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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O TORCEDOR DO SÃO CRISTÓVÃO

O SÃO CRISTÓVÃO E O ESTRELA F.C.  DE VILA MARLENE

O que você acha do Conny? Antes que eu pudesse preparar a resposta, outro amigo entrou na conversa e afirmou categoricamente:
- Ele é bom e não me perguntem o porquê, mas sei que é ele é bom,
- Mas tem que ter algum motivo para ser bom, ora essa.
- Ele é bom porque é torcedor do São Cristóvão.
- Mas só porque torce para o São Cristóvão?  Esse não é um bom motivo para ser considerado um bom escritor.
- Ele não está na Academia Brasileira de Letras? Então é bom e ainda mais que torce pelo São Cristóvão.
 Aqui em São Paulo ele torce pelo Santos, mas no Rio de Janeiro é São Cristóvão e ponto final. Não sabe muito bem porque, mas torce, sofre e chora.   Bom ... saber ele sabe. Uma vez,  contou,  leu uma crônica do Conny em que ele relata que um entregador de pizza apareceu na porta da casa do escritor com a camisa do São Cristóvão e ele curioso perguntou se ele torcia mesmo para o time. Ele e o entregador de pizza eram provavelmente os únicos torcedores do São Cristóvão no Rio de Janeiro. O cronista ficou emocionado por encontrar alguém, vivinho, em carne e osso, que torcia pelo seu time do coração. Deu uma boa gorjeta e foi  comer a pizza que o seu  pessoal já estava esperando.
E foi por isso que o nosso amigo, paulistano e torcedor do  Peixe lembra que depois de ler a crônica ficou meio mamado pelo time de segunda linha, que servia apenas de sparing para os times grandes do Rio. E é o único time que não troca a camisa. Pode jogar contra o Flamengo, o Vasco etc e a camisa é sempre a mesma. Quem quiser que troque a camisa, pois o São Cristóvão não troca. E não é por teimosia não, mas é porque tem apenas um jogo de uniforme. Ou joga com aquela ou joga pelado, não tem opção.
                Depois dessa conversa meio maluca, fiquei pensando se valia mesmo a pena torcer por time grande. Foi aí que me lembrei do velho Estrela F.C. de Vila Marlene, São Caetano do Sul, onde eu morava quando criança. Quase todos os domingos ia assistir aos jogos do time da vila e torcia mesmo, vibrando em cada jogada.  Depois dos jogos, se vitoriosos, os jogadores voltavam a pé, uniformizados, para a sede, que ficava a dois quarteirões  do campo, com mais um trofeu, orgulho dos jogadores. Na sede, um barracão nos fundos de um armazém, os troféus eram expostos em uma  rústica estante de madeira. Na segunda-feira, voltando da escola, gostava de admirar os uniformes dependurados nos varais do quintal de uma lavadeira. Ficava orgulhoso de ver as camisas do meu time da vila balançando ao vento. Quantas glórias!
Argemiro Piffer nosso vizinho de frente, era um zagueiro do time e gostava de tomar sol sem camisa, exibindo seu corpo sarado com uma águia tatuada no peito. Naqueles tempos era raro ver alguém tatuado e a garotada ficava curiosa querendo saber como aquela tinta não saia quando ele tomava banho. Grande Miro, torcedor do Corinthians, beque central do Estrela F.C. que me levou ao Pacaembu pela primeira vez para assistir um jogo do timão. Foi um dia de aventura para os meus 12 anos. Fomos de carona na boléia de um caminhão.   Morreu moço o Miro depois de um acidente inexplicável, deixando mulher e filhos.
             Mas infelizmente o Estrela acabou ou relaxou como se dizia na época. As camisas ficaram gastas e imprestáveis e não apareceu nenhum patrocinador para comprar um jogo novo de camisas. Os grandes craques do Estrela F.C.  também não tinham dinheiro para comprar nem chuteiras, quanto mais o uniforme. O seu Manuel, o português da padaria, às vezes, pagava a lavadeira quando faltava dinheiro, pois sempre tinha alguém desempregado. De qualquer forma o futebol de várzea estava com os seus dias contados por obra da força demolidora da especulação imobiliária. Mas enquanto durou o time, os nossos humildes  ídolos suavam a camisa, ralavam-se no chão de terra batida e tinham como glória apenas o prestígio entre os homens do bairro e das crianças que os reconheciam nas ruas. Para eles aquilo era demais. Por isso eu também acho que ser torcedor do São Cristóvão é motivo de orgulho, pois não ganha campeonato, não aparece na televisão, mas está no coração do povo. Viva o São Cristóvão e todos os seus (poucos) torcedores.
            Quanto ao velho Cony recordo-me do romance Travessia  entre outros que ele publicou ainda nos tempos de ditadura. Travessia é um bom livro, corajoso para a época, mas a história da indenização que ele recebeu por ter sido oposição ao governo militar, confesso que não engoli, uma mancha na sua biografia. Como disse o Millor, eles não fizeram oposição, mas um fundo de pensão.

