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quinta-feira, 28 de maio de 2009

LEITE DERRAMADO

Chico Buarque de Hollanda é uma unanimidade nacional e é por isso mesmo que o seu último romance, Leite Derramado, alcançou um sucesso de vendas que poucos escritores, alguns até mais consagrados pelo público e pela crítica, conseguem. É um livro bem editado, com duas opções de capa e é para ninguém botar defeito. A leitura não é das mais fáceis, pois Chico não é um escritor de textos previsíveis, com começo, meio e fim. O personagem Eulalio d´Assumpção começa a sua história em cima de uma maca se dirigindo a enfermeira que o atende num hospital público, onde as pessoas ficam largadas nos corredores, retratando a real situação da saúde brasileira.
Um velho senil que se perde entre o passado e o presente confunde personagens da história, fatos e lugares. Com cem anos de idade, Eulálio ainda conserva o orgulho de pertencer a um tradicional tronco de famílias brasileiras. Seu bisavô teria chegado com a família real portuguesa. Na sua árvore genealógica figurariam grandes fortunas do império que teriam transitado pelos corredores do poder até a República Velha.
O velhinho, apesar de arruinado, sem plano de saúde e morando em um quarto de favor em uma favela não se dá por vencido e ainda brada sua origem pelas repartições, tentando retornar o tempo perdido ou o leite derramado. Ninguém dá mais importância às tradições de famílias, principalmente para aquelas que não tem mais dinheiro. Às vezes, o personagem se torna um tanto inverossímil, com um raciocínio lógico e coerente, pois tenho a impressão de que a senilidade, pelos casos que conheço, dá pouco espaço para a lucidez. Mas o Chico consegue levar a história até o seu final com os devaneios do Eulálio.
Chico Buarque retrata de forma bastante cáustica e irônica a decadência das grandes famílias e tenho a impressão de que ele ironiza a si mesmo. Todos sabem que os Buarque de Hollanda vem de uma antiga linhagem pernambucana, que remonta aos invasores holandeses e senadores do império. Os Gonçalves Moreira, de sua avó paterna também vem de uma linhagem que envolve tradicionais famílias mineiras e ramos paulistas. A família de sua mãe, também não fica atrás, com os Cesário Alvin, uma antiga família mineira que controlou o poder político no estado. É possível que o Chico tenha ouvido durante a sua infância as velhas histórias dos seus antepassados, com suas glórias, tradições, poder, dinheiro e escravos.
Não acredito que a obra foi influenciada por Raízes do Brasil, publicada por seu pai em 1937, como afirmaram alguns críticos. O livro de Sérgio Buarque é um trabalho teórico, influenciado pela sociologia compreensiva de Max Weber, sociólogo alemão, cuja obra ele conheceu na sua estada na Alemanha no final dos anos 30. O livro do Chico, por seu turno, retrata o apego das velhas famílias aos valores tradicionais que tentam viver do passado e da pureza inexistente da “raça”, ignorando as mulheres índias e negras que ajudaram a compor a sua genealogia. A saga da família Assumpção acompanha a história do Brasil nos séculos XIX e XX, sendo neste último a decadência. Pessimista, o autor não somente empobreceu o personagem, como transformou os seus descendentes em marginais na sociedade moderna. De grandes importadores de armas, proprietários de terras e políticos influentes, foram parar na favela da Rocinha, vivendo do tráfico de cocaína. Alguma coisa no livro me lembra os Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Márquez, que também retrata a saga da família Buendia na Colômbia.
A saga dos Assumpção ou o Leite Derramado reflete uma visão pessimista em relação ao futuro pelo autor, prevendo uma sociedade cada vez mais decadente e corrupta, com antigos valores conflitando com o crime organizado e a necessidade de sobrevivência. Dos casarões para a favela em três gerações e um desfecho pouco provável para uma família tradicional brasileira que na pior das hipóteses vai morar em apartamentos de classe media de Copacabana. Mas isso não altera a qualidade do romance. O Chico já não é apenas samba, mas um escritor de talento e daqui para frente os seus fãs irão vê-lo mais nas estantes das livrarias do que nas lojas de discos.

sábado, 9 de maio de 2009

ELE NÃO MORA MAIS AQUI



- Alô! Quero falar com o Asdrúbal?
- Quem? Ah! Ele não mora mais aqui.
- Como não mora ...? Quem está falando?
- É o filho dele..
- O que aconteceu? Morreu?
- Não meu senhor. É que ele mudou.

