista do império português, continuou ele. Uma conquista porque havia milhões de habitantes espalhados por Pindorama, o nome que os nativos denominavam essas terras. Ao longo do tempo várias guerras foram travadas com os nativos, que desorganizados em tribos  isoladas, não se organizaram adequadamente para enfrentar os invasores. Armados com arcabuzes assustavam os pobres índios que nunca tinham visto uma arma de fogo. Além do armamento e organização militar os portugueses ainda contavam com os vírus e bactérias com as quais os nativos nunca tiveram contato. Resultado: gripe e outras infecções mataram mais nativos do que as armas.
Mas nas aulas do primário só pensava nas caravelas navegando durante semanas entre a costa africana e a costa brasileira, sem uma viva alma por perto. Os pobres marinheiros, cheios de superstições, pois na época se supunha que depois do oceano surgiria um grande abismo, sem contar com monstros perigosíssimos.
E assim, um minúsculo país europeu com uma população de cerca de 400 mil habitantes conquistou um imenso território  


QUEM NUNCA ENGOLIU UM SAPO?


A expressão engolir um sapo significa simbolicamente que se trata de aceitar alguma coisa não digerível ou contra a vontade. Quem nunca engoliu um sapo no trabalho, na família, nas salas de aula ou nos grupos de relacionamento? Passamos a vida engolindo sapos e lagartos, mas que foram necessários para a sobrevivência ou para a manutenção da paz, mesmo que forçada.
Na política isso é mais comum se engolir sapos do que fazer política no seu estrito senso. Resgatando um pouco da história, o velho Luiz Carlos Prestes, fundador do Partido Comunista no Brasil, teve que engolir um tremendo sapo ao concordar, por uma decisão partidária, a apoiar o Getúlio Vargas nas eleições de 1950. Justo o algoz que mandara para a câmara de gás a sua esposa grávida, Olga Benário.  Eu diria que não foi um sapo e mais apropriado seria dizer um porco espinho.
Mas os políticos acabam esquecendo tudo. Quem acompanhou as eleições de 1979, há de se lembrar de que o Collor colocou na televisão a ex-namorada do Lula, dizendo que ele queria que ela fizesse um aborto (o que não aconteceu). Sem isso o Collor talvez não tivesse vencido as eleições.  O sapo foi o Lula, tempos depois, já presidente, precisar do apoio do Collor e posar com ele numa foto sorridente. Outro sapo que o mesmo Lula precisou engolir foi nas eleições paulistanas de 2014. Precisando do apoio do Maluf, seu “inimigo” histórico, mandou o recado pedindo apoio.  O Maluf topou, mas com uma condição: “topo desde que o Lula venha até minha casa com o seu candidato (Haddad) e com a presença da imprensa”. Como o partido é maior do que as pessoas ou seus interesses pessoais, o Lula engoliu outro sapo.
Laudo Natel, antigo político paulista foi um que não conseguiu engolir o sapo. Candidato escolhido pelos militares para governar São Paulo, foi atropelado por Paulo Maluf que agindo sorrateiramente, conseguiu o direito de sair candidato pela Arena, manipulando o colégio eleitoral.  Natel se recusou a cumprimentar Maluf, mas os militares engoliram o sapo por ele e o “turco” foi eleito indiretamente e tomou posse.
Como todos tem uma história de sapos engolidos, pelo menos simbolicamente, contarei o meu sapo engolido.  Nos tempos de faculdade convidamos um intelectual nacionalista chamado Moniz Bandeira para uma palestra. Como estávamos em plena ditadura as pessoas viviam pisando em ovos com receio de dizer ou até pensar em algo que pudesse suscitar a ira dos poderosos. O palestrante foi recebido pelos professores do departamento que assumiram a mesa. Antes de dar início a palestra, um professor conhecido por suas ideias reacionárias, avisou a plateia que não haveria debate e as perguntas deveriam ser feitas por escrito e encaminhadas a ele que tomaria a decisão de encaminhar ou não para o convidado. Revoltado contra o cerceamento às liberdades, me levantei e protestei, ameaçando sair do auditório. Esperava que a maioria se levantasse, mas apenas eu e a Celinha ficamos em pé. O que fazer? Fazer a retirada ou permanecer no auditório? O Moniz Bandeira me ajudou a engolir o sapo, pedindo encarecidamente para que eu permanecesse.  Sentamo-nos e lá permaneci sem olhar para os lados, constrangido pelo vexame.
Um amigo, fiel às suas ideias liberais mais para centro direita, abominava as ideologias de esquerda por pregarem a implantação da ditadura do proletariado e um estado totalitário à semelhança da antiga URSS ou da China. Pai de uma única filha esperava que seguisse a sua carreira de engenheiro, mas eis que essa se envereda para as artes e entra numa universidade pública. Não demorou muito tempo descobriu que a filha já havia sido seduzida pela narrativa revolucionária do PSOL. Mas como bom e generoso pai prontamente engoliu o sapo e se preparou para manter um diálogo franco com a filha, sem ressentimentos.
Mas a mais estranha história de sapo me foi contada por uma moça quando falávamos sobre “engolir sapos” numa roda de amigos. Narrou que passava as férias na fazenda de seus avós quando ela e suas irmãs descobriram, ao acaso, um saco de açúcar mascavo na dispensa. Como o açúcar estava empedrado, acharam uma delícia chupar os torrões com sabor que lembrava a deliciosa garapa.  Mas ela, uma “formigona”, pegou mais um torrãozinho e o levou escondido à cama para deliciar-se enquanto esperava o sono. Como o torrão não acabava nunca o colocou sob o travesseiro e adormeceu. No dia seguinte ao procurar a iguaria, vejam o que ela viu: um sapinho mumificado que morreu no tanque de melado quente, provavelmente há muitos quilômetros dali.
Essa literalmente chupou um sapo ao invés de engoli-lo e só não o fez por causa do sono, pois caso contrário teria devorado o sapinho aos pedaços adocicados pelo açúcar. Mas engolir literalmente um sapo foi obra de uma cadela pastor Alemão que tínhamos em casa. Ao ver um sapinho pulando alegremente no quintal, ela abriu sua boca enorme e ficou esperando a presa. O sapinho caiu na sua boca e ela o degustou imediatamente. Esse sapo nos custou uma noite de sono, pois preocupados com o risco de envenenamento, corremos ao hospital veterinário para evitar o pior. Não deu nada e a cadela viveu por muitos anos depois de ter engolido um sapo.
E vocês, teriam alguma história de sapo para contar?



