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domingo, 18 de junho de 2017

Brasileiro profissão esperança



Ser brasileiro
Não é apenas uma nacionalidade
Ser brasileiro
Não é apenas uma cultura, um idioma,
Ser brasileiro
Não é apenas samba, carnaval e futebol
Ser brasileiro
Não  é  só  trabalho, não é só dinheiro
Ser brasileiro
É esperar o tempo das coisas
Coisas boas e ruins
É ter uma oração pra cada tristeza
É ter uma oração pra cada alegria
É ver poesia em cada palmo de estrada
É esperar o amanhã como se espera um filho
Ser brasileiro é esperança

Brasileiro: profissão esperança

UM ESTRANHO HOMEM



Ele surgiu do nada no meio da confusão. Suas roupas eram estranhas, parecendo um beduíno, carregando um saco com seus pertences. De repente viu policiais batendo nas pessoas com cassetetes, jogando bombas de gás lacrimogênio ou atirando balas de borracha. Sua primeira reação foi interceder para que as pessoas não se machucassem, mas acabou apanhando também. De nada adiantou se explicar que estava tentando ajudar as pessoas que estavam sendo castigadas sem motivo.
- Vocês não sabem quem eu sou? Estou aqui para uma missão muito importante que meu pai me encarregou. Vocês não podem bater nessas pessoas. Ninguém tem direito de castigar o próximo.
O policial não pensou duas vezes e deu-lhe um tremendo safanão que ele caiu há alguns metros. Machucado pela queda continuou não entendendo nada. Nunca havia sido tratado assim, a não ser... Mas logo depois foi recolhido pelos policiais e levado para uma viatura algemado. Ficou pasmo com a situação, nunca imaginou que desta vez sua missão fosse tão rápida que não tivesse nem mesmo tempo para explicar a que veio. “Atirem a primeira pedra aqueles que nunca erraram”, gritava dentro do camburão.
Esse cara deve ser um fanático maluco. Deve ser de uma seita evangélica achando que vai salvar a humanidade, comentou um policial. Os outros riram e também não deram importância para o clamor do homem.
Na delegacia ele ficou junto com outros detidos na manifestação. A maioria era de jovens estudantes que não estavam intimidados com a situação. Conversavam normalmente, trocando ideias sobre como deveriam agir na próxima vez e contavam que seriam libertados em breve, pois não havia acusação formal contra eles. Os jovens acharam estranho aquele homem com aquelas roupas exóticas, um tipo de manto sobre o corpo e calçando uma velha sandália de couro cru. Perguntaram-lhe quem era e o que estava fazendo na manifestação, mas ele estava tão cansado e machucado que não teve forças para responder.
A noite chegou e nada dos jovens serem libertados. Todos famintos e esgotados e nem sinal do delegado que iria pegar os depoimentos e depois fichá-los e libertá-los. Alguns dormiram e outros continuaram discutindo questões políticas e estudantis, planejando como seria a próxima manifestação, sempre acreditando que seria arrasadora, que abalaria  os pilares do estado. Como o homem estranho havia acordado, um dos estudantes perguntou quem era ele e o que estava fazendo na passeata. Ele repetiu a mesma ladainha que fez diante dos policiais, mas já se retraindo com medo de que fossem também atacá-lo.
- Calma, calma, não vamos machucá-lo. Somos amigos, disse um dos estudantes. Estamos fazendo um movimento para derrubar o governo. São uns fascistas que estão no poder e querem ferrar com o povão.
- Vocês não devem lutar contra o governo. Lembrem-se: A César o que é de César. A Deus o que é de Deus”. Eu não sou daqui, não pertenço a este lugar.
- Como assim? Você é um estrangeiro ilegal? Tem passaporte? Como entrou no país? Perguntou um estudantes, observando que ele tinha um sotaque levemente estranho, apesar de falar bem o português.
- Vocês não me entenderam. Eu não sou daqui. Sou de outro lugar. Estou aqui em uma missão, o meu pai...
Nisso um dos estudantes começou a cantar uma ciranda do folclore baiano, gravada pelo Caetano Velloso: “Eu não sou daqui, marinheiro só, eu não tenho amor, marinheiro só...” E todos caíram na gargalhada.
Logo depois entrou um policial e chamou o homem estranho para ser identificado e liberado. Diante do delegado reclamou que foi agredido sem que tivesse ao menos ameaçado o guarda. Achou uma injustiça o que fizeram com ele e com os jovens que também foram presos. O delegado fez de conta que não ouvia as reclamações e ordenou ao escrivão para que tomasse as digitais do homem e providenciasse a fotografia. Em seguida perguntou pelo seu nome, endereço, profissão. Ele não entendeu nada do que foi perguntado. Disse que veio direto para a rua e ainda não sabia onde ficaria. Talvez numa rua qualquer. Um cantinho protegido da chuva e dos bichos seria suficiente para ele.  Nome? Por que haveria de dizer seu nome? Quem és tu? Perguntou. És o César?
- Aqui não tem ninguém que se chama César. Vai falando logo que eu não tenho tempo a perder. Nome?
- José
- José de que?
- Bem, sou José de Belém.
-Escrivão!  Escreva aí: José de Belém. Profissão?
- Sou pedreiro e carpinteiro.
- Está liberado, mas se você aparecer de novo por aqui vou botá-lo em cana por uns meses para aprender a não desacatar autoridade policial.
Ele continuou não entendendo nada. Pegou sua sacola e saiu em direção à rua. Agora estava tudo calmo, tranquilo, apenas as pessoas circulando e todas com muita pressa. Tentou em vão abordá-las. Queria conversar, mas ninguém lhe dava atenção. Cansado, sentou-se sob uma marquise e ficou observando o movimento. Era uma igreja. Tentou entrar, mas as portas estavam fechadas. Como uma igreja pode estar com as portas fechadas? Falou pra si mesmo.
Estava escuro e o movimento da rua foi diminuindo só restando uns mendigos que reclamaram que ele estava ocupando um lugar que já tinha dono.
- Como? Não há dono da casa do Senhor, respondeu irritado.
Os mendigos riram e se afastaram para outro local, onde colocaram uns papelões para passar a noite. Ele continuou ali estranhando aquele lugar onde ele foi parar. Não conseguia entender porque Deus o deixou ali, sem nenhuma explicação. Sabia que o Pai escrevia certo por linhas tortas, mas deveria ter algum sinal para que entendesse a sua missão. Mas conformou-se, repetindo: Deus sabe o que faz, Deus sabe o que faz...
No meio da madrugada os mendigos voltaram e ao perceberem que o estranho homem estava dormindo, foram ver o que havia em sua sacola. O barulho o acordou e, por instinto, tentou reagir, mas eram três mendigos e estavam com pedaços de pau que usaram para bater no homem até deixá-lo desacordado. Ele sentiu uma grande dor nas costas e na cabeça por causa das pancadas. Tentou acordar, mas sentiu suas forças esvaírem.
Abriram a mochila e encontraram um livro em um idioma que desconheciam, uma pequena caneca de estanho e um crucifixo de madeira. Junto um manuscrito enrolado, também num outro idioma. Como não viram nada de valor, largaram tudo e se afastaram para evitar problemas, pois o homem poderia ter morrido.
Pela manhã ele foi encontrado já frio e sem vida. Um judeu que passava por ali viu o livro e o manuscrito e resolveu dar uma olhada. Ele leu o manuscrito escrito em aramaico:
“A todos os homens de boa vontade”:
O portador deste é meu filho que estou enviando à terra para uma nova missão. Por favor, cuidem bem dele, pois não quero que ele sofra como da última vez”. Assinado: Jeovah. Depois de ler guardou o manuscrito, pensando em aproveitá-lo em seu antiquário, assim como o livro, o crucifixo e a caneca de estanho. “Ganhei o dia hoje, pensou o comerciante”.
Horas depois um camburão recolheu o estranho homem como indigente, levando-o para o IML, onde analisariam a causa mortis e ficaria aguardando algum parente reclamar. Ninguém reclamou. Nenhum parente, nenhum amigo deu por falta dele. Depois de algum tempo, foi sepultado numa vala comum, com outros indigentes, que as dezenas são sepultados todos os dias.
O comerciante de antiguidades colocou as peças em exposição colocando um bom preço por elas, pois pareciam autênticas e em bom estado.




