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sábado, 28 de agosto de 2010

AS GUERRILHEIRAS

Nos anos setenta conheci uma guerrilheira que utilizava o codinome Rosa. Era uma moça afável e meiga. Era alta e tinha um corpo roliço e um pouco gordinha. Eu era estudante secundarista, ainda adolescente e ela já havia iniciado uma faculdade que não me lembro qual. Entre suas leituras preferidas havia um escritor considerado reacionário, o russo Boris Pasternak, autor do romance Doutor Jhivago, que é a história de um poeta e médico que perde o encanto pela revolução depois que ela atinge a sua vida pessoal. “A vida pessoal acabou na Rússia”, era a fala de um personagem revolucionário, Stenicoff no filme homônimo. Fiquei triste ao ler o livro e descobrir que o roteirista inventou a frase. Mas até hoje não entendi porque a Rosa me emprestou um livro de filosofia do Pasternak, um escritor católico conservador, sendo ela ligada a uma corrente revolucionária chinesa, super radical.
Outra que conheci era de um movimento trotskista que também acabou optando pela luta armada. Essa era feia e mesmo nos momentos de grande solidão e desânimo, não estimulava os hormônios de ninguém. Não sei o que aconteceu com nenhuma das duas. Consultei o livro Brasil Nunca Mais, reportagens e nem sinal delas. Outras mulheres que conheci nos movimentos contra a ditadura militar eram mais audaciosas e até autoritárias. Uma delas, cujo nome não me lembro, me passou uma descompostura pública por eu estar lendo um texto muito rápido para um grupo. Senti-me como um menino de escola primária levando um sabão da professora. Nunca mais apareci nas tais reuniões.
Na igreja que eu freqüentava, muito mais por motivos políticos do que religiosos, porque nem mesmo o padre era muito preocupado com coisas da liturgia; mulheres e rapazes de todas as tendências por lá passavam para encontros rápidos, agendamento de reuniões, encontros clandestinos ou discussões políticas. Infelizmente eram poucas as mulheres que participavam do movimento e por isso faltavam namoradas para os rapazes engajados. As disponíveis eram sempre as mais feias, inteligentes e autoritárias. Namorar garotas alienadas, nem pensar, pois seria um retrocesso político, além do risco de abrirem a boca. Por outro lado, as muito inteligentes queriam usar os encontros em barzinhos para discutir textos de Marx, Sartre, Mcluhan etc. Outro problema era que defendíamos o sexo sem casamento e eram poucas as meninas dispostas a abrir mão da virgindade sem uma proposta segura. Achávamos que seríamos revolucionários profissionais, pois após a revolução no Brasil precisávamos percorrer toda a América Latina e fazer o trabalho que o Che Guevara deixou incompleto.
Minha vida de estudante secundarista participante foi repleta de desencontros e gafes. Numa reunião para a eleição da diretoria da UNES, União Nacional dos Estudantes Secundaristas, na USP, fiquei tão enjoado dos debates que resolvi dar uma relaxada em um dos alojamentos de umas pessoas que conheci por lá. No meio do entra e sai, vi um cara tentando datilografar uma matriz para impressão em mimeógrafo de um panfleto. Como ele catava milho, ofereci-me para ajudar e era justamente contra o grupo ao qual eu estava envolvido, muito mais por amizade do que por afinidade ideológica. Quando vi o meu pessoal com o papel na mão, tentei disfarçar, mas alguém me entregou e foi a maior gozação, além de ser acusado de conspiração e traição ideológica.
Na verdade nunca me entusiasmei muito com revoluções, não por ser alienado, mais por ser realista demais. Enquanto muita gente acreditava que a revolução conduzida pelos partidos revolucionários, com o apoio do povo derrubaria a ditadura militar e instauraria uma república socialista, eu com meus botões ficava preocupado com a cabeça extremamente autoritária desses revolucionários. O estalinismo estava presente nos discursos e visão política de muita gente, seja da Ação Popular, de linha chinesa, como também de outros movimentos trotskistas e leninistas. Ficava imaginando o que esse pessoal faria caso tomassem o poder. Lembro-me de que nossa turminha foi encarregada de montar um boletim sobre o Sete de Setembro e o meu texto foi aprovado por unanimidade, mas um dos dirigentes considerou que meu texto precisava ser cortado em alguns pontos, pois revelavam visões pequeno-burguesas. Foi aí que imaginei que com esse pessoal no poder, adeus liberdade de imprensa, artística, de opinião etc. Fariam a mesma coisa que a ditadura militar, mas com a desculpa de que seria preciso impedir o avanço dos gorilas capitalistas.
Hoje temos uma ex-guerrilheira pleiteando a presidência da república e não sei por que razão, ela se parece muito com aquele pessoal que conheci nos velhos tempos. Autoritária, pragmática e inflexível. Como ela seria no poder? Seria eternamente grata ao Lula por tê-la levado ao posto mais importante da república e obedeceria as suas ordens ditadas por telefone de seu refúgio em São Bernardo do Campo? Seguiria a política liberal com foco social ou radicalizaria fazendo uma ruptura política e econômica? Alinhar-se-ia às nações hegemônicas capitalistas ou optaria por um engajamento neo-socialista latino-americano, seguindo o ideário político do Hugo Chaves e Morales? Seria flexível, tal como o Lula, no seu relacionamento com políticos tradicionais e corruptos ou os trataria de forma radical, cortando privilégios e alianças políticas nefastas? Como se comportaria com um congresso em que seu partido de base continuará sendo minoria?
Essas e muitas outras perguntas são feitas por todos os analistas políticos, por empresários, cientistas políticos, oposição e simpatizantes, mas as respostas somente serão possíveis depois da posse, caso seja eleita. Se todas as previsões se concretizarem em razão do temperamento da candidata, é possível que o presidencialismo brasileiro continue sendo um velho barril de pólvora. Incapaz de negociar por sua personalidade forte e pouco flexível poderá levar o país a crises políticas sem precedentes. Aliado a isso, há a séria questão da fragilidade de sua saúde que poderá ser posta a prova diante de um cenário de conflito entre uma ex-revolucionária e um sistema político dominado por velhas oligarquias patrimonialistas, que confundem os bens públicos com os seus bolsos.
As pesquisas por enquanto indicam que ela poderá vencer as eleições, pois a máquina do poder e o prestígio do Lula com freqüência têm conseguido resultados satisfatórios. Mas o mundo, provavelmente, será diferente daquele que favoreceu amplamente o Lula, ou seja, forte crescimento da economia mundial aliado à estabilidade da moeda, déficit público reduzido, inflação sob controle etc.

