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sábado, 30 de outubro de 2010

MARIA DE FÁTIMA: UMA MULHER BRASILEIRA

Maria de Fátima, não era bonita, ou melhor, dizendo, estava mesmo mais para a feiúra do que para a beleza. Era magra, quase esquelética, usava óculos de aros escuros e muito pesados. Tinha dois filhos e era casada com um policial militar. Ela estava com quase trinta anos, quando resolveu voltar a estudar e mudar sua pacata vida de dona de casa. Fez o ginásio e o curso normal à noite, pois seu sonho era ser professora primária. Foi até longe demais para as suas condições, mas tudo isso teve o seu preço. Seu marido, no início, até que tolerou a decisão da mulher, mas aos poucos começaram os conflitos. Ele a acusava de abandono do lar para arranjar amantes na escola. Para ela ficava cada vez mais difícil cuidar da casa, dos filhos do trabalho e dos estudos que não pretendia abandonar.
Um outro problema a deixava em conflito. O marido, desde há muito tempo, queria apimentar a vida sexual do casal e insistia, de toda forma, que ela concordasse em praticar sodomia, o que ela abominava. Considerava isso um desrespeito à mulher. As brigas começaram a se tornar cada vez mais freqüentes, principalmente pela sua recusa em atender aos desejos do marido. Cansada da vida de casada e dos assédios do marido resolveu se separar, mas ele ficou com a guarda das crianças, dois meninos. A partir daí Fátima ficou a deriva. Livre como um passarinho. Passou a freqüentar a igreja de um padre que era ligado em movimentos políticos e sociais. Participava de passeatas, reuniões, debates, além dos programas de ação social da igreja. Passou a conviver com jovens, garotos e garotas, cujas idades variavam entre 16 a 20 anos. Fátima se soltou, liberou geral, como se dizia na época. Passou a discutir sexo com a meninada, abrindo seu coração.
Num dia foi assistir a uma peça de teatro com a garotada e foi lá que encontrou Cesar, um rapaz de uns 18 ou 19 anos, que conhecia de vista na igreja. Ficaram conversando sobre amenidades, sexo e política. Sentaram juntos no teatro e ela tão logo que pode, ela segurou a sua mão. Ele aceitou a investida e assistiram a peça de mãos dadas. Ela encostou a cabeça em seu ombro e algum tempo depois se beijaram no escurinho do teatro. Terminada a peça, houve um debate e Cesar, bastante falante, participou ativamente. Ela ficou deslumbrada em estar de mãos dadas com aquele menino brilhante, inteligente, que falava coisas que ela achava bonitas e bem colocadas, mas não tinha capacidade de dizer. No final ele foi acompanhá-la até sua casa e durante o caminho pararam várias vezes para trocarem beijos apaixonados. Fátima estava em êxtase.
Convidou o rapaz para ir à sua casa, onde morava com uma irmã também separada com os filhos. Foi lá que após todos dormirem que Fátima teve a sua primeira aventura amorosa depois da separação. A experiência foi eletrizante para uma mulher separada e romântica. Daí para frente nos encontros semanais, ela lavava a alma. Ela queria mais, muito mais, e chegou a propor que morassem juntos, mas o rapaz desconversou.
Num dos encontros, precisou ir à escola onde estudara e pediu ao Cesar acompanhá-la. Aquilo foi uma tortura para ele, pois havia muitos jovens por lá, que olhavam com estranheza uma mulher com um rapaz que parecia ser seu filho. Cesar ficaria aguardando do lado de fora enquanto ela resolvia seus problemas. Quando voltou ele não estava mais lá. Nunca mais se viram. E assim acabou a primeira aventura amorosa de Maria de Fátima, sem despedidas, sem ciúmes, sem brigas. Mas ela não desanimou e continuou a freqüentar a igreja e as reuniões de jovens, sempre na esperança de seduzir outro garotão.
Tempos depois na mesma igreja em que freqüentava, começou uma amizade com o Evandro; conversa vai conversa vem, um novo romance. Para o Evandro, virgem até então, estava ótimo, mas ela voltou a propor uma relação mais séria, que o rapaz descartou como o anterior. Fátima não se conformou e chegou a se entregar de corpo e alma, aceitando até aquilo que recusou a vida toda com o ex-marido; mas a grande diferença de idade foi mais forte e o Evandro acabou também fugindo da relação.
Ela manteve as suas atividades, participando de movimentos sociais clandestinos e sempre se envolvendo com rapazes bem mais jovens do que ela. Foi presa numa batida do Deops na igreja que freqüentava. Abriu a boca, entregando o nome de todo mundo que freqüentava a casa paroquial. Não deu em nada. O grupo era mais festivo do que voltado para a ação política mais séria. Foi libertada e nunca mais apareceu na igreja ou se encontrou com a turma, que a condenou por traição da causa.
Fátima continuou com a vida de professora primária e dona de casa, desistindo da participação política e social. Convenceu-se de que não tinha mesmo jeito para a coisa. Reencontrou-se com o ex-marido, já aposentado e também sozinho. Acertaram as contas, inclusive sobre sexo e voltaram a viver juntos e, desta vez, até que a morte os separassem. Mas essa não demorou muito tempo para chegar e Maria de Fátima partiu alguns meses depois quando foi descoberto um câncer em seu útero.

