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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

BEATRIZ

Ela era uma atriz e bailarina e dançava nos sonhos do jovem rapaz. Ele dormia e acordava pensando nela, imaginando onde ela estaria. Em que palco dançava e representava para as multidões que a aplaudiam. Em seus devaneios ele via a atriz dançando só para ele, movimentando seu corpo como um pássaro no ar. As asas que ela não tinha, flutuavam como leves plumas ao sabor do vento.
Não sabia onde ela morava, mas imaginava que fosse num enorme arranha céu e de lá descia todas as manhãs como um pássaro e pousava na calçada com a ponta dos pés. E todas os passantes abriam caminho para que ela seguisse voando em direção ao palco.
Mas a vida da atriz e bailarina Beatriz era diferente dos sonhos do jovem apaixonado. Ela morava sozinha num quarto de pensão e às vezes nem tinha o que comer, pois seu pagamento atrasava por semanas. Chegava exausta, tarde da noite e deitava-se faminta numa cama imunda e fria. Encolhia-se como feto no útero para suportar o frio da madrugada paulista. Enquanto isso, o jovem continuava a vê-la todos os dias possíveis no palco e ficava esperando que ela passasse e o cumprimentasse para então viver uma grande história de amor. Mas ela saia pelos fundos do teatro com seu grupo e quando o dinheiro dava, iam festejar numa pizzaria popular. Lá comiam e bebiam, cantavam e falavam por horas até a madrugada.
E o menino continuava a perseguir a bailarina e atriz, sonhando com os sonhos dela, construindo em sua imaginação uma vida tão diferente da vida real, até que numa noite, o seu sonho estaria prestes a se realizar. Descobrindo por onde a atriz e bailarina desaparecia depois do espetáculo, colocou-se de plantão a espera do final que não assistira totalmente. Enfim, lá estava ela saindo pela porta dos fundos do velho teatro. Os cabelos molhados depois de um rápido banho, com o casaco ainda jogado sobre as costas ela desceu a escada onde estava o maior de todos os seus fãs. Ela mal olhou para aquele frangote postado no final da escada com as mãos enfiadas nos bolsos de uma calça jeans bastante surrada e o olhar fixo na sua diva que saia dos sonhos do palco e entrava em sua realidade.
Ele não disse uma palavra e passou a seguí-la como um fantasma, acompanhando sua trajetória pelos becos mal iluminados, pelas calçadas mal conservadas, pelas ruelas repletas de desvalidos e mulheres que se ofereciam por preços vis. Nada tirava sua atenção. Seu olhar era fixo e determinado e ele só parou quando ela entrou em uma pensão barata e desapareceu como se tivesse entrado na última porta de um pequeno purgatório. Ele ficou parado na calçada a olhar para as janelas, tentando imaginar onde ela estaria, em qual quarto se despiria e deitaria seu corpo de artista numa solitária cama. Uma luz se acendeu e ele pode observar um vulto que se movimentava atrás da janela embaçada pela poeira e poluição da cidade. Ali permaneceu até que a luz se apagou e caminhou em seguida sofrendo pelo caminho de volta só de pensar na solidão de um pequeno e sórdido quartinho de pensão que a sua amada se aconchegava antes e depois de viver a catarse do palco.
Os dias que se seguiram se tornaram rotina com o jovem esperando a atriz sair do teatro e caminhar apressadamente pelas ruas e becos sujos até sua morada. Mas a temporada estava com os seus dias contados e se encerraria no final de semana. O que faria sem vê-la? Certamente padeceria de saudades... Seria preciso que o espetáculo se prolongasse por toda a vida para que ele pudesse vê-la e ouví-la para sempre, pois só assim conseguiria ser feliz.
No grand finale ele a seguiu desesperadamente, mas ela estava acompanhada de sua trupe e foi para um restaurante para comemorar a despedida de mais uma temporada de trabalho. Ele também entrou no restaurante sentando-se no balcão pedindo uma bebida, que desceu amarga e áspera pela sua garganta. Ele observava Beatriz com seu grupo, que conversava, ria, gesticulava e todos na mesa acompanhavam seus belos movimentos que parecia os de um pássaro. Passado algum tempo, ela levantou-se, fez sinal de que estava cansada, esgotada e precisava descansar seu belo corpo para o dia seguinte, que prometia cheio de compromissos e problemas mal resolvidos.  

Ele a acompanhou com os olhos, pagou sua conta e a seguiu como um zumbi pelos mesmos caminhos que fizera durante vários dias. Ela entrou em um beco escuro para cortar distância. Ele se aproximou e a tocou. Ela era de carne e osso. A pele fria e suave. Ela tentou gritar, mas ele tampou sua boca com uma das mãos e com a outra tentou controlá-la segurando seu frágil pescoço. A resistência de Beatriz foi diminuindo e ele pensou que ela estava enfim se entregando a ele, que seria a única pessoa que verdadeiramente a amava. Ela caiu em seus braços, fria, pálida e sem vida. Foi o seu último espetáculo. Triste, sem público, sem luzes e sem aplausos.  O resto foi um eterno silêncio que ecoou pelos becos, bares, ruas e avenidas como uma canção sem letra e sem melodia.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O CHAMADO DE ABRAÃO

Abrão era jornalista e por muitos e muitos anos trabalhou na grande imprensa fazendo reportagens nas mais diversas áreas. Era até bem sucedido na sua profissão, mas não havia atingido o auge da carreira para alguém com mais de quarenta anos. Prevendo dias piores, fez um curso de pós-graduação em gestão para eventualmente ter o seu próprio negócio caso perdesse o emprego. A família de  Abrão era tradicional e pertencia a antigos troncos paulistas, cujas origens remontavam os primeiros tempos coloniais.
            Sua vida amorosa estava caminhando, pois tinha um velho relacionamento com uma professora que já se estendia por mais de dez anos. Em verdade parecia mais uma relação de amizade do que um caso amoroso, mas convenhamos que o nosso personagem não estava muito apaixonado e queria mesmo era uma companheira inteligente para passar o resto dos seus dias.
Sarah era professora, uma pessoa independente e culta que gostava de caminhar com suas próprias pernas, detestando qualquer tipo de interferência em suas decisões de vida. Viajara muito, conhecera a Europa e o Oriente, terra dos seus pais, nascidos na Síria. Falava fluentemente o francês, o árabe, grego e espanhol.  Abrão, depois de muitos anos de paquera, resolveu pedi-la em casamento. Sarah ficou um pouco assustada, pois não estava preparada para dar um passo tão grande na relação morna que tinha com o  Abrão, mas acabou topando a empreitada desde que ele viesse morar em seu apartamento, pois caso não desse certo, ela colocaria as suas malas na porta e adeus.
Foi um casamento simples, apenas com a cerimônia no cartório e um almoço com os familiares e amigos mais íntimos. Era um casal maduro e pelo andar da carruagem tudo indicava que não teriam filhos. Sarah próxima dos quarenta anos e as voltas com um doutorado, não queria nem pensar em coisas da maternidade. Não tinha tempo para isso, dizia para amigos e parentes que ainda tinham uma pitada de esperanças. Mas peço paciência ao leitor, pois ficará surpreendido com o que virá depois.
Casados e felizes, pelo menos é o que transparecia para aqueles que compartilhavam da amizade do casal, foram tocando a vida. Sarah com o seu interminável doutorado sobre a influência da literatura grega na literatura russa, dando aulas em colégios para sobrar uns trocados para fazer suas viagens, mal tinha tempo para o marido, que também viajava muito por força de sua profissão. Como Sarah não sabia fritar um ovo e muito menos de outras lidas domésticas, a solução foi contratar Hagar, uma jovem mulata, para cuidar da casa. Ela foi indicada por uma amiga que conhecia a moça, garantindo que se tratava de pessoa idônea, fato que ficou comprovado nos anos em que ela lá trabalhou.
Mas outras novidades estavam por acontecer. Abrão foi demitido da revista que dirigia e resolveu montar uma assessoria para empresas, aproveitando o longo relacionamento que mantivera com empresários e órgãos de imprensa nos mais de trinta anos de carreira. Investiu muito no escritório, com funcionária, mobiliário moderno, telefone etc., mas os contratos não chegaram apesar das promessas. As coisas começaram a ficar complicadas, pois ele gastou a indenização com o pagamento de pessoal, aluguel e outras despesas e o faturamento era pífio. Por fim Abrão fechou o escritório e teve de viver da pequena aposentadoria e alguns trabalhos eventuais que seus amigos conseguiam para ele. Ficava o tempo todo em casa, ora trabalhando, ora pensando na vida.
Por esta época Hagar, a jovem empregada, comunicou à patroa que estava grávida de três meses e o pai havia desaparecido. Preocupada queria saber se não seria dispensada. Sarah ficou ofendida com a pergunta e se comprometeu em mantê-la no emprego e que a ajudaria no que fosse necessário para que tivesse o bebê. Abrão ficou radiante com a possibilidade de ter uma criança em casa e deu todo apoio a esposa com relação à decisão sobre a empregada.
Nove meses passam depressa, não para o casal que não via a hora do bebê nascer e Hagar voltar a trabalhar, pois com a gravidez precisaram contratar outra empregada para dar conta do recado. O garoto chegou e Abrão se desmanchou com a possibilidade de ser um quase avô para o menino. Saiu às compras e retornou com um exagero de presentes para o garoto, incluindo uma bicicleta que não ser sabe quando utilizaria.
Tempos depois, com o garoto já caminhando pelo antes bem decorado apartamento, Sarah resolveu ter uma conversa com a empregada, pois havia decidido adotar a criança que seria a futura herdeira do casal sem filhos. A conversa foi mais ou menos assim:
- Hagar, tenho um assunto muito sério para conversar com você, disse Sarah bastante séria e formal.
- Meus Deus do céu! Então a senhora já sabe? Respondeu preocupada a empregada.
- Sabe o que criatura?  Do que você está falando? Vamos, desembuche, disse irritada a patroa.
 Gaguejando e não conseguindo mentir para a patroa que ela respeitava muito, disse:
 - O seu  é o pai do menino e já estou esperando outro dele, disse a pobre Lia já em prantos e pedindo perdão para a patroa.