quinta-feira, 4 de maio de 2017

O CORTIÇO EM SÃO CAETANO


Na minha rua havia um cortiço. Não era nada parecido com o do romance do Aluízio Azevedo, mas tinha lá as suas peculiaridades. O que chamamos de cortiço, regra geral, é uma casa dividida em cômodos com várias famílias ocupando e compartilhando apenas um sanitário e o quintal. É claro que daí surgem os conflitos. Crianças jogando bola nas roupas penduradas no varal, brigas pela utilização do mesmo espaço, conflitos entre crianças e vai por aí.
Quando eu era criança havia pelo menos quatro famílias morando no local. Dona Encarnacion, com quatro ou cinco filhos ocupando apenas um cômodo. Seu marido a abandonara e só aparecia uma vez por mês para ver os filhos e levar a parca pensão. Coitada da Encarnacion era uma vida difícil.  Havia, também, uma antiga moradora do endereço, uma espanhola chamada Maria que vivia amasiada com um Cearense. Tinha uns quatro filhos do primeiro marido e mais uns três do segundo e ocupava dois cômodos. Diariamente ela saia pela cidade para esmolar. Voltava com um ou dois sacos repletos de roupas que nunca utilizava e as colocava no lixo. Era conhecida como Maria Louca, pelas suas extravagâncias, criando encrencas com toda a vizinhança por causa dos filhos. Ela tinha um filho mais velho, chamado Juarez, briguento como ele só. Durante as peladas sempre nos desentendíamos e era briga na certa. Eu sempre levava a melhor, mas ele atirava pedras para se vingar e o jeito era correr antes de levar uma na cabeça. O Juarez e os irmãos eram crianças de rua e meus pais não gostavam que nos brincássemos com eles, mas ninguém levava isso muito a sério. Minha mãe tinha pena das crianças e sempre que percebia que estavam famintos, oferecia um prato de comida. Uma vez meus pais chegaram à noite e encontraram o Juarez dormindo em nossa varanda. Estava um frio de rachar e minha mãe o acomodou em casa com direito ao café da manhã.
Um senhor que lá morava era o mais atípico. Vestia-se com elegância, sempre com camisas bem passadas e gravatas bem ajustadas no colarinho.  Saia todas as noites e nos fins de semana circulava pelos bares do bairro. Sabia-se que trabalhava na Volkswagen, mas nunca comentava o que fazia por lá.  Todos se perguntavam para onde ia o seu Donutti? Sua mulher, dona Clarice, era uma coitada. Além de trabalhar fora, fazia a dupla jornada, cozinhando e lavando para a família. O casal tinha três filhos, sendo o Vanderlei o mais velho que se juntava com a turma nas peladas da rua. Para complicar, a família hospedava o irmão solteiro da dona Clarice, que provavelmente dormia na cozinha, já que a casa tinha apenas um quarto e cozinha. Ficava imaginando o desconforto do moço, que também se vestia com elegância, sempre de paletó e gravata. Dizem que trabalhava em um banco e que falava inglês fluentemente. Depois de algum tempo passou a dar aulas de inglês à noite e saiu da casa da irmã, aparecendo por lá eventualmente para uma visita rápida.
Morou lá também uma família de negros. O José Luiz era muito alto e magro e se parecia com um Neuer (povo africano da África Central que o antropólogo inglês Radcliff Brown estudou). É claro que na época nunca havia ouvido falar no Radcliff.  Ele era muito esperto e hábil em catar balões e pipas quando caiam em nossa rua. Era uma família muito fechada e sabia-se muito pouco sobre eles. Todos tínhamos medo do Zé, pois além do tamanho, era muito rápido com os pés e mãos.  Mas ficaram pouco tempo na casa e logo se mudaram para outro bairro o que nos deu alívio, pois nos livramos do habilidoso catador de balões e pipas. 
O dono do cortiço era um judeu que passava todos os meses para receber os aluguéis. Vinha em um velho Chevrolet dos anos cinquenta, dirigido pelo filho. Parava o carro em frente a casa e o filho chamava os inquilinos para o acerto de contas. Como era raro aparecer um carro por lá, a molecada parava a pelada na rua para admirar o carrão que só víamos nos filmes americanos nas matinês de domingo.  Às vezes algum dos moradores não tinha dinheiro e o velho judeu saia furioso do carro balançando a sua enorme pança e gritando impropérios. O filho procurava acalmá-lo e depois de algumas negociações, iam embora.
Tempos depois o judeu vendeu a propriedade e os inquilinos precisaram se mudar. A primeira foi a dona Clarice com o seu marido elegante. Em seguida mudou-se a Maria Louca, depois de se separar do seu Júlio, um cearense que parecia um índio e arranjar outro marido que tinha uma propriedade em outro bairro. Dona Encarnacion, com todos os seus filhos mudou-se para a mesma rua, mas morreu de câncer logo depois. Ela tinha uma filha chamada Julia, uma garota bonita, com pernas morenas e roliças que deixava a mostra em seus vestidos curtos. Nos meus nove ou dez anos, já fazia planos para levá-la à matinê, mas nunca deu certo, pois faltou coragem para fazer o convite e eu achava que ela toparia, pois me devorava com seus olhinhos de ressaca.
Com o fim do cortiço, acabou-se também a minha infância, as peladas de rua e as brigas intermináveis sobre se foi ou não foi gol, se foi bola na mão ou mão na bola ou quem era o melhor time do campeonato: Corinthians ou Palmeiras ou o Santos? O mais chato mesmo foi a falta que senti da Júlia, a menina das pernas roliças que provocava meus hormônios e eu ainda não entendia muito bem por quê.


quarta-feira, 3 de maio de 2017

A TURMA DO PRIMÁRIO


Estudar depois do primário era praticamente um privilégio nos anos sessenta, pois não havia colégios públicos na periferia de São Caetano do Sul. O único ficava no centro e além da concorrência, ainda era preciso ter QI (ou quem indicou), termo usado na época para indicações políticas. Assim, quem terminava o primário ou ficava em casa ou arranjava um subemprego até completar catorze anos, idade permitida para trabalhar com carteira assinada. Foi o que aconteceu com vários dos meus colegas do Grupo Escolar Padre Luiz Capra. Poucos deles, como Elias Ladislau Pinto, Antonio Avelino, Arnaldo, Nelson Cabral de Lima, Ademir Duó, Piccinini, Roberto Ravagnani, Valter Corotti Trigo, Vagner Benedetti, Valter Belini entre outros foram estudar em um colégio particular, chamado Barão do Rio Branco.
Mário Corbalan Gomez foi um dos meus colegas de curso primário que não foi para o ginásio. Era um garoto bonachão, simpático e sempre sorridente. Ele era o filho mais novo de uma família de espanhóis e sua mãe já devia ter mais de quarenta anos quando ele nasceu.  Como morava a dois quarteirões de minha casa estávamos sempre nos encontrando; ora na rua, ora na igreja ou nas peladas num terreno baldio. Sua mãe às vezes ia chamá-lo durante as peladas gritando em um espanhol que só ele entendia. Depois do curso primário cada um seguiu rumos diferentes. Eu também fui fazer o ginásio no Barão do Rio Branco, graças a uma bolsa de estudos conseguida por contatos políticos do meu pai.  Quanto ao Mário, foi trabalhar com seus irmãos que tinham um caminhão para transportes ou coisa do gênero.
Com quinze anos também comecei a trabalhar, mas diferentemente do Mário, consegui um emprego em um escritório como aprendiz. Às vezes nos encontrávamos no ônibus quando voltávamos do trabalho. Eu com roupas limpas e mãos macias e ele com roupas sujas e mãos calejadas pelo trabalho duro de ajudante de motorista. Confesso que sentia algum orgulho por estar numa situação melhor do que a dele, mas ao mesmo tempo tristeza pela vida não oferecer as mesmas oportunidades para todos os meus amigos, principalmente para os companheiros de infância. Nesses momentos me lembrava de que mesmo tendo poucos recursos, meus pais faziam um grande sacrifício para que eu e meus irmãos pudéssemos ter uma vida melhor e a bem da verdade nem sempre correspondíamos.
                Chegou à época do serviço militar, quando pensei que seria o momento de reencontrar os velhos amigos da escola primária, onde aprendemos as primeiras letras com a professora Teresa Rami, uma mulher elegante, mas muito rígida com seus alunos. Mas qual! O Tiro de Guerra da cidade escolheu apenas os jovens que haviam estudado pelo menos o curso ginasial para o engajamento militar, quanto os demais, foram dispensados por excesso de contingente.  Era na realidade uma forma de exclusão social, não que fosse maravilhoso fazer o serviço militar estudando e trabalhando, mas era uma forma de fazer parte de um grupo, de participar de um ritual de passagem.
                Nesta época encontrei novamente o Mário no ponto de ônibus e ele comentou que estava desempregado. Como eu trabalhava no departamento de pessoal de uma empresa me ofereci para tentar lhe conseguir uma colocação. Passei-lhe o endereço da empresa, mas ele não apareceu, talvez por timidez.
  Dois dias depois quando voltava do serviço militar juntamente com o Ravagnani e Valter Belini, vimos uma movimentação estranha na casa do Mário e viemos saber que ele havia morrido afogado em uma represa em São Bernardo.  Entramos para dar os pêsames à família e lá ficamos por alguns minutos. Assim, três soldadinhos rasos prestaram a última homenagem a um ex-colega de escola desempregado que por falta de ocupação foi se divertir na perigosa represa que já havia levado e continuaria levando várias vidas de garotos das redondezas.  Antes de sair quebramos um protocolo da hierarquia militar e batemos continência diante do caixão de um civil que não havia sido convocado para o exército por não ter ido além do curso primário. Do pobre Mário só restou uma fotografia com toda a turma, tirada um pouco antes de concluirmos o curso primário. A sua história terminou cedo, bem  antes do tempo.



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

QUE HORAS ELA  VAI CHEGAR?