Renato Ladeia

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A violência doméstica é uma constante em todas as camadas sociais e as residências das famílias são os locais mais perigosos para as crianças. Cerca de 30% das crianças são vítimas de maus tratos dentro da própria casa e seus algozes podem ser pai, mãe, padrastos, madrastas, tios, avós, irmãos etc. Infelizmente isso não é privilégio do Brasil. Também nos EUA e na Europa isso ocorre com freqüência quase semelhante.
A história de Helenice faz parte deste quadro estarrecedor. Ela tinha o lado esquerdo do rosto deformado por uma grave queimadura. No trabalho ninguém ousava perguntar a causa, pois todos imaginavam que falar sobre o assunto causaria um sofrimento desnecessário à moça. Assim os colegas conviveram com ela durante meses fazendo de conta que não havia nada de diferente nela. Almoçavam juntos, participavam do happy-hour e tomavam o cafezinho na cantina e nada de se falar sobre o seu rosto.
Mas um dia, durante o almoço, sem que ninguém houvesse tocado no assunto, ela desandou a falar sobre o trágico acontecimento. A história foi a seguinte: Seus pais estavam separados e sua mãe vivia com um homem que de vez em quando desaparecia e só retornava dois ou três dias depois. Mas sua mãe era apaixonada por ele e preparava-lhe o jantar todos os dias, mesmo sabendo que ele poderia não voltar para casa. A família era muito, muito pobre e a mãe reservava para o marido um bom bife enquanto ela e as crianças se serviam apenas de arroz e feijão. Numa noite ela e as duas irmãs menores ficaram sozinhas e resolveram comer um pedaço do bife do padrasto que há dias não aparecia. Juraram que ninguém contaria para a mãe, que as ameaçava com castigos se tocassem no jantar do seu homem.
Mas nesta noite a mãe retornou com o padrasto e ficou furiosa com as crianças por terem comido o bife. Como ninguém denunciava quem teria sido o culpado, ela jogou álcool nos rostos das três crianças e em seguida acendeu um fósforo ameaçando atear fogo se não contassem quem havia desobedecido as suas ordens. Nisso Helenice resolveu reclamar da atitude da mãe, a qual não vacilou, jogando o fósforo em seu rosto. Percebendo que colocara em risco a vida da menina, um dos irmãos tratou logo de jogar água para evitar que o fogo se espalhasse pelo corpo todo e a levaram a um hospital. No caminho a mãe prometeu que a mataria se contasse para alguém o ocorrido. Helenice passou por várias cirurgias para recompor o rosto, mas precisaria ainda fazer uma plástica quando estivesse adulta.
Depois do episódio ela foi morar com o pai e mesmo se encontrando eventualmente com a mãe, nunca tocou no assunto. Muito tempo depois, numa das visitas à mãe, essa lhe perguntou: “Por que está me olhando com essa cara feia?” Helenice respondeu: “Essa cara feia foi você quem me deu”. Nesse momento, em lágrimas, a mãe prometeu-lhe que lhe pagaria uma cirurgia plástica.
Tempos depois, com seus próprios recursos, Helenice estava com a data da cirurgia plástica marcada. No dia em que faria a internação, recebeu um telefonema de um irmão avisando que a mãe acabara de falecer. Diante da morte da mãe, Helenice desistiu de fazer a cirurgia. Por quê? Todos na mesa perguntaram. “Neste dia cheguei à conclusão de que não era mesmo para fazer a cirurgia”. A partir daí assumiu a queimadura da face como algo normal, sem traumas ou constrangimentos. “Eu sou assim mesmo e daí?”.
Ela satisfez a curiosidade de todos, mas uma pergunta continuou no ar: Como pode uma mãe fazer uma crueldade desta? Para Rousseau a culpa é da sociedade que torna o homem cruel, ambicioso, perverso... Para Freud nosso inconsciente é movido por pulsões de ódio, de amor, de destruição. Enfim, o ser humano é uma incógnita. Nem todos conseguem reprimir as suas pulsões selvagens. Portanto, não há amor incondicional, nem de mãe.

