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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

UM SUJEITO DE BEM COM A VIDA


Algumas pessoas se tornam lendárias em nossas memórias, principalmente aquelas que conhecemos em nossa juventude. É o caso do Ademir Bellucci, amigo dos tempos de faculdade. Era um sujeito de boa pinta, louro de olhos azuis, que fazia algum sucesso com as mulheres apesar de ser deficiente físico. Ele perdeu a mão quando garoto trabalhando em um açougue em sua cidade natal. Nunca se queixou com relação ao problema e ao contrário, gostava de brincar com a deficiência sem o menor constrangimento. Se alguém contava uma anedota de maneta, ele mostrava  o toco de braço e brincava com a própria desgraça. Fez isso com um amigo, o Erasmo, que chorou copiosamente ao ver que ele era maneta. As pessoas é que ficavam profundamente constrangidas com o seu defeito físico e muitas vezes ele, sem maldade,  tirava proveito dessa condição. Quando trabalhava no departamento de Estatística do Estado como estagiário, mostrava o toco e a chefe toda emocional, chegava às lágrimas quando ele contava, pela enésima vez, como aconteceu o acidente. Com isso ele sempre conseguia sair mais cedo e sem desconto nos seus vencimentos.
Quando ia a um restaurante chamava o garçom e solicitava que cortasse o bife para ele. O garçom, via de regra, reagia alegando que não tinha tempo para isso com tanta gente para atender. Aí entrava o braço sem a mão  em cena. O pobre garçom pedia perdão e com lágrimas nos olhos cortava o seu bife em pequenos pedaços para que ele não tivesse dificuldades em tomar a refeição.
Certa vez, um rapaz se declarou estar perdidamente apaixonado ao despedir-se dele ao deixá-lo em casa, após um encontro com a turma em um bar.  Ele não achou graça nenhuma na história e entrou em pânico, pois nunca havia imaginado que o colega fosse gay. Sendo um rapaz simples do interior, aquilo foi um choque profundo. Não teve dúvidas, foi contar para uma amiga e confidente o ocorrido, pedindo por todos os santos que ela mantivesse o segredo. Acontece que depois de alguns dias, ele mesmo não suportou a guarda do segredo e acabou espalhando a informação para mais algumas pessoas. Em pouco tempo o assunto virou tema das rodas de amigos. Entretanto, para sua surpresa, descobriu-se que era tudo armação, pois o colega era um gozador de mão cheia.
Fiquei muito tempo sem vê-lo, até que um dia, ao passar num açougue próximo do trabalho dei de cara com ele cortando bifes. Fiquei surpreso ao saber que abandonara a profissão e retornara a ocupação que lhe trouxe tantos problemas. Ele contou que tinha mais dois açougues, pois chegara a conclusão que trabalhar de empregado não tinha futuro e resolveu ser empresário e que no capitalismo o melhor mesmo é ser capitalista.  E
Ademir se casou com uma moça muito simpática e inteligente, filha de um coronel da polícia militar. A resistência do pai da moça era grande, mas acabou cedendo à determinação da filha. Tiveram três filhos e por fim ele e o sogro se tornaram grandes amigos. Na época, ainda em plena ditadura militar, ele e a namorada participavam de grupos políticos que lutavam pela redemocratização do país e como o pai da namorada era  militar e conservador, todos temiam pela sua segurança. Mas felizmente nada aconteceu e a festa de casamento ocorreu na confortável casa do coronel com a presença de várias patentes e muito policiamento nos arredores. A família do Bellucci, gente muito humilde de Santo Anastácio, ficara distante das rodas elegantes da festa, mas ele não se sentia nem um pouco constrangido e circulava feliz entre a família da Guga e o povo humilde do interior, que eram seus familiares. “São as diferenças de classe”, dizia ele brincando.
Depois de alguns anos tive outra surpresa. Passando por Bragança Paulista, uma pequena cidade no interior, entrei numa loja de tintas para pedir  uma informação e vejo aquela mesma figura dos tempos de estudante atrás de um balcão. Já não usava barba, mas continuava com os cabelos vastos e desalinhados, sempre com a mão direita ligeiramente escondida nas costas.  Estava com minha mulher e filha, que avisadas vieram ao histórico encontro. No balcão colocamos em dia as novidades sobre os amigos comuns e familiares.  Já não era o jovem radical que queria derrubar o governo e implantar a ditadura do proletariado. Bem mais maduro, falava de negócios e investimentos, indicando que a loja estava indo bem e que em breve pretendia abrir uma filial numa cidade próxima. Marcamos um encontro no sítio onde estava morando,  para um fim de semana com muito churrasco e cerveja. O endereço e o mapa vieram comigo, mas nunca deu certo e quem sabe, mais uma vez, por acaso ou por alguma estranha artimanha do destino a gente acabe se encontrando novamente.