O meu amigo Asdrúbal mudou de endereço e não avisou ninguém. Deixou a bela casa que construiu, tijolo por tijolo, com amor, suor e lágrimas, como diria alguém mais dramático. Lembro-me de quando mudou para o local, indo morar na edícula enquanto levantava a casa dos seus sonhos. O terreno espaçoso, onde abrigaria a área de lazer com churrasqueira e local para as rodas de samba, uma de suas grandes paixões. A amoreira ficou lá, no meio do quintal. “É para os passarinhos se regalarem, dizia orgulhoso”. Ficou também uma goiabeira que no outono carregava, sobrando para presentear amigos e parentes, além dos doces e compotas.
A casa do Asdrúbal vivia repleta de bem-te-vis, sabiás, rolinhas que passeavam livres, alem de velhos sambistas que ele ia colecionando no seu rol de amizades. Por lá passaram Catolé, Padilha, Xará, Dedo, Saulo de Tarso, Wilson e outros que a minha memória deixou envolvidos em teias de aranha. Com esses sambistas baixavam os espíritos do Noel, Vadico, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Ari Barroso, Geraldo Pereira entre outros, transformando a casa do Asdrúbal num templo da boa música brasileira. Ele mesmo desfilava dezenas de sambas, resgatando coisas do arco da velha, fruto de suas pesquisas. Além disso, o nosso Asdrúbal compunha as suas marchinhas e alguns sambas memoráveis. Pena que o grande público não teve oportunidade de conhecer as canções bem construídas com letras bem humoradas e repletas de picardia. Ainda me lembro de sambas como “Dois Tijolos”, que ele fez sobre o Padilha, que há muito deixou nossa companhia.
E agora eu me pergunto: Como o velho Asdrúbal estará sem aquele espaço, rodeado de natureza e ainda impregnado do clima de antigas rodas de samba? Soube que conseguiu de um velho amigo, um cantinho numa loja de plantas e flores. Como sempre foi apaixonado pela natureza, preferiu o desconforto a ficar sem ela. Dizem que levou apenas a vitrolinha dos anos sessenta, seus discos e alguns poucos livros, entre os quais o Grande Sertão Veredas do Guimarães Rosa, que ele relê sempre que ouve a canção Mês de Maria, do Ari Barroso, cujos versos ele sempre repete “Tenho saudades do Brasil, caipira/ dos madrigais ao som da lira...”. Morar num apartamento, nem pensar. Repetia sempre o Asdrú, como carinhosamente era chamado. A vitrolinha, dizem os amigos comuns, está pelas tabelas e o chiado só aumenta. Computador, CD e outras modernidades, o velho não quer nem pensar. “Enquanto a vitrolinha funcionar eu não me separo da minha velha coleção de vinil. O chiadozinho me faz lembrar dos bons momentos, é uma ligação com o meu passado”, gostava sempre de dizer quando alguém falava sobre as inovações da tecnologia.
As lembranças do Asdrú, que pensava em passar o resto da vida na bela casa da Rua Maria das Dores, me comoveu e eu lá com meus botões fiquei a matutar sobre a tristeza de mudar sozinho, levando a roupa do corpo, deixando o espaço e todo aquele tempo vivido que foi se acumulando na memória. Por outro lado as coisas mudaram também. As rodas de samba com churrasco e cerveja já estavam rareando. Amigos mortos, outros morando longe, outros perto, mas distantes. A casa do Asdrúbal ficou apenas como uma fotografia na parede, mas com certeza, ainda dói.
Vamos deixar de tristezas porque o velho Asdru não é disso não. Com certeza ele está curtindo a sua nova vida, mesmo solitário. Seus filhos que o adoram continuam a visitá-lo para saborear os peixes que ele prepara com requintes de grand chef e ouvir os seus sábios conselhos. Uma coisa até hoje ninguém convenceu o Asdru: comer frango ou qualquer tipo de bicho penado. Aves para ele só voando no quintal ou nas florestas e campos. É capaz de passar fome, mas não coloca um grelhado de frango na boca. Dizem as más línguas que na sua adolescência até deixou de namorar a garota mais desejada do bairro somente porque diziam que ela era meio galinha. Pode?
Depois do telefonema, estou tentando encontrar o velho amigo, mas está difícil. Continua arisco como lambari em água fria. Mas prometo que quando encontrá-lo vou encomendar a ele um samba com o sugestivo título: “Ele não mora mais aqui”. Se não doer, quem sabe vamos ainda reunir a turma para cantar mais uma do velho Asdrú.