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terça-feira, 17 de novembro de 2009

BELO HORIZONTE

Hoje me dei conta de que a minha primeira e única visita a Belo Horizonte ainda permanece em minhas retinas fatigadas. Apenas um fim de semana, mas ainda fica a impressão de que durou uma eternidade. A viagem de ônibus foi à noite e fez um frio de doer os ossos. Não consegui pregar os olhos, tal o desconforto. Mas o dia amanheceu bonito, ensolarado e pude conhecer a primeira cidade totalmente planejada do Brasil. Naquele momento me veio à mente a voz da minha professora primária, Da. Teresa Rami, nas aulas de geografia, explicando as características das capitais brasileiras. Mas eu tinha outro motivo, mais relevante para a minha fugaz estadia em BH. Era conhecer a igreja de Pampulha, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e com pinturas do grande mestre Candido Portinari.
A viagem foi a convite de um amigo da época, Marcos Padovani, a quem não vejo há séculos. Sua irmã, Cecília, estava num convento em Pampulha e ele precisava fazer-lhe uma visita, levar-lhe notícias, enfim, coisas de família.
Ao chegarmos ao convento, fomos recebidos pelas irmãs com um almoço, que desfrutamos solitariamente, pois não era permitido às noviças, tomar refeições ao lado de leigos, mesmo parentes. Marcos, um pouco espevitado, abriu um armário e de lá sacou uma garrafa de vinho de missa, do qual saboreamos, pecadoramente, boas doses. Enquanto ele se divertia com a proeza, eu tive a impressão de que viraria churrasco nas profundezas do inferno.
Depois do almoço fomos dar um passeio de barco no lago do jardim do convento. Era uma bela paisagem. O lago era rodeado de choupos que lambiscavam, sorrateiramente, as águas. Cecília era acompanhada pela Alessandra, uma moça bela e suave, que cuidava em remar, vagarosamente, o barco. Marcos, encantado com sua beleza, a provocava, insinuando que ela tivera uma desilusão amorosa com algum Alessandro e por isso o nome. Ela se divertia com as brincadeiras do meu amigo e parecia não se importar com elas. A Cecília que eu já conhecia de vista na igreja do bairro, tinha um olhar profundo e suave, próprio das mulheres que se dedicam de corpo e alma às causas religiosas. Sua voz era serena e amiga, transmitindo paz e tranqüilidade. Uma pessoa inesquecível.
À noite fomos à cidade, pois por motivos óbvios não era possível pernoitar no convento. Vagamos pela cidade tentando comprar amores por preços módicos, pois o dinheiro que tínhamos mal dava para as despesas. Depois de bater pernas inutilmente, acabamos por dormir em um humilde hotelzinho, indicado pelas freiras. As noitadas de amor em BH que seriam cantadas em prosa e verso ficariam para outra oportunidade. Sinceramente, as mulheres mineiras me decepcionaram.
No dia seguinte, um domingo, foi bastante movimentado, com missa no convento, festas e passeios. Lá pude admirar a ousadia arquitetônica de Niemeyer que projetou uma igreja que chegou a ser fechada pela intolerância da conservadora família mineira. Ele quebrou os paradigmas barrocos sob os quais o imaginário popular mineiro concebia uma igreja. Portinari, por sua vez pintou santos rústicos, feios e mal nutridos, representando uma visão primitiva e pura do cristianismo. Isso foi demais para a família mineira, guardiã dos ideais do Brasil colonial. O sábio tempo tratou de curar as feridas deixadas pelas ousadias do arquiteto e do pintor e Pampulha está lá, orgulhosamente no panteão das glórias de Minas.
É sempre triste voltar, pois sempre vem aquele desejo de ficar mais um pouco, conhecer melhor as pessoas, os segredos mais recônditos da cidade, as suas belas mulheres. Voltei sonhando com amores impossíveis, como uma linda freira que abandonaria o hábito e fugiria comigo para uma vida mundana. Antes do amanhecer, a bela freira já teria desistido de abandonar o hábito e eu retornaria a minha vida cotidiana.
Pois é, Belo Horizonte ficou lá, entre as montanhas de Minas e muita, muita coisa aconteceu depois. Cecília Padovani faleceu e hoje é apenas o nome de uma praça em um bairro da cidade, uma homenagem ao seu trabalho voltado para a educação e atendimento à população carente. Os seus gestos suaves, o seu olhar e sua voz serena se perderam por aqueles horizontes verdes azulados, onde olhos mineiros descansam. Quanto a Alessandra, cujos belos olhos encantaram dois adolescentes, que fim terá levado? Belo Horizonte! Quem sabe um dia desses vou novamente à cidade, rever Pampulha e se a sorte estiver do meu lado, tomarei uma boa taça de vinho de missa. Para isso vou precisar da cara de pau do Marcos Padovani, que nem sei por onde anda.