Renato Ladeia

sábado, 16 de outubro de 2010

A CAMISA VERDE

A saia verde de minha mãe enroscou em uma cerca lá de casa e ela ficou desconsolada, pois gostava muito da peça. Era um linho verde de boa qualidade e muito bonito. Mas como ela era uma mulher muito prática, olhou bem para a saia e pensou na melhor forma de aproveitá-la. “Vou fazer uma camisa para você”. Achei o máximo ter uma camisa verde e aceitei de cara o presente. Como ela mesma sabia costurar combinamos qual seria o modelo. Depois de pronta, pensei eu, poderia fazer inveja aos meus colegas palmeirenses, apesar de ser, na época, um fanático corintiano.
A camisa ficou tão supimpa que no dia seguinte, resolvi usá-la para ir à escola. Na época, no segundo ano primário, minha professora era muito rígida e furiosa. Ela usava um ponteiro de madeira com o qual batia nas cabeças e mãos dos alunos indisciplinados. Às vezes, em ataques de fúria, jogava até o sapato sobre as indefesas crianças. A escola era pública e da periferia de São Caetano do Sul e não havia a obrigatoriedade de utilização de uniforme, mas ela fazia questão de que todos os alunos viessem de camisa branca e calça azul.
Não deu outra. A professora colocou a classe em fila e viu aquela camisa verde exuberante contrastando com as brancas dos demais os meninos. Ela teve um choque. Tirou-me da fila e despachou-me imediatamente para casa.
Com oito anos de idade, achei o máximo ir para casa por culpa e graça da professora. Já fazia planos para jogar futebol ou caçar passarinhos, quando encontrei minha mãe no portão, espantada ao ver-me. Depois das explicações ela não teve dúvidas. Pegou-me pela mão e lá fui eu de volta à escola.
Minha mãe era decidida e corajosa. Entrou na sala da diretora e passou-lhe um sermão que provavelmente ela nunca mais esqueceu, de tão contundente. Dona Rosa assustada chamou imediatamente a professora e ordenou que eu entrasse na sala de camisa verde e tudo. Entrei constrangido e a professora muito mais. Eu havia desconstruído a sua tentativa de padronizar a vestimenta das crianças. Ela sentiu-se humilhada ao ver na classe uma camisa verde, destoando da maioria. Ela deu a aula como se eu não existisse e em nenhum momento olhou em minha direção.
A história não ficou só nisso. Semanalmente, minha mãe me obrigava a ir de verde para a escola, mesmo que eu tivesse camisas brancas limpas e passadas. Isso foi minando a autoridade da dona Carmem, que aos poucos foi relaxando a sua determinação de padronizar a vestimenta dos alunos e não mais obrigou as crianças a usarem camisas brancas.
Assim, aos oito anos, com o apoio da minha mãe, comecei a abalar as estruturas sociais. A professora, de tão arrasada, pediu transferência no ano seguinte e a comunidade se livrou de uma educadora colérica e violenta que não respeitava os direitos das crianças.

domingo, 10 de outubro de 2010

MENTIRAS

“Saber mentir é um gesto de nobreza
pra não ferir alguém com a franqueza.