A TRISTE HISTÓRIA DE HAN ZICHENG

Leio no jornal que um chinês de 85 anos escreveu em pedaços de papel que queria ser adotado por alguma família. Para isso colou-os no ponto de ônibus, no armazém e outros locais do bairro.   Han Zicheng não queria morrer sozinho, mas também não queria ir para um asilo. Ele não tinha mulher, filhos ou netos.
Na China até pouco tempo era proibido ter mais de um filho. Isso passou a valer depois da chamada Revolução Cultural nos anos 1960. A medida foi tomada para reduzir a população do país que já estava com mais de um bilhão de habitantes. Como o governo sabia que não conseguiria fazer o país crescer para dar conta das necessidades de emprego e produção de alimentos, optou por reduzir na marra a quantidade de gente.
Isso criou outro problema, pois para os chineses os filhos do sexo masculino são essenciais para cuidar dos pais na velhice. Quando os casais tinham uma filha, entravam em pânico, pois a cultura milenar lembrava que as filhas se casam e vão ajudar o marido a cuidar dos pais dele e ficariam desamparados.
Assim muitos casais da zona rural optavam por sacrificar as crianças do sexo feminino antes do registro, alegando para as autoridades que nasceram mortas ou morreram logo após o nascimento. Faziam isso colocando os bebês em tanques para serem afogados. Para nós ocidentais é uma extrema crueldade, mas as famílias chinesas se submetem à tradição que é mais forte do que os sentimentos.
Nas cidades as mulheres grávidas se submetiam a uma ultrassonografia e ao identificarem que o bebê era do sexo feminino, provocavam o aborto. O problema se tornou tão grave que o governo proibiu o exame para evitar o crime.  Outro problema também grave foi a disseminação do sequestro e tráfico de crianças do sexo masculino, vendidas a peso de ouro, movimentando milhões de dólares.
Com isso a China tem hoje um grande déficit de mulheres obrigando muitos jovens a procurarem esposas em outras regiões, caso contrário em um século a população do país pode desaparecer.
Outro resultado dessa política foi a redução das famílias a pai, mãe e um filho ou filha. Com isso desapareceram as relações de parentesco como tios e primos na maioria das famílias.  O impacto cultural dessa mudança foi enorme e gerou o isolamento dos núcleos familiares, cujas consequências são difíceis de serem avaliadas. A população idosa na China que hoje representa 15% dos habitantes será confinada aos asilos contrariando a cultura familiar arraigada na sociedade.
O caso do senhor Zicheng é o resultado dessa mudança nos padrões da estrutura familiar na China. Lá a imposição de filho único pelo governo ocorreu de forma autoritária, mas no Ocidente isso está se tornando comum com a entrada da mulher no mercado de trabalho. Para construir uma carreira bem sucedida, muitas mulheres optam por apenas um filho ou nenhum.
Entre nós passar o final da vida num asilo é o destino da maioria dos idosos, principalmente aqueles que apresentam doenças degenerativas como Alzheimer. Com famílias pequenas e o casal trabalhando fora de casa, não existem alternativas. Com isso os asilos ou como são chamados eufemisticamente as Casas de Repouso Permanente estão se tornando um negócio promissor, pois os governos não tem dado atenção a essa nova realidade.
Ser adotado por uma família é pouco provável para pessoas como Han Zicheng não só na China, mas em todo mundo. O medo atávico de morrer sozinho tira o sono de muitos idosos. A morte é vista por muitos como uma partida rumo ao desconhecido e a presença das pessoas queridas torna a viagem menos triste. Pensar que seu corpo pudesse ficar insepulto angustiava o velho Zicheng e isso acontece na maioria das culturas.
Infelizmente Han Zicheng morreu sozinho, pois nenhuma família quis adotá-lo. Assim ele partiu sem ninguém para se despedir na sua viagem eterna. Han deve ter morrido enquanto dormia numa madrugada chuvosa de Pequim. Algum vizinho próximo deu por falta do velho e foi procurá-lo alguns dias depois.


QUE TAL ENTRAR EM UM LIVRO E VIVER A HISTÓRIA?

Num sábado preguiçoso, vi o filme “Coração de tinta”, baseado no livro homônimo que conta a fantástica história de um leitor que tinha poderes mágicos, sendo capaz de fazer os personagens saírem dos livros e viverem entre os mortais ou os mortais entrarem nos livros ao ler em voz alta.  E foi assim que um malabarista saiu do livro e passou a viver perambulando pelas ruas com seu bichinho de estimação, lembrando sempre da mulher que ficou no livro e nunca mais encontrou. Ao mesmo tempo escapou do livro o perigoso bandido Capricórnio e seu bando que sequestrou a mulher do leitor. O pobre homem passa anos ao lado da filha procurando outro exemplar do livro para tentar localizar a mulher. Enquanto isso é perseguido pelo malabarista que quer que ele leia o livro para que possa retornar. Ele tem medo de ler o livro, pois não sabe o que pode acontecer.
Que história maluca! Fui para a cama pensando na possibilidade de entrar na história de algum livro. Pensei em vários do Machado de Assis, do Jorge Amado, do Milton Hatoum, Ernest Hemingway, Sommerset Maughan entre outros. Mas acabei por escolher o Grande Sertão Veredas do Guimarães Rosa, um livro relido há pouco tempo e que ainda está circulando preguiçoso pela minha memória de lembranças escassas.
E fiquei matutando como não seria fantástico entrar nas maravilhosas aventuras do jagunço Riobaldo e seu companheiro ou companheira Diadorin pelos sertões das gerais, cavalgando noite e dia, confrontando ao lado de Joca Ramirez o tinhoso Hermógenes. Acabei dormindo e sonhando que estava no bando ao lado do Riobaldo conhecido como Tatarana ou Urutu branco. Cavalgamos lado a lado a sombra dos juritis proseando, contando causos. E foi ai que ele me confidenciou sua paixão pelo Diadorin. Ele sabia que o seu companheiro era homem mesmo, apesar de ser um rapaz bem apessoado, louro de olhos azuis como céu. Foi aí que me lembrei de que nos sonhos temos poderes mágicos, podendo fazer qualquer coisa que quisermos. Então me ofereci para transformar o Diadorim numa mulher de verdade, pois não estando na história poderia contar o final do livro em que ele iria descobrir que o fruto de sua paixão era mesmo uma moça.
Mas ele não quis saber do final da história temendo que ele pudesse morrer ou mesmo o Diadorin. Queria mesmo viver a história até o final e que sua vida e a de Diadorin estavam por conta do Guimarães Rosa. Ele que resolvesse a história do jeito que mais gostasse. Ele que não queria se intrometer conhecendo o final. Ao lhe contar que a história já estava escrita e que ele não poderia mais mexer no final, pois o escritor já havia morrido, Riobaldo entrou numa profunda tristeza, mas não quis saber o final da história. Chegou até a pensar em sair do livro com a minha ajuda, mas teria que ser junto com o Diadorin, que jamais concordaria em sair do livro, pois como filho de Jóca Ramires, tinha uma missão que era vingar o pai. Saindo do livro iria se perder pela vida e nunca mais encontraria o Hermógenes.
Contei-lhe que os tempos das lutas de bandos de jagunços pelas gerais já havia acabado há muitos e muitos anos e que os sertões estavam cortados por estradas asfaltadas com carros circulando por todos os lados. Polícia não faltava e que os jagunços eram figuras do passado que não voltariam mais. Você vai ter de viver trabalhando em fazendas como peão, em fábricas ou no comércio. Como consolo poderia contar suas histórias nos serões, narrando as suas violentas aventuras pelas gerais.
Riobaldo ficou ensimesmado, pitando seu cigarro de palha e observando o horizonte repleto de buritis. De repente esporou o cavalo e saiu em disparada gritando: “Jagunço não morre de véspera e vamos caçar a praga do Hermógenes” e sumiu no mundo. Acordei tentando gritar para que ele me esperasse para continuarmos a conversa. Mas o dia já estava clareando e tive ainda a impressão de ter ouvido o barulho de patas de cavalo marchando pela minha rua.  Será que o Riobaldo veio atrás de mim?


