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domingo, 3 de junho de 2012


 OS VELHOS TEMPOS DA JOVEM GUARDA

Anos sessenta, quando a Jovem Guarda fervilhava na televisão, no rádio, nos cabelos quase compridos da garotada, nas botinhas com salto carrapeta, nas calças rancheiras justas de brim bege (pois o índigo blues só para quem tinha dinheiro para comprar nas lojas de contrabando ou viajava para o exterior), as camisas coloridas, pulseiras etc. O rock and roll estava no ar. Como os Beatles eram inacessíveis o jeito foi criar uma opção cabocla e o Roberto Carlos e sua turma ocuparam esse espaço entre os adolescentes.
Quase todo adolescente chegou a sonhar em ser um ídolo da jovem guarda, cantar nos programas de televisão, gravar um disco e fazer sucesso com as meninas. Alguns tinham até talento e mandavam bem, cantando nas rodinhas ou em festas dos colégios. Juca, ou Antonio Carlos Junquetti era um desses garotões extrovertidos com cabelo na testa que fazia sucesso com as garotas imitando o Jerry Adriani.  Mas havia um cantor de verdade no colégio, o Dorival Marcos (nem sei se era o seu nome verdadeiro ou se já era o artístico), que tinha um vozeirão. Mesmo cantando a capela, conseguia encher o pátio, fazendo calar a plateia de estudantes.  Ele cantava as versões do francês Charles Azsnavour que eram gravadas pelo Agnaldo Rayol. O menino era um sucesso para nós e todos acreditavam que ele iria acontecer.
Mas o tempo passou e já se foram mais de quarenta anos e nunca vi o Dorival em nenhum canal de televisão, jornal ou revista especializada. Por outro lado eu também me desliguei bem cedo da juventude alienada e roqueira.  Meus interesses mudaram, passei a curtir a MPB e seus artistas engajados ou conscientes politicamente, como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Caetano entre outros.
Mas um dia desses rodando por São Caetano, passei em frente a casa onde a namorada do Dorival morava naqueles antigos e saudosos anos sessenta. E foi aí que bateu certa nostalgia daquela época e resolvi tentar localizá-lo pela Internet. A única pista que encontrei foi uma foto de um disco compacto simples (uma música de cada lado) e o Dorival na capa apresentado como relíquia de um sebo de discos.
Lembrei-me de um sábado chuvoso em que nos encontramos no colégio e no caminho de volta ele comentou que precisava ir cantar num concurso na TV Gazeta e não tinha grana nem para a passagem de ônibus. Foi aí que eu me ofereci para patrocinar a empreitada. Fomos até minha casa e consegui uns trocados com minha mãe e chegamos até a TV Gazeta, na Avenida Paulista, um pouco antes do início do concurso, depois de tomarmos pelo menos três coletivos.  Fiquei na platéia e assisti vários calouros interpretando alguns clássicos da Bossa Nova, acompanhados por um trio com piano, baixo acústico e bateria como o velho Zimbo Trio. Chegou a vez do Dorival, que cantou uma canção cheia de acordes dissonantes. Fiquei na torcida para que ele se classificasse e até que ele se saiu bem, mas habituado as baladas, rock ou canções francesas e italianas parece-me que deu umas pequenas atravessadas e não obteve a classificação para continuar no concurso.
Voltamos desanimados, ele evidentemente muito mais do que eu, pois foi uma oportunidade perdida de conseguir alguma visibilidade, mesmo que não fosse através da jovem guarda, que parecia ser o seu objetivo. No caminho comentou que talvez fosse desistir do colégio, pois não tinha tempo nem cabeça para estudar. Ou a minha memória apagou ou nunca mais vi o Dorival Marcos depois daquele dia.  Como também mudei de rumo e de colégio, ficou apenas uma remota lembrança de seu vozeirão cantando “Ma vie” no pátio do colégio.
Se o velho Dorival ainda estiver vivo, é provável que nem se lembre mais desse episódio, remoto em nossas lembranças. É possível também que não seja agradável recordar das dificuldades da vida passada.
O Juca, o outro garoto Jovem Guarda, encontrei depois de algum tempo que sai do colégio e quando eu já estava na faculdade. Ele ainda prometendo acontecer, mas não mais na música.  Não sei conseguiu se formar, mas dinheiro soube que ganhou, pelo menos foi a notícia que deu-me um conhecido comum  de que ele havia se tornado um bem sucedido negociante de automóveis, sua antiga paixão, e estava se dando muito bem.
Enfim, o que eu queria mesmo era contar a história de um cantor, como muitos que sonharam e ainda sonham com a vida artística. Dorival pelo menos deixou registrada a sua marca, gravando duas canções que não ainda não tive oportunidade de ouvir “Menina dos olhos grandes” e “Todo meu amor”. Quem sabe um dia passe pelo sebo e resgate um pedaço daqueles bons tempos ou como diz a canção do Roberto “Daquelas velhas tardes de domingo”.

Renato Ladeia