Mentira não é crime,
é bem sublime o que se diz
mentindo pra fazer alguém feliz " (Noel Rosa)


Mentira tem perna curta, diz o adágio popular. Será mesmo? Muitas mentiras atravessam séculos sem nunca serem desmentidas. Pois é, não foi recentemente que pesquisadores comprovaram que Joseph Stalin fez um acordo secreto com Hitler para a invasão da Polônia? Já faz mais de setenta anos e a mentira ficou embaixo do tapete todo esse tempo. Mas a verdade é que todos mentem, uns mais outros menos. Políticos então mentem sempre que for necessário para os interesses do Estado, do poder e também pessoais.
Maquiavel, que não era necessariamente maquiavélico, escreveu que um Príncipe deve mentir ou falar a verdade, mas ser sempre honrado. A ética do poder tem lá suas razões para permitir a mentira. O pensador florentino sabia das coisas e se baseava em exemplos históricos em que os soberanos incapazes de cometer uma mentirinha normalmente se davam mal. Para ele a ética e a moral não se aplicavam necessariamente à política. Essa teria leis próprias e sua eficácia dependeria dos resultados obtidos e não dos meios.
Quem ainda não contou a sua mentirinha? Atire a primeira pedra aquele que passou a vida com extrema retidão só falando a verdade. Até na vida profissional a mentira é uma constante. Será que alguém pode ser ingênuo ao ponto de acreditar que um vendedor vai dizer ao seu cliente que o produto não vai ser entregue no prazo solicitado, mesmo sabendo da impossibilidade cumprir o prometido? É evidente que não. Quando o cliente reclamar ele inventará uma desculpa bem dramática e nada de remorsos.
Lembro-me de uma história de um sujeito da igreja Testemunhas de Jeová que ficou sabendo, pelo cargo que ocupava numa empresa, que um importante executivo seria dispensado. Todos os envolvidos foram avisados de que se tratava de um assunto extremamente sigiloso que não poderia sair daquela sala. Para ele a mentira estava fora de cogitação, pois a sua religião proibia, em qualquer hipótese, que um dos seus membros mentisse. Ao ser questionado pelo executivo se sabia de alguma notícia sobre o seu futuro na empresa, ele relutou em responder, mas ao perceber que estaria mentindo se não confirmasse, caiu na armadilha. Resultado: os dois foram para a rua.
Existem pessoas que nomeiam as mentiras como omissão ao dizer: “Eu não sabia de nada”. Mas omissão é omitir a verdade e trata-se de mentira e ponto final. Dizer que não sabe de nada é uma escapatória, quando é do conhecimento público que se sabia de tudo. Saber que alguma coisa errada está sendo feita e não coibir e depois ainda afirmar que não sabia de nada é uma dupla falta, pois foi conivente e mentiroso ao mesmo tempo. O pior de tudo, ao se perceber que não colou muito bem, é jogar a culpa nos outros. O que reputo como a pior das mentiras.
Contou-me um amigo, a quem reputo como muito honesto, que ao vender o seu Chevrolet sedã em ótimo estado, respondeu a contragosto a uma pergunta do possível comprador:
“Nunca foi batido?”
“Claro que não, o carro está inteirinho”, respondeu meu amigo constrangido.
Ouvindo a conversa, o seu filho, de uns dez anos, entrou de sola com o ar de maior sabichão.
“Bateu sim pai. Você não se lembra que a mamãe deu uma porrada no carro?”
Bom, é claro que não houve negócio e o meu amigo ficou na maior saia justa e rezou para que o homem fosse embora o mais rápido possível para se justificar com o filho. Dar bronca no garoto, nem pensar, pois sei que é um sujeito centrado; mas que ele chutou as paredes, isso eu tenho certeza. E caso ele diga o contrário, sinto muito, mas não dá para acreditar.