Sarah ficou pálida e Hagar cuidou de dar-lhe um copo de água com açúcar, pois a patroa ficou paralisada e sem ação por alguns minutos. Por fim, recompondo-se, Sarah levantou-se e não disse uma palavra. Pensou em expulsar o marido de casa, mas teria que colocar a empregada seduzida com a criança na rua da amargura.  Sua formação humanista não permitiria tal decisão. Sarah, humilhada, decepcionada e muito triste, arrumou sua mala e deixou com a empregada o recado de que mandaria buscar o restante de suas coisas depois. Nunca mais falou com o marido. Ficou alguns dias na casa da mãe até conseguir um apartamento para morar e logo esqueceu a desventura.
Sarah passou a se dedicar de corpo e alma ao seu doutorado e logo passou a lecionar em uma universidade. Ganhou prestígio, escreveu livros, deu palestras. Infeliz no amor e feliz no trabalhe. Sem paciência para novos relacionamentos, a professora continuou sua vida acadêmica até o final da vida, orientando teses e dissertações, apesar de bastante assediada por sua simpatia e inteligência.
 Abrão tentou em vão manter contato com Sarah, que desligava o telefone quando percebia que era ele. Sem condições de manter o apartamento, foi morar com Hagar em uma edícula numa periferia, onde tempos depois nasceram mais dois filhos. A sua família, muito tradicionalista e preconceituosa, jamais aceitou o casamento com uma mulher semi-analfabeta, pobre e ainda por cima negra. Isolado da vida social e da família, o outrora garboso e intelectualizado jornalista recolheu-se e ficava cuidando dos filhos enquanto Hagar trabalhava como faxineira para ajudar no orçamento. Não demorou muitos anos e a mulher trouxe para morar em casa um namorado e apresentou o velho  Abrão como seu pai. Resignado e sem ter para onde ir com a sua parca aposentadoria, lá ficou até que o internaram em um asilo para idosos desamparados.
 Abrão queria filhos que muito provavelmente Sarah não lhe daria e recorreu à Lia, pobre empregada para atender aos seus anseios e devaneios. Para seu azar o Criador não lhe deu guarida como na história bíblica e Sarah partiu deixando-o a ver navios, ou melhor, a ver mais filhos chegando. Mas no fim da vida, eis que  Abrão teria a surpresa que preferia ter morrido antes de conhecê-la. Lia confessou-lhe que os filhos não eram dele e as transas foram apenas para que pensasse que era o pai. Ele nunca pensou em fazer um exame, pois estava tão radiante com a paternidade que nem pensou neste risco. A ingenuidade dos homens causa pena, que o digam as mulheres.

Abrão sem a Hagar e com a memória a lhe pregar peças, ficou a deriva e acabou sendo recolhido num asilo para idosos onde passa as longas tardes da vida que pouco lhe resta a falar dos seus grandes projetos que nunca colocou em prática, mas que ainda acredita que serão um grande sucesso financeiro e político. Enquanto a Sarah continua ativa intelectualmente, escrevendo e traduzindo livros e orientando teses. Não se casou mais e passou o resto de sua longa vida com seus livros, plantas e cães. 
O CASAMENTO


A família de Maria, apelidada por Mariquinha desde criança, mudou de cidade por causa da transferência do pai, que era professor primário. A vida era bastante difícil para uma família grande e a mãe contribuía para o orçamento doméstico dedicando-se à costura. Mariquinha, então com dezesseis anos, já ajudava a mãe nas costuras e também fazia as entregas de encomendas. Numa dessas entregas conheceu Epaminondas, filho de uma antiga família local, que outrora esteve muito bem financeiramente, mas vivia das glórias do passado. O moço não gostava de trabalho e os vários empregos que o pai lhe arranjara, acabava abandonando-os alegando, ora que o salário era pouco, ora que o serviço era por demais pesado. Trabalho com hora para chegar e para sair não fazia parte da vocação deste bom vivant. Mas ao conhecer Mariquinha começou a pensar em constituir uma família, pois já estava passando da idade. Assim insistiu com o pai que pedisse aos pais de Mariquinha a sua mão em casamento. O pai teria preferido uma moça de uma família de posses para dar ao filho um futuro melhor, mas diante da insistência, fez as vontades do filho e foi à casa do professor fazer o pedido, como era costume na época.
               Mariquinha mal havia visto o moço, mas considerava-o bonito. Cumprimentavam-se a distância quando ela ia à casa dos pais do rapaz para fazer alguma entrega. Apesar de bonita, vestia-se com um vestido estampado de algodão e usava chinelas, mas os cabelos louros presos em duas tranças que caiam sobre os ombros lhe davam um jeitinho faceiro e encantador.  Nos fins de semana, quando ia passear na praça com as irmãs, passava um batom nos lábios, o que fazia os rapazes da pequena cidade disputarem a oportunidade de cumprimentá-la e fazer-lhes mesuras.  
               Na noite do pedido, os pais de Epaminondas foram até a casa de Maria para formalizar o pedido de compromisso. A mãe, uma mulher prática, queria saber se o rapaz tinha emprego e recursos para sustentar uma família. O pai do moço garantiu que o filho tinha um emprego e que ajudaria o casal no início da vida conjugal. Tudo acertado, começaram os preparativos para o casório, ficando para dona Cândida a responsabilidade de providenciar o enxoval da noiva, o que lhe reservou trabalhos extras para fazer frente às despesas. O casamento foi simples dadas as condições econômicas da época, pois o pai do noivo apesar de dispor de uma propriedade, havia perdido grande parte da lavoura por causa de uma longa estiagem.
               Casados e mal se conhecendo, foi o casal morar na casa dos pais de Epaminondas até que as condições melhorassem. Maria continuou ajudando a mãe nas costuras e com isso conseguia algum dinheiro para ajudar no seu parco orçamento. O marido, apesar das promessas, abandonou mais um emprego e vivia jogando truco com os amigos em uma bodega. O minguado dinheirinho da mulher ele surrupiava religiosamente para gastá-los na jogatina e bebida. Foi mesmo um péssimo negócio para a pobre Mariquinha, caro leitor. Com o tempo, foram morar em uma casa arranjada pelo sogro na periferia da cidade. Mas tudo ainda estava por acontecer. Com dois filhos e nomes tão longos que os meninos se cansavam para pronunciá-los quando chegava uma visita. Era a velha mania de grandeza de uma antiga família tradicional. Nomes longos e dinheiro curto. 
               Sem dinheiro para o sustento dos filhos e do marido, Mariquinha conseguiu um emprego como garçonete em um restaurante na pequena cidade do interior de Minas, onde moravam. Com a vida apertada e recebendo propostas cada vez mais atraentes, a pobre moça resolveu experimentar apenas uma vez para colocar comida em casa. Azar dela, o folgado marido descobriu e além de tomar-lhe parte do dinheiro, a incentivou a dupla ou tripla jornada, tornando-se assim um cafetão.
               A vida de Mariquinha ficou tão difícil que ela resolveu escrever e contar a mãe pelo menos parte do que estava lhe acontecendo, pois a parte omitida era por demais chocante para a velha senhora. Dona Cândida e a família haviam se mudado para o Rio de Janeiro, mas não demorou uma semana, entre o recebimento da carta e sua chegada à casa da filha. Mandou que arrumasse as malas e as crianças, tomaram um carro e foram para a estação de trem. Chegando em casa Epaminondas deu conta da ausência da mulher e das crianças e bateu em direção à estação. Lá chegando exigiu que as crianças ficassem com ele, mas dona Cândida deixou bem claro que nem por cima do seu cadáver ele levaria as crianças. Por sorte o trem chegou e ela conseguiu embarcar com a filha e as crianças.
               Chegando a próxima estação, já havia uma ordem judicial para detenção das crianças. Dona Cândida, uma mulher esclarecida, argumentou ao oficial de justiça em bom português para não deixar dúvidas quanto ao direito da filha em ficar com os filhos, pois o marido era um cafajeste preguiçoso que não cumpria as suas obrigações de provedor. Diante do impasse o Oficial de justiça falou com o delegado local, que por coincidência era parente de dona Cândida. Explicada a situação, o delegado fez vista grossa e deixou que seguissem viagem.
               Do Rio de Janeiro, a família, agora com mais dois membros, mudou-se para o interior de São Paulo, onde se estabeleceram. Mariquinha andou de namoricos pela cidade e seu nome ganhou folha corrida e seu irmão mais velho tratou se colocar coleira nos ímpetos da irmã, arranjando-lhe um casamento ou amigamento com um fazendeiro velho e viúvo do Mato Grosso. Pobre Mariquinha, ficou enterrada no sem fim do sertão, onde a vila mais próxima ficava a mais de cinqüenta quilômetros. Tempos difíceis aqueles em que a malária praguejava pelos campos. Contaminada pela doença, deixou os dois meninos com seus longos sobrenomes a mercê do velho fazendeiro e ninguém mais no mundo soube qualquer notícia dela ou das crianças.


