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sábado, 5 de março de 2011

UMA MENINA CHAMADA MARIA QUE ABALOU O QUARTEL


Foi no longínquo 1967 e Maria estava com pouco mais de dezesseis anos; não era bonita, nem feia, era pobre e morava, provavelmente, em algum dos muitos  cortiços de São Caetano do Sul, no ABC paulista. Sem muito que fazer,  circulava pelas imediações do Tiro de Guerra paquerando os jovens bonitos e sarados de classe média. Ninguém lhe  dava atenção, mas ela continuava insistindo em passearr por ali e, às vezes, ficava no portão observando os exercícios militares. Eram duas horas de atividades diárias, com um pequeno intervalo para um cafezinho e um cigarro, para quem fumava. Terminadas as instruções, todos saiam às pressas para o trabalho ou para estudar e nunca ninguém prestava atenção na pobre Maria.
Mas Maria apareceu por lá numa quente e enluarada noite de sábado. Os rapazes estavam de plantão. Seriam doze longas horas de fastio. Cada Companhia tinha a sua escala e dez ou doze rapazes eram sorteados para a triste tarefa. Como eram da mesma Companhia, todos se conheciam, o que criava condições para alguma cumplicidade com o cabo da guarda, responsável perante o sargento pela disciplina do grupo.  Com 18 anos e com alguma rara exceção, eram todos imaturos, e se deliciavam em fazer brincadeiras durante o período como urinar nas botas dos companheiros que dormiam durante o descanso. Soube que numa outra ocasião, desceram até o centro da cidade, todos carregando os velhos e inúteis fuzis de instrução. Entraram em bares e causaram bastante alvoroço, principalmente porque o país estava  em plena ditadura militar.
Neste  fatídico sábado estavam de plantão alguns garotos, muitos  de tradicionais famílias do local e já passava das 23 horas quando alguém convidou Maria para entrar no quartel. O sargento residente não estava, o que facilitou as coisas. A pobre menina talvez tivesse pensado que fosse passar alguns momentos com aquele moço bonito que a convidara, mas mal sabia o que a esperava.
Num aposento do andar superior, um após outro penetrava a pobre menina que não podia gritar ou reclamar, enquanto os demais ficavam de plantão para qualquer emergência. Um recruta dava o sinal para o próximo.  Terminada a farra, Maria, que sonhou uma história de amor, estava destruída, sem forças nem para andar. Colocaram-na em um carro e a abandonaram numa rua alguns quarteirões distante do quartel. Estaria tudo resolvido se uma viatura da policia não houvesse passado por lá e encontrasse a menina desmaiada na calçada. Levada para o pronto-socorro, o médico diagnosticou o caso como estupro. Depois de medicada, os policiais a levaram até o quartel onde identificou todos os rapazes, incluindo aqueles que estavam dormindo, pois não tinha condições de se lembrar dos rostos, todos muito parecidos com os cabelos com corte à americana.
            No domingo, durante o intervalo, o comentário sobre o caso se espalhava por toda a guarnição. Os sargentos estavam tensos, os colegas envolvidos mais ainda. As conseqüências pareciam trágicas para todos eles. Dois deles eram noivos, outros tinham compromissos sérios com boas moças pertencentes à famílias tradicionais da cidade.  Alguns trabalhavam em bancos ou empresas da região. Recordo-me de que havia encontrado alguns deles em um baile próximo ao quartel. Estavam planejando ir para o quartel depois do baile para  encontrar com a turma e nem imaginavam, o que poderia acontecer. Também esses participaram do caso, com o agravante de que não estavam de serviço na Guarnição militar.
            Todos eles afirmaram que a garota era uma vadia e que entrou no quartel porque quis e não foi forçada a nada.  Mas a notícia estava nas primeiras páginas dos jornais da segunda-feira e nada seria capaz de amenizar o impacto causado. O fato da garota não ter dezoito anos complicou ainda mais a situação. Todos seriam julgados por um tribunal militar por estarem engajados ou seriam expulsos e julgados pela polícia civil? A expulsão do quartel era óbvia, mas o crime continuava sendo militar.
            No domingo seguinte o comandante fez um discurso pesado, exaltando a moralidade e a disciplina militar. Os colegas envolvidos foram destacados do grupo e já sem fardas foram formalmente expulsos. Todos esperavam que um camburão da polícia estaria do lado de fora para levá-los presos, mas nada disso aconteceu. Todos voltaram para as suas casas e responderam o processo em liberdade. O processo se arrastou por mais de um ano e no final  os mais implicados foram fazer o serviço militar em outros Estados os demais foram desligados por mau comportamento.
Algum tempo depois, já concluído o serviço militar encontrei com um deles. Tínhamos estudado no mesmo colégio e era uma pessoa bastante educada e simpática. Fomos a uma festa juntos e algumas vezes falamos sobre o episódio. Percebi que isso provocava um grande mal estar. A família da namorada o acusou de tarado e foi proibido de vê-la.
Alguns anos depois o encontrei novamente, desta vez estava numa situação deplorável. Embriagado, estava parado na porta de um bar perturbando as pessoas que passavam com palavras de baixo calão. Parei diante dele e o cumprimentei. Ao reconhecer-me ficou um pouco envergonhado por seu estado lastimável. Aos poucos consegui convencê-lo a ir até um local mais tranqüilo para tomarmos uma bebida. Durante o caminho falou sobre a merda que se transformou sua vida depois do episódio da garota. “Eu não tive culpa, todo mundo estava trepando com ela. O que eu poderia fazer?”, repetia o tempo todo.
E a pobre Maria, onde andará? No que transformou sua vida, seus sonhos e esperanças? E o restante da turma? Quase todos eles se casaram, tiveram filhos e são cidadãos respeitáveis, mas será que ainda se lembram da menina? Provavelmente não. Um deles encontrei num vôo para Manaus, aonde ele ia a trabalho como eu. Durante a viagem, falamos dos velhos tempos de serviço militar, mas sobre a pobre Maria, ele não pronunciou uma única palavra. O quente e enluarado sábado caiu no vazio do esquecimento.

Renato Ladeia