Renato Ladeia

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A MEMÓRIA

Não há nada mais extraordinário e complexo do que a memória. Somos um imenso arquivo de idéias, fatos, imagens, rancores, alegrias, odores, sons, músicas, conhecimentos, enfim, tudo o que podemos registrar através dos nossos sentidos. Ao longo de uma existência vamos construindo uma imensa biblioteca virtual. É realmente um mundo fantástico. Nossa capacidade memorizar parece ser infinita, mas com o passar dos anos, vamos gradativamente perdendo essa dádiva que a vida nos dá.
Sem memória não somos nada. É a memória que possibilita a nossa existência como “homo-sapiens” e que tornou o ser humano um animal dominante, presente em todos os espaços do planeta. Nós somos, concretamente, a nossa memória, que foi agregando ao longo de nossa existência, a capacidade de ler, escrever, recordar informações, fatos, imagens, odores, alegrias, tristezas etc.
Aos poucos, com o avançar da idade vamos esquecendo nomes de pessoas conhecidas com as quais temos contatos menos frequentes. Nomes de artistas, cantores, compositores, escritores, filmes e livros desaparecem de nosso arquivo e, para resgatá-los, é preciso vasculhá-lo sem muita pressa para que possamos colocá-los em pauta novamente. Às vezes demoramos horas ou mesmo dias para recuperá-los. Parecem que estão na “ponta da língua”, mas a palavra não aparece.
Tudo se inicia com a amnésia anterógrada, quando começamos a esquecer nomes próprios e as lembranças mais próximas: onde foi mesmo que deixei o meu relógio? Depois vem a amnésia anterorretrógrada, em que os acontecimentos dos últimos meses e anos. Finalmente vem a amnésia retrógrada que apaga todas as lembranças de uma vida inteira. Esta é a situação mais triste, pois se perde a identidade como pessoa.
Minha mãe, com 84 anos, lembra-se de poucas coisas ou quase nada do que acontece durante o dia ou durante a semana. Confunde quem são os netos e de quem eles são filhos. Esquece se almoçou ou tomou o café da manhã. Os filhos, os netos, passam a ser vagas lembranças. Os mais assíduos nos últimos anos são um pouco mais lembrados. Os que ficaram mais distantes perderam a primazia da lembrança. A falta de memória afeta até o sofrimento, que parece ser bem menor quando ocorrem perdas. Neste caso, menos mal, pois ela sofre menos.
Halbwachs escreveu em Memória Coletiva que a nossa memória é também construída com as lembranças do passado com contribuições do presente. Assim, nem sempre a memória seria real, pois pode incorporar elementos que a pessoa não viveu ou presenciou. Ele tinha razão, pois já percebi que minha mãe e outras pessoas se lembram de coisas que não aconteceram realmente da forma como contam. Misturam fatos com opiniões ou outros acontecimentos com uma coerência que sugere serem verdadeiras as lembranças, mas para quem presenciou de fato, parecem colagens. Sobre isso, o cineasta Luis Buñuel nos lembra em seu livro “Meu último suspiro”, que nossa memória é invadida sempre pela imaginação e o devaneio, e, como existe uma tentação de crer na realidade do imaginário, acabamos por tornar nossa mentira em uma verdade.
Existem também pessoas mitomaníacas, que tem uma propensão doentia à mentira que criam tantas fantasias que acabam acreditando em suas histórias como verdadeiras, por mais absurdas ou inverossímeis que possam ser. Esse tipo de gente gasta muito tempo construindo informações para justificar as suas invenções e muitas vezes caem em contradição. Mas isso não faz com que mudem o hábito.
Será que um dia a tecnologia conseguirá resgatar preciosas memórias através da inteligência artificial? Afirmam os especialistas como Kurzweil, que num tempo não muito distante as inteligências de pessoas de mentes brilhantes poderão ser preservadas e continuarão funcionando eternamente mesmo após os seus corpos terem desaparecido. O lado bom é que um Einstein poderia continuar desenvolvendo teorias infinitamente ou um Tom Jobim poderia compor suas canções para todo o sempre. O lado cruel é que ninguém mais precisará pensar ou criar.