JOSÉ DE SOUZA MARTINS: O SOCIOLOGO DA SOCIABILIDADE DO HOMEM SIMPLES.

A convite da poeta e agitadora cultural Dalila Veras, fui no último sábado para o Encontro com o eminente sociólogo José de Souza Martins. Neste evento ele lançou o seu novo livro de memórias “Moleque de Fábrica – Uma arqueologia da Memória Social”. Esse livro que ele mesmo define como memórias sem pretensões de uma pessoa sem grande relevância para o Brasil ou para o mundo. Muita modéstia o autor dizer isso, depois de uma brilhante carreira docente e mais de 30 livros publicados, que o coloca ao lado de Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Antônio Cândido como um dos maiores sociólogos brasileiros.
Cheguei bem antes do horário e pudemos tomar um café juntos e conversarmos sobre trivialidades.   Fiz questão de lembrar-lhe  que em meados dos anos 1970 o encontrei numa palestra na Fundação Santo André. Ele estava munido de uma vitrola portátil e tocou um disco de música sertaneja, chamado “Boi de Carro”, do Tonico e Tinoco.  Usando essa música como referência, ele analisou o sentido de música caipira e música sertaneja, bem como a forma utilizada para fazer a crítica social. Em Boi de carro, a letra traça um paralelo entre o boi utilizado para puxar o carro e o trabalhador no campo. Enquanto o boi vai para o matadouro quando não serve mais para trabalho e o trabalhador é dispensado e colocado na estrada.  Martins lembrou que o caipira não faz protesto de forma direta, mas indireta, como é o caso dessa música. O seu livro e algumas histórias que ele alinhavou durante a conversa, deixou claro que de caipira ele entende, pois vivenciou a sua cultura através de sua mãe e seus avós maternos.
 Durante a palestra nos longínquos anos 1970, ele discorreu, também, sobre a diferença entre a música caipira e a música sertaneja, fruto de um trabalho de pesquisa que resultou no saboroso artigo “Viola Quebrada”. Explicitou que a primeira é uma música originária de rituais religiosos de colheita ou plantio que não tem duração determinada. Enquanto a segunda é uma música comercial, com duração limitada e geralmente composta por pessoas do meio urbano. Assim, tudo o que ouvimos pelo rádio, é música sertaneja e não caipira como se diz no cotidiano.
Seu novo livro é uma coletânea de histórias reais e outras fantásticas que vivenciou desde a infância, quando trabalhava na Cerâmica São Caetano. É como ele disse: o avesso da sua história, porque escrever sobre o real é apenas uma fotografia e não revela o outro lado da realidade vivida pelas pessoas no seu cotidiano.
No livro ele relembra uma sinistra história familiar em que descobre em sua visita a Santiago de Figueiró, em Portugal, lugarejo que seu pai deixou para emigrar para o Brasil. Foi lá que descobriu que o seu pai era filho de um padre da aldeia. O resgate dessa história o deixou surpreso, pois não sabia dessa história, pois seu pai morreu quando tinha apenas cinco anos. Essa visita à terra dos seus antepassados lhe deu a impressão de que havia entrado no túnel do tempo, retornando aos tempos medievais.
José de Souza Martins em sua fala lembrou que a história oficial da região se baseia em premissas falsas, construídas por políticos para dar verossimilhança à origem das cidades, mas que nada do que se fala ou está escrito tem fundamento histórico, etnográfico ou social. Ele lamenta, também, que não há uma literatura regional, que faça com justiça um resgate autêntico da vida cotidiana da classe operária, sua cultura, seus conflitos, seus medos e suas inseguranças. Lembrou a figura sinistra dos delatores que sempre estiveram presentes desde a época dos imigrantes anarquistas que para cá vieram, passando pela longa ditadura Vargas até a ditatura militar. Contou a história do espanhol anarquista Francisco Caparroz que montou uma fábrica de sapatos em São Caetano com o nome de Floreal. O nome ele veio a descobrir que se tratava de um jornal anarquista espanhol. Em minha adolescência cheguei a conhecer a neta dele, Marcia Caparroz, uma linda e simpática garota que morava quase ao lado de um amigo que vim a conhecer bem depois, chamado Edson Silva. Como o mundo é pequeno!
Na conversa Martins lembrou-se de outro sapateiro anarquista, também chamado Francisco, que foi denunciado por um vizinho em São Caetano. Como o Brasil estava sob o jugo da ditadura Vargas, ele foi preso e deportado para a Espanha. Lá chegando foi imediatamente fuzilado após o oficial franquista ler seus documentos. A família do Francisco Márquez nunca mais teve notícias dele e fechou-se em silêncio com receio de serem delatados. A história foi resgatada graças ao comandante do navio que ele chegou a conhecer e era, por coincidência, um comunista.
Enfim, a conversa terminou com um delicioso espumante gelado servido pela anfitriã, Dalila em sua aconchegante livraria e Sebo que vale a pena conhecer. É um lugar para passar saborosas horas em meio aos aromas de livros velhos e novos, gente interessante e um bom expresso servido por uma atenciosa atendente