O ALPINISTA SOCIAL

Marco, decididamente, era um alpinista social, mesmo sem saber o que significava isso.  De família muito humilde decidiu que precisava fazer qualquer coisa para melhorar de vida. Rapaz bonitão, loiro de olhos azuis, fazia sucesso com as mulheres, mas estava mesmo interessado em dar o famoso golpe do baú. Não é que a oportunidade surgiu quando descobriu que uma família freqüentadora da igreja era muito abastada. O velho Aristóteles tinha lojas e uma construtora em ascensão, além de vários imóveis espalhados pela cidade. A moça era feia, desajeitada e, além de tudo, não era muito equilibrada. Para Marco não havia problema algum em desposar a moça, um pouco mais velha do que ele e com todos os predicados mencionados. O que interessava mesmo era o patrimônio do sogro que tinha dinheiro escapando pelo ladrão, conforme se comentava pelo bairro.
Tudo indica, meus caros leitores, que a família estava com muita pressa em selar o compromisso da Cremilda com o moçoilo para evitar algum imprevisto. Marco estava fazendo o serviço militar e mal terminou a formatura, o casamento já foi marcado. Aliás, a futura sogra e a noiva, foram as duas únicas pessoas que foram assistir ao evento de conclusão do serviço militar. Os rapazes queriam se livrar o mais rápido possível da encrenca e cuidar  suas vidas. As famílias nem ficaram sabendo que estavam sendo convidadas. Somente o Marco cometeu o cochilo e levou a tiracolo as duas mulheres vestidas de acordo com os padrões evangélicos. Saias abaixo dos joelhos e blusas fechadas até o pescoço. Os longos cabelos enrolados em forma de coque na parte superior das cabeças. Elas formavam um quadro grotesco  pois eram as únicas pessoas civis num ambiente militar.
Os colegas de Marco caçoaram dele por ter conseguido a proeza  de arrumar uma namorada tão feia e desajeitada. Mas ele respondia zombeteiro:  “O que me interessa é a grana do pai dela. O resto eu dou um jeito”.
Foi um casamento digno dos comentários da vizinhança. O sogro não poupou  recursos, que ele tinha de sobra,  para proporcionar uma festa digna da sua fortuna em ascensão. A festa foi realizada em um prédio ainda desocupado que seria utilizado para os novos escritórios de sua firma. Champagne, vinhos e serviço de Buffet com caviar para comemorar as núpcias. Marco estava feliz da vida e pensava com seus botões: “Um dia tudo isso será meu”, sonhava. Viu-se comandando o império do sogro, dando ordens, andando de cadilac com motorista e tudo o que teria direito o genro do magnata.
Terminada a festa, o consorte tinha uma missão a cumprir e não era das mais fáceis. Como se tratava de uma moça de família religiosa e puritana, nada de beijos ou abraços antes do casamento. Ela se guardou totalmente para ele naquela quinta-feira de um abafado mês de janeiro.  Marcos bem que tentou, mas não conseguiu armar o seu brinquedo para aplacar os desejos da desposada. Alegou ter bebido demais e convenceu a donzela a deixar para o dia seguinte a consumação do ato conjugal. Caso o casal fosse do sul da península itálica, teriam sérios problemas diante da comunidade, pois não haveria lençol estendido na janela com as marcas de amor.
Mas enfim, relaxado, Marcos conseguiu romper as barreiras que separam a ansiedade e o prazer. Aliás, deixou claro para a esposa que a função do ato sexual era apenas para a procriação e o fariam o mínimo necessário para gerar filhos.
Seu primeiro emprego foi numa das lojas do sogro como gerente. O tempo passou e nada da fortuna nababesca que havia sonhado. Tinha um salário e um apartamento para morar ao lado do sogro. Logo ele percebeu que recebia muito pouco para dormir com a moça mais feia e burra do bairro. Ficava até tarde no trabalho para não voltar para casa e encontrar a mulher acordada. Com o tempo começou a ter casos, inclusive com funcionárias da loja. Os comentários com o tempo chegaram aos ouvidos  do sogro. Marco foi removido da gerência da loja e colocado em uma função de pouca relevância e dinheiro menos ainda. Discriminado pela família da mulher e já com dois filhos chegou à conclusão que precisava cuidar da sua própria vida e não depender mais do sogro. Abandonar a esposa, jamais, pois seria abdicar da fortuna que um dia poderia chegar às suas mãos ou a dos filhos. Arrumou um emprego de representante de vendas que, felizmente, o obrigava a ficar meses fora de casa, comunicando-se com a mulher e os filhos apenas por telefone.  Numa dessas viagens envolveu-se num acidente e lá foi o nosso alpinista social prestar contas com o criador como ele mesmo gostava de dizer em relação à morte.

Nos seus últimos momentos, no caminho entre o local do acidente e o hospital, teria se arrependido do projeto de vida que arquitetou para se dar bem. Casou-se por puro interesse financeiro, mas recebeu apenas algumas migalhas da grande fortuna que chegou a sonhar. Abdicou de ser feliz para ter fortuna e acabou sem fortuna e sem felicidade. Pobre Marcos.
O LUTO DE ESTEFÂNIA

Pobre da dona Estefânia, perdeu um filho com apenas dezoito anos num trágico acidente. Ele foi junto com alguns amigos nadar numa represa em São Bernardo e acabou se afogando. Conhecia o Paulinho apenas de vista, pois eu era ainda um frangote na época.  Foi muito triste, pois era apenas um garoto com muitos sonhos pela frente.  Ele saiu com uma turma para nadar e aconteceu o inesperado.  Disseram que ele mergulhou fundo e se enroscou em um galho de árvore.
             Logo depois o seu marido, um velho advogado de porta de cadeia, morreu com câncer, que em casa se chamava doença ruim, ou aquela doença que ninguém gostava de falar o nome. Fui com meu pai visitá-lo uma vez. Era um homem alegre e simpático que mesmo acamado sem poder andar, ainda fumava e dizia besteiras na frente de um menino. Meu pai ficava desconfortável e tentava a todo custo mudar de assunto, mas vira e mexe ele soltava um palavrão sonoro. Dona Estefânia, sua mulher chorou muito no velório. Gritava desesperada que os dois únicos homens de sua vida tinham partido.
             Ficou ela e a filha Marília, uma garota lmeio maluquinha, que era a valentona do bairro e batia até nos marmanjos. Como a mãe trabalhava fora, ela abria a casa e servia pão com manteiga e café com leite para toda a molecada. Ser amigo dela era uma proteção. Um dia ela resolveu ir para a nossa casa com toda a sua turma. Minha irmã mais velha acabou deixando, mas constrangida porque nossa mãe não gostava de crianças em nossa casa. No dia seguinte teve muitas palmadas e puxões de orelha, além das terríveis broncas da nossa mãe. Ela só não contou para meu pai com medo de que ele ficasse muito furioso. 
             Mas a Dona Estefânia, viúva teve um caso com um rapaz solteirão, filho de um italiano, proprietário de uma oficina mecânica. Parece que foi um romance tórrido pelo que se ouvia pelas conversas dos mais velhos em surdina. Falava-se, também, que o caso começou bem antes do velho advogado morrer. Ela bem mais velha do que ele, era muito ciumenta e ele um mulherengo de primeira ordem, conforme se comentava  a boca pequena. Os fatos vieram comprovar que tais comentários tinham lá suas razões. Em pleno dia apareceu na esquina de nossa casa uma moça bonita e elegante e perguntou-me se eu conhecia o Alexandre. Claro que conheço, respondi prontamente. Então ela pediu-me que fizesse a gentileza de dar-lhe um recado que ela queria falar com ele com certa urgência. Fui rapidinho até a casa do tal de Alexandre, que estava dormindo. Quando falei que uma moça estava querendo falar com ele, a Dona Stefânia ficou uma fera e saiu de chinelas para encontrar a rival. Foi o maior barraco que o pacato bairro já havia presenciado. A moça, muito educadamente, tentou contornar a situação, mas foi humilhada publicamente, com todos os impropérios que as mulheres ciumentas utilizam contra as suas rivais. Naquele dia aprendi novas palavras e tornei outras mais feias. Começou a aglomeração de boa parte da população do bairro até que o Alexandre apareceu e apartou o que seria uma tragédia para a desconhecida,  que por seus modos elegantes e delicados, levaria uma tremenda de uma surra da dona Stefânia.  A moça foi embora e o Alexandre levou a sua mulher pra casa.
               Mas dona Estefânia foi envelhecendo e o seu Alexandre continuava ainda moço, apesar dos cabelos começarem a ficar grisalhos. A diferença de idade pesou bastante e as traições viraram rotina. Tempos depois ela confessou para amigas que não ia mais brigar por isso. Para ela a vida estava no fim mesmo e achava melhor que ele aproveitasse a juventude que ainda lhe restava. E assim ela foi definhando aos poucos e não dava para acreditar no que a outrora bela mulher havia se transformado. Alexandre a abandonou bem antes de sua morte e só foi ao velório por causa de um filho que teve com ela.


A INSACIÁVEL


Aninha, filha de um casal de portugueses morava numa casa de esquina, onde repousavam frondosas árvores, junto com os pais depois de um casamento que durou pouco e teve um final escandaloso. O marido, desconfiado da traição da mulher, colocou um gravador no quarto logo que saiu para o trabalho. A armadilha funcionou e de posse da gravação, desmascarou a mulher que o traia com um dos seus empregados, deixando-a sem eira nem beira.
               Com o fim do casamento, Ana continuou tendo seus casos, que sempre terminavam de forma pouco civilizada, pois não aceitava as separações de forma pacífica. Quando o amante era casado, ela não deixava por menos e ia na porta da casa do ex para dizer todas as coisas que ficaram entaladas em sua garganta. Era uma mulher temível. Tanto pela sua fúria sexual, como pelas conseqüências resultantes da separação. Como era extremamente possessiva era inevitável que as relações não tivessem longa duração. Em pouco tempo os amantes procuravam escapar da perigosa armadilha.
               De sua casa tinha uma visão privilegiada da rua e podia observar entre os passantes alguma presa fácil para alimentá-la nos prazeres da carne. Foi assim que viu o filho do novo proprietário de um armazém do bairro que ficava na esquina em frente a sua casa.  O moço era casado, mas sabe-se pelas boas e más línguas que vivia às turras com a esposa que às vezes vinha ajudar a ele e o pai no trabalho nas lides do comércio. Esposa segundo corrigiu-me um amigo professor da língua pátria, é apenas no dia do casamento. Depois disso passa a ser mulher. Mas isso não vem ao caso com a nossa história.  Aninha não perdeu tempo e começou a freqüentar o estabelecimento lançando olhares sedutores para o jovem. Não demorou muito tempo e a nossa “viúva negra” já havia seduzido mais uma presa. Como os pais de Aninha já estavam bem idosos e ela morava numa área independente da casa, foram lá os tórridos encontros amorosos com o comerciante, segredo que todos no bairro já sabiam e o descuidado rapaz nem desconfiava.
               Como já foi anunciado no início desta pequena história, não demorou em que o rapaz percebesse que estava mais do que na hora de dar adeus à aventura e aos perigos que ela representava. Mas ele não encontrava uma maneira delicada para dar fim a tudo, pois já conhecia bem a amante e sabia que o rompimento seria explosivo.   O rapaz cujo nome aqui não nomearei por temer fazer alguma injustiça passou a fugir dos encontros alegando, ora estar muito ocupado, ora que a mulher estava a sua espreita. Mas Aninha não se convenceu com as desculpas e um belo dia, que talvez não tivesse sido tão belo assim para o moço, resolveu fazer o maior escândalo que o pacato bairro já havia presenciado, chamando-o, na porta do estabelecimento, de frouxo e outros adjetivos que o sexo masculino reza e pede ao criador para nunca ouvir, ainda mais em público.
               Ele não fazia idéia do que estava por vir e depois de mais algumas investidas e convencendo-se de que ele abandonara o barco, quer dizer os prazeres que ela lhe proporcionava na alcova, partiu para um jogo mais pesado, espalhando que o rapaz precisava de um pequeno auxílio para conseguir atingir o orgasmo. Imagine você leitor, que ela declarou em alto e bom tom, que ela precisava usar um consolo na parte traseira do moço nos seus momentos mais íntimos. Devo dizer que ela disse isso com o calão mais adequado às mulheres de vida fácil, que não tem preocupações pudicas.
               Pobre moço. A notícia se espalhou e ele ganhou o apelido pouco gentil de “fio terra”, que é aquele fio fundamental para que todo aparelho necessita para funcionar. O seu casamento que a bem da verdade já estava no seu ocaso, recebeu a gota d’água para acabar de vez. O pai diante da desmoralização do filho perante a comunidade passou nos cobres o armazém e arribou para outras freguesias e nunca mais se falou neles.