Renato Ladeia

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

LAVINIA REVISITADA

Modéstia a parte nasci em Cachoeiro do Itapemerim, dizia o Ruben Braga. Como dizer modéstia a parte por ter nascido em Lavínia, uma minúscula cidade incrustada no oeste paulista? Tem apenas uma avenida principal, a Perobal que atravessa o povoado de ponta a ponta. O nome perobal está ligado às extensas florestas repletas de peroba que existiam por lá em idos tempos. Até recentemente a avenida ainda era de terra, uma terra vermelha, arenosa, que tinge as casas, os carros, a pele e até as minhas lembranças. O casario baixo, janelas que observam atentamente o movimento das ruas. Um cavaleiro que chega a galope, uma carroça, uma charrete, um jipe empoeirado. Tudo é novidade na cidadezinha qualquer na qual eu nasci. Não me lembro de fotografias da cidade, mas uma delas está comigo e povoou o meu imaginário quando criança. Meu tio José tinha uma comitiva que trazia boiadas do Mato Grosso e Goiás. Nesta foto, no centro da cidade, ele estava todo garboso em sua vestimenta gaucha, como era moda nos anos trinta e quarenta.
Lavínia não tem grandes encantos ou desencantos tampouco. Surgiu durante a nova expansão dos cafezais rumo ao oeste nos anos trinta do século passado. Na época a região ainda era habitada por índios e por posseiros caboclos. Chegaram os trilhos da estrada de ferro Noroeste do Brasil e com eles o progresso dos nossos tristes trópicos. Os índios foram expulsos ou mortos pelos jagunços a mando dos grileiros em toda a região Noroeste. Meu tio, um zeloso testemunha de Jeová, que passava as tardes poeirentas e mornas de Lavínia a ler os textos bíblicos, contou-me horripilantes histórias durante a expulsão dos habitantes das terras “sem dono”. Estupros, queima de plantações, assassinatos e outros tipos de violência, tudo em nome do crescimento econômico, do avanço da economia cafeeira. Ele mesmo deve ter participado das ações, mas sempre negou ter feito qualquer tipo de injustiça. No final dos anos vinte trabalhou com o imigrante italiano Jeremias Lunardelli, que se tornou, por obra divina, o maior proprietário de terras da região. Como meu tio era esperto e letrado, caiu nas graças do patrão e no final conseguiu uma bela fazenda, a São Vicente, nome dado antes de se tornar um crente fundamentalista.
Nasci mesmo na Fazenda São Vicente do meu tio, próxima de uma vila do município de Lavínia, chamada Tabajara, pois se acreditava que foram os tabajaras os primeiros habitantes da região. O parto foi feito pela minha tia Carmem, uma carioca da gema, casada com um dos irmãos de minha mãe. Tabajara hoje é um nome complicado que se tornou sinônimo de malandragem, falcatrua, falsificação e tudo o mais por conta de um ridículo programa humorístico da Rede Globo. Penso que os descendentes dos tabajaras deveriam mover uma ação por danos morais contra a família Marinho por ter denegrido um nome honrado, heróico e valente de um povo que resistiu bravamente contra as invasões em nome do progresso. O poder do programa é tão grande que até uma faculdade de São Paulo que ostentava o honroso de Tabajara, foi obrigada a mudar nome para evitar chacotas e perda de credibilidade.
Fui muitas vezes para Lavínia durante as férias escolares. Era uma aventura inesquecível que me fazia sonhar durante o ano inteiro. Achava o máximo caminhar pelas invernadas da fazenda sem fim do meu tio, pegar frutas no pomar, quebrar coquinho, comer doce feito de leite coalhado - uma delícia inigualável, o milho verde assado, pão feito em casa e tomar o café da fazenda junto ao fogão à lenha. Já adolescente, cavalgava no velho Mussulini, um cavalo branco e manso, pela enorme fazenda sonhando ser o John Wayne em Chaparral. Quanta aventura, meu Deus!
Nasci em Lavínia e nem por isso sou orgulhoso, ao contrário do poeta itabirano; também não trouxe prendas diversas para oferecer aos meus poucos leitores. Mas sobrou a fotografia do meu tio boiadeiro, um balança velha, um ferro de passar a brasa e uma espingarda picapau que espero que nunca funcione. Apesar de ser apenas uma fotografia, Lavínia, um belo nome de mulher, ainda povoa minha imaginação nas longas noites de insônia.