VELHAS CARTAS E POSTAIS

Ao acaso encontrei uma pasta com algumas cartas bem antigas. E para comemorar o achado resolvi relê-las e comentá-las.
 A primeira é de um amigo espanhol que não vejo há séculos. Escrevendo de Madrid sobre um amigo nosso que estava passando por lá em 1982 e que precisava de umas dicas sobre como sobreviver na cidade. Eles acabaram não se encontrando. Ele menciona que recebeu uma carta da Celia avisando sobre esse amigo, que era nada mais nada menos do que o Élcio Thenorio. A carta que ele recebeu foi postada na Áustria e aí ele não entendeu nada mesmo. Acontece que uma amiga nossa em viagem para a Áustria acabou postando a carta por lá.
Outra carta, de outro velho amigo, Geraldo Magela, matemático e mineiro dos bons, nos escreveu deliciosas missivas durante sua estadia na Alemanha, na cidade de Stuttgart, contando particularidades sobre o povo alemão, que nos consideravam como índios de arco e flecha. Muitos lhe perguntavam como era viver nas selvas brasileiras, se viajavam de barco ou a cavalo. Não acreditavam que já tínhamos estradas, aeroportos e estações rodoviárias em todos os cantos. Pode parecer estranho, mas era 1982. Ao escrever mineiro dos bons não tem nenhum preconceito embutido e se trata apenas de força de expressão. De toda forma, acredito que todos os mineiros são bons até que provem o contrário, conforme dizia minha mãe, mineira de Buenópolis.
Outra carta, aliás, várias da querida amiga Marlita Brandner Vaillat que voltou para Áustria, fixando residência em Bundesstrasse. Uma pessoa docílima. Foi a primeira professora de música de nossa filha e com quem a Celia aprendeu muita coisa sobre educação para crianças. Ela parou de escrever e nós também. Soubemos que teve problemas com sua filha adolescente por lá. Acho que precisamos contatá-la para termos mais notícias. Lembro-me que a ajudamos na mudança, empacotando suas coisas para despachar para a terra de Strauss.
A seguir algumas cartas da nossa querida amiga Júnia, que saiu de Belo Horizonte para o mundo, passando algum tempo em São Bernardo antes de atravessar o Atlântico para retornar apenas nas férias. Depois de um romance frustrado com um amigo nosso, conheceu um dinamarquês com cara de Hamlet que roubou seu coração e a levou para longe. Passou uns tempos em Portugal antes de se estabelecer em Copenhagen, onde trabalha como médica. Deixou em nossa casa um violão Gianini com o qual tocava e cantava o Samba de Uma Nota Só. Filha de um comunista com uma professora de francês ela foi estudar num colégio judeu, pois o pai queria que ela estudasse várias línguas, inclusive o russo. Isso a ajudou a aprender com facilidade o idioma de sua pátria adotiva.  Sempre que ela vem para o Brasil visitar sua família nos encontramos, preferencialmente na livraria Cultura, antes do embarque para a Europa.
Mas não são apenas cartas internacionais. A maior coleção é de cartas escritas por um velho amigo dos tempos de faculdade, o Moacir Pinto e sua companheira Elvira, que escreviam de Fortaleza quase todos os meses durante o tempo em que estudavam na universidade federal de lá. Tiveram uma filha durante o tempo que lá moraram, a Sulamita.  Uma das cartas menciona a gravidez e o desejo de que ela nascesse em Fortaleza. O nome foi uma homenagem a uma amiga da faculdade. A Sulamita infelizmente desapareceu há sete anos e nunca mais foi encontrada. O casal convive com a dor de um luto não realizado.
Além de cartas encontrei na pasta uns cartões, entre eles um da amiga querida Regina Célia que morou uns tempos em Albuquerque, nos EUA. Uma particularidade é que ela pediu nesse cartão, uma cópia da partitura da música Beatriz do Edu Lobo e Chico.
E por fim, duas belíssimas cartas do Edélcio Thenório, uma delas me dando uma bronca por ter dito que era muito cansativo ir até Piedade. Algumas coisas a gente não pode dizer sem suas consequências. O que eu quis dizer é que viajar 120 quilômetros e voltar no dia seguinte, enfrentando um trânsito descomunal na entrada de São Paulo não era brincadeira. Mas por mais cansativa que fosse a viagem, eram momentos deliciosos passados com o casal Dedo, Ângela e suas crianças, Iberê, Cauê e Iara. Muita música, histórias e mais histórias de reis e daqueles que não são reis, como diria o Alberto Caieiro, heterônimo de um “desconhecido” poeta português. O Edélcio abandonou as cartas escritas e passou a gravá-las nas velhas e boas fitas Cassette, infelizmente superadas pelos e-mails que não as substituíram a contento.
Além das cartas encontrei algumas velhas fotografias. As mais antigas são de um tio materno, que as mandou do Rio de Janeiro onde morava, uma coleção de fotografias-postais da cidade. Infelizmente fiquei com apenas quatro delas e me lembro de que eram pelo menos dez. As outras desapareceram. Há também uma foto desse tio de 1933, com uma dedicatória aos meus avós enviada da Argentina onde ele morou algum tempo.  Isso foi logo depois da Revolução de 1930, quando ele resolveu abandonar seu emprego de Guarda-Livros e sair pelo mundo à toa, livre como um pássaro. Nunca mais tivemos notícias dele depois de uma rápida passagem por São Caetano nos anos 1950.



O PRÉDIO CAIU EM CHAMAS

João, Maria e uma criança moravam naquele prédio, esquina entre a Avenida Ipiranga e a Rio Branco. Se fosse na esquina da Avenida São João com a Ipiranga ele iria se sentir inspirado e cantar Sampa, principalmente o verso “Alguma coisa acontece com o meu coração...”. Mas o prédio onde a família de João morava não inspirava a lembrança de versos nem de poetas. Lá ninguém vê o por do sol, que já se escondeu envergonhado com tanto concreto e tanta miséria. Lá as pessoas passavam ao longe, com medo. Medo de que? São todos pobres e infelizes que encontraram um abrigo precário, com salas sendo transformadas em quartos e cozinhas, com poucos banheiros compartilhados por dezenas de pessoas.

Era um prédio invadido, mas alguém espertamente se colocou como uma espécie de síndico improvisado que cobrava até quatrocentos reais por família, como se fosse um aluguel. Com tanto dinheiro arrecadado daria até para consertar o elevador e fazer sua manutenção para que João, sua mulher e a criança não precisassem de subir 26 andares todos os dias. Mas não, ele só fazia pequenos reparos na eletricidade.

Mas João era um bom pagador e todos os meses após receber seu ordenado, deixava reservado o dinheiro que deveria servir para a manutenção do prédio. Para ele, um garçom num restaurante próximo, achava conveniente morar perto do emprego onde podia ir e voltar a pé. Chegava em casa tarde da noite e precisava acordar o porteiro que se encarregava de fechar o prédio depois das dezenove horas para evitar que desocupados, viciados ou mal intencionados entrassem.

Mas na madrugada do dia primeiro de maio, dia nacional do trabalho e do trabalhador, começou a ouvir um barulho estranho. Gente gritando e falando alto e um calor que não era normal para a época, já que o verão já havia partido para outras searas. João abriu a janela e percebeu que o prédio estava em chamas. Não havia tempo para mais nada. Era se vestir e correr para salvar a pele. No caminho já encontrou focos do incêndio e a escada já estava cheia e quente. Foi com muito custo que chegou ao térreo e pode respirar aliviado com a família sã e salva.

João, Maria e a criança já estavam na estatística de pessoas sem teto e sem esperanças. Ofereceram o abrigo da prefeitura, mas lá teriam de conviver com moradores de rua e viciados em crack. Recusaram. Agora deveriam esperar alguma outra oferta do governo como um auxílio aluguel até que conseguissem resolver a situação.
O prédio era do governo federal e estava desativado há dez anos. É difícil entender como um prédio público é abandonado dessa forma, ficando a mercê de invasões. Por que não foi reformado e destinado a alguma outra atividade pública, estadual ou municipal? Ninguém responde por que nesse país não há controle sobre o patrimônio público. Está tudo ao Deus dará. Salve-se quem puder. 