               A nossa poderosa mulher vulcão continuou a acompanhar os transeuntes pela janela na espreita de conseguir mais alguma presa. Mas o tempo passou pela janela de Aninha e tudo indica que depois do último escândalo nunca mais conseguiu alguém para compartilhar do seu aquecido leito. Foi envelhecendo a olhos vistos e um câncer, daqueles que não demonstram piedade a ninguém, a consumiu rapidamente para a tristeza daqueles curiosos e curiosas que vêem na vida alheia, o tempero para as suas.
NADA É PARA SEMPRE


Conheci Ernesto quando estudantes no antigo ginásio. Ele vinha transferido de um seminário católico, pois havia desistido da carreira eclesiástica e se matriculou no colégio estadual.  Ser padre não era mesmo sua vocação e jogou a toalha bem antes de se criar muita expectativa na família, profundamente católica. Fez como Bentinho, o casmurro personagem de Machado de Assis, que desistiu da igreja pela paixão por Capitu, a moça dos olhos de ressaca.
               Mas não havia uma Capitu na vida de Ernesto, pelo menos enquanto fazia o ginásio. Mas no final do colégio a sua Capitu, aliás, a Madalena, apareceu em sua vida. Era uma moça um pouco mais velha que ele. Não era nenhuma beldade e também não tinha o olhar enigmático da personagem do romance Dom Casmurro. Usava longos cabelos, que quase cobriram seu rosto fino e comprido. Tinha um sorriso bonito e simpático, sugerindo ser uma pessoa amável e generosa. Inteligente e dedicada, logo se formou na escola normal e em pouco tempo já era professora primária. Formavam um casal bastante moderno. Participavam ativamente da vida comunitária, tanto na igreja do bairro, como nos movimentos sociais. Da vida comunitária para o engajamento em movimentos pelo fim da ditadura militar foi rápido e o casal participou ativamente de movimentos estudantis e trabalhistas.
               Madalena era ajuizada e forçou o namorado a poupar desde cedo e juntos compraram um pequeno terreno onde aos poucos construíram uma modesta casa para morarem depois do casamento. Com a casa própria, estava tudo pronto para um feliz casamento pequeno burguês. Isso aconteceu pouco tempo depois, mas não poderia ser um casamento nos moldes tradicionais. Eles eram diferentes, engajados politicamente, cultos e anticonvencionais. O convite de casamento longe dos padrões usuais era uma declaração de amor diante dos parentes e dos amigos. A cerimônia foi realizada numa igreja onde o pároco era progressista e se dispensou os aparatos usuais como o vestido de noiva e o tradicional terno e gravata. Todos reunidos no centro da igreja, o casal falou sobre o seu amor e houve oportunidade para os parentes e convidados falarem sobre o evento. Até eu me aventurei a falar e confesso que falei demais e cheguei a ser inconveniente. Eu com outros amigos havíamos tomado algumas cervejas antes e hoje dou conta de que deveríamos ter ido para casa e não para uma cerimônia de casamento.
             Casados e felizes desejando que fosse para sempre, o casal cuidou de ter filhos para perpetuar a espécie ou povoar a terra de acordo com um mandamento bíblico. Mas a Madalena engravidou várias vezes e não conseguiu levar a gestação até o final. Como eram esclarecidos, eles não se acabrunharam e buscaram a adoção como solução para o problema. Soube através de uma amiga próxima do casal que eles adotaram duas meninas.
         Nunca mais vi o casal, imaginando-os envelhecendo e felizes até que passadas quase duas décadas encontrei o Ernesto em uma livraria da cidade. Depois de uma rápida conversa perguntei pela mulher. Desconversou e entendi que estavam separados. Não era o momento oportuno para fazer perguntas sobre as causas do fracasso de um casamento que foi bastante inovador para os padrões da época. De qualquer forma foi um choque saber que aquele amor cantado em prosa e verso pelo Ernesto não se sustentou para a eternidade.
            Muitos anos depois voltei a encontrá-lo e pude então saber um pouco mais sobre os problemas que levaram ao fim um relacionamento que prometia ser bastante promissor. O Ernesto confessou, muito a vontade, que saíra do armário. Com uns trinta e poucos anos de idade e quase dez de casado, resolveu separar-se de Madalena, pois estava cansado de reprimir sua sexualidade e ser infeliz. Confidenciou-me que foi fazer terapia com um arrojado analista que o convenceu a liberar sua sexualidade.  Como ele sempre foi muito avançado em relação aos costumes, não teve duvidas e mandou às favas as convenções sociais e casou-se em grande estilo com um novo amor que também vivia aprisionado em um armário pouco confortável.
OS DEVANEIOS  DE JACOB

Jacob tinha pouco mais de um metro e meio. Teve paralisia infantil e ficou com uma perna mais curta do que a outra. Andava com dificuldade, mancando. O corpo adaptou-se ao defeito na perna e ele ficou com uma das nádegas mais alta do que a outra.  Ele andava com o pé esticado, quase na ponta, para compensar a diferença de tamanho entre as pernas. A natureza não lhe foi generosa. Tinha um nariz enorme e ainda usava dentadura com pouco mais de trinta anos.  Teve até um proposta de casamento, mas a moça era muito velha, segundo ele que preferia uma mais novinha. Ainda por cima era o moço exigente. Mas ele era uma pessoa boa e honesta e não se importava quando caçoavam dele. Sabia-se feio e era conformado com a vida. Morava com a mãe e uma irmã numa casa que comprara com o fruto de um bilhete premiado. Contava que foi uma grande alegria em sua vida. Além de comprar a casa, conseguiu ajudar as suas irmãs.
           Gostava de freqüentar prostíbulos e contava-me aos detalhes as suas aventuras quando sobrava alguns trocados no final do mês, coisa difícil, pois ganhava pouco e ainda custeava os estudos. O seu fetiche era tirar as calcinhas das garotas e dizia que fazia isso bem lentamente para curtir cada centímetro que ia desnudando. Apesar de tudo era um otimista e considerava a possibilidade de se casar um dia com uma garota jovem e virgem.
        Não é que o sonho do Jacob acabou se tornando realidade.  Viajando para Minas Gerais a convite de um amigo, conheceu Raquel, de 17 anos, a filha mais nova de uma ninhada de sete. A família da moça era paupérrima e viviam do pouco que dava um pequeno sítio com terras de pouca fertilidade. Digamos que beleza ela não tinha nenhuma, não era a Raquel, serrana bela, cantada por Camões, mas era jovem e a juventude acabou neutralizando os poucos dotes da serrana. Jacob não perdeu tempo e no outro final de semana viajou para Minas com a disposição de acertar o casamento. Inicialmente seu Labão  ofereceu a filha Lia, mais velha e ainda solteira, mas diante da insistência do pretendente, acabou cedendo. Nas condições em que vivia, socada no meio do mato, a possibilidade de morar na cidade foi um grande achado para Raquel. Uma sorte grande! foi o comentário das comadres da vizinhança, ainda mais com um moço estudado. 
            Sem mais delongas acertaram o casório para dentro de um mês. Enquanto isso Jacob pintou a casa e comprou os móveis para receber a donzela. Raquel chegou tímida na casa da sogra que a recebeu muito bem, pois era também uma pessoa simples, que veio do interior para morar na capital. Jacob estava radiante, pois tinha, enfim, realizado o seu sonho, casando-se com uma garota muito jovem e virgem, condição para ele sine qua non. Quando os colegas brincavam sobre como ele tirava as calcinhas da esposa, ele ficava sério e pedia respeito com a senhora sua esposa.
             Jacob era rápido no gatilho e sem demora  a menina ficou grávida, antes mesmo de completar dezoito anos, mas a fortuna não estava do lado do casal. Um tumor apareceu no crânio de Raquel no início da gravidez e foi se ampliando. Quando deu a luz a criança, o tumor já havia tomado praticamente toda a caixa craniana. Pensava-se que era um tumor cancerígeno, mas descobriu-se que era um tumor benigno na hipófise. O grande problema é que durante a gravidez em razão das mudanças hormonais o tumor cresce muito rápido. Ela perdeu, inicialmente a visão lateral e também os controles motores, ficando praticamente inválida. No final da vida já não se levantava da cama nem para as necessidades fisiológicas. Assim, aos dezoito anos completos, Raquel terminava sua história de vida, deixando uma filha para o marido criar.
            Passado o período de luto mais intenso, Jacob foi visitar a família do seu Labão, pai de Raquel e não é que ele se acertou com uma irmã dela. Era a mais velha, mas ainda moça e a sua feiura não era tão exagerada como chegou a pensar quando conheceu a Raquel. Três meses depois, alegando que precisava de alguém para cuidar da filha órfã, ele desposou a cunhada Lia sem festa e sem casamento religioso. 