O filme se baseia numa história comum em nosso cotidiano. Uma empregada doméstica numa residência burguesa, que deixou a filha em Pernambuco aos cuidados de uma irmã. Mas a filha fica moça e resolve prestar vestibular para ingressar na USP.
Estaria tudo certo se a empregada doméstica tivesse a sua própria casa para receber a filha. Mas não. Ela mora no emprego desde que chegou do Nordeste ajudando a criar o filho do casal, pois a mãe trabalha fora e o pai, um rico burguês que recebeu uma herança, não faz absolutamente nada, tampouco cuidar do filho.
A dona da casa concorda que a filha da empregada venha morar em sua casa por um tempo suficiente para que ela se arranje. A partir daí as relações com a empregada começam a mudar. Antes ela era vista como uma pessoa da família, que ajudara a criar o filho do casal. Ela era ótima, pois não criava problemas e servia a família quase como um serviçal dos tempos coloniais.
Com a filha, avessa aos padrões de comportamento burguês, começa a quebrar as regras da casa, como comer o sorvete preferido do filho, sentar a mesa do café da manhã e entrar na piscina. Entrar na piscina foi demais para os patrões, que viram nisso uma invasão do seu espaço senhorial. A cena lembra um pouco a história vivida por uma cantora negra nos EUA que ousou entrar na piscina do clube de madrugada. No dia seguinte a piscina foi esvaziada e lavada, pois um ser considerado “inferior” ousou banhar-se no mesmo local dos seus sócios brancos.
Aos poucos a empregada que era tratada com todas as mesuras possíveis para uma empregada, principalmente, porque ela conhecia o “seu lugar”, começa a perceber as relações de classe, desencadeada com a presença da filha.  O lugar dela era da área de serviço para trás. Nos demais espaços da casa sua presença era permitida apenas para limpar ou servir.
O filme retrata do ponto de vista sociológico, o conflito de classe existente no cotidiano da vida familiar, não só das elites, mas também da classe média, cujos membros precisam trabalhar e dependem de alguém para cuidar da casa e dos filhos. A empregada se sente realmente da família, até o momento em que ultrapassa os limites estabelecidos pela família. A partir daí é convocada a se colocar no “seu lugar”.
Esse problema é mais comum do que se possa imaginar, pois após a empregada participar da vida familiar, funcionar muitas vezes como confidente, dando opiniões etc e tal, há o momento em que recebe uma bronca por um serviço mal feito ou por uma indiscrição. Nesse momento as relações de classe emergem como uma ruptura nas relações até então amigáveis. A partir daí se torna impossível à empregada continuar trabalhando na casa, pois se rompem as relações cordiais, que Sérgio Buarque de Holanda define, nas entrelinhas de “Raízes do Brasil”, como falsas, frutos  de interesses e relações de favores.
O filme, muito bem interpretado por Regina Casé merece ser visto, mesmo considerando que nem todo o elenco está à altura da protagonista. É também um filme divertido se não fosse também trágico.


CIGARRO DE PALHA


José, chefe de comitiva de boiadeiros, levava uma boiada para o Mato Grosso, quando deu uma parada para ver um boi que tinha se desgarrado. Foi aí que  apareceu o cavaleiro bem falante, que o abordou:

- O senhor teria fumo?

- Tenho, sim senhor, respondeu, oferecendo ao viajante.

- O senhor por acaso teria um canivete?

-Pois não, aqui está.

O homem picou o fumo caprichosamente, devolvendo o canivete e o tolete de fumo para José e mais uma vez perguntou:

- Não querendo abusar, o senhor teria palha?

- Tenho sim senhor, respondeu, entregando a palha ao homem.

Depois de enrolar o cigarro, o viajante ainda fez um novo pedido.

- O senhor me faria o obséquio de emprestar o fogo?

- Pode deixar que eu acendo, respondeu, pegando a binga e colocando o cigarro nos lábios.

Acesso o cigarro, José deu uma tragada e acenou para o viajante dizendo:

- Pode deixar que eu fumo pro senhor. E partiu a galope pela estrada se juntando aos demais da comitiva.


A POLÊMICA DA FEIJOADA


A feijoada é o prato da preferência nacional, não importa a classe social, a origem, a cor, a idade. Todos apreciam uma feijoada. Bem quase todos. Eu mesmo não sou um fã ardoroso do cozido de feijão com paio, linguiça, carne, toucinho, pé, joelho e outras partes do porco. Aliás, um suíno, parente do javali europeu que o nosso herói gaulês, Asterix e seu inseparável companheiro Obelix, preferiam assado na brasa.
Para harmonizar uma feijoada os brasileiros preferem a indispensável cerveja bem gelada, mas há controvérsias. Um amigo somelier prova, com bons argumentos, que o melhor acompanhamento para a feijoada, um prato de sabores fortes, é um bom Cabernet Sauvignon. A cerveja fermenta no estômago e deixa o comensal estufado, segundo ele. Mas há também aqueles que não dispensam uma caipirinha antes e durante a orgia gastronômica.
A origem da feijoada gera muita discussão. Meu querido amigo, o maestro Orlando Marcus Mancini, teimoso como ele só, diz que foram os escravos africanos que inventaram a feijoada durante os trezentos anos de escravidão, pois os senhores de engenho jogavam fora as partes menos nobres dos suínos abatidos e os escravos as recolhiam e despejavam em um caldeirão  com feijão.  Contra essa versão, a historiadora Mary Del Priori em seu belo livro Histórias da Gente Brasileira, diz que os senhores de engenho não gostavam de criar porcos porque ficavam muito selvagens. Gilberto Freyre, antropólogo e autor de Casa Grande e Senzala afirmava que os portugueses trouxeram o seu cozido de feijão com pedaços de carne de porco, paio, linguiça, pés etc e o adaptaram às condições dos trópicos. Logo se deduz que os senhores não deixavam nada para os escravos, que tinham que se contentar com a pouco nutritiva farinha de mandioca e algum calango ou outro bicho do mato que caçavam nas raras horas vagas.
Em verdade se comia muito mal no período colonial. Plantava-se muito pouco além da lucrativa cana de açúcar e, muitas vezes, faltava alimento para a subsistência dos próprios escravos. Em razão disso houve até um decreto de sua Majestade da metrópole portuguesa obrigando os fazendeiros a destinarem uma parte das terras e mão de obra para o plantio de alimentos para a subsistência , pois sem uma boa alimentação a produtividade dos engenhos caia, colocando em risco a economia colonial. Quem tinha dinheiro importava alimentos da metrópole, mas as condições de conservação eram péssimas e muitas vezes os suprimentos estragavam gerando problemas intestinais muito sérios.
Há também outra polêmica quanto ao estado natal da feijoada. Os cariocas afirmam que o Rio de Janeiro foi o berço dessa invenção da culinária, pois os escravos, depois da libertação em 1889, foram morar nos arredores da cidade maravilhosa trazendo essa iguaria a tira colo. Mas há aqueles que defendem que foi na Bahia que a feijoada ganhou as características atuais e depois a levaram para o Rio de Janeiro.
Mas há um detalhe que muitos se esquecem. Há uma versão da feijoada em cada país com as suas peculiaridades. Na França, o cassolet é uma feijoada branca com carne de porco, frango, coelho, linguiça e outros adereços. Em Portugal, conforme já mencionei, é o cozido português muito parecido com a feijoada, mas com feijão branco. Enfim, em todos os lugares do mundo onde se consome feijão, alguém sempre vai lembrar-se de colocar alguma coisa junto para melhorar o seu poder nutricional e deixar o cozido mais saboroso. O historiador francês Le Pen, afirmou que o feijão salvou a Europa da fome. A leguminosa, descoberta nas Américas foi levada e cultivada em solo europeu gerando fartura e melhorando a qualidade nutritiva da alimentação das classes menos favorecidas.
Polêmicas a parte, o feijão cozido com pedaços de porco, sejam de onde for, linguiça, paio e toucinho, acompanhado com molho de pimenta, couve refogada, farofa e arroz branco agrada a grande maioria dos brasileiros, seja no almoço ou no jantar, com cerveja gelada, caipirinha e até com vinho é comida para ninguém botar defeito.