E o prédio desabou como se fosse uma implosão. Até lembrou o World Trade Center atingido por um avião e desabando em chamas. Uma centenária igreja ao lado do prédio foi quase destruída. Sobrou ainda uma bonita torre estilo gótico, mas o telhado, vitrais e outras relíquias não existem mais. Uma pena lamenta o pastor luterano, responsável pela igreja que há tempos reclamava com autoridades sobre a situação do prédio.

Existem mais de cem prédios ocupados no centro velho de São Paulo. São construções antigas e com manutenção precária. Alguns eram hotéis falidos, outros prédios comerciais que perderam a função com o deslocamento da cidade para outras áreas menos deterioradas. Alguns são prédios residenciais, cujos proprietários desistiram de morar neles e foram gradativamente abandonando-os. Um prédio de apartamentos precisa que todos contribuam para mantê-lo em condições habitáveis. Esses prédios não pagam impostos e ficam a disposição de invasores que não tem onde morar e alguns oportunistas que encontram aí uma chance de ganhar dinheiro, cobrando “aluguel” dos pobres ocupantes.

João não pode ir trabalhar porque não pode deixar a família abandonada na rua. Seu patrão não vai esperar muito tempo para substituí-lo caso ele não resolva sua situação. A angústia toma conta de João que abraça a mulher e o filho. Tem vontade de chorar, mas homem não chora, porque se chorar Maria vai perceber que estão perdidos. É preciso respirar fundo e acreditar que tudo vai se resolver. Vamos ter fé em Deus, ele não vai nos faltar, diz baixinho e chora para dentro fazendo as lágrimas voltarem de onde saíram.


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

ONDE ESTAREMOS EM 2050?

O Congresso Inova FEI de 2017 propôs uma pergunta intrigante. Onde e como estaremos em 2050 em relação à cidade e o campo, mais precisamente como o campo estará em termos de inovação tecnológica e como se relacionará com os centros urbanos? Trinta e dois anos é um tempo relativamente curto, mas a forma rápida como a tecnologia evolui atualmente, muita coisa poderá acontecer nesse período.
Há um consenso de que a maioria da população mundial estará residindo nas cidades, pois é uma realidade já presente em países economicamente mais desenvolvidos e é só acompanhar a evolução do êxodo rural nos últimos cinquenta anos no Brasil para se ter uma ideia de como a distribuição demográfica se alterou.
Falou-se muito em veículos autônomos para o transporte terrestre de pessoas e mercadorias, como também o transporte aéreo que muito em breve prescindirá do ser humano para pilotar aeronaves, reduzindo os riscos de acidentes. A internet das coisas que envolve a aplicação da tecnologia da informação no cotidiano das pessoas, já se torna uma realidade hoje e já é possível inferir o que poderá mudar até lá.
Como serão as fábricas? A previsão de Assimov de que teremos no futuro as fábricas com um homem e um cão. Sendo o homem para alimentar o cão e o cão para evitar que o homem se aproxime das máquinas. 2050 é ainda muito cedo para isso se concretizar, mas a Inteligência artificial cognitiva pode ser realidade no futuro considerando a evolução rápida da tecnologia eletrônica e nanotecnologia. Talvez no ano 2100 os robôs estarão suficientemente inteligentes para conduzir fábricas, fazendas, minas, viagens cósmicas, cirurgias de alto risco, exploração de minas e mares em alta profundidade etc.
Alguém lembrou que a humanidade se desgasta a procura de soluções para um determinado problema e a solução vem por um caminho totalmente inesperado. Por exemplo: o enorme problema das grandes cidades no início do século XX era o que fazer com as fezes dos animais nas ruas, considerando que todo o transporte era feito por veículos com tração animal? Além disso, dezenas de animais morriam nas ruas durante o dia e levavam-se dias para retirá-los, gerando um sério problema de higiene e saúde pública. O problema foi resolvido por uma via totalmente inovadora e rápida com o advento dos motores a combustão utilizados em ônibus, caminhões e veículos particulares.  Mas essa solução gerou outro problema, que é a poluição atmosférica que ainda não se sabe como será resolvida de forma definitiva. Há quem diga que os motores elétricos são muito caros e consomem muita energia para resolver esse problema. Mas há um consenso que em 2050 o carro não terá o protagonismo que tem hoje.
E as universidades terão o mesmo formato das atuais ou o ensino terá mudado tanto que em 2050 será difícil entender como se funcionava no tempo presente. Mas já o consenso de que o conhecimento estará totalmente nas nuvens e não mais exclusivamente nas universidades ou escolas isoladas de ensino superior. O ensino poderá ser predominantemente à distância e o conhecimento disponível para a maioria da população, o que de certa forma já está ocorrendo atualmente com o Google e outros sites de busca.
A saúde mudará tanto que as pessoas poderão ser diagnosticadas sem sair de casa utilizando-se mecanismos de varredura do corpo humano à distância, permitindo-se a identificação de tumores, mau funcionamento de órgãos, infecções etc. As cirurgias poderão ser realizadas totalmente por robôs, dispensando-se grandes equipes de profissionais médicos e auxiliares. Será algo semelhante como a introdução do sistema digital e sua substituição ao sistema analógico. Os medicamentos serão inteligentes e sem efeitos colaterais, agindo diretamente no local do problema.  Além disso, a tecnologia permitirá a produção de alimentos mais saudáveis reduzindo os riscos de doenças comuns atualmente. A tecnologia tornará uma realidade a produção de órgãos através da genética, tornando possível transplantes sem riscos de rejeição e sem depender de doadores.
E a política? Continuará funcionando da mesma forma ou as decisões serão tomadas através de plebiscitos em tempo real, tornando desnecessárias as representações parlamentares?  Assim, sem intermediários, a sociedade poderá ter um papel mais participativo nas decisões de interesse público, eliminando-se a corrupção ou decisões em função de interesses corporativos.

A sustentabilidade será algo sério em 2050, pois as grandes mudanças climáticas exigirão de governantes um cuidado maior com os recursos naturais. A governança mundial como a ONU poderá ter um papel mais relevante e com maior autoridade, evitando que decisões nacionais tenham impacto negativo no planeta. Enfim, o nacionalismo xenófobo poderá estar sepultado definitivamente, prevalecendo as decisões que levem em conta que a terra é a nossa pátria e não uma divisão geográfica construída historicamente.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

AO VENCEDOR AS BATATAS E OS ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL

Num belo e ensolarado dia, o antropólogo de origem polonesa e radicado na Inglaterra, Bronislaw Malinovski,  desembarcou nas ilhas do Pacífico Ocidental numa expedição patrocinada pelo governo inglês para fazer uma pesquisa sobre a cultura dos povos da região no início do século XX. Para não se contaminar com os relatos de comerciantes patrícios, evitou manter com eles qualquer tipo de contato e foi diretamente à fonte.  O seu receio é que a visão etnocêntrica ou mesmo preconceituosa dos estrangeiros poderia influenciá-lo em sua missão de estudar a cultura desse povo.
Assim, autorizado pelo chefe tribal, montou acampamento no meio da aldeia e a partir daí começou a árdua tarefa de aprender o idioma, os costumes, as estruturas familiares e de relações sociais, o sistema econômico etc., usando como forma de sedução o fumo que trazia em sua bagagem, muito apreciado pelos nativos. Os nativos fanáticos pela nicotina proporcionada pelo tabaco plantado no sul dos Estados Unidos, muito se esforçaram para que Malinowski aprendesse os rudimentos do idioma para obter as informações de que necessitava.
E assim Malinovski mergulhou na tarefa de conhecer os papuas, pigmeus, dobus, tobriandeses etc.  Entre os Dobus, ele observou que as mulheres são amistosas e agradáveis em todas as classes sociais, não preservam a castidade e a liberdade sexual é bastante ampla. O casamento é muito simples e quase sem cerimônia. Em resumo, a mulher vai morar na casa do marido e ponto final.
A estrutura de parentesco era matrilinear, ou seja, é a mãe que definia a relação de parentesco com os filhos e não os homens, o que de certa forma ocorre com os judeus.  Assim, se a mãe é judia os filhos são judeus, no entanto se apenas o pai o é, não há uma comprovação automática. No entanto, o poder político era e continua masculino. A fidelidade no casamento era esperada, mas não era uma obrigação e a mulher podia procurar outro marido sem maiores dificuldades. A família da mulher tinha obrigações econômicas em relação ao casal. A herança era transmitida do homem para os filhos das suas irmãs e não havia nenhuma obrigação em relação aos seus filhos. Acreditavam que o papel do homem era secundário na procriação e os pais eram vistos, pelos próprios filhos, mais como um amigo do que como genitor. Era expressamente proibido a um homem gracejar ou falar livremente com uma irmã ou na presença dela ou mesmo olhar para ela.
O chefe tinha o direito de exercer a poligamia e as famílias de suas esposas pagavam a ele tributos em forma de alimentos com os quais ele honrava seus compromissos ou dava festas, cerimonias ou reuniões tribais. Como o principal produto cultivado na região são as batatas, um chefe poderoso tinha muitas batatas e com elas podia dar suas festas, receber outras tribos e fazer comemorações.
E acabei de reler o romance Quincas Borba do velho e bom Machado de Assis e o associei à pesquisa de Malinowski nas ilhas do Pacífico Ocidental.  Será que Machado ficou sabendo do costume dos habitantes da região em cultivar batatas e que elas se constituíam na sua principal riqueza? Quem sabe, mas Machado só publicou o romance em 1891. Entretanto, bem que poderia ter tido acesso a informações sobre esse povo por meio de relatos de viajantes. Infelizmente a cultura dos povos da região foi contaminada pelos vencedores ocidentais que acabaram proibindo as suas formas tradicionais de estrutura familiar e outros costumes. Assim, “ao vencedor as batatas”, como diria o sábio criador do Humanitismo.


PAIS E FILHOS


Um velho amigo, quando jovem, contou numa roda que havia dando uma bronca num grupo de marmanjos que humilhavam um bêbado acompanhado do seu filho. Pelo que me recordo foram essas as suas palavras: “Vocês não podem fazer isso com esse homem perto do seu filho. O pai é o maior herói de uma criança. Vocês estão destruindo suas referências”. Fiquei orgulhoso do meu amigo que se arriscou ao desafiar uma turba ignara em defesa de uma criança.
O escândalo protagonizado pelo ex-governador Sérgio Cabral Filho e que envolveu o desvio de milhões de reais a título de propinas fez com que muita gente se lembrasse do seu pai, o velho Sérgio Cabral, jornalista competente, especializado em música popular brasileira, letrista, redator do lendário Pasquim, o semanário que ousou bater de frente com a ditadura.  Pobre do Sérgio! Dizem todos os que o conheceram e leram suas colunas e reportagens.  É triste chegar ao fim da vida e ver o filho nas manchetes policiais como um dos maiores larápios que o Rio de Janeiro já conheceu. Felizmente para o Sérgio pai, sua mente já não funciona mais. O mal de Alzheimer faz com que não se lembre de quem ele é ou quem ele foi e tampouco se tem um filho ou não. Tudo é indiferente para ele, pois vive praticamente vegetando.
Mas algo me intrigou ao reler a biografia de Cabral pai e ver que após alguns mandatos de vereador ele foi presenteado com um invejável cargo de conselheiro do tribunal de contas do município do Rio de Janeiro. Depois de três mandatos de vereador foi nomeado Conselheiro do Tribunal de Contas do Município, onde se aposentou em 2007. Por que o privilégio? Sérgio pai era jornalista e cá entre nós, seus conhecimentos contábeis não iam além da sua conta bancária, pois nunca militou nesta área durante sua carreira jornalística, mais focada em músicas e letras do que em números.  Assim, quero crer que a nomeação para conselheiro do tribunal de contas é um jeitinho bem brasileiro de se presentear amigos e garantir-lhes um final de vida confortável.
O caso Cabral é o pai, mas tem também os casos dos filhos. Isso me faz lembrar do menino chamado Michel Temer Filho, cujo pai, que tem idade para ser seu avô ou até bisavô, alcançou o cargo máximo da república tupiniquim. Pobre menino rico, que é obrigado a ouvir dos coleguinhas de classe expressões pouco lisonjeiras sobre a honestidade do pai. Convenhamos que deva ser difícil e doloroso para uma ele ouvir certos adjetivos sobre aquele que sempre é o maior herói para uma criança. O sofrimento do pequeno Michel deveria ter sido previsto pelo pai, que mesmo depois de tantas operações da Lava-Jato, se aventurou por mares perigosos, mais de uma vez.
Um pai honesto e decente ter um filho acusado de corrupto é difícil, mas acredito que deve ser mais suportável do que uma criança ouvir a mesma acusação sobre o pai. Com certeza o pai se perguntará: Onde foi que errei? Por outro lado, a criança está em formação, sua personalidade ainda está em construção. Os valores que lhe são ensinados na escola e pelos pais ainda estão sendo digeridos. As suas maiores referências são os pais e como um deles está na boca do povo, é como se tivesse perdido o seu principal ponto de apoio, principalmente porque ontem parecia um herói e hoje um homem ameaçado de perder o mandato e até ser preso caso seja condenado por corrupção passiva.
Quanto ao meu velho amigo, hoje médico, penso que não deve estar muito preocupado com o Michel filho, pois a maioria das pessoas do país está em campo político oposto ao Michel pai. Mas foi a lembrança do seu comentário em idos tempos que me fez escrever esta crônica sobre a vergonha de pai e a vergonha de filho.