UM BANQUINHO E UM VIOLÃO


Não há quem não conheceu o Zelão por estas plagas. Tocava violão divinamente e sua voz então era encantadora. Ele colocava sua alma nas canções. Quando tomava o instrumento, o silêncio vinha como a chamado para que todo o espaço fosse ocupado pela sua voz suave e afinada. As mulheres se derretiam diante de suas cantorias e ficavam prontas para qualquer aventura com o bardo para a uma pontinha de  inveja dos demais rapazes, que também o admiravam.
               Contava-se que outrora o Zelão teve uma grande decepção amorosa. Sua musa, motivada por razões de dinheiro, o abandonou para se casar com um comerciante endinheirado. A moça, após as núpcias que parecem tê-la decepcionado,  deu para telefonar e escrever ao Zelão e fazer-lhe longas e tenebrosas juras de amor. Ela havia abandonado o namorado para se casar com outro, mas não queria deixá-lo ao sabor de hienas ávidas por tão precioso despojo. Mesmo na segurança do seu lar ela mantinha o Zelão sob controle, dando-lhe esperanças de que abandonaria o conforto e a riqueza para viver com ele um amor verdadeiro, pois estava muito infeliz e se arrependera amargamente por tê-lo deixado.  Acabara por descobrir que o dinheiro não trazia felicidade, mas casar sem eira nem beira, ah! Isso não. Alegava que foi criada no conforto e que não se adaptaria a uma vida muito simples como a que seria oferecida pelo Zelão.
               Mas o Zelão aos poucos foi abandonando a vida boêmia, voltou a estudar, concluindo o curso de engenharia e conseguiu um bom emprego. O cara empregado e chegando em casa de paletó e gravata foi um choque para os seus amigos, pois ele sempre dizia que para ser feliz ele precisava apenas de um banquinho, um violão e uma “loura” do lado. A loura não era uma mulher, mas uma boa cerveja, pois em relação ao belo sexo ele preferia as morenas.
                Entre uma aventura e outra, recebia cartas apaixonadas da sua amada. Passado algum tempo, discretamente, Carina começou a visitá-lo, principalmente quando sabia que a mãe do Zelão não estava em casa. No início eram apenas visitas para conversar sobre os velhos e saudosos tempos, mas depois as visitas se transformaram em tórridos encontros de alcova. Carina foi perdendo o pudor e já abusava da sorte, torcendo até para que seu marido descobrisse tudo e lhe desse a liberdade. Tudo em vão. O marido, mesmo sabendo da traição, não queria ser abandonado pela esposa que ele havia tomado, a duras penas, do antigo namorado.
               No fundo Carina gostava mesmo do bardo, mas esse negócio de ficar cantando em bar não era com ela. Era coisa de gente pobre, sem cabedal, sem futuro. Até apreciava as músicas que o Zelão cantava, mas uma coisa mais íntima, sem bebedeiras e fumaça de cigarro. Além do mais sempre havia umas sirigaitas que ficavam se insinuando para ele como cadelas no cio. Como ele estava bem empregado, com uma vida estável ela começou vê-lo com outros olhos; sem boêmia, noites mal dormidas, amigos que gostavam de encher a cara, era o momento de rever a relação. É preciso constituir família, como gente séria. Chegar do trabalho, jantar com a esposa e filhos, passar o fim de semana na casa de praia.
               O casamento de Carina enfim terminou, como todas as relações que começam mal. Ela e o bardo deram um tempo e mesmo sem a separação definitiva, juntaram os lençóis, pois como ainda não havia divórcio no Brasil, não podiam oficializar o casamento.  Os amigos ficaram felizes por ele, mas tinham uma ligeira desconfiança com relação à Carina. As desconfianças se confirmaram. Depois da união, comemorada com uma festa patrocinada pelos amigos, o casal mudou-se para lugar desconhecido e nunca mais se soube do Zelão. Sua voz bela e afinada acompanhada do seu violão, que ele tocava com incrível maestria ficou apenas nas lembranças de todos que com ele conviveram na boemia.

               

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

LÚCIA JORGE ABDALLA


E difícil falar de uma pessoa com a qual não tivemos muita intimidade, apesar de tê-la conhecido bem e ter algumas dívidas de gratidão para com ela. Quem era Lúcia Jorge Abdalla, ou ainda é, se por acaso ainda estiver viva, coisa que não posso saber, pois há muito, muito tempo não tenho notícias dela.  Lúcia era uma mulher morena, bonita, elegante, charmosa, culta e conversa interessante.
               Conheci esta mulher com todos os predicados acima como aluno em um colégio de São Caetano do Sul. Havia uma demanda muito grande por vagas e o Estado improvisou um colégio noturno em uma escola de primeiro grau sob o comando dela. Não havia nada. As instalações eram precárias. A secretaria funcionava no corredor de um banheiro, mas a Lúcia, uma batalhadora, não se abateu diante da falta de recurso e dava tudo de si para que a escola funcionasse da melhor forma possível. Selecionou os melhores professores que encontrava e não ficava satisfeita com pouco. Pesquisava junto aos alunos para acompanhar o desempenho de cada mestre e não hesitava em trocá-los quando percebia falta de interesse ou procedimentos inadequados.
               Não havia cantina e por minha iniciativa junto com alguns colegas, improvisamos uma como o apoio e incentivo da Da. Lúcia. Trazíamos pães, frios e refrigerantes e durante o intervalo íamos às pressas para preparar os lanches e vendê-los para a garotada. O negócio até que ia bem, quando um dos “sócios”, abandonou a escola levando todo o dinheiro arrecado até então.
               Outra iniciativa que ela apoiou e incentivou foi o jornalzinho do colégio. Como eu já tinha alguma experiência nisso, cuidava da datilografia dos originais em stencil e uma funcionária da secretaria rodava os exemplares em um mimeógrafo,  que eram distribuídos para todos os alunos. O jornal mensário se chama o Praxe. O jornal tinha uma entrevista com um dos professores todos os meses, mas a Da. Lúcia se recusou a ser entrevistada, alegando que era muito tímida para se expor. E bom lembrar que estávamos em plena ditadura e ela pedia que tomássemos cuidados para evitar problemas políticos que poderiam comprometer seu projeto.
               Ela cuidava dos seus jovens estudantes como se fossem seus filhos que precisavam de sua proteção. Visitava alunos com problemas pessoais e econômicos, procurando sempre uma forma de ajudá-los, principalmente através de orientação psicológica (era psicóloga). Organizava passeios culturais como cinema de arte, teatro, palestras e atividades esportivas. Organizava gincanas culturais para incentivar os alunos a pesquisarem objetos referências da cultura brasileira. Era apaixonada pela música popular brasileira, principalmente os compositores do período da Bossa Nova, como Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Carlos Lira.
               Estive algumas vezes em sua casa, onde ela recebia os alunos sempre como muita gentileza e atenção. Seu apartamento na Rua Dr. Seng, era repleto de estampas de clássicos da pintura, sempre muito bem organizado e elegante como ela.
             Lúcia Jorge Abdalla, caso ainda esteja viva, deve andar lá pelos oitenta anos se meus cálculos estiverem corretos, mas sempre vou lembrar dela como uma mulher bonita, elegante e carismática. Pena que são poucos os dirigentes escolares como ela, para a má sorte dos nossos adolescentes que precisam de formação, apoio e orientação.

Renato Ladeia



sexta-feira, 21 de junho de 2013

Diálogo da profissão

Este antigo diálogo em versos de uma criança ao ser inquerida sobre a profissão que gostaria de seguir, era contado por minha mãe quando éramos crianças. Não conheço a origem dos versos, mas já li partes em um outro blog. Como coletei o que presumo ser completo, resolvi publicar para preservar a memória da nossa cultura popular.


Venha cá marotinho
Diga o que queres ser
Um valente soldadinho
Para a pátria defender?

Não titia não!
Soldado morre na guerra a lutar.
Então queres ser médico
Para a vida salvar?

Meu Deus que horror!
Febre amarela, bexiga
Tenho a vida muito amor

Então queres ser um palhaço
Que só faz saltar e rir?
Palhaço quebra o espinhaço
Para o circo não quero ir

Então queres ser um bandido
paspalhão?
Andarás pelo mundo
Sem ter uma profissão?

Não titia, isso não
Já sei o que quero ser
Dono de confeitaria
Quantos doces hei de comer!

Coletado por Itanina Ladeia Lobo (1926-2012), possivelmente em Minas Gerais onde nasceu.


sábado, 25 de maio de 2013

RELÍQUIAS DA CASA VELHA
Uma casa tem muita vez as suas relíquias, lembranças de um dia ou de outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu. (Machado de Assis, em Relíquias da Casa Velha).