Renato Ladeia

domingo, 8 de novembro de 2009

NAQUELA MESA ESTÁ FALTANDO ELE...

Joanin Moscardi, quem sabe, poderia ter sido um dos maiores pontas da história do verdão do Parque Antarctica, coberto de glórias, endeusado pelos torcedores; mas a vida para um jogador de futebol até os anos cinquenta não era fácil. Não existiam os milhões que os bons e mesmo medíocres jogadores ganham hoje. Praticava-se o esporte por prazer, por amor à camisa, conforme contam os nossos velhos. E foi por isso que o Joanin com profunda tristeza abandonou uma carreira de glórias para se dedicar à família como operário numa indústria.
Não que a vida tenha sido mais fácil, mas o salário era certo todo final de mês. Ao ver os dois filhos, Magali e Jorge crescerem saudáveis, bonitos, inteligentes e bem formados, esquecia o antigo sonho. Afinal, cumprira a sua missão ao lado da sua querida companheira Noêmia, que também já partiu.
Conta seu filho que chegou a ver lágrimas correrem pelos olhos do Joanin quando ele olhava velhos retratos de jogadores que ocuparam a posição que poderia ter sido dele; mas logo em seguida erguia a cabeça e agradecia pela família que tinha, mesmo tendo abandonado um grande sonho.
Joanin depois da aposentadoria teve um negócio de raspagem e aplicação de cascolac em pisos de madeira, que ele não levava muito a sério como atividade econômica. Certa vez, pensando em ajudá-lo, indiquei seu nome para uns conhecidos. Ao ligarem para o Joanin, este descartou o serviço afirmando: “Não vai dar não, pois já coloquei as minhas tralhas de pescar na perua”.
Quantas e quantas vezes nos sentamos à sua mesa na cozinha para um delicioso almoço preparado pela querida Noêmia ou então para um simples cafezinho e o ouvíamos contar suas histórias, sempre com o dedo indicador meio curvado apontando para os seus ouvintes. Era a sua marca registrada.
É impossível deixar de lembrar-se das festas fartas de boa comida e muita música em sua casa. Parecia estar sempre sério, mas às vezes deixava escapar um sorriso meio tímido. Era seu jeito de ser. Às altas horas ele se recolhia para seu quarto e deixava um recado: “Eu vou dormir, mas pode continuar a festa”.
Apesar da doença que o deixou preso à cama durante longo tempo, não perdia as esperanças e estava sempre bem humorado. Apoiado pelos filhos, nora,netos que lhe dedicaram muito carinho e conforto, ele partiu feliz, vestindo a camisa do seu amado Palestra esboçando um sorriso maroto, como querendo dizer: “A minha missão está cumprida”. Só faltou mesmo o dedo indicador, meio curvado, com a sua frase característica: “Não falei pra vocês?”.
Hoje, ao passar pela Rua Tenente Paulo Alves, onde ele viveu bons anos de sua longa existência, senti alguma coisa no ar. As velhas sibipirunas estavam macambúzias, os pássaros silenciosos e tive a sensação de que ele estava por ali, observando o movimento, contando causos e provavelmente falando dos seus velhos tempos do Palestra.
É bem possível que não exista um céu como nós imaginamos, mas até que seria bom se houvesse esse lugar paradisíaco onde as almas pudessem se reunir para um bom papo, relembrando os velhos tempos nas longas tardes da eternidade. Lá se encontrariam todos os que se foram para um carteado ou quem sabe até um futebolzinho, de mesa, é claro. Enquanto isso a Noêmia prepararia uns deliciosos quitutes regados com aquele cafezinho gostoso que só ela sabia passar. Assim o tempo se arrastaria até a chegada das novas gerações, que espero que ainda demore muito. Cada reencontro seria sempre uma festa, repleta de saudades e notícias do mundo terreno. Imagino também o encontro, que aqui nunca ocorreu, do Constantino com o Joanin. O primeiro contando as velhas lorotas de Descalvado, a terra dos causos exagerados, e o segundo esboçando aquele velho sorriso maroto diante das histórias improváveis do novo companheiro.
Essas despedidas, mesmo sendo previsíveis, dão sempre a sensação de uma mesa vazia em um espaço de nossa memória. E os versos do velho samba nos conforta. “Naquela mesa está faltando ele/ e a saudade dele/ está doendo em mim”.