OS BONS E VELHOS ALFAIATES

Foi-se o tempo em que se ia ao alfaiate para fazer uma roupa. Escolhía-se o tecido no próprio profissional ou levava o corte da preferência adquirido em lojas especializadas em tecidos, que hoje não sei se ainda existem.   Em seguida em tiradas as medidas. Braço esticado, braço encolhido, altura, largura etc. A próxima etapa era a primeira prova. Com o paletó semi-costurado fazia-se a primeira prova, depois a segunda e às vezes a terceira. Finalmente pronto, a última prova para não ter reclamações posteriores. Fazia-se um costume (ainda se chama de terno que a rigor é um costume de três peças, incluindo o colete) para um casamento próprio, para ser padrinho ou como convidado.  Era comum fazer um bom terno para uma festa de formatura dependendo de quem era o formando.
No meu bairro havia um alfaiate chamado Genivaldo, uma figura simpática, gentil e de finíssimo no trato. Depois de entrar no seu atelier, ninguém escapava sem sair de lá com uma encomenda. Não havia alternativa.  Se não era um “terno”, era uma calça ou um blazer. Com sua calva reluzente e fala macia ele convencia todos com a boa conversa de vendedor. Fui lá pela primeira vez com um amigo e me tornei freguês, gastando bons trocados em roupas enquanto morei em São Caetano do Sul.
Depois de mudar para a vizinha São Bernardo, minhas visitas foram rareando até nunca mais visitar a alfaiataria do Genivaldo que tinha uma propaganda de gosto duvidoso: “Adão não se vestia porque o Genivaldo não existia”. Não era nada original, pois essa propaganda estava em todas as cidades do país.
Quem vai à alfaiataria hoje em dia? São poucos, ou melhor, raros. Os alfaiates quase desapareceram, pois as confecções com preços acessíveis, qualidade aceitável, acabaram com os mestres alfaiates com seus cortes bem feitos, caimento e costuras impecáveis que se tornaram obsoletos. Os trajes no passado duravam muito tempo, mas hoje são descartáveis. A moda é muito dinâmica e faz com as pessoas abandonem os costumes que ficaram fora de moda. Além disso, usar paletó e gravata é hoje restrito a poucos executivos. Foi-se o tempo em que o Cine Vitória em São Caetano não permitia a entrada de homens sem paletó.  Até meados dos anos sessenta não se frequentava a casa da namorada sem o traje passeio completo. Era preciso muita intimidade com a família para comparecer sem o mínimo de elegância. Até para morrer, antigamente, se exigia um bom terno, mas hoje nem esse detalhe da elegância masculina está sendo respeitada. Chegar ao paraíso ou ao purgatório mal vestido era considerado de mau agouro, diziam os antigos.
Essa história me faz lembrar o empresário Antônio Ermírio de Moraes que disse, com orgulho, que o terno de casimira inglesa que ainda usava foi do seu pai, um velho político dos anos cinquenta, José Ermírio de Moraes. Ele afirmou que o reformou e ainda estava impecável. Parece estranho que um bilionário reformasse roupas velhas, mas acredito que era para dar exemplo aos seus funcionários sobre a simplicidade e economia e despistar pedidos de aumentos.
Nesses dias li uma reportagem em que muitos jovens estão abraçando as profissões que foram de seus avós ou bisavós, como açougueiros, merceeiros, cabelereiros e os próprios alfaiates. Não sei se é por causa da crise econômica ou por nostalgia dos tempos em que uma boa profissão era aquela em que as pessoas se sentiam felizes realizando um trabalho e não aquelas novas que dão mais status como médico, advogado, engenheiro, administrador etc. Oxalá os alfaiates retornem para confeccionar roupas sob medida, com caimento impecável e qualidade a toda prova. Bom quem sabe poderei mandar fazer meu derradeiro terno (com três peças) e usá-lo na última viagem.
Quanto ao alfaiate Genivaldo, soube que tentou dar uma tacada de mestre, mas foi mal sucedido. Comprou um grande lote de tecidos por um preço generoso, mas um incêndio devorou o seu estabelecimento e o levou à falência.  A bela mulher do Genivaldo, diante da tragédia o trocou pelo dono da padaria em frente, que diziam as más línguas já era um caso antigo.  E o pobre Genivaldo precisou vender tudo o que tinha para pagar as dívidas e foi trabalhar de empregado em uma alfaiataria, outrora concorrente. Soube por outros que já não era o mesmo profissional, pois trabalhava de cabeça baixa e escondia sua simpatia para usá-la em dias melhores.
A história do Genivaldo terminou enquanto fazia um extra para terminar um terno num final de ano, justamente para o dono da padaria. Um disparo que foi ouvido numa noite chuvosa de dezembro tirou a vida de um outrora próspero alfaiate. O seu patrão lamentou que a roupa encomendada ficara estragada com o sangue e amargou um bom prejuízo, mas não dedicou uma só palavra ao pobre Genivaldo. Com a tragédia os fregueses desapareceram e a alfaiataria acabou fechando, deixando de entregar vários ternos pagos antecipadamente.



CHAPÉUS RAMENZONI, UMA QUESTÃO DE CLASSE
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São Paulo até o início dos anos sessenta ainda era elegante. Nenhum homem de bem saia de casa sem um terno de casimira, gravata e um bom chapéu cobrindo a cabeça. Os chapéus eram um caso a parte, pois se tinha lá para todos os gostos e bolsos. Um Ramenzoni, confeccionado com lã de ovelha era o fino da elegância.  Lembro-me que ainda de calças curtas pedi um ao meu pai que respondeu que ainda não era tempo. Quem sabe um dia, quando me tornasse um homem de verdade poderia ter um ou até herdaria o seu Ramenzoni marrom,  aba estreita que ele cuidava com especial zelo. Para ele um menino de dez anos era apenas um projeto de homem.
Ao chegar em casa ele tirava o chapéu, escovava-o e o repunha na sua caixa ovalada, colocando-o no guarda-roupa. Era um chapéu de passeio. No dia a dia usava outro mais simples e surrado.  Ai de quem tocasse nele! Mas como toda criança levada, fazia ouvidos de mercador e, na sua ausência, me admirava diante do espelho prevendo o dia em que teria o meu e poderia encantar as moças elegantes na Rua Direita.
A fábrica de chapéus Ramenzoni era lendária em São Paulo. Foi fundada pelo italiano Dante Ramenzoni em 1894. Ele trouxe de Parma, sua cidade natal, as técnicas de produção de chapéus e aqui recomeçou a fabricá-los aproveitando a oportunidade de um país que crescia muito rapidamente. Nos anos 1950 a fábrica chegou a produzir 6000 chapéus por dia e ainda havia outros fabricantes como Cury e Prada, também conceituados. Mais de 1800 empregados sustentavam suas famílias fabricando chapéus e fazendo a fortuna do velho italiano e seus descendentes. A indústria chapeleira era tão importante que nos anos 1917 tivemos a primeira grande greve paulistana, chamada de Greve dos chapeleiros. As condições de trabalho eram muito difíceis e os direitos eram poucos ou inexistentes.
Mas os chapéus caíram de moda. Mudanças culturais aqui e no mundo, aposentaram as belas coberturas de cabeleiras ou de reluzentes carecas.  As moças já não se incomodavam  com rapazes elegantes tirando parcialmente os chapéus para cumprimenta-las. Passaram a apreciar as cabeleiras bem penteadas ou em desalinho e somente alguns carecas ainda insistiam em usá-los para disfarçar a calvice. Os filmes americanos já não mostravam homens de chapéu e galãs como James Dean dirigindo seu Porsche com os cabelos ao vento encantavam mais as garotas do que circunspectos homens de terno e chapéu.
Outra mudança foi no clima e a velha garoa que caia em São Paulo quase todo final de tarde, inspirando poetas e seresteiros, desapareceu com o desmatamento e expansão urbana.  “Eh São Paulo! São Paulo da Garoa, São Paulo terra boa!”. Sem garoa e sem astros de Hollywood usando chapéus, a Ramenzoni fechou suas portas em 1972. A marca ainda existe, mas quem fabrica é a Cury, que adquiriu os direitos de usar o nome.  “Não é a mesma coisa”, diria meu pai, um fã ardoroso da marca que ainda usava o seu cobrindo a calva, mesmo sendo considerado um hábito démodé.
E de fato herdei o seu Ramenzoni, mas precisei disputa-lo com uma sobrinha, que por ser a neta mais velha e com sobrenome italiano, arvorou-se de direitos. Por fim ela concordou que deveria ficar comigo o chapéu símbolo de uma São Paulo que não existe mais, pois ainda poderia usá-lo nas raras tardes em que a garoa despenca dos céus como um choro triste e cheio de saudades: “Eh São Paulo! São Paulo da garoa, São Paulo terra boa”.



