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sexta-feira, 22 de abril de 2016

Eta cafezinho bom!

O café está glamorourizado. Virou uma bebida sofisticada com degustação e outros adereços. Um barista é capaz de descobrir no aroma de um café, notas de amêndoas, sabor de cítricos ou um leve toque de cacau fresco. Alguns se arriscam em afirmar que determinada marca de café gourmet tem traços de alma penada com sofrimentos frutados. Brincadeira? Pode até ser, mas algumas fragrâncias detectadas por alguns baristas, imitando os someliers são dignas da imaginação criadora, não acessíveis aos comuns dos mortais.
Já ficaram conhecidas variedades de café cujas amêndoas passaram pelo aparelho digestivo de alguns animais, como gatos selvagens de uma região asiática ou mesmo de uma gralha brasileira do Espirito Santo. Nos dois casos os bichos ingerem os frutos dos cafeeiros, digerem a casquinha adocicada e evacuam os grãos, que são recolhidos, limpos e higienizados para serem consumidos como um dos cafés mais caros do mundo. Os saboreados pelos gatos selvagens chegam a custar a bagatela de 500 dólares o quilo. Os digeridos pelas gralhas brasileiras não chegam a tanto, mas fala-se em cifras em torno de 200 dólares. A justificativa para tamanho preço é que as enzimas digestivas dos animais agregam notas diferenciadas de sabores ao grão, imperceptíveis aos reles mortais.
Não há nada que prove alguma diferenciação nestes cafés especialíssimos, mas o fato de dar muito trabalho para coletar os grãos espalhados pelas plantações e a retirada dos resíduos fecais podem justificar os preços inflacionados. Há toda uma mística em torno do assunto, mas me desculpem os baristas altamente especializados, mas esses cafés passaram, em sua cadeia produtiva, pelo popular e pouco sofisticado cocô.
Mas cá entre nós, eu adoro café e desde muito pequeno. Na casa dos meus pais sempre curtíamos café feito no coador de pano variando entre a colocação do pó no coador ou depositado diretamente na caneca de água, ainda no fogo, antes de coar. O café em casa tinha um sabor muito especial e era diferente dos cafés vendidos no mercado por uma razão muito simples. Nossos parentes de Lavinia, região noroeste de São Paulo, cultivavam café numa fazenda de mais de 100 alqueires e nos enviavam em todas as colheitas, um saco bem granado de grãos tipo arábico, o mais comum por essas bandas. A encomenda chegava a estação de trem de São Caetano e meus pais eram avisados por telegrama para retirarem o produto despachado depois de uma viagem de mais de 600 quilômetros de estrada de ferro. Na época esta estação tinha uma arquitetura em estilo inglês do início do século passado como a Estação da Luz. Uma carroça era contratada para fazer o transporte e aí começava um processo que, diga-se de passagem, eu detestava. O café era torrado por mim, que ficava privado de jogar minhas peladas nas ruas ou de brincar com carrinhos de rolimãs por dois ou três dias até que uma lata de vinte litros de café estivesse torrado. Depois vinha a outra tarefa que era moer o dito cujo até encher pequenas latas para o consumo diário.
Esse café, pelas minhas lembranças olfativas e gustativas tinha um sabor especial. Talvez porque na torrefação manual ficava levemente fora do ponto ou mesmo porque durante a viagem o saco vinha misturado com galinhas e porcos que eram transportados pela estrada de ferro. Mas minhas tarefas não ficavam por aí. Aprendi a coar ou passar um café digno de elogios por toda a família e visitantes que passavam sempre lá em casa para degustar o nosso delicioso café. Um vizinho, chamado Antônio Piffer, um simpático velhinho italiano era um degustador habitual do nosso café. Quando não tinha a bebida pronta minha mãe gritava: “Renato, venha fazer um cafezinho pro nono” e completava para que ele não pensasse que era por preguiça: “Ele sabe fazer um ótimo café, seu Antônio”.  Como eu gostava muito do nono, era com prazer que fazia e servia o cafezinho em troca de algumas boas charadas e histórias de sua Itália.
Hoje com a profusão de variedades de cafés (existem por volta de quinhentas), ainda não consegui identificar o café de Lavinia, cultivado pelos meus parentes até os anos sessenta. Por melhor que sejam os expressos da melhor qualidade, sempre falta um toque de saudade da minha casa, dos meus pais, que nunca mais vou encontrar em lugar nenhum.


