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domingo, 8 de novembro de 2009

NAQUELA MESA ESTÁ FALTANDO ELE...

Joanin Moscardi, quem sabe, poderia ter sido um dos maiores pontas da história do verdão do Parque Antarctica, coberto de glórias, endeusado pelos torcedores; mas a vida para um jogador de futebol até os anos cinquenta não era fácil. Não existiam os milhões que os bons e mesmo medíocres jogadores ganham hoje. Praticava-se o esporte por prazer, por amor à camisa, conforme contam os nossos velhos. E foi por isso que o Joanin com profunda tristeza abandonou uma carreira de glórias para se dedicar à família como operário numa indústria.
Não que a vida tenha sido mais fácil, mas o salário era certo todo final de mês. Ao ver os dois filhos, Magali e Jorge crescerem saudáveis, bonitos, inteligentes e bem formados, esquecia o antigo sonho. Afinal, cumprira a sua missão ao lado da sua querida companheira Noêmia, que também já partiu.
Conta seu filho que chegou a ver lágrimas correrem pelos olhos do Joanin quando ele olhava velhos retratos de jogadores que ocuparam a posição que poderia ter sido dele; mas logo em seguida erguia a cabeça e agradecia pela família que tinha, mesmo tendo abandonado um grande sonho.
Joanin depois da aposentadoria teve um negócio de raspagem e aplicação de cascolac em pisos de madeira, que ele não levava muito a sério como atividade econômica. Certa vez, pensando em ajudá-lo, indiquei seu nome para uns conhecidos. Ao ligarem para o Joanin, este descartou o serviço afirmando: “Não vai dar não, pois já coloquei as minhas tralhas de pescar na perua”.
Quantas e quantas vezes nos sentamos à sua mesa na cozinha para um delicioso almoço preparado pela querida Noêmia ou então para um simples cafezinho e o ouvíamos contar suas histórias, sempre com o dedo indicador meio curvado apontando para os seus ouvintes. Era a sua marca registrada.
É impossível deixar de lembrar-se das festas fartas de boa comida e muita música em sua casa. Parecia estar sempre sério, mas às vezes deixava escapar um sorriso meio tímido. Era seu jeito de ser. Às altas horas ele se recolhia para seu quarto e deixava um recado: “Eu vou dormir, mas pode continuar a festa”.
Apesar da doença que o deixou preso à cama durante longo tempo, não perdia as esperanças e estava sempre bem humorado. Apoiado pelos filhos, nora,netos que lhe dedicaram muito carinho e conforto, ele partiu feliz, vestindo a camisa do seu amado Palestra esboçando um sorriso maroto, como querendo dizer: “A minha missão está cumprida”. Só faltou mesmo o dedo indicador, meio curvado, com a sua frase característica: “Não falei pra vocês?”.
Hoje, ao passar pela Rua Tenente Paulo Alves, onde ele viveu bons anos de sua longa existência, senti alguma coisa no ar. As velhas sibipirunas estavam macambúzias, os pássaros silenciosos e tive a sensação de que ele estava por ali, observando o movimento, contando causos e provavelmente falando dos seus velhos tempos do Palestra.
É bem possível que não exista um céu como nós imaginamos, mas até que seria bom se houvesse esse lugar paradisíaco onde as almas pudessem se reunir para um bom papo, relembrando os velhos tempos nas longas tardes da eternidade. Lá se encontrariam todos os que se foram para um carteado ou quem sabe até um futebolzinho, de mesa, é claro. Enquanto isso a Noêmia prepararia uns deliciosos quitutes regados com aquele cafezinho gostoso que só ela sabia passar. Assim o tempo se arrastaria até a chegada das novas gerações, que espero que ainda demore muito. Cada reencontro seria sempre uma festa, repleta de saudades e notícias do mundo terreno. Imagino também o encontro, que aqui nunca ocorreu, do Constantino com o Joanin. O primeiro contando as velhas lorotas de Descalvado, a terra dos causos exagerados, e o segundo esboçando aquele velho sorriso maroto diante das histórias improváveis do novo companheiro.
Essas despedidas, mesmo sendo previsíveis, dão sempre a sensação de uma mesa vazia em um espaço de nossa memória. E os versos do velho samba nos conforta. “Naquela mesa está faltando ele/ e a saudade dele/ está doendo em mim”.

Renato, 5 de novembro de 2009.

Um comentário:

  1. Caros amigos,

    Vocês sabem que não sou de responder correspondências, minha poesia não vem com as letras, pois estas danadas são mais complicadas do que psicólogas. A poesia do Joanin era uma bola de curva de trivela daquelas de deixar o goleiro estático, pregado na grama. Neste ponto acho que depois do gol deveria o Gandula pegar a bola nas redes para poupar o coitado do goleiro daquele sofrimento. ~
    Mas vão aí algumas lições do Joanin para me dar caráter, vontade e coração:
    Não tem ninguém melhor do que ninguém; teima, mas não se aposta; se fábrica fosse bom não tinha cerca; para filho não se empresta dinheiro, se dá; não se tem arma; não se mata cobra; não se aponta o dedo para os outros (daí o dedo curvado); melhor a teimosia do que a omissão; ou é ou não é!; tamanho não é documento - e não era mesmo!; mais vale um gosto feito que...
    ESTE É O MEU FILHO! ESTA É MINHA FILHA!
    Não guardar rancor, as brigas com a Noêmia não duravam mais do que dez minutos (quase sempre); um galho de arruda protege do mau olhado; não teima que você perde (em relação às mulheres) e por aí va...
    Ele conhecia bem passarinho, peixe, plantas e é óbvio, tacos e sinteko. Gostava de festas, dos meus amigos, do Palestra. Dos filhos, da nora, dos netos e da Noêmia nem se fala! A última vez que falei com ele foi somente com os olhos e os olhos dele eram os de um menino. Aquele menino era meu pai, sempre será meu pai. Chegamos ao tempo da delicadeza, o Joanin encantou!
    Muito obrigado meus amigos,
    Jorge Antonio Moscardi

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