FEITO EM CASA


Tornou-se um costume lá em casa criar um porquinho nos fundos do quintal, apesar das leis municipais proibirem a prática em área urbana. Mas meu pai fazia ouvidos de mercador mantendo um chiqueirinho com uma boa drenagem de água para criar um leitão à base de milho. A grande preocupação era manter o local sempre limpo e desinfetado para que nenhum vizinho reclamasse e acabasse por gerar uma multa e um prazo de 48 horas para se desfazer do bichinho.
Os porquinhos chegavam bonitinhos, engraçadinhos, mas acabavam crescendo e muito, tornando-se enormes, chegando a pesar mais de cem quilos. Nos primeiros dias ficava solto no quintal e nos divertíamos correndo atrás do animal. Mas logo ele era confinado e nosso trabalho consistia em limpar o local e abastecer o cocho com água e alimento.
Mas sempre chegava a hora triste, quando bicho, já enorme e arrastando a barriga no chão seria sacrificado para o deleite dos apreciadores de carne suína. Um dia antes meu pai combinava com um ou dois amigos para empreender a tarefa, que, diga-se de passagem, ele bem que gostava, pois se sentia como se estivesse na fazenda.  Os preparativos envolviam a afiação das facas e a preparação da lenha para o fogo. O porco parecia perceber que havia chegado a sua hora e começava a gritar bem antes do momento fatal. Isso me deixava angustiado e, não raro, tive crises psicossomáticas como febre alta e vômito. Ficava de longe e preferia não olhar, mas sabia exatamente o que aconteceria. Com um ou dois amigos segurando o porco, meu pai enfiava um longo punhal no coração do infeliz e em poucos minutos já estava morto. A segunda parte consistia em lavá-lo com água fervente e raspar a pelagem antes de abrir a carcaça.
Do porco se aproveitava tudo, menos, é claro, o grunhido. As vísceras como fígado, coração, rins etc eram iguarias disputadas. A pele era usada para fazer torresmo. Os pernis eram defumados para fazer presunto.  Os intestinos eram limpos e utilizados para fazer linguiça e chouriço. O restante da carne cortada em postas que eram fritas na própria banha do porco e assim conservadas por meses, uma antiga técnica de conservação de alimentos trazida pelos europeus antes das geladeiras.
Para mim tudo aquilo era um horror só, pois detestava carne suína e era obrigado a comê-la no almoço e no jantar e não via a hora de acabar aquela lambança para voltar ao franguinho ou a carne bovina. Em toda essa história, a única coisa que me dava prazer era o pão de torresmo, feito na padaria do bairro, sob encomenda, com a participação post-mortem dos nossos porquinhos. Com manteiga no café da manhã, era uma iguaria.
Os vizinhos e os amigos mais chegados eram presenteados com uma porção de carne, além de alguns passarem em nossa casa para fazer uma boquinha com o churrasquinho preparado pelo meu pai e seus amigos. O meu pai não bebia, mas sempre havia a cerveja gelada trazida pelos convidados.
Com o tempo essa tradição do interior, levada para a cidade por meus pais acabou. O custo do milho e algumas reclamações de vizinhos mal humorados e a fiscalização da prefeitura desanimaram o hábito; assim, a carne suína, a preferida do meu pai, passou a ser comprada no açougue ou no supermercado, encerrando mais um dos hábitos caipiras que os migrantes do interior traziam para a cidade grande.



Caminhas entre os mortos e com eles conversas...


Quando criança os mortos me assustavam e com eles tinha pesadelos que terminavam com um grito no meio da noite.  Hoje, com tantos entes queridos e amigos mortos perdi o medo e também a esperança de que eles voltam para puxar as nossas pernas como as histórias que as minhas irmãs mais velhas contavam para assustar os irmãos mais novos.
Minha mãe volta e meia sonhava com mortos: pai, mãe, irmãos e pelo menos com duas irmãs tinha sonhos frequentes. Uma dela se matou por ver seu amor proibido pela família e a outra se mudou para o Mato Grosso e nunca mais a viu. Com a última ficou uma pendência não resolvida. Era o remorso pela falta do perdão e de despedida. A que se matou era quase a sua mãe. Por ser a mais velha e minha mãe a mais nova, era quem cuidava dela enquanto a mãe cuidava da casa e das suas costuras. Quando minha mãe começou a ter demência senil, os seus encontros com os mortos ocorriam mesmo quando estava acordada. Quando ia visitá-la, às vezes, ela dizia: “Seu pai esteve aqui, conversamos bastante sobre nossa vida juntos e os filhos. Ele está preocupado com fulano e não é para estar?” Em outras ocasiões falava sobre o encontro com a irmã que nunca mais viu. Eram sempre momentos de perdões, arrependimentos e lágrimas.
Quando sonho com os mortos, estamos no cotidiano de nossa outrora vida familiar. Às vezes durante o sonho lembro de que eles estão mortos, mas na maioria das vezes nem me lembro disso. Mas isso acontece quase sempre na casa onde morávamos e na penumbra da noite. Meus sonhos sempre ocorrem à noite ou, raramente, no entardecer. Nunca pesquisei a causa, mas deve ser porque dormimos sempre à noite. Sonho com coisas absurdas, coloridas, músicas, discussões filosóficas, políticas ou literatura.
Tive um tio, casado com a irmã de minha mãe que era da seita Testemunhas de Jeová, que acreditava que depois do Armagedom, a grande batalha do bem contra o mal, os fieis ressuscitariam e voltariam à vida na terra e gozariam a eternidade felizes, sem guerras, tristezas, mortes, fome etc. Meu pai, um tanto cético, questionava, mas como a fé não deixa espaço para questionamentos, meu tio deslizava seguro de que o seu passaporte para o retorno da eternidade estava garantido.
A grande verdade é que o ser humano não se conforma com a morte, quando cessa a nossa história de vida e ficamos apenas nas lembranças dos parentes e amigos por algum tempo. Aqueles que fazem história vão para os livros, praças e ruas e podem ser lembrados por mais tempo, mas não pela eternidade, pois é muito pouco, pois sou pouco otimista de que teremos vida na terra nos próximos 100 ou 200 anos.
E foi no poema Elegia 1938, que o poeta Drummond escreve: Caminhas entre os mortos e com eles conversas/ Sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. E assim, a morte se torna companhia para os poetas, filósofos e teólogos, sempre com a pergunta: “Haverá vida depois?”. Nossos mortos nunca responderam e os seres humanos só encontram conforto nas palavras dos livros religiosos. Para os que creem, isso basta. Para aqueles que não creem resta o conforto da ciência: “Viveremos para sempre no DNA dos nossos descendentes, desde que os tenhamos”. Com bom humor Millor Fernandes assim se manifestou sobre a descoberta de múmias de três mil anos descobertas no Egito: “A morte pode não ser eterna, mas que dura muito tempo ninguém pode duvidar”.


UMA CACHAÇA DA BOA


Já estava perto do horário de almoço, quando chegou ao balcão do bar um homem de uns quarenta anos, se muito. Bem educado, perguntou pro Manoel, proprietário do bar se ele tinha uma cachaça da boa, daquelas de alambique pequeno, artesanal. “Mas tem que ser da boa mesmo, pois na minha terra é que tem cachaça de verdade. Sou lá de Minas, Salinas, a terra da cachaça, conheces”?
Manoel não conhecia Salinas, mas tinha uma cachaça de um fornecedor pequeno, mas de excelente qualidade, explicou orgulhoso. “Só ofereço pra quem entende, não é pra qualquer gajo”, disse no seu sotaque lusitano pegando uma garrafa na prateleira.
- Se é boa mesmo, então pode servir que eu quero provar, disse o estranho.
Ao encher o cálice, o aroma da cachaça impregnou o ambiente, deixando o homem entusiasmado. Nisso ele oferece a bebida para uns três frequentadores do bar, que prontamente aceitaram a oferta, diante do olhar incrédulo do Manoel.
- Pode servir, por favor. E faço questão que o senhor também brinde com a gente. Mais um copo para o senhor.
Manoel que não era dado a beber no trabalho ficou desconfortável, mas diante da insistência do cavalheiro aquiesceu. Brindaram e saborearam a boa cachaça, cuja garrafa custava três vezes o preço da comum. Terminado o brinde, o homem simplesmente agradeceu ao dono do estabelecimento e saiu sob o olhar estupefato de Manoel que ainda ameaçou gritar para sujeito.
No dia seguinte, na mesmo horário lá estava o homem novamente. Encostou a barriga no balcão, cumprimentou a todos e perguntou para Manoel: “Ainda tem daquela cachacinha boa”? Manoel pensou duas vezes na resposta e já ia dizendo: “Tem, mas pra quem pode pagar”, mas ficou só no pensar. Com os bofes remoendo respondeu secamente: “Ainda tenho cá, mas é muito mais cara”.
Pois então sirva pra nós e faço questão que o senhor também tome um trago, pois é merecido. Manoel engoliu a seco e repetiu o mesmo ritual do dia anterior servindo para os outros fregueses e para si mesmo. O homem levantou o brinde e bradou: “Saúde pra todos”. Agradeceu e já ia saindo do bar quando Manoel o alcançou e disse lá alguns impropérios. O homem, muito educadamente pediu que ele se acalmasse e que não havia necessidade de exaltação.  Mesmo assim, não pagou e seguiu seu caminho para o desgosto do velho português.
Mas no terceiro dia, eis que novamente o cavalheiro aparece à porta do estabelecimento, tira o chapéu, cumprimenta a todos e pede novamente a prestigiada cachacinha. Manoel se preparou para o pior. Hoje esse sujeito não me escapa, pois, pois.. pensou lá com seus botões. A cachaça foi servida ao homem, que ofereceu para uns três ou quatro, que aceitaram prontamente. Afinal não era sempre que tinham a oportunidade de saborear uma iguaria como aquela.
Faltava apenas oferecer ao Manoel, quando o homem disse bem humorado: “Pro senhor não, pois quando bebes ficas muito bravo.”.
E mais uma vez saiu em direção à porta, sem pagar a conta.