Renato Ladeia

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CATOLÉ E SUAS HISTÓRIAS




Catolé é o apelido de Cleoton Fernando de Sena, nascido em Catolé do Rocha, Paraíba, que conheci através de amigos em São Caetano do Sul. Funcionário do Banco do Brasil transferiu-se ou foi transferido, não sei ao certo, para São Paulo, onde angariou um grande número de amigos pelo seu jeito simples, brincalhão e também pelas boas histórias que contava com bastante picardia. Catolé também tocava um bom violão, que animava as rodas de samba.
Sua história de vida é surpreendente, de origem muito humilde, foi internado em uma instituição para crianças carentes, chamada Pindobal, lá mesmo na Paraíba, cuja história ele resgatou, tempos depois, através de um vídeo que provava que é sim, possível, tirar crianças da rua e dar-lhes amparo e educação de qualidade. Catolé ao contrário do irmão que fez medicina, fez o curso superior em Belas Artes no Rio de Janeiro e conseguiu um bom emprego através de concurso no Banco do Brasil, onde fez uma longa carreira até a aposentadoria.
Mas Pindobal ficou na memória do Catolé como um paraíso perdido no tempo. No vídeo mostrou os dormitórios, as salas de aula, refeitório, pátios e os locais onde as crianças cultivavam seus próprios alimentos. Era uma imagem contundente do abandono de um projeto que deu certo na época e foi descartado pelo poder público.  Durante a apresentação que fez para os amigos, comentava indignado o abandono da instituição que conseguiu transformar pessoas como ele, em cidadãos dignos desse nome. Em alguns momentos percebia-se lágrimas no seu rosto, fruto das emoções que as lembranças provocavam.
Lembro-me de uma reunião na casa de um amigo em que o Catolé contou algumas histórias muito engraçadas. Uma delas era sobre um primo dele que veio de Sergipe para procurar emprego em São Paulo, ficando hospedado na casa de um tio. Passados três meses nada de emprego e as economias que o rapaz trouxe minguaram, restando apenas o dinheiro para a passagem de volta. O tio ao saber da decisão do jovem tratou logo de animá-lo e não aceitou que um parente seu voltasse fracassado para a terrinha. “Meu filho vou lhe ensinar como é que se procura emprego aqui em São Paulo”, sentenciou o tio, morador há muitos anos na cidade. Foi então que o tio orientou o rapaz para que pegasse o jornal e não se preocupasse com a experiência requerida. “Basta dizer que tem experiência e pronto. Lá dentro você aprende com o tempo”.
Assim, o moço viu um anúncio no jornal: “Indústria eletrônica precisa de nissei com prática” ele não teve dúvidas e no dia seguinte, bem cedo, lá estava na fila de candidatos ao emprego, destacando-se pelo seu porte alto entre os nisseis. O selecionador ao ver aquela figura estranha na fila de candidatos, perguntou curioso: “Você é nissei mesmo?” “Sou sim senhor e tenho muita prática”, respondeu convicto.
Mas Catolé, para tristeza dos muitos amigos que deixou na terra da garoa, voltou para o Nordeste onde trabalhou até se aposentar. E foi no Rio Grande do Norte que passou os seus últimos anos de vida e onde construiu um aconchegante chalé para receber os amigos e parentes.  Mas uma doença que não foi convidada alojou-se sorrateiramente em seu corpo e levou o nosso Catolé para outra dimensão. A dimensão da saudade eterna. Eterna enquanto durar a vida dos seus muitos amigos que ele deixou por estas bandas que vão sempre se lembrar dos seus sambas, das suas histórias e do seu jeito simples e verdadeiro.

Renato Ladeia