Machado de Assis deu o nome de Relíquias da Casa Velha a um livro de contos, mas bom seria que tivesse escrito um belo conto com esse nome, pois as casas velhas guardam lembranças, segredos, tristezas, alegrias e às vezes tragédias.  De minha parte não tenho a pretensão de escrever um conto, ainda mais com esse título, mas vai aqui uma modesta crônica me apropriando do nome do livro do nosso maior escritor. A casa velha a que me refiro é onde passei minha infância e juventude num bairro de São Caetano do Sul. O inquilino saiu e foi preciso fazer a vistoria  do imóvel. A casa estava até bem cuidada  depois de alguns anos alugada. Alguns tacos soltos, um arranhão na pintura, mas nada muito grave que demandasse despesas para reparação.
                É difícil deixar de se envolver pelas emoções quando retornamos à casa velha, mesmo que não seja tão antiga. A casa deve ter mais de sessenta anos e foi construída quando a cidade ainda tinha alguns resquícios rurais. O bairro emergiu numa antiga fazenda dos primeiros imigrantes italianos que para aqueles lados vieram e na minha infância ainda se podia ver vacas pastando em terrenos baldios. Do quintal avistava-se uma velha olaria, construída no final do século XIX, que ainda permanece em minha memória como um velho quadro rupestre. Um pouco mais distante, no alto de um outeiro, havia  uma antiga sede de fazenda, com muitas portas e janelas, que muitos diziam ser mal assombrada. Nunca ninguém viu assombrações por lá, mas os mais velhos gostavam de apimentar tais histórias para as crianças perderem o sono. Hoje lá funciona a Faculdade Mauá de Engenharia.
                A minha casa velha continua lá, mantendo a mesma estrutura dos últimos cinqüenta e cinco anos, quando foi reformada e ampliada. As mãos do meu pai e seu suor estão ainda presentes em vários espaços, pois como o orçamento era curto, ele dedicava os fins de semana para fazer um reparo ou outro. Alguns defeitos de construção continuam e nunca foram corrigidos e ele sempre lamentava com seu olhar crítico, lembrando a inabilidade do pedreiro que passou por lá e deixou sua indelével marca. A realidade é que já não há vida na casa e as lembranças estão apenas em minha memória e dos meus irmãos, mas as paredes, portas e pisos, foram testemunhas inertes de um tempo que não tem retorno. Minha irmã mais velha lembrou que na sua infância a casa parecia enorme, uma imensidão. Parece que há uma proporção entre o nosso tamanho e o espaço em que vivemos ou pensamos o espaço de acordo com o nosso tamanho.
                Naquele grande vazio senti saudades dos móveis que ocupavam aqueles espaços, como os da sala de jantar em madeira canela. Era uma madeira escura, parecida com imbuia, estilo provençal, bastante em moda nos anos cinqüenta, com uma mesa que dobrava de tamanho e onde sempre cabia mais um. Fazia parte do conjunto um bar todo espelhado que nunca tinha bebidas, a não ser um champagne que ficou por lá vários anos até que eu tive a infeliz ideia de abrí-lo para experimentar um pouco e resultou num desastre total, com o espumante espalhado pelas paredes e um sermão inesquecível. Havia também uma bela cristaleira onde eram guardados um jogo de taças e copos que nunca se usava para evitar que se quebrassem.   Na parede do lado oposto a porta de entrada havia um grande quadro com uma cópia de pintura barroca de Cristo com o coração exposto, com uma larga moldura cheia de detalhes. Meu pai contrário a iconoclastia discutia com minha mãe sobre a inconveniência de se manter o quadro na sala, principalmente quando ele recebia a visita de algum amigo ou parente protestante. Muitos anos depois minha mãe, muito a contra gosto, resolveu transferir o quadro para o seu quarto, mesmo depois da morte do marido. Lá o quadro permaneceu até o momento em que sua mente começou a se desconectar da realidade e a casa precisou ser desativada. Nenhum dos filhos quis ficar com o quadro, que foi doado, juntamente com alguns móveis, para uma instituição de caridade. A pessoa que recebeu a doação olhou para o quadro com desdém, mas aceitou por causa da moldura e do vidro.
                Uma presença constante na sala, quando não estava no conserto, foi a nossa primeira televisão de marca Invictus, cuja fábrica não existe mais e que deve ter falido ou incorporada por outra maior.  Diante dela a família se reunia à noite para assistir os seriados dos anos sessenta, como Bonanza, Zorro, Roy Rogers, além dos jogos de futebol e as lutas livres, que meu pai era fã incondicional, fato que gerava alguns conflitos de preferências. Outro objeto que tinha um papel especial para todos nós era um velho relógio cuco, hoje com uma das minhas irmãs. Recordo-me que quando foi comprado ficamos pelo menos uma semana sem dormir direito, pois ele cantava de meia em meia hora. Com o tempo nos acostumamos com o “passarinho chato”, mas durante o dia era até divertido ouvi-lo “cantar”.
                Outro lugar especial era o quarto dos meus pais, local em que só entrávamos quando minha mãe fazia as suas sessões de contadora de histórias. Para isso era preciso que meu pai estivesse de bom humor e aceitasse dividir a cama com os cinco filhos que se acotovelavam para ouvir os velhos contos da carochinha e outras histórias. Minha irmã mais velha, que já conhecia todas, ia pedindo mais e mais até o momento em que meu pai colocava um ponto final nos serões. Pedíamos a bênção e íamos para os nossos quartos sonhar com as emocionantes aventuras de João e Maria e do nosso tio boiadeiro pelos sertões do Mato Grosso.  No quarto existiu durante muito tempo, um velho e enorme baú onde eram guardados estranhos segredos, pois estava sempre trancado e a chave era escondida por minha mãe em um local inexpugnável.
                Pais mortos, inventário feito, talvez tenha chegado a hora de vender o imóvel, que poderá ser demolido para a construção de um prédio de apartamentos. Estamos preparados para isso? Talvez ainda não. Minha irmã chorou ao entrar na casa e nem quis ouvir a corretora falar em vender o imóvel. Estamos todos presos ao passado e não temos coragem de romper o cordão umbilical. Talvez seja melhor deixar o problema para os nossos filhos, que despojados de lembranças tomem a decisão final sem muitas emoções.
                Fechamos a porta e saímos carregados de antigas recordações que a cada dia vão ficando mais leves em nossas memórias. Ainda paramos no pequeno canteiro que nossa mãe cultivava e onde um velho pé de babosa ainda reina majestoso. Ela, sempre prestativa, não se incomodava em cortar umas folhas para os vizinhos que vinham pedir para algum remédio caseiro, mas ficava uma fera se alguém pegasse sem sua autorização. A roseira também continua insistindo em sobreviver depois da partida de sua antiga dona e quem sabe ainda dê rosas na próxima primavera. É bom que ela se apresse antes que algum construtor resolva botar abaixo aquelas velhas paredes que guardaram as nossas histórias e segredos, alguns esquecidos, outros ainda vivos e sabe-se lá por mais quanto tempo.

Maio de 2013.





quinta-feira, 25 de abril de 2013


ANDRADINA


Andradina parece um nome de mulher, mas é apenas uma cidade com nome feminino. A origem  vem de Andrade, um rico fazendeiro que se apossou daquelas terras para criar gado.  Como quase toda a região Noroeste Paulista, as cidades são planas, quase sem elevações. É um horizonte sem fim e o sol nem tem como se esconder no final das longas tardes de verão. Andradina, nome que eu ouvia desde menino quando as pessoas da família que moravam em Lavínia a ela se referiam. Uma grande cidade, a morada do rei do gado, um mitológico boiadeiro que virou uma canção da dupla Tonico e Tinoco que meu pai gostava de ouvir pelo rádio no final do dia. “Quem quiser saber meu nome/ que não se faça de arrogado/é só chegar lá em Andradina/ e perguntar pelo rei do gado”. Imaginava que para entrar em Andradina era preciso pedir licença para o rei que ficava sentado em um trono com chapéu, bombacha e botas gauchas, como se vestia meu tio José que também foi boiadeiro. Andradina era também a terra do Auro Moura Andrade, filho do fundador da cidade e senador por São Paulo que ajudou os militares a darem o golpe de misericórdia no presidente João Goulart ao declarar vaga a presidência da república.
                Fui uma única vez a terra do rei do gado e foi para visitar uns parentes que talvez ainda morem por lá. Isso já faz quase trinta anos. Tinha ido à Lavínia visitar uns parentes e estava com meus pais, minha prima Vicenza, que morava em Lavínia, minha mulher e a Mariane, quase um bebê. Meus pais e a Vicenza já partiram e deles ficaram boas lembranças.  Minha mulher mal se lembra da viagem e a Mariane era muito criança para se recordar. Chegamos no meio da tarde e a idéia era voltar no mesmo dia para Lavínia, uns 70 km de distância, mas acabamos ficando por lá e só retornamos no dia seguinte.
                Naquela noite, depois do jantar, duas das primas Zamboni convidaram a mim e a Célia para dar uma volta na cidade, tomar um chope e jogar conversa fora. Num bar, um amigo das primas sentou-se com a gente e lá ficamos até altas horas. Já alegre, depois de alguns chopes, declamei Fernando Pessoa com sotaque lusitano para criar mais clima e o amigo das primas declamou, aliás, muito bem, um poema do Augusto dos Anjos. Quem era aquele rapaz que nem me lembro o nome? Uma pessoa simpática e sensível que ainda fez questão de pagar a conta. Quanta gentileza! Como foi saudosa aquela noite andradinense! Na volta a bateria do carro, um bonito Passat que só me deu problemas, pifou e retornamos a pé cantando pelas ruas por onde, cinqüenta anos atrás era um acampamento que deu origem a cidade. A lua de Andradina parecia bem maior na minha memória. Ela crescia e se afastava na medida em que caminhávamos. O céu era muito limpo e dava para ver o azul escuro que guardava as estrelas. Para que tanta estrela meu Deus? São os olhos do universo expiando a gente, como dizia minha mãe. Meus olhos foram pensando enquanto caminhávamos.  
                No dia seguinte, depois de uma visita a fazenda, voltamos para onde estávamos hospedados, a Fazenda São Vicente, em Lavínia, onde morava a Vicenza. A Vicenza estava sempre doente, mas ela era alegre e gentil. Tratava-nos como reis. Pão feito em casa, doces e mais doces, galinha de Angola e outros quitutes. Quando ela morreu não pude ir ao enterro e só mandei uma coroa de flores que a dona da floricultura me garantiu que era muito bonita. Bem que ela merecia e muito mais. Eu era o seu afilhado mais velho e por isso tínhamos uma ligação muito forte. Fiquei uns três meses com ela na fazenda quando tinha apenas uns quatro anos. Nunca consegui esquecer essa época. Aqueles poucos meses parece-me, hoje, que duraram anos. A invernada, os bois, uma vaca brava, o riacho cheio de taboas, o pau d’alho perto da porteira, o cavalo branco chamado mussulini. Quantas lembranças.
               Voltamos para casa e por alguns anos enviamos cartões de Natal para os Zamboni em Andradina. Com o tempo fomos nos esquecendo de enviá-los e eles também. Minhas primas (eram quatro) não sei o que fizeram da vida. Só me lembro de que uma delas assumia o papel de um filho que o casal não teve e ajudava o pai a cuidar da fazenda.
                A Andradina do rei do Gado, do senador que ajudou o golpe militar, ficou para trás na poeira da estrada. As belas e simpáticas primas devem estar casadas com filhos e talvez até netos, como nós e talvez nem se lembrem da nossa visita. A região Noroeste foi ficando para trás. Araçatuba, onde minha mãe morava com meus avós; Valparaiso onde meus pais se casaram e meu avô foi sepultado numa vala comum, pois com Alzheimer se perdeu e morreu sem saber quem era e onde estava.  Cafelândia, onde meu pai trabalhou durante algum tempo. Olho no mapa e vejo coisas distantes, que parecem estar sumindo nos labirintos de minha memória. 