UM CRIME QUASE PERFEITO

Todas as sextas-feiras ele fazia serão. Ligava para Margarete e dizia que tinha uma reunião de final de semana para acertas os detalhes para a segunda feira. Além disso, sempre dizia, “vou para o happy hour com o pessoal do escritório”. Em verdade, era tudo conversa fiada. Margarete sempre acreditava ou fazia de conta, pois por mais que procurava se enganar, o cheiro de perfume de mulher nas roupas dele era indício de que havia algo mais do que um inocente happy hour com a turma do escritório. Mas ela era uma mulher conformada com a vidinha que levava. Não faltava nada em casa. Podia comprar suas coisinhas, ir ao cabelereiro, fazer as unhas e ainda tinha a sua mãe que morava com eles e os filhos. Nestor era um bom marido e não havia do que reclamar.
Na sexta-feira ele chegava por volta das onze e meia. Tomava um banho rápido e caia na cama, pois no sábado, bem cedinho, tinha o compromisso de ir com a família para a chácara em Ibiúna. Era uma rotina. Levantavam cedinho, mulher, crianças e a sogra no carro e pé na estrada. Mas neste sábado alguma coisa parece que estava dando errado. Viu um sapato de salto alto embaixo do banco do passageiro.
Começou a suar frio. Será que a Doroty, sua secretária, tinha bebido demais e esquecera o sapato no carro. Não é possível que ela tenha aprontado essa comigo, pensou com seus botões. Ela estava mesmo alta e estava com um sapato na mão. Será possível que a cretina largou o outro pé no carro? Calma, calma Nestor. Nada de desespero, que não vai resolver o problema. Maquinou uma solução. Distraiu a Margarete, pegou o sapato e o colocou do seu lado e ficou esperando uma oportunidade para distrair o pessoal, quando viu uma fazenda com o gado pastando num lugar bucólico.
- Olha que interessante esse lugar!  Disse apontando para o lado direito.
Todos olharam e ele, matreiramente, jogou o sapato pela sua janela. Ainda bem que ninguém viu, pensou. Doroty que se vire sem o sapato. Tudo bem eu compro um par novo para ela. O importante é que ninguém viu. Sentiu-se aliviado. Era outro homem. Nunca, nunca mais vou permitir que ela faça isso comigo novamente. Acho que nem vou mais sair com ela. Vou acabar com esse relacionamento. A Margarete não merece isso.  Onde já se viu deixar a marca do crime em meu carro! Não queria magoar a Margarete, pois era uma boa esposa, recatada e do lar. Não era nem ciumenta. Um amor de mulher. Devia dar graças a Deus...
- Não vamos dar uma parada Nestor? O posto já está perto. Avisou Margarete.
- Claro, claro, querida. Vamos parar sim.
Nestor estacionou o carro e desceu. Deu uma espreguiçada e olhou o horizonte enquanto o pessoal saia do carro. Nisso ouviu sua sogra gritando.
- Cadê meu sapato? Onde está meu sapato? Eu tirei aqui no carro. Estava aqui, nos meus pés.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

PIEDADE, MEU PÉ DE SERRA QUE NEM DEUS SABE ONDE ESTÁ.



Aposto que apenas os poucos que me leem conhecem Piedade, uma cidadezinha logo depois de Ibiúna, aquela que ficou conhecida no final dos anos sessenta por abrigar o histórico congresso nacional da UNE, em 1968.  Na ocasião foram presos mais de 600 estudantes, incluindo lideranças como José Dirceu e Luiz Travassos. Foram os moradores de Ibiúna que telefonaram para a polícia, denunciando o evento. Enquanto Ibiúna ganhou fama como a cidade que entregou os estudantes, Piedade continuou no ostracismo, mas por pouco tempo.
Piedade fica a 30 quilômetros de Ibiúna, com altitude de 781 metros e tem invernos bastante rigorosos, mas nada que se assemelhe a famosa São Joaquim em Santa Catarina. Graças ao clima, lá se produz caqui, maças, peras, cerejas, framboesas entre outras frutas, graças, também, a contribuição das laboriosas colônias italianas, alemãs, suíças, austríacas e japonesa. Mas em outros tempos, foi considerada a capital da produção de cebola em nosso estado.
Foi por lá, também, que o fabricante da famosa cama patente, instalou uma unidade fabril. A cama patente, um produto genuinamente nacional, concepção original do imigrante espanhol Celso Martinez Carrera em 1915.  Tempos depois, o imigrante italiano Luigi Liscio, patenteou a cama e obteve o direito de exclusividade sobre o produto, ficando Martinez proibido de fabricá-la.  A cama, pelo seu preço acessível, fez muito sucesso e o negócio se expandiu tanto, que ao redor da fábrica, em Piedade foi construída uma vila operária, chamada Vila Élvio em homenagem ao filho do empresário. Lá trabalhou quando jovem o falecido poeta José Delcy Thenório, pai do Edélcio.  Ele lembrava com saudade desses tempos, mas lamentava a destruição da floresta nativa para a exploração da madeira utilizada nas camas Patente.
Como diria Manuel Bandeira, “Em Piedade tem tudo, é outra civilização..”. Lá o carnaval é um dos mais criativos de São Paulo, abrigando grandes autores de marchinhas. Em junho ocorrem as serestas com composições de autores locais e declamações de poesias.  Edélcio Thenório, poeta, compositor e artista plástico nas horas vagas (que são poucas), é um dos compositores populares da cidade. Ele não nasceu lá, mas sua família foi uma das pioneiras do vilarejo, fundado em 1840 por tropeiros. O casal teve dois filhos e uma filha. Um dos filhos, Iberê Thenório, é o idealizador do site Manual do Mundo, que conta com mais de um  milhão de acessos. Enfim,. o mundo descobriu Piedade, a princesinha da Serra. Tal como a imaginária cidade Guacira da famosa canção de Hekel Tavares e Joracy Camargo. ”...onde  a lua pequenina, não encontra na colina, nenhum lago para se olhar”.
A cidade não é a mesma que conheci nos anos setenta. Meio acanhada, com ainda muitas construções do final do século XIX, lembrava um pouco as cidades históricas do sul de Minas. A economia pujante transformou a cidadezinha. Hoje ela abriga lojas sofisticadas, agências dos principais bancos nacionais e, infelizmente, um trânsito de cidade grande.
Foi lá que numa das minhas visitas, encontrei uma vez a grande cantora e pesquisadora de folclore Inezita Barroso com seu violão a tiracolo se apresentando no teatro local. Ela cantou a famosa canção de Anacleto Rosas Jr, chamada Cavalo Preto que menciona Piedade em seus versos. Dizem que foi apenas para rimar com cidade, mas para os antigos do vilarejo, o autor por lá passou em tempos idos e se apaixonou pelo lugar, um “pé de serra que nem Deus sabe onde está”.


domingo, 10 de julho de 2016



MARIA DOMITILA, A NOSSA ANNA BOLENA.

Quando li o romance histórico A marquesa de Santos com quinze ou dezesseis anos, fiquei espantado com o nosso primeiro imperador.  No dia da Independência despachou o seu ajudante de ordens para marcar um encontro com a Maria Domitila, uma bela moça separada do marido e pertencente a uma tradicional família paulista. Ficou apaixonado e sempre que podia, arranjava uma desculpa para vir até a pauliceia para rever a amante.
Como a viagem a cavalo do Rio a São Paulo levava quase uma semana, resolveu levá-la para a corte com toda a família. Para isso adquiriu a chácara dos Porcos, que ficava a uma hora da residência imperial. Não demorou muito para Dom Pedro colocá-la como dama de companhia da imperatriz Leopoldina, que sem dúvida deve ter ficado p. da vida. Em seguida o pai, o Coronel João de Castro Canto e Mello virou barão, dando status de nobreza a toda a família.
Ela também foi agraciada com o título de Baronesa de Santos de depois Marquesa, uma homenagem sacana ao Ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, cuja família era de Santos. Bonifácio era um crítico do comportamento do imperador, fazendo o papel semelhante ao de Thomas Morus, intelectual inglês e conselheiro do Rei Henrique VIII, que orientava o rei para evitar desvios de comportamento.
Como Henrique Tudor, Dom Pedro reconheceu como legítima uma filha de sua amante, que recebeu o título de duquesa de Goiás. Menos cruel do que o inglês, nosso fogoso imperador limitou-se em desprezar a esposa, humilhando-a na corte. De saúde frágil morreu jovem, deixando um filho herdeiro. Era a oportunidade da nossa Anna Boleyn para oficializar o relacionamento com o imperador.
Mas Dom Pedro preferiu seguir as formalidades monárquicas e tratou de procurar outra esposa na Europa. Isso prova que ele era bem mais pragmático do que o Tudor. Maria Domitila não foi acusada de traição ou decapitada, mas foi despachada para sua terra natal onde passou o resto da vida no ostracismo. Em tese, pois casou-se com um nobre paulista, o Tobias de Aguiar e reinou na sociedade paulistana e teve mais uma penca de filhos. Virou uma lenda e até hoje muita gente acredita que ainda teve tórridos encontros com o imperador no museu do Ipiranga, que na época, ainda não existia.
Dom Pedro casou-se por procuração com uma bela nobre italiana e tentou manter o trono, mas sem sucesso. Entre ficar e ser deposto pela antecipação da república, preferiu deixar o filho, ainda bebê, como herdeiro e retornar a Portugal e restaurar o trono para sua filha, casada com dom Miguel, seu irmão.

Assim, a história de Anna Boleyn ou Bolena, também chamada de Ana dos Mil Dias, guarda grandes semelhanças com a nossa Maria Domitila, pelo seu charme, sensualidade, esperteza e família interesseira, que seduziu e manteve o imperador sob o seu controle por um bom tempo e só não virou imperatriz por causa da forte oposição na corte e no parlamento.  
PARA QUE UM ESTADO TÃO GRANDE?

