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segunda-feira, 31 de maio de 2010

BARRA DE SÃO JOÃO


Casa  onde Pancetti morou


Em Barra de São João acontece de tudo e não acontece nada. As praias são de tombo e as ondas quebram violentamente na praia. Quase ninguém as freqüenta a não ser algum turista desavisado, preferencialmente os paulistas. Mas o lugarejo é tranqüilo, com ruazinhas arborizadas com velhas jaqueiras e com muitas primaveras nos jardins, dando uma sensação gostosa de paz e tranqüilidade há muito perdidas nas grandes metrópoles. Foi lá que nasceu o poeta Casimiro de Abreu e onde foi sepultado conforme seu último desejo. O seu túmulo está no cemitério da igreja, mas dizem que o corpo não está lá e que foi “roubado” na calada de uma das antigas noites do século dezenove. A casa do poeta, restaurada, fica às margens do Rio São João é hoje um museu onde um crânio humano está exposto e alguns afirmam que é do poeta dos “Meus Oito Anos”. Olhei severamente para o crânio e questionei como Shakespeare em Hamlet: “To be or not to be”, mas fiquei sem resposta.
O casario estilo colonial português ainda está presente na maioria das ruas e, em especial, em uma às margens do Rio. Lá uma casa em ruínas tem uma plaquinha: “Aqui morou Pancetti”. É o pintor modernista paulista que teria vivido algum tempo nesta bucólica vila do município de Casimiro de Abreu, onde provavelmente se inspirou para pintar algumas das suas famosas marinhas. Para que colocar uma placa numa ruína? É vergonhoso o descaso com o passado em nosso país. Seria preferível que não fosse nem mencionado, pois pouparia o setor público do vexame de deixar ao léu uma referência histórica. Um fato pitoresco é que Pancetti passou alguns anos na Itália com um tio, também chamado Casimiro, antes de ser marinheiro, pintor de paredes e artista plástico, pintando umas das mais belas obras sobre as praias brasileiras.
Recordo-me de uma das vezes em que estive por lá, quando caminhava e continuava resmungando comigo mesmo sobre os problemas da preservação da memória nacional e vi um velhinho sentado em um banco na praça que fica entre o casario e o Rio São João. Fui chegando perto dele e fui recebido com um sorriso simpático que estimulou uma conversa sobre a vila, seu passado e seus atrativos.
Falamos de muitas coisas, inclusive do Pancetti, que ele afirmou ter conhecido e convivido alguns bons momentos com o pintor quando ele passava suas férias em Barra de São João. “Ele pegava o cavalete de pintura e sua mala e ia até a praia, onde passava horas e horas pintando. Algumas vezes, eu o ajudava a carregar suas coisas em troca de alguns trocados”.
Eu quis saber mais e perguntei como era o pintor no seu cotidiano em Barra de São João.
Ele disse que o Pancetti era uma pessoa muito amável, mas não falava enquanto pintava. Na volta da praia ele contou que o ajudava também a carregar suas tralhas. Aí sim, conversava bastante e às vezes parava no bar para tomar um refresco. “Naquela época, anos cinqüenta, vinha pouca gente por aqui, pois quase ninguém tinha carro”, disse o velhinho.
O meu interlocutor falava como se fosse um guia turístico bem traquejado e talvez tenha feito isso para ganhar a vida quando algum turista aparecia por lá. Sabe-se que Pancetti era tuberculoso, doença contraída ainda quando criança pelas péssimas condições de vida de sua família e muito provavelmente era um sujeito mais introspectivo do que falastrão. É também possível que o pintor tenha estado poucas vezes no lugar em férias e tenha alugado a casa para passar algumas temporadas. Revendo as pinturas de Pancetti, não vi nenhuma menção à Barra de São João, apesar de que algumas paisagens lembrem um pouco as suas praias e da vila vizinha, Rio das Ostras.
Mas o bom mesmo em Barra de São João era o restaurante Varandão, onde se comia um maravilhoso picadinho de carne com batatas coradas, que só a Nair sabia fazer. O Nilson, seu marido, atendia os fregueses e logo puxava conversa sobre música, seu assunto preferido. Tinha uma bela coleção de discos, principalmente de boleros e tangos. A primeira pergunta que fazia ao freguês não era sobre o cardápio, mas o que gostaria de ouvir. Infelizmente o Varandão acabou falindo, o casal se separou e o velho e saudoso Nilson voltou para Copacabana onde foi nascido e criado.
De tanto falarmos de Carlos Gardel, até ganhei dele um disco do famoso cantor argentino. Jantar no Varandão era sempre o melhor e único programa da vila, ouvindo “El dia que me quieras” com o Gardel em um toca-discos com um leve chiado.
E foi também no Varandão que conhecemos o Fiico, figura lendária de Barra de São João. Fiico tocava (ou ainda toca se estiver vivo) violão com a classe de um Baden Powell e tinha uma forte semelhança com o cantor Martinho da Vila, mas seu repertório estava mais para os clássicos da Bossa Nova.
E quem disse que em Barra de São João não era freqüentada por celebridades? Pois foi lá que encontramos a escritora Ligia Fagundes Telles passando uma temporada na pousada em que o gentil Fiico era o gerente.
Barra de São João, terra de poeta, onde as águas do Atlântico se arrebentam em suas praias de areias avermelhadas. Certo foi o Casimiro ao fazer da bela e bucólica vila o seu descanso derradeiro, pois parece que por lá, felizmente, os tempos modernos não conseguiram chegar.