segunda-feira, 15 de abril de 2013


'OS INTALIANOS"



É assim até em nossos dias que os caboclos chamam os italianos no interior paulista. As modas caipiras de antanho grafam exatamente assim: “Os intalianos”, fazendo referências a um povo trabalhador, valente e defensor de suas famílias e propriedades. As belas italianas, como também as não tão belas, não tinham colher de chá e iam para a roça trabalhar na enxada de sol a sol. Com roupas longas e chapéus tipo sombreiro, era difícil ver as faces coradas quase sempre cobertas de poeira. Relatam sociólogos e historiadores, que em São Paulo foram incontáveis as moças italianas que fugiram de casa com homens negros, que ao contrário dos italianos, não permitiam que as suas mulheres fossem enfrentar os cabos de enxada.  As más línguas dizem que o motivo principal foi outro, mas são apenas suposições, pois nunca perguntaram para aquelas moças os motivos pelos quais fugiram de casa. Eu mesmo conheci uma senhora italiana casada com um senhor negro, que moravam na fazenda de um tio. De fato, dona Gisella nunca ia à roça e dedicava-se a cuidar da horta, das galinhas e da casa. 
Os italianos que por essas plagas chegaram, eram principalmente do sul da península, região mais atrasada do que o norte. Em geral eram analfabetos e conservavam as tradições, como privilegiar sempre os filhos, que tinham mais liberdade e eram herdeiros dos bens paternos. As mulheres eram proibidas de cortar os cabelos, se pintarem ou usarem qualquer adereço que ressaltassem a feminilidade. Por lá contava-se a história de uma moça, cujo pai era um fazendeiro abastado, que se casou com um dos filhos de um italiano na região noroeste de São Paulo. Até o casamento foi tudo bem. Depois a história foi outra. A moça foi criada longe do fogão, com boas roupas, cabelos curtos, sombras nos olhos e tudo o que tinham direito as garotas da cidade, mesmo morando na fazenda. No primeiro dia após o casamento, acabou a festa e a dondoca tornou-se uma autêntica doméstica, proibida de sair de casa, de cortar ou arrumar os cabelos, tirar sobrancelhas e outras vaidades femininas. Como era uma moça de personalidade forte, não quis se submeter ao marido de forma incondicional. Resultado: entraram em cena os personagens do Nelson Rodrigues e a violência patriarcal.   Levou tempo para que a moça conseguisse avisar a sua família sobre a situação em que passou a viver depois do casamento.
O pai da senhora Bellantonio, homem austero e conservador, cioso dos seus poderes que a tradição lhe legou, não aceitou que um carcamano qualquer espancasse sua filha, criada com todo o conforto e mesuras. Diante das notícias que chegaram não teve dúvidas. Chamou alguns empregados, passou a mão numa velha winchester e, de caminhão para trazer a mudança, foi buscar a filha. O moço quando viu o sogro na porta de sua casa com todo o aparato, amarelou. Jurou por São Genaro que nunca batera na esposa, prometendo que a partir desse dia iria tratá-la como uma rainha.  Não contente com as promessas do genro, o velho mandou chamar o sogro da filha e com a winchester segurando o queixo do italiano assegurou-se de que as juras seriam cumpridas.
Semanalmente a jovem senhora passou a receber visitas do pai, da mãe, das irmãs, irmãos e tios, que obtinham informações sobre como ela estava sendo tratada. O “intaliano” deu-se por vencido e deixou as coisas tomarem seu curso. Nunca mais maltratou a esposa e aos poucos se tornou um marido mais liberal. 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013


QUAL É A MÚSICA DO CHICO QUE VOCÊ MAIS GOSTA?

Um velho amigo fã incondicional do Chico Buarque fez uma enquete com várias pessoas do seu relacionamento para saber qual era a música preferida composta pelo grande compositor.   Parecia fácil, mas qual o quê; todos vacilaram na escolha, pois seria mais simples escolher algumas das melhores. Não podia. Tinha que ser apenas uma, era um tiro só e não podia errar nem se arrepender. Diante da pergunta fiz um retrospecto geral na obra do compositor e optei por uma bela canção que ele fez com o Edu Lobo, Beatriz.
Por que escolhi a Beatriz, uma das muitas canções que o Chico dedicou a um nome de mulher?  Depois de Carolina, Januária, Cristina, Joana Francesa e por aí vai, Beatriz, composta para o espetáculo Circo Místico, para mim foi a mais bela letra ou um dos mais belos poemas da música popular brasileira. Há quem diga que ele escreveu para a sua ex, a Marieta Severo. Bom seria se não fosse, para tão grande amor, tão curta a vida.
Escolher uma única música preferida é uma opção difícil, ainda mais de um compositor de uma extensa obra, construída durante mais de cinquenta anos. Mas existem algumas músicas que são marcantes em nossas vidas, como aquelas que dançamos como a primeira namorada ou com a cara metade com a qual nos comprometemos a passar o resto dos nossos dias, mesmo que isso não tenha sido possível. Músicas que ouvimos junto com os velhos companheiros de juventude, em épocas difíceis, quando precisávamos tomar decisões importantes em nossas vidas. Algumas músicas ligadas a filmes que nos emocionaram profundamente e ficaram em nossas memórias e nos tocam sempre que ouvimos. Particularmente, lembro-me com saudades da música “Sempre aos domingos”, numa versão de uma canção francesa que tocava no grupo escolar do bairro lembrando a criançada que estava na hora de ir para a escola. Essa música me emociona, transportando-me para a infância em um bairro de subúrbio.
Alguns amigos escolheram canções de protesto, como Apesar de Você, mesmo que o Chico nunca tenha escrito letras de contestação declarada. Ele sempre preferiu ser mais sutil em suas críticas ou como ele mesmo disse: “Ser objetivo subjetivamente”. Essa canção foi marcante na época, pois conseguia criticar o regime militar de forma indireta, lembrando que o poder é efêmero, que as coisas mudam e sempre depois da noite surge um novo dia de esperanças de liberdade. Muitas pessoas cantavam o samba sem entender o seu sentido implícito, acreditando que era o desabafo de alguém desprezado pela mulher amada, mas que também podia ser isso, pois a canção tem duplo sentido.
Outras dezenas de belas canções do Chico foram lembradas no momento da escolha, como aquelas compostas para a peça "Calabar, elogio a traição". Com relação a essas, para mim ficou sempre a dúvida se o Chico participou das letras, pois foram feitas em parcerias com o poeta e dramaturgo lusitano Ruy Guerra, que ficou esquecido em razão da idolatria ao nosso grande compositor. Pode ser que o Chico deu uns palpites para ajustar as frases das letras às frases musicais, mas para mim a maioria das letras tem a cara do Ruy.
Enfim, todos escolhemos as nossas canções preferidas ou mais preferidas ou aquelas que foram lembradas no momento da pergunta. E não valia mudar de música depois. Escolheu e acabou. Mas ficou a intrigante pergunta que todos fizeram a ele: “Por que?” Ele não respondeu e apenas dizia: “Escolha a preferida e pronto”. Tempos depois, recebi um telefonema e ouvi a canção Beatriz. Depois da música, a voz amiga desejando um feliz aniversário, cuja data eu nem estava lembrando. Ah como foi bom lembrar-se da data natalícia com uma bela canção do Chico! Evoé meu amigo.




sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013


CARLINHOS KALUNGA, UM MÚSICO "TUDO DE BOM"