A história da chapeuzinho vermelho ao perguntar para o lobo mau que estava deitado na cama da sua avó, disfarçado: “Para que uma boca tão grande vovó?”. O resto da fábula todos conhecem.  Da mesma forma os brasileiros perguntam ao nosso Leviatã (Estado brasileiro): Para que tanto dinheiro se não recebemos nada em troca? O Estado brasileiro abocanha tudo que for possível e até o impossível para sustentar sua imensa teia de privilégios, mal gastos e incompetências. Numa contabilidade prática, boa parte dos brasileiros trabalha até maio para pagar os impostos. Daí em diante tem o direito de gastar o que sobrar para alimentação, habitação, segurança, educação, saúde, investimento, etc. Segurança, Educação e Saúde deveriam, em tese, ser obrigação do Estado, mas diante da precariedade desses serviços públicos, a classe média é obrigada a colocar seus filhos em escolas particulares, pagar planos de saúde e pagar seguros residenciais e para veículos, cada vez mais caros para não sofrer a perda de patrimônio diante do caos que é a segurança pública.
Outra fábula com a presença do lobo mau está presente na vida árdua do brasileiro que faz das tripas coração para sobreviver. Refiro-me ao Lobo que devora o cordeiro porque ele turvara a água que ele bebera, mesmo estado rio abaixo. “Se não foi você foi seu pai e você pagará por isso”. Ou seja, não adianta reclamar que o governante de plantão não reajusta a tabela de imposto de renda de acordo com os índices de inflação. Que o valor por dependente não paga as despesas com alimentação, habitação, lazer etc. Que não recebe nada em troca etc. A alegação é sempre que o governo não pode reajustar a tabela que está defasada em mais de 70% porque não há recursos para isso. Assim, se não foi você, foi seu pai, seu avô ou bisavô e nós pagaremos por isso.
O Estado mantém aposentadorias  para funcionários públicos, que se retiram do serviço com salários integrais, acrescidos de vantagens obtidas ao longo do tempo de trabalho. Como um país pobre, repleto de problemas, com uma enorme desigualdade regional pode se dar ao luxo de pagar salários privilegiados durante quase 40 anos de vida na aposentadoria? Vive-se mais como aposentado do que como trabalhador na ativa.
Alguém já chegou a imaginar quanto custa o senado brasileiro e seus 140 diretores com salários de altos executivos no setor privado? Além da remuneração dos senadores, esses ainda dispõem de equipes de assessores de fazer inveja a qualquer país rico europeu. Isso sem contar passagens semanais para seus estados de origem, auxílio moradia, apartamentos funcionais, veículos etc. E tem mais, o senado ainda dispõe de uma indústria gráfica com mais de 500 empregados, se não for mais somente para imprimir livretos de divulgação dos senhores senadores.  Na câmara quase a mesma ladainha se repete e são 520 deputados com todos os privilégios, assessores etc.
Ainda a pretexto de tornar a administração mais ágil, existem mais de uma centena de empresas estatais, cujas finalidades ninguém conhece ou consegue explicar. A EBC, empresa criada para controlar a televisão do estado, rádio e internet, consome mais de 500 milhões por ano para ter apenas um pequeno traço na audiência do público. Se o objetivo da mídia é atingir o público, pergunta-se: Para que tanto gasto e tão pouco resultado?
As empresas estatais, tanto as reais como as de ficção, se converteram em mecanismos para gerar empregos para os privilegiados por indicações políticas. Assim, altos salários e privilégios podem ser pagos sem concursos públicos ou aprovação por meio da legislação vigente. Atividades que poderiam ser apenas constituir um departamento numa repartição com um chefe e sua equipe, se transforma da noite para o dia numa organização com diretoria, cartões corporativos, verbas de representação, conselho administrativo, instalações etc.

Assim, ao cidadão não resta alternativa, pois de nada resolverá dizer que a água que o lobo ou o Leviatã (monstro marinho que Hobbes usa como metáfora do Estado), bebe está rio acima, pois qualquer reclamação poderá servir de desculpa para ser devorado, sempre com a desculpa de que no passado alguém usou mal os recursos.
SOCIETÁ ITALIANA DI BENEFICENZA


Havia em casa uma medalha de bronze com a inscrição: “Societá Italiana di Beneficenza - 1898” que minha mãe conservava em sua caixinha de segredos. Ela dizia que era do seu pai, mas ela mesma não sabia como e nem por que estava em suas coisas quando ele faleceu. Como não havia conversado em vida com ele sobre a medalha, ficou sem saber a sua origem. Sabia que meu avô era um farmacêutico prático, que criava comprimidos fitoterápicos para curar doenças. Não sei se tais comprimidos faziam  algum efeito, mas com eles ele ganhava a vida e podia comprar seus livros, jornais e assinar uma revista espanhola. Filho de pai abastado, na infância ele estudou com um preceptor (professor particular) que lhe ensinou as primeiras letras, depois Latim e espanhol, mas nunca frequentou escolas. Lia tudo que lhe caia nas mãos e era uma pessoa muito bem informada nos confins do interior paulista. Soube da televisão muito antes da tecnologia chegar por aqui, mas os caipiras o consideravam louco quando explicava sobre o estranho aparelho.
Eu como era muito abelhudo peguei a medalha e andava com ela no bolso para fazer farol com os colegas de colégio, até que um dia, voltando para casa, fui encurralado por dois garotos que me assaltaram, levando alguns trocados que tinha no bolso e a tal medalha. Nunca ninguém soube lá em casa quem fora o larápio, pois mantive segredo sobre minha travessura.
Nas últimas noites andei a sonhar com a medalha e com meu avô querendo saber o que fiz dela e cobrando-me para que a devolvesse. Com quem estará não faço a mínima ideia, mas caso alguém que a tenha em seu poder esteja lendo essa crônica, mande uma mensagem que recompensarei a altura, não pelo seu valor monetário, mas por uma questão de honra familiar.
Num dos sonhos ele disse em bom Latim sobre a origem da medalha, sugerindo, pelo que pude entender considerando meus parcos conhecimentos da língua de Cícero, que fora uma homenagem que recebera em Minas Gerais por serviços prestados a uma comunidade italiana no começo do século passado.

Como o espírito que Hamlet via nos muros do castelo de Elsinor, meu pobre avô cobrava-me, e com razão, a medalha que deveria ser sepultada junto ao túmulo de minha mãe, sua filha mais nova e mais querida. Prometi que cumpriria tal empreita, mas cá estou eu fazendo a minha primeira tentativa para descobrir o paradeiro da medalha. É possível que os larápios a tenham jogado fora, pois de nada valiam numa troca comercial a não ser que a tenham vendido a algum comerciante italiano do bairro que veria algum valor sentimental no objeto. Por essas e outras vou ficar devendo ao meu avô fantasma a tal medalha, pois nem com a ajuda da internet consegui localizar uma para comprar. E por essas e outras que creio que há mais mistérios entre a eternidade e a vida terrena do que pensa nossa pobre filosofia.
SE PARAR O BICHO PEGA, SE CORRER O BICHO COME

O país está realmente numa sinuca de bico.  O governo provisório está cada vez mais enrolado com ministros sendo denunciados por envolvimento em corrupção, delações premiadas, gravações secretas etc e tal. A oposição, que antes era governo está também num lodaçal. Se derrubarem o Temer vai assumir o atual presidente da câmara, o tal de Maranhão, pois legalmente é o primeiro na linha sucessória. Ele está todo enrolado com denúncias de propinas, funcionário fantasma da universidade do Maranhão, sem contar o filho que trabalha em São Paulo e recebe um salário no TC do Maranhão.
Bom, se conseguirem uma liminar que o retire da linha sucessória, temos o seguinte que é um sujeito porreta que pagava uma pensão duas vezes superior ao seu salário de senador para sua amante. Como ninguém acreditou, inventou uns bois voadores de sua fazenda e os vendeu a peso de ouro. Além de tudo isso, ainda está sendo investigado pela operação lava-jato. Bom, caso o René Calheiros também caia fora, entra o segundo vice-presidente do senado que nem sei quem é.
Se esse também estiver enrolado na lava-jato, não se preocupem, ainda temos o Levandowski para presidir a nação até a eleição indireta de um presidente para um mandato até 2018. Quem os nossos nobres congressistas vão eleger?  Evidentemente um dos seus pares que seja capaz de cumprir a promessa de que dará um jeito nesta tal de lava-jato que não deixa o país e os políticos em paz. Uma emenda constitucional para eleições diretas não passa no congresso, pois não interessa eleger alguém sem o compromisso de salvar a pele de todos.
Depois de eleito e por causa do clamor popular, o presidente eleito indiretamente jurará fidelidade à operação lava-jato e perderá o apoio do congresso que não o deixará governar. Enquanto isso, estaremos com uma inflação de100%, PIB de -5%, greves nos transportes, estradas bloqueadas, funcionários sem receber seus salários nos estados e municípios, também entram em greve geral.  Como os policiais são funcionários públicos, também cruzarão os braços. Bom, aí estaremos no caos total ou algo parecido com a Síria atual.
Alguém chamará os militares para colocar a casa em ordem, pois eles detêm o monopólio da força legitimados pela constituição. As forças armadas fecham o congresso e assumem o poder. Como nenhum país do mundo reconhecerá uma ditadura militar, o Brasil ficará isolado do mundo. Uma parcela dos militares é contra a intervenção e é apoiada pela esquerda. O país entra na sua segunda guerra civil (a primeira foi em 1932, mas restrita a São Paulo, Rio, Minas e Mato Grosso). A produção se desorganiza, as fábricas fecham e grupos milicianos tomam conta do país, controlando o tráfico de drogas e alimentos. A fome se alastra, bombardeios atingem escolas e hospitais dirigidos pelos médicos sem fronteira. Milhões de pessoas tentam fugir para o interior do país a procura de alimentos e de paz
 A ONU manda uma força de paz, mas de nada adianta, pois, o país é muito grande e difícil de controlar. Os EUA ocupam a Amazônia sob o pretexto de preservar a natureza. Como a Venezuela já estará em guerra civil, a guerra contamina a Colômbia, Equador e Peru. Bolívia e Paraguai são ocupados ora por forças leais ao governo brasileiro, ora pelos grupos de oposição, milícias e grupos revolucionários. Em pouco tempo toda a América do Sul estará em convulsão.

