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domingo, 10 de outubro de 2010

MENTIRAS

“Saber mentir é um gesto de nobreza
pra não ferir alguém com a franqueza.

Mentira não é crime,
é bem sublime o que se diz
mentindo pra fazer alguém feliz " (Noel Rosa)


Mentira tem perna curta, diz o adágio popular. Será mesmo? Muitas mentiras atravessam séculos sem nunca serem desmentidas. Pois é, não foi recentemente que pesquisadores comprovaram que Joseph Stalin fez um acordo secreto com Hitler para a invasão da Polônia? Já faz mais de setenta anos e a mentira ficou embaixo do tapete todo esse tempo. Mas a verdade é que todos mentem, uns mais outros menos. Políticos então mentem sempre que for necessário para os interesses do Estado, do poder e também pessoais.
Maquiavel, que não era necessariamente maquiavélico, escreveu que um Príncipe deve mentir ou falar a verdade, mas ser sempre honrado. A ética do poder tem lá suas razões para permitir a mentira. O pensador florentino sabia das coisas e se baseava em exemplos históricos em que os soberanos incapazes de cometer uma mentirinha normalmente se davam mal. Para ele a ética e a moral não se aplicavam necessariamente à política. Essa teria leis próprias e sua eficácia dependeria dos resultados obtidos e não dos meios.
Quem ainda não contou a sua mentirinha? Atire a primeira pedra aquele que passou a vida com extrema retidão só falando a verdade. Até na vida profissional a mentira é uma constante. Será que alguém pode ser ingênuo ao ponto de acreditar que um vendedor vai dizer ao seu cliente que o produto não vai ser entregue no prazo solicitado, mesmo sabendo da impossibilidade cumprir o prometido? É evidente que não. Quando o cliente reclamar ele inventará uma desculpa bem dramática e nada de remorsos.
Lembro-me de uma história de um sujeito da igreja Testemunhas de Jeová que ficou sabendo, pelo cargo que ocupava numa empresa, que um importante executivo seria dispensado. Todos os envolvidos foram avisados de que se tratava de um assunto extremamente sigiloso que não poderia sair daquela sala. Para ele a mentira estava fora de cogitação, pois a sua religião proibia, em qualquer hipótese, que um dos seus membros mentisse. Ao ser questionado pelo executivo se sabia de alguma notícia sobre o seu futuro na empresa, ele relutou em responder, mas ao perceber que estaria mentindo se não confirmasse, caiu na armadilha. Resultado: os dois foram para a rua.
Existem pessoas que nomeiam as mentiras como omissão ao dizer: “Eu não sabia de nada”. Mas omissão é omitir a verdade e trata-se de mentira e ponto final. Dizer que não sabe de nada é uma escapatória, quando é do conhecimento público que se sabia de tudo. Saber que alguma coisa errada está sendo feita e não coibir e depois ainda afirmar que não sabia de nada é uma dupla falta, pois foi conivente e mentiroso ao mesmo tempo. O pior de tudo, ao se perceber que não colou muito bem, é jogar a culpa nos outros. O que reputo como a pior das mentiras.
Contou-me um amigo, a quem reputo como muito honesto, que ao vender o seu Chevrolet sedã em ótimo estado, respondeu a contragosto a uma pergunta do possível comprador:
“Nunca foi batido?”
“Claro que não, o carro está inteirinho”, respondeu meu amigo constrangido.
Ouvindo a conversa, o seu filho, de uns dez anos, entrou de sola com o ar de maior sabichão.
“Bateu sim pai. Você não se lembra que a mamãe deu uma porrada no carro?”
Bom, é claro que não houve negócio e o meu amigo ficou na maior saia justa e rezou para que o homem fosse embora o mais rápido possível para se justificar com o filho. Dar bronca no garoto, nem pensar, pois sei que é um sujeito centrado; mas que ele chutou as paredes, isso eu tenho certeza. E caso ele diga o contrário, sinto muito, mas não dá para acreditar.

Renato Ladeia

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