FOTOGRAFIAS

Fotografar hoje em dia é brincadeira. Qualquer celular é capaz de fazer bons registros de pessoas, viagens, encontros, desencontros e inúteis paisagens. Antes da popularização das câmeras fotográficas, fazer retratos era coisa para profissionais e as famílias faziam os seus registros em estúdios, com fundo decorado e iluminação apuradíssima. Mas havia também os velhos lambe-lambes que percorriam ruas e praças para registrar imagens.
O que será da fotografia? Com as câmeras digitais e celulares fazemos centenas ou milhares de fotografias, mas quase ninguém as revela em papel. Com o tempo poderão até desaparecer. Quem poderá garantir que daqui a cem anos poderemos acessar fotos que ficaram guardadas em câmeras digitais, computadores que ficaram obsoletos? É uma incógnita. A tecnologia coloca hoje os registros feitos em celulares em “nuvem”, mas se ocorrer um ataque de hackers que apague tudo? A história das imagens poderá ser perdida para sempre.
De tempos em tempos minha mãe pegava toda a tropa bem arrumadinha e lá íamos fazer um retrato no japonês que ficava na Rua Manoel Coelho, perto da estação. Mandava fazer várias cópias e as enviava para os parentes do interior com as dedicatórias nos versos. “Aceite esse retrato como prova do nosso afeto e amizade”.  Mas também se recebia retratos, com as mesmas dedicatórias. Outro dia expiando um velho álbum de família encontrei figuras desconhecidas que ninguém mais sabia quem eram. Só minha mãe, se viva estivesse, seria capaz de decifrar. Num dos retratos aparecia um bigodudo com cara de árabe. Era o Mané Turco, que de turco não tinha nada. Era o sírio Mamede Abdul, um velho amigo da família que ganhava a vida como mascate na região Noroeste de São Paulo. Tinha também um japonês, amigo inseparável do meu pai na juventude, Ishiso Mishikawa, que teve a paciência de ensinar um pouco do idioma do Sol Nascente para o meu velho, desde que ele lhe ensinasse português.
Meu sonho era ser fotógrafo. Achava o máximo ser profissional da fotografia. Mas era preciso, primeiramente ter um câmera fotográfica, o que realizei com o salário do meu primeiro emprego. Era uma Olympus Trip com a qual gastava os tubos para comprar filmes e revelá-los. Era só alegria. E muita emoção em tirar fotografias e depois curtir a ansiedade para ver o resultado. Levava uma semana até a retirada do pacote para a alegria ou tristeza, dependendo da qualidade das imagens.
Um jornalista e fotógrafo, Carlos Clementino Lacerda, ao ver as minhas primeiras fotografias fez uma análise crítica, mostrando onde eu havia acertado e onde errei feio. Tinha mais erros do que acertos. Mas ensinou-me elementos básicos de enquadramento, foco, luz, fundo etc. Por fim desisti de ser fotógrafo, pelo menos profissionalmente. Mas dois amigos, Edélcio Thenório e Sonia Nabarrete resolveram viver de fotografias e montaram um estúdio em São Caetano, o Inay.  Ele estudante de Letras e ela de jornalismo. Cada um com sua câmera registravam casamentos, festas, batizados e outras milongas até que num casamento de uma família burguesa, as duas câmeras falharam, não saindo uma só foto para o registro do evento. Uma tragédia.
Como dizer para os nubentes que não tinha nenhuma foto? O negócio foi inventar uma história bem trágica para sensibilizar os noivos e familiares. Um assalto à mão armada que naqueles tempos ainda assustavam. Explicaram aos clientes que os meliantes levaram tudo, câmeras, flashes, tripés, carteiras, casacos etc. Foi uma tristeza para os dois lados. Não sei como a história foi resolvida, mas imagino que os noivos, padrinhos e familiares voltaram à igreja só para as fotografias retroativas. Essa história era contada aos cochichos entre os amigos mais próximos, pois se a verdade chegasse aos noivos poderia gerar até um processo por danos morais. Hoje, depois de tanto tempo, se souberem, provavelmente mostrariam largos sorrisos com a história, caso ainda lhes tenham sobrado os dentes.
A experiência que teria sido cômica se não tivesse sido trágica, desanimou os dois com a atividade empreendedora.  Thenório virou bancário e a Sônia Nabarrete continuou fotografando, mas para ilustrar as suas reportagens como jornalista de um jornal local.
Aliás, é bom registrar que foi o Edélcio Thenório que me orientou na aquisição da minha primeira câmera reflex, Asahi Pentax, que estreei quando nasceu minha única filha.  Coloquei o filme colorido de 36 poses e preparei o coração para as grandes emoções - o nascimento e as fotografias.  Cliquei mãe e filha desde as primeiras horas, a saída do hospital, a chegada em casa, a primeira mamada etc. Mas ao abrir a câmera descobri tardiamente que o filme havia escapado. Depois de um mês, nenhuma foto da filha. Hoje penso que a minha tragédia foi pior do que a do casamento burguês, que de uma forma ou outra acabou sendo resolvida.

De todo modo a fotografia tradicional ou digital ainda é uma arte, pois o olhar da câmera é o olhar do artista. Ele ou ela podem ver coisas que as pessoas comuns não veem. Dizem que o diabo está nos detalhes de tudo, mas em fotografia é o olhar de artista que está lá.