The end
UM AMIGO ALEMÃO

Meu amigo alemão não é alemão e nem fala a língua de Goethe, mas era assim que o chamávamos, pois seu pai era alemão, mas a mãe era brasileira de origem italiana. O pai,  seu Walter, contava ele, chegou da Alemanha nos anos quarenta pelo Rio de Janeiro. Sem dinheiro, sem falar português, acabou morando em uma favela e passou uma semana comendo bananas, a única coisa que dava para comprar com seus parcos recursos. Depois acabou vindo para São Caetano do Sul, onde se estabeleceu com uma serralheria e se casou. A mulher morreu cedo vitimada por um câncer, deixando o seu Walter com três filhos para criar.
Seu Walter acabou morando perto de minha casa e seu filho mais jovem, Edson Broesdorf e foi no retorno do colégio que acabamos nos conhecendo. Foi na casa dele que experimentei, pela primeira e felizmente última vez, um chucrute alemão preparado pelo seu pai. Tempos depois nos envolvemos no movimento estudantil com outros colegas do ABC. Frequentávamos uma igreja em Santo André, que era uma espécie de quartel general do movimento contra a ditadura, onde se reuniam os mais diferentes grupos políticos, desde trotskistas, stalinistas, maoístas, nacionalistas, esquerda cristã, PCB, PCdoB entre outros. O padre Rubens Chasseroux, nosso ex-professor de religião no colégio, deslizava e acolhia a todos os grupos e todas as tendências. Suas missas eram heterodoxas, com músicas, discursos e poesia. Foi lá que “aprendemos que a classe operária um dia iria para o paraíso”, ouvindo palestras de militantes e revolucionários. Numa dessas palestras um camponês do Maranhão contou a sua saga de resistência no Estado de José Sarney, quando as plantações eram pisoteadas pelo gado dos grandes fazendeiros. Ouvíamos as narrativas do pessoal da Ação Popular que defendiam a tese de que o Brasil era um país feudal e que precisava fazer, primeiramente, a revolução burguesa antes de avançar para o estágio do socialismo.
Deslizávamos por entre as várias ideologias, mas pouco nos comprometíamos de forma verdadeira. Distribuíamos panfletos, participávamos de passeatas relâmpagos, reuniões e mais reuniões. Levados por um militante de esquerda, fomos, eu e o Alemão, em um colégio no Morumbi, onde participamos de um seminário com o sociólogo Florestan Fernandes. O grupo era de universitários e éramos os únicos colegiais, mas marcamos presença nos debates por causa da nossa vivência com grupos de esquerda.  Algumas vezes vinham os frades dominicanos na igreja e faziam palestras, cantavam músicas do Geraldo Vandré.  Um  grupo leninista propôs que nos engajássemos na luta armada, chegando a nos levar para um treinamento de tiro. Mas ficou nisso e “adiamos para outro século a  felicidade coletiva”.
Uma atividade que foi interessante naquela época foi a leitura de O Capital de Karl Marx, que era dirigido por um militante trotskista com o codinome de Plinio, estudante de Geologia na USP que havia participado do famoso congresso de Ibiúna, quando foi preso.  Foram meses nas tardes de sábado lendo e discutindo o livro juntamente com outros estudantes secundaristas, o Rubens Braggion e Paulo Frasson. Estávamos quase nos especializando em Marx quando o tal de Plinio desapareceu. Todos acreditávamos que a religião era o ópio do povo  naquela época. O Alemão dizia: “Que sentido teria a vida se ela fosse eterna”, depois de algumas horas contemplando o céu estrelado. Sempre achei que o Alemão era o materialista mais consciente, mas descobri, recentemente, que foi cooptado pela metafísica. Outro do grupo, o Paulo Sérgio Frasson se engajou no movimento carismático da igreja católica. Quanto ao Rubens Braggion, dizem as más línguas que virou testemunha de Jeovah e passa os fins de semana fazendo pregação.
Nessa época fazia-se algumas loucuras, impensáveis hoje, quando eu e o alemão resolvemos passar a noite na Paulicéia, dormindo em bancos de jardim, conversando com boêmios e prostitutas.  Pegamos o trem e descemos na Estação da Luz. De lá fomos para a região da antiga rodoviária, hoje dominada por viciados em craque.  Ficamos por lá até o dia amanhecer pegando o primeiro trem para São Caetano e paramos numa padaria que hoje não existe mais para tomar café com pão quentinho, uma delícia.  Acampávamos no alto da Serra, na estrada velha de Santos apenas com um cobertor e passávamos a noite contando estrelas, pois com o frio e a umidade era impossível dormir. Lá planejávamos como seria o Brasil depois que os militares caíssem e a esquerda tomasse o poder. Eu particularmente tinha medo do pensamento stalinista predominante. Sonhávamos também com mulheres bonitas, revolucionárias e adeptas do amor livre.
Foi com o alemão que passei uma das piores experiências de minha juventude, quando um livro que ele havia pego emprestado na biblioteca do bairro caiu atrás de uma delegacia em São Bernardo. O problema não era o livro, mas os panfletos que estavam dentro. O Silvestre, um italiano corajoso, pulou o muro e passou o livro, mas foi preso lá dentro. Tiramos os panfletos e fiquei com o livro esperando o Silvestre. Enquanto isso todos desapareceram, inclusive o alemão. Felizmente consegui convencer os policiais que estávamos esperando umas garotas quando o livro caiu e era de um amigo que havia me emprestado. O livro era o Escândalo do Petróleo e do Aço do Monteiro Lobato. O Silvestre quase morreu de medo e tremia como vara verde. Descobri que a coragem dele passou rápido depois que ficou detido pelos policiais. Até hoje ainda não consegui descobrir como consegui manter a calma, o que nos salvou de problemas mais sérios.
Foi o Alemão que comprou o primeiro carro da turma. Era um charmoso  fusquinha 1954, importado, com a janela traseira dividida em duas. Como ele era muito generoso, não se importava em levar a turminha para todos os lados.
O Alemão era bom de prato e traçava tudo que aparecesse em sua frente. Adorava cerveja e cachaça e não se alterava quando bebia.  Era o tipo de pessoa que bebia e ficava alegre e falante. Seu prato predileto naquela época era o filé a parmegiana, bem suculento. Traçava uma porção que dava para dois.  Escrevo no passado porque hoje ele está com um sério problema no fígado e precisa tomar seus cuidados para não partir antes da hora.
Alemão, Cris ou Edson, eis um retrato 3 x 4 de um sujeito 30 x 40, onde não falta generosidade e carisma.


PASÁRGADA: VELHOS AMIGOS, VELHAS LEMBRANÇAS

O poema “Vou-me embora para Pasárgada” é quase uma canção de exílio, pois lá sou amigo do rei e tem tudo, é outra civilização... Assim, quando estou triste, triste de não ter jeito, dou uma escapadinha e vou para lá esquecer e, também, para lembrar. E nesse último domingo, fomos todos, mulher, filha, genro e neto para essa civilização imaginária onde tudo é permitido, nada é pecado ou engorda.

Fica pertinho daqui, logo ali depois de Embu das Artes e fomos guiados pela Celinha que conhece todos os caminhos que levam à Pasárgada, lembrando os desvios e atalhos por onde o tempo traça seus roteiros. Lá encontramos os queridos amigos José Geraldo Rocha, a Valnice Vieira, a Bola, a Amaranta, a Janaina, o Ricardo, o Gabriel e a menina Cecilia. Essa família maravilhosa que vive do e no teatro, sempre encenando mundos fantásticos, cheios de emoções e atravessam o tempo declamando poesias e histórias da carochinha.