Kalunga é a designação dada aos descendentes de escravos que se refugiaram em quilombolas nos grotões do Estado de Goiás. Lá eles formaram comunidades autossuficientes, isoladas da civilização, se é que podemos chamar as cidades brasileiras de lugares civilizados. É também importante lembrar que Kalunga, em bom dialeto banto, significa “Tudo de bom”.  É aí que se encaixa o querido Carlinhos Kalunga, violonista, arranjador, produtor musical e compositor.
Quem lhe deu o apelido não se sabe. Falei com seus amigos de juventude e ninguém tinha informação sobre a origem. Mas de qualquer forma o sentido banto lhe cai bem, pois o Carlinhos Kalunga é aquele sujeito sempre sorridente, de uma simpatia acolhedora.
Carlinhos, músico de profissão e de paixão, começou cedo a lidar com o pinho, pois o pai, seu João Gonçalves, tinha muita afinidade com o velho violão que tinha em casa, num bairro da periferia de Santo André, no ABC paulista. No colo do pai ele, ainda de fraldas, gostava de mexer no violão e ficava encantado ao ouvir a ressonância das cordas, rindo de modo a ouvir-se de longe, como gostava de contar sua mãe, Dona Adelina.
O garoto foi crescendo e, aos poucos, juntando-se à turminha de adolescentes do bairro, como ele, apaixonados por música. Nesta época, anos sessenta, formou o grupo Equipe 4, juntamente com Sérgio Papagaio (guitarrista líder), Isaac (baixo), Simone (bateria, Luis Santana (teclado). Tinha também o Zhorba que era o faz tudo e ajudava também na percussão. O grupo tocava rock nos bailes na região.
Foi assim que conheceu o músico Oscar de Vitto, os letristas Dedo Thenório e Sinésio Dozzi Tezza entre tantos outros. Eram os tempos da beatlemania e canções como Hey Jude, Penny Lane entre outras foram sendo descobertas e aprendidas de forma autodidata, provavelmente no velho violão do pai, que por sua vez preferia as canções do Chico Alves, Lupicínio, Herivelto Martins entre outros da velha guarda. Com a turminha ele começou a criar as primeiras canções autorais que talvez nunca venham a ser conhecidas do grande público.  Num site do Dedo Thenório, um abnegado colecionador de canções dos amigos, é possível conhecer algumas das primeiras canções do Kalunga com seus velhos parceiros.
Tive o feliz privilégio de estar presente durante nascimento de uma dessas composições, já na fase mais madura do compositor, como Urutau e Sem fim, que ele fez em parceria com o Sinésio Dozzi Tezza, belas canções que infelizmente a nossa indústria cultural manterá no velho baú de preciosidades secretas.
Carlinhos, como muitos outros músicos de sua geração, acabou se apaixonando pela MPB e tocou com vários artistas, viajando muito pela Europa, EUA, Canadá etc.  Em Paris, aproveitando-se de uma das turnês  que fazia acompanhando artistas consagrados foi colocada em prática uma ideia, já concebida anteriormente, para formação de um grupo de musica instrumental denominado “Jazz da Garoa”, onde participavam  o próprio Carlinhos, Bira, Djalma e outros. No período em que morou no Rio de Janeiro, foi um dos músicos mais solicitados por grandes nomes da MPB para atuar como arranjador e instrumentista. Outro grande amigo  do Carlinhos foi o Formiga, considerado um dos maiores percursionistas do Brasil, que tocava com o Johnny Mathis, sempre que o cantor vinha ao Brasil.
Carlinhos Gonçalves “Kalunga” precisava ganhar a vida, ou melhor, dizendo, ganhar da vida para sobreviver como músico, sua grande vocação. Entre um trabalho e outro, ele conheceu o cantor e compositor Wando e tornou-se o seu instrumentista e arranjador durante a maior parte da carreira do artista até sua partida de forma repentina.  Wando foi um artista controvertido, existindo aqueles que o adoravam e os que o criticavam, mas gostando ou não do Wando, há que se reconhecer que foi um artista talentoso que teve uma presença marcante na história musical brasileira. Nos bastidores Wando sempre contava com outro artista de talento e grande sensibilidade, seu parceiro e amigo Carlinhos Kalunga, que cuidava com profissionalismo impecável dos arranjos das canções, gravações e direção musical dos shows.
Muitas histórias foram contadas sobre o Carlinhos e algumas envolvendo os amigos mais chegados, ainda alegram a velha turma do ABC, como o inesquecível encontro do seu amigo e parceiro Oscar de Vitto com o Wando, nos bastidores do teatro municipal de Santo André, durante um show do cantor; a apresentação da artista Isaurinha Garcia no velho Café Luá, em São Caetano do Sul, nos distantes anos 80, quando ele, a acompanhando ao violão, sentiu a cantora desabando sobre seu corpo franzino depois de um homérico porre. Há também o inesquecível encontro no Rio, promovido pelo Carlinhos, do Wando com o poeta e compositor Dedo Thenório, para comemorarem uma recente parceria. Esse encontro teve muitos detalhes pitorescos que merece outra crônica.
Seria impossível deixar de lembrar-se de um fim de semana prolongado em Butiá, terra dos Dozzi Tezza onde passamos em companhia do Carlinhos, Márcia, Sinésio, Ana Amélia, Zhorba e Celinha, momentos inesquecíveis, harmonizados com muita cerveja e embriagados de canções, sempre acompanhadas pelo seu impecável violão.
 Carlinhos Kalunga passou também seus maus momentos, mas que ele superou, não perdendo a alegria de viver. Márcia, sua inseparável companheira de todos os momentos, deu-lhe as forças necessárias para ele continuar a sua jornada para a alegria de todos.
E aí está um modesto retrato 3x4 de uma figura 30 x 40 que contempla, nos seus momentos de folga, nas mornas tardes do hemisfério sul, as águas do Atlântico baterem preguiçosamente nas praias de Ubatuba. E Kalunga ou “Tudo de bom”, observa a paisagem com seus olhos de artista, caminhando descalço pela praia com o violão a tiracolo, deve pensar com seus botões: Tenho amigos, a música e meu violão e nada me faltará.
  






terça-feira, 15 de janeiro de 2013


CIA. FÁBIO BASTOS, APENAS UM RETRATO DE PAREDE, MAS DEIXOU SAUDADES


Rubens Novaes e Beth

Dentro das condições da época a empresa era um local bom para se trabalhar. Nos anos 60 chegou a distribuir ações da empresa para os funcionários como bônus de final de ano, uma inovação em termos de gestão de pessoas.  O principal negócio da empresa era a importação de implementos agrícolas, tratores e demais produtos para a pecuária leiteira. Fabricava também alguns produtos complementares para o setor. Era uma grande importadora de tratores, mas quando a Valmet e a Ford começaram a fabricá-los  no Brasil, a Fábio Bastos perdeu um grande filão de mercado. Posteriormente, a Alfa-Laval, empresa sueca do setor de máquinas para a indústria de laticínios também se instalou no Brasil, fato que agravou a crise da empresa.  Fundada no Rio de Janeiro nos anos 40 do século passado pelos irmãos Garcia Bastos, a empresa se espalhou pelo Brasil e tinha filiais nas principais capitais, além de escritórios de vendas espalhados por várias cidades de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. 
A empresa tinha lá os seus encantos e alguns mitos dos fundadores faziam parte do imaginário dos antigos funcionários. Os mais velhos falavam dos tempos da fundação da filial São Paulo, na Rua Florêncio de Abreu sob o comando do Francisco Garcia Bastos, irmão do Fábio Bastos.  Diziam que ele ia, pelo menos duas vezes por semana, de bicicleta até o armazém da empresa na Avenida Presidente Wilson, no Ipiranga. Na minha época, já nos anos 60, ele vinha de  Aero-Willys com motorista.
Havia figuras lendárias na empresa, como o Altair Garcia Nogueira, diretor comercial e primo do Francisco. Era arrogante e extremamente sovina. Dá para acreditar que ele mandou reformar um liquidificador na empresa para dá-lo de presente de casamento para a filha? Pois é, naquela época estas coisas ainda aconteciam. O aparelho ficou em exposição por alguns dias, como obra da competência dos operários da firma. Mas a conta pelo serviço foi enviada para ele, mesmo sendo diretor.  Pelo menos uma vez por semana ele ia para a unidade do Ipiranga, onde eu trabalhava. Ficava horas ao telefone fazendo pesquisa sobre preços de peças de reposição para seu Aero-Willys. Contava-se na empresa que ao chegar em casa, um empregado lavava os pneus do carro antes de guardá-lo na garagem.  Mas Nogueira era um sujeito culto e sofisticado que sempre viajava para Paris e visitava o Louvre e por isso, gostava de ficar ouvindo suas conversas com o nosso chefe sobre suas aventuras na cidade Luz.
Um dia apareceu um jovem de vinte e poucos anos para fazer um estágio na fábrica e oficina. Era o Paulo de Mendonça Bastos, filho do Francisco, Vice-Presidente da empresa. Com carta branca do big boss, o Oscar de Freitas, nosso gerente deu-lhe um macacão e ordens para colocar as mãos na graxa. O Paulo era um típico filhinho de papai, como se dizia na época. Vinha com seu próprio carro, um DKW Vemag  todo incrementado que não saia da oficina. Ficou alguns meses aprendendo como era difícil ganhar a vida, pois o pai não queria que seus filhos fossem playboys desocupados. O Francisco tinha outro filho, Francisco G. Bastos Filho, jovem de temperamento mais difícil. Contava o Gentil, motorista do pai, que ele havia fugido para morar com uma mulher bem mais velha e de vida suspeita. O pai não teve dúvidas e foi buscá-lo, acabando o romance. Soube pelos jornais, poucos anos depois, que ele morrera em São Francisco, EUA, possivelmente de um ataque cardíaco, pois era muito jovem.
Para mim, apesar de ser uma empresa um tanto antiquada,  foi uma experiência importante em minha vida pessoal e profissional. Lá trabalhei com o Rubens Novaes, o contador da empresa. O Rubens era uma pessoa culta e de grande caráter. Com ele aprendi a ler os clássicos da literatura que me emprestava e conferia se eu realmente havia lido. Passaram pelas minhas  mãos, exemplares de Hugo, Flaubert, Zola, Joyce, Dostoievski, Thomas Mann, Fitzgerald, Cervantes entre outros. Quando não havia muito trabalho e o gerente não estava, passávamos horas conversando sobre literatura, política, religião e vida pessoal. Contava causos do seu tempo de criança na velha Vila Carrão com os seus imigrantes portugueses, italianos e espanhóis. Ri muito quando ele contou a história do motorneiro do bonde cuja mulher o traia quando saia para o trabalho. Num dia, ao saber por um passageiro a traição da mulher, largou o bonde no meio da avenida e foi fazer o flagrante. A rua toda parou para ver, ouvir e dar passagem, como diria o Chico sobre a chegada da banda.  Contava-se sobre como conheceu sua esposa, a Elizabeth, por quem se apaixonou a primeira vista pelos seus cabelos louros e olhos azuis.
Tratava-me como um filho que precisava ser lapidado para não cair em maus caminhos. Aos quatorze anos, como quase todos os garotos da época, comecei a pitar um cigarrinho escondido dos meus pais. Graças a ele, com sua retórica antitabagista, abandonei, praticamente antes de começar, o vício.
Com apenas quinze anos, ficava deslumbrado com as discussões durante o horário de almoço. Havia um operário chamado Paulo Ribeiro, que era comunista de carteirinha, mas acabou sendo promovido a encarregado e mudou o seu discurso. Como diria Drummond: “Há uma hora em que os bares se fecham e as virtudes se negam". Normalmente o Rubens não me deixava ficar com os operários, pois não considerava um bom ambiente para um jovem escriturário. Com o pretexto de dar uma volta para fazer a digestão e tomar um pouco de sol, levava-me quase todos os dias  para um passeio após o almoço. Visitávamos sempre o Museu do Ipiranga, apesar do curto tempo de que dispúnhamos. Mas ao longo de três anos em que lá trabalhei, deu para conhecer vários detalhes do museu.
Quando completei dezoito anos, fui dispensado da empresa, como era comum na época por causa do serviço militar. Foi com lágrimas nos olhos que me despedi dos amigos que lá deixei, principalmente, o Rubens Novaes, a quem devo muito do que sou hoje. Tempos depois soube, pelo próprio Rubens, que a empresa estava em séria crise, com muitas pessoas sendo dispensadas.  A empresa entrou em concordata, fechando as suas portas e com elas toda uma história empreendedora. Foi triste saber que antigos funcionários, que começaram as suas carreiras desde jovens na empresa, como Seu Sete, Georges, Roberto Amaro, Ismael Brait, Euclides entre outros, ficaram, de repente, sem emprego e sem a velha identidade.
Lembro-me de muitas outras coisas sobre a a Fábio Bastos, mas tenho saudades, além das pessoas que lá conheci, de uma máquina de escrever Underwood, portátil, onde eu escrevia, além das cartas, memorandos etc, meus trabalhos escolares e também alguns versos ingênuos.