Renato Ladeia

O APAGÃO

De repente as luzes começaram a se apagar e a escuridão invadiu todos os espaços, esparramando-se pelas avenidas, praças, vielas, prédios e quintais como uma nuvem que desceu dos céus. Mas aos poucos algumas pequenas e tímidas luzes foram surgindo e tive a sensação de que voltávamos para o século XIX, antes da eletricidade ser trazida pelos ingleses. Foi como se aos poucos, depois do susto inicial, as pessoas estivessem saindo do estado de letargia ou preguiça tecnológica e começassem a buscar soluções para o caos. As velhas, antiquadas e poluidoras velas de parafina, com cheiro de velório, sempre presentes nas gavetas como lembranças de outros apagões, ganharam a cena e ajudaram as pessoas a se olharem numa outra perspectiva. Os penteados, as maquiagens, as roupas, deixaram de ter importância. O que passou a valer de verdade foram as vozes, as palavras, os gestos que se faziam presentes como num teatro de sombras.
As ruas da Vila Madalena, reduto boêmio da cidade estavam salpicadas de pequenas luzes de velas acesas que se destacavam no negrume da noite. A lua, escondida, não deu o ar de sua graça para pratear a noite dos enamorados e poetas. Alguns românticos saíram à rua para procurar a lua, que sorrateira, fazia um jogo de esconde-esconde entre as nuvens. Um homem de cabelos brancos e quase calvo saiu apressado com medo do caos do trânsito que já se anunciava, pois os semáforos deixaram de funcionar e deixou sobre a mesa do bar uns versos rascunhados: " Chora-Lua no cerrado, manda-chuva te contar...". Fiquei imaginando que fosse um poeta do interior que vivera nos velhos tempos das lamparinas e lampiões e se inspirara naquele momento com as lembranças da ave de rapina, de hábitos noturnos que talvez ainda habite os cerrados paulistas. Talvez ele se lembrasse dos versos rascunhados e completasse o poema ou o teria esquecido para sempre. Fiquei com aquele guardanapo na mão sem saber o que fazer com ele até que tive a idéia de entregá-lo ao garçom para que colocasse no quadro de avisos onde o poeta pudesse resgatá-lo e completar o poema. O garçom não se entusiasmou com o meu pedido, pois estava mais preocupado em evitar que algum freguês escapulisse sem pagar e o colocou no bolso. Quem teria interesse por um guardanapo de papel com algumas palavras escritas?
A escuridão que se espalhou pela antiga vila paulistana demorou em partir e enquanto isso os boêmios inveterados aproveitavam para saborear, das mesas dos bares, a cidade escura e os bons sambas de outrora só para provar que a vida continuava, com ou sem luz elétrica. Numa mesa ao lado, alguém se lembrou que na escura paulicéia desvairada do século XIX, o poeta Castro Alves poderia ter escrito os versos: “Se existe um povo que a bandeira empresta para cobrir tanta infâmia e cobardia/ e deixa-se rolar nesta festa, de manto impuro e bacante fria” Não sei se o fato é ou não verdadeiro, mas onde há poetas, a vida está em outras dimensões, as dimensões da sensibilidade, do imaginário.
No dia seguinte, ainda sonolento da noite boêmia e das dificuldades para chegar em casa, acordei com o noticiário sobre o apagão, que alguns preferiam chamar de black out. Culpou-se a natureza, com seus temporais. Como ela não pode se defender ficou o dito pelo não dito e vamos esperar o próximo. Quem sabe o homem da rua, desses que perambulam solitários pelos bares, descubra um pouco mais de poesia desta cidade sem ser ofuscado pela luz elétrica.

Renato Ladeia