Lá tem tudo e até pés de café, cujos frutos são saboreados pelos jacus, que vivem em bandos pela floresta. Zé Geraldo recolhe com todo o carinho, os grãos nas fezes dos bichinhos, limpa-os e torra-os para fazer um delicioso café que tem poderes quase mágicos. A produção é pequena, mas dá para aquecer a alma nos dias frios de inverno. 
Em nossa Pasárgada teve uma lasanha deliciosa, preparada com esmero pela Bola, uma atriz e criadora de bonecos e cenários onde se apresenta uma atriz que vem a ser contraparente da nora que eu nunca tive, mas gostaria de ter. Lá convivem corintianos e palmeirenses que nunca brigam, não falam palavrões e riem o tempo todo, de modo a ouvir-se de longe, como diria o poeta Alberto Caeiro.    
                                                
Nesta Pasárgada imaginária e verdadeira como o olhar do Zé Geraldo, escritor, dramaturgo, ator e diretor de teatro a gente volta no tempo e vê gente que já se foi para a terra do nunca, como o Plinio Pinto Teixeira, que abandonou o teatro para ser advogado e professor, o Belmiro Arruda, também ator, que marcou um encontro definitivo com extraterrestres e desapareceu numa estrada perigosa em Goiás. Até o Zécarlos Machado, também ator profissional, esteve por lá. Em fotografias velhas e desbotadas, mas estavam todos presentes nos seus tempos da República de Pasárgada em São Caetano do Sul, pertinho da Fundação das Artes. Apareceram, também, o Limoeiro, o Claudio Campana e o Estevão, com sua emblemática capa preta, sempre acompanhado por um bode e recitando textos filosóficos de Hegel. E,  de repente,  apareceu a Bete Cunha, a poeta, declamando seus poemas dos tempos da velha e saudosa terra do nunca. Quase ao por do sol apareceu o Timochenko Wehbi, vestido com uma toga romana e uma coroa de louro, atravessou o tunel do tempo e retornou ao mundo dos vivos.                                              


Entre uma taça e outra de vinho, as meninas Janaina e Amaranta contaram suas histórias de antes e depois da Pasárgada, enquanto o meu neto Antônio brincava no jardim com a Cecilia, recolhendo grãos de café maduros e se divertindo com borboletas e passarinhos.
Enfim, entre frutos meio verdes e desejos já maduros, despedimo-nos da Pasárgada e voltamos para o mundo real, sempre prometendo que um dia voltaremos pra lá, onde sempre seremos amigos do rei e da rainha.
O PRAZER DE FUMAR


Por volta dos quatorze anos experimentei o primeiro cigarro por influência de um amigo de infância e adolescência, um alemão de origem polonesa  chamado Bogdan Warzocha. Na opinião dele homem para ser homem precisava fumar e beber. O cigarro foi para mim uma tortura, pois não conseguia sentir prazer em fumar, pois me deixava um gosto horrível na boca. Tragar então, além de ser difícil, me deixava tonto e com dor de cabeça. Assim, disfarçava com o cigarro entre os dedos e dava algumas baforadas para impressionar os colegas e quem sabe as garotas. Com a bebida a experiência foi parecida. Também levado pelo mesmo Bogdan tentei beber rum, vodca e cachaça sem sucesso. Num ano novo ele passou em casa para fazermos uma via sacra, bebendo em todos os bares que encontrássemos. Conseguir beber até no segundo, enquanto ele bebeu em pelo menos em meia dúzia de bares alternando doses de vodca, gim e rum. Fiquei enjoado e abominei a experiência. Acho que a minha dificuldade, felizmente, tinha origem no DNA, ao contrário dele, que como se sabe, os eslavos são mais resistências ao álcool. Mais tarde passei a apreciar cerveja, mas raramente passando do terceiro copo. Em tempos de madureza aderi ao vinho tinto para aumentar o colesterol bom e reduzir o ruim, o que não deu resultado, mas isso não foi motivo para desistir da companhia de uma taça de Cabernet Sauvignon para acompanhar as refeições.
Quanto ao cigarro, continuou sendo uma companhia constante durante a adolescência para superar a minha timidez nas festas e bailinhos do bairro. Continuei não tragando, o que me livrou da dependência do tabaco. Tempos depois, já trabalhando, conheci uma pessoa que me ajudou a exorcizar o cigarro de minha vida. Foi o Rubens Novaes, o contador da empresa e meu chefe imediato. Com quinze anos de idade ele me tratava como um sobrinho e às vezes como um filho, mostrando sempre os riscos do vício. Com os bons argumentos que ele me ensinou, consegui superar o “complexo de inferioridade” por ser um não fumante e passei a ser um militante da causa.
Lembro-me de quando criança, que meu pai fumava um cigarro depois do jantar. Era o seu ritual diário. Um maço dava para uns quinze dias. Minha mãe às vezes acendia um, mas evitava fazê-lo na frente dos filhos para não incentivá-los. Com uns quarenta anos de idade, meu pai acendeu o seu último Mistura Fina, uma marca de cigarro conhecida como quebra peito, por ser bastante forte. Foi numa tarde de sábado, enquanto cuidava do jardim, acendeu um cigarro e após dar a primeira tragada, sentiu uma forte tontura. Não procurou saber por que, mas numa mais colocou outro na boca.
Depois dos filhos casados, minha mãe voltou a fumar, pois segundo ela contava, sentiu os primeiros prazeres do tabaco com o pai que pitava cigarros de palha no interior de São Paulo. Liberal, meu avô nunca proibiu nada para os filhos e filhas. Apesar dos resmungos do meu pai que passou a detestar cigarros, ela passou a queimar um maço por dia. Quando viúva, aumentou para quase dois maços, prazer que lhe proporcionou um enfisema pulmonar e um pigarro que a acompanhou pelo resto da vida e tornou o seu pulmão frágil e pouco resistente a uma sequência de pneumonias que lhe tirou a vida aos 84 anos.
Para completar, casei-me com uma fumante, que se viciou aos quinze anos e levou o hábito até os vinte e cinco. No início, até lhe presenteava com seus cigarros favoritos, mas depois comecei a tentar dissuadí-la do vício, mas sem sucesso. Às vezes discutíamos porque eu não permitia que ela fumasse no carro ou criava caso para parar no caminho para comprar cigarros. Felizmente ela resolveu fazer aulas de dança e percebeu que o cigarro dificultava sua performance nas aulas e resolveu parar definitivamente.
Hoje vejo que o cigarro saiu mesmo de moda, pois são raros entre os meus alunos na universidade os que ainda fumam, bem diferente dos meus tempos de estudante, que precisava ficar próximo da janela para poder respirar um pouco de ar fresco.


O MENINO DE SUA MÃE


Um menino de apenas quatro anos brincava feliz em frente da casa dos seus avós numa comunidade pobre do Rio de Janeiro. De repente um tiro perdido atingiu o seu peito. Seu avô, quando ouviu os primeiros disparos correu para pegar a criança e levá-la para dentro de casa, mas era tarde demais. O sangue já escorria quente pelo seu corpinho indefeso e nada mais poderia ser feito. Levaram-no para o hospital, mas nada mais poderia ser feito.
Depois a parte mais difícil: avisar a mãe que talvez nunca perdoe o avô por não ter protegido o neto que estava sob seus cuidados. As mães sempre acreditam que ninguém pode cuidar dos filhos melhor do que elas. E com razão. Pode ser que ela nunca diga nada para o pai, mas pensará nisso pelo resto dos seus dias. “Por que eu não estava lá para que a bala tirasse a minha vida e não a dele?”, deve ter falado ou pensado. As tragédias humanas nunca são esquecidas. Elas vão e voltam com intensidades variadas, mas sempre com muita dor.
Pobre do avô! Que culpa o teria de morar num lugar tão violento, onde quadrilhas trocam tiros à luz do dia numa cidade violenta com balas perdidas vagando sem endereço. Ele não tinha um quintal onde o menino pudesse brincar em segurança e estavam todos à porta da casa, inocentes, como se essas coisas nunca poderiam acontecer. Às vezes saio para caminhar com meu neto de 6 anos e essas coisas passam pela minha cabeça. Mas onde moro é seguro. Será mesmo? Ninguém está seguro, em lugar algum. Viver no Brasil é muito perigos, talvez tanto quanto no Iraque ou Afeganistão, Bruxelas ou Paris.
Quando eu era criança, brincava com meus irmãos na rua, em frente da  nossa casa, mesmo tendo um quintal. Nunca meus pais imaginariam que um tiro vadio pudesse tirar a vida dos seus filhos pequenos. Os perigos eram outros. Um carro, caminhão ou um ônibus poderia atropelar as crianças que andavam soltas, iam à escola, ao armazém, ao açougue ou a casa de algum vizinho.  Jogávamos bola na rua, mas os carros eram poucos e as ruas não convidavam a grandes velocidades.
Mas o menino cujos olhos não mais verão o mundo que ainda estava tentando compreender com seus poucos anos de vida, partiu.  Ele terminou sua curta história neste planeta, na periferia de uma grande cidade da América do Sul, que já foi maravilhosa, que já foi linda e cantada em prosa e verso por poetas e cantores. A morte do menino, como sua vida não terá versos, como sua vida também nunca deve ter tido. Ninguém cantará sua pele morena, seu sorriso inocente e seus sonhos de menino. Que sonhos terá tido ele? Sonhava em ser piloto ou super herói? Nada... Ele entrará para a história como um simples número na estatística da violência das nossas metrópoles, apenas isso e os números não têm poesia, tampouco alma.

Adeus para nossas crianças que não chegam à vida adulta! Crianças que não conseguiram entender o mundo, seus conflitos, suas dores, sua violência. O menino de sua mãe jaz triste e abandonado num pequeno caixão branco, símbolo da pureza, da inocência e sobre ele a mãe derrama as últimas lágrimas diante do seu corpo. Quem não choraria diante de tal cena? Talvez a própria comunidade já não chore mais, pois a banalidade da morte prematura secou os olhos da maioria.  Restou à raiva da impotência e para aplacá-la alguns desvairados saíram destruindo tudo: ônibus, carros, estação, dos quais sentirão falta no dia seguinte.