Igreja onde Casimiro de Abreu estaria sepultado (foto do autor)

Renato Ladeia


terça-feira, 18 de maio de 2010

BUTIÁ



Butiá na verdade não existe mais. È apenas uma fotografia desbotada e um quadro singelamente pintado, mas deixou saudades e muitas. Ficava em Descalvado, interior de São Paulo, para onde a nossa turma ia passar alguns fins de semana prolongados nos longínquos anos 1970. Era uma pequena vila e tinha até uma estação de trem, herança dos gloriosos tempos em que o café era o ouro verde do estado. Também não faltava a igrejinha, aconchegante onde os fieis depositavam as suas esperanças no futuro das almas. O sino da igreja, contava o famoso Zé Dozzi, num dia de forte temporal, caiu do campanário e trincou. Ele como zeloso fiel tratou logo de consertá-lo. E afirmava, sem medo de ser chamado de faroleiro, que soldou o sino com ouro puro doado pelos moradores, que abriram mão de anéis, alianças e correntinhas. Por isso quando o sino tocava, o som se espalhava no ar com certo brilho que somente uma imaginação fértil pode perceber. E o menino Jesus em retribuição à generosidade do povo de Butiá, deu-lhes muitas e fartas colheitas. O café? Ora, era o melhor café de todo o estado. Dizem até que era famoso o café de Butiá, pelo seu sabor, aroma que lembrava amêndoas maduras torradas, além de um leve toque achocolatado. Está aí uma marca de prestígio que pode ser utilizada por algum empreendedor: “Café Butiá, igual não há”

Não pensem os leitores que era só isso que havia em Butiá. Tinha muito, muito mais. Uma velha e desativada usina de energia elétrica, que formava uma queda d’água exuberante, que permitia saborosas duchas durante o verão, onde alguns despudorados amigos se banhavam nus para o horror dos poucos e pudicos habitantes. Um laranjal, na primavera, espalhava o seu doce perfume pelas redondezas, principalmente no cair das velhas e saudosas tardes de Butiá. O antigo empório Santa Teresinha, era onde nos hospedávamos. Era uma velha construção dos anos quarenta, com as portas rangendo, sem forro e habitada por morcegos que ficavam irritados com os intrusos. Sua proprietária, tia do Sinézio D. Tezza, emprestava o imóvel, prazerosamente, para o sobrinho, acreditando que sua turma ia para lá fazer um retiro espiritual. O sobrinho deixava-a enlevada ao informá-la que loas ao senhor e cânticos gregorianos eram entoados no local. Cânticos gregorianos com certeza não, mas muitos sambas, canções e modas caipiras rolavam até altas madrugadas, regados com uma boa cachaça e muita cerveja.
Mas as noites de Butiá, muitas vezes eram lúgubres, pois um dos companheiros, o Edélcio Thenório, excelente contador de causos, pesquisava durante o dia, velhas histórias de assombração do lugar. E na calada da noite, caprichava no enredo e todos dormiam com um olho só. O outro era para espantar almas penadas. Descobriu ele que muitos velórios eram realizados no empório por falta de um lugar apropriado nas redondezas. A venda de cachaça e cafezinho ajudava o dono do armazém a aumentar a sua receita quando a dita cuja levava alguém para o destino final. Houve até o causo de um defunto que se levantou no meio da noite pedindo uma cachacinha. O povo saiu em disparada pelas invernadas enquanto o defunto lamentava que só queria molhar a goela para enfrentar o juízo final. Histórias...
A estação de trem dava um charme todo especial a Butiá e lembrava aquelas estações que apareciam nos filmes de faroeste. A arquitetura inglesa, padrão das estações paulistas, contrastava com as simplórias casas caiadas e a vegetação que tomava conta dos arredores. À época, o trem que vinha de Descalvado ainda passava por lá, pelo menos uma vez por dia aproveitávamos para fazer inesquecíveis passeios.
Mas como disse no início dessa crônica, Butiá não existe mais. O empório foi demolido e virou pastagem. A estação de trem foi desativada, pois sem cafezais já havia perdido sua finalidade há tempos. Só restou mesmo a igrejinha, que a religiosidade do povo vai conservar ainda por muito tempo. Quanto ao sino, motivado pelas histórias do Zé Dozzi, já foi roubado várias vezes e depois devolvido, pois se descobria que a solda era ouro dos tolos. Enquanto isso, o velho Dozzi, pitando seu cigarro de palha, ri dessas histórias e afirma que ninguém vai conseguir achar onde está o remendo e nem o ouro, pois o sino é encantado.

Renato Ladeia