Renato, 5 de novembro de 2009.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

SUPLICY, A VESTAL DO SENADO

Sempre votei no Eduardo Matarazzo Suplicy desde o início de sua vida política, quando participou do MDB autêntico, juntamente com Mario Covas, Fernando Moraes, Fernando Henrique, Audálio Dantas entre outros, mas confesso que sempre o achei enrolado demais para ser político. Nesta época era quase gago, tinha muita dificuldade para articular uma frase, o que dirá um discurso. Mas sempre o considerei um sujeito honesto, bem intencionado, apesar de muito ingênuo, ingênuo demais para a profissão. O Suplicy melhorou muito, muito mesmo com o tratamento de uma fonoaudióloga paulista que é reputada como uma “fera”, segundo informações de um amigo. Hoje ele até fala com certa articulação. Lembro-me de uma palestra que ele fez nos tempos de faculdade nos anos 1970. Foi um desastre. Depois de uns vinte minutos, a metade da platéia foi embora e o restante dormiu. Quer dizer: quase, pois continuei até o final com mais alguns abnegados.
Confesso que esperava que ele fosse se desligar do PT no episódio conhecido como mensalão, mas acabou engolindo um sapo maior do que ele. Um bom cabrito não berra já dizia o adágio popular e o velho Supla está aí para provar que o “partidão” do camarada Lula, o guia do povo brasileiro não admite que ninguém pule fora do barco, principalmente em mares revoltos. Também no episódio Celso Daniel, ele não se convenceu com a versão oficial e deu uma de Sherlock Holmes, mas ninguém deu ouvidos ao nobre senador que ficou falando às moscas.
Na crise do lorde do Maranhão, para não confundir com o Sir do mesmo estado, também esperei que ele pegasse a estrada e deixasse de hipocrisias. Não! O partido para ele é como uma família e não se abandona a família numa crise. “Eu acredito que posso recuperá-la”, disse com a firmeza dos puros.
Depois veio aquela do cartão vermelho. Surpreendente mesmo, pois quando tudo estava sendo esquecido, este “chato”, que insiste na moralidade e na decência da política, resolve colocar mais lenha na fogueira para atrapalhar o projeto do grande camarada. Falou em nome pessoal, contrariando a direção partidária. O Lula deve ter falado cobras e lagartos sobre ele. O presidente do partido negou-lhe o cumprimento uma hora depois do pronunciamento. Os companheiros o criticaram de forma explícita. Pensei que ele havia trilhado uma estrada sem retorno. Teria que ir até o final.
E agora José? Teria chegado a hora de pegar a estrada e mudar de ares. Política é para profissionais da falcatrua e o velho Suplicy, apesar do esforço, não tem estômago para isso. Portanto, a melhor saída seria pegar carona com a Marina enquanto havia tempo, mas não, o Supla continuou em sua batalha quixotesca contra os moinhos de vento verdadeiros ou não.
E para encerrar com garbo as suas aventuras quixotescas, resolveu mostrar que é um homem corajoso, sem medo de enfrentar o partido. Colocou uma sunga por cima das calças e desfilou “elegantemente” pelo congresso. Uma cena digna de chanchada brasileira dos anos cinqüenta. O Suplicy se superou e deixou todos os seus críticos e admiradores boquiabertos ante o inusitado. Depois dessa quero esquecer que já votei no camarada Suplicy e espero que ele se aposente e quem sabe, reate com o seu velho amor, a aguerrida Marta.