Renato Ladeia

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

CINE ÁTILA, O MEU CINE PARADISO

O CINE ÁTILA E O CINEMA PARADISO

Também tive o meu cinema Paradiso, mesmo sem os encantos e a poesia de uma pequena cidade italiana, onde o diretor Giuseppe Tornatore desenvolve sua trama. O filme traça a trajetória de um garoto apaixonado por cinema tendo por pano de fundo uma humilde sala de exibição nos anos cinqüenta. Ali se desenvolvem vários dramas humanos, conflitos de classe, choques culturais com a influência norte-americana através dos filmes, relações afetivas etc.
As minhas primeiras viagens ao mundo do cinema foram em um velho pulgueiro chamado Átila, na Vila Gerty, bairro periférico de São Caetano do Sul. Pulgueiro era como se designava os cinemas mal frequentados e não muito limpos. Lá, quase todos os domingos, eu ia com minhas irmãs mais velhas assistir às matinês. Era uma festa de emoções e surpresas. O aroma de pipoca embriagava minha mente inquieta enquanto aguardava na fila a abertura da porta que possibilitava a entrada no mundo dos sonhos. Eram duas sessões por um preço bem camarada. Na primeira eram exibidos os chamados seriados com os heróis da época: Rock Lane, Zorro, Hoppalang Cassidy, Roy Rogers entre outros. Às vezes também se exibia um filme de segunda linha, normalmente de curta duração. Aí vinha o intervalo, de quase meia hora, onde os espectadores aproveitavam para fumar um cigarrinho, tomar um refrigerante ou saborear uma guloseima. Os mais velhos aproveitam esse intervalo para fazer um footing pelos corredores, observando as garotas desacompanhadas. Um olhar, um sorriso ou uma piscada de olho, eram sinais para fazer um primeiro contato e quem sabe assistir à segunda sessão de mãos dadas. Quanta emoção!
Cresci indo nas matinês do cine Átila até que o proprietário construiu outro cinema mais próximo de minha casa, com o nome de Real. Esse era mais amplo, com corredores largos, o que permitia um footing mais confortável. Foi lá também que assisti a primeira sessão de cinema de mãos dadas com alguma garota. Também o primeiro beijo e a primeira expulsão por comportamento inconveniente. O lanterninha era uma figura sinistra e temível e tinha poderes absolutos sobre os pobres adolescentes que se limitavam a obedecer as suas ordens. Antes da expulsão, vinha também um “sabão” do dono do cinema que perguntava o nome dos pais para possíveis comunicações que nunca ocorriam.
Uma vez por ano, na semana santa, uma velha produção mexicana da Paixão de Cristo, cheia de emendas, era exibida com casa cheia. Eu já sabia quase de memória as falas, mas todos choravam com a crueldade dos romanos com o pobre Cristo. No final da sessão observava as pessoas com os olhos inchados e vermelhos. Quando criança sempre pensava que pudesse acontecer alguma coisa que impedisse a perversidade dos soldados, mas a história era sempre a mesma e acabava na crucificação. Algum tempo depois assisti Ben-Hur, herói romano que se aproximava de Cristo em uma das cenas e perguntava-lhe se poderia fazer algo por ele. Cristo, obviamente, recusava a ajuda, alegando que seu sofrimento era necessário para salvar a humanidade dos seus pecados. Sinceramente nunca entendi isso e até hoje não sei se a humanidade realmente precisa ser salva de alguma coisa.
Poucas vezes prestava atenção nos filmes na adolescência, pois nesta época mais focado nas possíveis conquistas amorosas do que nos espetáculos. Mas alguns filmes marcaram minha memória, como Um lugar ao sol, com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift que foi inesquecível. Foi um filme chocante, em que um jovem em busca da ascensão social assassina a namorada pobre e grávida. Outros foram os filmes do Hitchcock, como um corpo que cai e Janela Indiscreta, Psicose e os bons faroestes de John Ford com John Wayne. Eram filmes antigos que eram reprisados nos cinemas de bairro por várias vezes. Os lançamentos somente ocorriam nos cinemas do centro, como o Vitória e Max. Lembro-me de um filme grego, que numa cena, aparecia um sujeito transando com uma mulher bem mais velha. Ao ser gozado pelos amigos, ele saiu com essa: “Galinha quanto mais velha, melhor o caldo”. Achei a frase o máximo e um dia resolvi utilizá-la ao me referir a uma dona da nossa rua. Minha mãe ouviu e não gostou nada da brincadeira e fui premiado com pimenta malagueta na boca para não mais esquecer.
Por essa e por outras, o filme Cinema Paradiso foi um filme que deixou saudades e não sei por que razão ele não está entre os cem filmes essenciais da revista Bravo. Uma gafe imperdoável.