O BAIRRO DA LIBERDADE, A FEI E OUTRAS HISTÓRIAS

O bairro da Liberdade, por estranho que possa parecer, não leva esse nome em razão de movimentos libertários. Assim, não foi por causa da independência, da República ou da Abolição da escravidão que o bairro ganhou esse nome A origem do bairro tem uma razão que não lembra em nada seu nome.  Tudo começou com uma forca, construída em madeira de lei por ordem do governo imperial no início do século XIX.  De largo da Forca, onde ainda hoje existe a capela dos Enforcados, é que surgiu o nome Liberdade.
Nas frias manhãs paulistanas, o povo se reunia para assistir os enforcamentos determinados por julgamentos nada confiáveis. Por incrível que pareça, era um evento turístico na cidade assistir as execuções. Vinha gente de todos os cantos do pequeno povoado paulistano para compor a plateia do “espetáculo” como são mostrados nos filmes que retratam tempos idos. Alguns até faziam piqueniques às margens do Tamanduateí, na época ainda um rio.
Os enforcamentos ocorriam por motivos torpes, como o mais famoso, o do soldado Francisco José das Chagas, executado em 1821 por protestar contra o atraso de cinco anos nos pagamentos dos soldos. Diz a história que por falta de corda, tentaram enforcá-lo com um laço de couro que não suportou o peso do corpo e quebrou. Na segunda tentativa, usando o mesmo tipo de material, o problema se repetiu. Depois disso o pobre homem foi executado a pauladas. Para o povo, a quebra dos laços foi uma mensagem divina contra a injustiça, fato que culminou na construção da capela dos Enforcados. Nas crônicas daquele tempo, registra-se que após a tábua que sustentava os pés dos condenados cair, o povo gritava: “Libertou-se”. É por essa razão que o nome do bairro ficou Liberdade. Um nobre nome com uma origem pouco nobre.
No cotidiano a maioria dos enforcamentos tinha como vítimas os escravos que fugiam ou se recusavam a trabalhar além das suas forças físicas. Os “proprietários” ajudavam a condenar os escravos capturados para que servissem como exemplos para os demais e assim evitar a revolta dos cativos.
No início do século XIX o bairro já estava crescendo, ampliando sua área de ocupação e foi para lá que o professor de química da Escola Paulista de Medicina, Cristóvão Buarque de Holanda se mudou com sua esposa Heloisa, na Rua São Joaquim, número 6, onde em 1902, nasceu o primogênito do casal: o futuro historiador Sérgio Buarque de Holanda, que em 1943 se tornaria pai do compositor e escritor Francisco Buarque de Hollanda.
Mas nesta época o bairro já começou a ser ocupado por imigrantes japoneses. Em razão da topografia bastante acidentada do local havia muitos porões nas casas, os quais eram alugados por preços módicos para os pobres imigrantes que por lá desenvolviam as suas atividades como artesãos e comerciantes.
Mas foi também nesse bairro no início dos anos 1940, na mesma Rua São Joaquim, que um padre jesuíta, Roberto Saboia de Medeiros, deu início ao que vem a ser hoje o Centro Universitário FEI. Em 1941, ele criou a ESAN (Escola Superior de Administração de Negócios) primeira escola de administração do país, utilizando como base o currículo de Harvard (EUA).
Hoje a Rua São Joaquim termina na Avenida Senador Vergueiro, pois com as reformas urbanas, ocorreram muitas transformações no bairro. O trecho onde nasceu o historiador não existe mais.  O Centro Universitário FEI continua com um campus no bairro, mas na Rua Tamandaré e, outro no bairro Assunção, em São Bernardo do Campo. Hoje o bairro consagrou-se como um reduto da laboriosa colônia japonesa, com lojas típicas, museus e com os arranha-céus resultado da expansão da cidade para as periferias.