Renato Ladeia

NEGÓCIOS E OPORTUNIDADES

Numa manhã ensolarada de primavera a campainha tocou. Era um casal bem apresentável. Ele de terno e gravata e ela vestida com uma saia e blusa bem combinadas. Pensei tratar-se de pregadores evangélicos, o que é muito comum nos fins de semana em meu bairro. Pediram-me um minuto de atenção. Dispus-me, educadamente, a ouví-los, considerando que estava de bom humor por causa do belo dia e pelas flores exuberantes do quintal. “Estamos fazendo uma oferta especial para pessoas de alto nível como o cidadão. Trata-se de um excelente lote no cemitério da Eternidade. É uma oportunidade única para pessoas que pensam no futuro”. Ao ouvir aquele discurso empolado e falso, desatei a rir. Tentei me conter, mas sem sucesso. O casal não entendeu nada e como não conseguia parar de rir, os dois deixaram um prospecto e foram embora, visivelmente irritados com a minha falta de cortesia.
Na realidade a frase do vendedor não tinha  nada de engraçado, mas o fato é que me lembrei de uma pitoresca  história contada por um tio, que era fazendeiro no interior de São Paulo. Contou-me ele, há bons tempos, que um dos colonos da fazenda apareceu para pedir-lhe um empréstimo para pagar um bom terreno que havia comprado. Meu tio quis saber mais detalhes sobre a compra, já que seu colono, um homem trabalhador e responsável, em breve o deixaria para trabalhar em sua própria terra. Mas para seu espanto, o inocente colono explicou que o terreno ficava a nada mais nada menos do que 384.405 quilômetros da terra, mais precisamente, na lua. A história se passou em 1969, logo depois da primeira viagem  do homem ao satélite e um malandro resolveu aproveitar a oportunidade para fazer “bons negócios” com a repercussão do acontecimento.
Percebe o leitor que fiz uma analogia maluca entre um terreno no cemitério e um hipotético terreno na lua, o que não é de toda descabível. Um promete uma propriedade em um satélite estéril, sem atmosfera e sem água em estado líquido, cuja exploração era e ainda é impossível. O outro oferecia um terreno em que o futuro proprietário jamais tomaria posse em vida. Um investimento para um futuro sem futuro.
Meu tio, um protestante cético com relação à ciência e a tecnologia, não teve dúvidas. Pegou a sua velha espingarda de caça e, com a autoridade que lhe era conferida por ser inspetor de quarteirão, expulsou o malandro, não sem antes fazer com que devolvesse o que já tinha arrecado dos demais.
Quanto a mim, conformei-me  que o negócio proposto pelo casal, apesar de funesto, era perfeitamente legal, já que numa sociedade capitalista, precisamos pagar por um pequeno pedaço de terra se quisermos ter um descanso relativamente eterno. Caso contrário a ossada é removida depois de algum tempo e despejada num depósito coletivo, chamado ossuário. Como nunca me preocupei com o que será feito do meu corpo após a morte, já deixei expressa a minha vontade de ser cremado com corpo, alma e tudo o mais que tiver direito para não correr o risco de voltar por aqui e incomodar amigos e parentes.

Renato Ladeia